Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência manifestada desde 2003.

14.1.17

Amadeu em Lisboa

Amadeu Sousa Cardoso expôs primeiro no Porto (Jardim Passos Manuel) e, depois, em Lisboa (Liga Naval). Isso foi em 1916-1917. Repete-se cem anos depois, no museu Soares dos Reis e no museu do Chiado. Os mesmos quadros, a mesma distribuição por temas e materiais. Como os espaços são diferentes, a receção é diferente. No Porto, o espaço aberto da sala de exposições temporárias cria divisórias, o que possibilita espreitar algumas das obras de um espaço para outro; em Lisboa, as peças estão em salas de menor dimensão mas com luz natural e boa decoração interior, o que permite um olhar mais intimista. Com muitos visitantes, pelo menos nos dias em que eu vi a exposição numa cidade e na outra.


Hoje, realizou-se também a primeira conferência intitulada O Porto em 1916 - o Jardim de Passos Manuel e a exposição de Amadeu. Intervieram quatro investigadoras: Elisa Soares, Ana Paula Machado, Sónia Moura e Marta Soares. O foco, como o título indica, foi o local da exposição inicial (Porto) de Amadeu Sousa Cardoso, ou melhor, a envolvência geográfica, social e cultural. Caso dos equipamentos: teatros Rivoli e S. João (então em construção), Sociedade de Belas Artes, Ateneu Comercial, estação ferroviária de S. Bento, alargado ainda ao Palácio de Cristal. As exposições de arte centravam-se especificamente no palácio de Cristal e no Jardim Passos Manuel. Iniciativas privadas, ateliês de artistas, ensino, exposições, atividades de associações, confronto entre naturalistas e modernistas, pioneirismo da formação feminina na pintura, relação com o teatro e o cinema, foram apresentados como contextos, formas e veículos de promoção cultural e artística que conduziriam à exposição de Amadeu.

As duas primeiras conferencistas trabalharam a sua informação a partir dos artigos e notícias de jornais, dando uma perspetiva interessante do meio cultural daquela cidade. O Jardim Passos Manuel, explicou melhor a terceira oradora, compreendia um espaço entre as ruas Passos Manuel e Formosa, onde se ergueria depois o Coliseu. Tinha um salão de festas e local de exposições, um jardim, cinematógrafo e, mais tarde, albergou tipografias e instalações da empresa Invicta Filmes. Teria ainda uma pista de gelo. A quarta oradora centrou-se mais na definição da exposição, abstracionista no Porto mas perdendo esta designação na exposição em Lisboa (1917). Afinal, a exposição, que causou polémica, tinha mais figuração que abstração. Na intervenção, foi ainda levantada a questão da exposição ser individual quando a prática naquele tipo de exposições, a nível internacional, ser coletiva, o que realça a ousadia e a qualidade do pintor português que viveu em Paris e morreu muito cedo por doença.



Próxima conferência, dia 21 de janeiro de 2017, às 15:15, no Aquário Vasco da Gama, com marcação prévia.

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