terça-feira, 27 de dezembro de 2005

A BAIXA DO PORTO

Na manhã do dia de Natal, havia pouca gente nas ruas da baixa da cidade do Porto, agora servida por um excelente transporte, o metro. Saí na estação da avenida dos Aliados e fui até à zona do mercado do Bolhão. Passei pelas ruas Formosa, Sá da Bandeira e Alexandre Braga - e notei algumas lojas fechadas. Para além desta perda, caso da Casa Forte e da confeitaria (pastelaria) Costa - quando a cidade passou por uma reforma de vias e transportes -, as antigas fachadas estavam cobertas por anúncios de festas de fim-de-ano e circos.

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Há não muito tempo, leram-se notícias sobre obras no mercado do Bolhão. Pensei que o comércio em redor retomaria a importância antiga. Afinal, há lojas fechadas, o que eu já notara na rua Santo António, para não falar na rua Mouzinho da Silveira, cuja decadência vem de anos atrás. Os cinemas foram desaparecendo, as duas lojas de discos da Valentim de Carvalho encerraram (apesar do surgimento da FNAC na rua de Santa Catarina), o comércio de pequenas lojas chinesas alarga-se, a população envelhece (e fica mais pobre), os hábitos parecem estar a mudar. Resiste a livraria Latina, onde eu comprei o livro de Beatriz Pacheco Pereira (O Porto e as suas mulheres, preço: €28) e deixei a minha opinião no livro de registos ali colocado. Na outra colina, a Leitura (esquina das ruas de Ceuta e de José Falcão) continua a oferecer uma grande variedade de livros de arte e literatura.

O que se passa com a baixa do Porto? As idas às compras aqueles sítios foram trocadas pelos centros comerciais da Sonae, na periferia da cidade, enquanto o El Corte Inglés não abre ao público em Mafamude (Vila Nova de Gaia), mesmo junto a uma paragem do metro?

9 comentários:

Anónimo disse...

Eu sou lisboeta e no feriado de 8 de Dezembro estive no Porto. A rua de Santa Catarina estava abarrotada de portistas às compras.

Rogério Santos disse...

Obrigado: ainda bem que apanhou uma perspectiva diferente. Observação: os habitantes do Porto dizem-se portuenses; portistas são os adeptos do F. C. Porto.

manueladlramos disse...

Saíu na estação dos Aliados? E não reparou nas obras? (Realmente é um assunto tabu. Porque será? ;-(
Mas para que se saiba: nos Aliados e na Praça está a construir-se um monumento à autocracia. A propósito Beatriz Pacheco Pereira (de que fala) escreveu dois ou três artigos sobres este atentado ao património. Se estiver interessado poderá encontrá-los aqui

Cumprimentos desolados, do Porto.

Jorge Guimarães Silva disse...

Nas três ultimas décadas muita coisa mudou. A cidade está bastante diferente desde o Tempo em que o Rogério Santos rumou à capital. O Porto evoluiu e o centro da cidade ficou “às moscas” – o que é típico das grandes cidades por esse mundo fora. A habitação na periferia é mais barata.
Os cafés típicos da baixa do Porto fecharam e os que ainda restam fecham cedo, por volta das oito horas. Também não devem restar moradores na Avenida, pois todos os prédios ou são de escritórios ou de comércio (bancos principalmente).
Críticas às alterações da Av. do Aliados tecê-las-ei depois de prontas (podem agradar-me ou não).
Já agora, a Casa Forte foi um grande espaço comercial portuense durante mais de meio século teve, nos anos de 1930, uma estação radiofónica (curiosamente a empregada mais antiga nada sabia sobre isso) e encerrou há cerca de dois ou três anos, se não estou em erro. A concorrência do Via Catarina e de outras lojas mais especializadas nos produtos que a Casa Forte comercializava acabaram por levar ao encerramento.

MJE disse...

Não partilho inteiramente da mesma opinião de Manuela D Ramos, o que já lhe comuniquei directamente.
Apesar do valor do seu blog e da campanha em que se empenha quanto à chamada 'destruição' dos Aliados, suponho haver aqui espaço para uma discordãncia em relação à suspeita de que tudo ficará irremediavelmente 'arruinado' com a nova proposta.
Parece-me, todavia, que houve abuso de poder quando se prescindiu de ouvir o parecer do cidadão, trâmite que também deve ser respeitado na apreciação de um plano de Pormenor com o impacto da revitalização da Baixa e da Av da Boavista.
Mas penso que ... nem todo o 'cinzento' é triste, nem toda a calçada é 'sagrada' e também que, já agora ... nem todos os arquitectos são 'deuses' intocáveis [e aqui, jogo com as preocupações da M D Ramos :)].

MJEloy

MJE disse...

Corrijo,
em vez de:
nem todos os arquitectos são 'deuses' intocáveis
leia-se:
nenhum arquitecto é um deus intocável

manueladlramos disse...

