sexta-feira, 17 de junho de 2005

BLOGUES QUE VOU SEGUIR MAIS ATENTAMENTE

Eles falam basicamente sobre tecnologias mas mostram uma grande atenção à sua correlação com a sociedade. Um é de um blogueiro do Porto (João Paulo Meneses) e o outro de Lisboa (Hugo Neves da Silva), um está a fazer o doutoramento e o outro o mestrado (jornalismo, comunicação). Já me referi a eles em algumas situações (um deles consta do meu último post). São osegundochoque e lisbonlab.
AINDA O COLÓQUIO DE ONTEM SOBRE BLOGOSFERA

Um dos presentes no colóquio de ontem na Cordoaria Nacional, Hugo Neves da Silva, do blogue lisbonlab, tem uma proposta, que passo a citar (os sublinhados coloridos no texto são meus):

"Recentemente, uma amiga, colega de mestrado e jornalista ficou desempregada. Recordo-me perfeitamente de na altura lhe ter sugerido que criasse um blogue onde publicasse as reportagens que estava a terminar, de forma a mostrar o seu valor e quem sabe ter alguma oportunidade profissional. Felizmente, por ter tido rapidamente uma oportunidade de trabalho noutro órgão de comunicação social, acabou por não seguir o meu conselho. Curiosamente, no evento de ontem, Pacheco Pereira afirmou que não conseguia compreender por que motivo é que os inúmeros recém-licenciados da área de Comunicação Social ou os jornalistas desempregados, não criam os seus próprios blogues, nos quais podem publicar as suas notícias ou reportagens, mostrando as suas capacidades. Afinal, tempo não lhes falta. Na sua opinião, os «jornalistas» que tiverem qualidade e valor, serão certamente convidados a integrar os órgãos de comunicação social tradicionais.

"Como muitas vezes o mais difícil é dar o pontapé de saída, associado à vertente experimental que associei a este blogue desde o seu início e ao enorme espaço de alojamento que neste momento possuo desde que migrei para um domínio próprio, gostaria de lançar o desafio de criar um blog, por exemplo newsblog.lisbonlab ou observador.lisbonlab. Nesse espaço qualquer licenciado em comunicação social, jornalismo ou jornalista desempregado, poderia publicar gratuitamente as suas notícias, reportagens, entrevistas ou fotografias. Pessoalmente, responsabilizo-me pela disponibilização do espaço de alojamento, pela criação do blogue e pela sua manutenção. Assim que haja três interessados em colaborar neste desafio, inicio a criação do blogue. Os interessados em colaborar deverão expressar a sua vontade, enviando-me um email para lisbonlab@gmail.com".

Por favor, visitem o blogue lisbonlab.

Entretanto, o Diário de Notícias de hoje publicou uma peça muito equilibrada sobre o mesmo evento (de que incluo uma pequena parcela). Pena não aparecer assinada!
PALAVRAS SUPERLATIVAS

Houve um tempo em que a palavra mercado - como espaço físico de troca, compra e venda de produtos - já não era suficiente para determinar a dimensão esse espaço. Começou a falar-se de supermercado, onde cada tipo de produto era referenciado por marcas. Sou contemporâneo dessa palavra. Se, até aí, o local possível de aquisição de bens de primeira necessidade era um espaço pequeno e havia uma relação interpessoal entre quem vendia e quem comprava, mediado por uma barreira, o balcão, o supermercado alterou a relação de troca. Aboliram-se os balcões e, por vezes, as portas - caso de centros comerciais. Creio que de França veio a palavra hipermercado (aliás, uma marca que chegou a estar implantada no nosso país). Hipermercado é a palavra máxima para designar as superfícies de compra de bens, já não reduzidos a bens de primeira necessidade, mas onde se pode comprar de tudo - livros, gasolina, medicamentos um destes dias.

Claro que, ao lado do tratamento impessoal e onde o cliente pode mexer nas peças ou bens antes de comprar, os bens têm já indicação de preço, em forma electrónica de código de barras (em fim de ciclo, no presente momento), e criam-se nichos dentro do hipermercado, como numa concessão ao antigo armazém: de um lado, há provas (experimenta-se, antes de comprar, assistido por uma jovem apresentadora); por outro lado, há especialistas (caso dos electrodomésticos) que prestam conselhos antes da decisão da aquisição. Como no supermercado, o transporte de bens até à caixa registadora e desta para o parque de automóveis é feito por um carrinho. O supermercado e ainda mais o hipermercado implicam uma geografia de arrabalde ou periferia de centro urbano.

Mais recentemente, fomos enriquecendo o nosso vocabulário com palavras novas. Uma delas foi apagão. Há não muitos anos, Lisboa e uma parte do país ficou, repentinamente, sem energia eléctrica. Causa eventual: uma sobrecarga de utilização. Mas a resposta política foi uma cegonha que fez um curto-circuito e provocou o apagamento. Na realidade, as cegonhas escolhem sítios bem altos para os seus ninhos (torres de igreja, postes eléctricos), mas custa-me a crer que a ave, mesmo com as asas todas abertas tenha uma dimensão superior à distância das linhas eléctricas entre si.

Também surgiu a palavra buzinão. Nos últimos dez a quinze anos houve dois, pelo menos. Tratava-se de uma buzinadela geral em portagens de auto-estrada, protestando contra a sua implantação ou aumento de taxas. Isso surgiu em momentos de forte contestação política. Outra palavra foi calçadão. Ali para os lados de Cascais, junto ao mar, há um passeio comprido onde as pessoas podem passear, correr, andar de bicicleta ou simplesmente conversar, com uns bares e pequenos restaurantes (infelizmente tem estado fechado para obras). Já não é uma calçada, uma rua, um caminho - atingiu um ponto superlativo. Mais recentemente fomos surpreendidos pela palavra arrastão. Para mim, o termo significava barco de pesca maior que a traineira (pesca costeira) e que pode ir até mares profundos à pesca do bacalhau, por exemplo. Ora, o novo arrastão quer dizer movimento de gente no sentido de perturbar a ordem pública (roubando, provocando destruição).

Percebi que a palavra vem do Brasil, como as anteriores. Só que quem reportou esqueceu-se de uma coisa. Hoje, em Portugal, há uma grande comunidade brasileira que procurou o país para trabalhar. Como fala a mesma língua quer ser igual ao falante de cá. Essa legitimidade parece que ficou esquecida quando um jornalista disse: pois, o arrastão foi violento mas nada que se compare com o Brasil. Errado, arrastão já é uma palavra superlativa - e para não ser tão violento como do outro lado do Atlântico convinha construirmos outra palavra. Talvez arrastaozinho (sem til). Ao menos, assumíamos o ridículo da comparação!

[observação: depois de construir esta mensagem, dei a volta por vários blogues (8:47). Manuel Pinto já havia proposto ontem a palavra arrastinho. A minha ideia não é, pois, original. Rendo-me a quem pensou mais depressa]
DETERMINISMO TECNOLÓGICO

Para Marshall McLuhan (1911-1980), os media são tecnologias que alargam as percepções sensoriais humanas. Ao propor que o meio é a mensagem, argumenta que o significado cultural dos media não reside no seu conteúdo mas no modo como altera a nossa percepção do mundo. O impacto de qualquer tecnologia está na "mudança de escala, momento ou modelo que introduz nos assuntos humanos". O impacto particular das tecnologias dos media está no modo como alteram os "modelos de percepção rapidamente e sem qualquer resistência".

Daí se considerar McLuhan um determinista tecnológico, que define a história pela mudança tecnológica. A tecnologia da escrita induz uma mudança fundamental no modo como os seres humanos se relacionam uns com os outros, realçando a visão sobre o som, a leitura individual sobre as audiências colectivas.

O seu principal foco foi o peso dos meios de comunicação electrónicos (inicialmente, ele falou de meios eléctricos) [imagem retirada do sítio McLuhan.ca Global Research Network], que geraram as suas próprias consequências culturais no séc. XX (Murphy e Potts, 2003: 14). Para ele, rádio, cinema, alta-fidelidade e televisão constituíram uma mudança face às condições culturais da impressão, com os seus legados intelectuais de linearidade e racionalidade . O fluxo globalizado de informação, que começou com o uso da radiodifusão de satélite, nos anos de 1960, criou a aldeia global. A velocidade eléctrica da comunicação, com uma base audiovisual, e a saturação da sociedade com imagens e sons vindos de todo o mundo, produzem um campo perceptível total, em contraste com os modelos ordenados das culturas dominadas pela imprensa.

Para McLuhan, os efeitos culturais do meio impresso foram racionalidade e fragmentação social. Por contraste, os meios de massa audiovisuais forneciam uma corrente contínua e variada de informação de uma grande variedade de fontes. O resultado foi uma implosão cultural, na qual as pessoas ficavam a conhecer o mundo como uma comunidade de aldeia: podiam começar a pensar miticamente outra vez, atirando as camisas de força de uma dada cultura, determinada pelas propriedades da impressão.

Leitura: Andrew Murphy e John Potts (2003). Culture & technology. Nova Iorque: Palgrave Macmillan

quinta-feira, 16 de junho de 2005

BLOGOSFERA E O CIDADÃO

Foi o quarto e último da série Debates DN, uma realização dos 140 anos do Diário de Notícias, versando sobre blogues. O moderador foi Miguel Gaspar, jornalista da casa, e os oradores José Pacheco Pereira e Daniel Oliveira, ambos com blogues muito conhecidos.

