Textos de Rogério Santos, com reflexões e atualidade sobre indústrias culturais (imprensa, rádio, televisão, internet, cinema, videojogos, música, livros, centros comerciais) e criativas (museus, exposições, teatro, espetáculos). Na blogosfera desde 2002.
sexta-feira, 18 de maio de 2007
TESES DE DOUTORAMENTO NA UNIVERSIDADE NOVA DE LISBOA (DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO)
1) de Celsina Alves Favorito. Título: Retratos dos transgénicos na perspectiva dos jornais Público e Folha de São Paulo. Estudo de caso comparado entre Portugal e o Brasil. Data da defesa de tese: 30 de Maio, pelas 15:00. A candidata é jornalista da assessoria de Comunicação Social da Universidade Federal do Paraná (Brasil) e membro da equipa de redacção do jornal dessa mesma universidade.
2) de Paula Cordeiro. Título: Estratégias de programação na rádio em Portugal: o caso da RFM na transição para o digital. Data da defesa de tese: 11 de Junho, pelas 15:00. A candidata é docente no Instituto de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), em Lisboa e tem o blogue NetFM.
O blogueiro espera fazer o relato destas duas provas aqui no Indústrias. E deseja às duas jovens investigadoras bom treino até às provas.
O ESTADO DO MUNDO NA GULBENKIAN
A Plataforma 2 do Fórum Cultural O Estado do Mundo inicia-se hoje com o ciclo de grandes lições A Urgência da Teoria e o ciclo de cinema Todo o Mundo é um Filme.
Da lição de Marc Ferro, O ressentimento: força obscura e produto da história, no auditório 2 da Gulbenkian, às 18:30 (entrada livre e com tradução simultânea), destaca-se o seguinte:

Em www.gulbenkian.pt/estadodomundo pode consultar-se toda a programação para o ciclo de grandes lições A Urgência da Teoria e o ciclo de cinema Todo o Mundo é um Filme. A partir de Junho, haverá nomeadamente teatro, dança, ópera, actividades no Jardim do Mundo e concertos no anfiteatro ao livre.
Da lição de Marc Ferro, O ressentimento: força obscura e produto da história, no auditório 2 da Gulbenkian, às 18:30 (entrada livre e com tradução simultânea), destaca-se o seguinte:
- O ressentimento é um explosivo que se acumula ininterruptamente. Ao longo do século, por várias vezes, faltou fazer explodir a sociedade; ao menos transfigurá-la. Com a erupção de um Islão extremista, o ressentimento manifestou-se com toda a força sob os nossos olhos, num momento em que também povos que tinham sido longamente colonizados o exprimiam. Antes, no início do século XX, a Alemanha e o seu futuro líder tinham alimentado o mesmo ressentimento contra o Tratado de Versalhes e os seus signatários estrangeiros ou alemães. Sabemos o que se seguiu. Estas manifestações falam por si, mas poderíamos elencar e analisar muitas outras.

Em www.gulbenkian.pt/estadodomundo pode consultar-se toda a programação para o ciclo de grandes lições A Urgência da Teoria e o ciclo de cinema Todo o Mundo é um Filme. A partir de Junho, haverá nomeadamente teatro, dança, ópera, actividades no Jardim do Mundo e concertos no anfiteatro ao livre.
quinta-feira, 17 de maio de 2007
DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS
NOITE EUROPEIA DOS MUSEUS
O Museu do Chiado - Museu Nacional de Arte Contemporânea vai comemorar a noite europeia dos museus, no dia 19.
Assim, a exposição temporária Columbano Bordalo Pinheiro. 1874-1900 terá entrada gratuita das 10:00 de sábado até à 1:00 de domingo. Ao mesmo tempo, realiza-se uma maratona de visitas guiadas entre as 18:00 e a 1:00, com visitas de 30 minutos para grupos formados na recepção do museu, com um mínimo de 6 pessoas.
No jardim, há também festa das 18:00 até à 1:00.
Assim, a exposição temporária Columbano Bordalo Pinheiro. 1874-1900 terá entrada gratuita das 10:00 de sábado até à 1:00 de domingo. Ao mesmo tempo, realiza-se uma maratona de visitas guiadas entre as 18:00 e a 1:00, com visitas de 30 minutos para grupos formados na recepção do museu, com um mínimo de 6 pessoas.
No jardim, há também festa das 18:00 até à 1:00.
DIA INTERNACIONAL DOS MUSEUS
Amanhã, dia internacional dos museus, o Museu da Presidência da República vai promover o percurso temático sobre o chá, entre as 10:00 e as 18:00, integrado na exposição 50 anos da visita da rainha Isabel II a Portugal.
Os visitantes, em especial os mais novos, farão o percurso temático no espaço do museu, "descobrindo as diversas peças relacionadas com o consumo do chá que fazem parte do seu acervo (como as chávenas comemorativas do bicentenário da Revolução Francesa, oferecidas em 1989 pelo Presidente Miterrand ao Presidente Mário Soares). Será também relembrada D. Catarina de Bragança, a monarca inglesa que divulgou o seu gosto pelo chá junto da aristocracia britânica, e que depois de enviuvar viria a residir no Palácio de Belém" (retirado do texto da entidade promotora, a quem pertence igualmente a imagem).
