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sábado, 26 de abril de 2008

NOTAS PARA UMA AULA DE TEORIA DA COMUNICAÇÃO (7)


[o anterior texto da série foi escrito a 12 de Março]

Para John Hartley (Comunicação, Estudos Culturais e Media, 2004: 110), os cultural studies ingleses combinam estruturalismo, marxismo e feminismo em termos intelectuais e estudos literários, sociológicos e antropológicos quanto a domínio disciplinar. Continua Hartley: foram conduzidos diálogos com feministas (dada atenção a mulheres ignoradas nas subculturas), sociólogos (problemas de método e generalização), teóricos psicanalíticos (identidade e subjectividade), antropológicos (método etnográfico), escritores pós-coloniais (multiculturalismo), foucaultianos (debates sobre o poder), políticos (capacidade dos estudos culturais intervirem na formação de políticas) e activistas culturais (intervenção cultural).

Na sua monografia sobre o tema, Armand Mattelart e Érik Neveu (Introdução aos cultural studies, 2006: 35) chamam a atenção para as subculturas juvenis, objecto de muitas monografias desde 1970: bikers, hippies, mods, punks, rastas, rockers, ruddies, skinheads, teddy boys. No mínimo, são estilos de moda e de penteados; no máximo, são estilos de vida (e de expressão cultural, como no caso da música), muitos deles contemporâneos entre si, remetendo para diversas modalidades identitárias: continuidade, ruptura, revivalismo ou reinvenção.

Um dos autores mais significativos foi Dick Hebdige, que trabalhou as subculturas juvenis de Birmingham, relacionando subculturas e classes sociais no pós-II Guerra Mundial, através do diálogo entre a juventude negra (rasta) e branca, como os teddy, mods e punks (Subcultura. El significado del estilo, 1979/2002). Tendo como arquitectura teórica o pensamento de autores como Althusser, Gramsci, Barthes e Jean Genet, Hebdige vê a subcultura do ponto de vista simbólico dentro da cultura industrial tardia.

Veja-se o que ele pensa sobre o reggae e o movimento rasta (Hebdige, 2002: 49-62), inspirado na experiência específica dos negros da Jamaica e da Grã-Bretanha, que possuíam uma cultura oral local e uma apropriação da Bíblia, com elementos pentecostais, a posse da Palavra. O reggae dirige-se a uma comunidade em trânsito (movimento rastafari, o tema do regresso a África), reflexo inverso da sequência histórica das migrações – África-Jamaica-Grã-Bretanha. É a ideia de restituição à África deportada, ao continente em deriva. A África tornou-se um continente mental ilimitado no extremo oposto ao da escravatura. Os rastafaris acreditariam que a ida de Hailé Selassié para o trono da Etiópia em 1930 foi o cumprimento das profecias bíblicas e seculares sobre a iminente queda da Babilónia (as potências coloniais brancas) e a libertação das raças negras.


Em geral, a primeira geração de imigrantes das Antilhas tinha espaço cultural em comum com os vizinhos brancos da classe operária, o que eliminava possíveis antagonismos abertos. Mas as crianças negras nascidas e educadas na Grã-Bretanha sentiam-se menos inclinadas que os seus pais a aceitar o estatuto inferior e a estreiteza de opções. O reggae cristalizou-se noutra cultura, noutro conjunto de valores e suas definições.

Já o núcleo de estilo teddy boy encontrou-se nas novas cafetarias britânicas, sonhando com a América, um continente imaginário de westerns e gangsters, luxo, glamour e automóveis (Hebdige, 2002: 72-75). O desterro fantasioso do teddy boy era-o porque estava excluído e afastado da classe trabalhadora respeitável, condenado praticamente a uma vida de trabalho não qualificado. Os teds viram-se envolvidos em ataques injustificados contra a segunda geração de negros das Antilhas e protagonizaram distúrbios nas ruas inglesas em 1958.