Miguel Gaspar (ao centro na imagem) procurou definir o território da conversa: blogosfera como espaço público com uma nova dimensão e local de intervenção? Como jornalismo participativo, em que intervêm anónimos ou não jornalistas e divulgam acontecimentos e imagens (caso do tsunami)? Como vigilantes dos media (desmontando histórias)?

Daniel Oliveira (à direita na imagem), blogueiro do colectivo Barnabé, começou por referir a simplicidade do meio, elemento que o capacitou a democratizar-se rapidamente. Para ele, a nível internacional, a guerra do Iraque marcou a expansão dos blogues, enquanto a massificação da blogosfera portuguesa, nomeadamente a identificada com a política, se deveu à fragilidade da comunicação social e a uma questão geracional (os comentadores políticos nos media clássicos vêem de 1974).

Os blogues entre novas formas criativas e um diferente tipo de solidão urbana

Por seu turno, José Pacheco Pereira, após concordar com a ideia de que fazer um blogue é simples e pessoal (sem editor), destacou a evolução desta ferramenta relativamente às páginas pessoais. O blogue tem uma relação diferente com o tempo, é como um pergaminho que se estende no ecrã (o que não está no ecrã está no limbo, corre o risco de não ser consultado e lido). Por isso, o blogue favorece o sentido da imediaticidade, a escrita do tempo presente. A mensagem ou comentário são colocados em tempo real, distintos do diferido nos outros media. A cacofonia, a multiplicidade ou pluralidade de vozes, é o resultado do espaço democrático do meio.

Para além de destacar a importância dos blogues na comunicação social, o blogueiro do Abrupto entende que o novo espaço público é ainda dos domínios: 1) das novas formas criativas (literárias e estéticas), 2) da solidão urbana (em especial a dos blogues actualizados às 3 e 4 horas da manhã, problemática que se encontra também nos chats). Na intervenção inicial, Pacheco Pereira ainda teve oportunidade de referir ao projecto MyLifeBits, da Microsoft, que estuda a possibilidade de colocarmos tudo o que vimos, lemos e ouvimos num disco duro, uma vida inteira num programa informático. Esta memória individual arquivada útil pode ter um reverso: se for roubada, é uma vida que se rouba!

A uma pergunta da assistência - o blogue como hipótese de espaço de contracultura -, Daniel Oliveira falou do seu percurso mais recente, o de cronista num jornal (Expresso). Ele considera haver muito mais crítica e agressividade nos blogues - que comentam logo um erro ou falha dos jornalistas - face ao jornal. Aqui, a crítica, a existir, é lenta. Se há desgaste no blogueiro, o colunista do jornal não tem retroacção do seu trabalho.

Muito mais foi dito. A sessão, apesar de não começar à hora exacta, acabou depois das 20:30. Foi uma conversa muito interessante, em que também se abordou a possibilidade dos blogues se transformarem em actividade comercial.
No fim, Pacheco Pereira aceitava a hipótese de um pagamento por consulta às páginas dos blogues: afinal, escrever aqui é tempo que se gasta, e o tempo deve ser contabilizado como elemento económico [ao lado, imagem da exposição dos 140 anos do Diário de Notícias. Perguntas sobre a exposição: depois de sair da Cordoaria Nacional, a exposição vai para algum sítio? Não foi uma má ocasião terem feito agora a exposição, com feriados e jovens em época de exames? Vai ficar alguma coisa de memória, como um livro?].
MEDIA, IMIGRAÇÃO E MINORIAS ÉTNICAS

Foi ontem apresentado o trabalho conduzido por Isabel Ferin (Universidade de Coimbra) e de Clara Almeida Santos com o título acima designado, uma encomenda do Observatório da Imigração, entidade pertencente ao ACIME. A apresentação do trabalho decorreu durante a tarde, integrado num conjunto de actividades, de que destaco também a conferência de Gian Maria Bellu, jornalista do diário italiano La Repubblica sobre a temática imigração e integração (à esquerda na imagem).

No trabalho de Ferin e colega, foram observadas 1791 peças jornalísticas respeitantes a 2004 (imprensa e televisão). Da análise as autoras concluiram ter havido um pico em Janeiro, sendo a hipótese explicativa o facto de as quotas de entrada de imigrantes terem constado da agenda política nessa altura.

Dos principais temas abordados nas notícias, ressaltam o ilegal (ou indocumentado) e o policial. Mas o crime é o mais abordado enquanto assunto noticioso (19,5% das peças de imprensa e 26,6% em televisão). As autoras encontraram uma dicotomia nas peças de televisão: muito curtas (em voz off) mas também mais compridas (reportagens).

Tem havido, ao longo do tempo, uma melhor definição de minorias, deixando o singular para passar a distinguir as várias origens: de leste, brasileiros, chineses, paquistaneses, indianos. Por exemplo, na televisão deu-se uma maior ênfase à comunidade chinesa enquanto a cigana (predominante no ano anterior) quase desapareceu. Em termos de peças de imprensa, há uma dispersão geográfica ao passo que as notícias de televisão localizam-se em Lisboa (35,4%), devido às estações estarem aqui situadas. Quanto a vozes, a imprensa recorre com frequência a especialistas sobre a imigração (8%), ao passo que a televisão junta especialistas e vozes populares, verificando-se um decréscimo de vozes institucionais (SEF, governo, polícia).

O trabalho de Isabel Ferin e Clara Almeida Santos foi comentado por jornalistas, num conjunto de contributos úteis. Refira-se que este é o terceiro trabalho de análise dos media sobre imigração e minorias étnicas, fruto de encomenda do Alto Comissariado para a Integração e Minorias Étnicas, sendo o primeiro executado pelo Obercom e o segundo já liderado por Isabel Ferin. Neste momento, não se sabe se o programa irá continuar - pois prevêem-se alterações na cúpula do ACIME -, mas julgo ser muito valiosa a sua manutenção.

Prémios de jornalismo

Já ontem referi os nomes dos vencedores dos prémios [na imagem, o padre António Vaz Pinto, Alto Comissário, dava começo à sessão de entrega de prémios]. Manifesto, antes de tudo, o regozijo pela rádio ter arrecadado dois prémios, o grande prémio, atribuído a Carlos Raleiras (TSF) - Fronteiras à margem do sonho - e o da rádio, ganho por António José Soares (RR) - Sorrisos de leste. São peças de grande densidade emocional e bem construídas, em que as vozes e os sons ganham uma nova dimensão. Se Soares apresenta um trabalho optimista (casos de sucesso entre imigrantes, que ele entrevistou ao longo do país), Raleiras mostra como o sonho de chegar a uma terra prometida pode ser uma armadilha, mas onde há ajuda e possibilidades de refazer a esperança.

Na imprensa, Luís Filipe Ribeiro (Visão) - De Portugal, com amor - retratou o modo como ucranianos vivem em Portugal, muitas vezes afastados da família e o modo como se reencontram. O jornalista (e o fotógrafo) foram à Ucrânia e trouxeram retratos dessas famílias cheias de saudade e descrevem como uma jovem se reencontrou com o pai, aqui em Lisboa, quatro anos depois da separação. A sua leitura faz lembrar os pequenos dramas pessoais e familiares de portugueses que, nas décadas passadas, foram trabalhar para França, Alemanha, Suíça e Luxemburgo.

Já a peça de Carla Adão (RTP África) - Herança d'África [os dois fotogramas aqui inseridos pertencem ao trabalho da jornalista] - retrata a vida de jovens de segunda geração de imigrantes de países africanos, já aqui nascidos e que se sentem bem em Portugal mas onde há memórias e apelos de outras latitudes e culturas. Sem ter um texto construído pela jornalista - que preferiu recorrer a uma psicóloga de educação para fazer de "apresentadora" dos vários casos pessoais - a peça retrata esse misto de pertença e não-pertença, positivo porque traz novas mentalidades e perspectivas, negativo porque pode conduzir a uma descrença no futuro pessoal.


Observação: o blogueiro foi presidente do júri deste prémio de jornalismo.

quarta-feira, 15 de junho de 2005

REVISTAS



Já saíu o número 22 (Abril/Junho) da JJ - Jornalismo e Jornalistas. Tema de capa: "Uma certa moda anunciada" sobre a crise e/ou mutação do jornalismo, escrita por J.-M. Nobre Correia. Elejo um primeiro texto da revista, o de Gonçalo Pereira, "Dissecando as notícias do ambiente", síntese da sua brilhante tese de mestrado defendida na Universidade Católica [na imagem, a primeira página do seu texto na JJ]. A propósito, ele vai estar na mesma universidade, amanhã ao fim da tarde, exactamente a falar desse texto. É livre a entrada para o colóquio. E elejo um segundo trabalho, o de Cátia Candeias, que entrevista Aralynn Abare McMane, do departamento de educação da WAN (Associação Mundial de Jornais).

Na mesma JJ, há o anúncio do número 6 da Media & Jornalismo. Já me disseram que a revista está pronta, mas ainda não a vi. Estou com uma grande curiosidade em folheá-la. É que há um artigo meu: "Jornalismo português em finais do século XIX". Onde escrevo sobre Alberto Bessa e jornalistas seus contemporâneos. Perdoem a publicidade (também não se trata de uma declaração de interesses).