Os visitantes, em especial os mais novos, farão o percurso temático no espaço do museu, "descobrindo as diversas peças relacionadas com o consumo do chá que fazem parte do seu acervo (como as chávenas comemorativas do bicentenário da Revolução Francesa, oferecidas em 1989 pelo Presidente Miterrand ao Presidente Mário Soares). Será também relembrada D. Catarina de Bragança, a monarca inglesa que divulgou o seu gosto pelo chá junto da aristocracia britânica, e que depois de enviuvar viria a residir no Palácio de Belém" (retirado do texto da entidade promotora, a quem pertence igualmente a imagem).
SECOND LIFE
Segundo informações veiculadas hoje, o software de acesso ao Second Life tornar-se-á open source. O Second Life é um mundo virtual em que os residentes constróem o seu ambiente, através do desempenho de posições sociais e da concretização de contactos e trocas.quarta-feira, 16 de maio de 2007
BLOGUES NA RTPN
Hoje, pelas 23:00, no programa Fórum do País, o debate "sobre temas que interessam à sociedade portuguesa nos mais variados domínios, de uma forma transversal e não apenas regional", será sobre blogues (RTPN, canal 8 na televisão por cabo, pelo menos no alinhamento de canais na área de Lisboa).
No sítio da RTPN não se encontram informações sobre tema e convidados. Quem assistir, saberá mais logo.
No sítio da RTPN não se encontram informações sobre tema e convidados. Quem assistir, saberá mais logo.
TELEVISÃO DA REALIDADE
Os meus alunos trabalharam um texto de Annette Hill sobre televisão da realidade (reality tv), género desenvolvido duas décadas atrás, mas com maior impacto em Portugal na década passada. Um primeiro factor é a coincidência com o surgimento das televisões privadas, de programação mais popular. Um segundo factor, e decorrente do primeiro, é a caracterização de situações de vida que se deparam com o indivíduo anónimo, tentando a sua reconstrução na televisão assumir elementos dramáticos, irónicos ou divertidos, o que serve para atrair audiências.
Podem identificar-se - e seguindo Hill - três formas de televisão da realidade: as novelas com elementos históricos ou documentais, o magazine-realidade (cenas de jet-set, a vida banal de pessoas como o programa que se articulava com o Masterplan) e o reality-show (cujo exemplo maior é o Big Brother).
A reconstrução da realidade na televisão pessupõe a constituição de narrativa, de corte de planos e tempos de história, como na ficção. O que quer dizer que a televisão da realidade é atraente para a audiência pois tem todos os ingredientes da ficção (série, novela), no que constitui o terceiro factor da sua caracterização. Além de ser popular em si.
Curiosamente, no começo da presente década, a televisão da realidade passou a ter um concorrente noutro meio - a internet. Com o aparecimento e explosão de massificação do YouTube, cada indivíduo passou a colocar o seu vídeo pessoal. São cenas vulgares de gente normal, destinadas aos próprios, aos familiares e aos amigos, mas procurando atrair outros consumidores da internet. Bastaria alguma sofisticação (como montagem das histórias) e publicidade do "passa a palavra" para alguns desses vídeos terem sucesso. A "socialite" Paris Hilton, por exemplo, atingiu esse patamar - interessantes ou não os temas a que ela se liga.
Logo: a "realidade" da vida nos media, com narrativas ingénuas, promete manter-se na televisão, mas conquistar espaço maior na internet. A internet será, com toda a probabilidade, o meio de mais elevada popularização de géneros.
Podem identificar-se - e seguindo Hill - três formas de televisão da realidade: as novelas com elementos históricos ou documentais, o magazine-realidade (cenas de jet-set, a vida banal de pessoas como o programa que se articulava com o Masterplan) e o reality-show (cujo exemplo maior é o Big Brother).
A reconstrução da realidade na televisão pessupõe a constituição de narrativa, de corte de planos e tempos de história, como na ficção. O que quer dizer que a televisão da realidade é atraente para a audiência pois tem todos os ingredientes da ficção (série, novela), no que constitui o terceiro factor da sua caracterização. Além de ser popular em si.
Curiosamente, no começo da presente década, a televisão da realidade passou a ter um concorrente noutro meio - a internet. Com o aparecimento e explosão de massificação do YouTube, cada indivíduo passou a colocar o seu vídeo pessoal. São cenas vulgares de gente normal, destinadas aos próprios, aos familiares e aos amigos, mas procurando atrair outros consumidores da internet. Bastaria alguma sofisticação (como montagem das histórias) e publicidade do "passa a palavra" para alguns desses vídeos terem sucesso. A "socialite" Paris Hilton, por exemplo, atingiu esse patamar - interessantes ou não os temas a que ela se liga.
Logo: a "realidade" da vida nos media, com narrativas ingénuas, promete manter-se na televisão, mas conquistar espaço maior na internet. A internet será, com toda a probabilidade, o meio de mais elevada popularização de géneros.
terça-feira, 15 de maio de 2007
BARÓMETRO DO OBERCOM
Intitulado Media e Comunicação: Tendências 2006 (OberCom), saiu um novo documento do OberCom, resultado de um inquérito a 121 profissionais e peritos.
