Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência manifestada desde 2003.

25.1.11

CIDADES - 8

Renato Miguel do Carmo propõe uma viagem ao mundo através do Google Earth, onde chega a Nova Iorque, Cidade do México, Lisboa. Não sai da cadeira nem vai para outra divisão da casa, salta de cidade em cidade. Elas mostram-se planas e geométricas, a duas dimensões.

O autor lembra alguns homens que há um século começaram a ver a cidade de cima, como Georg Simmel, Louis Wirth, Ernest Burgess. A cidade é apresentada como organismo vivo que molda uma forma a partir da auto-selecção de diferentes campos de força (indivíduos, grupos, empresas, bairros) (Carmo, 2008: 27). No começo do século XX, a cidade de Chicago, observada por Burgess, explodia de população vinda de outros países e continentes, amontoada em diversos bairros. Mas uma certa lógica persistia face ao aparente caos, com a cidade a transformar-se em organismo capaz de construir áreas específicas para grupos oriundos de uma mesma região ou país. Os indivíduos diferenciam-se no espaço e juntam-se  aos que lhe são próximos (sociais, étnicos, religiosos). A expansão das cidades gera uma geometria quase invariável, uma estranha noção de ordem.

Apesar de círculos ou rectângulos em que se fecham os indivíduos, existe uma grande capacidade de circulação. Renato Miguel do Carmo fala da mobilidade diária (residência, emprego, escola, lojas) e depreende que a geometria inclui a circulação. E outra coisa: a individualização, que encontra em Simmel. Junta o descompromisso do sujeito, com atitudes generalizadas de indiferença, reserva e anonimato. A evidência do estrangeiro e do não possuidor de terra - por não preso ao lugar: bairro, rua, amigos - reforça a circulação, o passageiro permanente. O autor cita Castells, que indica que os lugares que ficam presos à cidade são os que se perderam do mundo, povoados por populações marginalizadas (p. 35).

Desconto a perspectiva pós-futurista de Castells e a poesia do conceito de "não lugar" em Marc Augé, que Carmo aceita, e penso na dicotomia entre ficar e partir. A partida pressupõe lugar para ficar. O estar a procurar uma cidade por meio virtual não inibe a necessidade de chegar ao lugar não conhecido. Aliás, estimula. A viagem prepara-se diante de um papel, de um itinerário encontrado na internet e reconstituído no percurso. A visita dá densidade à porosidade que é o planear a viagem.

Leitura: Renato Miguel do Carmo (2008). "Deambulando pelos duplos da cidade: do estrangeiro ao construtor de lugares". In Renato Miguel do Carmo, Daniel Melo e Ruy Llera Blanes (coord.) A globalização no divã. Lisboa: Tinta da China, pp. 25-42

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