Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência mantida desde 2003.

24.8.16

Dersu Uzala

Dersu Uzala era um caçador da tribo Nanai que vivia na parte mais oriental da Sibéria no começo do século XX. A sua família fora dizimada pela varíola e ele errava pela floresta em busca de alimentos e caça, nomeadamente de martas, cujas peles vendia para obter algum dinheiro. Profundo conhecedor da natureza, tratava os animais como companheiros, a lembrar um pouco a consciência dos militantes urbanos que descobriram a ecologia na década de 1960, dentro da ideia de equilíbrio entre os diferentes elementos da natureza.


Um dia, encontra uma equipa militar que explorava em termos de geografia e topografia o território. Estava-se, como escrevi acima, no começo do século XX e o poder político russo precisava de cartografar adequadamente o país, em especial na vastíssima e quase inexpugnável zona mais a norte e mais a leste. Nela habitavam tribos ou grupos de comunidades muito isolados e vivendo uma economia de sobrevivência, com culturas antigas e povoamentos que incluíam mongóis e chineses, os vizinhos do sul. Muitos eram caçadores mas havia também pescadores e recoletores. A equipa de militares era comandada pelo capitão Vladimir Arseniev, que escreveria depois livros sobre as suas expedições e que narrou os contactos com Dersu Uzala (interpretado por Maksim Munzuk), rapidamente promovido a guia do grupo. Pela sua sabedoria ligada à natureza, ele foi muito benéfico para o avanço dos trabalhos científicos. Do seu contacto com o capitão Arseniev (interpretado por Yuri Solomin) nasceu uma profunda amizade e uma prova da importância de juntar o conhecimento teórico e intelectual ao prático.

Com a imagem conduzida por uma câmara à altura do homem quando se trata de mostrar a evolução da investigação guiada pelo caçador Dersu e uma posição de cima para baixo quando se mostra a posição do cartógrafo ficamos a compreender melhor o entrosamento de dois mundos tão próximos - o olhar a natureza - mas já tão afastados - o caçador e o cartógrafo veem duas coisas distintas conforme as suas necessidades. Isso torna-se evidente no final do filme, quando o caçador é recolhido em casa do capitão e se depara com proibições: acampar na cidade, dar tiros na cidade. Uma das sequências inesquecíveis do filme é  a da investigação na estepe gélida ao final da tarde, quando o caçador e o capitão estão sós e perdidos do resto da expedição. O caçador conduz a operação de recolha de caules de plantas e improvisa uma cabana sob a qual dormem, escapando aos ventos que podem atingir cerca de 60 graus negativos. Outra sequência impressionante da luta contra a natureza é a do salvamento do caçador, que não sabe nadar, quando fica sozinho numa jangada. O esforço coletivo dos militares leva à rápida opção de lançar um tronco ao rio, devidamente controlado com cintos, e que chega a Dersu e o ajuda a sair da situação complicada.

Dersu Uzala (ou A águia das Estepes, デルス·ウザーラ em japonês, Дерсу Узала em russo) é um filme do japonês Akira Kurosawa (1975), a sua primeira obra fora do seu país, após um período em que ele se sentiu deprimido (e tentou o suicídio), que lhe trouxe o fracasso de um filme anterior Dodesukaden. O cineasta recebeu um convite soviético do estúdio Mosfilm para realizar o trabalho autobiográfico de Arseniev.

2 comentários:

Mister Vertigo disse...

"Dersu Uzala" é um filme inesquecível (vi-o pela primeira vez no Apolo 70, aquando da sua estreia em Portugal), que trata a imensidão do espaço de forma sublime, ao mesmo tempo que nos conta a história deste velho caçador. É de saudar esta nova política de reposição de filmes, pois possibilita às novas gerações descobrirem obras fundamentais da História do Cinema, na sala de cinema. que será sempre o espaço ideal para nos maravilharmos com a Sétima Arte.

maria franco disse...

Totalmente de acordo com o seu comentário.
Um filme inesquecível! E filmes... nas salas de cinema, sem dúvida.