18.1.17

Cinema Tivoli

Hoje, foi lançado na livraria Ferin (Lisboa) o livro de Duarte de Lima Mayer e João Monteiro Rodrigues Cinema Tivoli. Memórias da Avenida, apresentado por José Sarmento Matos.

Trata-se de um livro de design muito bem feito (Silvadesigners) e que partiu de um espólio fotográfico perdido numa gaveta, com personalidades não identificadas então. Conforme Duarte de Lima Mayer, neto do fundador do Tivoli, ele endereçou o convite a João Monteiro Rodrigues, arquiteto e com gosto pela música, participante no coro do Teatro S. Carlos, para a obra em conjunto, que terá demorado mais de três anos a fazer. Ao espólio fotográfico da família, o livro juntou imagens da Fundação Calouste Gulbenkian, Arquivo Municipal de Lisboa, Cinemateca Portuguesa e Teatro D. Maria II, além de outros espólios.


[na foto, da esquerda para a direita: João Monteiro Rodrigues, Duarte de Lima Mayer e José Sarmento Matos]

O livro debruça-se sobre a atividade da sala entre 1924 e 1973, arco histórico de 50 anos, onde se processaram muitas mudanças estéticas, sociais e económicas. O Tivoli dedicou-se ao cinema (mudo e sonoro), ao teatro, à música e à dança. Um agente privado (uma família), proprietário de equipamento cultural, levaria artistas para apresentação pública, um retrato de uma época que já não é a nossa, em que havia um grande leque de interesses culturais. A relação entre Frederico Lima Mayer - e, depois, o seu filho Augusto de Lima Mayer, que assumiu a gestão do Tivoli em 1944 - e outros empreendedores culturais, músicos, bailarinos e atores fazia-se com grande informalidade, ainda não havia agentes artísticos a mediar entre o equipamento cultural e o artista. Raul Lino, arquiteto do Tivoli, seria também melómano e apaixonado pela dança. A ideia era criar na cidade um espaço moderno em zona acessível mas afastado dos pólos urbanos tradicionais - Rossio e Chiado (p. 196). No cinema Tivoli, passou também a Fundação Gulbenkian, antes desta ter sede na Praça de Espanha, o que conferiu maior peso simbólico ao cinema, com programação dedicada às artes performativas.

O apresentador, José Sarmento Matos, destacou a história rica do Tivoli, uma instituição privada que ligou arte e economia, pois o empreendimento visou dar dinheiro. O Tivoli surge muito depois da abertura da avenida da Liberdade, o antigo Passeio Público (1879), alameda que o presidente da câmara Rosa Araújo quis marcar dentro da cultura regeneradora. Mas foi o cinema que deu vida à avenida. Isto porque os espaços culturais, de lazer e noturnos e a vida palpitante da cidade ficavam na estreita rua das Portas de Santo Antão, incluindo o Ateneu e a Sociedade de Geografia. A avenida era até então conhecida pelo "lá vai um", de pouco frequentada. Aliás, os distribuidores de cinema não quiseram passar as fitas de cinema no Tivoli, porque ele ficava muito longe da cidade. Depois do Tivoli, nasceriam o Éden (anos de 1930) e o S. Jorge (anos de 1950). O Tivoli apresenta um gosto ligado a salas de espetáculos que Lima Mayer vira no estrangeiro, associado à cultura alemã de Raul Lino. Após a I Guerra Mundial, a classe média elaborada, restrita, de elite, teria o Tivoli como referência nova e cosmopolita.

O livro tem textos de Duarte de Lima Mayer, José Sarmento de Matos, Flávio Tirone, Miguel Simal, João Paes, Leitão de Barros, João Bénard da Costa, Miguel Esteves Cardoso, Duarte Ivo Cruz, Jorge Silva Melo, João de Freitas Branco e Bernardino Pontes, Helena Vaz da Silva e Luís Antunes. Com 295 páginas.

No texto de João Paes sobre a música, ele fala de Pedro de Freitas Branco, da sua fama de condutor de orquestras e dos concertos de música de Ravel (como o Bolero), do seu casamento com a francesa Marie Lévêque, dos concertos sinfónicos do Tivoli (1928-1932), da temporada de 1933-34 (Mónaco e Bélgica) e do convite para dirigir a Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, efetivado em 1935 (p. 205). Nesta página, uma fotografia significativa, com Olga Cadaval, Marie Lévêque e Arthur Rubinstein.

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