Blogue dedicado a pesquisas e leituras no domínio das indústrias culturais (imprensa, rádio, televisão, internet, cinema, vídeo, videojogos, música, livros e centros comerciais) e das indústrias criativas (museus, exposições, teatro, espectáculos). Blogueiro desde 26 de Dezembro de 2002. Endereço electrónico: Rogério Santos.

31.7.06

BERTA CARDOSO NO MUSEU DO FADO

Hoje, vou falar do Museu do Fado e da exposição ali patente, sobre a fadista Berta Cardoso (1911-1997).



Foi o irmão dela, Américo dos Santos, guitarrista amador, que a levou para a canção em 1927, tinha ela apenas 16 anos. Estreou-se no “Salão Artístico de Fados”, ao Parque Mayer. A passagem dos anos 1920 para a década seguinte, marcada pela ditadura e pela instauração da censura, assistiu igualmente ao aparecimento de publicações sobre o fado, dando conta das actividades de intérpretes, músicos, autores e compositores, com apontamentos biográficos, e com promoção de edições discográficas recentes e anúncios de espectáculos e digressões pelo país e fora dele.

Berta Cardoso seria capa de uma dessas revistas, logo em Outubro de 1930, a Guitarra de Portugal. Aí se escreveu que “chegou, cantou e venceu. E venceu sem esforço e sem exageros porque possui todos os requisitos necessários para ser cantadeira e triunfar”, com um “conjunto de dons próprios, que a impuseram sem favoritismos”.

A fadista actuava em situações distintas, que iam do teatro de revista a operetas, dos cafés aos salões de dança. Logo em 1929, aos 18 anos, actuou no teatro Maria Vitória, na revista Ricócó. Dois anos mais tarde, foi a Madrid gravar para a editora Odeon, acompanhada por Armandinho (Armando Augusto Freire) e Georgino de Sousa. Os seus êxitos “Lés a lés” e “Fado da Azenha” rapidamente se esgotaram.



Em 1932, pertencia ao elenco privativo do “Salão Jansen”, espaço prestigiado na rua António Maria Cardoso, em Lisboa. Nesse mesmo ano, foi ao Brasil (Rio de Janeiro, S. Paulo, Santos e outras cidades), no elenco da “Companhia Maria das Neves”, protagonizada por Beatriz Costa, e obteve substancial êxito.

A fadista, pioneira na internacionalização da música urbana lisboeta a par de Ercília Costa, voltaria a sair do país no ano seguinte, agora em direcção a África (Angola, Moçambique e Rodésia). O aparecimento de companhias fadistas profissionais, nessa época, facilitava a organização de espectáculos de grande peso.

Se a ligação ao teatro de revista se manteve ao longo dos anos, ela preferiu ser cantadeira, actuando no Café Luso, em 1936, e no Retiro da Severa, em 1937, ao qual pertencia como elemento privativo, isto é, com contrato de actuação. Em 1939, voltava ao Brasil, na companhia de outros nomes famosos do fado, como Alfredo Marceneiro. Antes, gravara actuações no teatro Variedades e no Retiro do Colete Encarnado, que seriam incluídas no filme de António Lopes Ribeiro, Feitiço do império, estreado em 1940. Nas décadas de 1930 e 1940, Berta Cardoso continuou a gravar, agora para a etiqueta Valentim de Carvalho. E associou-se também a anúncios na imprensa.



Na altura, havia uma discussão em torno do fado e da sua importância social ou não. Luiz Moita publicava palestras sobre o fado, emitidas na Emissora Nacional (O fado, canção de vencidos, original de 1936), a que respondeu outro autor, Victor Machado, com uma antologia de biografias (Ídolos do fado, original de 1937). Obviamente, Berta Cardoso estava integrada neste grupo: “uma cantadeira de mérito inconfundível”.

Os anos seguintes continuariam a ser de grandes sucessos, e que passariam pela televisão, já nos finais da década de 1950. Mas a exposição patente no Museu do Fado esclarece melhor os seus passos, com recurso a cartazes, excertos de filmes e sons que ilustram a importância desta mulher no panorama do fado.




Museu do Fado

Para além da magnífica exposição permanente, onde se observam a reconstrução de ambientes (sala onde se canta o fado, oficina de construção de guitarras), exposição de violas e guitarras, cartazes e discos, este espaço em Lisboa tem-se dedicado, desde 1998, a exposições temporárias, que desvendam melhor o fenómeno deste tipo de música urbana, hoje despojada do lastro ideológico mantido pelo antigo regime político. Assim, em 1998, decorreu a exposição sobre a imagem do fado na arte portuguesa, enquanto que, em 1999, uma exposição de xailes mostrou a exuberância estética dos adereços das cantadeiras.

No mesmo ano, e em colaboração com o Museu da Música, patenteou-se um conjunto de guitarras portuguesas. O ritmo de exposições manteve-se nos anos seguintes: em 2000, uma exposição de Carlos Paredes (Estar com Paredes) e um levantamento do fado na caricatura (de 1870 à actualidade); em 2001, Lisboa como voz de fado (1830-1930, incluindo a mítica Severa), de Portugal ao Brasil (rotas do fado no Atlântico, ou a sua internacionalização) e os Azulejos, o fado e a guitarra portuguesa (com colóquio internacional), além de um Roteiro de fado de Lisboa. Depois, marcaram a actividade do museu, em 2003, uma exposição comemorando os 40 anos de carreira de Carlos do Carmo, em 2004 uma sobre Amália e em 2005 uma sobre Stuart (O fado por Stuart Carvalhais).

Neste momento, o espólio do museu ronda as 13 mil peças, indo do repertório do fado a fotografias e jornais, de cartazes e adereços de actuações a troféus, medalhas e discos (78, 45 e 33 rotações por minuto). O Museu teve perto de 13 mil visitantes em 1999, atingindo quase os 20 mil o ano passado.

Em termos de actividades de investigação, catalogação, preservação e divulgação de património, o Museu estabeleceu um protocolo com a Universidade Nova de Lisboa para levantamento de pautas e acervo de discos (colaboração extensiva ao Museu do Teatro), para haver uma ideia mais precisa das existências físicas do fado. Ao mesmo tempo, procura fazer a edição de partituras e discografia do fado (identificadas 18 mil peças musicais, num arco histórico até 1950). Para este ano ainda, o Museu projecta editar, com prefácio de Rui Vieira Nery, os dois textos anteriormente referidos de Luiz Moita e Victor Machado.



[o texto seguiu de muito perto o catálogo Berta Cardoso, que acompanha a exposição, comissariada por Sara Pereira, que também me concedeu uma entrevista, facilidades de registo de imagens no Museu e autorização de reprodução de imagens do catálogo, e a quem agradeço sinceramente. O espólio de Berta Cardoso foi cedido por Américo Cardoso Bacelar e Ofélia Pereira, que tem o sítio Berta Cardoso; Ofélia Pereira, que manteve um contacto muito próximo com a fadista ao longo de muitos anos, projecta editar em breve um livro sobre sua vida e obra]

[a primeira parte deste texto passará hoje por volta das 10:00, como última crónica de uma primeira série na Antena Miróbriga Rádio ou 102,7 MHz (região de Santiago de Cacém) ]

30.7.06

PAULO QUERIDO NO EXPRESSO DE ONTEM

Vale a pena ler o texto de Paulo Querido no Expresso de ontem (ver também o seu blogue Mas certamente que sim). Intitulado O fim da galáxia Gutenberg, põe em confronto um tempo em que o mundo era percepcionado através dos media "tradicionais" (livro, imprensa, rádio, televisão), de grande fiabilidade na informação, e ensinar era fácil, naquilo a que chama a infosfera, e a actualidade.

Hoje, a literacia é bastante mais do que dominar alfabetos e gramáticas. Diz Paulo Querido: "Saber ler os media num contexto de supressão/compressão do tempo e do espaço é o rito de iniciação ao mundo comunicacional pós-Gutenberg". E destaca o mundo em que as crianças vêem muita televisão e, consequentemente, recebem muitas mensagens publicitárias, traduzíveis na necessidade de uma nova literacia mediática. Na sequência da leitura estimulante de Lawrence Lessig (
Free Culture) , aponta essa literacia recente como crucial para a cultura da nova geração, de que o YouTube faz parte: os adolescentes deixam de ver a MTV, isto é, deixam de ver televisão, para passarem a ser televisão, construindo os seus próprios vídeos. Abandonada a televisão (e os media tradicionais), a relação com o mundo passa a efectuar-se, nas vertentes de informação, formação e lazer, pela internet (comunicação de espectro amplo) e pelo telemóvel (comunicação de espectro reduzido).

E aqui entra-se no centro do texto de Paulo Querido, embora apenas nos últimos três parágrafos do seu ensaio publicado no semanário e repercutido no seu blogue: como pode o professor captar a atenção dos alunos, se estes sabem "manifestamente mais sobre o que precisam [...] do que o suposto mestre? Como pode um pai nascido e crescido num mundo «read only» ensinar comportamentos e técnicas a um filho que cresce num mundo «read and write»? Para Paulo Querido, seguindo Lessing, o maior problema reside em os actuais letrados resistirem ao mundo «read and write».

É, certamente, um desafio, um grande desafio. Mas creio que poderíamos distinguir várias camadas - e reflectir sobre este optimismo tecnológico. Em primeiro lugar, há fundamentos que se mantêm: a língua, o alfabeto, a importância da comunicação interpessoal, a cultura e as tradições. Depois, os saltos tecnológicos criam gente de "dentro" e gente de "fora". Há os que aderem e os que recusam: nós não temos memória, mas a passagem da escrita manual para a máquina de escrever (no jornalismo, nos escritórios) - que terá ocorrido massivamente nas três primeiras décadas do século XX - causou enormes discussões. E maior discussão terá havido aquando da imprensa do já referido Gutenberg: maneirismos, formas artísticas, retórica, cultura, modificaram-se, ou morreram.

Em terceiro lugar, há a questão da velocidade de adesão. Nos outros momentos de ruptura tecnológica, houve um período de adaptação mais ou menos longo. A rádio precisou de quase uma geração para se tornar aceitável, no caso da transmissão de concertos (ao vivo versus por gravação em disco). Já a televisão, certamente devido ao poder da imagem, teve uma mais rápida adesão. A decisão de compra de um aparelho de rádio ou de televisão fazia-se atendendo ao poder de compra das famílias, em que componentes hoje desprezadas - como a harmonia da família, a formação e o lazer simultâneo - entravam em linha de conta. Quando surgiram os primeiros computadores domésticos (quinze anos atrás?), uma espécie de máquinas eléctricas de escrever mais avançadas, a adesão foi mais rápida e partiu dos pais tendo em conta a formação dos seus filhos. Basta olhar a publicidade da época, em que o computador era o garante de uma maior literacia. Dito de outro modo: quem não possuísse computador em casa era analfabeto funcional. Hoje, já passamos essa fase de distinção, pois os aparelhos banalizaram-se.

Com esta terceira reflexão, quero especificar que os tempos de adesão são, hoje, mais curtos e intergeracionais. Por necessidade de trabalho (ter correio electrónico), as empresas rapidamente se apetrecharam dessa valência. E, à internet, as empresas fizeram corresponder a intranet, a rede interna. Isso demorou algum tempo. Eu recordo-me desse tempo, que mediou entre 1994 e 1997, escassos dez anos atrás. E as empresas adoptaram a filosofia dos blogues de há 2-3 anos a esta parte. O que quer dizer, finalmente, maior rapidez de adesão devido a necessidades de trabalho - e não somente de lazer.

Uma quarta reflexão prende-se com a qualidade dos materiais que se produzem. Quando tive a primeira máquina fotográfica, gastei imenso tempo com ela - a ver as características técnicas, a experimentar o zoom, a profundidade de campo, a distinguir entre estéticas a preto e branco e a cores usando rolos com granulagem diferente, no sentido experimental do termo. Do mesmo modo quando tive uma simples esferográfica e um caderno, transitando da época da lousa de ardósia. A memória passou a existir no caderno, ao passo que o que fazia no quadro de ardósia tinha de ser limpo para fazer novas operações. Guardar, experimentar, comparar evoluções - eis um primeiro momento nesta reflexão. A qualidade gera outro momento. Muito do que eu escrevi em cadernos - poemas, esboços de contos - deitei fora algum tempo depois de executar. Eram simples experiências. Com as fotografias não segui esse rumo, pois havia um custo associado a cada imagem e porque elas retratavam um momento da vida.

Ora, os vídeos do
You Tube são, a esmagadora parte deles, experiências, coisas domésticas, "apanhados" - que colocamos em rede porque pensamos que alguém vai apreciar. Mas o lugar certo deles é o apagamento real daqui a algum tempo. Porque o seu valor estético intrínseco é nulo. E o custo económico é negligenciável (após ligação à internet e aquisição de máquinas digitais de imagem). Aprende-se? Claro que sim. A nossa vida individual é feita de permanentes momentos de experiência.

Contudo, não gostaria de misturar forma com conteúdo. Digamos que, e de forma simples, as tecnologias são formas, são ferramentas. O domínio tecnológico é fundamental. Mas precisamos igualmente de conteúdo, de matéria (lazer, informação, formação). O desenvolvimento técnico é mais rápido, porque as ferramentas são desenhadas para uma rápida utilização. Fazer um vídeo e colocá-lo no You Tube é muito mais fácil do que fazer um filme de celulóide ou um vídeo analógico. Mas fazer um vídeo onde se fale da filosofia de Platão ou do cultivo de uma cepa de vinho com determinadas qualidades exige saber ou encontrar alguém que fale disso com conhecimento. O domínio técnico apenas é de ordem do espectáculo, do efémero, do que desaparece na espuma do dia seguinte. Amanhã, há necessidade de aprender outra e outra tecnologia.

E, para concluir, gostaria de dizer que não concordo com a ideia do desaparecimento dos intermediários, sejam letrados ou apenas o nosso patrão. Se atingíssemos essa utopia de ausência de professores, polícias, patrões e outra espécies de profissões ou estatutos que não gostamos muito, seria que iríamos ser todos realizadores de vídeo? O colocar uma experiência no You Tube passa a ser um património de todos e não um facto de distinção individual, excepto para os iletrados de vários níveis (os que não lêem a sua língua ou não falam outras línguas, como o inglês, os desempregados de longa duração, os provenientes de profissões de força manual, os mais velhos). Mas também para estes há reciclagem possível. E se vivemos num mundo de rankings, de classificações, isso significa que há os que avaliam e os que são avaliados.

29.7.06

AGENDAS CULTURAIS

Actividades organizadas pelas autarquias ou por estas apoiadas, assim como informação de festivais e indicação de locais de lazer. Enquanto projecto editorial, destaco a qualidade da agenda cultural de Cascais [envio das agendas por Carlos Filipe Maia, a quem agradeço].




28.7.06

ELEMENTOS PARA A HISTÓRIA DO JORNALISMO PORTUGUÊS (SÉCULO XX)

Embora a ritmo lento, os investigadores portugueses começam a publicar trabalhos sobre o jornalismo no século XX. O primeiro exemplo é a entrevista concedida por Ana Cabrera a Carla Baptista, no último número da revista JJ - Jornalismo e Jornalistas (nº 26). A razão principal da entrevista é a tese de doutoramento de Ana Cabrera sobre Marcelo Caetano e a imprensa, cuja edição em livro está concluída (Marcello Caetano: poder e imprensa, Livros Horizonte, 286 páginas, a lançar em Setembro).



Um dos tópicos investigados foi a lei da imprensa aprovada no tempo de governação de Marcelo Caetano (1968-1974). Para Ana Cabrera, foi criada a expectativa que Caetano seria um homem de mudança, face a Salazar. Desde 1968 que a imprensa (Diário de Lisboa, Diário Popular, A Capital) se referia à lei de imprensa, mesmo em artigos de fundo. Um abaixo-assinado, reunindo mais de 170 jornalistas de jornais de Lisboa e Porto, pediu-a; em 1971, surgiriam três propostas: dos próprios jornalistas e, na Assembleia Nacional, uma afecta ao Governo e outra assinada pelos deputados da ala liberal Sá Carneiro e Francisco Pinto Balsemão. Contudo, a lei de imprensa criada em 1971 e regulamentada em 1972 nada teria a ver com liberdade de imprensa, apesar da expressão atravessar todo o articulado.

