domingo, 15 de agosto de 2004

JULIA OTERO

Confesso que não conhecia Julia Otero até hoje de manhã quando li o El Pais. Ela é jornalista da televisão. Nos últimos três anos, Julia Otero trabalhou na Catalunha, no canal TV-3. Agora, prepara-se para regressar à TVE, em Outubro, com um novo programa. Da sua entrevista a Arcadi Espada, retirei algumas ideias.

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Sobre o ofício das mulheres

Para a jornalista, o facto de haver maior presença nas notícias sobre a violência doméstica, e também o seu tratamento, relaciona-se com a maior presença de mulheres na sala de redacção. É frequente Julia Otero fazer a pergunta aos homens políticos: como compaginam a vida familiar com a vida laboral? Ela observa o actual governo de Madrid: oito ministros são pais de vinte e quatro filhos, oito mulheres têm cinco filhos. Para ela, as mulheres que chegam a cargos mais elevados vivem sozinhas.

E prossegue o seu pensamento, quanto se fala das mulheres e de cargos elevados nos media: "As estatísticas cantam: não há mulheres nos media. Um empresário dos media é sobretudo um empresário e os critérios empresariais acabam por se impor. Por razões de produtividade e de rentabilidade, às vezes mal estabelecidas, pensa-se que um homem, devido a que a sua carreira é compatível com a sua fertilidade, será mais adequado para um determinado trabalho. Uma mulher com trinta anos, por muitos masters que tenha e por muito bem preparada que esteja, sempre será observada como um factor de perigo. Porque com trinta anos é bastante provável que queira ficar grávida. O homem de trinta anos tem mais vantagens".

Os media enquanto circo

A uma pergunta sobre a capacidade de influência dos media, Julia Otero responde que há "um certo mal-estar geral diante do funcionamento dos media. Um mal-estar muito generalizado perante este circo". Porquê circo? Porque "dá muito medo a que qualquer discurso dure mais de dois minutos. Não há respostas largas. Tudo é slogan. Títulos. E, enfim: tudo se quer cortado aos bocadinhos [picadito] e com muito ritmo. Esta é a única frase do livro de estilo da televisão actual. Aos bocadinhos e com muito ritmo. Na realidade nem a imprensa se salva deste estilo. Cada vez é mais difícil encontrar trabalhos jornalísticos de alcance, de longo percurso".

No que li da imprensa de hoje, só encontro paralelo no texto (pessimista mas realista) da historiadora Maria de Fátima Bonifácio sobre os estudantes do ensino universitário, que querem muito lazer e pouco estudo (Público).
SPAM - OU DA CARNE DE PORCO EM LATA PARA O LIXO NA INTERNET

Spam, contracção das palavras Spiced Harm, é uma carne de porco em lata produzida pela Hormel Foods Corporation. Empresa fundada em Austin, no estado de Minnesota, por George A. Hormel, em 1891, as latas são produzidas desde 1937. A carne de porco da Spam foi um dos poucos tipos de alimentação excluidos do racionamento alimentar inglês, durante e alguns anos após a II Grande Guerra, e também alimentou o Exército Vermelho, da União Soviética, no mesmo conflito. Na Coreia do Sul, a carne Spam é considerada um acepipe.





A fábrica da Spam produz 435 latas por minuto, 228 das quais para o mercado norte-americano. Como curiosidades, refira-se que a Spam tem um clube de fãs, que elegem o Jovem do Ano, competição que envolve 16 feiras regionais em vários estados americanos, e um museu, que expõe 4752 latas.

Spam=lixo electrónico e actividade artística

Mas SPAM também é o termo usado para referir a existência de mensagens de correio não desejadas que surgem diariamente na nossa caixa electrónica. Uma empresa que se oferece para limpar o spam dos computadores apresenta assim a sua publicidade: "SPAM...not just Spiced Ham, anymore. The problem of receiving a vast amount of SPAM email is increasing for everybody". Um pormenor interessante é que a Hormel não agiu judicialmente para evitar a associação da marca ao lixo electrónico.

Mais recentemente, está a surgir um movimento artístico que usa o spam como elemento criativo. É o caso da poesia, como escreve Toni Blanco, do jornal La Vanguardia, de 4 de Agosto último. A justaposição de frases provenientes de diversas mensagens de correio produzem resultados aparentados aos da técnica de cut-up de William Burroughs, sem querermos ir mais atrás a Tristan Tzara e aos surrealistas. Além disso, o spam aproxima-se da linguagem de marketing, com a repetição de estruturas curtas e que facilitam a anáfora ou o paráfrase.

Um dos sítios de poesia spam é o de Kristin Thomas, enquanto o sítio SpamRadio.com é um servidor que transforma em áudio o spam recebido por correio e o emite, como se fosse uma emissora de rádio non-sense, difundindo no formato streaming mp3. Por seu turno, a Spam Avenger reproduz conversas telefónicas e mistura frases em bases musicais.

sábado, 14 de agosto de 2004

CARTAZES DA I GUERRA MUNDIAL EM EXPOSIÇÃO

Até 4 de Setembro, encontra-se patente na Biblioteca Nacional uma exposição dedicada a cartazes feitos durante a I Guerra Mundial. Como escreve logo no começo da sua apresentação Diogo Pires Aurélio, o director da BN, "Na história do século XX, um dos capítulos mais impressionantes e ao mesmo tempo mais perturbadores é, sem dúvida, o capítulo dedicado à propaganda política, onde o cartaz desempenha um papel pioneiro. A propaganda, evidentemente, existiu sempre e é mesmo intrínseca a toda a acção política".



São 256 cartazes que constam do catálogo, datados de 1914 a 1923, relacionados ou aparentados à I Guerra Mundial, e que são parte de uma valiosa colecção da Biblioteca Nacional, doada (excepto três) por Abílio Pacheco Teixeira Rebelo de Carvalho, em 1977. As imagens desta mensagem foram retiradas do sítio da Biblioteca Nacional, sendo a da esquerda pertencente a Howard Chandler Christy (1918), que desenhou "mulheres jovens, alegres, despreocupadas, mas nem por isso menos conscientes do seu dever para com a Pátria" (António Ventura, Universidade de Lisboa, em texto no catálogo). O cartaz representa uma delas, vestida de marinheiro, que, com ar atrevido, diz: "Quem me dera ser homem! Alistava-me na Marinha!". Já o cartaz da direita, de Eugénie de Land (1917), representa um apelo aos imigrantes americanos para que não esqueçam a terra que os acolheu e apoiem a participação do país na guerra.

Na colecção, conforme ainda escreve António Ventura, existem "dois núcleos muito fortes: os cartazes americanos, com 145 espécimes, os franceses, com 103, e depois, menos representados, os ingleses, com apenas três, italianos, com um, e portugueses, com quatro". Um dos temas mais representados é o da subscrição dos empréstimos de guerra, nomeadamente a compra de War Savings Stamps, iniciativa do departamento do Tesouro norte-americano. Organizações específicas publicariam os seus próprios cartazes, como a National League for Women's Service, a Young Men's Christian Association e a Young Women's Christian Association.



Nestas duas outras imagens, a da esquerda pertence a Adolph Treidler (1918), ao passo que a da direita é de A. Baptista (1923). Esta última é um apelo a uma homenagem aos soldados portugueses caídos na frente da batalha de La Lys, também conhecida por batalha de Armentières, a principal participação das nosssas tropas na I Guerra Mundial, ocorrida a 9 de Abril de 1918 (e cujas homenagens se prolongaram quase até à II Guerra Mundial).

A exposição agora patente revela ainda o nascimento de uma figura iconográfica americana, hoje de valor universal, o Tio Sam (o equivalente ao nosso Zé Povinho). Num dos cartazes, lia-se: I want you for US Army. A cor (azul, vermelho e branco) “adquiriu uma conotação simbólica, patriótica na medida em que se trata das cores da própria bandeira americana” (Rui Afonso Santos, Museu do Chiado, em texto no catálogo).

Curioso, e para finalizar, que o cartaz fora, até 1914, de uso comercial quase exclusivo. Em França, artistas como Manet, Daumier e Toulouse-Lautrec produziram cartazes, cuja estética nos impressiona ainda hoje. Nesses artistas havia uma grande formação académica, como lembra Maria da Graça Garcia, ainda no catálogo da exposição. Já nos Estados Unidos, a I Guerra provocou uma autêntica eclosão do cartaz, que tendiam para "a simplicidade e a eficácia, através do sintetismo da expressão gráfica e da utilização de cores fortes" (Graça Garcia).

sexta-feira, 13 de agosto de 2004

QUE VIVAM OS JOGOS OLÍMPICOS DA GRÉCIA 2004!

Os Jogos Olímpicos regressaram ao país de origem, o que é uma alegria. Dá para ver a competição desportiva no seu melhor.

Contudo, os Jogos hoje são um grande motivo de espectáculo que passa na televisão. As cerimónias de abertura e de encerramento são momentos especiais adaptados à televisão, naquilo a que Daniel Dayan e Elihu Katz chamam de acontecimentos mediáticos ou mega-acontecimentos [em português: A história em directo. Os acontecimentos mediáticos na televisão, edição da Minerva, de Coimbra, em 1999].

Aqui, fica a minha memória da Grécia, a partir de um caderninho de viagens, que preparei para visitar aquele país, e de imagens dos monumentos clássicos - Atenas (Propileus), mosteiro de Meteora (séc. XIV) e teatro de Epidauro.

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Atenas.JPGMeteora.JPGEpidauro.JPG
DAS MINHAS LEITURAS DE HOJE - A NÃO PERDER

1) Público
- texto de João Bénard da Costa (que se assina: escritor) sobre o filme de Éric Rohmer, Triple agent,
- artigo onde se dá conta que, no Brasil, o projecto para a criação do Conselho Federal do Jornalismo não parece ir para a frente, após uma longa discussão (eu lera a primeira informação no dia 9 no blogue Intermezzo, de Daniela Bertocchi, que deu ao blogue um novo e atraente layout),
- polémica Manuel S. Fonseca e Eduardo Cintra Torres sobre a série Os Maias.

2) Diário de Notícias
- estudo da Ofcom (Reino Unido) sobre o consumo de televisão, telemóvel e internet (que Jornalismo e Comunicação já informara ontem, em post de Sara Moutinho).

3) DNA (Diário de Notícias) [só folheei, mas vou ler na totalidade]
- dossiê Cartier-Bresson [na sua morte não fiz aqui qualquer referência; gostaria de o fazer um destes dias, se houver possibilidade]

DE UM FILME

O INATEL está a levar a efeito uma festa do cinema (em ecrã gigante) no seu estádio, ali à av. Rio de Janeiro, em Lisboa. Já vi dois filmes. O de hoje é o primeiro volume do filme de Tarantino, Kill Bill, com Uma Thurman, Luci Liu e David Carradine. Qual será a diferença entre ver um filme num ecrã da sala de cinema comercial e o filme neste ecrã?
FÓRUM BARCELONA 2004

O Fórum Barcelona, que decorre de 29 de Maio a 26 de Setembro (141 dias), é um amplo espaço onde se acolhem ideias como diversidade cultural, desenvolvimento sustentável e condições de paz. É ainda o terreno para o comércio justo, a luta das mulheres, a reciclagem e a utopia.

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Espectáculos, exposições, conferências e congressos fazem parte deste acontecimento internacional, que, para os organizadores, torna Barcelona a plataforma ideal para celebrar um Fórum Universal das Culturas, "a meio caminho entre o passeio tranquilo pela rua do bairro e a vibração cosmopolita dos seus habitantes" (do catálogo).

Barcelona_Forum.JPGHá dois edifícios marcantes, o Edifício Fórum, projectado pelos suíços Herzog e De Meuron, de forma triangular e uma cor exterior em azul berrante, com um auditório para 3200 lugares, e o Centro de Convenções, desenhado por José Luis Mateo, com uma capacidade máxima de 15 mil lugares, e que o torna o espaço maior no género do sul da Europa. Fazendo lembrar a Expo'98, esta feira tem também estruturas assumidamente efémeras, com informação montada em tendas com imagens em painéis.

Barcelona_Forum1.JPGEm texto editado no Expresso de 7 de Agosto, Alexandre Pomar referencia algumas críticas locais sobre o modo como se construiu esta cidade cultural. Em causa, "o álibi cultural para a especulação imobiliária, a transformação de Barcelona numa cidade de turismo, ócio e serviços, a subordinação aos interesses das indústrias do entretenimento e da cultura". Na realidade, toda a longa avenida Diagonal, que intersecta a parte mais antiga da cidade e esta zona requalificada de dois quilómetros do litoral norte, está dotada de edifícios gigantescos e zonas de habitação de luxo, muito perto das praias artificiais criadas em 1992.

quinta-feira, 12 de agosto de 2004

LER OS MEDIA COM LEVEZA - AFINAL ESTAMOS NO PINO DO VERÃO!

Prometo voltar com mais seriedade ao tema. Mas hoje, com a promessa do tempo melhorar para irmos todos a banhos para a praia, nada como ler os jornais com uma grande leveza. Entre os media, escolhi a Visão Júnior de hoje [destinada a captar públicos juvenis]. Da capa (uma parcela encontra-se na imagem em baixo), destaco o seguinte: Aprende a fazer Tatuagens verdadeiras.

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Quando cumpri o serviço militar, havia soldados que fizeram umas tatuagens tipo "Amor de mãe" ou "Amor de namorada", seguido do nome da respectiva. O problema era quando havia uma zanga com a namorada. Agora, nas férias, com tempo para observar o mundo, vi muitas pessoas tatuadas, diversas delas com graça e estética (ombro, perna). Ora, o que a revista da Impresa ensina são coisas ecológicas, como pinturas para pele, como as do Carnaval. A revista, que custa €1, traz também autocolantes, uma viagem à terra do ogre (o Shrek 2 claro) e duas páginas sobre o Quénia, com fotografias de animais como o elefante e a girafa. Invejoso de não poder ir lá, apresento uma foto que me fizeram da última vez que fui ao Jardim Zoológico, aqui em Lisboa, emprestando olhos e óculos a um tucano.ave.bmp

A página 3 do Público tem, num texto da secção de política, duas frases ligeiras, compagináveis com o tempo de veraneio (apesar do assunto ser muitíssimo sério). A propósito das cassetes roubadas, com "gravações alegadamente ilícitas" [as férias ainda não me permitiram reconstituir toda a trama envolvente], escreve o jornal: "Por sugestão de Sampaio, a caminho de Atenas, Santana Lopes chamou a São Bento o PGR. Ontem, um assessor do Presidente afirmou à Lusa que Jorge Sampaio nunca se pronunciou sobre a matéria, mas o PÚBLICO reafirma que o Presidente da República ficou desagradado com a omissão do procurador" [as cores distintas servem para perceber melhor as contradições]. Uma coisa é ficar desagradado, outra é mostrar esse desagrado a outrém e sugerir que fale com uma terceira pessoa. Deve ser do calor, pois já não sei raciocinar bem.

Voltando aos media e ao Zoo

Só agora descobri que os media, caso de jornais e revistas, apoiam alguns animais do Jardim Zoológico, em Lisboa, a par de muitas outras empresas. Para além do dinheiro das entradas (à volta de €8 por pessoa), o patrocínio institucional e empresarial é fundamental para a manutenção desse importante local de recreio e conhecimento.

Curiosamente, a Pais e Filhos patrocina a girafa - talvez porque, para as crianças pequenas, os adultos em geral e os pais em particular sejam muito grandes. Já a revista Homem Magazine apoia o gorila, para o qual não encontro uma explicação capaz, e os jornais económicos patrocinam o elande.

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Claro que se espera que a Visão Júnior também apoie o Zoo!
PIXINGUINHA

Na telenovela Celebridade, que a SIC está a passar, falou-se de Pixinguinha. Mas quem é ele e porque surge?

1) A novela

Da novela Celebridade, de 2003, cuja autoria pertence a Gilberto (Tumscitz) Braga, retenho duas personagens. Uma, Maria Clara Diniz (Malu Mader), fica conhecida por uma música Musa de Verão, a que se segue o lançamento de uma marca de perfumes, de que ela é modelo exclusivo. Por isso, torna-se muito conhecida, graças a anúncios em outdoors, televisão e revistas. Na sequência, ela abraça a carreira de empresária, conhecendo o sucesso na área musical, nomeadamente na promoção de eventos. Outra é Laura Prudente da Costa (Cláudia Abreu), que vê em Clara o modelo a seguir. Laura passa a trabalhar com ela, mas vê-a já como rival. As duas são responsáveis pelo lançamento de uma colectânea musical de Pixinguinha. Há um troféu, Celebridade, que será atribuido a Laura, exactamente por esse trabalho. Mas a ideia pertencera a Clara.

[O trabalho de uma telenovela com mais de cento e cinquenta capítulos é um esforço colectivo. Assim, para além da autoria de Gilberto Braga, o argumento também foi escrito por Denise Bandeira, Leonor Bassères, Ricardo Linhares, Sérgio Marques, Maria Helena Nascimento e Márcia Prates, e as filmagens dirigidas por Denis Carvalho, Vinicius Coimbra, Amora Mautner e Marcos Schechtman. Alanis Morissete, Simply Red e Rita Lee contam-se entre as estrelas convidadas nesta novela].

2) O compositor

Alfredo da Rocha Vianna Jr. (1897-1973), mais conhecido por Pixinguinha, foi um grande compositor e flautista, bem como maestro e arranjador. O apelido Pizindim vinha da infância, dado pela avó africana, significando "menino bom". Também se atribui o apelido bixiguinha por ter tido a doença. Rosa e Sofres porque queres são duas das mais famosas peças por ele compostas. Segue-se a letra de Rosa (de Otávio de Souza):

"Tu és, divina e graciosa/Estátua majestosa do amor/Por Deus esculturada/E formada com ardor/Da alma da mais linda flor/De mais ativo olor/Que na vida é preferida pelo beija-flor/Se Deus me fora tão clemente/Aqui nesse ambiente de luz/Formada numa tela deslumbrante e bela/Teu coração junto ao meu lanceado/Pregado e crucificado sobre a rósea cruz/Do arfante peito seu/Tu és a forma ideal/Estátua magistral oh alma perenal/Do meu primeiro amor, sublime amor/Tu és de Deus a soberana flor/Tu és de Deus a criação/Que em todo coração sepultas um amor/O riso, a fé, a dor/Em sândalos olentes cheios de sabor/Em vozes tão dolentes como um sonho em flor/És láctea estrela/És mãe da realeza/És tudo enfim que tem de belo/Em todo resplendor da santa natureza/Perdão, se ouso confessar-te/Eu hei de sempre amar-te/Oh flor meu peito não resiste/Oh meu Deus o quanto é triste/A incerteza de um amor/Que mais me faz penar em esperar/Em conduzir-te um dia/Ao pé do altar/Jurar, aos pés do onipotente/Em preces comoventes de dor/E receber a unção da tua gratidão/Depois de remir meus desejos/Em nuvens de beijos/Hei de envolver-te até meu padecer/De todo fenecer".

Em 1922, Pixinguinha vai, com o seu grupo Os 8 batutas, efectuar uma tournée pela Europa. Ele toma conhecimento da moderna música europeia e do jazz americano, então na moda em Paris. Nesta cidade, a temporada, que deveria ser de um mês, dura seis meses! Em 1928, a Orquestra Típica Pixinguinha-Donga, que ele organizou com o compositor e sambista Donga, participou em várias gravações para a Parlophon. Liderou ainda os Diabos do Céu, a Guarda Velha e a Orquestra Columbia de Pixinguinha. Nos anos 30 e 40 gravou como flautista e saxofonista (em dueto com o flautista Benedito Lacerda) diversas peças que se tornaram a base do repertório de choro, para solista e acompanhamento (informação retirada do sítio CliqueMusic) (na imagem, capa do disco Gente da antiga, com Pixinguinha, Clementina de Jesus e João da Bahiana, datado de 1970 e da editora Odeon).

quarta-feira, 11 de agosto de 2004

ESTRELAS QUE JÁ SÃO JORNALISTAS

Segundo o USA Today, de 8 de Agosto passado, em artigo escrito por Karen Thomas, as estrelas de cinema estão a desempenhar um novo papel, o de jornalistas. Assim, Sean Penn escreveu uma série de artigos para o San Francisco Chronicle, a partir de Janeiro, e Ben Affleck escreveu para a edição de Setembro do Harper’s Bazaar uma entrevista com as filhas de Kerry, o candidato a presidente dos Estados Unidos (imagem de Ben Affleck com Uma Thurman, no filme Paycheck, de 2003, hospedada no sítio de
Asthon-Kutcher)affleck.jpg.

Mas também músicos dão o seu contributo, caso de Alicia Keys, que, a partir de Barcelona, escreve para o Daily News de Nova Iorque. O seu primeiro trabalho foi sobre o Dubai e ela espera dedicar uma coluna aos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001.

Já era conhecido o nicho de artistas-jornalistas na revista Interview, mas agora o mundo das celebridades não quer apenas representar no cinema o papel de jornalistas, quer sê-lo, escrevendo as suas próprias estórias. Claro que os editores sempre vão dizendo que as estrelas escrevem na qualidade de freelancers. Será que os licenciados em comunicação vão ter dificuldades acrescidas de emprego, com esta concorrência de peso?
MODA E MODERNISMO

Esta mensagem foi convocada pela leitura do livro de Linda Watson (Siglo XX. Moda), muito recentemente traduzido para castelhano. Trata-se de um magnífico texto, que abrange áreas tão diferentes como a história, a sociologia, a antropologia e a estética. O que se segue são apontamentos ou citações de livros e textos avulso que li recentemente. Havendo tempo, gostaria de voltar à matéria, ou estimular quem o queira fazer.

1) Anos 1910, Arte Deco, Anos 1930

vogue.JPGA década de 1900 a 1910 é a fase culminante do Modernismo. Os tecidos e os bordados surgem decorados com desenhos estilizados em linhas curvas e sinuosas chamadas "coup de fouet". A mesma linha pretende dar-se ao corpo feminino, deformando-o num perfil em S mediante o corpete e a cauda do vestido (comparar com capa da revista Vogue, de Março de 1909).

Mas, rapidamente, altera-se o vestuário feminino: a figura torna-se rectílinea e o vestido fica cortado ao nível do tornozelo. A Primeira Guerra Mundial, com a forçada incorporação massiva da mulher no trabalho fora de casa, impulsionou a simplificação e as formas práticas da roupa feminina.

A Arte Deco é um momento chave para a indumentária feminina. elimina-se definitivamente a cauda, o vestido encurta e a figura torna-se andrógina, sem formas. Os anos 1930 são o regresso à cintura no seu lugar natural. O vestido alarga-se deixando ver as pernas e os ombros alargam-se. Há uma militarização progressiva do vestido por influência dos acontecimentos políticos. Entre 1938 e 1939, sintetiza-se a fibra poliamida 66, conhecida pelo nome de nylon [a partir de texto policopiado do Museu Tèxtil i d'Indumentària, de Barcelona].

2) Coco Chanel

chanel.JPG"Em 1926, lança o petite robe noire, como ainda hoje é chamado. Esse vestido simples e justo, em crepe preto, com mangas compridas e ajustadas, que tapa o joelho, tornar-se-á um uniforme, «um Ford assinado Chanel», profetiza a revista americana Vogue, que ousa uma comparação com a indústria automóvel e vê nele o incentivo à estandardização, a prefiguração de uma nova sociedade em que o mesmo vestido agradará a um número cada vez maior de mulheres" [Isabelle Fiemeyer (2002). Coco Chanel. Um perfume de mistério. Lisboa: Bizâncio, pp. 99-100].

3) Hollywood versus Paris

life.JPG"Hollywood conseguia a sua última sedução: o estilo em movimento. A perfeição visual conhecia a beleza eterna no ecrã. Não havia melhor suporte para a moda. Paris mandara durante séculos, agora Hollywood estava pronta para dominar o mundo. [...] Durante os anos 30, a Vogue fez malabarismos com temas sobre inovação e ideias com Paris numa mão e Hollywood noutra, dando crédito semelhante aos dois lados. A Vogue informava sobre as colecções de Paris, incluia cenas do vestuário da última película de Greta Garbo e identificava as pessoas influentes da indústria do cinema. Paris trabalhava por temporadas, Hollywood ia anos à frente; Paris inspirava-se na técnica e na tradição, Hollywood em guiões e belezas do ecrã. Ambas trabalhavam sobre os princípios da ilusão" [Linda Watson (2004). Siglo XX. Moda. Edilupa, p. 52] [na imagem, a capa da revista Life, de Abril de 1927].

4) Moda e corpo

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(modelos expostos no Museu Tèxtil i d'Indumentària, de Barcelona)

"A moda está pensada para o corpo: é criada, promovida e levada pelo corpo. A moda dirige-se ao corpo e este último é o que se veste em quase todos os encontros sociais. No Ocidente, e cada vez mais fora dele, a moda estrutura a maior parte da nossa experiência de vestir, ainda que, tal como exponho neste livro, não seja o único factor que influi na vida quotidiana, posto que outros factores, como o género, a classe social, os rendimentos e a tradição também influem" [Joane Entwistle (2002). El cuerpo y la moda. Una visión sociológica. Barcelona, Buenos Aires e México: Paidós, p. 13] .

terça-feira, 10 de agosto de 2004

HERRUMBRE [BARBÁRIE]

Como se pode associar o bailado às indústrias culturais? Pelos elementos de reprodutibilidade técnicas, como Walter Benjamin explicou, e pela cadeia de valor defendida pelos economistas da cultura e das indústrias culturais, caso de David Hesmondhalgh. É pela via dos catálogos que permanecem duradouros e das críticas de arte publicadas nos media que entro no espectáculo levado à cena entre 2 e 7 de Agosto no Gran Teatre del Liceu (Barcelona), pela Compañía Nacional de Danza (de Espanha), dirigida artisticamente por Nacho Duato. Como base, sirvo-me do catálogo e das críticas publicadas nos jornais El Pais (Madrid) e La Vanguardia (Barcelona), editadas em 4 de Agosto sobre a estreia ocorrida na segunda-feira dia 2.

O que diz o catálogo?

Cnd.JPGA violência chega-nos a casa através do uso quotidiano da televisão. Uma imagem dos prisioneiros afegãos na prisão de Guantanamo serviu de leitmotiv para a coreografia de Nacho Duato, estreada em absoluto no dia 2 de Agosto. Por isso, o horror - lê-se no catálogo, em texto assinado por Carmen del Val - faz parte da nossa vida diária. O bailarino e, desde 1990, responsável pela companhia espanhola de dança consideraria que, "cansado de ver imagens na televisão e na imprensa de todo o tipo de violência e tortura", decidiu passar para o bailado essas cenas de horror.

E fez Herrumbre, uma violentíssima peça de 65 minutos, como será raro assistir. Para além das tragédias do Afeganistão e do Iraque, em Duato estão presentes, a montante, os crimes do 11 de Setembro de 2001 nos Estados Unidos e, a juzante, do 11 de Março de 2004 em Madrid. O cenário, centrado numa jaula, em que decorrem constantes actos de tortura e violação, é servido por uma mistura de música para violoncelo electrónico (David Darling, Dark Wood) e uma partitura constituída por ruídos de metal, que recriam ambientes de prisão e de golpes (Sergio Caballero).

O que dizem os jornais?

No El Pais, a crítica é Carmen del Val, a mesma que encontramos no catálogo. Com o título "Belo e surpreendente", a jornalista escreve que o bailarino e coreógrafo procura despertar as consciências face à indiferença que provoca o horror da tortura. Criar uma coreografia que pode chegar a ser formosa sobre um tema tão escabroso como a tortura não era tarefa fácil, e Duato tê-lo-á conseguido. Mais à frente, Carmen del Val escreve: "No final, a tensão converte-se em calor, o que emanou da ovação de um público excitado posto de pé". Para Joaquim Noguero, de La Vanguardia [a imagem abaixo reproduz parcialmente a página deste jornal], a peça de Duato fala-nos "sem ambiguidades da tortura, da dignidade e da indignidade humanas, da memória como homenagem aos mártires dessa ignomínia, recordados numa bela cena final em que o cenário se enche de velas". Mas, ao contrário da jornalista do El Pais, Noguero escreve sobre parte do público que assobiou a peça, embora a maioria aumentasse "nos aplausos e nos bravos para sufocar essa tendência de protesto".

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Apesar da beleza do "grupo de mulheres com os seus braços suplicantes asfixiados pela opressão" e do contraste dos torturadores, "agressivo e com olhar desafiante sem um resquício para a piedade", como escreveu Carmen del Val, a verdade é que uma fatia pequena do público não apreciou a peça. Para isso contribuiu o cenário do iraquiano Jaffar Chalabi, que idealizou uma grande estrutura metálica amovível, parecendo-se com a fachada de uma prisão ou a porta de uma jaula. Por vezes, a posição da estrutura e a dança dos bailarinos, apoiada em iluminação convincente, deixava os espectadores tão aterrados como se vivessem fielmente a situação. Mas, sabe-se, há, em qualquer situação, fantasmas; nem toda a gente acha que a guerra do Iraque ou a prisão em Guantanamo merecem críticas de maior, porque o ponto de partida foi a injustiça. E o bailado é uma arte da beleza e da harmonia, para além da crueldade humana. As duas críticas jornalísticas desiguais face a um mesmo espectáculo dão conta das múltiplas leituras que fazemos do mundo. Logo: falar em objectividade no jornalismo levanta obstáculos.

segunda-feira, 9 de agosto de 2004

EL ROSTRE AMB QUÈ EUROPA MIRA

"A Europa jaz, posta nos cotovelos:/De Oriente a Ocidente jaz, fitando,/E toldam-lhe românticos cabelos/Olhos gregos, lembrando./O cotovelo esquerdo é recuado;/O direito é em ângulo disposto./Aquele diz Itália onde é pousado;/Este diz Inglaterra onde, afastado,/A mão sustenta, em que se apoia o rosto./Fita, com olhar esfíngico e fatal,/O Ocidente, futuro do passado./O rosto com que fita é Portugal" (Fernando Pessoa, Mensagem, Lisboa, Ática, 1979, p. 21).

revista.JPG O rosto com que a Europa olha é exactamente o mote do dossier da revista L'Avenç [O Progresso], editada em Barcelona, no seu número de Julho/Agosto de 2004: Portugal, o rosto da Europa. Escrita em catalão, a revista de história e cultura dedica 26 páginas a Portugal e à influência da nossa cultura naquela zona mediterrânica.

Os motivos são evidentes: a língua e a independência de Portugal face a Espanha (leia-se Castela) e o presente crescimento económico e cultural de Barcelona, que fazem sonhar um caminho semelhante. A simbologia traçada pelo primeiro artigo, de autoria de Víctor Martínez-Gil, professor da Universitat Autónoma de Barcelona e coordenador do dossier, aponta em tal sentido: "Na iconografia tradicional, a Europa é representada com uma figura feminina, dama ou rainha, em que a cabeça era a Hispânia". Trinta anos depois de 1974, Portugal, segundo o académico, tornou-se um país moderno na economia e na cultura. E, como escreve outro articulista, Josep Sánchez Cervelló, professor da Universitat Rovira i Virgili, se Portugal perdeu a carga colonialista e o antiespanholismo que caracterizaram o país nos últimos séculos, ganhou o respeito da comunidade internacional, pelo seu cosmopolitismo e referencial cultural. As traduções para catalão de livros de Lobo Antunes, José Saramago, Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, Herberto Helder e Luísa Costa Gomes são um indicativo dessa admiração de Barcelona por Portugal.

Independência política?

Parece que a Catalunha vive um momento de viragem. Há edições de livros que saem primeiro em catalão e depois em castelhano, as estações de rádio locais privilegiam a língua catalã, as lojas, as ementas dos restaurantes, os transportes públicos e os museus têm indicações em catalão (por vezes, seguido do castelhano e do inglês).

A publicação que refiro nesta mensagem não é estranha a tal movimento. Os textos são bem escritos, apesar de se fixarem num momento histórico preciso, o século XVII, quando Portugal recuperou a independência mas em que um movimento próximo de emancipação foi sufocado na Catalunha (exactamente em 1640, como explica Manuel de Seabra, português que vive na Catalunha e é escritor e tradutor. Aliás, Seabra refere que a capital natural da Península Ibérica no séc. XVII seria Lisboa, mas Sevilha tinha um peso igualmente forte, e a velha rivalidade de Portugal com Castilla-León não permitiria essa transferência). As marcas da guerra civil de 1936-1939 também estão visíveis na cultura de Barcelona, mas não na revista. O mote fulcral do dossier é, pois, a relação entre independência e união (ibérica).

Um traço que não posso deixar de sublinhar é o de alguma precariedade intelectual com que aparecem dois textos, um de responsabilidade de Helena Tanqueiro, directora do Centro de Língua Portuguesa/Instituto Camões de Barcelona, e outro assinado por André Murraças, autor teatral. O trabalho de Murraças é muito discutível: fala de teatro, mas insere duas imagens de filmes. Sobre a A Barraca escreve: "companhia com um tom irónico e assumidamente político, acompanha o quotidiano português" (apenas três linhas quando comparadas com as 20 linhas a seu próprio respeito! Mesmo a Cornucópia merece apenas 11 linhas). O texto de Tanqueiro destaca a linguística e a filologia, como seria de esperar a quem pertence a um centro de língua, mas não haverá outros motivos de relevo, nomeadamente a cultura, as artes cénicas e visuais? Isto sem falar nas indústrias culturais, no cinema e na televisão.