Por seu lado, a relação com os beatniks não foi pacífica. Se o beatnik cresceu numa cultura instruida, interessando-se pela vanguarda (pintura abstracta, poesia, existencialismo francês) e adoptando um ar cosmopolita de tolerência boémia, o ted era proletário e algo xenófobo. Conquanto existisse alguma proximidade, os mods distinguiam-se dos beatniks. No princípio dos anos 1960, os mods foram os primeiros numa larga lista de culturas juvenis que cresceram perto dos jovens das Antilhas (Hebdige, 2002: 76-77). O mod era o típico dandi da classe baixa, obcecado pelos mais pequenos detalhes de vestuário. Ao contrário dos teddy boys, que se faziam notar pela insolência, os mods eram de aspecto mais subtil e contido: usavam roupas aparentemente conservadora e de cores respeitáveis. Usavam cabelo curto e limpo, com a ajuda de laca, ao contrário da brilhantina dos rockers viris.

Dois outros grupos, mais radicais são identificados no mesmo estudo de Hebdige( 2002: 80-93): skinhead e punk. Os skinheads surgiram em finais dos anos 1960, proletários mas igualmente puritanos e chauvinistas, vestindo com um visual de delinquente – cabeça rapada, roupa negra, cintos, correias -, enquanto o punk se tornava o porta-voz dos jovens brancos do lumpen- proletariado, usando roupa suja e indecorosas blusas transparentes e correntes e com uma linguagem agreste. A retórica do punk, a sua fixação com a classe e a distinção, pareciam desenhadas para debilitar o intelectualismo da geração anterior dos músicos de rock. A identidade étnica branca centrava-se, em modo iconoclasta, nas concepções tradicionais do britânico (a Rainha, a bandeira nacional, como a banda Sex Pistols em God save the Queen). Mas havia uma diferença – o reggae pretendia uma inalcançável e imaginária África, os punks viviam ligados a uma Grã-Bretanha sem expectativas de futuro.

Claro que Hebdige subestimaria o peso da cultura comercial na apropriação. O punk, para além da origem proletária, como diz esse autor, foi uma mistura de estratégia cultural vanguardista, marketing e transgressão da classe trabalhadora perante a restrição de consumo sentida pelos jovens, denotando a ideia de grupos de produtores de significados e de fãs (fanáticos).


Mais tarde, quando os cultural studies se transferiram para outros espaços geográficos e académicos, como a Open University de Londres, novas subculturas e estilos de vida e de música eram estudadas. Por exemplo, Keith Negus abordaria o rap ou hip-hop, os bens culturais ou simbólicos por estes produzidos e as estruturas organizacionais onde eles eram produzidos, numa lógica de produção e consumo associado ao lazer (ver David Hesmondhalgh, Media organisations and media texts: production, autonomy and power, 2006: 73).

terça-feira, 28 de setembro de 2004

SOBRE OS CULTURAL STUDIES

Os franceses Armand Mattelart e Érik Neveu têm escrito sobre o movimento dos cultural studies, de origem inglesa.

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A primeira empresa sobre a matéria que eu conheço deles foi publicada na prestigiada revista Réseaux, em Novembro-Dezembro de 1966, com a elaboração de um bem fundamentado dossier, aliás indicado na capa. São quase 40 páginas de análise, assinada pelos dois professores, a que se seguem outros textos escritos por Phil Cohen, Dick Hebdige, David Chaney e Raymond Williams (que polarizariam algumas das ideias principais dos estudos culturais) e Brigitte Le Grignou.

Agora, em edição francesa saída o ano passado e prontamente traduzida para o castelhano (2004), os dois autores alargam o estudo desta importante corrente de investigação inglesa mas que se estendeu pelo mundo, caso dos Estados Unidos, Austrália e Brasil (e deste para Portugal, através de Isabel Ferin). É sobre este último texto de Mattelart e Neveu que basearei parte substancial da minha aula de hoje de Públicos e Audiências, na Universidade Católica Portuguesa, a partir das 8:30.

Um centro de investigação em Birmingham

Os trabalhos dos fundadores dos cultural studies tinham em vista estudar o impacto das operações de renovação urbana do East End, o nascimento das novas cidades e os efeitos desestruturantes sobre a sociabilidade popular, com a degradação de espaços de convívio – ruas, praças, jardins, pubs – e a alteração da ecologia das relações de vizinhança, parentesco e geração.

Surge um segundo objectivo, o das relações entre gerações, as formas de identidade, as subculturas específicas, com estudos sobre a crise política e económica nos anos de governo de Thatcher e da desindustrialização massiva dos anos 1980. O pânico moral provocado pelas lutas entre mods e rockers levou ao estudo da juventude e da autoridade, em Cohen (1972). Por seu lado, Hebdige analisou o quotidiano dos punks e dos mods (1979) e o valor simbólico atribuído à scooter italiana (1988), enquanto Corrigan descreve a ociosidade dos adolescentes que permanecem dentro da cidade sem terem nada para fazer (1993). Resumindo: o interesse dado às práticas culturais levou os investigadores a ver a diversidade dos produtos culturais consumidos pelas classes populares.

