Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência manifestada desde 2003.

5.9.14

Teatro Estúdio de Lisboa (inícios de 1972)

Em Dezembro de 1964, Luzia Maria Martins e Helena Félix apresentavam o primeiro espectáculo do Teatro Estúdio de Lisboa, Joana de Lorena, de Maxwell Anderson, no teatro da feira popular de Lisboa. As duas, que se tinham conhecido em Londres, a primeira era funcionária da secção portuguesa da BBC, a segunda frequentava um curso naquela cidade, pensavam que o público português não conhecia peças fundamentais da dramaturgia mundial.

A companhia seguia uma linha ideológica marcada, o que despertava a atenção da censura. Na entrevista que concedeu à revista Rádio & Televisão, de 8 de Janeiro de 1972 (quatro imagens seguintes, peças assinadas por Regina Louro e Rui Paulo da Cruz), Luzia Maria Martins considerava que "tanto o texto como a encenação tentam exprimir uma posição, mas claro que ela tem de ser sempre apenas implícita. Não nos é permitido fazer um teatro em que possam exprimir totalmente as linhas que nos podem reger". Sobre a censura em si, Luzia Maria Martins entendia ser a censura sempre nefasta: "em qualquer situação deveríamos ter a liberdade de decidir por nós próprios". E acerca do repertório, ela respondeu que, apesar da proibição de certas peças, a censura nunca impôs peças".





Desde o começo da sua actividade, o Teatro Estúdio de Lisboa quis alargar-se a outros campos, incluindo um festival de poesia, uma biblioteca de teatro, uma galeria e um bar-restaurante. Sobre as finanças da companhia, Luzia Maria Martins e Helena Félix não receberiam qualquer ordenado nos primeiros cinco anos de actividade. Em 1972, ganhariam cinco mil escudos, o mesmo valor dos actores que entravam nas peças da companhia. Os valores remunerados eram baixos, levando os actores a procurar igualmente trabalho na rádio e na televisão.

O Teatro Estúdio de Lisboa funcionava no Teatro Vasco Santana, em Entrecampos, Lisboa (a área onde funcionava a feira popular está hoje toda desactivada). Em finais de 1971 e começos de 1972, a Câmara Municipal de Lisboa, proprietária do edifício, e o Teatro Estúdio de Lisboa negociavam um novo espaço para a companhia. Deduzo que, por causa desta questão, Luzia Maria Martins fosse entrevistada duas vezes nos três primeiros meses de 1972 pela revista Rádio & Televisão. A responsável da companhia reforçaria o seu sonho de possuir uma biblioteca, uma galeria, um bar-restaurante, como expressara na entrevista de 8 de Janeiro de 1972, ela que julgava que o teatro do futuro seria o centro de convívio das várias artes [performativas, como hoje se diz].

Então, o Teatro Estúdio de Lisboa estava a trabalhar numa peça sobre Antero de Quental. A responsável do teatro esperava poder convidar no futuro alguns dramaturgos portugueses dentro da sua linha programática. Objectivo principal: trabalhar nos domínios da participação e da comunicação. Além disso, queria que o teatro fosse frequentado por gente sem gravata, o que dá conta do ambiente ainda muito conservador, rigoroso e formal de quem ia assistir a um espectáculo performativo.




Em números sequenciais da revista Rádio & Televisão, iam-se revelando os novos rumos do teatro português. O Grupo dos 4, depois Teatro Aberto, os Bonecreiros e, algum tempo depois, a partir de uma cisão dentro deste grupo, A Comuna, criava-se a estrutura principal do teatro que surgia em Abril de 1974.

Sobre Luzia Maria Martins já escrevi aqui.

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