Cara MJE, claro que nem todo o cinzento é triste, nem toda a calçada é sagrada e nem toda a obra dos arquitectos é Obra. Que se tenha optado por impôr um projecto contemporâneo descaracterizador num conjunto que está em vias de classificação só mostra a profunda incultura dos responsáveis. Lamentamos isso, assim como lamentamos a erradicação dos jardins e a impermeabilização do solo (apesar de anunciarem uma fonte inspirada na Fonte de Médicis e filas de árvores como naAvenida dos Campos Elísios ). E claro, desde o início nos insurgimos contra esta atitude intolerável do tipo "quero, posso e faço"! E desmascaramo-la impiedosamente, convictamente. Aconselho vivamente a quem estiver interessado a ler o "texto do requerimento inicial do processo cautelar preliminar à acção popular a instaurar contra o IPPAR, o MAOT e o Município do Porto".Ficará elucidado sobre o que aqui está em causa. Dito isto e se o projecto for para a frente, espero que fique o melhor possível!
Cumprimentos

Rui Manuel Amaral disse...

Primeiro. Gostei da sua referência à Rua de Santo António. Há ainda muitos portuenses que ainda não reconhecem aquela rua pela sua actual designação: 31 de Janeiro. E eu gosto disso.

Segundo. Há uma explicação muito simples para os cafés da Baixa fecharem às 20h00: não há ninguém que os frequente depois dessa hora. É triste mas é a verdade. Já estive várias vezes no Ceuta, depois do jantar, sozinho durante horas. Se queremos que os cafés não fechem, temos que os frequentar. Isto faz-me lembrar a angústia da Cristina Fernandes (Dias Felizes: http://last-tapes.blogspot.com/) quando dizia que toda a gente se queixava da falta de cinemas no centro da cidade. Mas a verdade é que os próprios queixosos não iam ao cinema à Baixa. Enfim... Mas quanto aos cafés, ainda há excepções. Por exemplo, e por razões diferentes, o Piolho e o Guarany

lorenzetti disse...

Sinceramente não vou à baixa. Adorava, mas não vou. É um pouco como África: tenho medo e calor.

A Baixa -- não confundir com o Chiado, bem mais elegante, embora ainda pouco sofisticado [e foi daí que veio a foto] -- resume-se a lojas decadentes, ruas estreitas e sujas, com carros e sem espaço para pessoas -- e também sem espaço para parar os carros.

Estou-me nas tintas para a ideia de tirar as lojas chinesas da Baixa. Se não fosse pelos acordos da OMC e a Constituição Portuguesa, bem como as boas relações diplomáticas com a China, era e é, sobretudo, porque as restantes não são muito piores.

Tem de agir-se na Baixa.

Mas essa acção não se resume -- nem pode incluir -- a retirada de lojas chinesas da Baixa. Sobretudo para as colocar numa duvidosa 'Chinatown', que seria ainda pior, arriscando-nos a ter um ghetto povoado ou pelo menos dominado por máfias asiáticas sinistras e perigosas, se não para quem lá fosse, para quem lá vivesse ou trabalhasse.

O que é preciso na Baixa -- como de resto no resto de Lisboa e no resto do país -- é limpeza e qualidade.

Limpar ruas e paredes, pintá-las, ter espaço para carros e pessoas, ter transportes públicos decentes, ter segurança nas ruas, e ter lojas limpas, com boa apresentação, produtos de qualidade, atendimento profissional.

Fim às lojas sujas, mal-cheirosas, mal amanhadas, com tudo amontoado, empregados antipáticos e ignorantes e que muitas vezes nem falam português e muito raramente inglês, fim aos preçários feitos à mão em papel de rascunho com canetas de feltro, colocados na rua mesmo para se tropeçar ou ser atropelado ao usar a estrada, fim às montras de mau gosto, à falta de ar condicionado, aos produtos de plástico ranhoso ou que não interessam para nada, às lojas sem multibanco ou que não aceitam cheques, ou que têm sempre tudo esgotado, ou que fecham aos fins de semana ou nas férias, ou à tarde, ou ao almoço, fim às lojas que não fazem embrulhos de presente ou os fazem mal, e aos empregados que nos atendem como se fosse uma deferência ou favor da parte deles...

Parece que só se consegue algo de jeito indo à Carolina Herrera, à Zegna ou à Vuitton na Avenida da Liberdade [e mesmo assim...].

É isto que é preciso mudar, e isto abrange tanto lojas chinesas, como portuguesas, como indianas. Todas. Em Lisboa e fora dela. E nem vamos falar de cafés, bares ou restaurantes... para não perder a sede ou o apetite.

Não pode ser.

Se conseguirmos isto, podemos considerar-nos civilizados. Para já, vou aos saldos de Londres. É que nem sai mais caro...