Claro que se compreende a perspectiva dos professores catalães - a de destacarem o farol de Portugal como pequeno país que se emancipou de Espanha. Mas não se aceita bem o papel do Instituto Camões, que poderia ter melhor "municiado" os responsáveis da revista com informações sobre o Portugal cosmopolita e moderno. É que não basta trazer na capa um fragmento da obra de Almada Negreiros.

Mais informações sobre a revista podem ser encontradas no sítio de L'Avenç.

sábado, 24 de julho de 2004

O BLOGUISTA VAI DE FÉRIAS

Com mais duas semanas de férias a gozar, deixo o blogue em silêncio até cerca do dia 10 de Agosto. Para os que me procuram, consultem os blogues preferidos, indicados aqui ao lado. Mas também encontram matéria séria e divertida (segundo a minha perspectiva) nos seguintes: Ponto media, ContraFactos & Argumentos, Atrium, Blogouve-se, A minha rádio – blog, A montanha mágica, Letras com garfos II, Puta de vida… ou nem tanto, Guilhermina Suggia, O céu sobre Lisboa, Lua, Confidências de uma tocadora de piano, Dias com árvores e Cócegas na língua.


PÚBLICOS DA CULTURA

Decorreu, em 24 e 25 de Novembro de 2003, um encontro sob o nome "Públicos da cultura", promovido pelo Observatório das Actividades Culturais (OAC), aqui destacado nessa altura. Pois, volvido pouco mais de meio ano, as actas do encontro estão já impressas em livro, o que só abona a favor do dinamismo daquela entidade e, em especial, da sua principal responsável, Maria de Lourdes Lima dos Santos.

Do que ouvi - e estive presente em mais de metade do encontro - gostei mais de umas comunicações do que outras. Curiosamente, agora, ao ler o volume, passei a gostar de outras comunicações em detrimento daquelas que, oralmente, me tinham impressionado mais. Isto é: há diferenças emtre a oralidade, e quem diz o quê, e, depois, o que aparece publicado. Nesta mensagem, retenho somente a comunicação de Rui Telmo Gomes, chamada A distinção banalizada? Perfis sociais dos públicos da cultura.

Os perfis dos públicos

Rui Telmo Gomes, membro do próprio OAC, apoia-se, no seu trabalho, em estudos realizados anteriormente, baseados em inquérito, a saber: 1) festival internacional de teatro de Almada, e 2) Porto 2001. Dos factores explicativos das práticas culturais, considera o autor, incluem-se variáveis tais como categoria socioprofissional e grupo ocupacional, nível de escolaridade, idade e género. Apontando para tal sentido, os lugares de classe correspondentes seriam: recursos escolares elevados, elevada qualificação profissional, maior probabilidade de consumo cultural regular, frequência de eventos e equipamentos culturais (p. 32).

oac.JPGContudo, tem vindo a ser identificadas transformações ao nível da relação entre essas variáveis e as práticas culturais. O autor apoia-se em especial nos inquéritos feitos à população francesa, que têm dado origem a estudos de elevado valor analítico. Essa transformação quer dizer diversificação, esbatendo o primado das práticas culturais legítimas (cultura cultivada) e favorecendo combinatórias entre práticas múltiplas (cultivadas e/ou lúdicas). Tal remete para o que Rui Telmo Gomes chama de segmentação dos perfis sociais dos públicos (p. 34). Assim, define três perfis autónomos.

O primeiro é o dos públicos cultivados, "a parcela do público em que é mais clara a articulação entre elevados recursos qualificacionais e a regularidade das práticas culturais", bem como o seu ecletismo (p. 37). O segundo perfil é o dos públicos retraídos, a que correspondem "recursos qualificacionais relativamente reduzidos e frágeis hábitos culturais". No caso dos públicos do Porto 2001, deu-se um alargamento deste tipo de público. Finalmente, o terceiro perfil é o dos públicos displicentes, com uma representação menos linear, isto porque "se caracteriza por elevadas qualificações, designadamente escolares, hábitos de saída convivial regulares, que se ligam a uma forte juvenilidade, e, ao mesmo tempo, pela rara frequência de eventos e equipamentos culturais". Este tipo, considera Rui Telmo Gomes, pode ser visto como quase-público ou público potencial. E, no Porto 2001, este público displicente terá também sido cativado.

Leitura: Observatório das Actividades Culturais (2004). Públicos da cultura. Lisboa: OAC

sexta-feira, 23 de julho de 2004

SOBRE A RECEPÇÃO DOS MEDIA

Pretendo hoje concluir uma espécie de trilogia sobre a produção e a recepção do discurso televisivo com uma reflexão de um capítulo do livro de Shaun Moores (1993), Interpreting audiences.

moores.JPGMoores começa por referir Stuart Hall, que, no seu texto seminal Codificação e descodificação no discurso televisivo (original de 1973; há uma tradução portuguesa de 2003, em livro que já identifiquei neste espaço), fornece uma perspectiva de consumo activo, combinando contributos semióticos e sociológicos, poder cultural e relações sociais. Hall conclui que a linguagem dos media não é nem uma ferramenta linear em termos de transmissão de ideias nem uma janela transparente do mundo social, mas sim um sistema refractário de signos. Por exemplo, nas notícias sobre assuntos públicos há necessidade de os acontecimentos terem um significado preciso. O trabalho de codificação é moldado em formas textuais estabelecidas, e precisa de enquadramentos interpretativos, que podem ser distintos. Há razões para uma potencial assimetria. Cada texto pode ser polissémico, possuir mais do que uma leitura possível, no que Barthes chamou “segunda ordem” ou significado “conotativo”.

Na sequência do trabalho de Hall, Brundson e Morley (1978) estudaram o programa Nationwide, que ia para o ar no começo da noite na BBC nos anos de 1970. Colocado entre o noticiário e o período do principal período de entretenimento familiar, o programa adoptou um formato de contar estórias de interesse humano a partir de vários locais do Reino Unido. O trabalho dos etnógrafos consistiu em entrevistar grupos provenientes de diferentes níveis educacionais e profissionais, para desenhar uma espécie de “mapa cultural” da audiência, como Hall escrevera em notas preliminares sobre a descodificação.

Em estudo posterior de Morley (1980), intitulado The “Nationwide” audience, o autor verificou que os diversos grupos educacionais e profissionais tinham perspectivas distintas. Seguindo a grelha de leitura proporcionada por Hall (dominante ou preferida, negociada, oposicional), Morley concluiu que aprendizes e estudantes aceitavam melhor a leitura dominante (não questionavam o modo como o programa era editado), ao passo que os professores aceitavam leituras negociadas e os grupos sindicalizados e as minorias étnicas (caso dos negros) produziam mais frequentemente leituras oposicionais (de contestação à linha editorial).

Num outro estudo citado por Moores, Justin Lewis (1985) conduziu entrevistas a 50 “descodificadores”, que deram a sua interpretação do noticiário televisivo da ITN News at Ten. Lewis notou uma diferença abismal entre o que os jornalistas diziam sobre o seu trabalho e as respostas da maioria dos descodificadores. Um item noticioso mostrava um político criticado dentro do congresso do seu próprio partido, mas a sua reacção, com um discurso empolgante, teve um grande impacto, merecendo uma longa ovação por parte dos congressistas. Lewis verificou que apenas doze dos 50 espectadores indicaram que o político fora alvo de uma crítica. Cerca de quatro quintos dos entrevistados considerou que o discurso do político era irrelevante dentro da notícia. Lewis explicaria tal diversidade a partir do conceito de canais de acesso, que se abrem aos telespectadores apenas em algumas partes da mensagem televisiva. Além disso, a estrutura narrativa das notícias é outro factor a ter em conta. Algumas, para não dizer muitas, estórias não são bem contadas (escritas e apresentadas).

Em conclusão, qualquer estudo sobre a recepção dos media tem de catalogar e contrastar as interpretações dos diferentes grupos de consumidores dos media. Isto é, encontrar “quadros de compreensão” capazes de fornecer o resultado dos olhares dos espectadores.

Leitura: Shaun Moores (1993). Interpreting audiences. Londres, Thousand Oaks e Nova Deli: Sage, pp. 16-24

quinta-feira, 22 de julho de 2004

A FÓRMULA "LULINHA PAZ E AMOR"

Escreveu Antônio Albino Canelas, a propósito da campanha de Lula da Silva em 2002 para presidente do Brasil, que a "construção da imagem não foi um mero produto de marketing" (p. 54). O director de campanha dele, Duda Mendonça, vai mais longe: "Na verdade, o Lula mudou porque o PT mudou". Em que ficamos? Antônio Canelas, professor de comunicação, explica melhor - foi um processo longo, formulado e construído em termos políticos e mediáticos. Isto parece pôr em causa - ou pelos menos critica - o quadro que tracei ontem, a propósito de S&S (ou os comentadores televisivos portugueses investidos em novas funções). O processo de persuasão televisiva parece ser mais prolongado. Mas acompanhemos mais de fundo o texto que proponho apresentar hoje.

No caso de Lula, que perdera três eleições anteriormente, o empreendimento de mudança foi, para além do político, um maior investimento do PT (Partido dos Trabalhadores) no campo da comunicação. Lula, para ser candidato de novo, exigira ter uma estrutura de comunicação mais profissionalizada! Isto é: o desempenho da equipa esteve presente no uso mais estratégico dos horários partidários não eleitorais, em campanhas publicitárias como "No fundo, no fundo, você é um pouco PT".

Lula=moderado e negociador

A fórmula "Lulinha paz e amor" traduz o enfrentamento e a superação da imagem de um Lula radical, que lhe advinha de uma postura agressiva, crítica, negativa, destrutiva, intransigente, oposicionista. Mas, depois de eleito, Lula cativou e tranquilizou o país. Mostrou, continua a escrever Antônio Canelas, carisma, maturidade, moderação, paciência, tolerância e humildade. A construção da imagem "Lulinha paz e amor" - substituindo a imagem do Lula radical - foi produzida por vários elementos, conjugando a moderação do discurso político de Lula e do PT, a aceitação de compromissos herdados de Fernando Henrique Cardoso e o quase abandono da propaganda negativa e do ataque aos candidatos adversários (o uso intensivo de jingles e músicas, como estratégia configurada para o horário eleitoral).lula.JPG

Houve um outro deslocamento fundamental: a construção da imagem pública do Lula negociador, também desenvolvida pelo PT e por Duda Mendonça. O próprio Lula constuma dizer que "o que mais fiz na vida foi negociar" (p. 56). Assim, a campanha petista [do PT] posicionou politicamente a candidatura na cena eleitoral de modo muito preciso e pertinente, face a uma conjuntura de crise socioeconómica. A saída da crise requer uma competência política (e não técnica) de conversar com agentes sociais e obter saídas negociadas e alternativas.

Conclusão minha: a televisão - seja o noticiário, seja o programa de campanha eleitoral - exerce uma influência não negligenciável junto das audiências ou públicos, em especial para os que têm na televisão a sua principal, se não a única, fonte de informação.

