terça-feira, 7 de dezembro de 2004

Comunidades imaginadas - I

anderson.JPGO livro de Benedict Anderson, Imagined communities, foi publicado inicialmente em 1983. Apresenta um subtítulo extenso: Reflections on the origin and spread of nationalism.

Anderson (1936- ), nascido na China, educado nos Estados Unidos e em Inglaterra, fez investigação na Indonésia na altura em que se deu o golpe de Estado em 1965 - e pelo seu trabalho conhecido como conhecedor da realidade indonésia - explora os processos que criam as comunidades imaginadas das nacionalidades e dos nacionalismos: territorialização das fés religiosas, declínio dos antigos reinados, interacção entre capitalismo e imprensa, desenvolvimento de línguas vernáculas como suporte dos Estados (da contracapa do livro).

O percurso e as aplicações feitas a partir do livro são variadas e interessantes. Mas aqui importa aproveitar algumas das ideias que se podem aplicar aos media e aos seus grupos: audiências, públicos, consumidores. Claro que tais conceitos em si não surgem no livro, mas a fortuna deste leva-me a apropriar e extrapolar, num sempre alegre e benéfico usufruto das leituras.

Comunidades imaginadas e indústrias culturais

Anderson inicia o seu texto por uma definição de nação. Dentro do espírito antropológico, ele propõe uma definição de nação como comunidade política imaginada - e imaginada enquanto inerentemente limitada e soberana (1999: 6). É imaginada porque mesmo os membros da mais pequena nação não se conhecem todos uns aos outros. Por outro lado, é imaginada como limitada porque até a maior nação possui fronteiras, para além das quais existem outras nações. É também imaginada como soberana porque nesceu numa época em que o Iluminismo e a Revolução destruiram a legitimidade do domínio dinástico e ordenado por Deus. Finalmente, é imaginada como comunidade porque as nações assentam sempre numa fraternidade profunda e horizontal.

Comunidade política imaginária, a nação - e a nacionalidade - é um artefacto criado no final do séc. XVIII, a partir de concepções culturais fundamentais, como a da língua sagrada e do livro, associadas ou desenvolvidas pela revolução de Galileu, a descoberta [ou achamento] do Novo Mundo, a revolução da imprensa, o desenvolvimento do capitalismo mercantil. A imprensa vai desempenhar um papel determinante: a sua difusão é geradora da simultaneidade, do conhecimento vivo, da reprodutibilidade e da disseminação dos saberes (Anderson, 1999: 37).

A nação implica necessariamente (ou quase) uma língua própria. O autor estabelece uma relação dialéctica entre a fatalidade da diversidade linguística, a tecnologia da imprensa e o capitalismo. O capitalismo impresso soube explorar cada mercado vernacular e oral potencial. As linguagens impressas formaram a consciência nacional - eis o modo de Anderson prestar homenagem a um dos seus patronos, McLuhan, que, por sua vez, fora buscar o centro das suas ideias a Harold Innis.

Mas em Anderson ficam perguntas por responder: qual a relação entre nação e pátria? O que é povo? Agora que vivemos numa era da globalidade e das múltiplas etnias num espaço geográfico, há alguma relação entre nação e identidade nacional?

[continua]

2 comentários:

Lucas Sampaio disse...

Continua onde?

M disse...

Para quem estuda comunicação principalmente na católica este blog é uma ajuda indespensável!