Das conclusões, onde se aponta um horizonte de cinco anos, retiro algumas, aconselhando a sua leitura, como é óbvio. O sub-sector das telecomunicações é considerado como onde haverá um crescimento da presença de capital estrangeiro e onde se espera mais inovação na oferta. O dinamismo esperado na televisão e rádio é menor, e ainda mais baixa a expectativa na imprensa, com quebra de títulos existentes. Os respondentes têm dúvidas quanto ao serviço de televisão digital terrestre para 2007, mas esperam um aumento do consumo pago do serviço de televisão por cabo.
Uma maioria dos respondentes entende estar-se numa mudança de paradigma no sector dos media e da comunicação, passando "de um mercado comandado pelo fornecedor de conteúdos a um outro dirigido pelo consumidor".
Das conclusões, onde se aponta um horizonte de cinco anos, retiro algumas, aconselhando a sua leitura, como é óbvio. O sub-sector das telecomunicações é considerado como onde haverá um crescimento da presença de capital estrangeiro e onde se espera mais inovação na oferta. O dinamismo esperado na televisão e rádio é menor, e ainda mais baixa a expectativa na imprensa, com quebra de títulos existentes. Os respondentes têm dúvidas quanto ao serviço de televisão digital terrestre para 2007, mas esperam um aumento do consumo pago do serviço de televisão por cabo.
Uma maioria dos respondentes entende estar-se numa mudança de paradigma no sector dos media e da comunicação, passando "de um mercado comandado pelo fornecedor de conteúdos a um outro dirigido pelo consumidor".
ENDEMOL VENDIDA A BERLUSCONI

A Telefónica, empresa líder de telecomunicações no mercado espanhol, vendeu a sua participação na Endemol a um consórcio detido pela Mediacinco, empresa participada de Silvio Berlusconi, um fundo participado por John de Mol, o fundador da Endemol, e outras empresas.
O valor da venda terá atingido € 2,6 mil milhões. A produtora é responsável por programas como Big Brother e outros reality shows ou Dança Comigo. As acções da Endemol valorizariam 0,85% depois da oferta, alcançando mais valias de € 1,4 milhões para a Telefónica.
A venda da Endemol ocorre num momento em que a tecnologia (largura de banda nos telefones fixos e móveis) serve os conteúdos. É também o momento final de um modelo de actividade ensaiado nos final da década passada - as telecomunicações comprarem empresas que garantissem a cadeia de valor entre telecomunicações e indústrias de conteúdos. A Telefónica em Espanha e a Portugal Telecom em Portugal foram empresas que apostaram nos conteúdos, com a congénere nacional a enveredar nomeadamente pelo negócio das salas de cinema e pelos jornais (este já abandonado).
Sobre este assunto, os jornais de hoje apresentam perspectivas distintas. Para o Diário de Notícias, a compra da Endemol por Berlusconi significa que este fica menos dependente das produtoras italianas de conteúdos. Já o Público entende que as mais valias geradas pelo negócio permitirão à Telefónica ter dinheiro fresco para reforçar a posição na Vivo, empresa de telefones celulares que aquela detém com a Portugal Telecom.
segunda-feira, 14 de maio de 2007
MEIO MILHÃO DE VISITANTES
Hoje foi o dia do visitante nº 500 mil do blogue Indústrias Culturais (dados do Sitemeter).
Os meus agradecimentos. Continuem a visitar, a ler e a comentar o Indústrias!
LANÇAMENTO DE LIVRO DE SARA MEIRELES GRAÇA
CENTROS COMERCIAIS
Para Valquíria Padilha, em Shopping center, a catedral das mercadorias (2006: 18), a publicidade e o cinema – para além das séries de televisão – divulgam e propagam valores americanos. Os ícones da cultura americana, como a Disney, invadem o campo das outras culturas, interligando redes de informação, trocas comerciais e indústria do espectáculo – aquilo a que a mesma socióloga brasileira denomina por cultura McWorld, em que a lógica da publicidade e do consumo se liga aos grandes mitos da actualidade: felicidade, liberdade, lazer, abundância, juventude, prazer, modernidade, e ainda brancura, limpeza e natural, em que se mantém apenas o lado positivo do que se anuncia.
Padilha elabora a sua teoria dos centros comerciais como catedrais de consumo com elementos de autores como Freud, Bourdieu, Baudrillard e Lipovetsky. Bourdieu, que desenvolveu a teoria da distinção social pelo consumo cultural e pelo gosto (A distinção), aponta este como importante marca de classe social e determinante para o consumo de um produto e para o uso que é feito dele (Padilha, 2006: 129). Quanto mais o gosto está distante das necessidades humanas básicas, mais identifica uma elite. Seguindo Bourdieu, os consumidores vivem diferentes experiências em função da posição ocupada no espaço económico.
A autora regista também contributos da escola da economia política, o que a leva a concluir que o shopping center não é simplesmente espaço de aquisição de coisas – é também um espaço de construção da identidade. Escreve que os frequentadores dos centros comerciais se identificam entre si e criam novas relações interpessoais. Isto é, os shopping centers são locais para comprar mercadorias e lugares, aliando estrategicamente mercadorias, serviços, lazer, cultura (Padilha, 2006: 25). Dito de outro modo: ao consumidor oferecem-se simultaneamente opções de compras e divertimento.
Surgido nos anos 1950 nos Estados Unidos, quando o país vivia um grande crescimento económico e uma metropolização planeada, o shopping center é um lugar de circulação de mercadorias tornado local de felicidade pelo consumo, segregação assente na segurança, homogeneização dos gestos e desejos, e ocupação dos tempos livres dos indivíduos. O moderno centro de lojas seria invenção do arquitecto vienense Victor Gruen, inspirado nas galerias de Milão e Nápoles do século XIX, quando percebera a oportunidade de criar um novo centro urbano que pudesse acomodar bem os automóveis, respeitando também os peões (Padilha, 2006: 57). O centro das cidades iniciara o seu declínio aquando da invenção do supermercado, alargado com o sucesso do shopping center. Os novos centros comerciais, onde se encontra quase tudo, não eram adequados ao centro das cidades. Pela necessidade de mais espaço, tais superfícies implantar-se-iam nas periferias.
Actualmente, Valquíria Padilha é docente no Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA), na Universidade de São Paulo, campus de Ribeirão Preto-SP. Mais informações sobre o texto aqui e aqui.
Leitura: Valquíria Padilha (2006). Shopping center, a catedral das mercadorias. S. Paulo: Boitempo Editorial
Padilha elabora a sua teoria dos centros comerciais como catedrais de consumo com elementos de autores como Freud, Bourdieu, Baudrillard e Lipovetsky. Bourdieu, que desenvolveu a teoria da distinção social pelo consumo cultural e pelo gosto (A distinção), aponta este como importante marca de classe social e determinante para o consumo de um produto e para o uso que é feito dele (Padilha, 2006: 129). Quanto mais o gosto está distante das necessidades humanas básicas, mais identifica uma elite. Seguindo Bourdieu, os consumidores vivem diferentes experiências em função da posição ocupada no espaço económico.A autora regista também contributos da escola da economia política, o que a leva a concluir que o shopping center não é simplesmente espaço de aquisição de coisas – é também um espaço de construção da identidade. Escreve que os frequentadores dos centros comerciais se identificam entre si e criam novas relações interpessoais. Isto é, os shopping centers são locais para comprar mercadorias e lugares, aliando estrategicamente mercadorias, serviços, lazer, cultura (Padilha, 2006: 25). Dito de outro modo: ao consumidor oferecem-se simultaneamente opções de compras e divertimento.
Surgido nos anos 1950 nos Estados Unidos, quando o país vivia um grande crescimento económico e uma metropolização planeada, o shopping center é um lugar de circulação de mercadorias tornado local de felicidade pelo consumo, segregação assente na segurança, homogeneização dos gestos e desejos, e ocupação dos tempos livres dos indivíduos. O moderno centro de lojas seria invenção do arquitecto vienense Victor Gruen, inspirado nas galerias de Milão e Nápoles do século XIX, quando percebera a oportunidade de criar um novo centro urbano que pudesse acomodar bem os automóveis, respeitando também os peões (Padilha, 2006: 57). O centro das cidades iniciara o seu declínio aquando da invenção do supermercado, alargado com o sucesso do shopping center. Os novos centros comerciais, onde se encontra quase tudo, não eram adequados ao centro das cidades. Pela necessidade de mais espaço, tais superfícies implantar-se-iam nas periferias.Actualmente, Valquíria Padilha é docente no Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA), na Universidade de São Paulo, campus de Ribeirão Preto-SP. Mais informações sobre o texto aqui e aqui.
Leitura: Valquíria Padilha (2006). Shopping center, a catedral das mercadorias. S. Paulo: Boitempo Editorial
domingo, 13 de maio de 2007
COLUMBANO BORDALO PINHEIRO
A pintura de Columbano nunca me atraiu particularmente. Aliás, só recentemente aprendi a olhar a pintura naturalista da segunda metade do século XIX. O meu coração está com o expressionismo e as correntes subsequentes até 1970, sem esquecer o prévio cubismo e os trabalhos de Amadeo Souza-Cardoso. A minha alegria está quando visito a exposição permanente do Museu do Chiado (pintura do século XX) ou as três últimas salas de pintura do Museu Soares dos Reis (Porto) (igualmente pintura do século XX).
Nem as cores de Columbano despertam a minha atenção. São obras escuras, de nem sempre fácil apreensão. Os retratos, alinhados num dos lados da sala, são tristes, representam apenas homens (personalidades célebres na época, como Antero de Quental, Oliveira Martins, Guerra Junqueiro, Fialho de Almeida, Henrique Lopes de Mendonça), com rostos quase iguais (barbas, olhares mortiços, escassa beleza masculina). De mulheres, vêem-se as da sua irmão mais velha e pouco mais.Reconheço que estou a exagerar e a desprezar a obra de Columbano, sem qualquer justificação. Primeiro, o retrato de Matilde Adelaide Pinto da Silva mostra-nos uma grande finura de traços, uma compreensão dos sentimentos da retratada. Depois, basta olhar para O sarau (1880) para contrariar a opinião expressa nas linhas anteriores. Ao centro-esquerda da tela, está um piano com uma jovem a interpretar. De pé, um homem mais velho canta, ou declama, ou dirige musicalmente uma parte da assistência. Em cada um dos cantos da cena, mulheres e homens, escutam. Em primeiro plano, parece haver um gato; em fundo, observam-se algumas decorações (relógio, vaso, candeeiro), que veríamos também nas fotografias de finais do século.
É uma cena de serão familiar. Observam-se duas gerações distintas, sendo o sarau uma actividade cultural e de educação e integração social. Há um rigor nas roupas: o senhor à direita usa um fraque, o menino ao centro veste elegantemente uns calções deixando sobressair umas meias vermelhas. O longo cabelo louro e a posição das pernas denuncia a sua chegada junto do grupo dos cantores. As senhoras, de cabelo puxado atrás, seguem o movimento do rapazinho. À esquerda, estão os intelectuais: talvez pintores, artistas, poetas, filósofos.
As cores representadas são quentes, em oposição a outros quadros do pintor. E esta obra parece anunciar uma tira de banda desenhada: poder-se-iam contar várias histórias olhando o modo como os grupos se encaixam.
Reformulo, assim, a opinião incorrecta acima escrita neste postal. A sua obra, que na exposição percorre os anos de 1874 a 1900, possui a dimensão apropriada para caber numa mostra temporária no Museu do Chiado, e parte de um importante espólio daquele museu. Depois, remete para uma época precisa, de grandes mudanças sociais, políticas e culturais (o ultimato dos anos 1880 é uma marca na história nacional e os retratos representam alguns dos principais dirigentes políticos e intelectuais que tomaram parte nas manifestações dessa época). Em terceiro lugar, o percurso de Columbano passa por trazer novidades para o panorama português, após passagens pela cultura e arte de Paris, então a capital do mundo: apesar de naturalista, há um ar fresco nos temas e no preenchimento dos espaços da tela.
Noto particularmente as cenas da burguesia, de que o quadro descrito acima é o expoente. A arte e a música eram expressões de riqueza intelectual, quando a burguesia controlava desde há muito o poder económico e político. Mas o quadro reflecte ainda o lado intimista de muita da produção de Columbano: as histórias individuais, aqui dentro da família, são resultado de interacções estabelecidas entre aqueles e esta. A natureza pintada não era tanto a natureza de lá fora, mas a vivida no interior do lar, do conforto e da alegria dos pequenos gestos em casa.
Exposição de Columbano Bordalo Pinheiro patente no Museu do Chiado, organizada por Pedro Lapa, director do próprio museu.
sábado, 12 de maio de 2007
CARTAZES DE CINEMA
Por mim indicada ontem mesmo, a exposição Cinema em cartaz, patente na Cordoaria Nacional, merece uma visita. Só manifesto pena pelo escasso material informativo disponível para trazer embora (4 páginas de informação).
Destaco o primeiro e o terceiro núcleos. O primeiro é constituído por cartazes inspirados em obras célebres da literatura (os film d'art), em que a imagem ilustra os protagonistas em momentos célebres do enredo. No terceiro núcleo, nota-se a diversidade de géneros - filmes cómicos, trágicos, épicos, documentais. E também filmes inspirados em temas bíblicos e aventuras e eventos exóticos.
O LIVRO DAS IMAGENS

O novo livro de João Mário Grilo, O livro das imagens - a lançar no dia 28, pelas 18:30, na FNAC-Chiado, em Lisboa, com apresentação a cargo do professor Manuel Maria Carrilho - recolhe uma selecção das crónicas escritas pelo autor para a revista Visão (coluna de opinião com o título "Imagens") [aqui, no blogue, algumas essas crónicas serviram-me para escrever mensagens]. A editora é a MinervaCoimbra (na sua colecção de comunicação).
João Mário Grilo nasceu em 1958, na Figueira da Foz. Docente na Universidade Nova de Lisboa, é igualmente cineasta: Maria (1978), A Estrangeira (1982), O Processo do Rei (1989), O Fim do Mundo (1993), Saramago: documento (1994), Os Olhos da Ásia (1996), Longe da Vista (1998), 451 Forte (2000), A Falha (2002), Prova de Contacto (2004) e O Tapete Voador (2007, em produção no Irão). Ganhou o Prémio Georges Sadoul, em 1983. Dos seus livros incluem-se A Ordem no Cinema, O Homem Imaginado, O Cinema da Não-Ilusão (os dois últimos aqui comentados) e As Lições do Cinema (que ainda não vi nas livrarias).
NOITE DOS MUSEUS
sexta-feira, 11 de maio de 2007
CINEMA EM CARTAZ

Trata-se do acervo Joaquim António Viegas do Museu Municipal de Faro em exposição na Cordoaria Nacional (Lisboa), aberta ao público até ao dia 24 de Junho.
Pelo que li do texto de Leonor Figueiredo, no Diário de Notícias de anteontem, a exposição é imperdível. São dezenas de cartazes onde se conta, afinal, a história dos primeiros filmes estrangeiros exibidos no nosso país (1904-1916). Há mesmo cartazes que as distribuidoras já não possuem, caso da Léon Gaumont. Marta Mestre, comissária adjunta, salienta o duplo valor dos cartazes - precursores da comunicação para o grande público e contemporâneos do surgimento do cinema enquanto indústria cultural (sigo o texto de Leonor Figueiredo).
Joaquim António Viegas (1874-1946) foi cenógrafo de Faro, tendo trabalhado no Real Colyseo e no Chiado Terrasse. Obteve os 136 cartazes de cinema nos circuitos das distribuidoras nacionais (a colecção tem ainda 140 cartazes de circo e publicidade). A colecção foi doada pelo seu filho, entretanto também já falecido.
Repito, pelas imagens publicadas no jornal, a exposição é mesmo a não perder!
VENDA DE CARTAZES DE CINEMA

Ver o sítio CinemaScope, onde se anuncia a venda de cartazes de cinema, postais, fotografias e livros.
Segundo a promoção da loja, esta "oferece também, para além dos cartazes originais, uma enorme gama de reproduções de cartazes de cinema, que vão dos filmes clássicos aos blockbusters de maior sucesso".
ESCOLA EM DOCUMENTÁRIO
[observação: o blogueiro não teve oportunidade de dar a informação no seu devido tempo, mas ela fica aqui como memória]
A Escola Secundária D. Sancho I (Vila Nova de Famalicão), através do Clube de Cinema e em colaboração com a Oficina da Escola Profissional do Instituto Nun'Alvares, apresentou um documentário no âmbito das celebrações dos 50 anos da instituição (Escola Secundária D. Sancho I – 50 anos ao serviço da educação).
O documentário, de 45 minutos, seria exibido na Casa das Artes, na noite do passado dia 9 de Maio. A história da escola é contada através do testemunho dos seus intervenientes mais antigos e actuais, caso do engenheiro Oliveira Duarte, primeiro director da então chamada Escola Industrial e Comercial. Um ex-aluno, que também participa no documentário, é Carvalho da Silva, líder da central de sindicatos CGTP.
LISBOA IDEAL - AMANHÃ É A SUA APRESENTAÇÃO
Retirado do sítio alkantara:
- Paralelamente ao projecto "Lugares Imaginários", ALKANTARA e ZDB apresentam dia 12 de Maio o evento público "Lisboa Ideal". Numa cidade onde o imaginário e a utopia convivem diariamente com uma realidade conflituosa - entre mobilidade e habitação, a loja de bairro e o grande comércio, a renovação e a construção, o Tejo e a actividade portuária, a especulação imobiliária e a degradação do património, a história e a contemporaneidade... "Lisboa Ideal" visa juntar ideias para o futuro. Entre Fevereiro e Abril, ALKANTARA e ZDB convidaram os habitantes de Lisboa, de todas as idades e profissões, a repensar o âmbito em que trabalhamos e vivemos.
quinta-feira, 10 de maio de 2007
CENSURA NA INTERNET
A Amnistia Internacional publicou em 2006 um relatório sobre o papel da Yahoo, Microsoft e Google na China e lançou uma campanha contra a censura na internet, a qual se tem tornado mais sofisticada. O Irão e a China, em especial, utilizam técnicas refinadas para manter controlo cerrado sobre o tráfego na internet.
Se alguém, naqueles dois países, procura informação sobre democracia e direitos humanos ou até páginas com notícias da BBC World Service, elas desaparecem. Páginas e blogues com informação não desejada são retirados rapidamente e os seus criadores correm o risco de acção legal. Por seu turno, os sítios estrangeiros com informação semelhante estão inacessíveis.
Sem ser fora do comum, empresas ocidentais como CISCO, Yahoo, Google e Microsoft cooperam com essa forma de censura. Mas, ao mesmo tempo, crescem software e métodos empregues para contrariar essa censura. É uma esperança!
[com base em Sigrid Deters (Radio Netherlands Worldwide), a partir de informação de Andy Sennitt (blogue Media Network Weblog)]
Se alguém, naqueles dois países, procura informação sobre democracia e direitos humanos ou até páginas com notícias da BBC World Service, elas desaparecem. Páginas e blogues com informação não desejada são retirados rapidamente e os seus criadores correm o risco de acção legal. Por seu turno, os sítios estrangeiros com informação semelhante estão inacessíveis.
Sem ser fora do comum, empresas ocidentais como CISCO, Yahoo, Google e Microsoft cooperam com essa forma de censura. Mas, ao mesmo tempo, crescem software e métodos empregues para contrariar essa censura. É uma esperança!
[com base em Sigrid Deters (Radio Netherlands Worldwide), a partir de informação de Andy Sennitt (blogue Media Network Weblog)]
CRIANÇA RAPTADA NO ALGARVE
Dói ver ou ler as notícias sobre a criança inglesa desaparecida.
Na SIC, no noticiário das 20:00 de hoje, a jornalista em directo descrevia a azáfama dos jornalistas. Dizia ela que os jornalistas estão exaustos de trabalho, com dez e mais horas de trabalho diário. Qualquer pista, divulgada não se sabe por quem, provoca imediato alvoroço nos jornalistas. Hoje, uma informação de que se passava algo em Sevilha fez deslocar de imediato jornalistas ingleses para aquela cidade do sul de Espanha. Verificou-se, depois, tratar-se de um boato.
Os jornais diários tanto escrevem ser um rapto como a polícia marítima andar à procura de um saco no mar, como uma cassete de bomba de gasolina com uma mulher ou um casal a fotografar crianças numa esplanada. Um criminalista, num dia, afirmava peremptoriamente tratar-se de um inglês o autor do rapto para, no dia imediato, descrever a possível saída da criança da casa onde estava e ter-se perdido. Havia um retrato-robô inicial de um homem desenhado de costas, moreno de pele (não sei como se consegue ver a pele de uma pessoa estando de costas). Os suspeitos são sempre apresentados como estranhos, mas nada divulgam que confirme tal estranheza.
Tantas narrativas desencontradas, tantas hipóteses geradas. Cada meio de comunicação, cada jornalista em directo, apresenta uma versão, uma história. Não fosse a tragédia e a multiplicidade de alternativas dava um muito imaginativo videojogo. Sete dias de histórias correspondem a um aluvião de ideias sempre renovadas.
Além da tragédia em si, há outra tragédia, a do jornalismo. Na ânsia de informar o público ou as audiências, especula-se, apela-se à emotividade. Para mim, é apenas sensacionalismo gerado pela concorrência dos media. Querendo distinguir-se pela informação, são miméticos no que dizem ou escrevem – nada. O que não alegra quem lê jornais e ensina jornalismo.
quarta-feira, 9 de maio de 2007
XOVES EN GALICIA
Mañá xoves, 10 de maio, abre Cultur.gal, o evento máis ambicioso de venda e promoción dos productos culturais en Galego (libro, disco e audiovisual) que se teña feito na nosa historia.
Podes consultar o completísimo programa de actividades, deseñado para todas as idades e intereses, neste enlace: http://www.culturgal.com/invitacion.php.

[informação fornecida por Manuel Bragado]
Podes consultar o completísimo programa de actividades, deseñado para todas as idades e intereses, neste enlace: http://www.culturgal.com/invitacion.php.

[informação fornecida por Manuel Bragado]
PRÉMIO DE CURTAS DIGITAIS

O Festroia - Festival Internacional de Cinema - e o portal SAPO criaram um prémio designado por Curtas Digitais, tendo como objectivo "dar oportunidade aos novos talentos de apresentarem os seus trabalhos on-line, a uma audiência de centenas de milhares de utilizadores".
O concurso está aberto até 31 de Maio e a todos os residentes em Portugal. Cada participante pode inscrever até cinco vídeos por realizador, com uma duração máxima de dez minutos, com tema livre.
O formulário de inscrição e o regulamento estão disponíveis em http://videos.sapo.pt/festroia.
Segundo a informação dos promotores do prémio, "O vencedor será escolhido por votação online dos visitantes e utilizadores do SAPO, a realizar entre as 21 horas de 1 de Junho e as 21 horas de 8 de Junho. Os dez vídeos mais votados serão apreciados por um júri composto por elementos do SAPO Vídeos e do Festroia que decidirá o vencedor".
O prémio tem um valor monetário de € 2 mil. O vencedor partilhará a oportunidade de subir ao palco do Festroia a 9 de Junho, juntamente com os vencedores das secções competitivas do festival, bem como a ver exibida a sua curta na sessão das 21:30 do dia 10.
terça-feira, 8 de maio de 2007
A PROFISSÃO DE JORNALISTA
Este é, sem dúvida, um dos livros do ano, na sua área temática. Fernando Correia e Carla Baptista fizeram em Jornalistas, do ofício à profissão. Mudanças no jornalismo português (1956-1968) - agora editado pela Caminho e com o patrocínio do Instituto de Comunicação Social - a reconstituição das condições políticas, sociais, culturais, tecnológicas do jornalismo português.

O livro, conforme se lê na contracapa, "é um retrato vivido da forma como os jornalistas portugueses foram construindo um território profissional, orientado por valores éticos e humanos e definido pela posse de competências e saberes específicos. [...] O leitor encontrará aqui a análise de um período (1956-1968) considerado pelos autores como decisivo para a construção da profissão".
Resultado de um trabalho de investigação realizado no âmbito de projecto do CIMJ (Centro de Investigação Media e Jornalismo) e financiado pela FCT, o livro assenta em 38 entrevistas semidirectivas, as quais habilitaram os autores a recuperar a memória de jornalistas que iniciaram a profissão antes de meados dos anos 1960.
Fernando Correia tem o mestrado em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação pelo ISCTE e é professor associado convidado da Universidade Lusófona e chefe de redacção da revista Vértice e director editorial da revista Jornalismo e Jornalistas. Dos seus livros, destaco Os jornalistas e as notícias (Caminho). Carla Baptista prepara o doutoramento em Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa, onde exerce funções docentes, tendo sido já jornalista no Diário de Notícias. Publicou o livro Portugal no olhar de Angola.
PLATAFORMA DE BLOGUES
Anuncia-se o surgimento do Bloguerama, nome de nova plataforma de blogues temáticos lançada pela Hi-Media no mercado nacional. Oriunda de França, a plataforma propõe-se aceitar a criação gratuita de blogues temáticos. Os temas já disponibilizados são Blogue de Música, Blogue do Bebé, Fotosblogue, Bloguepessoal, Bloguedesporto e Bloguedoido.
Fonte: Meios e Publicidade.
30 Dias
Os Da Weasel já tocam há 14 anos, são um fenómeno da música nacional vindos de Almada. Gravaram inicialmente em 1994, após passarem pela desaparecida rádio XFM. Era o primeiro álbum de hip hop português.
