domingo, 17 de dezembro de 2006

O ANO DOS UTILIZADORES PRODUTORES DE CONTEÚDO


Para Jon Pareles, do Observer de hoje (copyright do New York Times), 2006 foi o ano dos utilizadores produtores de conteúdo. A mais preciosa indicação de tal foi dada pela compra, por Rupert Murdoch e pela Google respectivamente, do MySpace e do YouTube, aquisições que valeram mais de dois milhões de libras.


Os oráculos da alta tecnologia previam há muito que a internet democratizaria a arte e outros dicursos desde que se estabelecesse a distribuição global instantânea. Galerias de arte virtual, canções gratuitas, videoblogues, romances on-line e excertos de filmes seguiriam a expansão da internet e da banda larga. A criatividade do fazer superou a possibilidade do ver.

Assim, a frase do ano (buzzword) foi conteúdo gerado pelos utilizadores, conceito que lembra o instinto tecnocráticos dos investidores mas que o jornalista prefere traduzir por expressão pessoal. Fora a terminologia, acrescenta, todos estão de acordo: patrões dos media tradicionais, donos dos media on-line e milhões de utilizadores da internet usam essa possibilidade de produzir, guardar e publicitar conteúdos. Blogues, software gratuito (open source), wikis colaborativos e páginas pessoais atingem todo o mundo. Muitos usam as tecnologias de modo incipiente - ou usam-na de modo insuficiente, como quem compra um gravador de vídeo e trabalha com uma percentagem pequena dos modos de programação -, mas tudo está ao alcance de um simples clicar do rato.

Embora se possa considerar que a produção de conteúdos pelos utilizadores seja mais antiga do que o movimento deste ano, o novo é que tal produção de conteúdos pode ser feita a partir de casa. Antes, havia uma espécie de isolamento geográfico; agora, as tecnologias reforçam os laços entre o artista profissional e a audiência. Se as entidades produtoras majors gastam milhões de dólares em promoção (filmes, discos), as gravações de baixo custo em produção e distribuição têm um canal excelente - a internet. Esta promove produtores de conteúdos desconhecidos que, se tiverem adequados gatekeepers (promotores), chegam ao sucesso mais rapidamente que os artistas promovidos nos canais tradicionais.

Será que a produção de expressão própria afecta a cultura num sentido mais geral e vasto? Para além da resposta positiva, o jornalista tem um olhar cínico. Sim também é bom para os patrões dos media tradicionais. Como? O processo de selecção - descobrir novos talentos - corre dentro das suas próprias empresas. A selecção, um processo que consome tempo e dinheiro, foi adjudicado a terceiros (outsourcing). Para além da produção de conteúdos pelos utilizadores há também filtros de conteúdo, com sítios a, por exemplo, criarem novos top ten. E mantém-se a questão de origem: será que, por se aceder mais facilmente, se produzem melhores conteúdos? Ou tudo desemboca num espírito empreendedor igualmente comercial?

3 comentários:

Anónimo disse...

Fiquei a saber que a compra do myspace e do you tube custou 2 milhões de libras... Não serão 2 biliões? É um erro que encontro frequentemente na comunicação social portuguesa. Quem revê o texto não repara que esses números não têm nenhum sentido?

Cumprimentos

PedroF disse...

Caro Rogério,
o MySpace foi comprado em Julho de 2005 (e não este ano como afirma o artigo do Observer).
A notícia da BBC sobre a aquisição está aqui (http://news.bbc.co.uk/2/hi/business/4695495.stm) e, curiosamente, Murdoch adquiriu a empresa Intermix Media para dinamizar a audiência para os sites da Fox.
Grande reviravolta :)

Ana Luísa Henriques disse...

Para a revista "Time" a figura do ano é:..."você". O utilizador que chega a casa e ainda tem tempo para fazer algo diferente...para ser produtor na rede vasta da web, preconizando a actual web 2.0.
Artigo no Sol em: http://sol.sapo.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=15995
e na "Time" em: http://www.time.com/time/magazine/article/0,9171,1569514,00.html?aid=434&from=o&to=http%3A//www.time.com/time/magazine/article/0%2C9171%2C1569514%2C00.html