Prémios de jornalismo pela tolerância do ACIME

Prometo amanhã fazer o desenvolvimento (e falar do colóquio que decorreu durante a tarde), mas ficam já os nomes dos vencedores: 1) rádio - António José Soares (Renascença) - Sorrisos de leste, 2) televisão - Carla Adão (RTP África) - Herança d'África, 3) imprensa (escrita e online) - Luís Filipe Ribeiro (Visão) - De Portugal, com amor, e 4) grande prémio - Carlos Raleiras (TSF) - Fronteiras à margem do sonho. Parabéns a todos.
PRÉMIO IMIGRAÇÃO E MINORIAS ÉTNICAS: JORNALISMO PELA TOLERÂNCIA

O ACIME entrega hoje o prémio de jornalismo pela tolerância sobre imigração e minorias étnicas.

Imprensa (escrita e online), rádio e televisão são as áreas premiadas. Há ainda um grande prémio, a sair dos trabalhos nestas áreas. Espero fazer amanhã uma abordagem precisa ao evento.

Debate sobre blogues

Integrado nos debates DN 140 anos, amanhã haverá um debate sobre blogosfera e o cidadão, na Cordoaria Nacional, aqui em Lisboa, pelas 18:00. Modera Miguel Gaspar, com Pacheco Pereira e Daniel Oliveira como oradores.

terça-feira, 14 de junho de 2005

NECROLOGIAS

Concordo quase plenamente com o que ontem editou Paula Cordeiro, no blogue NetFM, a propósito das mortes de Álvaro Cunhal e Eugénio de Andrade. O título da sua mensagem seria Bons momentos de rádio. Escrevendo habitualmente sobre a rádio, a professora universitária anotou que "quer a Antena 1 quer a TSF dedicaram parte da manhã informativa a cada uma das figuras. No geral, as restantes estações limitaram-se a fazer pequenos apontamentos nos noticiários à hora certa". Eu, antes da dez da manhã, ouvia a Antena 1. Curiosamente, tomei conhecimento da morte de Cunhal perto de Santa Comba Dão, terra de Salazar, que eu atravessava de automóvel vindo de mais a norte em direcção a Lisboa.

Da produção de stock às capas de jornais

Mas os bons momentos de rádio tiveram, no caso da estação pública, trabalho editorial prévio, pois foi feita uma emissão especial durante cerca de uma hora sobre o antigo líder comunista, com certeza não executada em cima da hora. Um investigador francês, Patrice Flichy, a propósito da televisão, distingue produção de fluxo (a necessidade de ter notícias hora a hora) e produção de stock (a passar em momentos específicos). Isto significa que os "bons momentos de rádio" também contaram com a percepção de que Cunhal estava a morrer.

Quanto à televisão vi apenas parte do noticiário das 20:00 do canal público. Já havia horas de intervalo entre o conhecimento da morte de Cunhal e o noticiário pelo que foi possível ouvir testemunhos de apoiantes e críticos da linha política da personalidade agora desaparecida. A televisão, como usa o elemento "voz popular" como uma das estratégias de alongamento do noticiário, entrevistou gente anónima que falou sobre Cunhal. E, se a rádio pode distribuir a informação também pelo desaparecimento de Eugénio de Andrade, pressupondo um público mais conhecedor, a televisão deu a primazia ao político, dado o poeta não ter a notoriedade popular daquele. Como observou com pertinência Madalena Oliveira, do blogue Jornalismo e Comunicação: "O mesmo se repete de cada vez que morre um personalidade da vida pública - a morte é uma notícia que se prolonga interminavelmente nos telejornais".

O mais interessante viria do campo da imprensa, como escreveu Manuel Pinto, do mesmo blogue Jornalismo e Comunicação. Com uma mensagem intitulada A primeira página, ele mostra como foi diferente o dispositivo dos editores dos jornais de qualidade (Público, Diário de Notícias), populares de qualidade (Jornal de Notícias) e populares (Correio da Manhã) (remeto para o seu blogue a leitura completa do post). Como resolver o facto de duas figuras públicas morrerem no mesmo dia? Qual o relevo de cada uma?

O resultado do Diário de Notícias foi o mais espectacular em termos de impacto. Ao desenhar a fórmula de duas capas - uma em cada lado do jornal - uma das metades foi dedicada ao político e a outra, impressa ao contrário, ao poeta (no quiosque onde compro os jornais, o lado de cima tinha a capa de Eugénio de Andrade) - o jornal resolveu facilmente essa tarefa (ver texto de Luís António Santos, no blogue Atrium). Isso encontra-se com alguma frequência em livros bilingues, onde tanto se pode começar de um lado como do outro. Mas também em livros de banda desenhada. Confesso que gostei mais da capa do Público, que juntou aos dois desaparecidos um terceiro, o pintor René Bertholo, dando-lhe uma página completa (p. 49).

Páginas de necrologia e gravatas pretas

Pus-me a meditar - na sequência do comentário de Madalena Oliveira acima referido - em como a necrologia toma conta dos media. Dantes, era possível correr as últimas páginas dos jornais, onde se noticiavam as mortes, mas também os nascimentos, os baptizados e os casamentos (menos os divórcios), negócio praticamente deixado aos pequenos jornais locais e regionais. Em jornais de grande tiragem, apenas o Jornal de Notícias tem uma secção de necrologia com peso de publicidade (do mesmo modo ainda é possível ver, nas pequenas cidades, informação colocada nos estabelecimentos comerciais sobre os falecimentos, a fim dos conhecidos saberem para onde vai o funeral). Já os diários de Lisboa quase não têm este espaço: a morte é do domínio privado, não se anuncia mas esconde-se. À excepção das figuras públicas, que merecem lugar na primeira página com indicação do ano de nascimento (e de morte, como nós não soubessemos o ano em curso).

Ainda me lembro do cenário de destruição da ponte de Entre-os-Rios em 2001. Para além da carga emotiva, e da contínua e exagerada presença dos jornalistas em directo, os jornalistas âncora (pivôs) vestiam gravatas pretas. O espaço de rigor e isenção, que se exige dos media, transforma-se nestas ocasiões. Noutras, no caso do futebol, levam-se cachecóis e bandeiras, publicitando gostos e tendências pessoais. Os media, em especial a televisão, procuram ser nossos íntimos, entrar amigavelmente dentro das nossas casas; daí, todo esse à-vontade.

segunda-feira, 13 de junho de 2005

NELSON RIBEIRO E A RÁDIO RENASCENÇA

Para substituir Rui Pêgo como director de programas da Renascença foi nomeado Nelson Ribeiro, até agora responsável pela Mega FM, o canal mais recente do grupo Renascença.

Do que eu conheço de Nelson Ribeiro - independentemente de outros valores dentro da RR -, trata-se de uma boa escolha. Radialista, professor universitário e historiador [para além da tese de licenciatura sobre a estação de que é nomeado agora director e que saiu em livro, A Rádio Renascença e o 25 de Abril, 2002, uma sua história da rádio está no prelo: A Emissora Nacional nos primeiros anos do Estado Novo, 1933-1945, em edição da Quimera], é um profissional muito aplicado. Nelson Ribeiro já vinha sendo preparado para vôos mais altos dentro do grupo Renascença.
JESÚS MARTÍN-BARBERO

Nasceu em Ávila (Espanha, 1937) e vive na Colômbia desde 1963. Estudou filosofia em Lovaina (Bélgica, 1971) e Antropologia e Semiótica na École des Hautes Études (Paris, 1972-1973). Fundou e dirigiu o Departamento de Ciências da Comunicação na Universidade de Valle (Colômbia), sendo professor e investigador desse departamento (1983-1995). Na Universidade ITESO (Guadalajara, México), investiga os novos regimes da oralidade cultural e os aspectos visuais da electrónica.

Martín-Barbero tem trabalhado, fundamentalmente, os estudos de ciências sociais e a investigação em comunicação na América Latina [imagem retirada do sítio INFOAMÉRICA]. Destacam-se os seguintes contributos: 1) adaptação de sistemas teóricos à realidade sociocultural e política da América latina (e da Colômbia), 2) trabalha temas como a telenovela, enquanto expressão de matrizes históricas e culturais, a cidade e as indústrias culturais, 3) estuda a recepção enquanto domínio das ciências da comunicação. Para ele, a recepção faz-se como reconhecimento e apropriação, 4) centra-se nos processos locais da cultura, funcionando ou não de acordo com o domínio cultural dos meios de comunicação. Existe uma relação entre cultura local e cultura mediática, onde se negoceiam as identidades segundo os contextos culturais. A cultura popular é autónoma e independente da cultura de massa, com valor próprio nas identidades culturais latino-americanas.

Publicou, entre outros, os livros Comunicación masiva: discurso y poder (Quito: Epoca, 1978), Communication, Culture and Hegemony (Londres: Sage, 1993), Dos meios às mediações (Rio de Janeiro: UFRJ, 1997) e Los ejercicios del ver. Hegemonía audiovisual y ficción televisiva (com Germán Rey) (Barcelona: Gedisa, 2000).