Outro dos tópicos da investigação prende-se com o contexto económico dos anos 70. Para Ana Cabrera, a passagem de Marcelo Caetano pelo poder coincide com um período de compra dos jornais por grupos económicos
. A imprensa é uma forma de afirmação desses grupos económicos. Caetano apoiou as aquisições: se um jornal estava em má situação financeira, eram feitos esforços para não acabar com o título mas vendê-lo a um grupo que o tornasse viável. O único jornal a fugir a esta tendênia seria o Diário de Lisboa.

Um terceiro tópico da entrevista a Ana Cabrera incide sobre a ideia de os jornalistas serem uma elite no Estado Novo. Apesar de reduzido (353 jornalistas em 1960, 717 em 1974), os jornalistas eram um grupo próximo do poder e os seus salários, apesar de não muito elevados, eram superiores aos de outros grupos importantes como o dos professores. Para a investigadora, os jornalistas reuniam três condições das elites: trabalho na área da cultura, próximo dos assuntos de interesse do Estado e salários elevados. Faltar-lhes-ia um indicador importante para a definição de elite: a preparação académica acima da média.

É exactamente a questão académica - e a necessidade de cursos específicos para o jornalismo - que um artigo, assinado por Fernando Correia e Carla Baptista, aborda. Publicado na revista Cultura, Revista da História e Teoria das Ideias (2005), com o título O ensino e a valorização profissional do jornalismo em Portugal (1940/1974), os dois investigadores destacam o I Curso de Jornalismo iniciado em 21 de Novembro de 1968, promovido pelo Sindicato Nacional dos Jornalistas. A duração do curso seria de quatro meses, quatro dias por semana, em horário pós-laboral com duas sessões de 50 minutos cada. Inscritos: 200 pessoas. Nuno Rocha, responsável pela publicação oficial do sindicato, exprimia-se assim: "o êxito da iniciativa excedeu as expectativas do sindicato".



As matérias e professores eram os seguintes: Língua Portuguesa (José Manuel Tavares), História Contemporânea (Joel Serrão), Doutrinas Filosóficas (Luís Ardisson Pereira), Direito (Nogueira de Brito), Economia (Xavier Pintado), História da Imprensa (José Manuel Tengarrinha), A Comunicação e os seus Meios (Navarro de Andrade), Prática da Comunicação (João Gomes), Sociologia da Comunicação (José Júlio Gonçalves), Técnicas Gráficas (Vítor da Silva), Panorâmica da Imprensa Estrangeira e Análise de Conteúdo (José Lechner). A maioria dos formadores eram professores universitários e liceais, enquanto João Gomes e José Lechner eram jornalistas e recém-licenciados pela Escola Superior de Jornalismo de Lille (França).

Com esta experiência, acumulada como outras propostas anteriores, o Sindicato Nacional de Jornalistas apresentou, em 1970, um "Projecto de Ensino de Jornalismo em Portugal", documento de 19 páginas assinadas por Manuel Silva Costa, presidente do sindicato, Jacinto Baptista, João Gomes, Cáceres Monteiro, José Lechner, Oliveira Figueiredo e Carlos Ponte Leça. O documento apontava a inexistência de uma escola de comunicação social, facto raro no conjunto de países do mundo. O projecto apontava para a existência de três níveis de habilitações: bacharel, licenciado e doutor. As cadeiras a ministrar incluiam sociologia, economia, história contemporânea, linguística, ciência política, sociologia da informação, jornalismo comparado e metodologia da pesquisa social. Mas a oposição ao projecto não permitiu a sua concretização.

O texto de Fernando Correia e Carla Baptista termina com informação sobre a primeira verdadeira escola de comunicação social, criada pelo ISLA (Instituto Superior de Línguas e Administração) - e que elimina a ideia do curso de Comunicação Social da Universidade Nova de Lisboa como o mais antigo do país. Em 1970, aquela escola superior solicitava a criação da Escola Superior de Meios de Comunicação Social (ESMCS), começando a funcionar no ano lectivo de 1971-1972. Tinha sustentação jurídica e económica (através do Banco Borges & Irmão, detentor dos jornais Diário Popular e Jornal do Comércio e da agência de publicidade Latina). O director da escola era o embaixador Martinho Nobre de Melo. José Lechner, já acima referido, era um dos docentes. A mudança de regime político e a nacionalização da banca afectaram a ESCMS, extinta já na década de 1980.

Notas finais: para além do lançamento em Setembro do livro Marcello Caetano: poder e imprensa, de Ana Cabrera, esta investigadora coordena o número 9 da revista Media & Jornalismo (do Centro de Investigação Media & Jornalismo), com textos de história da imprensa do século XX, a sair previsivelmente em Novembro.

YOUTUBE

Os vídeos alojados no YouTube não estão disponíveis no presente momento. As desculpas do blogueiro.

27.7.06

À ATENÇÃO DOS DIRECTORES DE JORNAL E DOS PROVEDORES DO LEITOR


UMA DESTAS NOTÍCIAS NÃO É TOTALMENTE EXACTA

Diário de Notícias e Público tiveram uma leitura divergente dos dados do Bareme de Imprensa da Marktest, referentes ao segundo trimestre em termos de audiência e ontem divulgados.

O Diário de Notícias escreve (não assinado) que diários como o próprio e o Público "viram as suas audiências cair". O Público (assinado por Ana Machado) escreve que o Público foi um dos dois jornais que "mostraram maiores subidas de audiência" (no lead).

[para ampliar as imagens, clicar em cima delas, embora a qualidade possa não ser a melhor]





Ainda não li os dados da Marktest (a newsletter com tais dados costuma chegar a leitores como eu no dia seguinte ao da libertação da informação para os clientes que pagam), mas, pela leitura dos jornais (e da newsletter Meios & Publicidade que citei hoje de manhã), a comparação estabeleceu-se com dois valores: 2º trimestre de 2005 e 1º trimestre de 2006. A comparação com o 1º trimestre de 2006 é favorável ao Público, mas já não o é com o 2º trimestre de 2005 - daí o valorizar-se o positivo e remeter para o corpo do texto (que a jornalista faz bem) o negativo. Quanto ao Diário de Notícias, a análise da Marktest não permite um só sorriso.

O dia correu bem ao Público, pois, ao lado, o título de uma breve é A contratação. Onde se conta que o novo editor de economia veio do Diário de Notícias. É uma resposta a contratações no sentido inverso, mas parece resumir o seguinte: o modelo da edição do Diário de Notícias é bom e o do Público tem sido menos bom (incluindo o suplemento de segunda-feira).

Tenho de dizer que, na leitura de estatísticas de vendas e audiências, este comportamento dos jornais é recorrente - e magoa-me, enquanto leitor. Vou continuar a ser leitor dos dois jornais, mas garanto que olho para os jornais com crescente cinismo, tal e qual como os jornalistas olham os actores sociais e políticos que aparecem nas suas notícias. Os leitores são activos; e, se forem proactivos, deixam de comprar jornais.

ÁSIA DISCUTE FUTURO DO DIGITAL NA RÁDIO

[fonte: Media Net Weblog]

No próximo mês, a partir do dia 14, em Kuala Lumpur, cerca de 40 especialistas asiáticos e de outras partes do mundo discutirão a importância da transição da rádio para a transmissão digital, na segunda convenção de rádio digital ABU.

Na convenção, e nas mesas redondas a decorrer na mesma altura, e para além da indicação dos desenvolvimentos tecnológicos, haverá uma focagem em temas de implementação e aplicação - factores de decisão, produção de conteúdos, padrões tecnológicos, recepção e consumo. Os diversos standards de rádio digital internacional (DABWorld, ISDB, HD Radio and DRM) estarão presentes.

Para conhecer melhor o programa, visitar www.abu.org.my/digitalradio.

QUEBRA DE AUDIÊNCIA NA IMPRENSA

As publicações generalistas portuguesas apresentaram uma tendência de quebra homóloga praticamente generalizada na segunda vaga do Bareme Imprensa da Marktest. No total de jornais (diários, semanários e revistas) houve escassas excepções.

[dados recolhidos da newsletter Meios & Publicidade de hoje; irei ler atentamente o que os jornais dizem sobre o mesmo assunto]

INVESTIMENTO PUBLICITÁRIO EM JUNHO

De acordo com a informação da newsletter da Marktest, em Junho de 2006, das quase três milhões inserções publicitárias a maior fatia do total investido (a preços de tabela) foi dirigida à televisão: 69,7%. A imprensa captou 19,1% e os restantes 11,1% pertencem aos outros meios (análise da MediaMonitor).



O top de anunciantes em Junho é o seguinte:

26.7.06

NÚMERO MAIS RECENTE DA REVISTA JORNALISMO & JORNALISTAS

Chegou-me hoje às mãos o número 26 da JJ - Jornalismo & Jornalistas. Destaco a entrevista concedida por Ana Cabrera a Carla Baptista, onde a primeira fala da sua tese de doutoramento sobre Marcello Caetano, a imprensa e os jornalistas.

COMO SÓCRATES CONDICIONA A INFORMAÇÃO

Este foi o título de peça assinada por Ângela Silva (com ilustração de Gonçalo Viana) e publicada no Expresso do último sábado. Vale a pena olhar para a peça e reflectir.



Em primeiro lugar, trata-se de uma matéria que importa muito aos jornalistas, na sua relação com fontes políticas. Relações mais amistosas ou mais distantes são as que se constatam ao compararmos os vários políticos - o que significa que eles são diferentes e têm comportamentos diferentes. Já a
1 e 2 de Setembro de 2005, escrevi aqui sobre o mesmo tema, a propósito de um artigo também de Ângela Silva (e outra jornalista, Sofia Rainho) sobre os homens que escreviam para o presidente Jorge Sampaio (Expresso, 11.11.2000) e de um outro trabalho saído no mesmo semanário a 22.2.1997 sobre António Guterres e a sua equipa de assessores para os media (texto de Orlando Raimundo). Daí, eu concluir que se trata de um tema recorrente, e ilustra o interesse que os jornalistas colocam na sua relação com as fontes políticas.

Em segundo lugar, a peça presente de Ângela Silva tem uma só fonte como interlocutora: Luís Bernardo (três vezes), assessor do Primeiro-Ministro. Nos momentos em que ela cita refere-se a Luís Bernardo, "explicam em S. Bento" (duas vezes), "O gabinete de Sócrates". Há ainda três citações atribuíveis a difusas fontes de outros ministérios - uma delas, com uma resposta extremamente desagradável (mal-educada) para a jornalista: "Vejo que gosta de emprenhar pelos ouvidos". O que quer dizer, parece-me, que se trata de comparar atitudes de dirigentes políticos no Governo e seus porta-vozes. Algumas não serão modelares.

Em terceiro lugar, deve encaixar-se o primeiro parágrafo e o último (aqui a última frase). Quanto a mim, é o núcleo do texto do Expresso. No começo da peça, a jornalista descreve as pretensões do governo anterior, de Santana Lopes, de querer uma central de comunicação sediada no Conselho de Ministros e com um director-geral, enquanto José Sócrates centraliza em si a comunicação do Executivo. No último parágrafo, Ângela Silva comenta que, a par do controlo da informação, existe uma política de anúncios, "já apelidada pela oposição de «propaganda»". Embora não queira ser simplista na análise, controlo de informação, propaganda e informação dos actos de governação fazem parte de um só corpo - a necessidade de um Governo falar de si e o interesse dos jornalistas em escreverem sobre o que o Governo diz. Há uma relação simbiótica de uns e outros pela procura (e fornecimento) da informação. O que pode divergir - e é o que acontece - é a posição pessoal de criar um corpo mais ou menos alargado de colaboradores na tarefa de divulgar informação governamental. Com mais um elemento: o que para o Governo é informação, para a oposição é propaganda. Basta mudar a direcção política do Governo, para os partidos inverterem a sua análise a esse fluxo de informação.

Em quarto lugar, e embora pareça verdadeiro o propósito do Primeiro-Ministro em "fechar as torneiras" da informação, continua a haver comunicação dos outros ministérios: os ministros falam, os assessores de imprensa existem. Talvez haja mais coordenação entre os vários elementos da governação, o que é mais sensato do que comunicar ideias novas todos os dias e esquecê-las no dia seguinte. O fundamental é que, hoje, um Governo existe se tiver uma boa política de mediatização. Claro que é a principal fonte de informação dos jornalistas, pois tem dados que mais ninguém possui - onde se aplica um investimento, que prioridades sociais e políticas, como se comporta o país em assuntos de relações externas.

Em quinto lugar, e que me recorde dos outros textos sobre o tema, não havia uma espécie de remoque na distinção entre comunicação e "jornalismo de intriga e politiquice". Isso não se virará contra o próprio Expresso, agora que o ameaça a sombra do futuro semanário Sol?

25.7.06

VELEIRO EUROPA

Uma visão dos 50 anos das Tall Ships’ Races, por Maria João Eloy, arquitecta, a acompanhar texto a publicar no blogue
infohabitar, possivelmente na próxima segunda-feira.


autoria: M.J.Eloy © 2006
COMUNICAÇÃO E JORNALISMO NA ERA DA INFORMAÇÃO

Com esta designação, foi editado, pela Campo das Letras, um livro organizado por Gustavo Cardoso e Rita Espanha.

Segundo de lê na contracapa: "O objectivo deste livro é discutir o que caracteriza o(s) modelo(s) comunicacionais presente(s), tentando captar a sua essência, interpretando-a e procurando fazer um ponto da situação em termos teóricos e em estudos de caso sobre a realidade portuguesa e internacional, compilando os resultados de diversas pesquisas que foram sendo desenvolvidas no quadro do Mestrado de Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação do ISCTE e da Pós-graduação em Jornalismo ESCS/ISCTE e que resultam num contributo para o «estudo da arte» sobre comunicação e jornalismo em Portugal".

No livro, há contributos de Gustavo Cardoso, Rita Espanha, Daniela Santiago, Eduardo Cintra Torres, Tânia Soares, Susana Santos, Tânia Cardoso, Carlos Cunha, Pedro Pereira Neto, José Pedro Castanheira, Isabel Resende, Luís Proença, Artur Cassiano e Inês Pereira.
O ARRASTÃO VISTO POR CLARA ALMEIDA SANTOS

No ano passado, uma das notícias mais impressionantes da realidade nacional foi a do arrastão de Carcavelos [ver a minha reflexão, datada de 10 de Julho de 2005] (o arrastão ocorrera a 10 de Junho). Em que consistira? As notícias falavam de 500 indivíduos jovens e de cor, que tinham espalhado o terror na praia de Carcavelos, roubando tudo o que puderam.


Agora, na revista do ACIME (Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas), do presente mês, Clara Almeida Santos, investigadora da Universidade de Coimbra, reflecte sobre o acontecimento. Segundo ela, tratou-se de "um momento muito importante na história da relação dos media com o tema das migrações e, sobretudo, das minorias étnicas. Os vários estudos sobre o retrato da imigração veiculado pelos media em Portugal têm dado conta de uma progressiva consciencialização por parte dos jornalistas das sensibilidades em jogo, acompanhada de um melhor tratamento da problemática. Problemática no sentido em que a palavra se opõe a acontecimento". E anota, mais à frente: "No caso do arrastão, juntam-se aos constrangimentos habituais o facto de o episódio ter acontecido a uma sexta-feira, feriado, estando pouca gente nas redacções, quase à hora do fecho da edição do dia seguinte, sem grande margem para confirmações".

Para Clara Almeida Santos, "Curiosamente, um ano depois, deu-se uma inversão do objecto de debate: interessam menos os supostos roubos e agressões levados a cabo por um número indeterminado de jovens do que o tratamento dado pelos media, esse sim no epicentro de todas as discussões". É que uma das questões mais importantes foi a ideia de pânico moral, em que, através da repetição de uma mentira, a qual não foi desmentida, aquela acabaria por se tornar verdade.

A FONTE NÃO QUIS REVELAR - OUTRA VEZ

Obrigado à Campo das Letras (Porto) pela edição e ao Instituto da Comunicação Social pelo apoio à edição. Obrigado a Margarida Baldaia, da editora, pelo apurado trabalho de revisão do texto (ficou mais claro, embora todos os erros encontrados sejam meus), e a Susana Santos, pela capa, que gostei muito. Esta lembra a banda desenhada, com um grande balão a servir de enunciado e a querer significar "revelação", "última hora", "exclusivo", "bombástico". A fita magnética, solta do seu suporte, aponta para uma precipitada divulgação de informação confidencial (ou escutas telefónicas).

Do título na capa (abandonado o subtítulo para o interior) veio-me à ideia o título do livro de Todd Gitlin (1980), The whole world is watching, cuja explicação surgia na página 187 (uma reportagem televisiva dava notoriedade nacional a um dirigente associativo, anónimo até aí).



O livro (255 páginas) é sobre as relações entre fontes de informação e jornalistas e tem como estudo empírico notícias produzidas nos anos de 1982 a 1994 acerca da saúde (mais propriamente VIH-sida).


Do livro, deixo um pequeno texto, à guisa de promoção (pág. 65):
  • A grande alteração [do Diário de Notícias] de 1984, com Mário Mesquita como director, foi quando o jornal passou de broadsheet para tablóide, em 21 de Maio. Depois, em Dezembro de 1988, o conselho de gerência destituía a direcção liderada por Dinis Abreu, mas, em Janeiro seguinte, a direcção era reposta. Tal acto revelou o peso da direcção e da redacção sobre a administração estatal e abriu caminho para a privatização do jornal, que decorreria a 15 de Maio de 1991, rendendo ao Estado quase 42 milhões de euros (8,4 milhões de contos). O grupo Lusomundo passava a deter a maior parte do capital (dois milhões de acções), acumulando com a maioria de capital no Jornal de Notícias (Porto). Em 1989, a tiragem do jornal andava nos 60 mil exemplares. No final do Verão do ano seguinte, a velha rotativa dava lugar ao offset: a profissão de tipógrafo pertencia ao passado.

A FONTE NÃO QUIS REVELAR

OBRIGADO ANA PAGO, OBRIGADO DN

Pela referência ao meu livro A fonte não quis revelar - Um estudo sobre a produção das notícias na edição de hoje do Diário de Notícias.

24.7.06

SOBRE O MEU NOVO LIVRO

Soube hoje, por colegas e jornalistas, que já saiu o meu livro A fonte não quis revelar - um estudo sobre a produção das notícias.

A editora - Campo das Letras - ainda não me informou de tal. Será que se zangaram comigo? Ou: como gosto de andar em cima das novidades mas nem sequer sei da saída de um livro meu, isso significa que estou a perder qualidades?

Vou sair agora, a ver se descubro um exemplar e comprá-lo. Estranho, não?


Actualização (21:49) - não encontrei o livro na livraria mais perto de casa, mas já sei que custa €13,66 (na FNAC, com desconto, o preço é de €12,29). Amanhã, irei comprar um exemplar, contribuindo para os meus próprios direitos de autor! E descobri haver um outro Rogério Santos, que tem um livro chamado Handebol 1000 exercícios. Afinal, há sempre um homónimo desportista; só não sei o que faz o h em handebol. Actualização de actualização (21:57): o autor do handebol é brasileiro (logo, a grafia está correcta), de nome completo Lúcio Rogério Gomes dos Santos, o livro vai na quarta edição e tem mais dois trabalhos publicados e intitulados Hidrofitness e Hidro 1000.

SOBRE A PRODUÇÃO DE UMA TELENOVELA

Há um livro coordenado por Alexandre Hachmeister, Queridas feras, que conta a história da telenovela com o mesmo nome que passou no canal comercial TVI, entre Novembro de 2003 e Outubro do ano seguinte, e que me serve para a crónica de hoje. Da sua leitura, retiro quatro assuntos: argumento, espaços geográficos da história, realização e picos de acção da novela.

O primeiro assunto é o argumento – e a maneira como ele se desenrola até chegar à representação que vemos no ecrã do televisor. A novela Queridas feras começara a ser gravada no final de 24 de Setembro de 2003, tendo-se prolongado até Julho de 2004. Mediaram dois meses entre o começo das gravações e a emissão, mais precisamente a 30 de Novembro de 2003.

O primeiro nome seria Um lugar ao sol. Mas, como as mulheres apareciam como as grandes feras da história, o título definitivo fixou essa característica. A Casa da Criação, empresa responsável pelo argumento e diálogos da novela, fez reuniões frequentes com responsáveis da TVI (e da NBP), para aferir os resultados. Assim, conclui-se, a novela é um trabalho colectivo, a nível de texto e da direcção artística, e que segue estudos de mercado feitos pelo cliente.

Um objectivo inicial reside na definição de público-alvo. Dada a especificidade da TVI, canal popular, procura-se que a novela alcance a família (mas englobando variáveis de heterogeneidade a nível social e etário). Depois, atende-se à estrutura da escrita, com a ideia de núcleos e fases da história. No caso de Queridas feras, a história centrava-se em torno de duas famílias rivais, os Guerra e os Gama, mais duas ou três famílias, um grupo de amigos que vem de fora e personagens isoladas como Mónica. Dos temas, os guionistas destacariam “pais separados” e parque temático.

O plano de acção inclui uma sinopse de cada cena, trabalho distribuído pelos cinco guionistas. Um guião pronto tem 50 páginas, de 25 a 30 cenas. Há uma pessoa a rever cada episódio na Casa da Criação, que coordena a equipa de guionistas. Quando a novela começou a ser escrita, a história tinha 120 episódios, mas subiu para 220, a meio do processo. Por vezes, a equipa de produção sugere temas e pede para desenvolver personagens secundárias, no sentido de criar a multi-história e ultrapassar o triângulo dos protagonistas.

Um segundo assunto é o dos espaços geográficos de filmagens exteriores. Dado a história passar-se no Alentejo, a câmara municipal de Évora manifestou imediato interesse em colaborar, chegando à forma de protocolo com a NBP. Ideias: divulgar o património arquitectónico de Évora, o rejuvenescimento do Alentejo e a qualidade de vida no interior do país. Assim, em termos de história, a arquitecta Mónica (desempenhada por Fernanda Serrano) tinha um apartamento em Évora, o jovem Alex (desempenhado por José Fidalgo) fora passar férias numa barragem alentejana e procurou trabalho no parque temático Safari Park (em Santiago do Cacém). A novela começara com um conde (de Monte Belo), arruinado, e com um grande rival, Afonso Guerra, um novo-rico regressado da Austrália, e que residia na praça do Giraldo, o coração da cidade de Évora.

Quanto ao Badioca Safari Park, juntou-se a ficção e a realidade. Os visitantes que se deslocam no parque temático fazem-no por três razões: ver aves e animais da quinta e fazer o safari propriamente dito. Os animais incluem zebras, antílopes, búfalos de água, tigres de Bengala (estes em cativeiro) e girafas (um dos exemplares dá pelo nome do parque, Badoca).

Pela complexidade e duração da novela, a sua realização recai em três profissionais. O principal realizador, Manuel Amaro da Costa, via-se como maestro numa orquestra, dada a relação estabelecida entre os vários sectores, e tinha Patrícia Sequeira e Telma Meira como co-realizadoras. Aqui, há uma repartição de equipas que filmam exteriores e interiores. Os cenários, construídos por Raul Neves, são um outro elemento a destacar, pois a ligação entre exterior e interior de um cenário tem de ser realista. Um ensaio precede cada cena gravada, em que três câmaras se situam na parede que falta na sala.

Um quarto tema que destaco é aquilo a que se chama picos de acção. De cinco em cinco episódios, há uma história que acaba – precisando de um pico de acção para fazer esse corte e transição. De Queridas feras destacam-se duas cenas. Um aconteceu logo no seu começo: um casamento realizado em adega típica de Colares. Na boda, Xico Zé, que casara com Lili, vês esta com Afonso Guerra. Propõe o noivo um brinde à sua mulher e ao seu amante. Outro pico de acção foi o corte de cabelo de Fernanda Serrano, cuja personagem tinha o cabelo a cair, por tratamento de cancro da mama. Curiosamente, na altura, Fernanda Serrano era a cara da publicidade de um banco comercial, pelo que houve necessidade de gerir a nova imagem de mulher com cabeça rapada.

Leitura: Hachmeister, Alexandre (coord.) (2004) O livro Queridas feras. Lisboa: NBP – Produção Audiovisual e Element – Produção Audiovisual

Texto da crónica que passará hoje por volta das 10:00, na Antena Miróbriga Rádio ou 102,7 MHz (região de Santiago de Cacém)

23.7.06

MEMÓRIA E GUERRA

Escreve hoje Mário Mesquita na sua coluna do Público: "o Governo Zapatero tarda a publicar a Lei da Memória Histórica, prometida para o passado dia 18 de Julho, em que perfizeram 70 anos sobre a rebelião de Franco contra a II República". Razão: a transição pacífica de regime na Espanha pós-franquista levou à instalação de um pacto de esquecimento capaz de "exorcizar a memória dos combates, dos massacres, da violência". Durante o mês de Maio de 1977, em trabalho de reportagem em Espanha, o jornalista e professor universitário observara essa transição. Agora, no momento da passagem dos setenta anos do começo da sangrenta guerra civil que se abateu sobre o país vizinho, é tempo de trazer à memória os factos e as consequências desse período. Conclui Mesquita que "Legislar sobre a memória não parece deste mundo".

"Estão dispostos a perdoar, mas não a esquecer" - eis o lead de uma página do El Pais de hoje, exactamente a propósito da Lei da Memória Histórica, em que os antigos presos políticos pedem que seja reconhecida a sua tragédia. E descendentes de antigos combatentes querem saber onde estes foram enterrados, para lhes prestarem uma última homenagem. Para além de uma reparação moral das represálias que atingiram filhos e netos dos antigos combatentes.



Estas histórias de esquecimento e memória ocorrem num momento em que o Líbano passa por momentos dramáticos: uma guerra com Israel. Na quinta-feira passada, Timothy Garton Ash, no Guardian, escrevia sobre a nova desordem multipolar (traduzido para castelhano na edição de hoje do El Pais). Ash entende que, até à queda do império soviético, se vivia numa ordem bipolar - ou se era a favor dos americanos ou dos soviéticos. A guerra fria teve este embate bipolar como centro da sua ideologia. Apesar do confronto permanente, havia uma verdade - um lado contra o outro. Após a queda da União Soviética e do muro de Berlim, e com os avanços económicos da China e da Índia e o crescimento do movimento radical muçulmano, deixou de existir a certeza bipolar. Assim, vive-se hoje numa desordem multipolar mundial.

Para além do (res)surgimento económico de Estados (Brasil, China, Índia, Rússia), cujos recursos energéticos concorrem com os das economias ocidentais, surgem outras tendências. A primeira é a do poder crescente de actores não estatais, e que vão desde ONGs como o Green Peace até movimentos radicais terroristas como o Hamas, o Hezbolá e a Al-Qaeda. Uma segunda tendência aponta para as tecnologias: os avanços tecnológicos, em especial nas indústrias do armamento e na violência, chegam a pequenos grupos, que podem espalhar o terror com meios reduzidos, e que conduziram aos acontecimentos das Torres Gémeas em Nova Iorque, e nos transportes em Madrid e Londres.

A multipolaridade é um conceito que tem vindo a ganhar consistência desde 2003, quando Chirac, o presidente francês, disse que isso era positivo. Mas, reflecte Ash, ele não se referiu a ordem ou desordem multipolar. E o que parece estar a acontecer é exactamente essa multipolaridade sem ordem, o que impossibilita o reconhecimento rápido e seguro dos vários agentes sociais envolvidos numa questão. Muitos são secretos ou actuam a mando de outros. Ash aconselha prudência: se a multipolaridade é melhor que a bipolaridade, as democracias ocidentais têm sérios problemas em lidar com essa desordem multipolar. A guerra no Líbano é um exemplo dessa incapacidade de lidar com o novo modelo.



A formação e manutenção da opinião pública passa por um conhecimento o mais perfeito do mundo de desordem multipolar. Em que os jornais continuam a ter uma grande importância. Conhecer a geografia do Médio Oriente, quem são os povos que os habitam e a sua história antiga e recente, as suas religiões e tipos de Estado, resultam de cultura geral mas, também e cada vez mais, da leitura atenta do que os jornais fornecem.

Encontro um exemplo no Observer de hoje: um dos textos descreve a importância da comunidade xiita no mundo árabe (10 a 15% do total de 1,4 mil milhões de árabes), confortada pela queda do poder sunita no Iraque (apesar de minoritário) e pela agenda política e de apoio do regime do Irão. Um texto assinado pelo editor do Daily Star, de Beirute, confere outra perspectiva - apesar de não evidente no texto, há uma assunção crítica sobre o Hezbolá, apesar do momento ser de unidade. O importante, diz, é que os árabes lutem pela sua terra, dignidade e esperança num mundo melhor para os seus filhos. E outros textos, embora também não evidentes (não tendenciosos), apontam na perspectiva de defesa dos israelitas. Sem esquecer a minoria cristã libanesa, que ontem teve o seu primeiro grande susto, com a destruição de antenas de televisão e telemóveis na sua área residencial.

22.7.06

LIVRO DE JOSÉ AFONSO FURTADO E ANA BARATA

Mundos da Fotografia. Orientações para a constituição de uma Biblioteca Básica, de José Afonso Furtado e Ana Barata e editado Centro Português de Fotografia, é mais do que uma orientação para uma biblioteca básica de fotografia.





Primeiro, é uma cuidada obra sobre fotografia, da dimensão (22 x 21 cm, 215 páginas) ao conteúdo, onde se harmonizam texto e imagens. Depois, a extrema atenção posta nas referências bibliográficas ao longo do livro, enquadradas nas propostas dos vários capítulos. Assim, é possível acompanhar a bibliografia existente sobre alguns fotógrafos portugueses, bem como a nomeação de publicações periódicas e sítios da internet sobre fotografia. Em terceiro lugar, o destaque à génese da obra, que começou como artigo para a revista Ersatz e, felizmente, acabou em livro, dada a importância dos materiais entretanto acumulados pelos autores.

A monografia agora publicada tem, simultaneamente, um aspecto pedagógico - indicar fontes de informação sobre fotografia, em especial textos teóricos - e um lado ensaístico e histórico sobre esta importante indústria cultural (e forma de arte, também), que é a fotografia. Isto apesar dos autores esclarecerem ao início não se tratar de uma síntese da história da fotografia nem um ensaio sobre a fotografia. E escreverem pouco depois que não seguiram um critério de origem ou nacionalidade dos fotógrafos, nem movimentos ou acontecimentos relevantes. Sem nunca esquecerem o objectivo inicial: escrever sobre colecções de documentos que formam uma biblioteca.

Mas torna-se importante a sua reflexão, pois ela é um elogio aos fotógrafos - não basta ter uma boa máquina fotográfica para fazer fotografias, é preciso haver um olhar para captar o momento (e, igualmente, o momento) - e aos que sobre eles escreveram, fossem historiadores, sociólogos, semiólogos ou estetas.

Retiro o que se lê na introdução:

  • "A nossa abordagem foi diferente. Procurou-se associar as orientações e critérios específicos para a constituição de colecções documentais, elaboradas por instituições que têm responsabilidades normativas no campo da biblioteconomia e documentação [...], com o conhecimento não só da evolução da fotografia e das questões culturais, sociais e económicas que sempre a acompanharam, como com as diferentes perspectivas teóricas que tem suscitado em anos mais recentes" (pág. 8).

E, nas conclusões, o seguinte:

  • "A fotografia surgiu com a sociedade industrial, em estreita ligação com os seus fenómenos mais emblemáticos: entre outros, o surto das metrópoles e da economia monetária, as transformações do espaço, do tempo e das comunicações. Tudo isto, associado ao seu carácter maquínico, estabeleceu, em meados do século XIX, a fotografia como a imagem da sociedade industrial mais adequada para a documentar, para lhe servir de instrumento e para actualizar os seus valores" (pág. 204).


Do que se lê no livro? Invenção dos processos fotográficos, história e histórias da fotografia, evolução da fotografia, tendências recentes, desenvolvimentos temáticos e outros recursos de informação (revistas, sítios de internet, museus e arquivos).

José Afonso Furtado é director da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian e Ana Barata é bibliotecária da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian.