[o livro aqui referido teve origem num seminário intensivo dado por Antônio Fausto Neto em Buenos Aires em Novembro de 2002. Entretanto, Eliseo Verón fora convidado pela Universidade de Unisinos, estabelecendo-se um acordo com a Universidad San Andrés]

Leitura: Antônio Albino Canelas Rubim (2003). "As imagens de Lula presidente". In Antônio Fausto Neto e Eliseo Verón (org.) e Antônio Albino Rubim Lula presidente. Televisão e política na campanha eleitoral. São Paulo e São Leopoldo, RS: Hacker e Unisinos

quarta-feira, 21 de julho de 2004

NOTICIÁRIOS TELEVISIVOS E OPINIÃO PÚBLICA

Num momento em que se recordam S&S, os dois antigos comentadores políticos dominicais da RTP, agora investidos em novas funções (Pedro Santana Lopes em Primeiro-ministro; José Sócrates como presumido dirigente máximo do principal partido da oposição), nada melhor do que seguir um texto teórico pertencente a Arnaud Mercier (Le journal télévisé et l’opinion publique, 2003). Devo acrescentar, o que também se comentou nos últimos dias, que o criador do debate semanal de S&S foi Emídio Rangel, que dizia que a televisão pode fabricar um presidente como vende um sabonete. O então director de programas da SIC implantaria o modelo do frente-a-frente entre S&S na sua mais recente mas menos demorada passagem pela RTP. E uma jornalista da televisão pública, Judite de Sousa, seguiria tais passos ao incluir, nas últimas semanas e sequencialmente, os dois homens no seu programa de entrevistas. Obviamente, o texto - de que apresento aqui uma súmula - não responde a estas questões tão específicas mas lança um olhar científico ao modo como a televisão e os espaços de informação trabalham a gestão da imagem e fabricam candidatos.

Opinião pública

Para Arnaud Mercier, os media desempenham um papel importante: 1) pelo impacto social, 2) pela comunicação entre governantes e governados. Dentro deles, e porque estuda especialmente o noticiário televisivo, encontra três dimensões na sua relação com a opinião pública: 1) lugar que forja a opinião pública, 2) a informação televisiva orienta opiniões e comportamentos, 3) o jornal televisivo liga-se aos que procuram influenciar a opinião pela persuasão.

Ora, o que é a opinião pública? É, para Mercier, uma construção social, uma representação do que se julga que a população pensa sobre as questões da actualidade. Por definição, concebe-se como um agregado de opiniões individuais mais ou menos convergentes, como uma convergência de aspirações de múltiplas categorias de população. Onde os jornalistas têm um lugar importante. Durante muito tempo, os editorialistas foram os verdadeiros barómetros da opinião. Hoje, o seu lugar está, de certo modo, preenchido pelos comentadores políticos e pelas interpretações de sondagens. Por outro lado, a opinião serve como caixa de ressonância numa mobilização colectiva ou serve de meio de pressão sobre os governantes. Mercier sustenta que a opinião pública tem efeitos reais: no caso de uma crise, a tomada de posição de um líder de opinião pode ser decisiva (editoriais, sondagens, entrevistas). A informação proposta pode impor uma agenda de questões face às quais os governantes se posicionam, tomam a palavra ou reagem activamente.

Os media exercem uma série de efeitos directos, forjando a nossa visão da realidade e favorecendo ou não o envolvimento cívico, redefinindo a agenda das nossas prioridades políticas ou persuadindo os eleitores a mudarem as suas preferências políticas. Por isso, a interpretação da relação entre mensagem política e media torna-se central. Passa-se da questão “quem forma a agenda do público” para “quem forma a agenda dos media”, pelo que urge estudar as interacções entre jornalistas e as suas fontes e as campanhas de sedução destas. O fenómeno da telegenia contribui para o desenvolvimento de novos princípios de selecção do pessoal político, em que o primeiro critério é a aptidão de “passar bem” no noticiário televisivo e nas emissões políticas. Os jornalistas são os primeiros marcadores do acontecimento, e eles fazem-no introduzindo uma dimensão humana, designando os “bons” e os “maus”.

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[para além do texto citado nesta mensagem, destaco o livro de Arnaud Mercier, editado em 1996 pela Press de Sciences Po, de Paris, com o título Le journal télévisé, uma obra fundamental para a compreensão dos noticiários de televisão]

O jornal televisivo e as estratégias de persuasão

A televisão faz com que os actores sociais e políticos se adaptem as novas exigências impostas pela televisão. O noticiário televisivo torna-se uma ligação de estratégias sedutoras que visam passar uma mensagem persuasiva para o seu público. Além disso, ele tem efeitos sobre a opinião no sentido em que a cenarização e a codificação do modo de apresentação dos factos induz nos actores sociais a obrigação e a possibilidade de adaptação a lógicas mediáticas. Tal adaptação tem três formas: 1) marketing, 2) manipulação da informação, e 3) reorientação da acção pública. A informação televisiva conduz ao fenómeno da personalização do poder, em que a necessidade de criar imagem e audiência leva os jornalistas a personalizar a informação e a procurar “vedetas” políticas, reduzindo os debates de ideias a lutas de pessoas e as campanhas eleitorais a corridas de cavalos. Em busca da notoriedade, por um lado, e do scoop ou audiência, por outro lado, os homens políticos e os jornalistas de televisão entram numa nova lógica de funcionamento, em que o “mediático” ganha valor sobre o “mediatizado”. Resumindo, os media veiculam informação mas mais intenção persuasiva e publicidade, podendo passar mesmo ao lado do essencial da sua missão.

Relevam-se duas tendências, sinteticamente. Por um lado, a acção política torna-se mais “acontecimental”. Face à complexidade da decisão político-administrativa e à dificuldade em avaliar o impacto real da acção política, a política de “fazer conhecer” é um complemento indispensável da acção pública e talvez a sua única realidade. Por outro lado, o choque das temporalidades paralisa a acção política. Através do recurso diário a sondagens, os media impõem a pressão de uma legitimidade do efémero. A pressão conduz alguns governantes, que querem ser reeleitos, a evitar tomar medidas impopulares. Ou seja: o jornal televisivo é um instrumento de governação da opinião pública.

Leitura: Arnaud Mercier (2003). "Le journal télévisé et l’opinion publique". Em Pierre Bréchon (dir.) La gouvernance de l'opinion publique. Paris: L'Harmattan, pp. 169-180 [Actes des 5èmes entretiens de l'IEP de Grenoble, 2-3 Maio de 2000]

terça-feira, 20 de julho de 2004

NOTÍCIAS SOBRE O COLESTEROL

Na passada sexta-feira, dia 16, intitulava o jornal Público uma notícia: Níveis de colesterol vão baixar. Escrevia-se na mesma que "O nível máximo do «mau» colesterol (de baixa densidade ou LDL) actualmente recomendado para pessoas consideradas como pacientes de alto risco (doença cardíaca, hipertensão ou risco de acidente vascular cerebral) é de 100 mg/dl de sangue. Nos Estados Unidos, o valor recomendado era o mesmo, mas na terça-feira as autoridades de saúde baixaram-no para 70 mg/dl". Como origem da alteração, estavam cinco estudos clínicos que demonstravam que os níveis antigos de colesterol não garantiam a redução de riscos de acidente cardíaco. O jornal ouviu o presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia, o qual admitia que as autoridades nacionais seguissem as suas congéneres americanas.

Ontem, dia 19, no Diário de Notícias surgia uma outra notícia sobre o mesmo assunto, assinada por Manuel Ricardo Ferreira, correspondente do jornal em Nova Iorque. O artigo começa do seguinte modo: "Seis dos nove peritos que estiveram na base da redefinição dos níveis de colesterol - em particular os que são aconselhados a pessoas em risco de contrair ataques cardíacos. As acusações surgem porque estes médicos têm ligações a empresas farmacêuticas que produzem os medicamentos anticolesterol que permitem obter esses valores mais baixos". Da notícia também se obtém a seguinte informação: "os media revelaram que os seis peritos visados receberam verbas das farmacêuticas como consultores, por fazerem discursos ou fazerem investigação". Há, neste momento, 36 milhões de americanos a tomar regularmente medicamentos para baixar o colesterol, e os novos níveis levariam mais sete milhões a seguir o mesmo caminho.

Num texto que tenho trabalhado ao longo dos anos por razões académicas, o de Harvey Molotch e Marilyn Lester, As notícias como procedimento intencional: acerca do uso estratégico de acontecimentos de rotina, acidentes e escândalos (no livro de Nelson Traquina, Jornalismo: questões, teorias e "estórias", 1993), os autores falam em promotores que veiculam determinados assuntos por interesses próprios. E o crescente grupo dos que têm colesterol "mau" (maus hábitos alimentares, sedentarização) - ou de qualquer outro problema de saúde - fica refém de tais notícias.

MEDIA, JORNALISMO E DEMOCRACIA

Este foi o título do seminário internacional realizado em Março de 2000, para comemorar os 25 anos da lei de imprensa portuguesa, organizado pelo CIMJ (Centro de Investigação Media & Jornalismo), e editado em livro pela editora Livros Horizonte em 2002.

Recordo aqui alguns dos recortes de imprensa [clipping], editados no Diário de Notícias e no Público, que relatam o acontecimento:

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Faço ressaltar aqui algumas palavras de António Sousa Franco, um dos artífices da lei da imprensa e recentemente desaparecido do nosso convívio: "A necessidade de uma lei de imprensa, para que apontava o programa do MFA, foi, de algum modo, questionada logo no primeiro governo provisório, apesar de a comissão ad hoc ter sido constituída pelo segundo governo provisório" (Media, Jornalismo e Democracia, 2002. Lisboa: Livros Horizonte, p. 125, texto publicado mas não revisto por Sousa Franco). Mais à frente, o professor de direito recordava ainda: "Outro ponto relativo à genese da lei é que (e eu vou apenas de algum modo mencionar algo que, se eu contasse, esgotaria a comunicação) assisti, na qualidade de presidente, a várias sessões do Conselho de Ministros, longas e, em alguns casos, tempestuosas, em que o projecto foi discutido. E a discussão de fundo foi bastante mais violenta e alargada daquilo que consta na imprensa. É um relato que valerá a pena um dia desenvolver" (idem, pp. 125-126).


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segunda-feira, 19 de julho de 2004

NOTAS SOLTAS

Do que li ou vi, mas ainda não incluira nos posts do blogue.

Público, 18 de Julho

"Ler para ouvir melhor" - Adelino Gomes escreveu sobre rádio, a do ciclo inicial dos anos de 1930 (RCP, EN, RR) e a do novo ciclo, o do multimedia, com uma referência muito elogiosa ao blogue de João Paulo Meneses, Blogouve-se. Escreve o jornalista: "O blogue funciona como uma espécie de caderno diário de quem é autor de Tudo o que passa na TSF, um dos poucos livros editados em Portugal sobre jornalismo radiofónico. Dois exemplos actuais: uma polémica com o presidente do Conselho Deontológico dos Jornalistas, Óscar Mascarenhas, a propósito dos aplausos e dos cachecóis nacionais dos repórteres no Euro 2004; e a recente confissão em directo do correspondente da SIC nos EUA de que vai votar John Kerry".

Ainda do Público retiro, do dossier "O novo governo", a análise a um dos sectores que o executivo empossado no sábado terá de reflectir, o da regulação dos media e televisão digital terrestre (TDT). Na questão da TDT, terá de haver articulação com a área económica do Governo. Além disso, o texto do jornal aponta para a necessidade de criar o órgão regulador que substitua a Alta Autoridade e para a importância de implementar os novos apoios aos media locais.