No texto em análise Dos meios às mediações, Martín-Barbero parte da análise de autores da escola de Frankfurt (Adorno e Horkheimer) sobre os efeitos "dos processos de legitimação e lugar de manifestação da cultura em que a lógica da mercadoria se realiza" (p. 63) e faz o encontro posterior com os trabalhos de Benjamin, atravessando o conceito de indústria cultural. Para a construção do conceito de indústria cultural, Martin-Barbero elenca os seguintes elementos: 1) unidade do sistema (que regula a dispersão, com a introdução da produção em série na cultura, p. 65), 2) degradação da cultura em indústria de diversão, e 3) dessublimação da arte ("a indústria cultural banaliza a vida quotidiana e positiviza a arte", p. 67).

Martín-Barbero chama a atenção para o estranhamento e o aristocratismo cultural de Adorno, "que se nega a aceitar a existência de uma pluralidade de experiências estéticas" (p. 70), casos do jazz e da arte popular. E indica o modo como Benjamin terá sido discriminado por Adorno e Horkheimer. Benjamin, ao invés, não "investiga a partir de um lugar fixo, pois torna a realidade como algo descontínuo" (p. 72), e trabalha áreas e assuntos como Baudelaire, as artes menores, a fotografia. Dois temas serão condutores para ler Benjamin – as novas técnicas e a cidade moderna –, projectos que o próprio Martín-Barbero também abraça.

Um dos temas mais populares de Benjamin é o de A obra de arte na época da sua reprodutibilidade técnica, que traz consigo o conceito perdido de aura (da obra única e quase acessível, hoje reprodutível pelas técnicas). Isto é, aquilo que, para Adorno, se tornava o máximo de degradação cultural (o jazz, o cinema), constitui um novo modo de recepção cultural (p. 76). Martín-Barbero, no seu rastreio filosófico, chega a Edgar Morin e à sua ideia de indústria cultural, que não é a racionalidade que enforma a cultura, mas "o modelo peculiar em que se organizam os novos processos de produção cultural" (p. 81). A divisão de trabalho e a mediação tecnológica no cinema são compatíveis com a criação artística.

Em Martín-Barbero, o mediador assume um papel fundamental. O mediador, pessoa que habita ou visita um bairro da cidade, permite um fluxo permanente de sentidos, com novas experiências culturais e estéticas. A mediação é a articulação "entre os processos de produção dos media e as suas rotinas de utilização no contexto familiar, comunitário e nacional" (Ferin, 2002: 145). Aqui, o discurso narrativo dos media adapta-se à tradição narrativa popular; por isso, a importância de estudar as telenovelas enquanto formato televisivo contemporâneo.

Leituras: Isabel Ferin (2002). Comunicação e culturas do quotidiano. Lisboa: Quimera
Jesús Martín-Barbero (1997). Dos meios às mediações. Rio de Janeiro: UFRJ

quinta-feira, 9 de junho de 2005

FÉRIAS DE BLOGUEIRO

Porque em Lisboa há dois feriados seguidos (amanhã e segunda-feira), não editarei posts estes dias. O blogueiro vai descansar...
RÁDIO

Governo lança literacia pela rádio

O governo moçambicano lançou anteontem um programa de literacia através da rádio, com o objectivo de atingir inicialmente perto de 20 mil pessoas nas províncias de Maputo (capital), Manica e Cabo Delgado, respectivamente no sul, centro e norte do país. O programa foi lançado pelo ministro da Educação Aires Aly durante uma visita do presidente Armando Guebuza. Para além do programa com 45 lições radiofónicas e duração de três meses, o projecto engloba a produção de manuais para professores e alunos [fonte: European Journalism Centre].

É uma espécie de telescola, como o nosso país teve com o alargamento da televisão a todo o país e que funcionou durante anos para as crianças do ensino primário em locais de difíceis condições de escolas.

Voxx: o adeus definitivo

Os emissores da anterior rádio Voxx vão transmitir a rádio Cidade FM. Ao mesmo tempo, a frequência desta última (107,2 Mhz) dará lugar à Foxx FM, com formato de "música urbana negra". Prevê-se que estas alterações ocorram no final do Verão [fonte: Meios & Publicidade].
AINDA SOBRE JORNALISMO DIGITAL E OUTRAS MATÉRIAS

[observação primeira e única: a mensagem que coloquei ontem, sobre as jornadas de Braga, foi uma reflexão inicial da matéria. O comentário inicial do Luís Santos fez-me temer que eu tivesse sido injusto e excessivo. Por vezes, o meu voluntarismo magoa as pessoas que prezo, e os docentes e alunos da Universidade do Minho que conheço merecem-me todo o respeito e amizade]

1995, ano do começo do jornalismo digital no nosso país, fica a meio de uma década importante na história dos media em Portugal. Primeiro, devido ao surgimento da televisão privada (SIC em Outubro de 1992, TVI em Fevereiro de 1993). Depois, porque o jornal Público arrancou em 1990. Em terceiro lugar, ocorreram as privatizações de jornais (Diário de Notícias, Jornal de Notícias) e de uma estação de rádio (Comercial), nacionalizadas depois da revolução de 1974. A rádio TSF começara poucos anos antes - constituindo uma parte importante do panorama actual dos media portugueses. A oferta de televisão a pagamento (cabo) completa o quadro audiovisual. Embora começando antes, o uso dos computadores generalizou-se - nos media como em muitas actividades - e o acesso à internet principiou exactamente na metade da década.

Transformações

Nesta curta reflexão, a que acrescentarei mais em mensagens posteriores, projecto especificamente as transformações em quatro media: os tradicionais (imprensa, rádio, televisão) e o novo (internet). Em termos de (re)arranjo interno e externo, a partir de factores de índole tecnológica, económica e cultural. A minha leitura aponta para uma incidência forte destes factores sobre os media, que os fazem interagir como se se tratassem de placas tectónicas.

Enumero algumas mudanças: passagem de monolitismo (uma só estação de televisão) para a diversificação de oferta (mais canais de sinal aberto; televisão por cabo, com escolha de vários pacotes conforme o pagamento), que arrasta a necessidade de medir audiências, apesar da pulverização das mesmas (mais canais, mais diversificação de públicos), entrada em força de profissionais com formação académica em comunicação (o primeiro curso data de 1979), mix crescente de informação e entretenimento (provocado, por exemplo, pelo peso dos reality-shows), tendência contraditória de mais notícias internacionais e mais notícias nacionais (alongamento dos noticiários) num registo leve, maior relevo para os directos (vindos da rádio para a televisão).

Já na imprensa - e após o rápido desaparecimento dos tipógrafos, uma classe profissional até aí muito importante, por via do uso do computador na sala de redacção -, os anos 1990 testemunham a segmentação de títulos e públicos-alvo (nomeadamente as revistas), fenómeno que se acentua na actual década, a alteração de secções fundamentais num jornal (por exemplo, desaparece a secção trabalho e sindicalismo, muito visível nos anos 1970 e 1980, e ganha relevo a do ambiente), a imagem ganha espaço (para além da fotografia, a infografia resume frequentemente acontecimentos ou temas), os textos reduzem tamanho, o formato tablóide faz quase desaparecer o broadsheet.

A rádio, após o boom das estações de proximidade (legislação de 1989), conhece um certo amadurecimento: perda da importância de programas de autor, mesmo que fossem medíocres, e ascensão dos tops e das playlists, programas programados por computador, ligação à indústria de espectáculos. A obrigatoriedade de noticiários diários e da emissão 24 horas por dia levou a, entre outros factores, a um reagrupamento em termos de concentração, fenómeno também visível na imprensa regional e que se ampliou esta década.

Quanto ao novo meio, a internet, a sua entrada e adesão fez-se com grande rapidez. Enquanto os media anteriores precisaram de muitos anos para se afirmarem, a internet ganhou muita popularidade durante a segunda metade da década de 1990. Aqui, há um fenómeno a que voltarei: o seu sucesso deveu-se muito à juvenilização do consumo. Se os públicos mais velhos lêem jornais e vêem televisão, aos públicos mais jovens é aceite o conselho de aquisição de computadores e ligação à internet em termos domésticos (familiares). Os sociólogos da comunicação frisaram esta importância nas novas compras de meios electrónicos por parte da geração mais nova de cada lar. Embora hoje tenha desaparecido o discurso, na década passada os pais compravam computadores porque entendiam que essa tecnologia favorecia a formação escolar dos filhos. E estes, que já tinham uma cultura visual diferente da dos pais (jogos arcade e vídeo versus televisão), adoptaram a internet. Entretanto, os jovens são já adultos e responsáveis pela mudança de consumos - do jornal em papel para o jornal digital.

[continua]

quarta-feira, 8 de junho de 2005

AINDA AS JORNADAS DOS DEZ ANOS DE JORNALISMO DIGITAL EM PORTUGAL

Daniela Bertocchi e Sérgio Denicoli publicaram o texto Jornalismo digital. A internet e o declínio dos jornais no sítio do Observatório da Imprensa brasileiro, com uma leitura sobre as jornadas realizadas a semana passada na Universidade do Minho. Dos jornalistas presentes, e segundo o texto agora editado, "talvez uma das maiores frustrações destes 10 anos de jornalismo digital tenha acontecido no âmbito editorial. Muitos dos debatedores concordaram em que pouco se avançou em termos de linguagem ciberjornalística, apesar de insistentes falatórios em torno das potencialidades hipertextuais, interativas e multimidiáticas do meio".

