7.12.14

Al Pantalone

O texto é de Mário Botequilha, a encenação e desenho de luz pertencem a Miguel Seabra e a interpretação está a cabo de Guilherme Noronha, Rui M. Silva, Sofia Correia e Vítor Alves da Silva. As personagens são Al Pantalone, um banqueiro moderno (como têm aparecido nos media), um Doutor (muito ligado a Al Pantalone, o que significa igual actualidade política e mediática), Flávio e Isabela, descendentes daqueles, por vezes tornados Zani e Columbina, empregados dos primeiros.

A Commedia dell'Arte deixou "uma tipologia muito vasta de personagens susceptíveis de serem encontradas em todas as histórias e períodos históricos", escrevem Miguel Seabra e Natália Luiza, responsáveis do Teatro Meridional, onde se representa a peça. As personagens apresentam-se voltadas para o público, definem situações, trocam posições deferenciais e/ou grotescas, sem deixarem indiferentes o público. Salamaleques, com "vossa excelência para aqui, vossa excelência para ali", mundo transparente na aparência mas sórdido na realidade. Num dado momento, uma das personagens identifica a burguesia que se senta diante deles em boas cadeiras de veludo; outra personagem pergunta ao público se aprova com mão no ar as contas da entidade bancária. O mais imperdível são as figuras das personagens: Al Pantalone a andar com os pezinhos cada qual para seu lado e a mordiscar os lábios, o respeitável volume do estômago do doutor e a sua pertinácia em definir objectivos, os movimentos de dançarino tonto da personagem de Zani ou a ingenuidade expressa por Isabela. Mas igualmente o que significam: as duas principais personagens, gananciosas, enganaram os outros, os que trabalham e descontam sempre. O embuste foi perfeito: ficaram com o dinheiro de Zani e Columbina para melhor rendimento. Mas o banco faliu e as poupanças sumiram-se.

O teatro é a arte da mensagem. A sério ou a brincar, a ironizar ou a mofar - a mensagem está ali. Daí o permanente perigo do teatro. E a sua importância. A Commedia dell'Arte não é Brecht, mas a mensagem existe. E Miguel Seabra dedica a encenação a Américo Rodrigues, antigo director do Teatro Municipal da Guarda (2005-2013), despedido pelo actual presidente daquela Câmara.

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