Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência manifestada desde 2003.

15.12.16

Climas em representação

No começo da representação de Climas, não percebi ao que tinha ido (Teatro S. João, Porto). Parecia-me desconexo, cheio de contorcionismos e sem texto. À medida que o tempo foi passando comecei a degustar (não sei se o termo é correto aqui) e a encontrar coerência, deixando de pensar ser uma modernice - mais própria para uma sala experimental como tem sido o teatro de Carlos Alberto (Porto). A ausência de códigos específicos ou explícitos pode tornar uma experiência de palco agradável ou o inverso, perigo que corri. Por isso, a leitura dos textos do programa (catálogo) foram úteis para a compreensão do visto e ouvido no palco.

Primeiro, o espaço central dado à improvisação. André Braga e Cláudia Figueiredo levaram os materiais de partida e deixaram que o grupo constituído por Costanza Givone, Daniela Cruz, Gil Mac, Margarida Gonçalves, Paulo Mota, Ricardo Machado cocriassem e interpretassem dentro de uma estrutura de quatro capítulos: pântano irrespirável, febre seca, coração da terra e buraco negro. Os seis intérpretes (três mulheres e três homens) dançaram, cantaram, foram quase bailarinos, transfiguraram-se através dos gestos, do vestuário e das cores que pintaram nos corpos. Depois, às vezes, coreografias, outras vezes, jogos quase fabulosos de luz (Francisco Tavares Teles e João Abreu), deixando antever manchas e movimentos, quase a hipnotizar o espectador, muitas vezes com o apoio da música (sonoplastia de André Pires), marca definidora de ocupação de espaço, e do vídeo (Gonçalo Mota), num jogo de outro espaço de representação. Um elemento a acrescentar: o microfone desempenha um papel inovador, na minha perspetiva: ele não serve apenas para ampliar sons mas adquire um estatuto de confessionário, que os intérpretes procuram para mostrar estados de alma, e de papel próprio, emitindo sons apenas seus (no carrinho de jardineiro, por exemplo). Além de tudo, o uso da terra no palco extravasou para a sala toda. No ar, ficou um cheiro a terra de castanheiro e outras árvores, numa aproximação à realidade fora do palco e da plateia fechados e climatizados. Os corpos dos intérpretes rolam no chão, correm, abraçam-se e repudiam-se, na espécie de normalização na relação humano-natureza, mas com leituras simbólicas da separação dos dois.

A produção deve muito à Circolando (mais a Culturgest e o CMA/Teatro Aveirense), que podia ter sido apenas um grupo de circo, como nos momentos iniciais da representação eu julguei, mas é uma peça de maturidade do grupo. De texto que recolhi sobre Climas, li "a Circolando ficcionou um território humano projetado num horizonte de mar, rio e céu". A peça levou a companhia a um palco convencional, fechado e climatizado, a cumprir o desígnio de Goethe (Diário das Nuvens) de "reintegrar o céu na paisagem humana". Li ainda que a peça "desafia o potencial performativo destes diálogos felizes entre poesia e climatologia".

A palavra, elemento primordial do teatro, fica aqui em plano muito secundário. O dizer é menos importante que o fazer ou agir. Não sei se é mau, mas fico com mais material para refletir. A performatividade, palavra já usada acima, torna-se multimedia, em que o teatro está para além das relações sociais das personagens. Aliás, em Climas, as personagens não existem mas apenas relatos de ações em dias identificados pela voz dos atores.

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