Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência manifestada desde 2003.

5.3.10

A ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO A PARTIR DE PLATÃO E GOFFMAN

1. Em A República (VII), de Platão, o filósofo apresenta a alegoria da caverna: "Imagina uns homens numa morada subterrânea em forma de caverna, cuja entrada, aberta à luz, se estende ao longo de toda a fachada; eles estão ali desde a infância, as pernas e o pescoço presos a correntes, de forma que eles não podem mudar de lugar, nem olhar para outro lado senão em frente; porque os grilhões impedem-nos de virar a cabeça [...] Imagina agora, ao longo deste pequeno muro, uns homens com toda a espécie de utensílios, que ultrapassam a altura do muro, de todas as espécies de formas" (diálogo incluído no livro de Gaston Maire, Platão, Edições 70, 1991). Habituados a um mundo de sombras, como reagiriam os prisioneiros se fossem libertados e encarassem a luz do sol? Esta luz certamente os cegaria. Mas, antes: como é que os prisioneiros formavam as imagens das sombras? Que estruturas mentais construiriam?

2. A. esteve duas noites no hospital, a primeira das quais na sala de recobro. Estava impedido de levantar a cabeça, pois senão ficaria com fortes dores de tontura. Mas podia ouvir com muita atenção o que se passava à volta. Num espaço muito perto de si, um paciente gritava com dores, operado a um braço ou perna partida. Ele queria ir-se embora, atirar-se para o chão, morrer. Num espaço que a A. parecia bastante mais distante, um rádio esteve ligado toda a noite, aparentemente em espaço destinado a enfermeiras. Quando ficou de dia e a A. foi permitido levantar-se, este deu-se conta da pequena dimensão da sala de recobro. Os sons nocturnos, a agitação dele e dos doentes vizinhos e o som da rádio vindo de um local discreto fizeram-no pensar num espaço maior. Prisioneiro numa sala como os da caverna de Platão, A. formou do espaço exterior uma construção com pouca relação com a realidade.

3. Erwing Goffman distingue duas realidades sociais, a virtual (a personalidade que lhe imputam aqueles com quem o indivíduo está em contacto) e a real (a personalidade do indivíduo definida pelos seus verdadeiros atributos) (base: Nicolas Herpin, A sociologia americana. Escolas, problemáticas e práticas, Edições Afrontamento, 1982). Goffman define a interacção dos indivíduos numa situação, a partir de terminologia retirada da dramaturgia teatral, visível em A apresentação do eu na vida de todos os dias (Relógio d'Água, 1993). Aqui (p. 161), ele identifica dois tipos de regiões delimitadas: 1) fachada, onde se desenrola um desempenho, 2) bastidor, onde se desenrolam acções ligadas ao desempenho. Mas propõe a existência de uma terceira região, a que chama exterior.

4. Já não se está na situação do prisioneiro de Platão, pois Goffman redistribui os papéis entre actores (e receptores) sem uma hierarquia tão evidente como naquele. Mas destaca a observação e a inferência. Foi o que o doente A. fez aos sons que foi escutando nessa longa noite. Sem ter a verdadeira percepção espacial, ele foi organizando as possíveis hierarquias de distância, mais próximo a Platão, mas tacteou para traçar a linha entre fachada ou palco (ele e o outro paciente) e o bastidor (as conversas curtas e repetitivas dos enfermeiros sobre o estado de saúde dos doentes).

Sem comentários: