terça-feira, 12 de junho de 2007

A RÁDIO SEGUNDO PAULA CORDEIRO


Estratégias de programação na rádio em Portugal: o caso da RFM na transição para o digital foi o título da tese de doutoramento de Paula Cordeiro, ontem defendida na Universidade Nova de Lisboa. O blogueiro cá de casa foi um dos arguentes do trabalho, tendo aprendido muito com a leitura e discussão da tese. A qual recolheu a nota máxima e sugestão do juri para sua publicação (igualmente de parabéns o orientador, Francisco Rui Cádima). Com o presente trabalho, Paula Cordeiro assume-se como uma das investigadoras portuguesas com mais prestígio no campo da rádio.

O objectivo principal da tese era analisar o contributo da rádio versus os pressupostos económicos. Os objectivos executivos eram: influência da rádio no consumo da música, influência da rádio na elaboração/produção da música, novos cenários tecnológicos da rádio, práticas e rotinas profissionais na rádio.

Quatro partes e seis capítulos em quase 600 páginas mostraram um aparato teórico e um trabalho empírico, assente em metodologia qualitativa (entrevistas e inquéritos) e exibição de um caso prático (a estação de rádio RFM). A nova doutora, e autora do blogue NetFM, que estudou a profunda alteração no mercado e no consumo, dentro de um contexto (pré-) digital, começa o seu texto com uma abordagem às indústrias culturais, o que me agradou muito. David Hesmondhalgh, Bernard Miège, Andy Pratt e Enrique Bustamante foram autores por ela seleccionados e que têm aqui no blogue espaço vital.

Importante foi registar as suas hipóteses teóricas a verificar ou não durante a investigação, nomeadamente a da rádio influenciar o consumo da música, a comparação entre a playlist da RFM e a tabela de discos vendidos, a relação entre a RFM e os concertos ao vivo, a estratégia de marketing para promoção de artistas e concertos e a reciprocidade entre rádio e indústria discográfica. O conceito de cadeia de valor foi usado igualmente pela investigadora do ISCSP.

Paula Cordeiro referiu-se igualmente ao modelo interactivo na rádio proporcionado pela digitalização e à grande concentração da propriedade no caso das emissoras, o que retira possibilidades de inovação, quebra de pluralismo e diversidade. Também destacou a programação - ou o modo como a audiência influencia a sua construção na rádio. Embora tenha salientado o modo como as telenovelas, em especial as da TVI, estão a ter influência na divulgação de autores e músicos, dentro de um tipo musical definido mas que acaba por se reflectir nas escolhas da rádio, a autora assegura que os artistas novos têm muita dificuldade em passar na rádio, só veiculados quando têm sucesso nas vendas.

Quanto à internet, a perspectiva de Paula Cordeiro é a de complementaridade, mais do que diferenciação, na actual presença das rádios na rede.

Eu tinha uma curiosidade após ouvir o modo como a playlist condiciona o papel dos animadores (sem liberdade alguma nas opções musicais da RFM), a de haver semelhante comportamento na Radar, estação que ouço com frequência. Aqui, apesar de haver uma playlist, os animadores têm liberdade de introduzir variações, possibilitando a presença de novos músicos e correntes estéticas.

LUSOFONIA

A Secção Luso-brasileira do Instituto de Estudos Ibéricos e Ibero-americanos da Universidade de Varsóvia vai organizar um colóquio internacional entre os dias 10 e 11 de Dezembro de 2007, por ocasião da comemoração dos 30 anos da Secção. Ver os sítios http://lusofonia.blox.pl/html e http://www.iberystyka.uw.edu.pl/.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

EXPOSIÇÃO NA ZDB

  • Transitioners é um gabinete de design de tendências especializado em transições políticas, criada pela Société Réaliste. Transpondo os princípios do design prospectivo, geralmente utilizados pelas agências de prospecção de tendências, para o campo da política, a Société Réaliste questiona a revolução (transição?) enquanto categoria central na sociedade ocidental contemporânea. Transitioners examina as mutações da revolução enquanto forma. Como é que pode ser produzida uma "transição democrática"? Qual o papel do design na permanente conversão da política em mitologia? Como é que o efeito de um evento sobre as pessoas pode ser transformado num afecto controlado?
A Société Réaliste é uma cooperativa artística criada em 2004, por Ferenc Gróf e Jean-Baptiste Naudy em Paris. Ferenc Gróf nasceu em 1972, em Pécs, Hungria. Jean-Baptiste Naudy nasceu em 1982, em Paris, França. Actualmente, ambos vivem e trabalham em Paris.

Na ZDB (Galeria Zé dos Bois) , a Société Réaliste apresenta Dias da Bastilha, uma colecção Transitioners inspirada na Revolução Francesa, de 23 Junho a 22 Setembro. A ZDB fica na Rua da Barroca, 59 (Bairro Alto, Lisboa).

[informação do promotor]

PROVAS PÚBLICAS DE DOUTORAMENTO DE PAULA CORDEIRO


É hoje, dia 11, pelas 15:00, que Paula Cordeiro, docente do ISCSP, defende a sua tese de doutoramento intitulada Estratégias de programação na rádio em Portugal: o caso da RFM na transição para o digital. No auditório 1 da Universidade Nova de Lisboa, Av. de Berna, 26, Lisboa.

COMUNICAÇÃO E CULTURA


Foi agora lançado o número 3 da revista Comunicação & Cultura, da Universidade Católica Portuguesa, dirigida por Isabel Gil.

Este número temático - comunidade e mobilidade, organizado por Carla Ganito, em torno dos novos media como o telefone celular - tem artigos sobre a matéria: Gustavo Cardoso, Maria do Carmo Gomes, Rita Espanha e Vera Araújo (OberCom e ISCTE) (Portugal móvel), Carla Ganito (telemóvel e as mulheres), Fernando Ilharco (a perspectiva heideggeriana do celular), Patrícia Dias (impacto do celular na sociedade actual) e José Afonso Furtado (Gulbenkian) (fractura digital e literacia).

Para além de trabalhos de Roberto Carneiro, Pedro Magalhães/Diogo Moreira e Nelson Ribeiro, destaco dois outros textos, o primeiro dos quais é de Michael Schudson (O modelo americano de jornalismo: excepção ou exemplo?). Escreve o professor americano:

Os americanos de hoje parecem acreditar que os jornalistas são, ou deviam ser, uma correia de transmissão de factos neutros sobre acontecimentos mundiais. [...] Os jornalistas americanos orgulham-se não de escrever peças de advocacia, mas de serem atacados tanto pela esquerda como pela direita por "escreverem ao centro" (Broder, 1973: 235). Jogar ao centro tornou-se um ideal profissional estimado nos Estados Unidos - e também em qualquer outra parte, mas não de uma forma tão completa nem tão duradoura quanto nos EUA (p. 119).

Schudson dá igualmente relevo à prática da entrevista, que surge nos Estados Unidos por volta de 1880 e chega à Europa apenas depois da I Guerra Mundial (p. 121), à perda gradual do jornalismo partidário para um jornalismo onde imperam as relações públicas (isto é, em que as fontes oficiais têm estruturas para produção de informação) (p. 122), novas práticas do jornalismo a seguir a 1960, por causa da guerra do Vietname, com um distanciamento profissional crescente face às fontes oficiais (pp. 124-125) e passagem da censura governamental à censura económica (p. 126).

O outro texto a não perder na revista Comunicação & Cultura tem a assinatura de Emídio Rui Vilar, presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, que leu na sessão de abertura dos mestrados e pós-graduações da Universidade Católica Portuguesa, no passado dia 7 de Novembro de 2006 - e que eu fiz aqui referência. Título: Sobre a economia da cultura. Ele escreve sobre um tema que me é particular e que constitui o cerne deste blogue. A não perder a sua definição de sector cultural e de sector criativo (p. 136).

O blogueiro cá de casa escreveu uma recensão sobre os livros mais recentes de Henry Jenkins (Convergence culture. Where old and new media collide; Fans, bloggers and gamers. Exploring participatory culture; ambos de 2006). Fica aqui um aperitivo:

O autor, professor do MIT, onde é director da área de estudos comparativos dos media, trabalha conceitos e a relação entre eles: convergência dos media, cultura participativa e inteligência colectiva (2006: 2). Por convergência, ele entende o fluxo de conteúdo que atravessa várias plataformas dos media, em que as indústrias mediáticas cooperam e as audiências procuram novos modos de experimentar o entretenimento fornecido por esses media. E acrescenta que a palavra convergência descreve as mudanças tecnológicas, industriais, culturais e sociais operadas na actual sociedade.

A cultura da convergência articula os media clássicos (televisão, rádio, imprensa) com os novos media (blogues, grupos de discussão, facilidades de troca de ficheiros), em que as empresas intersectam os gostos e as actividades das comunidades de fãs. A designação cultura participativa, continua Jenkins (2006: 3), contrasta com a antiga noção de espectador passivo dos media. Já não se fala de produtores e consumidores como tendo papéis distintos, mas de participantes que interagem entre si. Mas também colidem, dados os interesses opostos.

Na cultura participativa, ninguém conhece tudo de tudo mas cada indivíduo acrescenta um conhecimento novo que se pode partilhar na comunidade. As redes electrónicas, a internet, são o veículo ideal. Mas que se servem igualmente das tecnologias anteriores. O fã de Star Trek ou de Twin Peaks, após visualizar um episódio da série, escreve num grupo de discussão, onde dá conta da sua interpretação do programa televisivo e procura interpretar os sinais e adivinhar o futuro.

domingo, 10 de junho de 2007

BLOGUE


A seguir o blogue do Cine Clube de Faro.

VENEZUELA, BRASIL E AUTORIDADES REGULADORAS


Fernando Oliveira Paulino publicou um importante texto no sítio da Assessoria de Comunicação da Universidade de Brasília (Brasil), com o título Venezuela, Brasil e autoridades reguladoras, no passado dia 5, e que aqui reproduzo na íntegra, respeitando totalmente a ortografia do português no Brasil.

Houve um tempo em que raramente se ouvia falar em Venezuela na mídia brasileira. Ainda hoje, pesquisas demonstram o insatisfatório volume de informação veiculado sobre a realidade latino-americana. Mesmo os países do Mercosul não encontram grande relevância e repercussão na imprensa verde-amarela. Assim, torna-se instigante notar o interesse nos últimos cinco anos pelas ações de Hugo Chávez.

A crise econômica associada ao fracasso histórico das elites venezuelanas em amenizar as distâncias entre ricos e pobres gerou as condições para um coronel pára-quedista assumir o poder. Chávez, mal-sucedido em um golpe aplicado seis anos antes, foi eleito em 1998 com alta popularidade. Em 2002, resistiu a uma tentativa de golpe co-organizada com a participação de empresários da mídia, dentre eles concessionários de serviços de radiodifusão. Percebendo a importância vital da mídia no cenário político, estimulou sua TV estatal, criou uma rede para todo o continente – Telesur – e aprovou uma lei que normatizou conteúdos.

Em 27 de maio último, mesmo com apelo de várias entidades internacionais, a RCTV, maior televisão privada e grande pólo produtor de telenovelas, não teve sua concessão renovada. A decisão, amparada por relatório disponível na internet, gerou críticas de várias entidades, principalmente as empresariais, que consideraram a decisão chavista um disparate contra a liberdade de expressão.

Cabe lembrar o histórico da concessionária. Em 1976, a RCTV foi suspensa por ter difundido "noticias falsas e tendenciosas". Depois, ficou 34 horas fora do ar por transmitir "narrações sensacionalistas, quadros sombrios e relatos de fatos pouco edificantes". Em 1981, houve suspensão de um dia por ter transmitido "uma fita de conteúdo pornográfico", e uma advertência, em 1984, por representar "de forma humilhante" o então presidente e sua esposa.

O relatório que subsidiou a decisão contra a RCTV aponta que, durante a tentativa de golpe contra Chávez, a emissora teria subsidiado atores políticos e fabricado mensagens. Antonio Paquali, acadêmico venezuelano e crítico mordaz de Chávez, reconheceu, em entrevista ao jornal El Mercurio, os malefícios históricos da RCTV à comunicação na Venezuela, pois a emissora não valorizou a produção nacional como deveria e havia desfigurado o mercado publicitário "monopolizando 85% da audiência".

Assim, mesmo que a análise do ocorrido se concentre nas divergências políticas entre os grupos defenestrados por Chávez e suas potenciais práticas autoritárias castristas, convém recordar que a RCTV, como concessionária de serviço público, estava sujeita a essa medida por meio legal. Tanto é que, mesmo diante do protesto e apelo de algumas organizações, a emissora não conseguiu amparo judicial para reverter sua situação.

Diante do exposto, surgem dúvidas essenciais e conexas ao Brasil. Como evitar que o governante de plantão interfira no conteúdo editorial das concessionárias de radiodifusão? Ao mesmo tempo, como a sociedade pode ter uma programação que atenda às suas necessidades de informação, educação e entretenimento sem que haja uma autocensura impedindo o pluralismo e a presença do contraditório?

Comparada às nações com maiores Índices de Desenvolvimento Humano, a maior parte dos países latino-americanos possui um vácuo no que se refere à efetivação de autoridades reguladoras das comunicações.

Em 1988, houve um avanço significativo na Constituição Brasileira ao co-responsabilizar o Congresso Nacional nas concessões e renovações de radiodifusão. Contudo, estima-se que 35% dos congressistas tenham participação direta ou indireta em emissoras de rádio e TV. Destarte, o estágio em que vivemos de ampliação das possibilidades do exercício da cidadania prescreve a necessidade de criação de instâncias que se responsabilizem por fiscalizar o conteúdo e a lisura no processo de concessão de radiodifusão.

Países como França e Inglaterra têm institutos específicos para análise do cumprimento dos contratos de concessão, estimulando uma permanente prestação de contas (accountability) da mídia.

Afinal, é preciso transparência nos acordos estabelecidos entre o poder público e as empresas de radiodifusão, para que a sociedade saiba quais serão os critérios adotados para a renovação da concessão das emissoras no país.

Desta maneira, fazendo com que as decisões não estejam sob o arbítrio apenas do Poder Executivo ou de concessionários no Congresso, assegura-se a segurança jurídica necessária para o dever de informar sob o interesse público. Do contrário, os riscos de tentação autoritária por parte do Estado ou do mercado continuarão altos. Sem que a sociedade encontre um caminho de mediação efetivo.


Fernando Oliveira Paulino é mestre e doutorando em Comunicação pela UnB (Universidade de Brasília). É pesquisador do Laboratório de Políticas de Comunicação (Lapcom) e um dos fundadores do SOS-Imprensa, na UnB. Fotografia de Cláudio Reis/UnB Agência. Fernando Oliveira Paulino é "correspondente" do Indústrias Culturais no Brasil.

sábado, 9 de junho de 2007

AINDA A ERC


O texto de Eduardo Cintra Torres hoje no Público é demolidor relativamente ao documento da ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social) - e que eu referi aqui ontem e que foi tema de debate no último programa televisivo do Clube dos Jornalistas, no qual eu participei - designado Avaliação do pluralismo político-partidário na televisão pública. O título do artigo de Cintra Torres, que ocupa duas páginas, tem um título significativo: O "terrorismo virtuoso" da Entidade Reguladora.

A argumentação do crítico de televisão é sólida e será, com certeza, objecto de acesa discussão nos próximos tempos. Retiro um pequeno excerto do texto: "Segundo informações que recolhi, na redacção da RTP esta «avaliação» quantificada pela ERC é considerada por muitos jornalistas como um condicionamento prévio, ou, dito de outra forma, como uma autocensura imposta". Antes, escrevia o crítico: "O jornalismo é transformado nos números da ERC, isto é, um organismo criado pelos partidos e comandado pela acção histriónica de Estrela Serrano, que foi «militante activíssima» do partido do Governo, como me disse quem com ela trabalhou há muito tempo".

Por estas frases, julgo voltarmos à discussão havida em Agosto último (a propósito dos incêndios na floresta e do "apagamento" informativo da RTP). Então, eu considerei ter havido um extremar de posições, tendo Cintra Torres e a ERC saídos beliscados, em especial a imagem externa da ERC (na luta entre o crítico e a entidade aquele parece David a lutar contra o poderoso Golias).

Nota: ainda a propósito do debate televisivo, o que eu pretendia saber sobre o custo do trabalho agora a iniciar pela ERC - e já objecto de tão elevada polémica - era distinguir, na minha óptica, aquilo que se pretende ser serviço próprio da entidade reguladora e eventual serviço prestado por fornecedores. Pelas minhas contas, o trabalho vai ocupar três técnicos da ERC, num total de seis. Não estou a referir aos custos fixos, pois, como Estrela Serrano disse, há o orçamento da ERC. Contudo, com metade dos técnicos ocupados com este trabalho, o que se pode fazer relativamente aos outros media, como a rádio, a imprensa, a internet e a televisão privada? A defesa que fiz no programa é que o trabalho poderia ser desenvolvido pela Marktest (ou por uma empresa de análise de conteúdo).

AGENDAS CULTURAIS


Os volumes respeitantes a Junho das revistas culturais de Oeiras e Lisboa contêm muita informação útil sobre actividades culturais e recreativas nos dois concelhos. Destaco, na de Oeiras (30 Dias), a entrevista com Mário Laginha e Bernardo Sassetti, aliás, tema de capa. No interior, recorto a conversa de Carlos Vaz Marques com José Tolentino Mendonça, capelão e docente da Universidade Católica, a efectuar no dia 27, pelas 21:30, na biblioteca municipal de Carnaxide.

Já na agenda de Lisboa, o realce da capa vai para as festas junianas. No interior, atenção para o Lisbon Village Festival, a arrancar no dia 18.


sexta-feira, 8 de junho de 2007

AVALIAÇÃO DAS NOTÍCIAS PELA ERC


O projecto da ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social) de avaliação do pluralismo político-partidário na televisão pública colheu a minha concordância no último programa da RTP 2, Clube de Jornalistas, emitido anteontem.

Partindo do princípio da não existência de avaliação sistemática da programação televisiva, a ERC propõe-se fazer uma análise de conteúdo aos noticiários da televisão pública para percepcionar a distribuição em tempo dos partidos políticos e do Governo. O documento da ERC indica tratar-se de uma monitorização extensiva ao universo de notícias e programas de informação política.

Assim, a partir das imagens dos noticiários e programas de informação fornecidas pela Marktest, a ERC dedicará atenção à classificação do conteúdo, com base em 17 variáveis, expressas no documento.


Da grelha de análise, parece-me difícil classificar as notícias (ou peças, como surge no documento) a partir de indicadores como tom/valência (posição negativa, positiva ou neutra com que é apresentado o protagonista da notícia), posição no alinhamento e audiência (cruzamento da audiência com a notícia). Também julgo ser útil contabilizar a intervenção de movimentos sociais e grupos de cidadãos (flexibilizando as percentagens - ou quotas, como se falou no programa - atribuidas aos partidos políticos). E, para além da televisão pública, o serviço deveria estender-se às televisões privadas.


Existe um problema político inicial. A ERC é uma entidade necessária, mas ela ficou dependente dos dois principais partidos políticos do país, que gizaram a nomeação dos seus membros. Qualquer actividade que a ERC faça é vista com desconfiança pelos restantes partidos - e até por movimentos sociais. O único remédio é a acção positiva, pedagógica, de trabalho sério a desenvolver, para calar vozes discordantes. E este projecto pode ser útil no desenho da confiança e respeito pela ERC. O país precisa de informação adequada, sem pôr em causa a liberdade de informação e de expressão.

REVISTA DE LETRAS DA UTAD


Saiu um novo número da Revista de Letras, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, correspondente ao mês de Dezembro de 2006.


Tem dezassete artigos, agrupados em cinco áreas: linguística, literatura, didáctica, cultura e comunicação.

Ler mais no blogue da revista.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

SOBRE OS JACARANDÁS


Parece que o Robert de Niro esteve hoje no Campo Pequeno (mais propriamente no Palácio das Galveias, onde funciona a biblioteca municipal de Lisboa).

Eu não o vi, mas apreciei os jacarandás, com as flores a desaparecerem lentamente. As chuvas e o calor recentes começaram a dizimá-las. Em ruas circundantes, o cheiro das tílias é muito agradável.

E circundando a praça de touros do Campo Pequeno, há edifícios com belíssimas fachadas. Aprecia-se melhor a partir de uma esplanada aberta há pouco.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

PLURALISMO POLÍTICO NA RTP - PROGRAMA DO CLUBE DE JORNALISTAS


Dentro de uma hora e pico, o canal 2 da RTP vai passar o programa do Clube de Jornalistas, hoje dedicado ao pluralismo político na RTP.

Da informação existente no sítio do Clube retiro a seguinte:


  • A ERC tem um plano para assegurar (reforçar, melhorar, instituir... — cada um escolha o verbo que entenda mais adequado) o pluralismo político-partidário na RTP. O objectivo é meritório e incontestado, mas o plano suscita algumas dúvidas e objecções. Com o intuito de ajudar a esclarecer as zonas nebulosas, o Clube de Jornalistas convidou a dra. Estrela Serrano (co-autora do plano), o jornalista Joaquim Vieira e o professor Rogério Santos para um debate que será emitido na quarta-feira, 6 de Junho, depois das 23 e 30, na RTP2. O moderador é João Alferes Gonçalves. O programa inclui depoimentos de representantes do PS, PSD, PCP – que são, em maior ou menor grau, favoráveis ao plano da ERC – e do CSD e BE, ambos abertamente contra.
Vou estar atento ao programa. Lembrando a gravação, ele foi quezilento - e houve matérias que pouco se discutiram. Espero que haja mais debate sobre o tema.

LANÇAMENTO DO LIVRO DE FERNANDO CORREIA E CARLA BAPTISTA


Fernando Correia e Carla Baptista lançaram, ao fim da tarde de hoje, o seu livro Jornalistas. Do ofício à profissão. Para o apresentar estiveram José Carlos Vasconcelos e José Manuel Paquete de Oliveira (também previsto, Urbano Tavares Rodrigues não apareceu, por questões de saúde).

O que trouxe, de novo, o livro, interrogava-se a co-autora Carla Baptista. Para ela, serviu para revalorizar a profissão de jornalista.

Foi isso que os dois apresentadores fizeram, contando muitas histórias desse tempo já antigo mas muito presente na memória dos que o viveram e dos que fizeram agora a história. Para José Carlos Vasconcelos, o livro foi feito com muito amor, com paixão e entusiasmo. Se a tese do livro indica que o jornalismo passou, nesse período, de ofício para profissão, isso quer dizer também que aumentou a consciência jornalística e a intervenção cívica, embora não compensada pela fama e pelo poder. Os jornais da tarde - Diário Ilustrado, República, Diário Popular, Diário de Lisboa, A Capital, A Bola - seriam recordados no livro e também nas histórias contadas por José Carlos Vasconcelos. Organização e funcionamento da sala de redacção e valorização profissional nessa época de charneira (1956-1968, o período histórico abordado no livro) foram outros realces de José Carlos Vasconcelos.

Já Paquete de Oliveira - jornalista entre 1960 e 1969 na imprensa da Madeira e que recordou as diferenças de censura entre o continente e a actual região autónoma, mais liberal na Madeira que aqui -, preferiu destacar algumas ideias fortes que a leitura do livro lhe proporcionou: 1) os anos 60 produziram muitos jornalistas que se destacariam no panorama nacional até hoje, 2) a importância do processo de produção das notícias, 3) o difícil acesso à profissão (por razões políticas) e as questões da ética e da deontologia (hoje, de novo, em questão), 4) a ausência das mulheres na imprensa, 5) o papel do sindicato, 6) o dicionário enciclopédico de jornalistas do período retratado no livro. Paquete de Oliveira ainda salientou a necessidade de estudar a mediação e os actores dessa mediação.

[embora não visível na imagem fixa, mas compreensível nos dois pequenos vídeos, a mesa estava composta por cinco elementos, sendo da esquerda para a direita: José Manuel Paquete de Oliveira, José Carlos Vasconcelos, Zeferino Coelho, o editor da Caminho, Carla Baptista e Fernando Correia]


NOVO JORNAL GRATUITO


Saiu hoje o novo jornal gratuito Meia Hora, de informação geral e, segundo os promotores, destinado ao mercado coberto pelos jornais pagos Público e Diário de Notícias.



O Meia Hora pertence ao grupo Metro, já editor do jornal gratuito com o mesmo nome. Traz 32 páginas, das quais 12 com publicidade (37,5%). Da publicidade, destaque para os sectores de automóveis (três páginas e meia), banca (três páginas) e telecomunicações (duas páginas), sectores que interessam a um público urbano, jovem e com poder de compra, o público alvo do jornal, que oferece conteúdos sérios a gente apressada mas com essas características.

O grafismo é leve e apelativo (caso das páginas de lazer), com a primeira página a apontar para uma zona de lazeres ou estilos modernos de vida, uma chamada de atenção para um inquérito sobre corrupção (problemática: justiça), uma fotografia apelando a uma situação internacional (Venezuela) e, em coluna lateral ao alto, quatro tópicos respeitantes a outras tantas áreas: Lisboa (cidade de distribuição do novo jornal), mundo, economia e cultura. Estas áreas são de interesse informativo do público alvo do jornal.

O director do jornal é Sérgio Coimbra e o (a) chefe de redacção é Ana Kotowicz. Dois editores (de actualidade e lazer) e oito elementos de redacção (incluindo uma assistente e uma revisora) completam a equipa do novo jornal. Do estatuto editorial, refere-se que "Este é um jornal para quem quer ser informado e não tem tempo a perder com palavras desnecessárias. Publicamos apenas notícias". Mas a ficha técnica inclui quatro colunistas: Helena Sacadura Cabral, Manuel Falcão (que escreve hoje), Luciano Amaral e Maria Filomena Mónica (alguns nomes escreviam no Público, não?).

As duas páginas de cultura, por exemplo, oferecem informação variada (10 peças de tamanho distinto), o que é uma ameaça à informação dos jornais de qualidade. Claro que não permite, como é comum aos gratuitos, informação detalhada e de recorte investigativo. Ou seja, informa mas não forma, elemento crucial para a manifestação da opinião pública.

Actualização (7 de Julho): o novo jornal gratuito é propriedade da Metro News, empresa que também detêm o gratuito Destak e está englobada na holding Cofina, sem haver relação com o Metro e a Media Capital. Com o meu obrigado a leitores atentos, fica aqui a rectificação.

MOSTRALÍNGUA


A Mostralíngua é a 1ª Mostra Internacional de Cinema em Língua Portuguesa, a realizar em 27 e 28 de outubro, em Coimbra.

Competição internacional em que se aceitam filmes experimentais, vídeos musicais, animações, ficções e documentários com duração máxima de 60 minutos, produzidas após Janeiro de 2005, desde que se expressem maioritariamente em língua portuguesa.


Inscrições abertas.

Mais informações: sítio www.eufaria.com; e-mail mostralingua@gmail.com.

VERÓNICA TEM VIDA DUPLA

Não conheço a Verónica (ou as Verónicas). Tudo terá começado a 25 Agosto de 2005, deste modo:


  • "Weronika est une jeune chanteuse habitant en Pologne. Elle aime marcher pieds nus, regarder le monde à travers une boule de verre et a une malformation cardiaque. Un jour, à Cracovie, une jeune touriste qui lui ressemble la prend en photo. Weronika meurt peu après lors d’un concert. A Paris, Véronique est musicienne et possède les mêmes caractéristiques que Weronika : la voix sublime, le corps, la défaillance cardiaque. Véronique s’éprend d’un écrivain, Alexandre Fabri, qu’elle rencontre à un spectacle de marionnettes qu’il a créées".
Traduzindo rápido e superficialmente, há duas Verónicas - uma cantora polaca que morreu após um concerto, mas ficou numa fotografia de uma turista; uma cantora parisiense, de igual voz sublime e as mesmas insuficiências cardiacas. Se uma morre, a outra vive.