Birmingham será um dos primeiros centros a atrair a atenção das ciências sociais sobre áreas como a publicidade e a música rock. Mas serão os media audiovisuais e os seus programas de informação e entretenimento os que merecem mais estudo. O destaque vai para o texto de Hall (codificação e descodificação, escrito em 1973, e a que voltarei amanhã), em que o funcionamento de um meio não se limita à transmissão mecânica (emissor e receptor) mas dá forma ao material discursivo (discurso, imagens, relato). Aqui, intervêm dados técnicos, condições de produção e modelos cognitivos. A noção de descodificação indica que os receptores têm um estatuto social, uma cultura. Escutar um mesmo programa não quer dizer ter uma interpretação única.

Os cultural studies são o exemplo de uma escola fecunda, porque: 1) tornaram a cultura um terreno de acção e erudição, 2) combinaram investigação e compromisso, 3) articularam disciplinas distintas como a análise literária, a etnografia e a sociologia do desvio.

Notam-se, porém, algumas debilidades nesta corrente. Por exemplo, estão pouco familiarizados com a sociologia, incluindo a da cultura, e a economia. Não vêem a criação cultural como um espaço de concorrência e interdependência entre produtores, em que é fundamental a noção de campo (de Bourdieu). Por outro lado, o aparecimento da revista Media, Culture & Society, lançado por investigadores de Leicester e Londres, defenderá o estudo da economia (política), por oposição a Birmingham.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

ESPAÇOS ALTERNATIVOS CULTURAIS EM LISBOA

O projecto de mestrado de Luísa Fernández Falcon, Espaços Alternativos. O seu Lugar na Cidade de Lisboa, hoje defendido na Universidade Nova de Lisboa, abordou as artes performativas na actualidade. O centro do projecto foi a comparação em oposição de espaços oficiais (Gulbenkian, CCB, Culturgest) e alternativos (Zé dos Bois, A Capital, Casa dos Dias d’Água). O tempo de análise foi o de três décadas (1970 a 2000). Nesse sentido, referenciou os movimentos teatrais pós-1974, como Cornucópia, Comuna, Artistas Unidos. Destacou em 1994 a Galeria Zé dos Bois (ZDB), no Bairro Alto. Mas distinguiu igualmente as periferias da cidade, como a Malaposta (Olival de Baixo), Ginjal (Cacilhas) e Fábrica da Pólvora (Barcarena), além do Teatro da Garagem. Depois surgiriam a Escola de Artes Visuais Maus-Maus e Alkantara.

A definição de alternativo constrói-se num duplo sentido: 1) negativo, a ideia de oposição, 2) positivo, valorizando a atitude independente ou original e realçando o papel dos fanzines (hoje: ezines) como meios de divulgação da cultura alternativa. Destaca os limites entre o alternativo e o institucional: as instituições apoiam os criadores inovadores; a presença dos criadores valoriza o trabalho das instituições. Para a investigadora, os espaços alternativos, se bem sucedidos, podem entrar em ruptura (dissidência) ao tornarem-se "oficiais".

O texto fala de subculturas (a partir de Dick Hebdige) e o sentimento de pertença a uma comunidade relacionada com o desejo de exclusividade. Mas, refere, se os projectos ou espaços alternativos começam a ganhar visibilidade, aumentam os recursos económicos e arranjam projectos mais ambiciosos. Igualmente, o texto aborda o papel dos responsáveis dos espaços, distinguindo nacionais e estrangeiros.

A autora, agora mestre em Práticas Culturais para Municípios, observa que os espaços alternativos são estruturas de equipas pequenas com um grande capital de entusiasmo, acolhendo uma grande diversidade de iniciativas e eventos (artes plásticas, concertos, cinema, conferências, workshops, festas) voltadas para públicos específicos e artistas participantes [ver pequeno vídeo com a posição da autora].