Rita Durão: actriz

Já a vi nos filmes Quaresma (2003), do desaparecido José Álvaro Morais, As bodas de Deus (1999) e Vaivém (2002), do também desaparecido João César Monteiro, e em Capitães de Abril (1999), de Maria de Medeiros. Ainda não a vi em Sansa (2003), de Siegfried, e André Valente, de Catarina Ruivo, este último anunciado para depois do Verão.

Mas Rita Durão trabalha mais frequentemente no teatro. Do seu currículo como actriz, com base em informação que retirei da internet, ela actuou nomeadamente em Romeu e Julieta, de Shakespeare, Despertar da Primavera, de Wedekind, Dia de Marte, de E. Bond [imagem retirada do sítio Artistas Unidos]. No teatro da Cornucópia, participou em espectáculos como Triunfo do Inverno, de Gil Vicente, O sonho, de Strindberg, Quando passaram cinco anos, de Lorca, O colar, de Sophia de Mello Breyner, Barba azul, de Jean Claude Biette, e Hamlet, de Luís Buñuel. corn.JPGNo teatro, vi, agora, Rita Durão a fazer de Inês, a jovem apaixonada de Otto, pertencentes a ramos rivais de A família Schroffenstein, de Heinrich von Kleist, uma versão oitocentista do Romeu e Julieta. Aparece frágil, simultaneamente feliz e apreensiva com o desenrolar da situação desavinda. A morte dos jovens apaixonados dá-se às mãos dos próprios pais, num cenário austero onde surge vincada a personagem desempenhada por Luís Miguel Cintra.






Edgar Pêra: fabricante de imagens, português, 43 anos

A entrevista de Carlos Vaz Marques a Edgar Pêra veio no DNA, suplemento do Diário de Notícias à sexta-feira, no dia 9 de Julho. Nele, e a propósito do seu último filme És a nossa fé, Edgar Pêra revela-se. Nascido em 1960, começou por estudar psicologia, mas trocou a área pelo cinema, onde se inscreveu na Escola Superior, que termina em 1984. Escreve ficção para cinema, televisão, rádio, imprensa e publicidade. Em 1990, estreia no "Fantasporto" a sua primeira curta-metragem, rodada nas ruínas do Chiado.

Para além do cinema, a sua outra paixão é a banda desenhada, que deixa marcas no seu trabalho, a nível do enquadramento, com "alguma bidimensionalidade nas personagens". Trabalha em vídeo e não em película devido ao custo desta e do equipamento, em regime de autofinanciamento ou em regime de encomendas. Por isso, talvez, não gosta de se definir como cineasta ou videasta mas antes como "repórter que manipula imagens". A manipulação, esclarece, é "que as pessoas tenham a noção de que estão a ver um espectáculo e que, ao mesmo tempo, estão a participar numa ilusão". É, no fundo, "quando se mexe em tudo, desde pintar sobre a película a alterar um som". E prossegue, ao identificar a arte como próxima de um jogo: "Para mim, montar é um bocado como aqueles jogos de computador".

A cidade de Cassiano (1991), com 23 minutos, sobre o arquitecto modernista Cassiano Branco, e Guittarra com gente lá dentro (2004), de 13 minutos, onde coloca a música de Carlos Paredes, são dois dos seus filmes. Ele, que aceita a "sensação de haver uma relação entre arte e espectáculo", refere que o seu filme És a nossa fé é "um filme quase sem futebol nenhum. É um filme sobre os adeptos de futebol" que, além da mística, têm expectativas.

"Sampler", a caixa que mudou a música

Vinha no caderno "Actual" do Expresso do dia 10 de Julho, ao lado de artigos onde se dava conta dos desaparecimentos de Sophia de Mello Breyner (1919-2004) e Marlon Brando (1924-2004). E referiam-se músicos como Sam The Kid (Beats vol. I - Amor) e Cool Hipnoise, que usam o "sampler" no seu trabalho diário.

O que é isto? Começa Alexandre Costa por referir que "alguns dos instrumentos que estamos a ouvir são virtuais, fruto de sons samplados. Que aquela bateria, viola baixo, flauta ou xilofone é, afinal, «tocada» através de teclas que fazem disparar registos sonoros preexistentes. [...] a intenção é mesmo evidenciar a «pilhagem», jogar com excertos de músicas que nos são familiares, manipulá-los e inseri-los dentro de um novo contexto, um pouco como faziam os dadaístas, no campo da imagem, com as suas fotomontagens".

Há quem se especialize, continua o mesmo artigo, apenas em dominar a caixa mágica, construindo e transformando os sons, caso dos músicos de hip-hop, "uma das áreas onde os «samplers» têm sido mais utilizados". E, dentro da música de dança, surgiriam novos géneros musicais, como o house e o drum'n'bass. É um caso em que as inovações tecnológicas causam um grande efeito no processo de criação artística. Depois de surgirem no mercado algumas máquinas, que permitiram muitos músicos fazerem experiências, é em 1986 que, com o Ajai S900, a preços acessíveis e com potencialidades como o "cross-fading" e o "looping", se expandem as suas aplicações. Alexandre Costa chama a atenção para um problema: os direitos de autor. A criação de músicas com excertos de outras obras necessita da autorização prévia dos autores destas, o que nem sempre ocorre.

Rede Orkut

Primeiro, li o que Daniela Bertocchi escreveu no Intermezzo . Depois, segui o rasto na rede do Orkut e cheguei ao artigo da Reuters, assinado por Alberto Alerigi (São Paulo, Brasil) e com o título Sítio ingês de conversação torna-se português.

Ora, do que se trata? De uma nova “guerra” entre o Brasil e os Estados Unidos, escreve Alerigi. No presente ano, o primeiro destes países desafiou o segundo em tópicos como os subsídios para o algodão e a guerra do Iraque. Agora, a “guerra” passa pela internet. Isto porque milhares de fãs do Orkut , um sítio representativo de uma nova rede social, são brasileiros. O Orkut permite que os seus membros se organizem em comunidades de amigos e de amigos de amigos numa rede, onde se podem discutir temas tão dispersos como o xadrez ou sanduíches.

O curioso é que os brasileiros se apropriaram da rede americana, proliferando mensagens em português – língua que o utilizador [ou usuário] americano em regra desconhece. Os Estados Unidos têm, pelo menos, 153 milhões de utilizadores de internet, ao passo que o Brasil tem apenas 20 milhões. Mas os brasileiros tornaram-se o maior grupo da rede, já no mês passado, ultrapassando os americanos. O sítio Orkut diz ter mais de 769 mil membros, em que os Estados Unidos representam 23,5% e o Brasil 41,2%! Segundo o Ibope/NetRatings, estima-se que os brasileiros tenham “surfado” na internet, em Maio, uma média mensal de 13 horas e 51 minutos, mais oito minutos que os americanos.

Toda esta excitação começou quando Orkut Buyukkokten, turco de 29 anos [imagem obtida no sítio Intermezzo ], engenheiro de software da Google, arrancou com a sua rede, em testes experimentais em Janeiro. Uma das características de adesão ao sistema é que cada pessoa pode convidar uma outra qualquer pessoa. Diz a professora Beth Saad, da Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo – de quem eu já escrevi neste blogue: “os mapas da Orkut privilegiam o prestígio social de cada um, e os brasileiros são naturalmente gregários”. Eu, por exemplo, já faço parte de cinco redes, sendo que a maior tem 531 colegas. Duas são brasileiras, duas portuguesas e uma espanhola [depois de escrever o post aderi a mais uma rede portuguesa].

domingo, 18 de julho de 2004

INDÚSTRIAS CULTURAIS EM THEODOR ADORNO - O SEU PENSAMENTO (II)

[Continuação do texto sobre o pensamento de Adorno iniciado no post de 9 de Julho]

Elementos constantes da obra de Adorno

1) Denúncia e recuperação
2) Situação aporética da sociedade (que inclui a arte e a cultura)
3) Teoria do mundo administrado
4) Indústria cultural (Kulturindustrie)

Lêem-se as obras de Adorno na perspectiva da denúncia (Jimenez, 1977: 31). A produção artística é manipulada, segundo Adorno, que se insurge contra os meios ideológicos que permitem e “justificam” essa manipulação (recuperação). A arte está num impasse – é a situação aporética. Após se libertar das funções cultuais, religiosas e morais, a arte entra nos circuitos económicos. E, para além de entrar nos circuitos das mercadorias (indústria cultural), a arte serve também de veículo ideológico à dominação do mundo administrado, sociedade tecnocrática onde tudo se mede, etiqueta, vende e consome.

O entendimento dado por Adorno à dimensão psicossexual do totalitarismo toma normalmente outras formas, mas destaca a libido. Contrariamente a Erich Fromm, que redefine sadismo e masoquismo em termos essencialmente não sexuais, Adorno insiste no significado psicanalítico original (Jay, 1984: 93). Na Dialética do Iluminismo, ele e Horkheimer desenvolvem uma complicada análise das ligações entre o anti-semitismo, a paranóia das massas, ilusões projectivas e homossexualidade, que ajudam a explicar a “mentalidade dos rótulos” da era pós-guerra, quando os judeus já não eram objecto de paranóia. “Elementos de anti-semitismo”, a secção teórica da Dialética do Iluminismo, escrita com a ajuda de Leo Lowenthal, foi completada indirectamente pelo trabalho do Instituto num projecto ambicioso.

Para Adorno, o dadaísmo e o surrealismo não tiveram as consequências libertadoras esperadas. A nova sujeição da arte ao mundo das mercadorias e ao papel de porta-voz da ideologia dominante (confrontar o actual papel desempenhado pelo mecenato cultural) constituem escravidão idêntica ao antigo jugo teológico (Teoria estética, p. 284) [não incluo aqui as suas análises sobre o cinema e a rádio. A edição de 2003 da Angelus Novus, com os textos todos de Adorno, Sobre a indústria da cultura, e a introdução de António Sousa Ribeiro ajudam a compreender o seu pensamento]. O único movimento moderno que teve a total simpatia de Adorno seria o expressionismo (Jay, 1984: 130), corrente poderosa na Alemanha e na Áustria da sua juventude. Embora não se tenha envolvido tanto como Bloch, que manteve um debate com Lukács sobre as implicações do expressionismo nos anos 30, Adorno defendia o mesmo modelo. Idêntica posição era tomada por Horkheimer.

Podemos detectar quatro pontos fundamentais em Adorno sobre a arte (Jay, 1984: 155)
1) Momento mimético na arte e relação com a beleza natural
2) Desestatização da arte e relação com a modernidade
3) Ideia da experiência estética e relação com a teoria
4) Conteúdo real da arte e relação com a autonomia

Para Adorno, há duas possibilidades de mimese: imitação da realidade social corrente; realidade natural transformada pelo social (Jay, 1984: 156). Ele considera que a arte genuína contém os dois tipos de mimese. A mimese estética contém também um momento utópico, o que leva Adorno a afastar-se da superação hierárquica hegeliana da arte pela religião e pela filosofia. E, apesar do seu cepticismo perante o gosto e juízo subjectivo kantiano, Adorno sente-se atraído pela beleza natural, que Hegel considerava inferior ao ideal de beleza artificial. A beleza natural representava a dependência do homem num objecto que não é da sua criação; é um paradigma da não-identidade baseado na relação homem e natureza. O projecto emancipador da humanidade, sob os auspícios do materialismo dialéctico, aparecia igualmente na concepção benjaminiana da cultura de massa (Jimenez, 1983: 87).