Para além do tema de capa, o 30 Dias, roteiro cultural de Oeiras, dá relevo a exposições, caso do Centro de Arte, Colecção Manuel Brito. Até Setembro, há uma exposição de Menez, a não perder. Igualmente a acompanhar o II Encontro Oeiras a Ler, nos dias 24 e 25 de Maio.
segunda-feira, 7 de maio de 2007
JORNALISMO LITERÁRIO
[Para o Nuno Seabra Lopes, do blogue Extratexto. Esta não é, certamente, a resposta que ele pretendia, mas ficam aqui algumas reflexões mais ou menos alinhavadas, sujeitas a toda a crítica e críticos]
O caderno "Mil Folhas", do Público, desapareceu com a última e grande remodelação do jornal. Era um seu caderno emblemático, editado aos sábados. A sua fortuna foi muita, pois, sob o mesmo nome, o jornal fez sair uma colecção, creio que com 100 livros, de autores consagrados e textos de qualidade.
Foi, se quisermos, o último caderno literário a sair com um jornal diário. O seu desaparecimento - apesar do substituto "Ípsilon" ser igualmente um bom caderno - marca, possivelmente, o fim da narrativa literária nos jornais impressos. O prazer da reflexão crítica da leitura está a migrar para os novos media (vivam os blogues literários, reclamou o mesmo Nuno Seabra Lopes aqui).
Que balanço (provisório) de mais de um século de literatura nos jornais? [uso aqui como sinónimos jornalismo literário e literatura nos jornais, embora sejam conceitos diferentes] Podemos dizer que o jornalismo literário é uma marca do jornalismo continental. Zola em França, Eça de Queirós e Ramalho Ortigão em Portugal, foram escritores que deram prestimosa colaboração aos jornais. Ainda hoje, a tradição literária faz com que escritores sobrevivam na profissão de jornalista. A narrativa, a história, a ficção, a trama, o envolvimento psicológico e a descrição sociológica eram burilados pelo jornalista-escritor.
Isto ao contrário do jornalismo inglês ou americano, onde cedo emerge a figura de repórter, aquele que descreve friamente o acontecimento no próprio local e usava as palavras que ouve dos seus intervenientes. Um jornalista do começo do século XX dizia que os seus colegas anglo-americanos pensavam com os pés, dado calcorrearem muitos quilómetros em busca da notícia. A escrita jornalística é rápida. O seu ritmo é o do esboço (o esquisso, tirado do francês). Os diálogos são secos, curtos, às vezes carregados de pontuação.
Para além da veia de narrador e contador de histórias, o jornalismo literário tinha outras personalidades, como o filósofo. Ainda a tradição jornalística europeia continental: os editoriais, as crónicas, as colunas de intelectuais eram produto de longas elaborações, efabulações, críticas, até polémicas. Um bom jornal era aquele que alimentava a discussão, a querela.
João Gaspar Simões combinaria essa arte de crítico e filósofo, deixando marcas nas páginas literárias do seu jornal de sempre, o Diário de Notícias. Eram páginas de erudição, de confluência de saberes, de ensaio para produções mais laboriosas, de experiências estéticas. As páginas literárias competiam com as revistas. Apesar da sua efemeridade, o impacto era considerável junto do elevado público que as lia.
As elites culturais formavam-se e desenvolviam-se através de uma identificação com os jornais que liam. José Augusto França e os seus textos assinalaram rupturas estéticas nas artes visuais, nomeadamente. O Primeiro de Janeiro, no Porto e nos anos 1950 e 1960, foi um jornal que deixou uma marca literária, sendo ao mesmo tempo um jornal de informação diária. A "Mosca", do Diário de Lisboa, deu a conhecer novos valores numa altura em que o Estado Novo definhava. Ou seja, o simples artigo e a página literária eram formas de revelar e albergar movimentos.
Assim, a cultura literária, para além dos livros, das revistas de especialidade e das conferências, singrava nos jornais. De folhetim de finais do século XIX, ocupando o rodapé da primeira ou da segunda página, ao artigo crítico de meados do século XX, há uma evolução. Além do refinamento da linguagem, sobressai um alargamento de dimensão e a abertura para novos géneros: editorial, coluna, carta. A cultura, a arte e a crítica às obras assim o exigiam.
A cultura assente na leitura começaria a perder relevo com a massificação da cultura visual - o cinema, a televisão, o vídeo, a internet. Da construção da ideia, elaborada lentamente, passa-se à visualização, ao conhecimento brutal da realidade instantânea e não mediada por códigos de interpretação e descodificação. Daí o crédito à noção de uma imagem valer mais do que mil palavras. À experiência da imagem alia-se a movimentação do indivíduo pelo transporte mecânico que o leva de sítio para sítio (deambulação pelo espaço), mais um elemento a perturbar o peso da leitura e, logo, do jornalismo literário. A própria literatura deixa-se seduzir pela narrativa pictórica - o filme, a telenovela, o videojogo.
O desaparecimento do "Mil Folhas", do Público, é o registo da mudança de paradigma comunicacional. O jornal Público tornou-se mais visual, as imagens ocupam o espaço das páginas centrais. A informação quer-se mais curta e incisiva.
Mas, curiosamente, enfatizam-se as soft news - as notícias com interesse humano. Um acontecimento é visto através de uma história, uma narrativa. O jornalismo literário desaparece, no seu território e fronteiras, mas reaparece dentro da notícia, com tensão, movimento, ritmo, harmonia, encadeamento.
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