Ainda de Daniela Bertocchi, e sobre a mesma temática, também foi publicada no Observatório da Imprensa uma entrevista a Ramón Salaverría, com o título A tecnologia não é inimiga. Como pano de fundo, o livro recente do professor da Universidade de Navarra, Redacción periodística en internet (Eunsa, 2005) [dicas de Manuel Pinto, no Jornalismo e Comunicação de hoje].

Sem me sobrepor à leitura total da entrevista a Salaverría - aconselhável -, proponho dois pequenos excertos: "Na minha tese de doutorado analisei três mil obras sobre redação. Entre elas, 1.500 manuais propriamente ditos. Peguei desde as obras do século 18 até o fim do século 20. A conclusão que cheguei é que aquilo que se sugere como uma boa redação em termos de estilo é o mesmo há três séculos. E Aristóteles é uma referência brilhante. Ele já dizia há 25 séculos que os elementos desnecessários deveriam ser eliminados da redação, já que o que é supérfluo é negativo. Uma referência clara de que a concisão exige a máxima densidade informativa. Disso já sabemos. Para o caso particular da web, precisamos então ir além". Mais à frente, à pergunta da entrevistadora sobre o que os jornalistas devem ter em conta quando escrevem para a web, Salaverría respondeu: "Em poucas palavras, a essência é ter em mente que o estilo jornalístico permanece, como dissemos. E procurar configurar seus conteúdos segundo as novas possibilidades hipertextuais, interativas e multimídia que o meio oferece. Não se trata de renunciar completamente ao passado, mas abrir os olhos às novas possibilidades".

Uma reflexão sobre as tecnologias e as indústrias culturais

Em Braga, Salaverría falaria de tecnófobos e tecnófilos, os primeiros com horror quase epidérmico às tecnologias (disfóricos) e os segundos uns optimistas que crêem na bondade de qualquer tecnologia (eufóricos). Parece-me que o mundo se tem pautado entre estes extremos, embora a maior parte de nós se situe num espaço intermédio desses pontos.

O discurso tecnológico recorre com frequência à imagem do progresso e do bem-estar. Os cientistas, até ao começo do séc. XX, não aparentavam ter dúvidas quanto à bondade das suas pretensões. Vivia-se numa postura positivista e racionalista. A public understanding of science seria o corolário dessa visão, em que se procurou transmitir, sem a linguagem dura das disciplinas científicas, para várias camadas da população, os sucessos dessas actividades. Cientistas e jornalistas colaborariam na divulgação da ciência.

A bomba atómica, os acidentes nucleares e químicos, a poluição, o enriquecimento e a tomada de posições políticas por parte de cientistas cujo princípio seria contribuir para o bem estar geral e não a procura do lucro como principal objectivo, tornaram problemática a colaboração entre cientistas e jornalistas. Agora, a profissão do jornalista está, ela mesma, ameaçada pela tecnologia. Melhor dizendo: as competências serão modificadas pela tecnologia. Dentre estas, destaque para a necessidade de manipular programas, usar uma linguagem diferente da produzida até agora (mais curta e incisiva), empregar novas fontes de informação, escrever no sentido do imediato.

O discurso dominante em Braga foi o tecnológico. Faltou algum distanciamento sociológico e histórico. Na minha perspectiva, sem isto não é possível ter-se um domínio completo da realidade. Por exemplo, quando se fala do perfil do jornalista, para além das competências tecnológicas - que os jovens saídos da universidade já possuem, pelo que o recado é dirigido aos jornalistas mais velhos -, não se pode escamotear a importância de áreas de saber diferenciados. Falo de, entre outras disciplinas, de literatura, história, ciências exactas (física, matemática, medicina, biologia), economia, ciências políticas, cultura. Os jovens que entram nas redacções dominam linguagens informáticas e técnicas de recolha de informação mas precisam de ter uma visão do mundo, que os cursos de banda estreita e curta duração (três anos) não dão. E como é feita esta formação?

Há uma outra questão, que tem ocupado uma parcela das reflexões neste blogue, que se prende com as mutações profundas que as tecnologias digitais conferem ao conjunto das indústrias culturais. Do livro ao cinema, da indústria discográfica ao jornalismo, as cadeias de valor, as estruturas empresariais e as competências profissionais estão todas em discussão. E em muitas a indefinição é tão grande ou maior que no jornalismo. Veja-se na rádio e na indústria discográfica, com o iPod e MP3 [imagem da campanha actual da Samsung sobre os MP3 portáteis: Agora, és tu quem mexe a música. Imagem colocada às 19:05]. Não deixa de ser curioso que a entrevista de Ramón Salaverría a Daniela Bertocchi, disponível na internet (meio digital), tenho por base a reflexão sobre um livro (meio analógico) recentemente editado. Prometo voltar ao tema.
REVISTAS

O acontecimento visto pela Trajectos

É já o número 6 da revista dirigida por José Rebelo (ISCTE) e agora editada pela Casa das Letras (empresa que sucedeu à Notícias Editorial).

Tema do dossiê: o acontecimento. Rebelo convidou Luis Quéré a escrever sobre o assunto, respondendo depois ao desafio vários investigadores nacionais e estrangeiros, que convocaram vários saberes. Para Quéré, o acontecimento tem uma dualidade, desdobrando-se para o passado e alongando-se no futuro, e é descontínuo, em que um acontecimento precede outro, ligados por contextos mas recontextualizados. Sem estabelecer algum critério de valorização, o que seria vã pretensa minha, chamo a atenção para o cuidado filosófico do texto de Raquel Paiva e Muniz Sodré, ambos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, intitulado Sobre o facto e o acontecimento.

O que já estou a ler e recomendo vivamente é o texto inicial da revista (fora do dossiê), de Mário Mesquita, Teorias e práticas do jornalismo do telégrafo ao hipertexto, ensaio de uma inegável qualidade sobre o termo e o conceito de objectividade.

Marketeer remodelada

Escreve, sobre o novo grafismo da Marketeer, o director editorial Carlos Manuel de Oliveira no número de Maio da publicação: "Este formato vai permitir um melhor aproveitamento do espaço gráfico. Uma nova estrutura possibilita uma arrumação diferente e uma melhor distribuição dos conteúdos. Um novo grafismo e uma maior presença de imagem tornará a revista mais atractiva, mais aberta".

Destaco as secções conceitos & ideias e estudos & teses. Nesta última, a referência a um artigo sobre o ISCTE, assinado por Rita Caetano. Fico-me pelo destaque: "O ISCTE é a escola com maior número de doutorados em marketing e com o maior número de docentes na área, além de ser também aquela em que os seus docentes têm maior número de divulgação de livros". A secção comunicação & media apresenta, por seu turno, análises interessantes para ler. Assim, Leonor Araújo escreve sobre criar conceitos, nada mais nada menos que a campanha da cerveja da Sagres, Bohemia, de que já passei aqui imagens dos mupis. A secção acaba com análises de audiência e de share, a partir de dados da Carat.

O número de Maio traz dois suplementos, um dedicado ao marketing relacional e o outro ao marketing farmacêutico.

terça-feira, 7 de junho de 2005

RÁPIDAS MELHORAS, LUCIANO!

Conheci Luciano Canhanga, jornalista angolano de uma rádio privada de Luanda, num curso recente aqui em Lisboa, na Universidade Católica. Tive imenso prazer em ensiná-lo como se constrói um blogue. Ele pode ser visto no endereço Olho atento.

Soube hoje que o Luciano teve um gravíssimo desastre de automóvel. O blogue dele está parado em 31 de Maio. De Lisboa para Luanda, desejos de rápidas melhoras.
ALCAMEH

Não conhecia o blogue alcameh, de Maria do Sameiro Pedro, a partir de Beja. É "sobre literatura infanto-juvenil e o que mais se verá". A ler.
INDÚSTRIAS CULTURAIS (VI)

[conclusão da análise das indústrias culturais com base muito centrada em livro de Bustamante e colegas, 2002]

Rádio

Existem sistemas digitais de transmissão, produção e recepção há aproximadamente uma década. O standard da rádio digital DAB criado na Europa, Eureka 147, foi aceite em muitos países, fazendo pensar numa renovação tecnológica graças a uma melhor qualidade de som. Mas a agenda marcada pela CE não se cumpriu em nenhum país europeu e teme-se que nunca vingue no mercado.

Contudo, não podemos ignorar que o DAB tem grandes vantagens. As empresas radiofónicas podem optimizar o espectro radioeléctrico, pois é possível combinar diversas ofertas pragmáticas num só bloco e utilizando um único transmissor. Outra vantagem é transmitir serviços de informação multimedia num ecrã. Os primeiros serviços DAB iniciaram-se na Europa em Setembro de 1995 no Reino Unido (BBC) e Suécia (Sociedade Sueca de Radiodifusão). Em Portugal, a RDP tem feito publicidade ao serviço desde há algum tempo. O problema é apresentar uma transição para o digital sem que se produza um apagão, a substituição definitiva dos receptores analógicos por digitais [há, igualmente, problemas na televisão digital terrestre].

