Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência manifestada desde 2003.

19.1.16

Cultura na Primeira Página

Saiu em 2014, mas só agora faço uma referência ao livro coordenado por Carla Baptista, que representa um mapa das principais tendências e evolução do jornalismo cultural impresso. O trabalho baseia-se na análise de conteúdo às notícias das  primeiras páginas dos jornais PúblicoDiário de NotíciasCorreio da ManhãJornal de NotíciasExpresso e Visão em dez anos (2000-2010), cobrindo dois grandes acontecimentos culturais (Porto 2001 e Guimarães 2012, este já fora do decénio) e em 20 entrevistas a diretores, editores e jornalistas da área da cultura.

Carla Baptista, que assina o primeiro texto, constata a redução quanto a número de suplementos culturais, número de críticos e espaço e visibilidade dada à área cultural no período estudado (2000-2010). Indica ainda uma maior aproximação aos valores da indústria e do valor comercial dos conteúdos. Para a autora, o jornalismo cultural é do domínio dos textos curtos (e também ensaio), dada a escassez do tempo de produção, foge aos temas eruditos e aos géneros da crítica, ensaia uma luta entre o cultural sagrado e o económico profano e reflete uma certa rebeldia estilística. Como conclusão, a autora indica que os jornais não são todos iguais em termos de cobertura da cultura. Se o Público se destaca, no Correio da Manhã há um peso maior da cultura popular, caso das festas religiosas. Do ponto de vista temático, dominam a música (27%), o cinema (20%) e a literatura (17%). Os protagonistas são indivíduos (64%), em detrimento das instituições (14%). Lisboa domina geograficamente (39%), o que significa um desligamento da imprensa face à tendência de maior capacitação cultural descentralizada.

O segundo texto pertence a Teresa Mendes Flores, que estuda o destaque da imagem nas primeiras páginas dos jornais estudados. Ela refere que, ao longo do decénio, a imagem fotográfica teve um relevo crescente, caso do Diário de Notícias, que faz depender a notícia da existência de imagem. A força da imagem subiu 13,2% no decénio. Na década estudada, há uma saturação, entendida como a grande quantidade de informação veiculada em simultâneo. Os jornais onde a área da cultura é mais importante são os que mais imagens produzem porque são os que mais destacam a cultura. Curioso o facto mais relevante na primeira página ser a fotografia do obituário.

O terceiro texto pertence a Dora Santos Silva, que estuda dois subgéneros na cultura – review (resenha) e roteiro, em substituição da crítica tradicional. A investigadora parte da ideia que o jornalismo contemporâneo opera um contínuo entre arte, cultura popular, estilo de vida e consumo, admitindo áreas como publicidade, moda e gastronomia. Isto conduz à inclusão do “jornalismo de serviço” ou “utilitário”, onde a cultura serve para decisões práticas do quotidiano. A review (resenha), subgénero da crítica, visa dar uma ideia resumida da obra, com o propósito de informar (e não educar). Uma das características diferenciadoras deste subgénero é a ausência de juízos de valor. Por seu lado, inserido no género utilitário, o roteiro ou guia diz respeito à programação e listas de teatros, filmes e outros eventos, juntando elementos de reportagem (que informa) e elementos da review (que incita a uma ação). Em Portugal, roteiros e reviews abundam nos suplementos de lazer. Dora Santos Silva chama a atenção para uma nova dimensão performativa do jornalismo cultural, que remete para um cenário menos autoral e menos legitimado.

O livro contém outros textos de igual interesse, como o de Marisa Torres da Silva, que estudou o estilo informativo e as práticas discursivas do jornalismo de música e conclui pela escrita que vagueia entre a informação, a interpretação, a crítica e a análise, Celiana Azevedo, que observou o Diário de Notícias e procurou definir as funções do jornalista da cultura, atendendo a que a crise financeira resultou em despedimento de jornalistas, diminuição de páginas e diminuição do tratamento da cultura, Helena Vieira, que destacou a presença frequente de figuras da cultura e conclui que o jornalismo cultural se constrói em torno de figuras, como realizadores, cantores e escritores, e Maria João Centeno trabalha a cobertura jornalística das capitais europeias da cultura, para quem a imprensa intervém no impacto dos eventos culturais na imagem das cidades e atrai e estimula o consumo entre os visitantes, mas não estimula a reflexão sobre as políticas culturais.

Leitura: Carla Baptista et al. (coord.) (2014). Cultura na Primeira Página. Lisboa: Mariposa Azual

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