Observação: agradeço a José Afonso Furtado a oferta de um exemplar do livro.

21.7.06

RELATÓRIO AMERICANO CONCLUI: MAIORIA DOS BLOGUES SÃO REGISTOS PESSOAIS E NÃO JORNALISMO

Segundo texto de Oliver Luft, da newsletter Journalism.co.uk de anteontem, um relatório da Pew Internet & American Life Project indica que somente 34% dos blogueiros americanos se consideram jornalistas. O relatório teve como base um inquérito telefónico a 233 blogueiros americanos, em que 80% indicavam escrever como forma de auto-expressão. Mais de um terço dos blogueiros americanos usa a sua vida pessoal como primeiro tópico das mensagens, e apenas 10% escrevem sobre política e governo. As notícias representam cerca de 5% dos temas, um pouco abaixo de entretenimento e desporto.

Em vez de oferecer uma alternativa viável aos media tradicionais, a investigação conclui que apenas metade dos blogueiros assume ter alguma atitude próxima da do jornalismo, como verificar os factos e sua ligação a fontes. Metade dos blogueiros diz mesmo nunca citar fontes ou outros media. 61% raramente pedem autorização para usar materiais, em termos de copyright, e mais de metade dos blogueiros usa pseudónimo no blogue.

O relatório Pew Internet & American Life Project projecta uma estimativa: apenas 8% dos utilizadores americanos de internet - 12 milhões de adultos, metade dos quais tem menos de 30 anos - mantêm um blogue. Contudo, estima-se que 57 milhões de americanos adultos leiam blogues, divididos entre homens e mulheres e com maior diversidade racial que o utilizador médio da internet (40% não são de pele branca).

20.7.06

NEWSLETTER DO OBERCOM

Foi agora distribuída a newsletter do OberCom respeitante a Julho.

Escreve Gustavo Cardoso, o seu director: "Um desafio traz consigo uma vontade de vencer. É com esse objectivo que iniciamos a nossa missão e que damos as boas vindas a todos os que têm acompanhado e trabalhado com o OberCom ao longo dos anos e a todos os que a nós se juntam neste momento".

O destaque vai para a antevisão dos estudos OberCom Jornalismo Hoje. Análise de 14 redacções de Jornais, Rádio e Televisão: "O projecto O Impacto da Internet nos Media em Portugal compõe-se de três áreas de análise: conteúdos online e offline; públicos de media em Portugal e Jornalismo. Através do estudo Jornalismo Hoje. Análise de 14 redacções de Jornais, Rádio e Televisão procura-se compreender as transformações suscitadas na actividade regular dos media após a integração e utilização da internet pelos jornalistas nas redacções de rádio, televisão e jornais generalistas e desportivos. Foram inquiridos neste estudo 340 jornalistas durante o ano de 2005".

Das sugestões de leituras de blogues feitas pelo OberCom para este mês, está o Indústrias Culturais.
UM LIVRO DE BARBIE ZELIZER

Em 2004, Barbie Zelizer fez sair o livro Taking journalism seriously. Professora de comunicação na Annenberg School for Communication, da Universidade de Pennsylvania, e antiga jornalista, Zelizer parte do princípio que, se o jornalismo é uma matéria a estudar, deve também sê-lo na investigação sobre jornalismo, duplicidade que ela vê como vital para a actividade.

Assim, para além dos conceitos, importa a sua aplicação, pelo que se torna evidente atender às forças que estão por detrás dos conceitos: indivíduos, organizações e grupos de pressão do (e no) jornalismo. A proposta de Zelizer assenta numa pesquisa sobre o jornalismo e várias disciplinas à sua volta, tais como sociologia, história, estudos da linguagem, ciência política e análise cultural, áreas a que dedica um capítulo a cada uma delas.

O seu ponto de partida é que o estudo do jornalismo provém de diferentes comunidades interpretativas, devido às diversas disciplinas que se têm proposto analisar. Comunidade interpretativa quer dizer que um fenómeno é interpretado, é resultado da leitura de textos interpretativos que reflectem perspectivas e argumentos diferentes conforme a comunidade. O objectivo da comunidade interpretativa não é resolver um problema mas compreender o significado.

Num livro muito bem feito, Barbie Zelizer aborda o jornalismo a partir das disciplinas enunciadas acima. Confesso que estou mais perto da interpretação sociológica, dado tê-la trabalhado mais frequentemente, mas reconheço a importância igual de outros campos, como a ciência política e os estudos culturais. A autora opõe-se, embora o elenque especificamente, à ideia de fim do jornalismo (pág. 204), cujas principais características são o aparecimento da CNN, a orientação dos jornais para o mercado e o seu decréscimo em termos de tiragens, o infotainment, a luta pelas audiências em televisão, o peso crescente da reality tv, o fim da objectividade e a incapacidade dos jornalistas protegerem as suas fontes. É que o seu interesse basilar consiste em saber como falam os jornalistas da sua actividade e como os investigadores observam o jornalismo (profissão, instituição, texto, pessoas e conjunto de práticas).

Leitura: Zelizer, Barbie (2004). Taking journalism seriously. News and Academy. Thousand Oaks, Londres e Nova Deli: Sage, 286 páginas, custo médio: €72,16 (capa dura).

DESAPARECIMENTO DE SILVERSTONE

Retiro do blogue Jornalismo e Comunicação a informação do falecimento de Roger Silverstone:
  • "do Departamento de Media e Comunicação da London School of Economics e um dos grandes especialistas internacionais dos media faleceu no passado domingo, na sequência de complicações surgidas após uma operação cirúrgica. Silverstone é autor de numerosos livros, traduzidos em diferentes idiomas, designadamente Television and Everyday Life (Routledge, 1994) (traduzido em quatro línguas), Why Study the Media? (1999) (traduzido em dez línguas, entre as quais português)".

19.7.06

EDIÇÃO PARA BREVE

Segundo a editora Campo das Letras, estará para breve a saída do livro:

50 ANOS DE RTP

Foram anunciadas ontem as iniciativas de comemoração dos 50 anos de emissão da RTP, a 7 de Março de 2007. Assim, haverá uma exposição itinerante, a percorrer os distritos do país, sobre quem faz a televisão e como se faz, do passado analógico ao futuro digital. Serão inauguradas a segunda fase do complexo de produção da RTP - e correspondente encerramento dos estúdios do Lumiar -, o arquivo da RTP e o museu da rádio e televisão. Ainda em 2007, serão editados um livro sobre a história da RTP e um DVD com uma colectânea dos grandes momentos das emissões.

Quanto à programação, a RTP vai criar um contexto de "unidade na produção de conteúdos" para assinalar o aniversário, numa "lógica de eventos em forma de talk show", para recordar os grandes momentos da história da RTP. Dois documentários feitos sob investigação do sociólogo António Barreto - sobre a história da televisão em Portugal e a mudança de hábitos provocados pela televisão -, um documentário de Joaquim Furtado sobre a guerra colonial (série de 50 episódios co-produzidos pela RTP e Televisão Pública de Angola) e as séries Grandes Portugueses e Conta-me Como Foi constituem os programas já anunciados para a celebração do seu 50.º aniversário.

[retirei a informação do sítio Meios e Publicidade, em peça assinada por Adriano Nobre]

18.7.06

UMA VIDA NOVA

Como já aqui escrevera, passou hoje à noite na Cinemateca Portuguesa (Lisboa), em ante-estreia, o documentário Uma vida nova, de Nuno Pires. Narra a história de um casal que vai jovem para França e regressa a Portugal trinta anos depois, José e Guiomar Pires, os pais do realizador.



De 23 anos, com um mestrado em cinema tirado na Sorbonne, Nuno Pires aproveita os últimos dias de permanência dos pais em França, antes do regresso a Portugal, para fazer um retrato sociológico íntimo de uma família de emigrados nos começos da década de 1970. Acabado o serviço militar, José regressara a França, onde já estivera anteriormente, e casa com Guiomar.

Grande parte do filme de 24 minutos decorre em formato de longa entrevista aos progenitores de Nuno Pires: porque foram para França, porque regressaram, o que sentiram em cada uma das deslocações. Fica a saber-se que viviam perto de uma comunidade de emigrantes portugueses, onde compartilhavam a língua e os costumes, as alegrias e as recordações. Compravam mesmo bens alimentares numa loja de produtos portugueses: queijos, chouriços, pastéis de nata, bacalhau, vinho e garrafas de água com gás. As festas de familiares e amigos eram o centro da rede social de pessoas que trabalhavam muito, com eles a pensarem regressar a Portugal, para retomar a pequena horta e gozar de um clima menos húmido.

O casal teve dois filhos, que os antecederam no retorno a Portugal - que não sei se constituirá o paradigma de quem vai viver para França e cujos filhos aí nascem. Mas é sobre a educação dos filhos que surge um momento rico de informação, e que mostra a (insuficiente) integração de uma comunidade estrangeira no país de acolhimento, porque caldeada com uma cultura prévia de grande força. Sobre o filho mais velho, Guiomar confessou ter errado ao não incentivar a aprendizagem do francês antes da criança entrar na primária (a pequena escola, como disse, numa mistura saborosa entre o português e as expressões linguísticas francesas). A criança teve dificuldades em se adaptar à escola, o que não aconteceria com o filho mais novo, exactamente o autor do filme.

O regresso a Freixo de Espada à Cinta é uma espécie de descompressão psicológica. Voltam ao convívio de familiares e amigos, deixados 33 anos antes mas revisitados nas férias (onde acompanhariam a construção da casa). A este regresso, Nuno Pires chama parábola, de herança cultural transmitida de pais para filhos. E é sob o signo desta ideia que me fica o filme na memória: uma diáspora é sempre o transporte de elementos materiais mas também intangíveis, tais como a língua, os sabores, a roupa, as imagens religiosas em cima do armário.

Ler mais no sítio
Uma vida nova. O filme foi produzido por Hora Mágica, de Isabel Chaves. Sendo uma primeira obra e com ante-estreia na Cinemateca, o que prenuncia uma carreira de êxitos, realizador e produtora estão de parabéns.

UM MAGNÍFICO BLOGUE SOBRE CINEMA

Cinecultist. Crazy about movies é um blogue sobre cinema, filmes de culto, com notas, comentários e outras informações. Escrito por Karen Wilson, "a freelance writer and editor living in the East Village of New York City". Por vezes, escrevem também Jordan Foster, Josh Huffman e Seattle Maggie (Lee).

A espreitar e colocar Cinecultist nos blogues favoritos, dada a actualidade dos seus textos sobre filmes.

MEDIAXXI

O tema de capa da mais recente MediaXXI é a sétima Conferência Mundial de Economia dos Media realizada em Beijing (Pequim), no passado mês de Maio, subordinada ao tema "Globalização, media e diversidade". Presente na conferência, Paulo Faustino, director da revista, apresentou uma comunicação: Media concentration - new trends in Portuguese newspaper market. Faustino apresentou, na ocasião, a proposta para a realização da próxima conferência em Lisboa e Porto (21 e 24 de Maio de 2008), conforme referi aqui no blogue nessa altura.



Da revista agora editada, saliento ainda o dossiê sobre cinema português, em especial os textos de Pedro Luís Coito. Escreve este investigador: "No sector do cinema nacional existe uma lei que espera regulamentação há cerca de dois anos, uma das mais baixas quotas de mercado de cinema nacional e, paralelamente, uma cinematografia consagrada nos mais importantes festivais internacionais".

CINETEATRO

Agora que acabou o festival de Curtas em Vila do Conde, começam a 26 deste mês os Encontros Internacionais de Cinema, Televisão, Vídeo e Multimedia de Avanca (www.avanca.com). E outros festivais de cinema apoiados pelo ICAM incluem Ovarvídeo, Festival de Vídeo de Ovar, a arrancar em 22 de Setembro, Festival Europeu Temps d'Images, em Lisboa, a 3 de Outubro, e o DocLisboa, a 20 de Outubro.




Por seu lado, o Teatro da Trindade (Lisboa) tem em cena Jacques e o seu amo, de Milan Kundera, e O meu pé de laranja lima, de José Mauro de Vasconcelos, até quase ao final do mês.

17.7.06

CONSUMO DE CERVEJAS

Agora que o mundial de futebol acabou, vale a pena reflectir num dos seus efeitos: a publicidade ao consumo da cerveja. Para além das manifestações desportivas, lembro a passagem de ano na televisão e o apoio a festivais de música rock e pop.

Sagres (Centralcer), com fábrica em Vialonga, perto de Lisboa, e Super Bock (Unicer), com fábrica em Leça do Bailio, perto do Porto, as empresas dominantes em Portugal, têm feito elevados investimentos publicitários nos anos mais recentes. Dados recolhidos pela Marktest para o período de Outubro do ano passado a Março último apontam um investimento publicitário de quase 25 milhões de euros (a preços de tabela), 22 milhões dos quais gastos na televisão, seguindo-se a publicidade nos outdoors. Cerca de 61% deste bolo foi pago pela SuperBock. Estes valores não reflectem ainda dados de Verão, o período mais alto de consumo de cervejas.

Para além da publicidade na televisão e em outdoors, há também um valor significativo no cinema, à frente dos jornais e rádio. Isto quer dizer que a cerveja se associa à imagem, ao prazer do fresco reflectido no rosto de quem bebe. E, se a cerveja era do domínio do masculino, a presença de mulheres nos anúncios (cantora e actrizes de telenovela brasileira) significa o alargamento e consolidação do público-alvo. Aliás, um estudo divulgado a semana passada dá conta da mudança de hábitos, com as mulheres a consumirem mais bebidas.

Durante décadas, os sabores mantiveram-se, mas, no ano passado, começou a guerra pelos nichos de mercado, com novas submarcas e sabores (estendidos às águas, que fazem parte do portfólio das empresas). Assim, em Março de 2005, a Unicer lançou a SuperBock Twin e a Centralcer respondeu com três produtos: Sagres Zero, Bohemia e nova imagem da água Luso. Depois, a Centralcer fez sair, em Maio, a Luso Fresh, água menos gaseificada, respondida um mês depois com Pedras Salgadas, da empresa do Porto, já este ano. SuperBock Tango, com groselha, e Decider, com sidra, Abadia e Pedras Sabores, produtos da Unicer, combatem a Bohemia 1835 e a Sagres Chopp, da Centralcer, novos sabores produzidos quase à razão de um por mês. A saída da Bohemia, por exemplo, destinou-se a retirar quota de mercado ao vinho tinto, tendo alcançado já um valor de perto de 3%. Por outro lado, as cervejas com groselha e sidra implicam aculturações dos consumidores.

Um grupo de alunos meus desenvolveu um inquérito, em Novembro de 2005, junto a 150 pessoas. Do total dos inquiridos, 56% eram do sexo masculino, com 51,1% na faixa etária entre 20 e 30 anos. Estas idades são próximas das dos alunos, o que poderia enviesar os dados; contudo, há muitos festivais de música e outros espectáculos em que o consumo de cerveja serve este público jovem, pelo que o resultado final não será muito diferente. 36,6% das pessoas inquiridas eram estudantes, seguindo-se 20% de quadros médios.







Do universo inquirido, metade bebe as novas cervejas, com a maioria a fazê-lo fora das horas de refeições e no exterior do lar, correspondendo a consumo associado ao convívio (casa de amigos, cafés, bares, discotecas). Sabor e sensação são opções de escolha das novas cervejas.

Falar em cerveja em dias de canícula desperta um imenso desejo de apreciar um copo com uma bebida bem fresquinha. E lembra o bife da cervejaria Trindade. Ou da Portugália, tanto faz. Isto é, coisas boas, numa crónica mais leve.








Observações: 1) texto da crónica que passará hoje por volta das 10:00, na Antena Miróbriga Rádio ou 102,7 MHz (região de Santiago de Cacém), 2) dados recolhidos a partir da Marktest (que forneceu informação graciosamente, o que agradecemos), "DiaD" (suplemento do Público) de 3 de Julho último e trabalho dos alunos Filipa Rebelo, Joana Contreiro e João Santos (O consumo das novas cervejas nacionais), do ano lectivo 2005-2006, 3) a última imagem mostra um prato não com bife de vaca mas com bons materiais de carne de ave, embora não tão perfeito como o blogueiro gostaria; a leitura de um jornal, no caso o Diário de Notícias, foi "culpada" pelo forno ter ficado ligado ligeiramente mais tempo do que o necessário, mas a cerveja estava fresquíssima.

