Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência manifestada desde 2003.

18.11.14

Salazar e a BBC - um livro de Nelson Ribeiro

Hoje, ao final da tarde, na livraria Almedina, ao Saldanha (Lisboa), foi lançado o livro de Nelson Ribeiro, Salazar e a BBC na Segunda Guerra Mundial: Informação e Propaganda. Na mesa, para além do autor e de Pedro Bernardo, editor da Almedina, o prof. Alberto Arons de Carvalho (ver parcela da sua apresentação no vídeo abaixo) e eu fizemos a apresentação.

Do meu contributo, destaco o seguinte:

"O centro da investigação é o período de meados da década de 1930 ao final da II Guerra Mundial, com ênfase para os noticiários transmitidos da BBC para Portugal. Iniciados em Junho de 1939 e tornados muito credíveis, a BBC emitiria um segundo boletim, à hora de almoço, em Setembro desse ano. A partir de 1942, passou a três transmissões diárias. Em 1944, o impacto da BBC tornou-se maior: o governo inglês pressionava Portugal a suspender as exportações de volfrâmio para a Alemanha. Durante o período da guerra, o noticiário da BBC mais ouvido foi o da noite. Parte significativa da audição era colectiva, em cafés e clubes. A guerra não chegava a Portugal de modo directo e violento, mas as repercussões económicas sentiam-se cada vez mais. A audição desses noticiários foi proibida pelo governo em finais de 1940, mas não se conseguiu eliminar a escuta em casas particulares. Ouvintes urbanos e dos meios rurais, a classe média e o proletariado, acompanhavam atentamente as notícias sobre a guerra. À audição fiel, juntava-se a recepção de cartas enviadas para a BBC. O pico de correspondência foi atingido em 1941-1942. As cartas expressavam a perspectiva dos ouvintes sobre os programas e as condições de recepção. Da documentação interna da BBC, sabe-se que a elite do Estado Novo não escrevia para aquela estação.

"Ao longo de seis anos de guerra, na secção portuguesa da BBC passaram diversos locutores. O mais conhecido foi Fernando Pessa, com linguagem simples, humor e ironia. Ele entrou para os serviços do Brasil e transferiu-se para os serviços de Portugal por substituição de locutor doente. Além dos noticiários, Fernando Pessa apresentou o programa de grande sucesso Calendário dos Ditadores e era visto como herói, por dizer aos portugueses o que eles não sabiam pela imprensa e rádio nacional. Paddy Scannell (Television and the Meaning of Life, 2014: 121), em capítulo dedicado à radio, escreve sobre reciprocidade na conversação entre locutor e ouvinte e sinceridade daquele para este. Pessa desenvolveu empatia e sinceridade conversacional com os ouvintes".




[fotografia de José Gabriel Andrade, vídeo de António Deus. Agradeço a ambos a colaboração]


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