Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência mantida desde 2003.

29.8.16

A Rádio Renascença

Até meados da década de 1960, dos programas mais escutados de Rádio Renascença destacavam-se Novos Emissores em Marcha, com discos pedidos por correspondência, Enquanto For Bom-Dia, Auditório, Quando o Telefone Toca e Diário do Ar. A programação parecia obedecer cada vez mais a uma grelha comercial. O fundador da estação, Monsenhor Lopes da Cruz, faleceu em 1969. Sucedeu-lhe monsenhor Sezinando Rosa, acompanhado por dr. Tomás Andrade Rocha, padre Américo Brás da Costa e Rogério Leal, com uma nova política de contratação: indivíduos com experiência profissional em rádio, casos do diretor comercial (Albérico Fernandes), da informação (Carlos Cruz) e de programas (padre António Rêgo). A partir de março de 1970, a Renascença passou a emitir 24 horas por dia.

No âmbito das produções independentes, combinando informação e cultura, com algum empenho político-social, surgiram os programas 23ª Hora (1959-1974), Página Um (1968-1975), Tempo Zip (1970-1972) e Limite (1973-1974). Novas áreas temáticas foram o desporto motorizado (1973) e programação religiosa (1968). Dos programas de informação mais escutados, o noticiário 19.Zero-Zero era também vigiado pela censura, pois o recurso a reportagens em direto permitia informação que não passava previamente pela censura. As suspensões de Página Um e Tempo Zip em setembro de 1972 e a liberdade nos noticiários levaram à nomeação de uma comissão de censura nos dias antes de 25 de abril de 1974. A autora do livro, em vez de censura interna, prefere chamar cultura de cautelosa gestão de informação.


O deflagrar do conflito na Renascença a seguir a 25 de abril de 1974 relaciona-se com a proibição de cobertura jornalística da chegada de exilados políticos (Soares, Cunhal). Outra causa foi a leitura de um telegrama de agência noticiosa comunista por Luís Paixão Martins. A greve começou a 30 de abril de 1974. O diretor comercial Albérico Fernandes procurou assegurar a transmissão dos noticiários, mas não conseguiu. A greve acabou à meia-noite de 31 de março e os grevistas impuseram o afastamento do conselho de gerência, a readmissão dos locutores Rui Paulo da Cruz e Rui Pedro e o fim da suspensão dos locutores Adelino Gomes e João Paulo Guerra, decidida em 1972. Um comentário ao ataque palestiniano sobre atletas israelitas na aldeia olímpica de Munique motivara a suspensão dos programas a que os últimos dois estavam ligados. No começo de luta, os trabalhadores eram apolitizados e as suas reivindicações eram laborais. Com o decurso da luta, começou a existir um alinhamento partidário e a relação entre trabalhadores e administração alterou-se.

Depois, houve a tomada da redação por trabalhadores do setor radiofónico, designados por ocupantes, a luta pelo controlo de emissores no Porto e em Lisboa, com repercussão no transmissor da Lousã, uma radicalização crescente das partes envolvidas, culminando na destruição à bomba do emissor da Buraca, a 7 de novembro de 1975.

O livro de Paula Borges Santos faz uma análise muito em pormenor e em profundidade do período marcelista (1968-1974) e da revolução (1974-1975). De ler os capítulos sobre a Igreja Católica, a sua condução e as principais questões colocadas a uma igreja que defrontou sucessivamente um regime ditatorial e uma revolução. Neste segundo período, a própria propriedade da Rádio Renascença pela Igreja Católica chegou a estar em causa. O cardeal D. António Ribeiro emerge como a figura central na resolução adequada.

Leitura: Paula Borges Santos (2005). Igreja Católica, Estado e Sociedade 1968-1975. O Caso Rádio Renascença. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 269 páginas. Prémio Fundação Mário Soares 2004

3 comentários:

Mister Vertigo disse...

Nos anos setenta passava os dias a escutar a Rádio e muito em particular a Radio Renascença e o FM do Radio Clube Português, recordo-me de programas que escutava diariamente antes e depois do 25 de Abril, como o Página 1 e o célebre noticiário das 19 horas que refere, sempre muito bom, ainda me lembro quando chegava o momento de o "Página Um" ir para o ar e "levarmos" apenas com a denominada música erudita, devido a uma suspensão do programa; já na 23`Hora descobri o Jazz, com os célebre "5 minutos de Jazz" do José Duare.
No que diz respeito à emissão de discos pedidos, ainda pedi alguns, ao senhor Matos Maia e ganhei um disco no programa do António Sérgio, "Encontro para Dois", o outro premiado foi uma jovem do Alentejo, que até me escreveu:).
A Radio Renascença, nesses anos, era uma das Rádios que emitia uma selecção musical, no FM, excelente e com magníficos serviços noticiosos.
Este livro da autoria da Paula Borges Santos, por aquilo que o Professor Rogério Santos refere neste seu artigo, revela-se extremamente interessante.
Obrigado por manter este espaço.

Luís Paixão Martins disse...

"Outra causa foi a leitura de um telegrama de agência noticiosa comunista por Luís Paixão Martins". Bom dia, Rogério Santos e saudações pela persistência do meu caro amigo neste interessantíssimo blogue. Ainda não comprei o livro, mas a partir da sua recensão gostava de prestar um pequeno esclarecimento sobre a frase em que sou referido. 1. No 25 de abril, os militares tomaram conta da rádio do Estado (EN) e da rádio nacional privada (RCP), mas, cautelosamente, não intervieram na rádio da Igreja (RR) - o que tem interesse acrescido neste momento em que se discute o IMI dos prédios da Igreja. Isto significa que a RR continuou, nos dias da Revolução, a ser dirigida pela mesma administração nomeada no período do Estado Novo. 2. O problema da "leitura do telegrama" tem a ver com isso. Tratava-se de facto de um telex da agência noticiosa Nova China (que agora se chama Xhinua), que eu citei em sucessivos noticiários, mas a reação da administração da RR não foi provocada por ser tratar de uma "agência comunista" (se tivesse sido a notícia da mesma agência sobre um eventual terramoto em Xangai não haveria problemas). O que estava em causa era o facto de que esse telex continha a tomada de posição do Governo de Pequim (como então se designava Beijing) sobre o nosso 25 de abril (a Nova China era e a Xinhua continua a ser uma agência oficial) e que essa posição foi considerada "insultuosa" para com os líderes do regime deposto. 3. Enfim, a complexidade da situação que se vivia na RR foi resolvida, antes do 1º de maio de 1974, com a entrada para um novo "Conselho de Gestão" de um representante do Movimento das Forças Armadas. Provisoriamente, afinal, como os acontecimentos vieram a demonstrar nos anos seguintes. Aceite um abraço do lpm

Rogério Santos disse...

Caro Luís Paixão Martins, muito obrigado pelo seu útil comentário. Um abraço.