16.7.06

LEGALIZAÇÃO NO USO DE PEQUENOS TRANSMISSORES DE MP3 E DESREGULAÇÃO DA BANDA DO CIDADÃO

Segundo Andy Sennitt, do blogue
Media Net Work, no Reino Unido, o regulador Ofcom propõe legalizar o uso de transmissores de FM de pequena potência usados para ligar aparelhos MP3 e outro equipamento áudio pessoal sem fios e associados a sistemas de entretenimento em viaturas. A Ofcom especifica que esses aparelhos sem fios e de baixo custo são habitualmente usados noutros países além do Reino Unido para ouvir música transmitida por leitores de MP3, mas não têm autorização na Europa, pelo receio de interferência nos serviços audiovisuais. Esta iniciativa da Ofcom prende-se com o crescente consumo de tais serviços, o que levará a Europa a desenvolver uma proposta harmonizada a entrar em vigor no final do Outono deste ano.

A Ofcom propõe ainda a desregulação dos serviços da Banda do Cidadão, permitindo que cerca de 20 mil licenças possam usar transmissores de curto alcance para lazer sem o custo administrativo que tem uma licença normal passada pela Ofcom. A proposta do regulador britânico inclui também a possibilidade de aceitar outras possibilidades para os transmissores de pequena potência, tais como sistemas de alarme, operando na banda de 169,4 -169,8125 MHz.

15.7.06

DOIS CURSOS NA FACULDADE ONDE LECCIONO



Observação: a partir de anúncio publicado na edição de hoje do Expresso.

CALL FOR PAPERS

Studies in Communication Review

The first number of Studies in Communication (Estudos em Comunicação), will be published in March 2007 by Labcom (Online Communication Lab of the University of Beira Interior, Portugal). The review will be mainly focused on media studies and in areas of interface between Social Theory and Communication Sciences. Each issue of the review will have a general subject of study and a thematic dossier. The general subject and the thematic dossier will be different in each issue. The general subject will include only academic and scientific essays. The thematic dossier, besides essays and papers, it may include also interviews, articles or statements on a subject of general interest to the Academy and to the study of Communication Sciences.


a) General subject of this issue. The general subject of study of this first issue will be Communication and Politics. The Editors of Studies in Communication are seeking for original, previously unpublished and completed contributions on the general subject of Communication and Politics. The essays may include the following topics: 1) Journalism and public sphere (Press, Radio, Television, Webjournalism and Online Journalism), 2) Journalism and democratic deliberation, 3) Ethical and political problems concerning the representation of politics by news media, 4) Media regulation and Public Service Broadcasting, 5) The role of Public Relations and Communication Agencies in the public sphere and democratic deliberation, 6) The role of political advertising in the public sphere and democratic deliberation, 7) Rhetoric and democratic deliberation, 8) Theoretical approaches to the public sphere and democratic deliberation, 9) Impact of the Internet on democratic deliberation and representation.

b) Thematic Dossier of this issue. The first issue of the review will accept also essays and articles to a thematic dossier on "The Teaching of 'Communication Sciences' in Europe after the Bologna Process". The essays and articles may include epistemological, institutional and pedagogic angles of approach, presenting relevant opinions, analysis, examples and study cases about the change of curricula, teaching methods and other matters related. Each paper should be no more than 30 pages in one and an half-space format, using font Times New Roman Size 12, including figures, graphs, and illustrations. All papers must include an abstract with fifteen lines and five keywords. All papers should be submitted in RTF format.

To submit, send your paper to 1)
joaocarloscorreia@ubi.pt; 2) agradim@ubi.pt; 3) jc.correia@netvisao.pt or to the following address: João Carlos Correia or Anabela Gradim, Revista Estudos em Comunicação, Departamento de Comunicação e Artes, Universidade da Beira Interior, 6200-001 Covilhã, Portugal.

Manuscript submission: November 15, 2006

Acceptance notification: November 30, 2006

Publication: March 2007

Working languages: English, French, Spanish and Portuguese.

Director: João Carlos Correia

Editor: Anabela Gradim

FALAR DE IMAGENS

Embora ainda seja muito cedo para anunciar o programa delineado por José Carlos Abrantes e pela Livraria Almedina Atrium Saldanha (Lisboa) para a próxima temporada, revela-se que, a 7 de Setembro (quinta-feira), estarão em discussão Os arquivos de televisão e de cinema, com Ana Machado (jornalista do Público), Estrela Serrano (investigadora e membro da ERC) e Susana Sousa Dias (realizadora).

A sessão seguinte, a 17 de Outubro (terça-feira), terá o título Fabricar o olhar, com Monique Sicard, autora que apresentará o livro A fábrica do olhar, a inaugurar uma colecção sobre Imagem, das Edições 70.

Haverá mais sessões deste novo ciclo Falar de imagens, sempre às 19:00.

A PROPÓSITO (AINDA) DO FILME DE SAPINHO

Ontem, escrevia sobre o olhar de quase arqueólogo em Sapinho, ao registar a destruição de Sarajevo em 1996. Mas também me impressionaram as imagens do eléctrico [bonde, no Brasil], em linha indo do centro da cidade para os arredores da cidade. Os rostos dos passageiros estavam fechados e cabisbaixos - ainda não tinham superado psicologicamente a violência e as mortes. O luto estava em curso. Um homem passava rapidamente as contas do seu rosário, embora não fosse perceptível qualquer tremura dos lábios a indicar que rezava. O interior da parte traseira do eléctrico - veículo já velho - estava grafitado.

Lembrei-me dos eléctricos de Praga, muito semelhantes. Numa das linhas, circulei dos arredores para o centro e deste para outros arredores. Parecia a viagem de Sapinho. A paisagem urbana não era assim muito bonita - os prédios eram de linhas sóbrias, para não dizer austeras. Um dos pontos fortes da linha era a paragem junto a um hipermercado, semelhante a um nosso Carrefour ou Continente. As pessoas deslocavam-se de eléctrico para trazerem as suas compras. Não notei uma perda do comércio local, de aproximação, face à concorrência do supermercado. O guia que nos acompanhou por esses dias falava do insucesso dos centros comerciais e hipermercados na República Checa, o que, como turista, não podia contestar, dada a minha ignorância da realidade económica e social daquele país.

Mas vi, apesar de tudo, abundância de bens. O que não acontecera numa passagem pela antiga Jugoslávia, antes da queda do muro de Berlim (claro que a diferença de anos, a riqueza económica dos checos e a adesão à União Europeia são elementos de distinção). Algures na Bósnia, um supermercado tinha as prateleiras vazias e o café turco que bebemos tinha uma espessa camada de pó por cima. O sítio era mais pobre que os cafés mais tristes que se encontram no nosso país.

Haveria uma frágil coesão social - famílias com poucos recursos, separação entre mundo urbano e rural com pouca mobilidade, enquadradas numa ideologia sempre omnipresente e que recalcava os valores religiosos. A guerra alterou essa coesão social - a começar pelas clivagens culturais e religiosas. Vizinhos massacrarem vizinhos temendo que estes tomassem a mesma posição - eis o desespero e a ausência de valores de bom senso levados ao extremo. A guerra produz fanatismos que a razão não consegue eliminar. Fica, como no caso do homem que se confessa ao realizador, a angústia interior e a incapacidade de jamais voltar a felicidade aquele indivíduo e aquela sociedade. Ao contrário do que Sapinho pensa, a neve que esconde quase até às copas dos pinheiros, poderá ter um efeito purificador na memória dos povos e evitar que aconteça de novo uma enorme barbaridade, logo aqui na Europa, continente dito civilizado.

14.7.06

DIÁRIOS DA BÓSNIA


É merecido o espaço concedido hoje pelos suplementos "Y" (Público) e "6ª" (Diário de Notícias) ao novo filme (documentário) de Joaquim Sapinho (as imagens em baixo mostram parcialmente as capas dos dois suplementos).


A história conta-se rapidamente. Joaquim Sapinho foi a Sarajevo (lê-se: Sáráiiêva) em 1996, três meses depois do longo cerco a que a cidade esteve sujeita (quatro anos). Em 1998, o realizador voltou à Bósnia. O filme desdobra, assim, duas narrativas temporais: a primeira, a sépia, mostra a destruição; a segunda, a cores, mostra o luto e, também, a vontade de viver. As imagens a sépia pareceram-me efectuadas por um historiador pré-histórico, que mostra as ruínas de uma civilização outrora rica, caso de Conimbriga, ou que foi afectada por uma catástrofe natural, como Pompeia (devido ao vulcão Vesúvio, na Itália). Mas estas ruínas foram feitas há pouco mais de dez anos.

Das histórias do filme que mais me comoveram, contam-se a das muçulmanas, em momento de pausa na fábrica, cantando e rezando, mas também fumando e partilhando uma bebida, e a do homem que levou Joaquim Sapinho a visitar a aldeia que ele e os vizinhos destruiram, temendo ser eliminados pelos habitantes daquela. Há um pudor, salientado aliás pelos textos dos jornais de hoje, em não apresentar mortes ou choros, apenas as marcas de destruição material. Mas também me impressionou a rapariguinha que anda quatro quilómetros de casa à escola e usa um lenço vermelho - tema do cartão postal (primeira imagem), porque a vida precisa de continuar, e a viagem de autocarro de muçulmanos que regressavam a casa, depois de estarem presos por muito tempo.

Sarajevo, pelos acordos de paz, já não tem sérvios. E os sinos das igrejas cristãs que, dantes, pareciam replicar aos chamamentos dos imãs muçulmanos para as orações,mos já não tocam. A uma conseguida maioria muçulmana, após a guerra da década passada, coexiste uma pequena prática cristã. Sapinho, que filmou o interior de uma igreja e a sua prática religiosa, depois de muito procurar, ressalta a espécie de placa tectónica que aquela cidade representa. Foi ali que começou a primeira guerra mundial, por aquelas terras inscreveu-se a federação jugoslava no pós-segunda guerra mundial, por ali, os turcos otomanos trouxeram a religião muçulmana frente à prática mais antiga dos cristãos ortodoxos. O realizador questiona: como foi possível vizinhos de décadas de anos de convívio acabarem por se matar uns aos outros?

Um documentário que se deve ver, até para confrontar com a violência actual que ocorre no Médio Oriente, e que nós, quase sempre, ignoramos, por ficarmos geograficamente longe de mais.

NOVO LIVRO DE GUSTAVO CARDOSO

Foi publicado, pela prestigiada Fundação Calouste Gulbenkian, o livro de Gustavo Cardoso, Os media na sociedade em rede, com prefácio de Manuel Castells (634 páginas).

Segundo o prefaciador, "Gustavo Cardoso analisa a transformação tecnológica e social dos media, no mundo e no caso específico em observação, Portugal, relacionando a evolução dos media tanto com a mudança tecnológica como com a mudança social. Ele enfatiza a emergência de uma Sociedade em Rede, construída a partir de redes sociais e organizacionais baseadas nas tecnologias electrónicas de comunicação".

Como ainda não tive oportunidade de ler o livro, retiro uma pequena parcela dos seus agradecimentos, no caso escolhido a Fausto Colombo, da Universidade Católica de Milão: ele e a sua equipa do Osservatorio della Comunicazione permitiram ao autor "acompanhar as suas investigações sobre a relação geracional e a televisão, os estudos sobre as utilizações dos telemóveis e um novo olhar sobre as fruições culturais e comunicacionais das audiências de media" (p. 22). E, mais à frente, destaco a sua hipótese de trabalho: "o sistema dos media se articula cada vez mais em torno de duas redes principais, as quais por sua vez comunicam entre si através de diferentes tecnologias de comunicação e informação. Essas redes constituem-se, respectivamente, em torno da televisão e da Internet, estabelecendo nós com diferentes tecnologias de comunicação e informação como o telefone, a rádio, a imprensa escrita" (p. 29).

13.7.06

OBRIGADO

A Pedro Mexia, do blogue
Estado Civil, pela referência, hoje e entre outros, ao meu blogue. Da minha parte, há sempre um grande prazer em ler o que publica Pedro Mexia, em especial no Diário de Notícias.
FUTURO DA TELEVISÃO: REVOLUÇÃO OU INFERNO?

Assim se comenta, no Guardian de hoje, em texto assinado por Owen Gibson, o lançamento do Google Video, anteontem no Reino Unido e em outros sete países. A Google, do mesmo modo que todos navegamos na internet, pretende organizar o modo futuro de ver televisão, já que um computador e uma máquina digital fazem de cada um de nós um potencial produtor de audiovisuais. E, pergunta o jornal, teremos todos de ver música pimba ou maus karaokes a toda a hora do dia? Já há milhares de vídeos, feitos por adolescentes e gente mais crescida sobre tudo e mais alguma coisa, a exemplo do YouTube.

Sobre isto, há duas tendências: 1) os fãs dizem que se vive um momento revolucionário no audiovisual, 2) os críticos afirmam que muito material de mau gosto e não regulado vai aparecer (como pornografia e violência).



Dos vídeos anteontem mais vistos estavam a cabeçada de Zinédine Zidane na final do recente campeonato mundial de futebol entre Itália e França e a "socialite" americana Paris Hilton, a cantar e dançar.

Fora o anedótico, a Google Video do Reino Unido assinou contratos de distribuição de conteúdos com empresas como ITN, Disney, Barcelona FC, Cousteau Society e fará transmissões desportivas como ténis em Winbledom, críquete inglês e futebol e da produção de empresas independentes. Ver um episódio da série de culto Star Trek custará menos de dois euros, ao passo que vídeos pop e trailers de filmes serão gratuitos.
ANTE-ESTREIA DO FILME DE NUNO PIRES - DIA 18, ÀS 21:30

Na Cinemateca Portuguesa, à rua Barata Salgueiro, 39 em Lisboa. O filme chama-se Uma vida nova.




As semanas de música do Estoril começam a 16 deste mês, pelas 21:30, com um concerto no Mosteiro dos Jerónimos, Al ayre español, com Eduardo Lpez Banzo, na direcção e cravo, e Carlos Mena, contratenor.
UM COMENTÁRIO À MINHA MENSAGEM SOBRE MARCHAS POPULARES

No dia 13 de Junho, coloquei aqui um pequeno vídeo sobre
marchas populares em Lisboa. Agora, recebo um comentário de britoca (8 hours ago):

  • nice! I was hoping to find some video like this to show my friends! thank. Otimo! Tinha esperancas de encontrar um video com as marchas de Lisboa pra mostrar aos meus amigos! Obrigado

12.7.06

O "DEFESO" DA ANTENA 2

Na altura em que ouço Jorge Rodrigues (Ritornello, Antena 2) a entrevistar o cartoonista Tom (não percebi o segundo nome), a partir de Los Angeles (Estados Unidos), chega-me um email de Álvaro José Ferreira, blogueiro e defensor do serviço público da rádio, e que tem protestado contra a retirada de programas de autor, durante o Verão, com uma resposta de João Almeida, um dos responsáveis da mesma emissora:

  • A grelha anterior (de Janeiro a Junho) foi vasta e diversificada, mas baseada em orçamentos herdados da "época" anterior. Ainda assim, com esse dinheiro contratámos José Duarte, Ricardo Saló, mais uma mão cheia de novos autores (Jorge Carnaxide, António Almeida, Luís Ribeiro, Jorge Vaz de Carvalho, Jorge Costa Pinto, António Ferreira, Sofia Cascalho, etc…), realizámos mais de 60 concertos no CCB (nossos, ou seja, produzidos pela Antena 2), além de termos efectuado mais de 180 gravações de concertos produzidos por outros (a vulso, festivais, Gulbenkian, etc…), e fomos ainda a Nantes, Viena, Paris (Tribuna dos Compositores), e vamos ainda a Salzburgo (Agosto), aos Proms de Londres (Setembro), à feira de Frankfurt (Outubro), etc. Que me lembre, em tempos recentes, nunca a rádio ofereceu tanto com tão poucos meios. Neste contexto, a única forma do déficite não disparar loucamente foi a criação duma espécie de defeso. Significa isto que quase todos os programas de autor, incluindo naturalmente o "Questões de Moral", regressam em Setembro. Com este conceito foi possível enriquecer a antena durante quase 10 meses sem mexer muito no orçamento. É verdade que o Verão saíu algo penalizado, mesmo tendo em mente que o tradicional período de férias pode (deve?) ser bem mais arejado e descontraído, em conteúdo, do que o resto do ano (para não falar na mão-de-obra que, nesta altura, por estes lados, escasseia… férias oblige). Seja como fôr, com o pouco dinheiro que temos, esta pareceu-nos a melhor solução. No próximo ano esperamos estabilizar os programas, mesmo durante o Verão, com um novo orçamento que os contemple (assim ele seja aprovado, claro).
Actualização: às 18:39, Joel Costa, do programa "Questões de Moral", agora no "defeso", apresenta uma "impressão" de Los Angeles, com xerifes e foras-de-lei e outros, dentro do seu estilo inesquecível, o que resgata a sua importância mesmo em momento de ausência de programas de autor
PIPPA NORRIS – TRÊS IDEIAS A PARTIR DOS SEUS TEXTOS


1) Norris escreve sobre o modo como os processos políticos são cobertos pelos media americanos, em que as notícias tendem a ser sensacionalistas, tendenciosas e negativas.


