13.11.16

Os Últimos Dias da Humanidade

O teatro ficou transformado, desaparecendo a plateia e o palco. Toda a representação passa-se no centro da sala, uma trincheira da I Guerra Mundial. A ação decorre na Áustria desse período, uma sátira feroz à guerra, escrita por Karl Kraus, Os Últimos Dias da Humanidade. O autor concebeu a obra um mês e meio depois do assassínio do herdeiro do trono do império austro-húngaro em Sarajevo e que foi o motivo imediato da I Guerra Mundial. A obra foi escrita entre 1915 e 1922, teve poucas representações até meados do século XX por questões de direitos de autor defendidos pela família de Kraus e foi refeita para representação teatral dada a dimensão, que daria para dez serões a contar no planeta Marte, como enunciou o autor. Os encenadores Nuno Carinhas e Nuno M Cardoso propuseram-se instalar um "horror risonho" na plateia do teatro, assim transformada em "estaleiro de formas em construção: cidade, trincheira, arsenal de memórias e aparições", começando com um burlesco funeral de "terceira classe" e terminando com a voz grave de Deus.

Políticos, militares e comerciantes são personagens presentes, do mesmo modo que vendedores de jornais e empregados de restaurantes, onde se discutem preços, carestia de vida e racionamento de bens. Mas também lucros especulativos ligados à indústria da guerra, com personagens nada interessadas que os combates cessem. A senhora Wahnschaffe incita os filhos a brincarem à guerra, lamentando que o filho ainda não tenha idade para ir para a tropa e o segundo descendente seja uma rapariga.  A jornalista austríaca correspondente de guerra Alice Schalek, que percorreu os campos de batalha, retrata a guerra com quase indiferença, exceto quando cruza com um grupo de mulheres sérvias que se riem (a Áustria entrou em guerra com a Sérvia). Se quisermos, Kraus, além da crítica ao lado bélico das elites das nações, coloca em xeque a comunicação social - os jornais, então. E o encenador Nuno Carinhas foi muito claro: "Queremos fazer uma montagem aberta sobre a guerra e a estupidez da guerra".

O Otimista e o Eterno Descontente são figuras centrais, no texto inicial com uma função córica (versos cantados pelo coro nas peças gregas). Diz o primeiro - "Mas quando chegar a paz..." - a que responde o segundo - "... há-de começar a guerra". Onde o Otimista vê "Mas todas as guerras até hoje acabaram em paz", responde o Eterno Descontente, a própria voz do autor, "Esta não. Esta não se desenrolou à superfície da vida, destroçou a própria vida. A frente da batalha expandiu-se para o interior do país. Vai aí permanecer". Há uma aparente e inicial visão de apoio à Alemanha, onde tudo é racional, mas clarifica-se uma crítica óbvia. E a oposição à Itália, que ousou entrar na guerra contra o império austro-húngaro. A falta de bens alimentares e o ódio ao "outro", o inimigo, gera a censura e o esquecimento, caso dos nomes das refeições, linguagem proibida de palavras estrangeiras, levando a designações estranhas como "ovos ao desespero" ou "bife à traidor".

A obra da qual se extrai a peça é longa, o que levou o encenador a cortar. Mas o conjunto de pequenos e rápidos quadros têm uma grande harmonia no seu conjunto. O interior da sociedade burguesa austríaca, afetado pelo conflito, ocupa um dos quadros centrais, com a discussão entre marido (conselheiro Schwarz-Gelber) e mulher, reclamando a sua influência social (sou eu e não és tu). A circularidade da ação – desaparece a quarta parede invisível, que relaciona o palco e a plateia – traz alguns problemas. Mesmo com os microfones individuais, que amplificam a voz de cada ator, falha a visualização das expressões faciais e gestuais se o ator não está virado para a tribuna e balcão.

Os Últimos Dias da Humanidade, pela denúncia e crítica corrosiva, descontrói a visão de progresso da Europa no começo do século XX, quando países e sociedade sofrem uma forte mudança. O programa - prefiro chamar catálogo ou, neste caso mais apropriadamente, uma revista com bons artigos - traz trabalhos de António Sousa Ribeiro, Bruno Monteiro, Roberto Calado, Edmundo Cordeiro, Cândida Pinto, Rui Bebiano, João Luís Pereira, Walter Benjamin e Karl Kraus, que completam, de modo interpretativo e crítico, a peça em representação no Teatro S. João (Porto) [descarregar aqui]. Tradução do livro de Karl Kraus de António Sousa Ribeiro, dramaturgia de Nuno Carinhas, Nuno M Cardoso, João Luís Pereira e Pedro Sobrado, encenação de Nuno Carinhas e Nuno M Cardoso, cenografia e figurinos de Nuno Carinhas, desenho de luz de Wilma Moutinho, desenho de som de Francisco Leal, música de Jonathan Saldanha, vídeo de Pedro Filipe Marques, assistência de encenação de Mafalda Lencastre, interpretação de Ana Mafalda Pereira, Andreia Ruivo, António Durães, Benedita Pereira, Diana Sá, João Cardoso, Joana Africano, João Castro, João Lourenço, Mafalda Canhola, Marcello Urgeghe, Maria Inês Peixoto, Miguel Loureiro, Paulo Calatré, Paulo Freixinho, Pedro Almendra, Raquel Cunha, Rita Pinheiro, Sara Barros Leitão, Teresa Arcanjo e Tiago Sarmento.

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