Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência manifestada desde 2003.

18.3.17

Wim Wenders

Vistos em retrospetiva, os filme de Wim Wenders são mais do que road movies, são sobre a identidade e a sua busca. Em Paris Texas (1984), Travis Henderson (Harry Dean Stanton) vai quase inconscientemente à procura do sítio onde os pais se conheceram e o conceberam, tendo ele próprio comprado um terreno, de que possui uma vaga fotografia. Mas essa é parte da história, porque, na realidade, o que lhe vai acontecer é levar o filho Hunter (Hunter Carson), que reencontra, à mãe Jane (Nastassja Kinski). Um e outro tinham abandonado a criança ao irmão e cunhado dele, que o tinham adotado como filho. O filme mostra a procura da identidade em diversas personagens: pai, mãe e filho.

Mas Alice nas Cidades (1974), realizado uma década antes de Paris Texas, revela melhor essa ideia de busca de identidade. E também apresenta a ideia de lugares sempre iguais, como autoestradas e motéis, aquilo a que Marc Augé chamaria de não lugares, pois eles são semelhantes em qualquer parte do mundo. Neste filme, a história é mais dramática, a que se associa um grande experimentalismo do realizador e dos seus colaboradores mais próximos.

Philip Winter (Rüdger Vogler), jornalista em crise de identidade, "recebe" Alice em Nova Iorque das mãos da mãe, que a abandona temporariamente para voltar ao seu homem. Winter não conhecia a mãe nem Alice (Yella Rottländer), de nove anos, e fica encarregado de a levar até Amsterdão, onde a mãe Lisa (Lisa Kreuzer, então mulher de Wenders) a procuraria no dia seguinte ou nos dias seguintes. Mas ela não aparece e o jornalista procura uma avó da menina no Rhur (geografia natal do realizador), entrega-a à polícia e nos leva para uma sociedade cultural e arquitetónica em lenta decomposição, a dar lugar a uma nova geração.

Os filmes de Wenders revelam ainda a sua paixão pela música: a jukebox onde se ouve os Canned Heat e um rapazinho a trautear a música (On the Road Again, 1970) - "Well, I'm so tired of crying / But I'm out on the road again / I'm on the road again / Well, I'm so tired of crying / But I'm out on the road again / I'm on the road again / I ain't got no woman / Just to call my special friend" - e o concerto de Chuck Berry, hoje falecido com 90 anos. Do mesmo modo que, em Asas do Desejo (1987), Nick Cave e Bad Seeds apareciam. Ainda a realçar a música de Ry Cooder em Paris Texas.

Numa crítica ao filme Alice nas Cidades, há uma outra indicação - a das fotografias polaroid como provas de contacto. No filme, diz-se que as fotografias são uma prova da existência do jornalista-fotógrafo, para justificar a passagem dele por certos sítios. E, como as fotografias com grão (Robby Müller), o filme também tem o sinal do tempo. A passagem da película para o digital, com mudança de formatos (filmado em 16 mm mas desejado por Wim Wenders em 35 mm), ilustra a qualidade (ou perda de) da imagem como víamos na televisão a preto e branco.

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