Mas nem sempre foi assim. Para compreender as mudanças e como isso afecta a comunicação pública, ela descreve três estádios distintos. No estádio pré-moderno, as campanhas eleitorais baseavam-se no contacto presencial, com notícias publicadas nos jornais e na rádio, com organizações locais e dispersas, orientadas por responsáveis políticos locais e com voluntários que contribuíam em tempo e trabalho em part-time. No estádio moderno, as notícias que os partidos procuram influenciar são as da televisão (com discursos do candidato, congressos partidários e eleições), a partir de uma coordenação nacional de campanha estratégica e de consultores profissionais remunerados, especializados em comunicação, marketing, sondagens e gestão de campanha.

Na última década, há a transição para a campanha pós-moderna, com fragmentação de audiências e media, mudança da televisão para fontes mais diversificadas como os fóruns na rádio, notícias nos canais locais de televisão e nos novos media como a internet, tabloidização das notícias devido a fortes pressões comerciais, e mudança para a campanha permanente apoiada em sondagens e grupos de discussão (focus groups).

2) Norris distingue formas variadas de activismo político ao longo das últimas décadas, que acompanham as mudanças de acesso aos media. Um primeiro momento é o do activismo político tradicional, de que são exemplos a participação numa votação, a militância num partido e a sindicalização, formas de participação burocratizada e mais direccionada para as elites.


O segundo período, já mais perto do final do século XX, experimentou uma transformação nas acções do activismo político (organizações colectivas), repertórios (acções usadas habitualmente para expressão política) e alvos (actores políticos que participam e procuram influenciar), com activismo político dentro de organizações voluntárias, associações de bairro e novos movimentos sociais (movimentos de segunda geração nas mulheres, movimentos culturais preocupados com o ambiente, nuclear, anti-globalização, paz, direitos humanos e resolução de conflitos).

As teorias dos novos movimentos sociais sugerem que estas organizações diferem das anteriores formas de organização social, com redes indefinidas, estruturas descentralizadas, pertença devido mais a questões partilhadas pelos seus membros e menos em termos de organizações com quotas. Os movimentos sociais são mais fortes em sociedades pós-industriais.

O terceiro momento, nascido dentro do anterior e com alguma consonância temporal, é o do activismo de protesto, assente em manifestações, boicotes e recolha de assinaturas.

3) A par da discussão sobre a decadência dos canais do activismo eleitoral, partidário e cívico, fala-se de teorias da modernização, em que tendências sociais comuns – como a longevidade, o crescimento do sector de serviços, o aumento de oportunidades educacionais – conduzem a um novo estilo de políticas de cidadania nas democracias ocidentais. Há mais participação pública activa em processos tais como novos movimentos sociais e grupos de protesto, enquanto enfraquecem as lealdades de deferência e apoio a organizações e autoridades hierárquicas tradicionais tais como os partidos e os grupos tradicionais de pressão.


Por exemplo, Ronald Inglehart observa as sociedades pós-industriais e a revolução de valores culturais, em que a geração mais jovem, constituída por cidadãos com bom nível educacional, tem menos interesse nos temas de economia em termos de esquerda e direita e apresenta um maior interesse na agenda pós-materialista, nos temas de qualidade de vida tais como o ambiente, igualdade de género e direitos humanos. Inglehart sugere que o apoio a organizações hierárquicas e burocráticas tradicionais está a diminuir, mas que a geração mais nova em sociedades ricas torna-se activa na política através de novos movimentos sociais e redes transnacionais, com assinaturas em petições e participação em boicotes. Ou seja, os públicos ocidentais não se tornaram apáticos mas, nas duas últimas décadas, envolveram-se em formas alternativas de participação política.

De modo idêntico ao referido no ponto 2, há três perspectivas principais, a primeira indicando a erosão de tradicionais tendências de envolvimento político, incluindo resultados eleitorais, trabalho partidário e activismo cívico. A segunda perspectiva indica que os processos de longo prazo em termos de modernização social e desenvolvimento humano (níveis mais elevados de literacia, educação e riqueza) são motores de mudanças, condicionadas pelas relações entre Estado, entidades mobilizadoras e diferenças em recursos e motivacionais entre grupos e indivíduos. A última perspectiva, a mais difícil de provar, aponta para uma revitalização da política nas últimas décadas, através da diversificação de agências (organizações colectivas que estruturam a actividade política), repertórios (acções normalmente como expressão política) e alvos (actores políticos que os participantes procuram influenciar). O aparecimento de políticas de protesto, novos movimentos sociais e activismo através da internet exemplifica estas mudanças.

Leituras: Pippa Norris (ed.) (1997). Politics and the press. Boulder, Colorado: Lynne Rienner Publishers
Ronald Inglehart e Pippa Norris (2004). Rising tide. Gender equality and cultural change around the world. Cambridge, Nova Iorque, Melbourne, Madrid e Cape Town: Cambridge University Press
Pippa Norris (2002). Democratic phoenix. Reinventing political activism. Cambridge, Nova Iorque, Melbourne, Madrid e Cape Town: Cambridge University Press

11.7.06

DIGITALIZAÇÃO DOS ARQUIVOS DE TELEVISÃO

Recupero a notícia editada no Público de sábado, escrita por Ana Machado, a propósito dos arquivos de imagem da RTP. Escreve a jornalista que, por ano, entram oito mil horas de imagens num edifício de dois andares, e que guardam a memória de cinquenta anos de história, a comemorar em 2007.



O futuro próximo passará pelo acesso digital às imagens, o que se espera fique pronto para o começo do próximo ano - uma boa prenda de anos da televisão à comunidade nacional. O acesso externo virá depois, ainda em data não previsível.

Dos investigadores consultados pela jornalista, Estrela Serrano considera que muitos trabalhos académicos ficam sem efeito por causa do preço das imagens, que é corroborado por outro investigador, Mário Mesquita. Para este professor, as televisões, incluindo as privadas, deveriam permitir o acesso às imagens por parte dos investigadores. E sugere a criação de um arquivo de imagem e som semelhante ao francês Instituto Nacional do Audiovisual.

Aproveitando a notícia, Manuel Pinto, do blogue Jornalismo e Comunicação, sugere a Ana Machado, a jornalista do Público, "que faça agora o mesmo trabalho junto da SIC e da TVI, para conhecer qual a política e a situação real dos respectivos arquivo. Era interessante saber se existem, em que condições e quais as modalidades de acesso. Não quero crer que não existam, porque isso seria um atentado à nossa memória colectiva".
OBERCOM

Retiro do blogue
Jornalismo e Comunicação a seguinte informação acerca do Obercom:

  • Gustavo Cardoso já deu sinais à frente do OberCom (Observatório da Comunicação). O novo site da instituição está já consultável, embora não ainda completo. Através do plano de acção, é possível antever o que o Observatório vai fazer nos próximos tempos:"Na criação de dossiers temáticos, para publicação em 2006 e 2007, o OberCom pretende desenvolver actividades de aprofundamento de análise de públicos, mercados e dimensões financeiras. Entre várias propostas temáticas encontram-se: Perfis e Dietas dos Públicos de Media em Portugal: rádio, jornais e TV; Jornalistas e Gestão de Novas Tecnologias de Informação; Conteúdos Online e Offline: rádio, TV e jornais; Telemóveis e Mobilidade em Portugal: mercados emergentes; A Internet e o Cinema em Portugal: mudanças em mercados e públicos; Música e Digitalização: prospectiva de novos mercados e públicos; Portugal e o Uso da Internet (World Internet Project); Jogos de Consola e PC: mercados e público; Televisão, Notícias e Entretenimento: tipologia de consumos; Zapping e o Consumo Informativo; Tendências Empresariais de Mercado e Audiências 1999-2004; Rentabilidade e Gestão no Sector da Rádio em Portugal; Rentabilidade e Gestão no Sector da Televisão em Portugal; Rentabilidade e Gestão no Sector da Imprensa em Portugal; Publicidade e Mercado Publicitário; Prospectiva e Análise do Mercado de Televisão Digital em Portugal; Prospectiva e Análise do Mercado de Jornais Pagos e Não Pagos em Portugal".
DORIS GRABER



Graber (1995: 125-135) destaca quatro papéis dos media informativos: 1) “cães de guarda”, 2) “kingmakers”, 3) formador de opinião, e 4) formador da opinião pública. Pelo primeiro papel, “cão de guarda”, o jornalista mantém contactos regulares com os altos quadros e agências governamentais, mas interessa-se pelas suas actividades e informa, nos seus textos jornalísticos, as situações que considera interesse, uma função de vigilância. Na sua forma mais complexa, os jornalistas vão além da simples observação da actividade governamental e investigam situações passíveis de infracção.


Pelo segundo papel, o de “kingmaker”, o jornalista é aquele que, perante várias candidaturas que concorrem numa eleição, determina qual a que parece o melhor. Numa eleição, quem recebe ampla cobertura informativa e positiva tem maiores probabilidades de triunfar, com os media a darem um reconhecimento favorável que aumenta as expectativas de êxito de um candidato ou anulá-las. Claro que o poder dos media não é absoluto, com os políticos a assegurarem o desempenho de especialistas de comunicação, que preparam acções.

Já no terceiro papel, o de formadores da política, isso significa que os media podem apoiar ou opor-se à política levada a cabo pelo governo, mas, segundo Graber (1995: 134) não se sabe o verdadeiro impacto, em termos de influência, sobre mudanças de opinião.

Finalmente, o último papel, o dos formadores da opinião pública, significa que os políticos trabalham em permanência pela aprovação pública das suas políticas. Os media informativos podem moldar ou modificar a imagem que o público tem de uma situação política, centrando-se num acontecimento e ignorando outros, fixando os temas da agenda e atribuindo um dado valor (Graber, 1984: 27).

Leituras: 1) Graber, Doris (1995). “Los médios de comunicación y la política americana”. In Alejandro Muñoz-Alonso e Juan Ignacio Ropsir (eds.) Comunicación política. Madrid: Editorial Universitas
2) Graber, Doris (1984). Mass media and American politics. Washington: Congressional Quarterly [imagem de Doris A. Graber retirada do sítio da
Universidade de Illinois em Chicago]

Doris Graber estará em Lisboa, no seminário internacional do CIMJ - Jornalismo e actos de democracia (13 e 14 de Novembro próximo).

10.7.06

CARS - O FILME DA PIXAR E DA DISNEY

Vinte anos atrás, a Walt Disney – da Branca de Neve e do Rato Mickey, para não nomear mais êxitos – teve a possibilidade de adquirir por cinco milhões os estúdios Pixar, que se haviam especializado em animação por computador. Não o fizeram mas entraram num acordo de co-produção e distribuição, que durou quinze anos. Nos últimos anos, após sucessos como Toy Story (1995 e 1999), À procura de Nemo (2003) e os Incríveis (2004), a Pixar pareceu maior que a Disney, ameaçada tecnologicamente. É que se aquela desenvolvia cada vez mais as potencialidades do computador na animação, esta permanecia fiel ao papel e ao lápis. A notícia de despedimentos dos desenhadores da Disney nos últimos anos teve um efeito de grande dramatismo: pelo desemprego de centenas de pessoas e pelo final de uma arte manual que alegrara várias gerações de apaixonados do cinema.

Mas a Disney acabou por comprar a Pixar, corria o mês de Janeiro deste ano, por 7,4 mil milhões de dólares (quase seis mil milhões de euros). E Cars (Carros em português) surge como a mais recente parceria dos dois estúdios. Carros é "filho" de John Lasseter, director criativo da Pixar e do filme, agora em acumulação com a direcção da Disney e da Walt Disney Imagineering, encarregado do desenho de novas atracções para os parques temáticos.

A história de Cars é, quanto a mim, muito humanizante. Carros antropomorfizados, isto é, com características pessoais como individualismo ou companheirismo, projectam-se à volta de Lightning McQueen, um jovem, veloz e ambicioso carro que quer ganhar o troféu de campeão. Ainda imaturo, não reconhecendo a importância do trabalho em equipa, é abandonado acidentalmente e surge em Radiator Spring, uma cidade esquecida da velha estrada 66, que liga os Estados Unidos de costa a costa. Aí, é obrigado a prestar serviço cívico, por destruição de bens.

Inicialmente antagonizado com a população restante da cidade, acaba por estabelecer laços de amizade. Ri com as brincadeiras do velho carro de reboque Redneck, descobre que o austero juiz que o condenou é Hudson Hornet, uma antiga glória do automobilismo e que conquistara a taça que McQueen quer agora ganhar, e apaixona-se por Sally, um Porsche 911 transformado em linhas sensuais e que chama "autocolante" ao vigoroso carro de corrida. A estrada é asfaltada e as lojas abandonadas recuperam a cor, os néons e o movimento. Quando McQueen é descoberto pelos media, helicópteros e automóveis invadem Radiator Spring e voltam a pôr a cidade no mapa. E a equipa de McQueen é feita pelos novos amigos, que o apoiam numa fantástica corrida na Califórnia.

Apesar da dificuldade de transmitir uma mensagem, pois se trata de um filme de animação em que todos os desenhos são carros, a entreajuda e justiça, o ideal americano dos grandes espaços da natureza e o optimismo na resolução dos problemas são elementos visíveis na história.

Além de John Lasseter, como o principal autor do filme, imaginado após uma viagem de caravana pelo interior dos Estados Unidos ao longo de dois meses, outra figura da Pixar é Steve Jobs, co-fundador da Apple Computer (da Macintosh) em 1976 e agora dono de 50% das acções da Pixar, que ajudou a fundar em 1986, e o maior accionista individual da Disney, com 7% das acções.

O acordo de compra prevê a produção de duas longas-metragens por ano. Neste momento, a média da Pixar é um filme em cada 18 meses. O estúdio da Pixar, em Emeryville, a norte de S. Francisco, deve ser agora um espaço frenético de imaginação. Claro que os responsáveis do estúdio dispõem de espaços igualmente criativos, decorados a seu gosto. Podem encontrar-se escritórios com a forma de cabanas de madeira ou castelos medievais, com piscinas e mesas de pingue-pongue e transportes que incluem trotinetas.

E espera-se – facto curioso para quem fez da animação por computador o principal recurso – a recuperação das pranchetas tradicionais. É que o computador é uma ferramenta como o lápis e o papel.

