22.12.16

O Pai

A interpretação de João Perry é soberba. Não posso dizer que é a melhor personagem por si interpretada, porque não conheço toda a sua carreira, mas esta está muito bem feita. O Pai é um homem entre 70 e 80 anos, velho e com Alzheimer. Nos diálogos com a filha (Ana Guiomar), percebem-se os momentos de perda de memória e de espaço. A encenação (João Lourenço) ajuda, apoiada na luz (Alberto Carvalho e João Lourenço); as duas criam dimensões dramáticas, de desespero, insegurança, mergulho no abismo, de alucinação e incompreensão dos outros face à realidade do sujeito. O vídeo (Luís Soares) mostra imagens de um menino e de um velho (Perry), numa espécie de retorno.

A filha quer ajudar o pai, mas o dia-a-dia torna-se difícil. O universo mental do pai afasta-se da realidade física. Ele vai esquecendo os locais, confunde relações, vê rostos diferentes. Com a enfermeira que cuida dele, estabelece uma relação de recusa, o que leva a filha a equacionar levá-lo para um lar. O motivo mais próximo é a perda do relógio, em que se acusa a enfermeira de roubo. Mas o relógio está apenas dentro do micro-ondas, local onde costuma guardar alguns dos seus bens. O pai - André - não quer sair da sua casa, quando já habita a da filha. Não se apercebeu da mudança embora percecione móveis diferentes ou ausentes.

Para ser mais realista, a encenação coloca duas atrizes no papel de filha e dois atores no papel de genro e altera a cenografia da casa onde ele está. Em jogo, um processo interno de relacionamento com os outros. A peça mostra a lenta desagregação do corpo do indivíduo. Ele fora engenheiro, agora, perante a nova enfermeira, indica ter sido artistas de variedades. E canta e seduz - mas o brilho do momento apaga-se e ele volta a confundir a realidade, como se fosse um luz a perder-se. Ao escrevê-la, Florian Zeller (1979) recorda a avó cuja demência começou quando ele tinha 15 anos. De uma peça de Ionesco tirou a ideia com que acaba a peça. O Pai, já muito enfraquecido, pede à filha que lhe cante uma cantiga de embalar.

Mesmo no final, quando já está num lar de velhos, ele pretende que a mãe o leve embora daquele sítio - a luz do palco vai-se reduzindo e o ator fica num ponto e numa centelha até desaparecer. O silêncio na sala ficou mais denso e a reação dos espectadores demorada até às palmas.

Do programa, refiro a leitura de dois textos. O primeiro, de Cícero, aponta quatro causas que indicam a infelicidade da velhice: o indivíduo aparta-se dos negócios, o corpo fica debilitado, decresce o número de prazeres a usufruir, está-se perto da morte. Como o indivíduo não é imortal, o que viveu muito tempo deve recordar o que fez honrada e corretamente. O segundo texto pertence a Atul Gawande. O avó dele, indiano, viveu até aos cem anos, admirado pelos mais novos, exercendo a sabedoria e o respeito devido aos mais velhos. Melhor, viveu integrado na família até morrer. Esta, numerosa, tinha sempre elementos que o podiam ajudar. O pai de Gawande foi viver e trabalhar para os Estados Unidos. Aqui, o velho já não vive na família, reduzida a células pequenas. O velho vai passar os últimos anos num lar e aí morrer, com algum conforto material mas sozinho. O Pai da peça de Florian Zeller já está nesta categoria.

Teatro Aberto, com João Perry, Ana Guiomar, Paulo Oom, Sara Cipriano, Patrícia André (Laura) e João Vicente (Pedro).

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