No Porto, dia 24 de maio de 2018, pelas 18:00, apresentação de livro "A Emissora Nacional e as Mudanças Políticas (1968-1975)"

quarta-feira, 21 de março de 2018

Manuel Couto Viana

A biografia de Manuel Couto Viana (1897-1970) pode ser vista de dois ângulos: o artístico e o político. Eu prefiro o primeiro, mas não deixarei de falar do segundo.

Antes de eclodir a I Guerra Mundial, ele ligou-se a exposições que marcaram o primeiro modernismo português. Ele fez capas de livros de autores de Viana do Castelo, cartazes de festas - como as apresentadas aqui -, ilustrações em jornais e revistas, decoração de exposições, récitas teatrais e organização de cortejos. Foi ainda editor e redator principal do Notícias de Viana.

Na cultura, a sua campanha mais divulgada foi a do renascimento do uso da indumentária das lavradeiras vianesas, que seria tema muito usado nos seus desenhos e aguarelas.

Casado com a asturiana (de Oviedo) Maria Romana González de Lena y Carreño, ele foi pai de Maria Manuela Couto Viana (1919-1983), Maria Adelaide Couto Viana (1921-1990) e António Manuel Couto Viana (1923-2010). Este último publicou o livro Ferro-Velho: Memórias e Estudos (1990), editado pela Câmara Municipal de Viana do Castelo, com textos de desenhos do seu pai, permitindo melhor reconstituir a biografia de Manuel Couto Viana.

Dos três cartazes aqui presentes sobre a Romaria da Agonia (Viana do Castelo), há uma continuidade de dois deles, porque feitos quase em sequência cronológica, antes e depois da participação do artista na I Guerra Mundial, onde integrou o Corpo Expedicionário Português como alferes miliciano. No primeiro (1912), há quatro figuras típicas isoladas e duas peças de conjunto, ao passo que no segundo (1914), o artista resume a informação a duas peças de conjunto. Uma figura de conjunto é comum nos dois cartazes, na parte inferior deles, o lado festivo. As outras imagens revelam trajes e instrumentos de trabalho.

O terceiro, que dei mais destaque, já é uma produção de 1933, quando o seu programa estético atinge um grau superior: o traje da mulher lavradeira vianesa (com posses na terra). Não tenho conhecimentos para poder indicar uma influência dos Delaunay (em Vila do Conde), junto a Amadeu Sousa-Cardoso e julgo que o programa de António Ferro, de recuperação da cultura popular, ainda não estava no terreno. O traço não é tão saboroso como em Sonia Delaunay mas é igualmente rico em termos de cor e pormenor: o traje visto de frente e de trás, com apontamentos do lenço na cabeça, as chinelas pretas com meia branca, os bordados do avental e as jóias. Aqui, já comentei o traje usado pela filha Manuela, que recupero abaixo, onde também são visíveis os adereços do lenço branco e do pequeno saco, além da imponência das filigranas.


[Maria Manuela Couto Viana com o traje de Meia Senhora, ao lado de Luísa Cerqueira com traje de Mordoma, na Festa do Traje (década de 1950, catálogo do Museu do Traje de Viana do Castelo)]

O lado menos interessante da biografia de Manuel Couto Viana, para mim, é o político. Depois de frequentar engenharia na universidade de Charlsttenburg, em Berlim (1912-1914), e combatido em França pelo exército português, no regresso a Viana do Castelo foi presidente da Associação Comercial da cidade, vereador da câmara municipal em força política monárquica e vice-cônsul de França. Se, em 1933, foi nomeado delegado distrital do Instituto Nacional do Trabalho e Previdência (INTP), em 1945 seria convidado para Secretário da Junta Central das Casas do Povo, em Lisboa.

Um dos seus papéis no INTP foi o de "uniformizar" os sindicatos, alguns ainda ligados à CGT e ao anarco-sindicalismo. Numa operação de manobra, como ele escreveu explicitamente, deu a entender ao sindicato da construção civil, ainda revolucionário, que lhe reconhecia importância real, mas foi falando do seu conceito de sindicato corporativo, aquele que rejeitava a luta de classes e visava estabelecer a paz social. Couto Viana fez eleger para presidente o sócio do sindicato mais reivindicativo e palavroso e que todos pareciam admirar. Rapidamente, o novo presidente perdeu força, porque virara déspota, "próprio do bom socialista", sendo apeado logo depois. O homem do Estado Novo só encontraria resistência séria e organizada na Associação de Classe dos Empregados no Comércio.

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