Interrupção

O blogue tem sido muito pouco atualizado. O trabalho de investigação e outros motivos obrigam a uma concentração de esforços num só sentido. Obrigado pela preferência manifestada desde 2003.

31.8.16

Sobre a Aginter Presse

João Paulo Guerra cobriu, para Rádio Clube Português, o primeiro de maio de 1964. Na praça dos Restauradores (Lisboa), a polícia carregou nos manifestantes e um esquadrão da Legião Portuguesa (Centuriões) apareceu e disparou, matando um dos manifestantes, David de Almeida Reis. A polícia apoderou-se do gravador do jornalista, impossibilitado de dar a ocorrência (se a censura permitisse a transmissão). Já depois de 1974, a 22 de maio, ao serviço da Emissora Nacional, João Paulo Guerra reportou uma operação militar (marinha) na rua das Praças, 13 (Lisboa), destinada a recolher documentação de uma agência noticiosa (Aginter Presse), fachada de um grupo terrorista internacional.

O jornalista juntou estes dois factos que viu e procurou noticiar e criou o centro do livro Romance de uma Conspiração. Portugal no Centro de uma Intriga Internacional (2010, Oficina do Livro). A personagem principal é Pedro Costa, um adolescente que passeava com o pai na praça dos Restauradores, no momento exato dos acontecimentos de 1964. Na ficção, o escritor acrescenta um segundo morto, o pai de Pedro Costa, tipógrafo em O Século, expulso anteriormente do ensino estatal por oposicionista. Pedro Costa seguiria para a marinha e como segundo tenente comandou o assalto às instalações da Aginter Presse.


As outras personagens principais seriam a mãe, arquivista de segunda classe na Emissora Nacional que recolhia e classificava recortes que serviriam o programa A Voz do Ocidente, programa  diário da Emissora Nacional das 23:00 à 1:00, e Jacques Mercier, o franciu com quem a mãe iria viver depois de se separar do marido, no final do livro desvendado como Cleubert Garin, aliás Ralph, aliás Brug, aliás Morgan, o C11 no código de operações da Aginter Presse ou OT - Ordre et Tradition ou OACI – Organization d’Action Contre le Communisme International. A Aginter Presse era a fornecedora de informação do programa A Voz do Ocidente. O desempenho de Pedro Costa, desde o dia em que o seu pai foi morto até ao encontro com o "padrasto" Jacques Mercier, aliás Cleubert Garin, foi procurar saber mais dessa fictícia agência noticiosa. No seu currículo real, a OACI foi responsável pelo assassinato de Eduardo Mondlane e por uma tentativa de golpe de Estado que deporia Mobutu. Este, como represália, fechou a embaixada portuguesa em Kinshasa, capital do Zaire (atual República Democrática do Congo). Em termos de informação e contrapropaganda, Portugal ficaria privado de um espaço vital para a defesa de Angola, pelo que a Aginter Presse foi recrutada para esses serviços, pagos por um ministério português.

Há uma outra personagem, Margarida, filha - dentro da ficção - do coronel Matias Brandão, militar muito ativo ao serviço do ELP, força de extrema-direita após abril de 1974, e namorada durante algum tempo de Pedro Costa. Outras personagens são verdadeiras, como o comandante Abrantes Serra, que chefiou o forte de Caxias no período imediato a abril de 1974. O major Menino Vargas, responsável pelo serviço de análise documental no reduto sul do forte, aparece no romance como Pedro Costa, que começaria a ler e a classificar o arquivo da Aginter Presse. O leitor atento ao arquivo da Aginter Presse foi, na realidade, António Graça, autor de dois relatórios sobre a agência noticiosa fachada de atividades terroristas, e que María José Tíscar aproveitou para escrever o livro A Contra-Revolução no 25 de Abril. Os “Relatórios António Graça” Sobre o ELP e a Aginter Presse ((2014, Edições Colibri). No romance, a Aginter Presse tornou-se a obsessão do jovem militar, entretanto passado à disponibilidade, enveredando por outra atividade, mas sempre na busca da verdade sobre a morte do pai e das ligações perigosas com grupos extremistas como a OACI.

Não posso etiquetar o livro como romance histórico, mas ele é um relato próximo da realidade, com personagens de ficção. Onde espiões e bandidos se cruzam em momentos cruciais da história portuguesa. João Paulo Guerra não esconde as suas simpatias políticas, com relevo para as forças revolucionárias que emergiram em abril de 1974. Apesar disso, a sua personagem principal, um homem, reflete as contradições da revolução, com críticas a uma deriva ao longo do período designado por PREC. Se se quiser, à oposição entre o autoritarismo anterior e a anarquia posterior. Pedro Costa é um homem com dúvidas (continuar ou não com Margarida, permanecer ou não com Telma) mas com princípios que herdou do pai - a literatura, a cultura, a independência. Já dito acima, o universo profissional retratado no livro, para além das personagens militares, necessárias para o enquadramento, é a rádio (a mãe) e os jornais (o pai), as grandes profissões do autor deste livro.



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