No contexto de transformação, a Internet supõe uma verdadeira revolução para muitas indústrias culturais e entre elas a radiodifusão que encontra na rede das redes um novo caminho para a distribuição do sinal radiofónico. Num primeiro momento, as rádios chegam à internet para deixar a marca da sua existência, reforçar a imagem da empresa e das suas estrelas radiofónicas e difundir a grelha de programação. Numa segunda fase, graças aos avanços tecnológicos, serve para rentabilizar o novo canal de distribuição de duas maneiras: juntando ficheiros de alguns espaços, facilitando a escuta da programação em directo. As experiências pioneiras de bitcasters começaram em 1995, com a empresa Progressive Networks (actualmente Real Networks) a lançar no mercado a primeira versão de Real Audio, um pacote informático que possibilita a transmissão streaming.

O bitcaster nasce da fusão de bit e broadcast, termo mais acertado para falar das emissoras de rádio e televisão que difundem conteúdos através da rede da internet, sejam conteúdos em directo ou em diferido. O streaming é uma tecnologia de transmissão que facilita a audição ao utilizador, pois não fica à espera da descarga total do ficheiro áudio para começar a reprodução dos conteúdos sonoros.

Televisão

A cadeia de valor envolve divisões de publicidade das cadeias ou agências de filiais exclusivas, mas também agências em exclusivo (régies) negoceiam a venda de espaços. Estrutura-se, assim, um mercado complexo com multiplicidade de agentes intermediários – cadeias-régies ou exclusivos-centrais-agências-anunciantes – que mantêm uma tensão contínua de mercado.

Televisão digital: constitui uma transformação maior face ao mercado televisivo anterior. Abarca o âmbito da televisão e de todas as indústrias culturais, devido à quantidade de população, tempo de audiência e capacidade pedagógica. A televisão digital contempla-se cada vez mais como uma porta privilegiada da sociedade da informação. As concessões de televisão digital – codificadas ou em aberto – multiplicaram o número de agentes do sector e, em consequência, elevaram muito o pluralismo potencial do sistema televisivo. Se a televisão privada analógica, gratuita ou de assinatura, rompeu o espaço nacional e abriu mercado para agentes exteriores, a televisão digital, especialmente de assinatura, permeabilizou mais as fronteiras.

Televisão e internet: as cadeias de televisão estão a instalar-se nos sítios web. A estratégia geral não ultrapassou as fases iniciais de reforço da promoção e da imagem corporativa (informação sobre a sua programação e as suas estrelas, com escassos recursos interactivos e de fidelização dos utilizadores e quase nenhuma aposta em conteúdos novos ou canais virtuais. Algumas iniciativas orientadas para a informação permanente e actualizável, através da rede levariam à digitalização das redacções (e potencialidades da sala de redacção). Começam a constituir-se nas cadeias de televisão as fábricas de conteúdos multiplataforma, aptos para difusão em todos os suportes que tenham possibilidades públicas (da televisão temática à internet e ao telemóvel). A crise da economia dotcom e da publicidade na Internet reduziu essas intenções em 2001.

Videojogos

Na indústria dos videojogos, há a absorção do mercado pelos grandes desenvolvimentistas norte-americanos e japoneses de videojogos (tanto para PC como para consolas). O videojogo on-line é a grande aposta dos desenvolvimentistas de software e um poderoso motor de desenvolvimento de portais web destinados a pôr em contacto jogadores de todo o mundo que procuram novas formas de jogar em tempo real. Isto também quer dizer que há um reposicionamento geral dos códigos tradicionais do jogo, perfis de utilizador e convergência multimedia. Há dois tipos de produto: os videojogos especificamente desenhados para jogar em rede, através da Internet ou em salas locais, e os portais que oferecem um catálogo amplo de jogos, acedidos através da página e jogados on-line (de forma gratuita ou não). O utilizador tem de comprar o software do videojogo (em formato CD), instalá-lo no seu PC pessoal e depois assinar on-line a página web do videojogo. A procura elevada desta forma de jogar levou múltiplos portais a porem em linha outros jogos, gráfica e tecnicamente menos ambiciosos. Em geral, a oferta destes portais baseia-se em agrupar dezenas de jogos em três tipos: acção (aventuras gráficas), estratégia (jogos de papel) e clássicos (xadrez, dominó, bilhar).

O jogo on-line substitui o conceito de distribuição existente nas indústrias culturais editoriais tradicionais. Se a maioria de jogos de certo nível gráfico e técnico se encontram editados e comercializados em formato CD, a tendência adoptada pela maioria dos distribuidores é oferecer a compra do software on-line através da mesma página intermediária que liga os jogadores. Esta nova forma de distribuição do software, que tem de ultrapassar os problemas derivados de descarregar grandes volumes de dados com as actuais ligações, elimina qualquer tipo de agente na cadeia distribuidora e deixa como únicos agentes a empresa desenvolvimentista, a encarregada de o comercializar, o servidor ou portal web intermediário e o utilizador final.

Cadeia de valor na indústria de videojogos: o desembolso global do consumidor deve repartir-se entre o custo do software do videojogo, instalado previamente em cada computador (30-60 euros) para as empresas desenvolvimentistas e titulares do produto e uma quota de assinatura paga ao servidor para proporcionar o acesso a uma comunidade de jogadores em linha.

Leitura: Enrique Bustamante et al. (2002). Comunicación y cultura en la era digital. Barcelona: Gedisa, pp. 37-270. Os textos que me serviram de base aos posts são de Gloria Gómez (livros), Gustavo Buquet (indústria fonográfica), José María Álvarez (cinema), Luis Alfonso Albornoz (imprensa), Rosa Franquet (rádio), Enrique Bustamante (televisão) e Pedro Manuel Moreno (videojogos). O volume contém ainda um capítulo de Ramón Zallo, autor que eu já aqui apresentei (embora noutros textos dele).

segunda-feira, 6 de junho de 2005

UM BLOGUE DE CINEMA A SEGUIR

Os seus autores são Mafalda Azevedo e Francisco Valente e estão no blogue Mise en Abyme, desde o começo do ano [imagem retirada daquele blogue].



No post de hoje, Mafalda Azevedo entrevista Margarida Gil, a realizadora do filme Adriana, actualmente em exibição. Sobre a presente situação do cinema português, responde a realizadora: "Acho que estamos numa época muito perigosa. Há uma vontade muito grande de acabar com aquilo que distinguiu o cinema português das outras cinematografias. O desejo de normalização aliado à situação de crise financeira e ao desaparecimento de figuras como a do João César Monteiro cria um panorama pouco animador. No entanto, acho que há vozes, profundamente solitárias, por exemplo as de Pedro Costa e Miguel Gomes, que mantêm um espírito de resistência e de luta pela liberdade de expressão no cinema português".
INDÚSTRIAS CULTURAIS (V)

[continuação de análise das indústrias culturais seguindo de muito perto o texto de Enrique Bustamante e colegas (2002). Comunicación y cultura en la era digital. Industrias, mercados y diversidad en España. Barcelona: Gedisa. Anterior mensagem a 1 de Junho]

Indústria cinematográfica

Sobre a cadeia de valor no cinema, é dada pela progressiva integração vertical entre distribuição e exibição. A propriedade dos circuitos de exibição mais importantes pertence aos distribuidores mais destacados. A repartição estimada de percentagens de entrada entre distribuidor e exibidor dá 55% ao exibidor e 45% ao distribuidor. Destes 45% vão 30% para o produtor, mas de forma progressiva até amortizar os adiantamentos de distribuição. Isto implica que o distribuidor amortiza os seus custos e só depois começa a pagar ao produtor.

Uma nova faceta da indústria é a da digitalização do cinema: ainda que existam numerosas inovações tecnológicas ligadas às telecomunicações e à televisão, o suporte fotoquímico de 35 mm perdura como standard internacional. A sua flexibilidade permitiu a sua integração noutras inovações como a televisão ou o DVD para facilitar o consumo. Claro que a digitalização fomenta uma profunda mudança tecnológica que parte do desaparecimento do 35 mm, modifica as formas de consumo e abre possibilidades de novos modelos de negócio para produtores, distribuidores e exibidores.

A digitalização aparece como novo factor competitivo para os conteúdos em geral e o cinema em particular, e integra as seguintes aplicações tecnológicas: 1) produção digital, 2) cinema electrónico para projecção, 3) descarga de películas pela Internet com standards de compressão de imagens e sons MPEG-4 (não streaming) [imagem retirada do programa de cinema da Câmara Municipal de Oeiras para o presente mês].

Até 2000, não havia películas digitais e apenas se utilizara a tecnologia digital para efeitos especiais. O chamado d-cinema ou e-cinema supõe substituir os projectores de películas fotoquímicas por um tipo de projecção electrónica de alta qualidade que o olho humano não pode distinguir (1280x1028 pixels). A sua vantagem reside em que a distribuição se pode realizar à escala mundial sem necessidade de cópias, para poder levar o sinal para qualquer suporte de telecomunicações (satélite, cabo, Internet) às clássicas salas de cinema.

Claro que, com a digitalização, a cadeia de valor sofrerá profundas alterações, aproximando os produtores-criadores de películas aos potenciais espectadores. No fio desta mudança criam-se novas oportunidades ligadas a novos modelos de negócio, ficando de fora os intermediários. A crescente distribuição digital gerará uma nova cadeia de valor controlada por uma nova distribuição ou bem em portais de acesso ou em redes internacionais de descarga de películas nas salas.

