5.10.16

Miró em Serralves




Materialidade e Metamorfose é o título da exposição de Joan Miró (1893-1983) patente no Museu de Arte Contemporânea de Serralves (Porto). Recentemente inaugurada, a exposição resulta da aquisição pelo Estado de gravuras e trabalhos do pintor que pertenciam ao falido Banco Português de Negócios.

A exposição pode apresentar-se em seis pontos, o primeiro dos quais a colagem, que foi fundamental na fundação da obra de Miró, seguindo Picasso e Braque, aproveitando materiais comuns e objetos recicláveis. A obra do pintor pode ler-se como um permanente signo ou conceito que evoca um objeto ausente. Como noutras perspetivas, a obra de Miró mostra-se cheia de inscrições, incisões, rasuras e marcas, através de linhas, pontos e palavras, dando múltiplos significados, explorando ainda o território de pictogramas e ideogramas. Signo material e gesto caligráfico constituem práticas constantes no seu trabalho. Curiosamente, aqui não há uma evolução biográfica, mas uma espécie de retorno a um mundo de linguagem mais rudimentar, visível nos trabalhos das décadas de 1950 e 1960. Um terceiro ponto da obra exposta assenta no princípio da metamorfose - um dos tópicos do título da exposição, em que o pintor catalão fez desenhos imaginando um universo de figuras monstruosas e de criaturas quase demoníacas. Na sequência, ele recolheu imagens do Renascimento italiano, caso de La Fornarina (de Rafael), e transformou-o numa série de retratos imaginários.

Um quarto ponto é o da distorção anatómica de figuras humanas no momento da Guerra Civil de Espanha, onde experimentou o cruzamento de colagens e esculturas-objeto, trabalhando superfícies como se fosse um artesão de materiais plásticos, entre os quais óleo, caseína, alcatrão e areia sobre aglomerado de fibras de madeira (masonite). Como quinto elemento da obra em exposição na Casa de Serralves, ele usou técnicas de fogo ao queimar bocados de tela e espalhar tintas (dripping), como se pode ver em filme exposto como complemento à obra exposta, e apresentadas em 1974 numa grande retrospetiva no Grand Palais (Paris). Junto a isto o conjunto de tapeçarias, executadas entre 1972 e 1973, apoiado por Josep Royo, concebidas como peças de grande autonomia figurativa. Como último marcador em Miró o da relação signo/superfície/estrutura presente em diversas obras, abrigando objetos e fragmentos [suporte para o texto: catálogo de Robert Lubar Messeri].

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