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Contrariamente a Adorno e Horkheimer, para quem a indústria cultural e a produção de bens culturais constituem uma esfera da reificação total, Benjamin – que ignorava os trabalhos que deram origem à Dialética do Iluminismo – acreditava na função progressista, politicamente falando, dos meios de reprodução mecanizados aplicados ao domínio da arte. Desligando-se do tipo de discurso de que há apenas uma única forma de falar de arte e de estética, Benjamin leva-nos a uma interrogação sobre outros discursos, sistemas, teorias e doutrinas, críticas ou não, inseridas no mecanismo de reprodução e acumulação culturais, mecanismo de produção e difusão de um saber estético (Jimenez, 1983: 88).

Durante mais de dois séculos, a estética foi “positiva”, talvez porque os estetas não tinham ainda dispositivos críticos elaborados para pôr em causa a coerência do sistema. A estética e a filosofia eram “positivas” e “afirmativas”: “positiva” no sentido em que pretendia um saber cuja matriz se traçava com a ajuda de conceitos; “afirmativa” porque, elemento de uma cultura que não podia negar a legitimidade, participava no seu desenvolvimento e expansão (Jimenez, 1983: 89). Estas duas determinações – positividade e afirmação – impõem-se como tais na filosofia ocidental na época da Aufklärung, e são contemporâneas do surgimento do termo “estética”, definido como a ciência da beleza e da arte. A produção industrial dos bens culturais, na sociedade moderna, aparece como uma confirmação definitiva da crise de autonomia burguesa da arte (Jimenez, 1983: 185). A Dialéctica da razão parece antecipar as aporias da Teoria estética: a ideia de uma obra de arte avançada cujo carácter progressista dependia da evolução das forças produtivas técnicas entra em contradição com a concepção da racionalidade como geradora da reificação e do domínio.

A Dialéctica da razão deixa uma estreita margem à construção da estética, principalmente na elaboração de uma estética da modernidade. O episódio das Sereias prefigura a aventura da arte moderna e anuncia o que será o seu modo de existência específica na época contemporânea. Ulisses possui o privilégio de perceber a beleza do canto e de poder decifrar, para além do fascínio que exerce sem poder comunicar, o seu verdadeiro significado. A arte moderna é hermética, e o seu esoterismo exige o pleno mergulho na coisa em si (Jimenez, 1983: 186). Qualquer atitude para além da atitude contemplativa, irremediavelmente separada da prática, mostra-se inadequada. Nostalgia, recordação da natureza, imagens idílicas de um passado acabado dificilmente rompem a máscara cínica da dominação. A industrialização da arte e da cultura testemunha a crise da autonomia burguesa e da “regressão” irreversível da “razão na ideologia” (Dialética do esclarecimento, p. 19).

Leitura principal: Max Horkheimer e Theodor W. Adorno (1985). Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. Segui também a edição francesa: La dialectique de la raison, 1989, Paris: Gallimard

sábado, 17 de julho de 2004

A SEMIÓTICA E PEIRCE
 
[texto inicial de 27.10.2003 produzido para o blogue Teorias da Comunicação e que serve, agora, de apoio ao conceito de interpretante, incluido na mensagem de ontem]
 
Enquanto teoria, a semiótica realça a comunicação como geradora de significação. Com ela, constitui-se um novo conjunto de conceitos: signo, significação, ícone, índice, denotação, conotação. No centro está o signo. Ao estudo do signo chama-se semiótica ou semiologia.  A semiótica – que compreende: 1) signo, 2) códigos ou sistemas, 3) cultura – presta atenção ao texto; considera o receptor ou leitor como possuidor de um papel activo. O signo é algo físico, perceptível aos nossos sentidos.
 
Para o filósofo e lógico Charles Sanders Peirce (1839-1914), o signo envolve uma tripla relação entre signo, objecto e interpretante. O signo ou “representamen” é aquilo que substitui qualquer coisa por alguém, isto é, significa na ausência. O interpretante é o conceito mental do utente do signo, seja orador ou ouvinte. Descodificar é uma actividade tão importante como codificar.   Peirce (Écrits sur le signe, 1978: 147-165) produziu três tipos de signo: ícone, índice, símbolo (1978: 148-165).  O ícone é um substituto de uma coisa a que se assemelha. Uma mensagem material como um quadro é um elemento convencional no seu modo de representação. As fotografias são elementos icónicos. A fotografia no BI é um elemento icónico que me representa.
 
Já o índice é um elemento de autenticidade. Um relógio indica-nos as horas. Um barómetro com baixa pressão e o ar húmido são índices de chuva próxima. Diz-se que não há fumo (índice) sem fogo (realidade). Um índice é uma representação que reenvia para o seu objecto não pela semelhança ou analogia, mas porque há uma ligação dinâmica. Finalmente, o símbolo é uma réplica ou materialização de uma palavra pronunciada. A bandeira nacional ou um sinal do código de estrada são símbolos. Um símbolo é um signo próprio para declarar que o conjunto de objectos denotados por um conjunto de índices que se lhe associam. Um símbolo não indica uma coisa em particular, denota um género de coisa.

A MINHA SEMANA
 
Seminário de Thomas Patterson
 
O professor da Universidade de Harvard esteve, na segunda-feira e terça-feira, em Lisboa, a ministrar um seminário sobre metodologias para ciências sociais, a convite do CIMJ (Centro de Investigação Media e Jornalismo).
 
O que leccionou Patterson? Falou demoradamente sobre a investigação através de questionários, da amostra aos problemas de não resposta, do desenhar as perguntas ao pré-teste do questionário, do acompanhamento deste por trabalho de grupos-foco, da preparação dos dados para análise até à apresentação dos resultados e às questões éticas em torno de um questionário. Como bibliografia de estudo, Patterson aconselhara o livro de J. Fowler Floyd Jr., Survey research methods.
 
Patterson é especialista em pesquisas de campanhas eleitorais, mas frisou também a importância das pesquisas em marketing. E, se no começo da massificação dos inquéritos, se usou o método da entrevista pessoal face-a-face, hoje está vulgarizado o método através do telefone (e começa-se a empregar a internet). Em termos de trabalho prático, pôs os participantes no seminário a desenharem um inquérito destinado a jornalistas para se percepcionar as alterações na sala de redacção onde a presença das mulheres tem sido cada vez maior. E enfatizou a importância da amostra e da sua construção. Já no desenho das perguntas, ele realçou a compreensão dos significados – cada pergunta deve ser o menos ambígua possível; daí o interesse dos grupos-foco, em ajuizar tais significados. Por outro lado, defendeu a ideia de que cada pergunta deve possuir uma escala de respostas, indo do muito bom/importante ao muito mau/nada importante.
 
Provas públicas de Mário Mesquita
 
Decorreram durante três dias, na Escola Superior de Comunicação Social. Assisti à sessão do segundo dia, na quarta-feira. Dentro da sua linha de investigação, ele observou os funerais televisivos, ou as telecerimónias, como diz mais apropriadamente, apresentou a sua análise ao funeral de Francisco Sá Carneiro, em 1980, no mosteiro dos Jerónimos. Sá Carneiro era então Primeiro-Ministro, falecendo por acidente de aviação, quando participava na campanha eleitoral para Presidente da República (com ele morreram o ministro da Defesa, Amaro da Costa, e outros acompanhantes).
 
Como material de análise, Mário Mesquita partiu de sete horas de directo televisivo (ainda não havia canais privados; logo, o trabalho baseou-se na transmissão da RTP, que começara a emitir recentemente a cores), especialmente a missa, que demorou uma hora e 34 minutos. Daqui partiu para a análise de dois fragmentos, a homilia e a comunhão. O autor interpretou essa observação com base em três princípios: 1) coerência da missa presencial, reconstruída na televisão, 2) articulação das instâncias do poder religioso e político, e 3) mediação da televisão e do jornalismo. 
 
A sua tese assenta na passagem de um ritual religioso (relação dos crentes com Deus) para um ritual mediático (inscrito no anterior, mas reconfigurado através do espectáculo). Isto é, a igreja transforma-se num estúdio de televisão, em que o padre oficiante se apaga e adquire uma função no lugar da passagem. No espectáculo, os celebrantes tornam-se em actores. E conclui, naquilo que me interessa, em ver a telecerimónia como dispositivo de comunicação: 1) o jornalista (que sussurra ao ouvido do telespectador) e o padre são os agentes que asseguram o contacto com o destinatário, 2) recria-se o enquadramento original, com alterações substanciais da ordem, com o altar a deixar de ser olhado de frente, pois a câmara foca também a audiência e segue ainda o protocolo do Estado (planos específicos das figuras públicas, quer políticas quer religiosas quer ainda os familiares do Primeiro-Ministro). Para Mário Mesquita, a câmara televisiva retalha o espaço. E termina ao conceder dúvidas sobre a ideia, então discutida, de que a cerimónia fúnebre – em tempo lento e recorrendo a um grande dramatismo – poderia beneficiar o PSD, de que Sá Carneiro era líder, e canalizar votos para o seu candidato. Porém, tal não aconteceu e Eanes, que aparece na cerimónia, acabaria por ser reeleito.
 
Assim, a telecerimónia é, para o autor, o oposto do registo do jornalista, que trata da informação, da notícia, e que procura satisfazer a ideia do conflito. Curioso é que o realizador da transmissão, entrevistado por Mário Mesquita, veria aquele trabalho como uma mera reportagem.
 
Como fazer uma tese de mestrado
 
Foi na quinta-feira, com os alunos do mestrado de Comunicação da UCP, organizado pelo seu director, Fernando Ilharco. Os quatro alunos que já defenderam tese deram o testemunho do seu trabalho aos alunos que encetam agora essa tarefa. Um dos novos mestres falou a partir do Brasil, de onde é natural, através da internet.

OS JORNAIS DE HOJE

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No caderno "Babelia", do El Pais de hoje, vem um texto de António Lobo Antunes, La armonía del mundo.

Já no caderno de "Economia" do Expresso, há dois artigos que me chamaram a atenção. O primeiro é sobre o aumento do número de mensagens SMS ao longo dos últimos anos. Desde cedo, escreve Manuel Posser de Andrade, as indústrias culturais (audiovisuais) aplicaram o SMS para votações em concursos e programas. O Big Brother foi o primeiro programa televisivo, já em 2001, a adoptar votações por SMS, cedo transformado em SMS de valor acrescentado. A linguagem usada, em especial pelos mais jovens, é transposta dos chats da internet. O segundo texto que destaco do Expresso é sobre a nova imagem da EDP, em artigo de Catarina Nunes. O novo símbolo da empresa de electricidade é um sorriso em fundo de quadrado vermelho, desenhado pela equipa de MyBrand. A partir de 29 de Julho, a nova imagem acompanhará a volta a Portugal em bicicleta, que a EDP patrocina.

sexta-feira, 16 de julho de 2004

[esta é a mensagem nº 200 do blogue]
 
PALEOTELEVISÃO E NEOTELEVISÃO
 
Em texto editado em 2003, Elisio Verón parte dos conceitos desenvolvidos por Umberto Eco (1983), e sua superação filosófica, importantes para a compreensão do dispositivo televisivo desde os seus primórdios até à actualidade. 
 