É o blogue
La Double Vie de Veronique, de Dora Batalim. Bonito, sensível, falando das coisas da arte e da música, do design e das paisagens.

A seguir.


Observação: La double vie de Veronique é o título de um filme de Krzysztof Kieslowski (1991).

terça-feira, 5 de junho de 2007

OLÁ


Hoje, a minha vinda ao blogue é mesmo só para dar um "olazinho" a quem me lê habitualmente.

Coisas que gostaria de fazer ao fim-da-tarde mas não posso:

1) assistir ao lançamento da revista Comunicação & Cultura, revista da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica, ao fim da tarde (19:00) na Feira do livro. Publicação semestral, vai já no terceiro número,

2) assistir à sessão de encerramento do seminário de cultura de massas na Universidade Nova de Lisboa, com intervenções de António Pedro Pita e da professora Salwa Castelo-Branco, conforme um postal que afixei ontem.

Como escrevia há dias: alento - tempo. A falta de tempo faz-se notar na produção dos postais aqui no blogue.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

CULTURA DE MASSAS EM PORTUGAL NO SÉCULO XX


Povo, Massas, Públicos: definições e debates é o tema de encerramento do II Seminário de Investigação Cultura de Massas em Portugal no Século XX, amanhã, dia 5 de Junho, no Anfiteatro 1 da Torre 1 da FCSH/UNL (1º piso, junto à biblioteca), pelas 18:00. Na sessão, participam Salwa El-Shawan Castelo-Branco (FCSH/UNL) e António Pedro Pita (CEIS20/FLUC).

Os dois docentes irão reflectir sobre alguns conceitos e questões principais discutidas ao longo do seminário. São os conceitos de cultura de massas e indústrias culturais ainda operativos e explicativos? Quando é que povo se tornou público e porque é que este passou a ser percepcionado como massas? As indústrias culturais dirigem-se a indivíduos, a públicos, ou a consumidores? Poderão os públicos negociar a recepção dos produtos das indústrias culturais, ou estarão limitados a ver gostos, desejos e prazeres determinados por aquelas?

REVISTA AL-MADAN


No dia 6, pelas 18:00, no Anfiteatro III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, vai decorrer a apresentação pública da Al-Madan nº 14 (2006). No volume, o tema central prende-se com as transformações do ensino da Arqueologia, da História, do Património e da Conservação à luz da aplicação da Declaração de Bolonha. No mesmo dia, é colocada on-line a Adenda Electrónica, a partir do sítio da
Al-Madan Online.

Uma sessão semelhante decorrerá no Porto, às 18:30 do dia 16 de Junho, na sede da Associação Profissional de Arqueólogos (Rua Comércio do Porto, 36-38, r/c).

domingo, 3 de junho de 2007

ORTOGRAFIA


Lídia Jorge, no magnífico texto editado no Público de hoje [imagem retirada da edição electrónica do jornal], não diz directamente a razão principal que a levou a escrever sobre ortografia mas é sobre a recente prova de português nas escolas do secundário em que se considerou menos importante a apresentação de erros ortográficos e mais importante a colocação de ideias, expressão e criatividade. Não parece, lendo atentamente o texto, que ela esteja contra o que aconteceu, mas escreve sobre o facto. Embora eu não julgue que ela defende a melhor posição, dada a ambiguidade da sua posição, considero um belo texto que merece ser analisado e comentado.

Primeiro, o título: ortografia enquanto impressão digital. Depois, a ideia da caligrafia bonita - que entende não se voltar a empreender na actividade escolar - aliada à ortografia. Aqui, Lídia Jorge deve ter razão. Eu aprendi caligrafia bonita e agora ela esta deformada. Será pelo uso do computador? Em terceiro, é possível que qualquer pessoa faça um erro ortográfico, mesmo um professor de português, no que a escritora chama um ponto de partida realista e não de humildade. Aqui, no blogue, já escrevi erros, dos quais me apercebi mais tarde, quando me chamam a atenção ou quando releio casualmente. Quarto, e talvez mais importante, o registo escrito está a mudar pela influência do audiovisual e devido ao auxílio dos correctores automáticos dos computadores. Aqui, contudo, uma ressalva: o computador pode corrigir o que está correcto mas ele ignora, após consulta de todo o léxico armazanado (por exemplo, se eu escrever editora Vega, o corrector passa logo para Veja).

Mas, e apesar de todo o texto - e como a própria escritora admite e publica -, custa muito ler lilaz (e não lilás), acessor (e não assessor), andasse (e não anda-se) ou á (e não há).

WENDI DENG


Wendi Deng é a mulher do magnata dos media Rupert Murdoch. Parecia que ela era dona de casa mas, afinal, é a ponta de lança de Murdoch na China, país onde ela nasceu. 37 anos mais nova que o marido, chegou aos Estados Unidos com 19 anos para aprender inglês e estudar na universidade de California State e na academia empresarial de Yale. Com uma bolsa na News Corp., de Murdoch, trabalharia na Star TV, televisão asiática por satélite. Foi intérprete de Murdoch quando este viajou para Beijing e Xangai, altura em que se conheceram. Depois, viriam a casar.

Wendi Deng é o contacto da News Corp. no mercado chinês. A News Corp. está a fazer elevados investimentos na internet e nas redes de cabo na China, o que permite avançar com banda larga para transmissão de vídeo com conteúdos feitos pelos operadores locais. E, no MySpace China, empresa de grande expressão junto da juventude em todo o mundo, Wendi Deng ocupa um lugar na administração, o que tem de grande significado para Murdoch e a News Corp.