Imprensa diária e periódica – o salto on-line

A imprensa é um produto perecível, de curta vida útil e de conteúdo múltiplo. Ela compõe-se basicamente por dois tipos de conteúdos simbólicos: conteúdos editoriais (com secções, suplementos e revistas); conteúdos publicitários (marcas, produtos, serviços).

As editoras jornalísticas obtêm os seus lucros pela compra de exemplares pelos leitores e pela inserção de publicidade nas páginas dos jornais e revistas por parte dos anunciantes. Os jornais gratuitos alteram este estado de coisas. O segmento de mercado da imprensa diária, sobretudo o de informação geral, tem características próprias (idioma, conhecimento do mercado, contactos políticos para gerar a informação). No mercado de imprensa não diária, há entrada de grupos empresariais de capital estrangeiro, com revistas "femininas" (revistas de coração) e "práticas", com as suas respectivas especializações.

Imprensa on-line: a partir da última década do séc. XX, o campo das indústrias culturais e o sector académico correspondente às ciências da comunicação estão a ser atravessados pela digitalização da produção de bens e serviços de carácter informativo e pelo surgimento de novas redes digitais. A internet está a ter um protagonismo singular em relação à formulação de produtos informativos. Hoje, a maioria das empresas converteram-se em editoras de conteúdos intangíveis que utilizam a Internet para chegar aos leitores tradicionais e para alcançar novos leitores.

Nos anos 1980, as empresas jornalísticas passaram pela fase de informatização do processo produtivo de notícias. Esta informatização povoou as redacções com computadores pessoais e permitiu o acesso a bancos de dados de tipos distintos, introduzindo um tratamento mais flexível no momento de elaborar os materiais jornalísticos. Nessa época, apareceu também o CD-ROM, com vantagens para os serviços de hemeroteca – facilidade de conservação dos conteúdos jornalísticos. Os resultados de uma empresa jornalística que decide lançar uma edição digital e, em geral, de qualquer sítio web, pode vir de: a) venda de conteúdos, b) assinatura da publicação, c) publicidade, d) patrocínio, e) comércio electrónico, f) subvenções.

Paralelamente ao crescimento da presença de publicações on-line, o sector académico tem produzido investigações e teses de mestrado e doutoramento (casos das editoras Celta, de Oeiras, MinervaCoimbra, de Coimbra, e Horizonte, de Lisboa, por exemplo).

[continua]

domingo, 5 de junho de 2005

CRESCE A OPOSIÇÃO AOS CORTES DE EMPREGO NA SWISSINFO

No dia em que se fala do "sim" dos suíços aos acordos de Schengen e Dublin, tomo conhecimento de uma outra notícia que envolve as comunidades de nacionais daquele país espalhados pela Europa, nomeadamente Itália, Alemanha, Espanha e Portugal.

Segundo notícia de anteontem do sítio Swissinfo, está a haver um movimento para impedir a redução de postos de trabalho de 120 para 40 da própria agência que dá informação para os nacionais da Suíça nos países citados. Parece existir um número crescente de suíços a trabalhar em Portugal, por exemplo. O ano passado, as emissões em onda curta já tinham sido canceladas. A agência é financiada pelo governo do país.
RUA DE BAIXO - EDIÇÃO DE JUNHO DA NEWSLETTER ALTERNATIVA

Saíu já a edição de Junho da revista digital Rua de Baixo. Um dos temas fortes é a conversa com D-Mars, "um dos MCs com mais história no panorama nacional, que surge agora como Rocky Marsiano, onde alia o jazz com o hip-hop", lê-se na entrada da publicação:

"Rocky Marsiano, nome que surgiu como alcunha e que acabou por pegar, é o alter-ego de D-Mars, o luso-croata vocalista dos Micro. Lançou recentemente The Pyramid Sessions, uma agradável fusão do hip hop com o jazz, que resulta em 14 faixas de um álbum que poderia ter uma só, pela facilidade com que se ouve de uma ponta à outra sem que disso se dê conta". Entrevista conduzida por Hugo Pinheiro.

Na revista, e no meio de muita informação interessante, a notícia da vinda da banda Shivaree a Portugal, no Santiago Alquimista, no próximo dia 22, para apresentar o disco Who got trouble. O espectáculo integra-se em ciclo de concertos da rádio Radar.
MÚSICA TOTAL

Também a seguir com atenção a newsletter música total. net. Destaco o Cool Jazz Fest, em Oeiras, Mafra e Cascais, de 10 a 30 de Julho, que integra actuações de artistas e bandas como José Feliciano, Thievery Corporation, Maria Bethânia, Mariza, Jamie Cullum e Mariane Faithfull.

sábado, 4 de junho de 2005

REVISTAS E JORNAIS EM CIMA DA MINHA SECRETÁRIA

Os dias passam velozes e não há tempo para digerir a informação toda. De algum material que me chegou ou comprei, faço agora uma síntese.

Publicações da Câmara Municipal de Oeiras

O Gabinete de Comunicação e Departamento de Assuntos Sociais e Culturais tem (têm) tido a gentileza de me enviar informação cultural sobre o que se passa naquele concelho (para os leitores brasileiros: Oeiras é uma cidade junto a Lisboa, localizada na foz do rio Tejo e que acompanha uma parcela do oceano Atlântico, onde há uma elevada concentração de quadros superiores e muitas empresas de tecnologias de ponta, designadamente as de informação, o que propicia uma intensa actividade cultural).



No número do 30 Dias em Oeiras, destaques para a entrevista com Madredeus e para o programa das Festas de Oeiras, de 3 a 19 de Junho, bem como a estreia absoluta em Portugal de Todas temos a mesma história, de Dario Fo, Nobel da Literatura 1997, o regresso do cinema, às terças-feiras, ao Auditório Eunice Muñoz (antigo Cine-Oeiras) e a continuação do Projecto Terminal, no Hangar K7 da Fundição de Oeiras, integrando os colóquios sobre O Estado das Artes em Portugal, com Alexandre Melo, Delfim Sardo, António Pinto Ribeiro, entre outros.



Os blogues para Manuel Pinto

"A blogosfera é extremamente diversa. Pelo facto de alguns dos blogues mais conhecidos serem de jornalistas, criámos uma grande analogia com o jornalismo, o que não é certo. O blogue tem múltiplas funções; a do diário pessoal tem algum peso, há alguma «lógica de café» também, mas depois há ensaios de acompanhamento crítico da vida social, de que o jornalismo é só uma vertente. [...] podemos dizer que há um alargamento desse mesmo espaço [público] e, como virtualidade, uma chance nova de acompanhamento de questões públicas. [...] É um espaço de auto-edição que alarga a expressão individual e colectiva" (entrevista saída no umjornal deste mês, publicação mensal da Universidade do Minho).

Na mesma página e sobre o mesmo tema, Luís António Santos escreve: "A blogosfera preenche espaços deixados em aberto nas estruturas política, social, mediática e/ou comercial, e constitui-se como local de ruptura, acolhedor para ideias marginais". O jornal ummedia é dirigido por Joaquim Fidalgo, tendo Luís António Santos como editor executivo.

Carmen Dolores no JL - ou a minha tardia declaração de amor

Em 7 de Maio do ano passado, eu afixara um post contendo um pequeno excerto do livro de Carmen Dolores, Retrato inacabado. Memórias (1984, Lisboa: O Jornal, pp. 59-60). Agora retomo o assunto.

Não posso fazer uma declaração de amor formal a Carmen Dolores, até porque ela casou em 1947, no ano a seguir aos meus pais se terem casado. Mas sempre a admirei muito, em especial quando a via na televisão, muitos anos atrás. Em termos de teatro ao vivo, segui-a menos do que gostaria. Agora, ao ler, a página do último Jornal das Letras, Artes e Ideias - JL, reparo melhor como é uma mulher inteligente e generosa, em termos do que fez na cultura deste país.

Como gosto de fazer pequenos cortes no que leio, aqui fica uma citação do texto: "Por vezes, ouvíamos também aqueles belos discos de ópera, na velha grafonola, depois substituída pela imponente telefonia. Começou aí a minha paixão pela Rádio. Onde me estreei aos 14 anos a dizer poemas e a interpretar teatro radiofónico, justamente num programa organizado pelo meu irmão, o António Sarmento, na antiga Rádio Sonora". Mais tarde, em 1943, ela ligava-se ao cinema, no filme Amor de perdição, de António Lopes Ribeiro, que a levou também para o teatro. Há 60 anos atrás, estreava-se no Teatro da Trindade, nos Comediantes de Lisboa, na peça de Jean Giradoux, A mensageira dos deuses.

Li, há algumas semanas, que Carmen Dolores estava a escrever uma (nova) autobiografia. Espero que o texto agora publicado no JL seja prenúncio disso mesmo. Longa vida para ela!

A misteriosa chama da rainha Loana, de Umberto Eco

Sobre o livro, escrevi neste blogue nos dias 19, 22 e 25 de Abril último. Hoje, o caderno "Mil folhas" do Público dá destaque adequado à obra de Eco. O título é "Memória em eco", uma boa sugestão ao próprio texto do autor italiano. A prosa é assinada por João Lobo Antunes. Nas duas páginas há reprodução de imagens de bandas desenhadas e de livros da época narrada (ou melhor: recordada) no livro, durante as décadas de 1930 e 1940.