Ora o que são a paleo- e a neotelevisão? Escrevia Eco que, na paleotelevisão, a televisão operava com a distinção fundamental entre informação e ficção. No caso da informação, o público esperava que a televisão: a) falasse verdade, b) segundo critérios de importância e proporção, c) e separando a informação dos comentários. Já nos espectáculos de imaginação ou ficção (dramas, comédias, ópera, filmes, telefilmes), o espectador aceitava o efeito da constução fantástica. Assim, os programas de informação tinham importância política e os de ficção importância cultural.  Por seu lado, a característica principal da neotelevisão é o facto de ela falar cada vez menos do mundo exterior (o que a paleotelecisão fazia ou fingia fazer) e referir-se mais a si mesma e ao contacto com o seu público.  

Mais tarde, em 1990, e em número especial (nº 51) da revista Communications, organizado por Francesco Casetti e Roger Odin (Télévisions mutations), é revisto o conceito de paleotelevisão, a partir de dois aspectos fundamentais: 1) contrato de comunicação, 2) maneira como se estrutura o fluxo de oferta. O contrato de comunicação é pedagógico. Os programas diferenciam-se uns dos outros, por géneros: ficção, desportos, programas culturais, infantis, etc. A entrada da neotelevisão implica uma mudança do modelo relacional. De pedagógica, a televisão torna-se próxima e acessível. Os principais géneros da neotelevisão são os talk-shows e os jogos. O ecrã torna-se um espaço de conversas e a vida quotidiana passa a ser o referente da televisão.  Multiplicam-se os programas omnibus que misturam os géneros (informação, jogos, variedades, ficção, debate). Aparecem referências de um programa para outros e nos noticiários, em que, por exemplo, se antecipa o programa que vem a seguir. Há também montagens mais rápidas. Na neotelevisão, escrevem Casetti e Odin, não há contrato. O papel dos contratos de comunicação é convidar os espectadores a efectuar o mesmo conjunto de operações de sentido que na realização. Chamam a isto"terceiro simbolizante" (Peirce chamaria de interpretante) [amanhã, colocarei um texto sobre Peirce, inicialmente publicado nas Teorias da Comunicação]. Se a paleotelevisão tinha um contrato, a neotelevisão funciona na base de um contacto.  Dito de outro modo, se, na paleotelevisão, assistir à televisão era um acto de socialização, na neotelevisão passa a ser um acto individualista.

Perspectiva (histórica) de Verón e campanhas eleitorais

Verón não usa as palavras paleotelevisão e neotelevisão, pois acha que se está a entrar numa terceira etapa. Assim, na etapa inicial, ao longo dos anos 1950 e até finais dos anos 1970, o interpretante fundamental é o contexto social-insitucional extratelevisivo. É a ideia da metáfora da "janela aberta para o mundo exterior". Os anos 1980 marcam a passagem para a segunda etapa, em que a própria televisão se torna a instituição interpretante. Surgem os programas de jogos e os talk-shows. A televisão afasta-se definitivamente do campo político.  Na passagem para o novo milénio, o interpretante é a configuração complexa de colectivos definidos como exteriores à instituição televisão e atribuídos ao mundo individual, não mediatizado, do destinatário. Dá-se a explosão dos reality-shows, para além da crise de credibilidade dos meios informativos. Os participantes dos reality-shows são os alienígenas do planeta televisão, seleccionados como num casting de um produto de ficção televisiva. 

Verón analisa duas campanhas eleitorais bastante mediatizadas: a de 1981, em França, opondo Giscard a Mitterrand, e a de 2002, no Brasil, opondo Serra a Lula. Um dos aspectos mais interessantes neste texto é - a partir de trabalhos de Antônio Fausto Neto, um dos organizadores do livro que me serve de referência para a mensagem, abaixo indicado - a análise às entrevistas individuais aos candidatos às presidenciais organizadas pelos noticiários televisivos. No caso do Brasil (2002), cada candidato sentava-se na bancada onde estavam os apresentadores do programa, com destaque para a estrutura do programa "Bom dia, Brasil" [que eu não conheço]: numa espécie de sala de estar [living-room], bastante ampla, sentavam-se dois jornalistas e o candidato. Este ocupava uma poltrona junto a um dos jornalistas e tinha na sua frente o outro jornalista. A estrutura complicava-se com a presença de um terceiro jornalista, por videoconferência, a partir da capital Brasília.
 
Para concluir o seu texto, Verón destaca o debate final da mesma campanha brasileira (segunda volta ou turno), e que sintetiza a terceira etapa do percurso do dispositivo televisivo: o debate com a presença de eleitores indecisos, seleccionados pelo principal instituto de pesquisa, o IBOPE, representando as principais regiões do país e os diferentes níveis socioeconómicos, e que fazem as perguntas aos dois candidatos. Ou seja, os eleitores estão investidos no papel central do programa de televisão, não havendo intercâmbio entre os candidatos e com reduzida intervenção do jornalista-mediador.
 
Leitura: Elisio Verón (2003). "Televisão e política: história da televisão ecampanhas presidenciais". In Antônio Fausto Neto e Eliseo Verón (org.) e Antonio Albino Rubim Lula presidente, televisão e política na campanha eleitoral. São Paulo e São Leopoldo, RS: Hacker e Unisinos, pp. 15-42 [agradeço à Juliana Iorio, que me comprou o livro na sua deslocação este mês a Campinas, SP, Brasil, por um preço admirável: perto de €7]

AUDIÊNCIAS DE TELEVISÃO NA SEMANA DE 28/6 a 4/7

Segundo a Marktest.com, de 15 de Julho, a RTP1 obteve, na semana de 28/6 a 4/7, 34,9% de share de audiência, seguindo-se a SIC com 25,9%, a TVI com 22,7%, a 2: com 4,5% e o vídeo e outros canais 12%. O maior crescimento face à semana anterior deu-se na RTP1, sendo a lista de programas mais vistos dominada pelo Euro 2004, encabeçada pelo jogo das meias-finais do Euro 2004, que opôs Portugal e Holanda (40,9% de audiência média e 87,2% de share de audiência!), transmitido pela RTP1 a 30 de Junho. O segundo lugar foi ocupado pelo jogo da final, entre Portugal e a Grécia, também transmitido pela RTP1 (37,7% de audiência média e 89,7% de share de audiência).

quinta-feira, 15 de julho de 2004

OS MEUS BLOGUES PREFERIDOS

Observação prévia: a mensagem que se segue faz referência a um artigo publicado na revista MediaXXI, em número acabado de sair. Sendo o seu director da publicação, é óbvio o meu interesse na sua existência. Se entender que se trata de publicidade, por favor não leia o post.

Viagem pelos diários da internetMediaXXI.JPG

O que fiz foi um inquérito a alguns dos blogues que conheço e visito diariamente (ou quase) e traçar uma radiografia deste novo medium. Responderam, por email, 19 (de um total de 40). Não se trata de um trabalho exaustivo, mas dá algumas pistas.

Pedi ainda a três académicos que definissem os blogues. Como a dimensão do texto era reduzida (seis mil caracteres), tive de encurtar essas expressões. Aqui, não tendo tal constrangimento, coloco tais definições na sua totalidade:

1) Manuel Pinto (Universidade do Minho): "Telegraficamente, diria que: 1. os blogues talvez se continuem a transformar (e a sofisticar) bastante no que diz respeito às ferramentas, mas talvez se preserve a ideia de base: a auto-edição acessível e barata, aplicada de forma cada vez mais séria a um cada vez vez mais vasto leque de sectores. 2. Receio que a sofisticação a que aludi atrás venha a criar uma nova forma de exclusão: as elites que têm facilidade de manejar com mestria as ferramentas prosseguirão e uma boa parte ficará pelo caminho, de roda de formas de expressão ultrapassadas. Será possível atender a este "fosso digital" virtual?"

2) Beth Saad Corrêa (Universidade de São Paulo, Brasil): "Espaço virtual de troca de experiências em torno de um determinado tema. Para isso é fundamental que o blogue tenha um controlo de seu conjunto de colaboradores, da manutenção da linha editorial das discussões e de uma acção contínua de fomento das postagens no blogue".

3) José Luis Orihuela (Universidade de Navarra, Espanha): "Los weblogs están contribuyendo de manera decisiva a impulsar el nuevo ecosistema mediático que nació con la Web. El poder de publicar se extiende a los lectores, y los medios tradicionales pierden el privilegio de ser los intermediarios exclusivos en los procesos de comunicación pública. pero, aunque la Web había abierto, por primera vez en la historia, un cauce para la publicación de información a escala global sin editores, lo cierto es que una serie de obstáculos se interponían entre el usuario medio y la publicación de contenidos en línea: era necesario acceder a un dominio para publicar, se requería cierta destreza en el uso del lenguaje de programación HTML y, al menos, algunos rudimentos de diseño gráfico. Los weblogs han simplificado todo este proceso y han convertido a la publicación en línea en una tarea tan intuitiva y amigable como el uso del correo electrónico.media76.JPG

"El acceso del público a un medio global sin editores y la consecuente popularización de blogs de opinión política y crítica mediática ha provocado que uno de los debates centrales en la blogosfera siga siendo la relación entre weblogs y periodismo, sistemáticamente mal planteada bajo preguntas como "¿son los weblogs periodismo?", "¿hay periodismo sin periodistas?", etc. Para decirlo claramente: a) los weblogs pueden ser periodismo, pero no por ser weblogs, y b) El periodismo sin periodistas es como la medicina sin médicos: deberíamos llamarla brujería o curanderismo.

"Los weblogs aportan a los periodistas, frente a los medios tradicionales, la posibilidad de extender sus horizontes de libertad (opinión, selección de temas, frecuencia de publicación, extensión y auto-edición) y subjetividad (expresarse con su propia voz y dotar de textura personal a los temas). A los medios, la blogosfera les sirve como un sistema de alerta temprana, fuente de temas, expertos y críticas; mientras que los propios weblogs, en cuanto formato, pueden utilizarse para acercar el medio a los lectores, desarrollar coberturas de continuidad sobre catástrofes, eventos deportivos y procesos políticos, incluso para hacer público el proceso de toma de decisiones editoriales.

"La blogosfera es un sistema complejo, autoregulado, extraordinariamente dinámico y especialmente sensible a la información que producen los medios tradicionales, en particular la referida a asuntos políticos y tecnológicos. Las funciones de la blogosfera en el nuevo escenario comunicativo son múltiples: es un filtro social de opiniones y noticias, es un factor de movilización social, es un nuevo canal para las fuentes reconvertidas en medios, es un gigantesco archivo que opera como memoria de la Web, es el alimento privilegiado de los buscadores por su renovación constante y su alta densidad de enlaces de entrada y de salida, y finalmente es la gran conversación de múltiples comunidades cuyo anclaje común es el conocimiento compartido".

Agradecimentos: aos 19 responsáveis dos blogues que me responderam. Contudo, e pela admiração ou amizade que já adquiri com alguns deles, quero destacar (sem ordem de preferência), os blogues Janela Indiscreta, Nocturnos com gatos, Blog "A Minha Rádio" e Puta de vida... ou nem tanto.