Tudo bem, até surgir um problema no Sydney Morning Herald, em que este encarregou um jornalista, Eric Ellis, de fazer um trabalho de reportagem sobre Wendi Deng, afinal uma das mulheres mais poderosas na Austrália, na sua China natal e, certamente, no seu país de adopção, os Estados Unidos. A reportagem de 11.000 palavras, que custaram ao jornal australiano quase 25 mil dólares, acabaria por não ser editada. Razão: o jornal é propriedade da Fairfax Media, conglomerado mediático australiano em que Murdoch era accionista, mas deixou de o ser após conhecimento da publicação prevista da reportagem. Certamente, a vida amorosa antes do casamento com Murdoch e os interesses de se aproximar do poder, que a levaram até ao mesmo Murdoch, estão no centro dessa peça. Ellis diz-se disposto a vender o trabalho a outro jornal mas a reportagem perdeu a novidade, pois todos já sabemos o miolo da história.

[fonte: El Pais, de hoje, em texto de Javier del Pino]

JORNALISTAS. DO OFÍCIO À PROFISSÃO


O livro Jornalistas. Do ofício à profissão, de Fernando Correia e Carla Baptista, vai ser lançado no próximo dia 6, pelas 18:30, na sede da editora Caminho (Av. Almirante Gago Coutinho, 121, Lisboa), com apresentação de José Carlos Vasconcelos, José Manuel Paquete de Oliveira e Urbano Tavares Rodrigues.

sábado, 2 de junho de 2007

A MINHA HOMENAGEM A MARY DOUGLAS


Antropólogos como Mary Douglas estudaram e examinaram a influência dos factores políticos, culturais e sociais na percepção do risco. O risco age na sociedade e cria ameaças à ordem social, mas também à ordem do corpo – se a sociedade está em perigo, também está o corpo. Com base nesse princípio, Douglas (1966/1991) discute os modos simbólicos e rituais em que se classifica o mundo. O corpo humano é conceptualizado como possuído por fronteiras para fora e para dentro, as aberturas do corpo; também a sociedade tem uma forma, com fronteiras externas, margens e estrutura interna. "Sujo" e "poluído" são coisas fora do sítio, que transcendem as fronteiras e as classificações aceites socialmente no corpo e no mundo. A teoria sobre pureza, poluição e perigo acaba, assim, por apoiar o peso do risco na sociedade ocidental contemporânea, particularmente o uso do risco como conceito de culpa e marginalização do "outro".

Manter a estabilidade significa controlar a desordem, a contaminação e a poluição. O controlo corporal é, em Douglas, o equivalente a controlo social. Como corolário do argumento, se se relaxam os controlos sociais sobre as margens, também se distendem os controlos sobre as aberturas do corpo individual. As noções contemporâneas de impureza e limpeza não são o efeito do interesse sobre os microrganismos mas de interesses simbólicos. Para Douglas (1966/1991: 14): "Tal como a conhecemos, a impureza é essencialmente desordem. A impureza absoluta só existe aos olhos do observador. [...] As ideias que temos da doença também não dão conta da variedade das nossas reacções de purificação ou de evitamento da impureza. A impureza é uma ofensa contra a ordem".

Numa retoma da ideia do indivíduo que assume o risco, Mary Douglas, em Risk and blame (1992), trabalha a teoria do contágio face à sida. Na sociedade contemporânea, o risco substituiu as antigas ideias sobre a desgraça, caso do pecado. A diferença entre perigo no contexto do tabu e risco como tema central do perigo contemporâneo é que o tabu reside na retórica da retribuição e acusação contra um indivíduo específico e o risco é invocado para proteger os indivíduos contra os outros (Douglas, 1992: 27-28). Reforçam-se as ideias de corpo e infecção face à invasão da sida. Se, na sida, o vírus invade o corpo, descreve-se a doença como invasora da sociedade inteira. Contínuo assalto viral, com contaminação e vulnerabilidade, a sida torna o corpo do indivíduo ou a sociedade incapazes de reagir.

O que está inserido acima foi escrito, aproveitando os trabalhos de Mary Douglas, na minha tese de doutoramento intitulada Jornalistas e fontes de informação – as notícias de VIH-sida como estudo de caso e apresentada na Universidade Nova de Lisboa. Foi uma grande alegria tê-la lido e estudado [imagem retirada do obituário publicado no Times, em 18 de Maio último].

Li, no Expresso de hoje (texto de José Cutileiro), a notícia da sua morte, ocorrida a 16 do mês passado. Nascida em 1927, ela formou-se em filosofia, política e economia em Oxford. Foi um marco na antropologia social da segunda metade do século passado, iniciada por Evans-Pritchard. Inicialmente africanista (fez trabalho de campo entre o povo Lele, do antigo Congo Belga), ela investigou a sociedade ocidental e trabalhou temas como alimentação e consumo, risco e ambiente. Católica, também dedicou muito interesse ao estudo do Antigo Testamento.


Bibliografia lida:
Douglas, Mary (1966/1991). Pureza e perigo. Lisboa: Edições 70
Douglas, Mary (1992). Risk and blame. Essays in cultural theory. Londres e Nova Iorque: Routledge

DEBATE SOBRE COMUNICAÇÃO


Em Brasília, no próximo dia 6, entre as 9:00 e as 12:00, decorrerá um debate sobre novas tecnologias, televisão e rádio digitais e televisão pública (Auditório do Interlegis, com participação de Assembleias Legislativas; transmissão via internet ww.interlegis.gov.br).

O debate servirá para o planeamento do Encontro Nacional de Comunicação (a efectivar em 21 e 22 de Junho, sob os temas de democracia e direitos humanos), no Auditório Nereu Ramos da Câmara dos Deputados daquela cidade capital do Brasil.

