Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência manifestada desde 2003.

6.9.11

LITERACIA VISUAL, POR ISABEL CAPELOA GIL

O último texto e a última frase de um livro são marcantes, pois representam o final da leitura e aquilo que ficou mais recentemente na nossa memória. Assim, retenho o que escreve Isabel Capeloa Gil: "Revelando a hostilidade como categoria contingente e situada, [o filme] In the Valley of Elah apresenta, no estado de excepção do Hollywood pós-político, a exigência de uma renovada literacia, que abarque o indistintivo, o ambivalente, a crítica [...]" (p. 290).

"Visualidade, violência e a construção da hostilidade no cinema" é o título do último capítulo do livro Literacia Visual, de Isabel Capeloa Gil, há pouco tempo publicado (Edições 70). O capítulo analisa o cinema de guerra - aquele que incide em sequências de combate mas também na formação discursiva apoiada no sistema político-social da indústria cinematográfica (p. 271), com a autora a distinguir inimigo e hostilidade aplicados ao filme de Paul Haggis, In the Valley of Elah (2007), depois de circular por textos de Richard Sennett, Carl Schmidt, Michel Foucault, Sigmund Freud e Jacques Lacan.

Dividido em duas partes, o livro contém textos de conferências proferidas nomeadamente em Utreque, Londres, Filadélfia, Braga e Lisboa e ilustra a grande erudição da autora, que percorre os clássicos gregos e latinos (Platão, Aristóteles, Lucrécio) e modernos e pós-modernos (Lacan, Baudelaire, Benjamin, Musil, Freud, Grusin, Barthes), e abrange saberes que vão da psicologia à literatura, da filosofia à história. Cinema e fotografia são os media mais destacados nos seus textos, mas também a literatura (e os pequenos contos em especial, em Edgar Allan Poe, Robert Musil e J. M. Coetzee). A noite, o conflito, a guerra, a catástrofe, a ruína, a visibilidade e o invisível, mas também o distanciamento, a reflexividade, a remediação, a modernidade e a pós-modernidade, a fragmentação e a memória, são tópicos centrais observados e que, apesar de escritos para ocasiões e espaços distintos, apresentam uma notável unidade orgânica. O óptico, o visual, os instrumentos para ver (binóculo, óculo), a máquina fotográfica e a de filmar acompanham todo o volume.

Se a primeira parte trata dos dispositivos do olhar (que encontramos mais aprofundados no primeiro texto), a segunda parte é dedicada à visualidade e à violência (que seguimos melhor no sexto e último texto do volume).

Dos dispositivos do olhar, a autora destaca a imagem do coelho-pato, usada em obras de transição do século XIX para o XX. Um dos pressupostos é que a visão não é apenas uma característica biológica e natural mas enquadrada pela sociedade e cultura (p. 13). A literacia visual vem desse princípio, que exige competências múltiplas e se encara como a necessidade de cultura para ler as imagens (p. 15). A literacia visual invoca a capacidade crítica da leitura (p. 23). Barthes, Foucault, Mirzoeff e Mitchell são alguns dos autores referenciados. A autora destaca diversos tópicos: imagem como não sendo produto natural ou transparente ou verdadeiro, literacia visual além da concepção linguística das imagens, transdisciplinar, interrelacional, revisionista e com estratégia de cidadania (pp. 24-30).

Sobre a visualidade e violência, Isabel Capeloa Gil vê-as como conceitos relacionados, além da aliteração dos termos (p. 271). A visualidade é uma estrutura da mediação, pressuposto da apropriação do real pelo olhar. Por seu lado, a violência reside no olhar do sujeito e que se projecta no ecrã, conferindo prazer perverso ao espectador que sente a dor e o infortúnio do observado. O filme acima identificado conduz ao texto teórico da autora. Mais à frente, ela identifica a mimésis como estando dentro das categorias de inimigo e próximo (p. 290).

Antes, a autora escrevera sobre a domesticidade do conflito e a fotografia de Martha Rosler e "quando a mulher regressa", dois belos ensaios sobre a guerra e a representação dos indivíduos - o homem na frente da batalha e a mulher no trabalho durante a guerra; o regresso do homem, traumatizado pela guerra e querendo recuperar o emprego, o que leva a um idealizar da mulher no regresso ao lar (e ao normal), ao mesmo tempo que se questiona a femme fatale na mulher alemã, amante e espia, dentro do cânone do cinema noir. A isso, Isabel Capeloa Gil chama a arqueologia da regressão (p. 234), citando filmes como I'll Be Seeing You e The Search.

Como disse acima, ela trabalha com frequência pequenos contos, alguns marginais dentro da obra dos autores estudados, além de construir relações novas e de leitura estimulante. Lembro Baudelaire e a remediação em Benjamin, o negro em Edgar Allan Poe, a ideia do coelho-pato, que dá duas perspectivas de uma situação mas que a autora considera escasso e defende múltiplas interpretações. Ela volta à remediação em Benjamin e Spike Lee sobre as inundações de New Orleans: a de 1927, relatada num programa radiofónico por Benjamin, numa série sobre catástrofes; a de 2005, com o furacão Katrina e do qual Spike Lee faz um documentário, mostrando as pessoas e o que lhes aconteceu.

O texto sobre sapatos é central na primeira parte do livo. Isabel Capeloa Gil desenvolve e entretece três conceitos - fetiche, reificação e fragmentação. O fetichismo parte do que é criado artificialmente, do produto (p. 60). Ela analisa Marx e Simmel nas suas concepções de alienação e hegemonia. Parte de Baudelaire e acaba em Benjamin, com os lugares, as mulheres, as passagens, os objectos como candeeiros e a moda (os sapatos). Os sapatos, escreve, são metonímias retóricas da dualidade entre alienação e redenção (p. 69). Os sapatos, dentro da moda, mesclam o estético com o social e o psicológico. Baudelaire diria que tudo o que é adorno da mulher serve para ilustrar a sua beleza (p. 73). Em Benjamin, o sapato representa mais do que um desejo (p. 74). O sapato (ou a perna revelada) constitui um fragmento da mulher que o homem alienado deseja possuir.

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