[apoiei-me em textos publicados nos jornais El País, de 11 de Junho, e Diário de Notícias, de 30 de Junho, aliás visíveis no pequeno vídeo que acompanha esta mensagem]



[texto da crónica que passará hoje por volta das 10:00, na Antena Miróbriga Rádio ou 102,7 MHz (região de Santiago de Cacém)]

9.7.06

POÉTICA DO FUTEBOL

Agora que a Itália ganhou o campeonato mundial de futebol - e Portugal ficou num honroso quarto lugar -, volto-me para um texto publicado no El Pais de hoje (pág. 15). Tem o título de Os deuses do futebol e é escrito por Günter Gebauer, filósofo e sociólogo de desporto na Universidade Livre de Berlim e autor do livro Poética do futebol. Começa assim o artigo:

  • Uma partida de futebol é como um grande acontecimento teatral. Mas, diferentemente do teatro, decorre maioritariamente sem linguagem, embora com uma importante participação dos espectadores. Com base neste jogo sem linguagem, os espectadores constroem relatos sobre si próprios: num campeonato do mundo uma nação vê-se a si mesma como num espelho. Um êxito é uma prova que se mantém a mitologia nacional e que reflecte a situação actual da nação. Numa partida de futebol, os espectadores reconhecem o estilo particular com que a sua equipa procura resolver a tarefa de ganhar o jogo. Em cada nação existem certos juízos prévios, sejam positivos ou negativos, de como se conseguem superar os problemas. Cada nação criou um tipo de mitologia sobre as suas próprias capacidades, o que proporciona uma fé em si própria. Do estilo da equipa surge o mito que celebra as suas capacidades particulares.
A associação de adeptos e nação pode, num dado momento, despertar orgulho e heróis. O orgulho remete a características que correspondem a representações ideais do colectivo. Escreve ainda Günter Gebauer que os "seus membros estão convencidos das reacções que eles mesmos criaram e crêem nelas com entusiasmo. Deste modo aumenta o poder do colectivo; também se reconhecem cada vez mais os de fora. O orgulho aplica toda a força do colectivo aos objectos de veneração: moldam a imagem dos seus jogadores favoritos como figuras santificadas de tamanho sobrenatural". O futebol, e os relatos de outros encontros, torna-se uma narrativa que fica na memória e onde sobrevivem esses heróis, com cada novo relato a ser a repetição do relato original, numa actualização que se repete e repete. Trata-se de uma dinâmica permanente da memória, continua Günter Gebauer.

Na realidade, nestes dias tivemos heróis e fizeram-se comparações com outros campeonatos, nomeadamente o que decorreu há 40 anos. O mito do futebol gira em torno de grandes acções e grandes jogadores, conclui o sociólogo que venho a referir. É que a mitificação de pessoas do conhecimento quotidiano estendeu-se, além do fenómeno antigo em si, à "produção de heróis no mundo do espectáculo, da economia, da política". O efémero do feito desportivo parece, assim, perpetuar-se na memória colectiva, garantia de força e grandeza desse feito.

8.7.06

URGÊNCIAS

Urgências 2006 são onze peças curtas, de duração entre 10 e 15 minutos, grupo muito homogéneo em termos de autores, a maior parte deles nascidos em 1974 e 1975, a geração da democracia política em Portugal.

Trata-se de um grupo de autores já afirmados, nomeadamente a partir das Produções Fictícias, de Nuno Artur Silva e associados da empresa, e responsáveis por êxitos como Contra-Informação e textos de Herman José (televisão), O Inimigo Público e Kulto (imprensa) e o recente Portugalex (Antena 1).

Já o resultado é variado, a começar pelos géneros das peças: sátira, comédia, textos mais sérios, experimentalismo. E a continuar pelo tratamento das peças, que divido em duas partes, não coincidentes com o intervalo. As primeiras peças têm uma leitura mais caótica, onde nem sempre foi possível entender as palavras. Talvez a ideia tivesse sido a de um mundo caótico, cheio de informações e ruídos e onde as relações pessoais nem sempre se pautam pela harmonia.

O palco do Maria Matos, quase despido, aparece dividido (igualmente) em duas partes em termos de profundidade, desenrolando-se as cenas cada vez mais para o fundo do palco. No começo, os actores surgiam mesmo antes da cortina. Histórias comuns, de pessoas comuns, reflectindo a modernidade das situações. Elejo Trabalhador independente, de Nuno Costa Santos, Mulher sem memória e História de Babbot, de Patrícia Portela, e Urânia, Plutónia e Babushka, de Pedro Rosa Mendes. O papel de Tiago Rodrigues é essencial. Dos mais novos do grupo (tem 29 anos), destaca-se no triplo papel de autor, actor e encenador. A sua presença no palco é empolgante e electrizante.

O livro das onze peças, agregando ainda mais seis das Urgências de 2004, está publicado em edição da Cotovia (será lançado no próximo dia 13 de Julho, pelas 18:00, no teatro Maria Matos). No livro lê-se o conceito de urgências: "uma escrita e uma representação sobre o presente, com um sentido de urgência no mote - «o que é que tens de urgente para me dizer?» - e no método". No prefácio, Tiago Rodrigues indica que a ideia é "uma reunião anual de dramaturgos e actores no reinventado Teatro Maria Matos a pensar juntos sobre o que pode ser um teatro urgente, um teatro de hoje. E a fazê-lo".

7.7.06

EU COMPRO IMPRENSA ESCRITA

No passado dia 3, quando
aqui escrevi sobre as contas do Público respeitantes a 2005, e embora sabendo que estava em curso uma remodelação gráfica, seguindo o britânico Guardian, um excelente modelo, não imaginava as alterações que estão a decorrer dentro do jornal, como divulga hoje o Diário de Notícias. Embora não confirmado pelo director do Público, consta-se haver 50 pessoas despedidas. O director, José Manuel Fernandes (JMF), apenas indica que há pessoas que o jornal propôs a rescisão, outras foram contratadas e outras ainda sairam de livre vontade. Certa é já a saída de Carlos Rosado Carvalho, um dos editores de economia.

O Público nasceu em 1990 e o director pretende uma refundação, conforme indica o Diário de Notícias. Razões principais: a quebra de vendas e de publicidade. JMF destaca a perda de 4391 leitores no primeiro trimestre deste ano, com vendas na casa dos quase 45 mil exemplares diários. A acontecer tal, os prejuízos serão de 2,2 milhões de euros. Das mudanças, os suplementos "Y" e "Mil Folhas" serão aglutinados num só (hoje, o meu exemplar não trazia o "Y", não sei se por erro ou se a medida já foi implementada). E a relação entre a edição em papel e em online será repensada (actualmente os custos de acesso ao online são elevados, em comparação com outras publicações diárias e de igual qualidade na Europa).

Há uma frase no texto assinado por Marina Almeida e Sónia Correia dos Santos que me deixa a pensar. Diz JMF: "Em Portugal vendemos, per capita, metade dos jornais diários que se vendem na Turquia, o que não é bom. A crise é mundial e em Portugal ainda é mais grave porque temos uma base muito pequena".

Isto, a meu ver, é dramático. Se um país lê poucos jornais, tal significa pobreza (intelectual, económica, de participação cívica). Por muitas televisões de ecrã plano ou telemóveis de terceira geração que o país se ufane de possuir, isso não quer dizer riqueza, quando o índice de leitura de jornais é baixo. Quer dizer exactamente o contrário, porque os investimentos são feitos do lado errado, da vaidade e da exposição perante os próximos, de um pretenso poder de compra que não temos.

EU COMPRO JORNAIS EM PAPEL. Procuro informar-me, ler opiniões contraditórias porque expressam pontos de vista diferentes. Qualquer outro meio, incluindo os jornais gratuitos, não me dá a densidade e a profundidade de leitura que é necessário para se formar uma opinião.


Observação: também valeria a pena saber o que os outros jornais estão a planear. Certamente a crise atinge todos, em quebra de vendas e em publicidade.
ESCOLA DE LAVORES

Escreve Ana: "E hoje aprendi imenso. Cresci mais um bocadinho e amanhã serei um bocadinho mais forte, terei mais defesas. É como comer um “Danonino” (piada seca). Mas o dia não podia acabar sem escrever aqui umas palavras. Descobri hoje que sou uma pessoa terrível aos olhos de alguns. Eu costumo dizer que me conheço demasiado bem para me enganar a mim própria".

Luísa prefere: "É muito bem feita, tem capas como esta que fala do Verão e é uma revista francesa mensal ...de economia"! Quanto a Susana: "Onde é que andam ? EU é que estou de férias. (durante este mês não garanto a assiduidade até aqui mantida. Mas a Escola continua aberta. Pelo menos a secretaria não pode fechar. Há exames para marcar e inscrições a fazer...)".

Contei seis colaboradoras do blogue. Não sei se são professoras, mães, activistas de movimentos de contracultura ou simples cidadãs atentas ao que se passa à volta do mundo. Mas escrevem com muita graça no blogue escola de lavores. Espero que continuem por muito tempo!

6.7.06

TEATRO



São as ofertas do Festival de Almada (já na 23ª edição), distribuido em salas de Almada e Lisboa, desde o passado dia 4 e até 18 de Julho, e de peça no teatro Maria Matos, em Lisboa.
Desta última, Urgências, em 11 peças curtas, será lançado o livro a 13 de Julho, pelas 18:00, com a participação de Francisco Frazão, Nuno Artur Silva e Tiago Rodrigues. Um convite da Mundo Perfeito, Produções Fictícias, Teatro Maria Matos e Livros Cotovia.
COMO OS PORTUGUESES SÃO VISTOS NO PLANETA

O sítio Gobal Voices Online é "um agregador de blogues de todo o mundo, focando especialmente o mundo desenvolvido. A Global Voices fornece diversas perspectivas alternativas das notícias do dia [breaking news]". Ontem, dia 5, fez um levantamento do que se escreveu sobre o actual Mundial de Futebol e a participação de Portugal, com o título Cultura e História Triunfam Sobre o Nacionalismo na Lusosfera [quanto ao] Campeonato do Mundo. Muitos dos blogues nacionais mais conhecidos têm escrito sobre o futebol e o Gobal Voices Online traduziu para inglês e compilou. Parece-me uma boa ideia espreitar no que escrevemos por estes dias, caso de "Política e futebol - comentário «à taxista»", do Easy Glory (= Glória Fácil).
OEIRAS - AGENDA 30DIAS

O número deste mês traz uma entrevista com Celso Cleto, encenador, agora à frente da peça Miss Daisy, no auditório Eunice Muñoz e por esta interpretada. Cleto será o primeiro director do Centro Dramático de Oeiras. E também há duas páginas dedicadas à Bulhosa, a nova livraria que abriu no Oeiras Parque, espaço que ainda não visitei.

VER PICASSO EM MADRID

Pablo Picasso (1881-1973) nasceu há 125 anos e o seu mais famoso quadro, Guernica, regressou a Espanha há 25 anos, razões para o museu do Prado e o museu Centro Rainha Sofia, ambos em Madrid, abrirem duas magníficas exposições, cada uma com um princípio simples.

No Prado, instituição de que Picasso foi director (1936-1939, isto é, durante a Guerra Civil Espanhola), há uma retrospectiva dos seus quadros perante as suas maiores influências, fruto da sua observação profunda enquanto estudante. Vários dos seus quadros vieram de outros museus, estabelecendo assim um diálogo dificilmente irrepetível. Já no museu Rainha Sofia, Guernica e os imensos esboços feitos em tempo recorde (mais ou menos um mês), o que dão conta da febril criatividade do pintor de Málaga.

O catálogo produzido para a exposição é magnífico, ficando a par da qualidade da exposição, em especial a do Prado (preço: €30 de capa mole e €48 de capa dura, 422 páginas).






As imagens acima representam elementos de imediaticidade ao museu do Prado, como cartaz de rua, fila de acesso à entrada, bem como as capas dos desdobráveis e a imagem do catálogo; as seguintes referem-se ao museu Rainha Sofia, nomeadamente os elevadores (de onde fiz o pequeno vídeo).



5.7.06

UM FILME SOBRE KLIMT


Gustav Klimt (1862-1918), reconhecido em Paris, era criticado em Viena antes e durante a Primeira Guerra Mundial. Mas ele não assistiria ao descalabro final do império austro-húngaro, internado no hospital, onde faleceria de pneumonia a 6 de Fevereiro de 1918. O quadro de Adele Bloch-Bauer, pintado em 1907 e recentemente leiloado por um preço exorbitante, estava já muito longe.

Criticado pela sensualidade das formas que pintava, Klimt integrou o movimento da Secession, em 1897, assente em pintores jovens e não convencionais, de grande qualidade estética e exprimindo-se ainda através de uma revista (ver o sítio oficial de Klimt). Klimt surge, assim, como um dos responsáveis pela art nouveau, na transição do século XIX para o XX.

O filme, dirigido por Raoul Ruiz e com John Malkovich no papel do pintor, tem um traço muito especial, através das imagens (panorâmicas, neve no interior de dependências de casa, espelhos e esconderijos, personagens-fantasmas) e dos sons (copos a partir, ruído de água).

Hoje, no final da tarde, a sala de cinema estava vazia. De outra vez que assisti a um filme sozinho, a sala fechou pouco depois por inviabilidade económica.

GULBENKIAN

Alice Valente, do blogue ali_se, recorda hoje o desaparecimento do Ballet Gulbenkian, ocorrido há um ano.
PONTOS DE FUGA EM MADRID
LOJAS E MONTRAS DE MADRID




4.7.06

CADERNOS

O
Serrote é um projecto de fabrico de cadernos em impressora de caracteres móveis, de Nuno Neves e Susana Vilela. Os novos cadernos são Esquiço e Papel-Moeda. Experimente também ver o caderno toalha de mesa, composto e impresso a duas cores em oficina tipográfica de Sintra, em Dezembro de 2005, com uma tiragem de 1500 exemplares numerados. Lê-se no sítio: "Com a capa impressa em tipografia e recheado de toalhas de mesa de papel, este caderno foi concebido para aqueles que têm por hábito rabiscar as toalhas dos restaurantes".

Pode ainda escolher outros tipos de papel. Há sempre uma impressora a trabalhar para si.

RUAS DE MADRID

PROGRAMAÇÃO TELEVISIVA NO PÓS-1974

Ontem, Madalena Soares dos Reis, mestranda da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, fechou o ciclo do Seminário de Investigação Cultura de massas em Portugal no século XX, promovido pelo Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra e pelo Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, com o tema Programação televisiva na altura da revolução (1974).

Fundamentalmente, a jovem investigadora procurou responder às perguntas: houve uma programação específica em 1974? Houve uma ruptura? Assim, ela trabalhou três pontos: 1) período televisivo na época marcelista, 2) RTP, e 3) dados sobre programação e audiência. O seu primeiro texto de referência foi a tese de doutoramento de Francisco Rui Cádima sobre os noticiários televisivos de Salazar e Caetano, frisando a importância deste na escolha de Ramiro Valadão para presidente de administração da televisão pública, então a única permitida por lei. A televisão era, e continua a ser na minha perspectiva, um instrumento de poder político. À altura de Caetano, ficariam famosas as suas conversas em família (modelo inspirado nas conversas à lareira do presidente americano Roosevelt).

Para Madalena Soares dos Reis, e seguindo ainda Cádima, não houve ruptura entre Salazar e Caetano quanto à televisão, embora o último estivesse mais atento ao dispositivo cultural, não fosse ele o homem que tinha já escrito sobre relações públicas. Contudo, Valadão consegue novos equipamentos de visionamento dos programas, nomeadamente os noticiários, o que confere um estádio mais perfeito do controlo sobre as matérias apresentadas. E, ao mesmo tempo, parece haver uma abertura política e cultural, com a presença de novos programas e animadores: David Mourão-Ferreira (sobre poesia), Vitorino Nemésio (Se bem me lembro), Zip-zip (1969), Ensaio (programa de entrevistas com cineastas do cinema novo). Então, em termos de audiências (estudo de 1969), as séries mais vistas eram americanas, apesar das domésticas constituirem a maior parte da recepção, o que contrariaria aquela preferência, ficando os noticiários em oitavo lugar, o que anunciava uma não adesão à informação, julgada manipulada.

A investigadora concentrar-se-ia, depois, na emissão de 25 de Abril de 1974, com os locutores Fialho Gouveia e Fernando Balsinha (ambos já desaparecidos), sem gravata e a fumarem, sinal de um novo tempo. Ao longo da noite, a emissão seria interrompida para anunciar o novo poder, a Junta de Salvação Nacional, composta por militares dos três ramos das forças armadas. O mês de Maio seria um intenso período de suspensões, exonerações e nomeações, processo que continuaria ao longo do tempo, dada a volatilidade de sucessivas administrações do canal público.

Em Janeiro de 1975, Ramalho Eanes, o então presidente da RTP - e, mais tarde, presidente da República - tomou a iniciativa de promover um estudo, baseado em inquéritos telefónicos, dando resultados interessantes pelas mudanças em termos de espectadores. Os estudantes, seguidos de empregados do sector terciário, viam mais televisão em 1975 do que nos anos anteriores, possivelmente em resultado da mudança política. Contudo, começava a haver uma saturação do peso de programas políticos, exigindo-se o regresso dos músicos nacionais à televisão.

