14.1.17

Amadeu em Lisboa

Amadeu Sousa Cardoso expôs primeiro no Porto (Jardim Passos Manuel) e, depois, em Lisboa (Liga Naval). Isso foi em 1916-1917. Repete-se cem anos depois, no museu Soares dos Reis e no museu do Chiado. Os mesmos quadros, a mesma distribuição por temas e materiais. Como os espaços são diferentes, a receção é diferente. No Porto, o espaço aberto da sala de exposições temporárias cria divisórias, o que possibilita espreitar algumas das obras de um espaço para outro; em Lisboa, as peças estão em salas de menor dimensão mas com luz natural e boa decoração interior, o que permite um olhar mais intimista. Com muitos visitantes, pelo menos nos dias em que eu vi a exposição numa cidade e na outra.


Hoje, realizou-se também a primeira conferência intitulada O Porto em 1916 - o Jardim de Passos Manuel e a exposição de Amadeu. Intervieram quatro investigadoras: Elisa Soares, Ana Paula Machado, Sónia Moura e Marta Soares. O foco, como o título indica, foi o local da exposição inicial (Porto) de Amadeu Sousa Cardoso, ou melhor, a envolvência geográfica, social e cultural. Caso dos equipamentos: teatros Rivoli e S. João (então em construção), Sociedade de Belas Artes, Ateneu Comercial, estação ferroviária de S. Bento, alargado ainda ao Palácio de Cristal. As exposições de arte centravam-se especificamente no palácio de Cristal e no Jardim Passos Manuel. Iniciativas privadas, ateliês de artistas, ensino, exposições, atividades de associações, confronto entre naturalistas e modernistas, pioneirismo da formação feminina na pintura, relação com o teatro e o cinema, foram apresentados como contextos, formas e veículos de promoção cultural e artística que conduziriam à exposição de Amadeu.

As duas primeiras conferencistas trabalharam a sua informação a partir dos artigos e notícias de jornais, dando uma perspetiva interessante do meio cultural daquela cidade. O Jardim Passos Manuel, explicou melhor a terceira oradora, compreendia um espaço entre as ruas Passos Manuel e Formosa, onde se ergueria depois o Coliseu. Tinha um salão de festas e local de exposições, um jardim, cinematógrafo e, mais tarde, albergou tipografias e instalações da empresa Invicta Filmes. Teria ainda uma pista de gelo. A quarta oradora centrou-se mais na definição da exposição, abstracionista no Porto mas perdendo esta designação na exposição em Lisboa (1917). Afinal, a exposição, que causou polémica, tinha mais figuração que abstração. Na intervenção, foi ainda levantada a questão da exposição ser individual quando a prática naquele tipo de exposições, a nível internacional, ser coletiva, o que realça a ousadia e a qualidade do pintor português que viveu em Paris e morreu muito cedo por doença.



Próxima conferência, dia 21 de janeiro de 2017, às 15:15, no Aquário Vasco da Gama, com marcação prévia.

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