Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência manifestada desde 2003.

12.5.15

O punk pelas suas próprias palavras

As Palavras do Punk. Uma Viagem Fora dos Trilhos pelo Portugal Contemporâneo, de Augusto Santos Silva e Paula Guerra, é um guia da música e da expressão do punk. Dividido em três partes (primeiras palavras, palavras seguintes, últimas palavras) e 16 capítulos, o livro insere-se na investigação KISMIF (Keep it simple, make it fast), que engloba investigadores das Faculdades de Economia e de Letras da Universidade do Porto, em parceria com duas outras universidades (Griffith e Lleida).

Os autores começam por identificar o punk como uma forma musical, entroncada no grande universo do rock'n'roll, a partir da segunda metade da década de 1970 (p. 7). Inovação, dissidência e lógica do faça você mesmo (do it yourself) são marcas iniciais apontadas pelos dois sociólogos, num livro baseado na análise das letras das músicas das bandas portuguesas e nas entrevistas a protagonistas no activo ou já retirados, num total de 214, buscando saber o que querem dizer os punks (discursos dos actores e das suas criações). A investigação em curso identificou já 788 bandas, 1429 registos e 177 edições de fanzines (p. 26). Logo, três abordagens: documental, recolha de testemunhos, observação de contextos (editoras, espaços de concerto, referências nos media, escolas e bairros, numa observação da cena punk nacional).

As primeiras bandas seriam Faíscas, Aqui d'el-Rock, Minas & Armadilhas, Xutos & Pontapés, UHF e Raios e Coriscos, a que se seguiriam, já no começo da década de 1980, Mata-Ratos, Kú de Judas, Grito Final e Crise Total. Uma banda marcante do punk nacional seria a dos Censurados, com a figura de João Ribas, já desaparecido. Um radialista muito importante na divulgação dos sons do punk foi António Sérgio (Rádio Comercial).

Se o punk é um passo na evolução do rock, enquanto condição histórica na linha de desconstrução da cultura urbana (p. 219), ele tornou-se um paradigma produtivo e organizacional (p. 221), com destaque para ocupações de casas e acções de provocação, uma conformação de campo, com traços plurais e diversificados (p. 222), e a convergência para um padrão de avaliação e posicionamento no tempo social.

O livro é muito mais do que isto e eu não pretendo fazer aqui uma recensão crítica mas tão só dar conhecimento da edição de um livro bem escrito, com muito material empírico e uma análise séria.

Leitura: Augusto Santos Silva e Paula Guerra (2015). As Palavras do Punk. Uma Viagem Fora dos Trilhos pelo Portugal Contemporâneo. Lisboa: Alêtheia Editores, 259 p., 16,50 euros

Sem comentários: