Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência manifestada desde 2003.

4.9.14

Da oralidade à escrita em Jack Goody


Em A Lógica da Escrita e a Organização da Sociedade, Jack Goody (Edições 70, 1987) considera a intersecção entre oral e escrito como tópico central na sua investigação. Outro objectivo foi ver os efeitos a longo prazo da escrita da sociedade. Muito do trabalho que Goody provém do seu, e de outros, trabalho na África ocidental. Goody deslocou-se muitas vezes ao Gana. Alguns conceitos que trabalhou seriam fronteira (p. 21), mudança (p. 22), obsolescência (p. 24), incorporação ou conversão (p. 26), universalismo e particularismo (p. 27) e especialização (sacerdotes e intelectuais, p. 32).

Nas sociedades religiosas compostas por homens eruditos, especialmente quando estes profissionais controlam, de alguma forma, o conhecimento proveniente do livro, pelo menos da Escritura religiosa, ocorre uma forma de especialização (p. 33). Claro que o clero, como corpo distinto, também aparece em sociedades orais sem escrita. Com a escrita, surge uma nova situação - o sacerdote tem acesso privilegiado a textos sagrados. Como mediador, ele possui uma ligação única com Deus. No princípio, era o livro, mas o sacerdote lê-o e explica-o. Daí, as religiões baseadas no livro serem frequentemente associadas a restrições nos usos e extensão da instrução. No caso extremo, os sacerdotes são a única categoria de pessoas capazes de ler, situação em diferentes etapas da história indiana, quando a instrução estava restrita aos brâmanes, e nos primeiros tempos da Europa medieval, a seguir ao declínio da instrução laica com a queda de Roma. Na Inglaterra, clericus acabou por se identificar com literatus e este com o conhecimento do latim, o que trouxe privilégios. Os especialistas da escrita adquirem o controlo inevitável de entrada e saída de um segmento de conhecimento (p. 34).

Goody, ao decifrar as influências da escrita na religião, fala de tendências (p. 194). O tema do livro é a influência de um modo de comunicação fundamental, a escrita, na organização social (p. 205). Com isto, Goody não pretendeu negar a relevância deste ou de outro meio de comunicação. Como influenciou a escrita a orientação política? (p. 107) As nações modernas estão muito dependentes da escrita para sistemas eleitorais, legislações, administração interna e relações externas.

O uso da escrita é-o também para o registo de mudanças de estatuto social no ciclo de vida – nascimento, casamento, morte (p. 60). A publicação toma muitas formas e aspectos nas culturas escritas, com mensagens inscritas na pedra. As narrativas da Mesopotâmia insistem no grau em que a economia e escrita estavam mutuamente dependentes (p. 67). A escrita era utilizada fundamentalmente para a condução dos assuntos económicos – e não tanto para a conservação do conhecimento pelos sacerdotes (como visto acima). Mas os livros eram também usados nas contas dos depósitos do templo (p. 68). Os registos incluem dádivas dos palácios reais e transacções a partir de casamentos, adopções e testemunhos. O templo recebia a sua dotação do palácio, que, por sua vez, arrecadava a receita, organizava a produção primária, participava no comércio (p. 81). Sobre a escrita e a economia em África, em observações feitas pelo próprio Goody, tome-se a simples questão do crédito (p. 103). Por exemplo, as mulheres ganesas forneciam comida a crédito a empregados de um recinto de transportes. Tinham um número restrito de tipos de transacções, devido ao esforço de memória em fixar os diferentes negócios, a menos que houvesse um livro de contabilidade. A vantagem da escrita funcionava também no domínio da prova e do acordo. A factura escrita fornece a oportunidade de examinar e verificar o conteúdo, o que garante autoridade (p. 104).

Goody dedicou atenção a duas situações, uma com e outra sem escrita – o Próximo Oriente da Antiguidade, onde apareceu a escrita, e a África ocidental contemporânea, onde o seu uso tem proliferado nos últimos 75 anos (p. 9). Ele olha os colegas antropólogos – habituados a analisar um contexto particular a partir do terreno e com atenção aos informadores – e os historiadores e arqueólogos – que reconstituem situações ao longo do tempo e estabelecem sequências cronológicas de desenvolvimento, o que o conduziu a uma terceira hipótese, que seguiu, a de pegar numa sequência (ou tópico) e seguir o seu trajecto variável no tempo e no espaço (p. 12). O autor estabelece a relevância de alguns elementos (mas não a teoria funcionalista, onde tudo influencia tudo, e a análise sociocultural). Na bibliografia, não há referências a Harold Innis, Marshall McLuhan, James Carey ou Walter Ong. Mas cita E.L.Eisenstein (The printing Press as na Agent of Change) sobre as implicações da imprensa e de Sherry Turkle sobre o efeito dos computadores no espírito humano. Goody e I.P.Watt publicaram em 1963 um artigo (The Consequences of Literacy) na revista Comparative Studies in Society and History. Neste artigo, exploram o significado do desenvolvimento e do movimento da alfabetização. Ao discutir a mudança, e os seus benefícios, da oralidade para a cultura escrita, Goody e Watt notam que “a natureza intrínseca da comunicação oral tem um efeito considerável sobre o conteúdo e a transmissão do repertório cultural” (p.2). A citação acaba por definir um contexto.

Leituras suplementares: Análise SocialHorizontes Antropológicos.

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