Também a ler no mesmo caderno o texto de Maria Filomena Mónica sobre o historiador Eric Hobsbawm.

sexta-feira, 3 de junho de 2005

CONTEÚDOS PAGOS NA INTERNET

Há, talvez, um ano o jornal El Pais (Espanha) anunciou o começo do pagamento de conteúdos no acesso à sua página da internet. Mas hoje faz uma alteração nesse objectivo.

Sem acabar com o acesso pago a assinantes (cerca de 45 mil), regressa uma modalidade de acesso a conteúdos gratuitos. Explico melhor. Qualquer pessoa pode pesquisar e obter informação do jornal madrileno, caso de notícias de última hora. Mas aos assinantes ficam reservados serviços como o acesso ao jornal francês Le Monde, a takes da agência Efe (espanhola) em tempo real e à escuta de um conjunto de estações de rádio espanholas.

Uma boa decisão da gestão do grupo mediático a que pertence o El Pais e uma boa notícia para os cibernautas. E o que vai fazer o Público?
SOCIOLOGIA DO JORNALISMO

Quando, no passado dia 28, referi a próxima edição do livro de Érik Neveu - na imagem aqui ao lado -, não imaginava que ela já estava pronta. Por isso, a minha alegria quando Manuel Pinto, no blogue Jornalismo e Comunicação, destacou a saída do trabalho do conceituado professor de Rennes.

Hoje, um dos coordenadores da colecção ofereceu-me um exemplar, que eu agradeço do fundo do coração. Não é pela oferta, pois considero o livro de Neveu um dos textos fundamentais na área da sociologia do jornalismo. Já o escrevera na ocasião da sua saída em França, há quatro anos. E noto que o livro da Porto Editora se baseou na reedição francesa de 2004, prova de uma maior actualidade. Não posso comparar com a edição original, porque perdi o rasto ao exemplar. Talvez emprestado, talvez escondido por outro livro num certo desalinho das minhas prateleiras. Mas aconselho a sua leitura.
DEZ ANOS DE JORNALISMO DIGITAL EM PORTUGAL

Foram dois dias animados de discussão em torno dos dez anos de jornalismo digital em Portugal, na Universidade do Minho, em organização do Departamento de Ciências da Comunicação. Destaco dois convidados estrangeiros: Rosental Calmon Alves (Universidade do Texas, Austin, Estados Unidos) e Ramón Salaverría (Universidade de Navarra, Espanha).

Rosental Alves fez um discurso pessimista quanto ao jornalismo em papel mas tomou a posição diametralmente oposta quanto ao futuro do jornalismo digital. Os efeitos da internet sobre os media tradicionais são avassaladores, o que o levaria a falar em mediacídio [o suicídio dos media], que acarreta a morte de empresas e questiona o actual estatuto das carreiras dos profissionais dos media.

A revolução do digital será comparável - ou até maior - que a realizada pela criação da imprensa por Gutenberg. Falando da rapidíssima disseminação da Rede, o professor brasileiro com cátedra em Austin descreveu o conjunto de princípios sobre a passagem de um modelo de comunicação para outro (a partir de Fiedler): co-evolução e coexistência, propagação, sobrevivência, oportunidade, atraso na adopção, metamorfose. É a mediamorfose, compreensível pela massa crítica ganha pelo jornalismo online e mensurável em audiência (que supera já a do jornalismo em papel). Para Rosental Alves, o jornalismo do futuro assenta em adaptabilidade, em aprender a aprender, em criatividade e perder os bloqueios face às tecnologias. Mas deixou algumas críticas ao jornalismo digital como o de ser ainda pouco criativo e algo burocrático [que eu não compreendi, dado ter defendido anteriormente a criatividade como eixo do jornalismo do futuro e o pouco tempo de existência do novo modo de fazer comunicação não ser índice de burocracia].

Na sua longa mas brilhante e entusiasmante conferência, o professor Rosental designou a revolução digital como eucêntrica - leio/vejo tudo o que eu quero, na hora que eu quero, onde eu quero e no formato que eu quero. Por isso, a referência às tecnologias do RSS e do Podcasting, onde eu monto a minha página e a sequência de músicas que eu quero. E a alusão aos blogues, que eliminaram a relação unívoca dos media de massa entre emissor e receptor e o privilégio do jornalismo atribuído unicamente aos jornalistas.





A posição de Salaverría

Ramón Salaverría é, apesar da juventude, um académico com carreira já consolidada na Universidade de Navarra. Por isso, não se estranhou o facto de, embora olhando com entusiasmo o futuro do jornalismo digital, anotar quatro perspectivas diferenciadas: 1) expectativas cumpridas pelo jornalismo digital, 2) não cumpridas, 3) efeitos inesperados, e 4) prospectiva. Com recurso a dados estatísticos sempre muitos recentes, Salaverría [que eu vira na sua universidade, em Novembro passado, e fiz um longo comentário neste blogue] diria que, das expectativas cumpridas pela internet (e que o jornalismo digital é uma expressão), ao aumento na sua utilização corresponde um menor consumo de televisão, telefone e jornais. Já das expectativas não cumpridas, o professor espanhol apoiou-se em texto de Nora Paul (Março de 2005), onde se aponta nomeadamente o espaço ilimitado para as notícias não significar mais tempo para os leitores (que têm um limite físico), o diálogo entre jornalistas e leitores, uma melhor compreensão e clareza nas relações entre jornalistas e fontes de informação e o aproveitamento das possibilidades de arquivo.

Quanto aos efeitos inesperados, destacou a reconfiguração do mercado da comunicação e das suas empresas (se, há vinte anos, os media se isolavam segundo o meio, a internet tornou-se aglutinadora de imprensa, rádio e televisão), traduzível na resposta a pedidos de públicos até aí não atendidos, acarretando uma crise da figura do jornalista, que Rosental Calmon Alves também identificara. Finalmente, em termos de prospectiva, os números indicam que a internet é já o primeiro meio escrito na Europa, enquanto se espera que, em 2008, o volume de negócios na internet alcance o da televisão, o que significa que os negócios dos media tradicionais passam a ser condicionado pela internet. O jornalismo participativo é outra das apostas do futuro.




Nota: para ler resumos mais profundos e ver mais imagens, consultar o blogue das jornadas Dez Anos de Jornalismo Digital em Portugal, da responsabilidade da organização, a quem eu felicito pelo excelente trabalho e acolhimento. Acrescento que o blogueiro apenas esteve um dia, e não dois, fora da Rede. A divulgação das jornadas em Braga merece este esforço, apesar das viagens e da noite menos bem dormida (a cidade estava em festa e o grupo das jornadas fez uma confraternização memorável, laços que não se podem desperdiçar).

quarta-feira, 1 de junho de 2005

DOIS DIAS SEM POSTS

Espero regressar à rede no próximo sábado.
NOTÍCIAS

Trabalho sobre blogues

Hugo Neves Silva, já aqui assinalado por ter realizado um estudo sobre blogues, voltou a escrever sobre o tema. Desta vez, o título é O papel dos blogues na comunicação organizacional, e pode ser apreciado em Lisbonlab.

Livro sobre cibertexto

Espen Aarseth vai lançar o livro Cibertexto: perspectivas sobre a literatura ergódica, na colecção "Figurações", da editora Pedra da Roseta. O evento realiza-se no Centro Cultural de Belém, a 3 de Junho, pelas 19:30. Da nota de apresentação enviada pela editora, lê-se que a obra procura responder a questões como: podem os jogos de computador ser concebidos como grande literatura? Será que a evolução e expansão dos géneros da cultura digital implica que o modo narrativo do discurso - romance, filmes e televisão - está a perder a sua posição dominante? E como conceber, actualmente, a estética da textualidade ciborgue? Espen Aarseth é professor associado e investigador principal no Centro de Pesquisa em Jogos de Computador do Departamento de Estética Digital e Comunicação (DiAC) da IT - Universidade de Copenhaga (Dinamarca) e Professor II do Departamento de Media e Comunicação da Universidade de Oslo.

III jornadas de comunicação do Algarve

Vão decorrer até 24 de Junho as III Jornadas de Comunicação da Universidade do Algarve. Aliado ao facto de Faro ser a Capital Nacional da Cultura, as jornadas são espaço para uma associação de diferentes entidades. Assim, tal ocorre com o jornal Barlavento, de Portimão, que comemora 30 anos, com o Cineclube de Faro, em que a Universidade participa no ciclo de O cinema e a comunicação social (Tavira), e com a RUA - Rádio Universitária do Algarve, na organização do I Encontro Nacional de Rádios Universitárias (também rampa de lançamento do II Encontro Ibero-americano de Rádios Universitárias, em Faro, 2006). Mais detalhes podem ser vistos no blogue III Jornadas da Comunicação.

José Carlos cria um novo blogue

Nasceu ontem e chama-se Os media, o jornalismo e nós. Nestes dois dias de existência, Abrantes escreveu sobre o congresso da WAN - World Association of Newspapers. Ao provedor do leitor do Diário de Notícias, desejo felicidades para mais um blogue seu.