OS JORNALISTAS PORTUGUESES


Os jornalistas portugueses. Dos problemas de inserção aos novos dilemas profissionais, de Sara Meireles Graça, após lançamento em Lisboa, vai ser apresentado na próxima segunda-feira, pelas 14:00, em Coimbra, na Escola Superior de Educação de Coimbra (ESEC), à Praça Heróis do Ultramar, Solum, em Coimbra.

O volume, pertencente à colecção Comunicação das Edições MinervaCoimbra, terá apresentação da jornalista Leonete Botelho e dos docentes Isabel Calado e José Luís Garcia.

WORKSHPS NO ISCSP


De 4 a 20 de Junho, realiza-se um ciclo de workshops ISCSP/CENJOR sob os temas: 1) Jornalismo, Sociedade e Comunicação de Massas, 2) Investigação e Expressão Jornalística.

Os eventos terão lugar no ISCSP (Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas), situado no Alto da Ajuda, em Lisboa.


sexta-feira, 1 de junho de 2007

CONGRESSO DA SOPCOM



Perto de 400 propostas de comunicações chegaram à Comissão Organizadora do 5º Congresso da SOPCOM (Associação Portuguesa para as Ciências da Comunicação), a realizar na Universidade do Minho (Braga) de 6 a 8 de Setembro deste ano.

As comunicações vão-se estender em áreas temáticas das Ciências da Comunicação como Jornalismo, Economia e Políticas da Comunicação, Estudos Fílmicos, Publicidade, Direito e Ética, Sociologia da Comunicação, Comunicação e Educação, Estudos Culturais e de Género, Estudos Televisivos, Comunicação Multimédia e Jogos Electrónicos.

Julgo tratar-se de um número de propostas não atingido nas edições anteriores do congresso de ciências da comunicação.

Dos convidados, confirmaram a sua participação Victoria Camps (professora catedrática de Ética na Universidade Autónoma de Barcelona e membro do Conselho do Audiovisual da Catalunha), Rosenthal Alves (professor de Jornalismo e titular da cátedra UNESCO na Universidade de Austin/Texas), Divina Frau-Meigs (professora na Universidade da Sorbonne/Paris e vice-presidente da IAMCR), Mário Mesquita (professor de Jornalismo, ex-Provedor do Leitor do Diário de Notícias) e Paquete de Oliveira (professor jubilado do ISCTE/Lisboa, actual Provedor do Telespectador da RTP e ex-presidente da Sopcom).

GABINETE PARA OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL


Desde hoje, o Instituto da Comunicação Social (ICS) foi substituido pelo Gabinete para os Meios de Comunicação Social (GMCS), adquirindo atribuições e competências daquela instituição. A alteração enquadrou-se no âmbito do Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado (PRACE), aprovado pelo Decreto-Lei n.º 165/2007, de 3 de Maio.

Lê-se na página do novo organismo:
  • O Gabinete para os Meios de Comunicação Social (GMCS) é um serviço da administração directa do Estado, inserido no âmbito da Presidência do Conselho de Ministros, dependendo directamente do Ministro dos Assuntos Parlamentares, responsável governamental pela área da comunicação social. O GMCS apoia o Governo na concepção, execução e avaliação das políticas públicas para a comunicação social, procurando a qualificação do sector e dos novos serviços de comunicação social, tendo em vista a salvaguarda da liberdade de expressão e dos demais direitos fundamentais, bem como do pluralismo e da diversidade.

A CASA DAS VIRTUDES NÃO EXISTE


Hoje, ao ler o texto de Fernanda Câncio, no Diário de Notícias (página 7), entendi melhor a mensagem que pretendeu passar na peça jornalística de anteontem.

Na peça de hoje, relata a decisão de um juíz de instrução sobre um estupro. Decisão infeliz num caso triste.

Na notícia de quarta-feira, começava pela transcrição do acórdão do Supremo; hoje, contextualiza o caso e a decisão e conclui com muita ironia: "Na verdade, parece, nem houve crime nenhum". Nos dois casos, existe, da parte da jornalista, interpretação simultaneamente muito impressionista das ocorrências, e muito subtil. Ora, os leitores nem sempre estão artilhados com essa sabedoria que deles se espera.

Os dois textos desta semana, em conjunto, recordam a forma das peças de Fernanda Câncio quando fazia tandem na página com Ana Sá Lopes à sexta-feira, e cujos estilos se complementavam e forneciam uma leitura muito agradável (a opinião do leitor é que o jornal era bem melhor do que o modelo actual, mas ao leitor resta uma solução: comprar ou não comprar, manter ou não a rotina de ler o jornal). Nessa altura, havia uma ironia mais fina sobre os temas observados.

Pelo retrato que a jornalista faz, a justiça nacional está a cometer erros graves, para além da tradicional lentidão. E faz-me lembrar O ovo da serpente, filme de Bergman (1977), cuja história destaca o modo como o nazismo (ou outro totalitarismo) começou a entrar na democracia.

Mas há algo que eu não compreendo no jornal. É justo denunciar os erros, as falhas. O problema é quando, vinte páginas à frente, no mesmo jornal, a secção "Relax" continua a ocupar uma página e anúncios como "Beleza - Requinte. Charme - Clamour" se mantêm (cor introduzida por mim). A secção é tão violenta como as decisões dos juízes.

Afinal, o jornal tem dois pesos e duas medidas: 1) a informação, 2) a publicidade. Territórios vedados um ao outro (pelo menos o jornalismo face à publicidade). A jornalista não pode criticar as opções da direcção da empresa; o provedor do leitor não pode porquanto a sua função reside no escrutínio do que se escreve nas notícias. Quem pode?