Sem adiantar muito mais sobre o trabalho de Madalena Soares dos Reis, pois ela está a escrever tese de mestrado sobre o assunto, e do que ouvi, poderia concluir que a programação da televisão sofreu uma alteração, com a ideia de suprimir séries americanas e substitui-las por programação de outros países, mormente do leste Europeu. Mas aquelas eram imbatíveis em termos de quadros e formas de vida, pelo que o regresso foi sendo feito paulatinamente. E uma normativa dos novos responsáveis da televisão, de 5 de Agosto de 1974, ficaria - na minha perspectiva, a partir dos dados ouvidos ontem - mais do domínio da intenção do que da sua efectiva realização. Há, contudo, necessidade de estudar muito aprofundadamente este período, dadas as múltiplas contradições e grande diversidade de agentes sociais envolvidos.

No primeiro fim-de-semana de Setembro, haverá uma reunião de balanço sobre o que se foi passando em 2006 e um planeamento de actividades para 2007. Nesse fim-de-semana de Setembro, estarão presentes os historiadores franceses Christophe Prochasson e Dominique Kalifa. Aqui no blogue darei destaque a esse evento.
FLAMENCO

A exemplo da zarzuela, também o flamenco é um tipo de arte criativa popular em Espanha e consumido por pessoas com menos poder económico, se comparado com teatro, ballet ou ópera.

Mas, em todo o país, há uma longa e florescente tradição, que, muitas vezes, combina com modernidade, caso do Power of the feeling, actualmente em cena pelo Ballet Flamenco de Madrid (España Baila Flamenco), coreografado por Sara Lezana, Luciano Ruiz, María Nadal e Carlos Vilán.

São cerca de noventa minutos de espectáculo, em duas partes distintas, apesar de não haver intervalo, repartidas entre um repertório assente em música gravada de clássicos espanhóis e música ao vivo, com cantor e guitarra. O preço era bem mais elevado do que no espectáculo da zarzuela, detectando-se um público mais jovem e parecendo ter maior poder de compra, o que contradiz o estudo já referido na mensagem anterior (Jordi López Sintas e Ercilia García Álvarez, El consumo de las artes escénicas y musicales en España, 2002).

ZARZUELA

No livro de Jordi López Sintas e Ercilia García Álvarez, El consumo de las artes escénicas y musicales en España (2002), os autores indicam que os consumidores com menores rendimentos económicos escolhem produtos populares caso da zarzuela.

Foi o que observámos na sexta-feira passada, no concerto dado no Centro Cultural Casa de Vacas, no jardim do Retiro, em Madrid. A bilheteira abria às sete da tarde para um espectáculo anunciado meia-hora depois. Por um preço simbólico de dois euros, a sala rapidamente encheu os seus 124 lugares, de modo que o espectáculo começou quase às sete da tarde. Quem estava na fila para comprar os bilhetes? Pessoas acima dos cinquenta anos, muitas mulheres, gente de aparência simpática mas simples.

A representação era El huésped del Sevillano, uma das mais conhecidas zarzuelas, em dois actos, com libreto de Enrique Reoyo e Juan Ignacio Luca de Tena. O ambiente é a época dourada de Castela, sendo Toledo a sua capital espiritual (ao tempo de Filipe II de Espanha, primeiro de Portugal). Há ainda a sensação de apenas se saber, no final, que o misterioso hóspede é Miguel Cervantes, o autor de D. Quixote. O primeiro acto começa com três cavaleiros a temperarem as suas espadas no armeiro Maese Andrés, cuja filha Raquel seria raptada pelo pretendente Don Diego [no vídeo, ouve-se o ensaio durante o intervalo].




3.7.06

RELATÓRIO E CONTAS DO JORNAL PÚBLICO

A leitura atenta do relatório de contas de uma empresa de um dado ano permite saber da saúde dessa empresa e do contexto económico mais alargado. É isso que me leva a fazer umas notas a propósito do "Relatório da Direcção - 2005" do jornal Público, inserido na edição de hoje (pp. 61-65). São cinco páginas de elevado interesse para quem lê aquele diário e quer saber dados da economia dos media.

Três notas iniciais que ilustram 2005, segundo o relatório: 1) aparecimento do novo jornal diário Metro Portugal, que o documento não identifica como gratuito, 2) proliferação de novas colecções por empresas jornalísticas concorrentes, 3) crescimento do mercado publicitário na imprensa, no período de Janeiro a Setembro de 2005 em 2,8%, totalizando 19,1% do mercado (a televisão leva a parte de leão, com 68,8%).

De acordo com o relatório, a circulação do Público baixou 4,3% relativamente ao ano anterior, mas a audiência subiu 0,3%. Venderam-se cerca de 2,5 milhões de exemplares das novas colecções (DVDs, Tintim, História Universal, Let's Jazz e Livros de Cozinha, entre outros), mas este número ficou abaixo do registado em 2004 em -54%. Quebra muito menos acentuada verificou-se nas vendas de publicidade: -4%. Isso traduziu-se num EBIDTA (resultados antes de impostos) com valor negativo de quase €1,5 milhões face ao ano anterior. Ainda em termos económicos e empresariais, em 2005 desapareceram duas empresas do Público: fusão da filial XS e dissolução da Público.pt. A empresa ainda é detentora da Sociedade Independente de Radiodifusão (45%), Unipress (40%) e M3G (100%), todas com resultados positivos em 2005. O número médio de colaboradores do jornal atingiu 291 no ano transacto.

Sobre os conteúdos, destacam-se as seguintes linhas: 1) criação da revista semanal "DiaD", que substituíu o caderno "Economia" à segunda-feira, assente em temas hard news, negócios privados e públicos e informação internacional. O relatório não menciona os custos com a revista, a maior leveza de tratamento dos textos (apesar de frisar o hard news) e a perda do suplemento de computadores, 2) lançamento da revista "Kulto", entretanto descontinuada. O relatório não fala da parceria com a Produções Fictícias na produção da revista, 3) reformulação do primeiro caderno, ao domingo, apostando mais em temas da vida quotidiana ou notícias da semana. O blogueiro já tinha manifestado aqui a alegria em ler as edições de domingo.

Uma conclusão principal do relatório é a perda de circulação paga entre 2004 e 2005, mal que atinge os diversos jornais diários do país. Certamente a crise económica tem peso neste retrocesso de leitura, mas a causa principal parece residir na mudança de hábitos, como os jornais gratuitos, que têm atraído novos leitores. Seria ainda útil comparar com outros hábitos de leitura de informação, como a televisão e a internet. Para além de ver os relatórios das outras empresas jornalísticas. E esperar rapidamente soluções para inverter o decréscimo da circulação paga. As alterações introduzidas pelo Diário de Notícias, no princípio do ano, e as do Expresso, agora, ainda não permitem ver se estão ou não a ter sucesso.
CURSO INTENSIVO DE PRODUÇÃO E MARKETING CULTURAL NO BRASIL

Segundo o sítio
Cultura e Mercado, vai realizar-se um curso em S. Paulo, Brasil, que "visa formar e aprimorar produtores culturais, artistas, profissionais de marketing e comunicação e interessados em geral". As aulas serão ministradas por Sonia Kavantan, socióloga, pedagoga e produtora cultural com experiência em marketing cultural e produção de teatro, cinema, shows, eventos, festivais internacionais. A formadora é assessora para análise de projectos da Avon e foi directora de produção da longa-metragem Bocage, o Triunfo do Amor, de espectáculos teatrais como Pai, A Última Gravação de Krapp e Turistas e Refugiados e de concertos com a Orquestra Sinfónica Municipal de Campinas e Coralusp, entre outros.

Programa

A) Produção; Produção cultural; A cultura no Brasil e no mundo; Produtos Culturais; A cultura e a economia; Fontes de recursos; A elaboração do projecto cultural: planeamento, orçamento, cronograma, formatação.
B) Análise de Projectos Culturais; Marketing Cultural; Busca de patrocínio: pesquisa, selecção, contacto, abordagem, apresentação e negociação; A formatação do projecto cultural; O produto cultural e o retorno aos patrocinadores; Contratos: redacção e importância.
C) As leis de Incentivo Fiscal: LINC (Lei Estadual) e Lei Mendonça (Lei Municipal).
D) As leis de Incentivo Fiscal Federais: Lei Rouanet (inclusive as alterações mais recentes) e Lei do Audiovisual; Prestação de Contas da utilização de incentivos fiscais para a área cultural.
E) Divulgação do Produto Cultural: assessoria de imprensa, material promocional, eventos paralelos; Media: veículos, mapa de media, criação de anúncios; Administração de Recursos: próprios, governamentais, patrocínios, receita do produto cultural.

Data e local: 24 a 28 de Julho de 2006, 19:15 às 23:15. Espaço Certo Treinamento e Eventos, R. Dr. Amâncio de Carvalho, 287, Paraíso, São Paulo, Brasil

Investimento: R$400,00, podendo ser repartido em quatro parcelas

Informações e inscrições: 11 3023-3040 (rede de S. Paulo, Brasil) e cursos@kavantan.com.br
PREVISÃO DE SAÍDA DE LIVROS

De Luís Oliveira Martins, Mercados Televisivos Europeus, e de Gonçalo Pereira, A Quercus nas Notícias, ambos da Porto Editora (colecção Comunicação), para o mês de Agosto. Os dois são livros que interessam muito à área de comunicação, nomeadamente em economia dos media e jornalismo.
MERCADO DE LIVROS

Segundo o Público de hoje (caderno "DiaD", p. 8; reconstituição minha), entre 2004 e 2005 houve um aumento de compra de livros, mas com quebra nas livrarias (fonte: MultiDados). Apesar da tendência, os quadros parecem-me conter valores errados (ausência de somas a 100%, por exemplo).

DOIS ÂNGULOS DE VISTA

Para mim, é fundamental o exercício do jornalismo comparado. Se em jornais nacionais, isso é importante, quando se trata de imprensa de países diferentes, tal assume ainda maior relevância. É que alargam os ângulos de vista sobre um mesmo assunto, caso do jogo de futebol entre Inglaterra e Portugal, conforme os jornais de ontem. Se o Público elege para herói o guarda-redes Ricardo, que defendeu grandes penalidades, para o Observer, Rooney é o vilão, pois ao ser expulso viu a sua equipa ficar reduzida a 10 jogadores.



Na minha modesta e provavelmente muito ignorante perspectiva, o jogo acabou por se decidir pelas grandes penalidades, um verdadeiro jogo de azar e fortuna. Logo, fico indeciso sobre o verdadeiro alcance dos valores-notícia que levam ao grande destaque dos referidos jornais.
COMO EU VI O ÚLTIMO GOLO DE PORTUGAL

Quando Cristiano Ronaldo marcou a grande penalidade à Inglaterra, o ambiente numa cafetaria da Gran Vía, em Madrid, foi este que se vê no vídeo.

O CINEMA E O MUNDO DA MODA

A moda é um mundo fascinante. Revistas como Elle, Vogue, Marie Claire, Cosmopolitan e Máxima vendem muito. Há um canal temático na televisão por cabo sobre moda. A telenovela que passa no horário nobre da SIC, Belíssima, tem como centro uma empresa dedicada à moda.

Agora, foi estreado um filme nos Estados Unidos, Devil wears Prada (O diabo veste Prada), realizado por David Frankel, com Meryl Streep no principal papel. Trata-se da história baseada num romance de enorme sucesso em 2003, escrito por Lauren Weisberg, antiga assistente da directora da Vogue, previsível personalidade que o filme disseca. Este, que deve vir para Portugal no Outono, trata de jornalismo e carreiras profissionais, para além de moda. Meryl Streep faz o papel de Miranda Priestley, despótica editora-chefe da revista Runway. As outras personagens principais pertencem à assistente de direcção, a qual aspira a um lugar futuro na prestigiada revista New Yorker, e a dois homens, um, o braço direito de Miranda mas que se passa para o lado da assistente, o outro, o correspondente ao proprietário da Vogue, Vanity Fair e New Yorker.

O peso da Vogue no universo da moda é enorme, nomeadamente nos Estados Unidos. Ainda recentemente, aproveitando uma exposição no Metropolitan Museum of Art, a revista fez um tributo à moda inglesa, convidando individualidades do mundo da moda e da música como Kate Moss e Jennifer Lopez e milionários como Donald Trump. Dizem as más-línguas que todos eles vestiram aconselhados pela directora da revista.

Especula-se sobre as semelhanças entre realidade e filme. Há quem diga que o filme retrata as condições de trabalho duro de quem vive e pensa a moda. Há também quem afirme que o filme critica e não celebra a moda. Merryl Streep assegura que a sua personagem não é a cópia da influente directora da Vogue mas segue o estilo de pessoas que ela própria conhece na indústria da moda. Teremos de esperar pela passagem do filme em Portugal para aquilatarmos o que corresponde à verdade e à especulação.

O certo é que, também recentemente, foi traduzido para português um romance de Sarah Glattstein Franco, directora da revista Cosmopolitan em Espanha, chamado precisamente Diário de uma directora de revista... feminina. Afirma Glattstein que a história nada tem a ver com a realidade. Mas fala da redacção de revistas dedicadas à moda: Isabel Gonzaléz, ou Isa como é conhecida entre os íntimos, é uma jovem que ingressa num jornal de Salamanca, o Heraldo de la Fortuna. Aí, começa a escrever sobre moda, acabando por ingressar na Femme, a melhor revista feminina em Madrid. Depois, ela torna-se directora da Mulher Prática, revista reposicionada para concorrer directamente com a Femme. Mais algum tempo depois e Isa recebe convite para dirigir a própria Femme, o topo das revistas espanholas.

O livro descreve o ambiente de uma redacção de revista feminina. Primeiro, as redactoras de moda e colegas como estilistas, directoras de secção e da revista formam um grupo hermético. Depois, cada redacção organiza-se de um modo específico, indo desde secções em espaços fechados até espaços abertos, juntando directora e conjunto da redacção. Em terceiro, a directora tem uma vida social intensa como almoços com anunciantes, passagens de modelos, contactos com escritores e jornalistas que escrevem páginas de destaque ou top images quando se trata de fotógrafos ou ilustradores.

De que trata uma revista de moda? Cosméticos, perfumes, acessórios, mas também sucesso profissional e amoroso. E ainda amizade, filhos, dinheiro, automóveis, cultura e produtos biológicos, idade e dietas, saúde e bem-estar, férias e lazer. Horóscopos e publicidade a marcas de prestígio constituem um complemento permanente nas revistas. Com as capas de cada número a incluírem modelos ou estrelas do mundo da música e do cinema.

E a vida das modelos? Lê-se no sítio da novela brasileira Belíssima: “O mundo está cheio de jovens como Giovana e Erica, que fazem de tudo para brilhar no universo da moda. Rostinho bonito – ou «exótico» –, salto nos pés, manequim na casa dos 30 e elas estão prontas para se aventurar nas passarelas mundo fashion afora”. Mas o “lugar ao sol”, o “glamour” e a promessa de uma boa conta bancária são, com frequência, sonhos que depressa se esfriam.

Contando com êxitos ou insucessos pessoais, a moda movimenta milhões. Deve ser tão poderosa como as indústrias desportivas (futebol, basebol, ténis ou basquetebol), pelo que também dita ordens fortes. Com recurso a modelos anorécticas, cuja vida profissional nas passarelas altamente mediatizadas é de curta duração e onde estão sempre patentes problemas psicológicos, como foi o recente caso de drogas em Kate Moss. E sem se saber qual a percentagem de peças de vestuário exibidas que se vendem. Mas atrai outras indústrias culturais, como a música, o cinema, a televisão, o design, a publicidade. E onde há cidades que sabem fazer bem a indústria da moda: Nova Iorque, Londres, Paris, Milão.

[elementos a partir da leitura do Observer de 25 de Junho, em peça escrita por Graham Fuller, e da minha mensagem de 31 de Maio]

[texto da crónica que passará hoje por volta das 10:00, na Antena Miróbriga Rádio ou 102,7 MHz (região de Santiago de Cacém)]