A investigação de Luísa Fernández foi co-orientada pelos professores António Pinto Ribeiro e António Camões Gouveia. No final das provas públicas, foi aconselhada a publicação do seu trabalho sob a forma de artigo.


sexta-feira, 14 de maio de 2010

SUBCULTURAS

Até à década de 1920, não houve metodologias de análise das subculturas. Então, um grupo de sociólogos e criminólogos de Chicago começou a recolher dados sobre os gangues de rua de jovens e grupos marginais. A observação participante foi a fonte de algumas das descrições mais interessantes e sugestivas de subcultura.

As subculturas são geográficas e biográficas, e transmitem-se aos membros individuais de uma subcultura através de diversos canais: escola, família, emprego, meios de comunicação. No presente, os meios de comunicação desempenham um papel crucial. Por um lado, há leituras bloqueadas excluídas da rádio, televisão e imprensa. Por outro lado, surgem interpretações e significados preferidos, favorecidos e transmitidos pelos canais autorizados de comunicação de massa.

As subculturas representam o ruído, a interferência na sequência ordenada dos acontecimentos, por vezes expressam conteúdos proibidos (consciência de classe, diferença) nas formas proibidas (transgressão dos códigos de conduta e etiqueta, infracção da lei).

As subculturas representam desafios simbólicos à ordem simbólica e o seu surgimento vem acompanhado de uma onda de histeria na imprensa. A histeria oscila entre o medo e o fascínio, entre o escândalo e o entretenimento. O que atrai a atenção inicial dos media são as inovações estilísticas da subcultura. Após a amplificação, esta acaba com a propagação e desactivação do estilo cultural. A subcultura pode transformar-se em pose comercializável, à medida que o seu vocabulário (visual e verbal) se torna mais familiar. A recuperação passa pela conversão de signos culturais (vestuário, música) em objectos produzidos em massa. Passa igualmente pelo etiquetar a conduta dos grupos como desviante pela polícia, media e sistema judicial.

Leitura:
Dick Hebdige (1979/2004). Sucultura. El significado del estilo. Barcelona, Buenos Aires e Mexico: Paidos, pp. 103-130. Ler também aqui.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

NOTAS PARA UMA AULA DE TEORIA DA COMUNICAÇÃO (8)


A pesquisa etnográfica desenvolveu-se tendo em atenção os benefícios da participação individual do investigador, que lida com problemas do estudo de culturas alienígenas. Desde há muito que o trabalho etnográfico se tornou uma das ferramentas essenciais da sociologia. Teóricos como Schutz e Cicourel foram referenciais na mudança de interesse dos métodos estatísticos quantitativos para modos qualitativos de questionar documentos, objectos e registos, assim como a observação directa e as entrevistas mais geralmente associadas com a etnografia. O interaccionismo simbólico possibilita a medição das transacções entre grupos separados, como as agências públicas e os seus clientes. O realce do interaccionismo simbólico permite o registo empírico da acção e interpretação social.

Um elemento fundamental na investigação dos cultural studies tem sido analisar e medir as relações complexas entre formas representacionais e ideológicas e a densidade ou “criatividade” das formas culturais “vivas”. Mas a corrente dos cultural studies, para além do interaccionismo simbólico, tem origens no weberianismo, na fenomenologia e na antropologia, visível no trabalho inicial de Phil Cohen (cultura da classe trabalhadora e cultura juvenil em East End), mas também nos trabalhos posteriores de Paul Willis (reprodução cultural, educação e processo laboral), Angela McRobbie (socialização do género, patriarcado e cultura juvenil), Dorothy Hobson (estruturas da experiência doméstica feminina e discursos mediáticos), Roger Grimshaw (estruturas da masculinidade, ideologia e família).

As formas etnográficas iniciais associaram-se com o trabalho das subculturas, casos de Phil Cohen e dos textos mais etnográficos de David Hebdige, P. Willis e P. Corrigan. Mais importante, o método foi sendo generalizado e tornou-se central na investigação. Em todos esses estudos tem sido possível estabelecer uma relação particular entre teoria e etnografia.

A presença mais forte dos interesses feministas no projecto etnográfico dos cultural studies daria voz a uma experiência pessoal de mulheres e raparigas estudadas na investigação.

Leitura: Roger Grimshaw, Dorothy Hobson e Paul Willis (1980/1996). "Introduction to ethnography at the Centre". In Stuart Hall, Dorothy Hobson, Andrew Lowe e Paul Willis (ed.) Culture, Media, Language. Londres e Nova Iorque: Routledge, pp. 73-77