Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência manifestada desde 2003.

13.2.14

Dia Mundial da Rádio

Sou historiador e, como tal, a minha participação no Dia Mundial da Rádio é sobre a história do meio eletrónico. A fotografia mostra Fernando Curado Ribeiro, locutor, produtor, cantor, ator e homem de mil ofícios, a entrevistar a atriz Milú, num momento em que ela anunciava ir trabalhar no cinema em Espanha (Rádio Nacional, 18 de julho de 1943).


No mesmo ano e na mesma revista, outro locutor e homem das letras e da publicidade, Olavo d’Eça Leal, publicava um texto sobre literatura e o ato radiofónico Ele e as Sombras, que seriam os últimos textos de Olavo na revista (Rádio Nacional, 17 de janeiro de 1943). No texto intitulado "A literatura de hoje", Olavo começaria assim: "Sob a inquietação e sob os escombros começa a surgir nos homens a necessidade de encontrar os alicerces para a vida social, depois da catástrofe. É esta a primeira crónica literária do ano de 1943, e suponho do meu dever dedicá-la ao estudo da função da literatura nestes momentos em que começa a dealbar um novo período da história humana".

No ato radiofónico, o autor escreveu sobre um louco com uma carta de recomendação para visitar um sanatório: "Há vinte anos que este sanatório começou a funcionar e é o senhor a primeira pessoa estranha aos serviços que o visita… Peço-lhe ao menos que não cite o nome da minha clínica nas crónicas que publicar no seu jornal. E, quanto aos personagens, represente-os por iniciais, falsas iniciais (pausa). Outra recomendação que desejo fazer-lhe, importantíssima. Enquanto estiver aqui dentro, não pronuncie uma única palavra. Contente-se em ver e ouvir. Não fale com ninguém, nem comigo mesmo. As suas palavras, quaisquer que fossem, seriam perigosas para os meus doentes… e, para mim, inúteis. Estou de tal maneira habituado a auscultar o complexo pensamento dos loucos que o pensamento duma das tais criaturas a que é costume chamar ajuizadas torna-se-me tão claro como um livro aberto, impresso em letras grandes… Estamos entendidos, não é verdade? Bem. O senhor é um velho jornalista… a sua idade e a sua profissão devem-lhe ter dado grande experiência. Já viu muita cousa e dificilmente se espantará com o que vou mostrar-lhe".

Nesse ato, falado a uma voz, a do diretor do sanatório, Olavo refere Ghandi, um louco que gosta que o chamem pelo nome do chefe indiano. Mas também quis apresentar ao jornalista uma rapariga lindíssima que estava ali há uns quinze anos, a quem tinham morto o noivo, levaram-na para casa mas ela voltou para o hospital, e do Dr. Jorge Sequeira, que Gandhi achava muito parecido com o diretor do sanatório, que costumava sentar-se no chão. O diretor expõe ao jornalista o ficheiro B, pois o A não tinha interesse. Ele tinha informações sobre os doentes, fornecidas pelos próprios doentes. Escreve Olavo: "O passado do louco é letra morta. Uma pessoa que enlouquece cria vida nova e, portanto, só ela pode apresentar elementos informativos sobre essa vida nova, e só esses elementos me vale a pena orientar". Mas Jorge Sequeira era alguém que tinha saído do sanatório antes deste diretor tomar posse, logo não o conheceu. Mas a ficha de Jorge Sequeira diz uma coisa diferente: mal viu o novo diretor, adotou imediatamente a sua personalidade: "Está absolutamente convencido de que sou eu. Ficou doido porque tinha uma grande paixão por uma linda rapariga que não gostava dele. Infelizmente o seu primeiro sintoma grave de loucura consistiu em assassinar a tiro o noivo da rapariga. É considerado incurável. Tem várias ideias fixas e é inofensivo. Todos o tratam por sr. diretor. Que mal faz? Eu não me importo com isso… não me prejudica. Eu também o chamo sr. diretor". O louco autointitulado Ghandi, com nome de Jorge Sequeira, alter-ego do diretor, afirmava chamar-se Dr. Delfim Soares, nascido em1895.

O louco podia ser Hitler, que levara a destruição à Europa. Mas a sua vez de desaparecer de cena aproximava-se do fim. O não falar nem ouvir podia ser uma parábola à situação do regime de Salazar. Este, em 1943, dirigia-se à Assembleia Nacional a identificar acordos com os americanos por causa da base das Lajes nos Açores. A relação não assumida com a Alemanha começava a desfazer-se. Depois, desde 1941, os portugueses ouviam à noite a BBC. Em 1945, sairiam à rua a festejar a vitória dos Aliados e a pensar em democracia, que afinal não veio.

Olavo d'Eça Leal entraria em rotura com a Emissora Nacional, saindo em 1944. Ele, Igrejas Caeiro, Fernando Curado Ribeiro e Jorge Alves (este por razões diferentes) afastavam-se da estação pública. Era a hora para Alberto Represas (Emissões do Atlântico, nome provisório da Rádio Voz de Lisboa) e Artur Agostinho (Clube Radiofónico de Portugal) entrarem na Emissora Nacional.

Se os locutores tiveram (e têm) um papel essencial na rádio, também as mulheres foram sempre requisitadas como locutoras. O som, emitido hoje pelo grupo de estações integradas na ARIC, é a minha reflexão sobre algumas das locutoras mais importantes da rádio. Não tive tempo de falar de todas, por exemplo: Maria Leonor Magro e Clarisse Guerra.


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