30.11.08
O GRUPO DE ESTUDO DE INDÚSTRIAS CULTURAIS DA UNIVERSIDADE DE PLYMOUTH
A Universidade de Plymouth (Reino Unido) tem um Cultural Industries Research Group, sob a liderança dos professores Alison Anderson and Kevin Meethan. Engloba académicos das áreas de geografia, media e turismo, responsáveis pelos jornais Cultural Sociology e Tourism Consumption and Practice e integrados na nova British Sociological Association (BSA). Têm interesses em cultura, globalização, teoria social e relação entre arte e ciência, turismo global e consumo, mercados da arte e globalização, e representação dos media sobre riscos ambientais, conflitos rurais e tecnologias emergentes.
ILUSTRAÇÃO PARA CRIANÇAS
Como escrevi aqui, Truth and tales é o título da exposição da Galeria do Palácio Galveias com mostra da ilustração de livros para a infância oriunda da Finlândia. Aconselho vivamente uma ida ali.
CIDADE CENOGRÁFICA DA TVI
A notícia do Diário de Notícias saiu a 6 de Novembro, a notícia do Público saiu a 29 de Novembro. A primeira dá conta da possibilidade de implantação da sede da TVI, a estação líder de audiências, em Sintra (Almargem do Bispo), a segunda indica a discussão que a criação da cidade do cinema da TVI tem em termos de impacto económico mas também imobiliário (urbanização em zona agrícola). A primeira é ainda uma intenção à volta do entertenimento de massas, a segunda revela mais coisas além da sede do canal televisivo e entra na política dos conflitos de interesse nacionais e locais.
Por isso, elas merecem atenção, dada a importância do tema. A minha base de análise resume-se às duas notícias, elementos de avaliação muito escassos, pelo que poderei não fornecer as melhores conclusões.


A fotografia (de Rodrigo Cabrita) que ilustra a peça do Diário de Notícias é fantástica: apesar de só identificar dois dos presentes, esta mostra uma mesa de almoço, ainda sem comida e bebidas exceptos quatro pratos com pão e uma entrada, com copos, pratos, talheres e guardanapos muito bem alinhados, o que indica que a photo opportunity foi feita mesmo após os comensais se sentarem. Na imagem, vejo dois telemóveis, instrumento cada vez mais visível em reuniões e em almoços, ilustrando a ideia de encontro privado mas aberto ao mundo. A peça, assinada por Tiago Guilherme, indica tratar-se de um almoço no Funchal com a comunicação social para apresentar a novela Flor do Mar, história a decorrer na Madeira. A photo opportunity foi, assim, a ocasião para informar os media das "conversas alongadas com a Câmara de Sintra. Nas próximas semanas poderemos atingir um acordo com eles", segundo diria Manuel Polanco, dirigente da TVI. O mesmo responsável falaria em cerca de 40 a 45 milhões de euros para a cidade cenográfica, sede da empresa e estúdios de gravação de programas de ficção da TVI mas ainda do canal espanhol Cuatro, igualmente pertencente à Prisa. A ocasião serviu ainda para tornar pública a passagem da designação NBP, que produz as telenovelas da TVI, para Plural Entertainment Portugal e a abertura do canal de notícias TVI24 para 2009.
Se a notícia do Diário de Notícias surgiu na secção "Media" e segue a agenda do promotor (TVI), a do Público, assinada por Luís Filipe Sebastião, apareceu na secção "Local" e parece resultar da investigação do jornalista. O lead indica o assunto: "Cidade do Cinema abre discussão sobre urbanização em zona agrícola, mas Seara acha que se trata de «indústria geradora de receitas»". Fernando Seabra é o presidente da Câmara de Sintra e o teor da notícia revela discussões a nível da Assembleia Municipal, pois os 50 hectares da cidade envolver-se-iam em 200 hectares de um projecto de licenciamento urbanístico. Alguns deputados municipais inquiridos pelo jornalista afirmavam não ter informação sobre o previsto para os 150 hectares. A peça, que indicia uma hipotética ligação a interesses urbanísticos, acaba num tom mais positivo e seguindo as palavras de Seara, indicando tratar-se de um projecto que criará a Terceira Cidade do Cinema da Europa e cerca de 2500 postos de trabalho. Convém não esquecer que há eleições autárquicas em 2009 e Seabra pretende manter o lugar. Uma segunda peça, assinada por Jorge Talixa, assinala a versão da presidente de outra Câmara Municipal, a de Vila Franca de Xira, Luz Rosinha, que diz que a NBP preferia terrenos em Vialonga, mais próximos de Lisboa e onde a empresa já tem instalações há 15 anos. O problema seria, diz a autarca, a falta de novos terrenos para a implantação do projecto. A presidente de Vila Franca de Xira tem idênticas expectativas nas eleições do próximo ano.
Vendo as duas peças, é óbvio a identificação de agentes sociais distintos e com interesses específicos. A TVI quer deixar as instalações de Queluz de Baixo. Já tem um protocolo de intenções com Sintra - e disse-o ao apresentar uma novela a jornalistas. A resposta da Câmara e as dúvidas de deputados municipais surgiu pouco depois, mas outras Câmaras mostram disponibilidade para acolher o projecto.
Além dos diferentes agentes sociais, há uma alteração de foco: se uma notícia se centra no entretenimento, a outra concentra-se no projecto de construção de edifícios e da sua localização. O núcleo central é a TVI mas os tópicos são distintos. Isto levanta a questão da importância da televisão e do entretenimento e da fileira de actividades em torno das indústrias culturais.
A TVI era, até 2000, um canal desinteressante, com uma audiência baixa. Primeiro, a liderança com José Eduardo Moniz e, depois, a compra do canal pela empresa espanhola Prisa trouxeram a TVI para as bocas do mundo. Segundo um académico, Mário Jorge Torres, a TVI instaurou um sistema de estrelas e uma indústria do entretenimento como Portugal nunca teve, excepto o período das comédias de António Silva e Ribeirinho dos anos 1940. Para os produtores independentes de televisão, Portugal ainda não tem uma indústria do audiovisual exportável como tem a Holanda, por exemplo, argumentando que os canais de televisão como a TVI se fecham na produção interna. Claro que estas perspectivas esquecem que há televisão há 50 anos, que desde sempre houve produção própria com novelas e outros programas (de entretenimento, concursos), mas sem a continuidade e força que levam o canal privado a pensar numa cidade de cinema, agora que o capital da empresa é maioritariamente internacional. Acrescente-se que, em Sintra ou em Vila Franca de Xira, os custos de produção serão aliciantes, há equipas formadas e motivadas e um feixe de actividades bem entrosados dentro da cadeia de valor da televisão.
Isto ocorre num momento de crise do outro canal privado, a SIC, com reajustamentos a nível do topo da hierarquia e com convites à saída da empresa, para redução de custos.
Mas a pergunta é: há viabilidade económica e quantidade de conteúdos capazes de edificar uma cidade do cinema? Além que a palavra cinema me causa perplexidade, porque ela é distinta da televisão e há fragilidades no cinema nacional.
29.11.08
PÁGINAS VISITADAS
O blogue Indústrias Culturais atingiu hoje à tarde o milhão de páginas visitadas (e acima de 862 mil visitantes únicos). Obrigado aos leitores do Indústrias.
GUIA LECOOL DE LISBOA
Recentemente, foi editado pela equipa lisboeta, liderada por Joana Pinto Correia, um Guia Le Cool, Weird and Wonderful, seguindo os de Barcelona, Londres, Amesterdão e Madrid (ver lecool).

Trata-se de um pequeno-grande guia para quem quer conhecer a verdadeira Lisboa, dividido pelas sete colinas e revela segredos bem guardados, assim como lojinhas antigas, personagens da cidade (o senhor do adeus, o amolador), boas maneiras de passar o dia mais complicado da semana (o Domingo), a Lisboa gráfica (da tipografia ao graffiti), roteiros gastronómicos internacionais, a rota da ginginha, e ainda, hotéis, cinemas e festivais, calendário das festas, jardins, cafés, miradouros, mercados e muito mais. O design ficou das mãos da Silva!designers, responsáveis, entre outros projectos, pelas Festas de Lisboa.
O Guia, entre outros locais, está à venda na Fábrica Features (na loja da Benneton do Chiado, 4º andar) e na loja Uma Vida Portuguesa (na Rua Anchieta, ao lado do Café Austríaco).
[obrigado a Maria Miguel Pereira, editora da agenda cultural semanal, pela informação]
A TELEVISÃO DO REAL

"Felisbela Lopes é uma investigadora integrada em importantes projectos que o Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, da Universidade do Minho, vem desenvolvendo. Este livro, de algum modo, condensa muito do trabalho de reflexão e pesquisa que ali tem sido realizado por um grupo de excelentes investigadores no campo das ciências sociais e da comunicação que visam convocar a responsabilidade social dos media e a participação efectiva da cidadania no processo de uma sociedade mediática" (José Manuel Paquete de Oliveira, no prefácio ao livro de Felisbela Lopes, A TV do Real. A Televisão e o Espaço Público, MinervaCoimbra, 2008).
O livro agora publicado pela editora de Coimbra é o segundo livro saído na mesma colecção. O anterior chamava-se O Telejornal e o Serviço Público, a passagem da tese de mestrado da autora para livro. Por seu lado, A TV do Real tem uma ligação umbilical com A TV das Elites (Campo das Letras, 2007), pois ambos resultam da tese de doutoramento de Felisbela Lopes (fiz aqui alguma referência ao último desses trabalhos).O que nos traz A TV do Real. A Televisão e o Espaço Público? Três densos capítulos (perspectivas teóricas sobre o meio, espaço público e fronteiras que a televisão integra e/ou reconfigura, informação televisiva como espelho e reconstrução da realidade), onde estão lá todos os autores que vale a pena ler: Habermas, Wolton, Baudrillard, Virilio, Innis, Arnheim (uma interessante recuperação), Bourdieu, Giddens, Jost, Cornu, Dayan e muitos, muitos outros.
Retenho-me no final do primeiro capítulo (p. 73), onde a autora faz um sumário dos tópicos desse capítulo e que mostra a televisão: 1) presa a pressões económicas, 2) subordinada a dispositivos tecnológicos, 3) dependente de constrangimentos estruturais, 4) (re)produtora de conhecimentos, 5) promotora de novas formas de vida, e 6) elo de união. Para Felisbela Lopes, a televisão "opera assinaláveis mudanças qualitativas do nosso mapa social, tendo, desse modo, um papel assinalável no espaço público contemporâneo" (p. 74).
Trata-se de uma obra a ler com toda a atenção, pois é um marco significativo da produção intelectual sobre a televisão no nosso país.
NOTÍCIAS DOS JORNAIS
Proposta de lei sobre concentração dos media - na quarta-feira, em audição parlamentar, Pedro Morais Leitão e Albérico Fernandes, ambos da Confederação Portuguesa dos Meios de Comunicação Social, e Alfredo Maia, do Sindicato dos Jornalistas, criticaram a proposta. Para os representantes dos patrões, a lei impede as empresas de ganharem dimensão. Para o jornalista, a presente concentração já é excessiva. Para Arons de Carvalho, deputado da maioria parlamentar, a lei é sensata. A lei, aprovada na generalidade em 3 de Outubro, pode entrar em vigor em 2009 depois de votada na especialidade (Diário de Notícias, 27.11.2008).
Ricardo Costa na direcção do Expresso - de 40 anos, além de director-geral adjunto da SIC, integra a direcção do semanário do grupo Impresa como director adjunto (Público, 28.11.2008).
ERC levanta processo contra programa da SIC Notícias - por inserir patrocínios em programas como Expresso da Meia Noite e Frente a Frente, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) instaurou um processo contra a SIC Notícias (Diário de Notícias, 28.11.2008).
28.11.08
ECCEIDADE
Hoje, ao final da tarde, Luís Lima lançou o seu livro Estética da Ecceidade. O traçar de uma carta [a primeira imagem conta, da esquerda para a direita, com Rita Palma (livraria Bulhosa, onde decorreu o acto), Luís Carmelo (apresentador da obra), Luís Lima, Isabel Garcia (editora da MinervaCoimbra) e Mário Mesquita (director da colecção de livros)].
O texto reflecte a tese de mestrado que o autor desenvolveu e apresentou na Universidade Nova de Lisboa. Actualmente a escrever a tese de doutoramento, Luís Lima foi jornalista da TSF e da TVI, sendo desde 2002 freelancer, e antigo docente na Escola Superior de Jornalismo do Porto.
Melhor do que eu escrever, Luís Lima explica o conceito de ecceidade no vídeo abaixo inserido.

LINHA FERROVIÁRIA À NOITE
Entrada da estação de Entrecampos (Lisboa). Ao fundo, do lado direito da imagem, vê-se o magnífico edifício da empresa de telecomunicações TMN (antiga sede da Marconi).
NÚMERO DE REVISTA ASSINALA CEM ANOS DE ENSINO DO JORNALISMO

100 anos de ensino do jornalismo, o número treze da revista Media & Jornalismo, do CIMJ (Centro de Investigação Media e Jornalismo), vai ser lançado no auditório da FLAD (Fundação Luso-americana para o Desenvolvimento) no próximo dia 3 de Dezembro, às 18:30.
Para além do lançamento, haverá um painel com alguns jornalistas, docentes e investigadores de jornalismo: Cristina Ponte (docente universitária na Universidade Nova de Lisboa), Fernando Cascais (jornalista e director do Cenjor), Adelino Gomes (jornalista e Provedor do Ouvinte da RDP) e Ana Luísa Rodrigues (jornalista da RTP).
Agora com edição da Mariposa Azual, este número da Media & Jornalismo assinala o centenário do primeiro curso de jornalismo na Universidade Americana de Missouri, em 1908. Dos artigos saídos no número, destacam-se os de Fernando Cascais, Maria João Silveirinha, Ana Luísa Rodrigues e Susana Borges, bem como a entrevista a Michael Schudson feita por Sara Pina, Carla Martins e Carla Baptista.
GESTÃO DAS INDÚSTRIAS CRIATIVAS E CULTURAIS
A EURAM (European Academy of Management) é uma associação profissional que engloba os académicos da área da gestão. Na conferência anual de 2009, a realizar em Liverpool, de 11 a 14 de Maio, de entre as 40 mesas, haverá uma dedicada à gestão das indústrias criativas e culturais, presidida por Robert G. Picard e por Lucy Küng, professores da escola sueca de Jönköping International Business School. Os oradores convidados são Julian Birkinshaw, Barbara Czarniawska e Jeffrey Pfeffer.
Para os interessados, o prazo para entrega de propostas de comunicações encerra em 7 de Dezembro.
27.11.08
DIA 11 DE DEZEMBRO PELAS 11:00 EM PONTEVEDRA, JOÃO PAULO MENESES
Vai fazer a defesa publica da sua dissertação de doutoramento O consumo activo dos novos utilizadores na Internet: ameaças e oportunidades para a rádio musical (digitalizada).
O blogueiro deseja muitas felicidades. Esperamos conhecer, depois, quais as teses que sustentam esse trabalho - se a rádio continua, se ela muda, se ela se transforma num outro meio poderoso, enfim, o futuro da rádio num tempo digital.
João Paulo Meneses é autor do livro Tudo o que passa na TSF e dos blogues http://blogouve-se.com/, http://osegundochoque.blogia.com/, http://ipodgeneration.blogsome.com/, http://oquesepassa.no.sapo.pt/, http://reisdoave.blogspot.com/ e http://maiscedo.blogspot.com/.
FEIRA DE ARTES TOOLS
O Clube Português de Artes e Ideias está a organizar a Feira TOOLS, a acontecer no Centro de Experimentação Artística na Fábrica da Pólvora, em Oeiras, nos dias 20 e 21 de Dezembro.

A iniciativa tem por objectivo dar a oportunidade a pessoas que se dedicam às artes (artistas, estudantes, profissionais, etc.) de poderem vender e/ou comprar material de trabalho usado, por forma tornar mais acessíveis os custos da acção artística. Outra componente da feira é também proporcionar a oportunidade aos criadores presentes de apresentarem e venderem as suas obras.
Para obter mais informações: artesideias.fabricadapolvora@gmail.com.
ESTÉTICA DA ECCEIDADE, LIVRO DE LUÍS LIMA

"O pensamento contemporâneo poderá caracterizar-se, entre outros atributos, por ser um pensamento que pensa a individuação, a singularidade e o acontecimento. Este texto mostrará com muita clareza como é possível pensar, numa perspectiva contemporânea, textos arcaicos, em que a génese do conceito emerge, como é o caso com Duns Escoto, por exemplo. Por esta via torna-se claro o desafio proposto pela ordem da escrita e do escrito que consiste na resistência do texto ao seu contexto original. Sem adulterar a leitura, que se quer até literal, a proposta de Luís Lima é a de iluminar essa escrita longínqua, torná-la legível na actualidade, tarefa que, executada com rigor, não é desafio fácil. Daí que o conceito de hecceidade / ecceidade seja cotejado desde o seu emprego pelo progenitor escocês até ao emprego que dele fazem Deleuze e Guattari que o reinvestiram no século passado" [Maria Augusta Babo (Prefácio)].Estética da Ecceidade - o traçar de uma carta, de Luís Lima, na colecção Comunicação, da editora MinervaCoimbra, é um livro apresentado amanhã, dia 28, pelas 18:30, na Livraria Bulhosa Entrecampos, Campo Grande 10-B, em Lisboa, por Luís Carmelo.
INFÂMIA EM BOMBAIM
As notícias que vêm da Índia dão conta que mais de 100 pessoas morreram e muitas estão feridas como resultado de explosões e disparos que ontem atingiram hotéis, restaurantes e hospitais de Bombaim. Por muito profundas que sejam as razões que moveram os autores, essas acções são de uma grande intolerância e merecem total repúdio.
MÚSICA
Chocolate, o novo disco de Maria João e Mário Laginha, parece ser um exemplo de miscigenação cultural. A avaliar pelo cartaz.
RECORDAÇÃO DE BRASÍLIA (4) - BIENAL DE DESIGN DE BRASÍLIA
Bernardo Díaz Nosty ("El nuevo continente virtual", pp. 18-19, in Tendencias '07 Medios de comunicación. El escenário iberoamericano. Madrid: Ariel) segue Hallin e Mancini (2004) quando estes investigadores, ao escreverem sobre a relação entre sistemas políticos e sistemas de media, descrevem três modelos bem definidos nas democracias ocidentais: pluralista, corporativo democrático e liberal. Ora, dizem estes investigadores, os sistemas da América Latina não encaixam em nenhum destes modelos, mas possuem uma tipologia híbrida com coincidências com o modelo pluralista polarizado da Europa do Sul e com o liberal dos Estados Unidos, Reino Unido e Irlanda. Mas Hallin e Mancini acham que a maior tendência se deve à influência ibérica. Na América Latina não há uma tradição de imprensa crítica, quer pela ausência de uma sociedade civil organizada quer pela personalização da política. Hallin e Mancini destacam ainda a escassa profissionalização dos meios e uma brecha mediática (falta educação para os media, diria eu).
Os media na América Latina são dominados pelo audiovisual, inspirados na variante americana da rentabilidade económica, com atipicidade de consumo (se aumentam os produtos reguionais baixam os programas locais) e atipicidade social.
A década de 1970 foi de uma grande desestabilização política, com regimes militares em mais de dez países, ciclo que mudou na década seguinte. O século XXI assiste ao reaparecimento de regimes autoritários sob a capa de nacionalismos e populismos. A aproximação e afastamento do denominado imperialismo cultural norte-americano - com penetração de produtos televisivos e cinematográficos - é uma marca a seguir. Aí talvez possamos distinguir o Brasil de outros países da região, mais moderado e comprometido igualmente com a desigualdade social sem um discurso fechado como em alguns vizinhos.
26.11.08
A MORTE DO HOMEM MORCEGO

Retiro a informação do Público Última Hora: a morte do Batman, depois da existência de 70 anos.
Segundo a notícia, chegou hoje às bancas a história do fim do Cavaleiro das Trevas. Grant Morrison, argumentista da série, afirmou ser o "fim de Bruce Wayne como Batman", a ler no mais recente número da série - "R.I.P. Batman". Um dos mistérios é saber quem o mata.
200 ANOS DE HISTÓRIA DOS MEDIA DO NORDESTE BRASILEIRO
O Simpósio 200 Anos de História da Mídia do Nordeste decorre de hoje a sexta-feira no Teatro do Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza (ver programa no jornal online O Povo).
Memória, história e media; Imprensa e práticas de poder; Os regimes de excepção e o exercício do jornalismo; Publicidade como espaço de memória e história; Estudos sobre a história dos media no país; A rádio e o quotidiano das cidades; Biografias: entre o jornalismo e a história; Televisão, memória e história; O cinema e a invenção do Nordeste; e conferência de Peter Burke (Universidade de Cambridge) Jornalismo na História - eis as coordenadas principais do encontro. Peter Burke, em entrevista ao jornal O Povo - que eu aconselho a ler na totalidade -, diria, entre muitas outras coisas, que
- Se deixarmos os aspectos técnicos de lado, provavelmente é melhor não nos concentrar no processo de industrialização de forma isolada, mas olhar para as mudanças ao longo dos últimos 200 anos. Nesse caso, o que imediatamente nos vem à cabeça é o processo que, se quisermos, podemos chamar de "democratização", mas, se preferirmos, chamamos de "popularização". Por exemplo, jornais de baixo custo foram comprados e lidos amplamente por membros das classes trabalhadoras dos Estados Unidos e em alguns países da Europa do final do século XIX em diante. Mas esses jornais não eram simplesmente mais baratos, eles também foram remodelados para atender aos apelos de um público mais vasto, adotando um estilo muitas vezes descrito como "sensacionalista". Havia mais fotos, mais carga dramática nas manchetes, notícias mais curtas, menos temas políticos e mais notícias de "interesse humano".
INVESTIGAÇÕES SOBRE RÁDIO

Em texto editado este ano, Michael C. Keith destaca os estudos sobre a história da rádio por académicos e jornalistas. Por exemplo, tem sido dada muita atenção a agências governamentais como a FRC (Federal Radio Commission) e a FCC (Federal Communications Commission). Para os primeiros gestores da rádio, esta era considerada um meio que trazia a igualdade ao mundo. Esperava-se que o meio operasse em termos de confiança pública.
Se, no começo, os académicos e os críticos viam a rádio como um meio experimental, popular e frívolo, após as conversas à lareira do presidente americano Roosevelt, no começo da década de 1930, os académicos viram o meio como uma força cultural e um instrumento de mudança. Depois, um programa radiodifundido no Halloween de 1938, representando uma invasão de marcianos, por Orson Welles, provou o poder do meio.
De entre os trabalhos iniciais, relacionando audiências e radiodifusão, surgem os de Hadley Cantril (1982, Invasion from Mars) e Hugh Malcom Beville (1939, Social ramifications of the radio audience). Censura e liberdade aparecem em Harrison Summers (1939, Radio censorship). Estudos fundamentais seriam os de Hadley Cantril (1982, Invasion from Mars) e Mathew Chappel e Claude Hooper (1944, Radio audience measurement). O livro de Lazarsfeld e Patricia Kendall (1948, Radio listening in America: the people look at radio - again) é uma pedra de toque, enquanto Charles Siepmann (1950, Radio, television, and society) fornece um enquadramento valioso do meio num contexto sociocultural.
Os artigos não focam tanto o papel cultural da rádio e centram-se mais na indústria, na actividade comercial, na sua concretização e nos aspectos de produção. Os livros de Erik Barnouw (1966, 1968, 1970, A history of broadcasting in the United States) discutem tópicos como género, raça, religião. A primeira publicação académica é o Journal of Radio Studies. A história da rádio por Michele Hilmes (1997, Radio voices: American broadcasting, 1922-1952) e algumas monografias de Michael C. Keith (1995, Signals in the air: native broadcasting in America; 1997, Voices in the purple haze: underground radio and the sixties; 2000, Talking radio: an oral history of radio in the television age; 2001, Sounds in the dark: all night radio in American life) são elementos fundamentais para a compreensão da rádio. O livro de Susan Douglas (2000, Listening in: radio and the American imagination) oferece uma compreensão sobre a influência cultural da rádio. E David Hendy (2000, Radio in the global age) associa a influência cultural do meio num contexto global. O capítulo de Keith segue a linha de Michele Hilmes (2001, Only connect: a cultural history of broadcasting) quando ela questiona: qual o contexto do desenvolvimento da rádio? Que mistura de forças sociais, culturais e tecnológicas emergem da rádio?
Depois, Keith analisa os textos publicados sobre história da rádio, a partir dos seguintes elementos: género, raça, religião, família. Se trabalhássemos sobre Portugal, um aspecto como raça seria redefinido por causa do Império colonial, acrescentando-se um outro elemento forte: a censura.
Em termos de política, Keith entende que a explosão do talk radio nos anos 1990 foi responsável pela mudança da paisagem política americana no começo dessa década. Gini Graham Scott (1996, Can we talk? The power and influence of talk shows) emprega uma sondagem de audiência para determinar a influência dos animadores dos talk radios na opinião pública. Richard Hofstetter e Christopher Gianos (1997, "Political talk radio: actions speak louder than words") examinam a hierarquia social dos ouvintes dos fóruns da rádio. Alan Rubin e Mary Step (2000, "Impact of motivation, attraction, and parasocial interaction on talk radio listening") examinam o efeito de atracção, motivação e interacção nos ouvintes dos talk radio.
Leitura: Michael C. Keith (2008). “Writing about radio: a survey of cultural studies in radio”. In Michael C. Keith (ed.) Radio cultures. The sound medium in American Life. Peter Lang: Nova Iorque, Washington, Berna, Frankfurt, Berlim, Bruxelas, Viena, Oxford, pp. 305-308
25.11.08
CONGRESSO DE COMUNICAÇÃO EM PAMPLONA
O XXIII Congresso Internacional de Comunicação (CICOM) da Universidade de Navarra realizar-se-á em 12 e 13 de Fevereiro de 2009, com o título Excelencia e Innovación en la Comunicación.
Segundo a organização: "Na actualidade, as empresas e os profissionais do jornalismo, do entretenimento, da ficção e da comunicação corporativa e publicitária enfrentam a prova da excelência e a qualidade das suas mensagens". Daí, comunicar em todos os meios na era digital implica dispor de modelos editoriais que enriqueçam a procura do público, aprofundem a especialização dos conteúdos, renovem as linguagens e personalizem as ofertas. Por isso, a excelência e a inovação são atitudes com relevância na sociedade.
O congresso, que marca o 50º aniversário da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra, desenvolve-se num momento chave, em que a mudança digital deve estar ao serviço das pessoas, valores e culturas.
Propostas de comunicações até 30 de Novembro de 2008. Em 10 de Dezembro será divulgada a lista de resumos seleccionados. As propostas podem ser enviadas à Secretaria Geral do Congresso: cicom@unav.es. As normas de estilo estão aqui.
OFICINA DE ESCRITA CRIATIVA - ESCREVER NA TELA DE CINEMA
PLANO B
O Plano B funciona na Rua Cândido dos Reis, 30, Porto, ali perto da torre dos Clérigos. Tem inúmeras iniciativas: Concertos, Dança, Teatro, Cinema, Exposições, Festival de Rua e Natal feito à mão. Para ver o programa do Days Off Sound, com coordenação de Ana Borralho e João Galante, clicar na imagem para ampliar.
OFICINA DE PIANO EM MONTEMOR-O-NOVO
NO BRASIL, AUDIÊNCIA PÚBLICA SOBRE CONCESSÕES DE RÁDIO E TV
Na próxima quinta-feira, vai decorrer em Brasília uma audiência pública para debater a renovação das concessões de rádio e televisão, convocada pela Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara dos Deputados do Brasil.
A audiência analisará sobretudo as concessões das emissoras Globo, Record e Bandeirantes (estações em várias cidades do Brasil), com o objectivo de avaliar o serviço prestado durante os últimos quinze anos. A audiência visa ainda propor regras e compromissos para o próximo período de exploração da radiodifusão por essas empresas.
Ao longo do mês passado, diversas organizações realizaram audiências públicas em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, para um melhor conhecimento de situações e envolvimento na sessão do dia 27.
RECORDAÇÃO DE BRASÍLIA (3) - SÍTIOS
A arquitectura de Brasília é utópica. Traçada a régua e esquadro, a Praça dos Três Poderes (legislativo, jurídico, executivo) é o cume dessa utopia. Uma grande alameda parte e desemboca lá, com os edifícios dos ministérios logo acima. O poder legislativo é bicamarário, o que torna mais ampla a discussão pública (espaço público).
A cidade foi inaugurada a 21 de Abril de 1960 pelo presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira. A cidade, ao dividir-se em duas asas (norte, sul), dá uma ideia da modernidade do transporte e do planeamento. O plano urbanístico (Plano Piloto) foi elaborado pelo urbanista Lúcio Costa, que também concebeu o Lago Paranoá. Em simultâneo, fez-se a manutenção e a ampliação do espaço de arborização, com parques da cidade extensos e bem visíveis quando se chega à cidade de avião. As construções mais espectaculares seriam projectadas pelo arquitecto Oscar Niemeyer (ver mais informações na Wikipedia). Os sectores industriais são identificados, caso do sector gráfico, onde está o museu da Imprensa, por exemplo (destacado aqui, no passado dia 11). Aqui, a lógica do património é diferente dos modelos alemão e austríaco da ilha ou bairro dos museus. É grande a distância entre edifícios, apelando ao uso do automóvel (diz-se que em Brasília para um milhão de habitantes há dois milhões de viaturas).
A Universidade de Brasília (UnB) é outro lugar de utopia (entrevistei aqui o Chico Livreiro, fígura ímpar da cultura daquela universidade). Assente num edifício com um quilómetro de comprimento e inicialmente sem departamentos, a Universidade seria pensada como lugar em que todos, universitários e povo, pudessem conversar. O golpe militar de 1964 acabou com a utopia, nascendo a departamentalização. Da fundação, ficou o edifício, o seu enorme jardim e uma certa circulação anárquica. Muito recentemente, a legislação do país introduziu a distribuição por quotas de negros, índios, mulatos e pessoas pertencentes a níveis económicos reduzidos, o que terá impacto próximo na realidade daquela universidade.
À cidade falta o pathos das cidades europeias, de ruas com lojas, de edifícios antigos, de arquitecturas distintas consoante a época em que foram edificados. Há, contudo, quem pense o contrário: a Europa está decadente, o Brasil é um país do futuro, mostrando a diversidade e a miscigenação que Canclini tão bem observou (e de que fiz eco aqui).



24.11.08
TRUTH AND TALES - EXPOSIÇÃO DE ILUSTRAÇÃO DE LIVROS PARA A INFÂNCIA
Ilustração de Pekka VuoriTruth and tales é o título da exposição que amanhã abre na Galeria Palácio Galveias e que se prolonga até 25 de Janeiro 2009, mostrando a ilustração de livros para a infância da Finlândia.
São expostos 106 originais de 29 ilustradores finlandeses de livros para a infância: Jaana Aalto, Aino Havukainen, Sami Toivonen, Tove Jansson, Kaarina Kaila, Liisa Kallio, Erika Kovanen, Inari Krohn, Mika Launis, Jukka Lemmetty, Veronica Leo, Kristiina Louhi, Leena Lumme, Markus Majaluoma, Outi Markkanen, Anne Peltola, Alexander Reichstein, Martti Ruokonen, Christel Rönns, Ville Salomaa, Irmelin Sandman Lilius, Salla Savolainen, Hannu Taina, Virpi Talvitie, Oili Tanninen, Anu Vanas, Julia Vuori, Pekka Vuori e Taruliisa Warsta.
Da informação da organização da exposição, lê-se: "Dirigida a todo o público é concebida especialmente para o público infantil e famílias. Os visitantes são convidados a entrar nos espaços do imaginário dos contos: um grande bosque, uma cidade, o mar, o céu através de uma cenografia construída a partir das ilustrações expostas".
LIVRARIA VIRTUAL DISPONIBILIZA UM MILHÃO DE LIVROS GRÁTIS
A livraria virtual portuguesa Wook.pt vai colocar, a partir de amanhã, um milhão de livros grátis na Internet, segundo a Porto Editora, proprietária da livraria on-line. Livros como A Viagem do Elefante, A Vida num Sopro ou O Priorado do Cifrão estarão disponíveis a preço zero, numa alusão a recentes livros de José Saramago, José Rodrigues dos Santos e João Aguiar. A campanha permitirá "durante três dias, em determinadas horas, disponibilizar um milhão de livros com 100 por cento de desconto". Para acesso a esta campanha é preciso o registo na Wook.pt, ficando atento aos anúncios que assinalam os denominados "Momentos Wook".
Fonte: Notícias Sapo, a partir de despacho da Lusa
A MORTE DE ROGÉRIO DE MOURA

Soube agora da morte aos 83 anos do editor Rogério Mendes de Moura, dos Livros Horizonte.
Recordo as reuniões que ele teve com o CIMJ (Centro de Investigação Media e Jornalismo), pertencia eu então à direcção do centro, para lançamento da colecção com o título exacto de "Media e Jornalismo". A primeira e mais importante dessas reuniões decorreu no amplo escritório que tinha na rua Rodrigues Sampaio, rodeado por muitos livros. Gostei muito do seu empenho; hoje, a colecção é das mais prestigiadas no seu domínio.
Rogério de Moura nasceu em 1925. Em 1953, fundaria a editora Livros Horizonte, começando a ter problemas com a censura, até devido às suas posições políticas que o levaram a entrar no Partido Comunista. Em 1956, é co-fundador da Federação Portuguesa dos Cineclubes e colabora, em 1958, na campanha de Humberto Delgado. Em 1962, funda, com Viriato Camilo, a Editora Prelo, e, em 1964, é eleito para a Direcção do Grémio dos Editores (António Alçada Baptista, Augusto Petrony e Rogério Mendes de Moura). Se, em 1972, é eleito presidente da Direcção do Grémio, em Maio de 1974, é reconduzido, numa altura em que se transforma o grémio em Associação Portuguesa de Editores e Livreiros – APEL. Em 1973, organizava e presidia ao 1.° Encontro Nacional de Editores e Livreiros. Em 1974, seria o editor de Portugal e o Futuro, do general António de Spínola, livro que abalou o regime político de então. Em 1977, aos 52 anos de idade, terminaria a Licenciatura em Filosofia, ano em que co-fundou a Sociedade Portuguesa de Filosofia. Da sua biografia, registam-se outros dois elementos marcantes, um, em 1980, quando abandona o Partido Comunista, outro, em 1998, quando, conjuntamente com o senhor Cardeal Patriarca D. José Policarpo, conduz o processo de reabilitação do Padre José da Felicidade Alves. Em 2006, receberia o prémio "Carreira – Fahrenheit 561", atribuído pela União dos Editores Portugueses.
O seu funeral será amanhã, dia 25 de Novembro, às 15:00, na Basílica da Estrela.
A CURIOSIDADE MATOU O GATO

A. passou a mão por uma área do quadro, uma colagem com veludo. As quatro camadas de verniz tornaram o veludo tão áspero como a lixa.
Ao lado do quadro, havia um boião que, em vez de rebuçados ou chocolates, tinha tiras de papel enrolado. Traria frases ou horóscopos ou desenhos? A. tirou uma e outra e outra tira. Como estavam todas em branco, pegou numa esferográfica, escreveu numa das tiras "A curiosidade matou o gato" e voltou a meter a tira de papel no boião.
A exposição tinha muitos quadros e havia muita gente. Mas distinguiam-se os pintores: roupas de cores vivas, penteados fora do comum, olhar filosófico. A tarde chegava ao fim e o vento frio entrava pela porta, vigiada por um segurança.
A Arte Lisboa, inaugurada na Feira Internacional de Lisboa no dia 19, acaba hoje (história original de A.).
CONTRIBUTO PARA A HISTÓRIA DA RÁDIO EM PORTUGAL - A RDP HÁ 30 ANOS
Combate político e primeiro estudo científico de audiências - eis dois ângulos que eu encontro ao analisar documentos de 1978, 1979 e 1980 sobre a rádio pública portuguesa [para ler, clicar em cima das imagens].
O combate político cabe a dois textos editados no Diário de Lisboa, vespertino já desaparecido. O primeiro é de Estrela Serrano (26 de Maio de 1979), intitulado "Uma ética para a RDP". Retiro um parágrafo: "A RDP, ao fazer-se veículo de conteúdos que nada têm a ver com os interesses mais prementes dos portugueses, está a alienar as suas verdadeiras funções como Rádio pública, ao serviço do povo que a usa e paga. Sabe-se que nenhum outro meio tem a capacidade de atingir tantas pessoas de maneira tão eficaz".
O segundo texto, de Emídio Rangel (24 de Maio de 1980), tem o título "RDP, ou a Informação trazida pela trela". Extraio uma parcela: "Na Radiodifusão Portuguesa, em pouco mais de três meses, grande parte da hierarquia intermédia foi alterada. Colocaram-se não só nos «postos-chave», mas mesmo em lugares de reduzida importância, pessoas de confiança política sem qualquer respeito por critérios de competência; afastaram-se das suas tarefas habituais profissionais qualificados".
Um pouco antes, a rádio pública editava o documento "Audiência e Opinião sobre a Rádio" (Verão de 1978). Aí se toma conhecimento que o primeiro estudo de audiência e opinião realizado sobre a RDP datou de 1977, e o segundo estudo foi feito em Junho de 1978, cabendo à Norma "as operações de recolha e tabulação mecanográfica dos dados" (p. 10) e ao Gabinete de Estudos da RDP a concepção do estudo e o controlo metodológico. Seriam feitas 3500 entrevistas no continente, 875 na Madeira e 840 nos Açores.
Então, já lá vão 30 anos, cerca de 10% da população do continente não tinha qualquer contacto com os media (imprensa, rádio, televisão). Em pelo menos três dias por semana, 24% liam um jornal diário, 62% ouviam rádio e 67% viam televisão. Cerca de 15% leram dois livros nos últimos três meses e 11% iam ao cinema pelo menos duas vezes por mês. 14,7% (995 mil pessoas) escutavam o canal 3 da RDP, 14,2% (965 mil pessoas) escutavam a Rádio Renascença, 12,2% (826 mil pessoas) escutavam o canal 1 da RDP e 2,7% (186 mil pessoas) escutavam o canal 4 da RDP.
Ainda não tinha chegado o movimento das rádios livres ou piratas, em meados da década seguinte, a Rádio Comercial pertencia então ao grupo da RDP, nacionalizada três anos antes, e a RFM iria emergir depois para, lentamente, tomar conta da liderança das audiências.


23.11.08
ESTRATÉGIA PARA A CULTURA EM LISBOA
Realizou-se ontem em Lisboa a primeira maratona em torno do projecto Estratégia para a cultura em Lisboa, uma encomenda da Câmara Municipal de Lisboa à Dinâmia, Centro de Estudos Sobre a Mudança Socioeconómica, entidade que organizou o evento de ontem. Havia sete temas em análise, cada um com duas horas de duração e com cerca de 20 pessoas em cada: criar, lembrar, distribuir, conhecer, participar, planear e representar. Eu assisti à mesa conhecer e participei na mesa distribuir (as minhas notas seguem a discussão nessas mesas).
As perguntas de partida eram: 1) quais os principais problemas com a cultura na cidade de Lisboa, 2) que soluções/medidas sugere (actividades, projectos, recursos), e 3) o que estaria disposto a fazer nesse sentido (próprio e/ou a sua instituição). Além das sessões de ontem, projectam-se mais reuniões durante Dezembro e Janeiro de 2009, com estes e outros temas e com estas e outras pessoas, numa reconfiguração capaz de dar mais dinamismo e profundidade ao projecto. Grandes objectivos a alcançar: mobilização e participação dos agentes culturais nas grandes decisões públicas.
Na mesa conhecer, a consultora Catarina Vaz Pinto levantou dois tópicos centrais: 1) acesso ao conhecimento (literacia, cultura, educação para a cidadania), 2) criação de competências (formação artística e técnica). Dessa sessão, muito rica em conteúdo, destaquei três tipos de agentes culturais: as escolas superiores de artes e cultura, com a apresentação dos seus portefólios de cursos, procurando o entrosamento entre a academia, o município e a cultura; os agentes mais identificados com programas da própria câmara ou do Estado, frisando experiências; os investigadores, apelando a uma definição dos conceitos, casos de indústrias criativas, que não podem ser mera transposição mas precisam de adaptação nacional.
Na sessão conhecer, evidenciaram-se ainda a necessidade de interligar cultura e tecnologia, de conhecer melhor experiências como as de Glasgow, Singapura e Barcelona, de ter novas práticas e novos públicos, de incrementar relações de vizinhança caso de escolas numa mesma área geográfica (como o IADE, a ETIC e a Escola de Joalharia) e de outras actividades (lojas de design, por exemplo), aproveitar os alunos Erasmus, futuros embaixadores da cidade, melhor percepção da ideia de globalização e das cidades enquanto locais de criação e do conhecimento (por oposição a cidades de informalidade, que crescem em número de habitantes mas não crescem em massa crítica artística e intelectual), envolvimento das gerações mais novas (e das novas formas artísticas mesmo que menos legais como o graffiti), renovação da zona ribeirinha, com espaços de lazer e encontro, desafio às universidades e empresas para colaborarem no projecto de revitalização da cultura em Lisboa, articulação de festivais (cinema, teatro, música) com outros agentes económicos numa vertente de externalidades (o restaurante, o hotel e os transportes ganham se houver um festival).
Um outro consultor presente na mesa, Rui Tavares, considerou que, para se chegar a uma nova cultura, é preciso uma nova economia a qual assenta numa nova cultura de conhecimento. Historiador, ele precisou a ideia de centro da política e do centro topográfico que Lisboa é, em simultâneo. E lembrou os políticos do iluminismo e do liberalismo, que olharam o centro da cidade e lhe conferiram poder simbólico, com edifícios opulentos. Recordou algumas decisões que poderão ter sido menos adequadas: a Escola Superior de Cinema e Teatro migrou da cidade para a Amadora, a cidade universitária deixou a Baixa e está deserta aos fins-de-semana, com o jardim a ser local de difícil acesso, rodeado que está por faixas de circulação de automóveis.
O terceiro consultor presente, Nuno Crato, deu algumas sugestões, simples mas que interessa desenvolver: melhoramento de espaços públicos, embora a orografia de jardins e espaços como o Parque Eduardo VII ou o Técnico ofereça dificuldades, colocação de facilidades de wireless em certos pontos da cidade como forma de atrair jovens com os seus computadores portáteis (a tecnologia das empresas de telemóveis, entretanto, já tem uma oferta que ultrapassa essa barreira), concursos de ideias (calçada portuguesa, reactivação do relógio do Cais do Sodré, que representa a hora legal).
Na sessão distribuir, o consultor António Pinto Ribeiro falou da importância da discussão de projectos numa base factual e não ideológica, do contributo das tecnologias nos acontecimentos culturais e da eventual necessidade de uma nova Lisboa capital da cultura e de uma casa de cinema, capaz de albergar festivais com regularidade e muita frequência, numa lógica temporal organizada. Outro dos consultores, Nuno Artur Silva, defendeu ser fundamental sair-se do palácio da Mitra, local do encontro, com uma lista de coisas concretas (o que fazer, o que não fazer).
Os participantes da sessão, muitos oriundos da produção de espectáculos, salientaram a falta de espaços para produções independentes - música, cinema, dança -, da recuperação de palácios em degradação e sua transformação em espaços para a arte, da falta de visibilidade das suas realizações em mupis e na televisão, da oportunidade de trazer espectáculos e rotas culturais para Lisboa, da atracção de públicos quer residentes quer turistas, da necessidade de prolongar as actividades para além de um festival de três ou quatro dias aproveitando as equipas e as competências adquiridas e os novos hábitos de consumo, as externalidades (benefícios que algumas actividades obtêm de outras actividades, no sentido de clusters), atendendo sempre à escala do país e da cidade (limite de públicos, limite de poder de compra), o arrendamento a preços adequados a artistas de vanguarda e a jovens artistas, relevo para a notável produção musical no actual momento em Lisboa que torna atractiva a cidade para viver e trabalhar, o peso dos media como elementos de transferência da informação associado a serviços educativos de teatros, museus e outros espaços de criação e representação.
Uma das propostas foi a de considerar Lisboa o vértice de um triângulo que passa pelo Brasil e pela África de língua portuguesa, capaz de dinamizar um evento de forte impacto que trouxesse visitantes da Europa e de outros pontos do mundo e dentro da perspectiva que o mercado é um factor de cooperação e estímulo de formas de co-produção. Se o município não pode criar um mercado do audiovisual, ele pode incentivar condições para a visibilidade de acontecimentos culturais e para a facilitação de alguns desses acontecimentos.
Na sua síntese, Nuno Artur Silva destacou quatro pontos: 1) mais espaços, com recuperação de alguns, 2) circulação, com atenção à segurança e ao trânsito, 3) divulgação, com a criação de um canal net de televisão, com um editor mínimo capaz de assegurar a coerência e a organização do projecto, e 4) activadores de novos centros de actividade cultural (caso dos pólos da Parque expo, festival IndieLisboa).
A equipa de investigadores da Dinâmia, a promotora do estudo, é constituída por Pedro Costa (coordenador e presente no pequeno vídeo que fiz), Tânia Jerónimo Teixeira, Bruno Vasconcelos e Miguel Magalhães. Da equipa de consultores-peritos fazem parte António Pinto Ribeiro, Carlos Martins, Catarina Vaz Pinto, Delfim Sardo, Idalina Conde, João Seixas, Nuno Artur Silva e Rui Tavares.
[a discussão tida ontem foi conduzida no palácio da Mitra, à rua do Açúcar, de onde tirei as imagens abaixo]




22.11.08
ALICE VIEIRA ONTEM NA TERTÚLIA VIA LATINA
Ontem, a jornalista e escritora Alice Vieira falou sobre jornalismo e literatura (infantil, juvenil e para adultos), na galeria Matos Ferreira, na rua Luz Soriano, 18, em Lisboa. A tertúlia foi organizada pelo blogue Via Latina, que permitiu a reprodução do vídeo.
21.11.08
ALICE VIEIRA HOJE NA TERTÚLIA VIA LATINA

Ela vai falar, às 21:30, na Galeria Matos Ferreira (Rua Luz Soriano, 18, Lisboa). Uma realização do ciclo de tertúlias organizado pelo blogue Via Latina.
Para justificar a sua actividade como escritora, Alice Vieira fala de uma culpada, a sua filha Catarina. Um dia, a criança, então com nove anos, terá dito: "Já li todos os livros que há para ler. E agora, o que é que leio"? A mãe decidiu escrever um livro em conjunto com a filha. Meteu papel à máquina de escrever e saíu a seguinte frase: «Quando a minha irmã nasceu o meu desapontamento foi tão evidente que a minha mãe, abafada entre lençóis e cobertores da cama do hospital, me disse: Ela vai crescer num instante»! Era o começo do primeiro capítulo do livro Rosa, minha irmã Rosa. Ganhou o prémio de Literatura Infantil Ano Internacional da Criança (1979), dividiu-o com os filhos e fizeram em conjunto uma viagem à Grécia. Depois, em 1983, com Este Rei que Eu Escolhi ganhou o Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura Infantil e em 1994 o Grande Prémio Gulbenkian, pelo conjunto da sua obra.
Nascida em 1943 em Lisboa e licenciada em Germânicas (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), começou a escrever nos jornais em 1958 (Suplemento Juvenil do Diário de Lisboa). A partir de 1969 dedicou-se ao jornalismo profissional.
ESTRATÉGIAS PARA A CULTURA EM LISBOA
Ontem, foi feita a apresentação do projecto - a que não me foi possível comparecer -, com Rui Tavares, Pedro Costa (coordenador do projecto, Dinâmia/ISCTE) e Vladimir de Semir (Comissário para a Cultura Científica de Barcelona).
Amanhã, tem lugar a primeira sessão pública, uma autêntica maratona, no Palácio da Mitra, a partir das 14:30, com sete temas: criar, lembrar, distribuir, conhecer, participar, planear e representar.
FOTOGRAFIA DE ESPECTÁCULO
Workshop por Susana Paiva, a partir de 19 de Janeiro de 2009, na Casa da Esquina, Associação Cultural, à Rua Aires de Campos, 6, em Coimbra (e-mail: Casa da Esquina).
Segundo a organização: "Falar de fotografia de espectáculo é falar de uma disciplina tão vasta e complexa como o seu objecto – um caleidoscópio de práticas e metodologias transversais que abarca todas as possíveis especializações fotográficas. Da arquitectura do efémero ao retrato dos actores e criativos, passando pela fotografia de espectáculo, se espelha na perfeição essa forma de Arte Total que está longe de se esgotar na fotografia de cena".
DAILY MIRROR
Está já disponível o acesso digital online aos arquivos do jornal Daily Mirror, de 1903 em diante. Igualmente podem aceder-se aos arquivos do Daily Express, Sunday Express, Daily Star e Daily Star Sunday. Procurar em ukpressonline.
O FIM DA BYBLOS
Os jornais de hoje dão conta do encerramento da loja de 3300 metros quadrados e mais de 150 mil títulos. A Byblos abriu como espaço de fundos bibliográficos, de livros já não existentes à venda ao público nas outras livrarias. Mas não chegou a completar um ano de vida. 50 colaboradores ficam sem emprego.
Foi um sonho no panorama livreiro do país, mas a ausência de accionistas e de clientes decretou o seu fim. A Byblos ficava numa excelente área comercial, com muitos escritórios à volta e mesmo do outro lado da rua do centro comercial Amoreiras, igualmente perto do bairro de Campo de Ourique, um dos mais bonitos da cidade.
20.11.08
NOVO LIVRO DE TIAGO BAPTISTA

Tiago Baptista trabalha como conservador do Arquivo Nacional das Imagens em Movimento (ANIM) da Cinemateca Nacional - Museu do Cinema, tem o mestrado e publicou nomeadamente As Cidades e os Filmes. Uma biografia de Rino Lupo, editado na Primavera deste ano e do qual eu fiz, em Outubro passado, uma curtíssima nota.
Agora, ele brinda-nos com um belo livro da editora Tinta da China intitulado A Invenção do Cinema Português. Livro-álbum como os de Luís Trindade a que também já aludi aqui no blogue, em que o texto é acompanhado de muitas imagens de fotogramas e cartazes de filmes fundamentais da produção nacional, Tiago Baptista organiza de modo agradável a história desta indústria cultural. Divide-a em quatro partes: 1) "Espelho da Nação", com Aurélio Paz dos Reis, Rino Lupo, Leitão de Barros, Cottinelli Telmo, Lopes Ribeiro e outros, 2) "Uma Ideia Nova de Cinema, uma Ideia Velha de País", com Manoel de Oliveira, Paulo Rocha, Fernando Lopes, Fonseca e Costa e outros, 3) "O Primo Afastado da Europa", lugar central dado a Manoel de Oliveira, mas também com António-Pedro Vasconcelos, João Botelho, João César Monteiro, e 4) "Outros Países", com Joaquim Leitão, João Canijo, Pedro Costa, Miguel Gomes e outros. A introdução tem uma designação feliz - "O Cinema Português Sempre Existiu" -, uma oposição a um título do seu presidente da Cinemateca, João Bénard da Costa, que escreveu O Cinema Português Nunca Existiu (1996).
Cada uma das partes do livro está bem delineada. Assim, a passagem de 1) para 2) reflecte a transferência do ambiente rural ou da rua ou bairro popular, onde todos se conhecem e solidarizam mas se espiam, para a cidade inóspita, de relações interpessoais mais intensas e frágeis, da filmagem em estúdio para a rua, as cores vivas e os ruídos urbanos. 3) e 4) são períodos em que o cinema, segundo Tiago Baptista, identifica um crescendo da complexidade e do engenho das relações humanas, dos finais nem sempre felizes, da densidade das atmosferas das lutas, algumas certezas e muitas dúvidas. Cada realizador aparece identificado com uma obra marcante, embora alguns apareçam repetidos como Manoel Oliveira ou Paulo Rocha, tal a importância destes autores.
Ainda não li o texto todo, mas registo a importância da obra. E anoto uma ausência: não escreve sobre João Mário Grilo.
Aqui, no blogue, tenho acompanhado a actividade de Tiago Baptista, a partir do momento em que o ouvi no ciclo Cultura de massas em Portugal no século XX, iniciativa do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (Universidade de Coimbra) e do Instituto de História Contemporânea (Universidade Nova de Lisboa) que se realizou no ano lectivo de 2006-2007 e se repetiu no de 2007-2008. Foi uma actividade de grande importância, pois conheci jovens investigadores de uma grande qualidade teórica e de uma elevada cultura, de que destaco o autor do livro aqui enunciado e Luís Trindade, sem desprimor para o restante conjunto. O vídeo a seguir mostra uma parcela do que Tiago Baptista então apresentou [e a minha inabilidade na época, sem saber colar planos, registando períodos curtos pois o cartão tinha pouca memória, contra a luz].
O CICLO DO SOFTWARE SOCIAL
Primeiro vi no blogue de Paulo Querido, depois segui o rasto do ciclo de software social e coloquei aqui no blogue (para ver melhor, clicar em cima da imagem).

Os esquemas valem o que valem, mas podemos especular um bocado com eles. Em primeiro lugar, o esquema da Gartner, que se lê da esquerda para a direita, mostra um modelo crescendo da tecnologia de ponta para um pico de expectativas (2 a 5 anos de existência), a que se sucedem um período de desilusão e um outro de recuperação (dez anos de vida). Uma tecnologia inovadora torna-se moda, é namorada e estimada por toda a gente, mas ao perder o brilho da novidade desaparece ou amadurece e permanece. Em segundo lugar, a curva da Gartner lembra a cauda longa de Chris Anderson: os grandes números (vendas) estão à esquerda, mas a consolidação faz-se à direita do esquema.
Assim, a minha leitura conclui-se com a moda e o brilho da juventude tecnológica nas redes sociais, microblogging, marketing comunitário, portabilidade social, plataformas de aprendizagem social, por esta ordem decrescente de brilho da moda. À direita, os wikis e os blogues, que já não são moda mas estão firmes e projectam uma longa vida, ultrapassando assim a fase da desilusão e entrando na era do renascimento (ou iluminismo, ou sabedoria, ou negócio, como queiram traduzir e aplicar a palavra enlightenment).
ENCONTRO DE BLOGUES NO "JORNAL DE NEGÓCIOS" DE HOJE
INSCRIÇÕES NO PISA-PAPÉIS 2009/2010
Roteiro das artes do espectáculo. Aqui está o vídeo de promoção desse roteiro, com inscrições até 21 de Dezembro.
A procurarte.org, entidade que organiza o roteiro, é uma associação cultural e social que fica no Largo Vitorino Damásio, 3, 4º dir., em Lisboa.
10 ANOS DA LIVRARIA MINERVA GALERIA, EM COIMBRA

Desejo parabéns e felicidades à Livraria Minerva Galeria, e a Isabel e a José Alberto Garcia, pelos 10 anos da Livraria Minerva Galeria, na rua de Macau, em Coimbra, assim como pelos 23 anos da Livraria Minerva (alfarrabista), na Rua dos Gatos, 22 anos das Edições MinervaCoimbra e 16 anos da Livraria Minerva da Faculdade de Letras (ver blogue da MinervaCoimbra).
Dentro do programa de comemorações, será inaugurada uma exposição com obras de muitos dos artistas que ali têm exposto, casos de Ana Rosmaninho, António Menano, Artur Bual, Colette Vilatte, Hans George Schüssler, João Berardo, Lena Gal, Lúcia Maia, Maluda, M. Helena Toscano, Marco Rooth, Mário Silva, Miguel Barbosa, Paula Rego, Pedro Charneca, Pinho Dinis, Rebelo, Rui Cunha, Santiago Ribeiro, Sérgio Sá, Silva Duarte e Vasco Berardo, a decorrer no próximo sábado pelas 18:00.
Já participei em debates na livraria, sobre blogues, por exemplo. E a MinervaCoimbra editou dois livros meus, o que jamais esquecerei.
19.11.08
COLECÇÃO DE FOTOGRAFIAS DA REVISTA LIFE DISPONÍVEL ONLINE
Desde ontem que 20% do total das fotografias existentes no arquivo da já desaparecida revista Life está disponível na Internet, através da Google (a partir de informação da newsletter de hoje do European Journalism Centre). A porta-voz da TimeInc, Dawn Bridges, disse que o arquivo inteiro ficará disponível até Abril do próximo ano.
Trata-se de uma das maiores colecções de fotografias existentes no mundo e de um dos mais importantes arquivos do século XX: 10 milhões de imagens, em que 97% nunca foram vistas!
CORPO E SIGNOS - CORPS ET SIGNES
COLÓQUIO INTERNACIONAL DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
No centenário do nascimento de Claude Lévi-Strauss e Maurice Merleau-Ponty, a decorrer nos dias 20, 21 e 22 de Novembro 2008, no Auditório do Instituto Franco-Português, à Av. Luis Bívar 91, Lisboa.
A Comissão Científica é constituída por António Bracinha Vieira, José Luís Garcia, Jean-Yves Mercury, Nuno Nabais e Diogo Sardinha.
LOJA DE LISBOA
As imagens são do blogue Lisboa na ponta dos dedos, de Sancha Trindade, que permitiu a reprodução aqui. Escreve a autora do blogue: "abandonada há vários anos, estão finalmente a recuperar a mais bonita loja da Rua da Conceição. E dizem que vão manter os estuques".

RECUPERAÇÃO DE PATRIMÓNIO EDIFICADO EM BRAGA

O blogue Município de Braga dá conta do trabalho de recuperação do revestimento azulejar da escadaria nobre do Convento do Pópulo (século XVI).
A apresentação pública é hoje às 12:00.
18.11.08
1967 - O ANO QUE MUDOU A RÁDIO NOS ESTADOS UNIDOS
Na história da rádio americana, 1967 é um ano charneira, como o propõem dois livros que agora trago à discussão. Um é de Jack W. Mitchell (Listener supported. The culture and history of Public Radio, 2005).
Depois da programação com interesse público da rádio Pacifica na década de 1960, e com influência da BBC inglesa em especial o Terceiro Programa, que alimentam os gostos de minorias culturais, a rádio pública americana surge em Abril de 1967. Um comité do Senado para os assuntos comerciais conseguiu fazer aprovar uma proposta do presidente Lyndon Johnson, após uma longa disputa terminológica entre televisão e audiovisual (esta palavra a incorporar a rádio). Surgia a National Public Radio (NPR).O papel de Mitchell é fundamental na NPR. Nascido em 1941, trabalhou na rádio da universidade de Michigan (WUOM), onde estudava. A CPB (Corporation for Public Broadcasting), entidade que suportaria financeiramente a NPR, convidou Mitchell a trabalhar no novo conceito de rádio pública e enviou-o para o Reino Unido para trabalhar e estudar na BBC durante um ano. Após o regresso aos Estados Unidos, Mitchell tornou-se o primeiro empregado da NPR. Confessa ele que, sendo o primeiro empregado, foi o “primeiro” em muitas coisas. Por exemplo, foi produtor do programa All Things Considered, um dos esteios da informação da rádio pública. Foi também membro do conselho directivo da NPR, numa altura em que geria rádios no Minnesota e no Wisconsin. Mais tarde, enquanto docente universitário, pôde perceber melhor os movimentos e as tendências da rádio pública.
1967 é também o ano da marca de água do livro de Jim Ladd (Radio waves. Life and revolution on the FM dial, 1991). Escrito como se fosse um diálogo ininterrupto e romanceado, é uma viagem à própria experiência de Ladd, dee-jay desde o ano mítico de 1967 e uma figura notória da cena radiofónica da Califórnia. Se Mitchell conta uma história maioritariamente ocorrida na costa leste americana, Ladd dá-nos o contraponto da costa oeste, no Pacífico.
Foi em 1967 que Ladd e outros pioneiros lançaram rádios de rock and roll em FM. Na introdução ao livro, Don Henley fala de San Francisco, dos hippies, do consumo de ácidos, LSD e outras drogas, do álbum dos Beatles Sergeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band e da contracultura (de costa a costa, de Boston a Los Angeles). O FM era superior ao AM em qualidade de transmissão e começava a usar a estereofonia.Ladd recorda, no primeiro capítulo, a rádio KAOS, em 94.7 MHz, bem como a KFRE, animada pelo portentoso (em dimensão física) Tom Donahue (1928-1975) e pela sua futura segunda mulher, Raechel Hamilton, de 18 anos, com menos de metade da idade daquele. Grateful Dead, Jefferson Airplane, Janis Joplin, Jimmy Hendrix e Doors, entre muitas outras bandas, tocavam na rádio com uma abundância não vista anteriormente. O formato American Top 40, apanágio das rádios de AM, onde passavam os discos mais vendidos, era substituído por aquilo a que Ladd chama de corrente da contracultura ou underground e que rapidamente se estendeu aos Estados Unidos no seu conjunto (e também chegou a Portugal; vide o programa Em Órbita). O dia do arranque foi 7 de Abril de 1967. Tom e Raechel faziam tudo: tocavam os discos, falavam, atendiam o telefone. De rádio falida, a KFRE passou a ser o farol do novo estilo FM, angariando novos patrocinadores e tendo logo imitadores, como a WOR (Nova Iorque) e a WBCN (Boston). De San Francisco, Tom e Raechel foram logo depois destacados para dinamizar outra estação, agora em Pasadena. Estava-se em Outubro de 1967.
A KDOM, de Ladd, começava igualmente a ser conhecida, irradiando a partir de Los Angeles. Era ainda o tempo dos discos em vinil, que permitiam fazer habilidades como colocar a agulha no disco através de um botão de comando ou manualmente, procurando acertar na espira certa. Ladd apresentou uma demo de programa e foi admitido, passando, à noite, as músicas que mais gostava, desde Led Zeppelin a Beatles ou Ravi Shankar, música que significava para ele uma perspectiva geracional única (p. 23), com canções sobre o movimento pacifista, direitos civis, Vietname.
FESTA DO CINEMA PERIFÉRICO
17.11.08
ANA PIMENTEL
Na ARTE LISBOA – Feira de Arte Contemporânea (Pavilhão 4 do recinto da FIL, Parque das Nações, Lisboa), de 19 a 24 de Novembro.

Para saber mais da pintora, ver o blogue dela.
ESTRATÉGIAS PARA A CULTURA EM LISBOA
Colóquio e discussão pública no dia 20 de Novembro.
A TELEVISÃO SEGUNDO FRANÇOIS JOST

François Jost tem um blogue, o Comprendrelatele, onde analisa a actualidade, a entrevista, os noticiários e a programação televisiva. No passado dia 22 de Outubro, ele respondeu a perguntas de Jair Fernandes Melo, do jornal brasileiro A Tarde (ver aqui, com tradução de Simone Ribeiro). Uma das perguntas foi: "Em seus livros, o senhor aponta três mundos onde se inserem os programas de televisão: real, ficção e jogo. Os reality shows são uma mistura deles três"?
Respondeu François Jost:
- A novidade relativa da telerrealidade é que ela se presta melhor a variadas interpretações que os programas antecessores: quando a versão francesa do Big Brother foi lançada (Loft Story), o produtor e a mídia o ancoraram na realidade. Depois eles recuaram diante das críticas de que o programa forjava o conteúdo e se defenderam “não, isso não passa de um jogo”. Hoje, os animadores apresentam com freqüência alguns desses formatos como se fossem uma brincadeira. Depois foi pedido aos candidatos para parecer aquilo que eles não eram: por exemplo, um maçom se fazer passar por um milionário (Joe Milionário). Em O Incrível Noivo, um comediante fazia sem o conhecimento da candidata o papel de um rapaz detestável para desagradar a seus pais. A telerrealidade, portanto, pouco a pouco se transformou em ficção. Do ponto de vista da recepção, é a mesma incerteza: algumas pessoas tomam esses programas por realidade, outros por um jogo, de acordo com o grau de conhecimento que se tem da fabricação do programa. Eu não diria que os reality shows são uma mistura dos três mundos, mas talvez que possam ser deslocados de um lado para o outro segundo os diferentes atores da comunicação.
O livro de Jost, Seis Lições sobre Televisão (2004), oferece uma leitura semiótica sobre o meio audiovisual. Dividido em seis capítulos, correspondentes ao mesmo número de aulas, nota-se um crescendo teórico no seu texto. Assim, a um primeiro capítulo sobre comunicação televisiva, Jost apresenta a dicotomia de modelos de contrato e de promessa. No segundo capítulo, ele fala de três mundos do meio: real, fictício e lúdico. Na terceira aula assiste-se à aplicação das oposições anteriores ao reality-show, enquanto na quarta aula Jost interroga a origem da ficção através da escrita de John Searle. Se a quinta aula se posiciona entre a ficção e a realidade, a partir de um texto de Käte Hamburger, no sexto capítulo o autor vai buscar inspiração a Gérard Genette, autor que estudou profundamente.De Genette retira, por exemplo, a noção de tempo, decomposta em ordem, duração, frequência. Genette trabalha também a categoria de focalização, a relação de conhecimento entre o narrador e a personagem (p. 128). O conhecimento do narrador é maior que o conhecimento das personagens (focalização zero), tanta como a das personagens (focalização interna) e menor que a personagem (focalização externa).
Um outro conceito que Jost operacionaliza é o de contrato, usado por analistas do discurso e por semióticos. Fala-se, por exemplo, de contrato com o leitor. Em televisão, diz ele, contrato pode definir o acordo pelo qual emissor e receptor reconhecem que se comunicam e o fazem por razões compartilhadas (p. 9). Mas se o número de receptores se alarga, por exemplo, para um milhão, esse contrato torna-se difícil de compreender. Por isso, Jost propõe a sua substituição pelo modelo de promessa. Dá o exemplo da comédia, que existe para fazer rir, ou do "ao vivo", que ilustra a autenticidade e simultaneidade do momento.
Leitura: François Jost (2004). Seis lições sobre televisão. Porto Alegre, Rio Grande do Sul: Editora Sulina
EXPRESSO DEDICADO À TELEVISÃO

A "Única", revista do Expresso, dedicou o seu número do passado sábado à televisão. Como se trata de uma revista orientada para o lazer e a informação leve, não se podiam esperar textos profundos. Mas vale a pena guardar.
"Pedimos desculpa por esta interrupção, o programa segue dentro de momentos", a mensagem que a RTP transmitia quando havia uma quebra de emissão, é o começo da análise jornalística à televisão. Que salta para uma entrevista a Mário Crespo, o jornalista de 62 anos que conduz diária e magistralmente o noticiário das 9 da noite na SIC Notícias.
Apaixonado pela história dos media, registo o texto de Rui Cardoso sobre as datas mais importantes da televisão portuguesa. Começa o texto assim: "Em 1957, ter televisão era como ter carro próprio: uma raridade". Muitos anos depois, isso é história.
AINDA O IV ENCONTRO DE BLOGUES
Já se publicaram na internet, que eu saiba, as seguintes comunicações do IV Encontro de Blogues: Cultura bloguer, de José Luis Orihuela, Para uma cultura da colaboração em rede, de Mário Pires, Uma nova forma de cultura: a blogosfera na primeira pessoa do singular, de Lauro António, O fim da blogosfera, de Paulo Querido, A "e-Biblioteca de Babel", de Dora Santos Silva, e Os profissionais de comunicação portugueses na blogosfera: temáticas e propósitos, de Elisabete Barbosa.
16.11.08
NELSON RIBEIRO
É o perfil do futuro de hoje da revista "Pública" (Público).

Tem 32 anos, é director de programação da Rádio Renascença (e meu colega da Universidade Católica, onde ensina, entre outras coisas, História dos Media, cadeira que reparte comigo). Concluiu licenciatura e mestrado na Universidade Católica, com teses orientadas por Isabel Férin, já publicadas em forma de livro (A Rádio Renascença e o 25 de Abril, Universidade Católica Editora, 2002; A Emissora Nacional nos Primeiros Anos do Estado Novo, 1933-1945, Quimera, 2005). Prepara doutoramento na Lincoln University, orientado por Brian Winston (ver mensagem minha sobre este autor aqui), com o tema da utilização da rádio em Portugal durante a II Guerra Mundial.
Sobre a relação AM/FM, responde à jornalista Sofia Branco: "Hoje ainda há pessoas que se queixam de não ouvir a RR em onda média! Em Espanha há muitas rádios a funcionar em onda média. Nos EUA é brutal. Em Portugal começou a morrer porque não transmitia nada de diferente da FM".
CITAÇÃO
- As faculdades que têm uma forte componente de Humanidades, que são fundamentais para a formação das elites, para a reflexão sobre o destino e a identidade do país, são muito penalizadas.
ALICE VIEIRA EM TERTÚLIA NA GALERIA MATOS FERREIRA NO DIA 21
Organizado pelo blogue Via Latina, a escritora Alice Vieira estará na próxima sexta-feira, dia 21, pelas 21:30, na Galeria Matos Ferreira (Rua Luz Soriano, 18, ao Bairro Alto). Darei mais detalhes em breve.

[na imagem, pormenor da galeria, actualmente com uma exposição de pintura de António Flores]
EXPOSIÇÃO DE ALEXANDRA DE PINHO

Em Moura, a partir de 22 de Novembro, na igreja do castelo. Para saber mais da pintora, nascida em 1976, ver o blogue dela, de onde retirei uma imagem da série Umbigos: Objectos perdidos #8 (Desenhos, tecidos e resina de poliéster) 40x40cm (2007).
Alexandra de Pinho foi vencedora do Prémio Revelação dos Prémios Salúquia às Artes 2007. "Com periodicidade bienal, o concurso tem como objectivo promover as artes plásticas no país e nos municípios vizinhos de Espanha como Encinasola, Rosal de la Frontera, Paymogo, Cheles, Olivença, Vila Nueva del Fresno, Alconchel e Valença del Mombuey" (retirado do blogue Portal de Moura).
RECORDAÇÃO DE BRASÍLIA (2) - SÍTIOS E MERCADINHO JUNTO À TORRE DA ANTENA DE TELEVISÃO
ILUMINAÇÕES DE NATAL
As iluminações já enchem Lisboa. As ruas do Chiado e da Baixa estão ainda mais bonitas, com algumas lojas abertas à noite, caso das livrarias do Chiado. Vale a pena passar por lá, comprar um livro ou outro artigo, tomar uma bebida ou simplesmente passear.




15.11.08
CINEMA ATRAVÉS DA CRÍTICA
JOSÉ LUIS ORIHUELA NO IV ENCONTRO DE BLOGUES
Ontem, de manhã, José Luis Orihuela (Universidade de Navarra) proferiu a conferência inaugural do IV Encontro de Blogues, intitulada Cultura Bloguer.
O vídeo recorda os 12 minutos iniciais da sua comunicação. Valeu a pena ouvi-lo.
RECORDAÇÃO DE BRASÍLIA (1) - PEQUENA CONVERSA COM CHICO LIVREIRO (UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA)
14.11.08
APONTAMENTO SOBRE O ENCONTRO DE BLOGUES
Lauro António (cineasta) falou da capacidade democrática que é a blogosfera - o seu texto pode ser lido na totalidade no seu blogue Lauro António Apresenta. Dora Santos Silva (mestranda da Universidade Nova de Lisboa) partiu do conceito de indústrias culturais e traçou dez elementos fundamentais do jornalismo cultural. Ricardo Tomé (RTP) destacou a pluralidade de meios de internet onde a RTP está actualmente. Paulo Ferreira (Booktailors) deu um belo exemplo do uso dos blogues como ferramenta de promoção de uma actividade. Paulo Querido polemizou sobre a morte da blogosfera não no sentido do desaparecimento mas da passagem de uma utopia, com a produção de amadores, para uma actividade profissional. Maria João Nogueira (Portal Sapo) referiu a blogosfera (early adopters e recém-chegados) e a tematização, com diversidade de conteúdos. Ela, para quem a blogosfera portuguesa tem comunidades muito fechadas, considera a morte da blogosfera uma provocação embora note uma evolução.
Mariana Pinto e Sara Bica, com um estudo comparativo de leitores adolescentes de blogues, e Carla Sequeira e Luísa Teresa Ribeiro, com uma reflexão do género nos blogues, foram outras das comunicações que melhor retive. Sem esquecer as veteranas nas andanças dos encontros de blogues: Catarina Rodrigues e Elizabete Barbosa. As outras comunicações estiveram a cargo de Pedro Andrade, Ana Paula Lemos e José Gabriel Andrade. Sem esquecer a brilhante conferência de José Luis Orihuela, no começo do encontro, e a que espero voltar.
Excertos de algumas destas intervenções podem ser vistas no curto vídeo mais abaixo. Por seu lado, no seu lugar de participante, Pedro Príncipe (Rato de Biblioteca) escrevia no blogue e no Twitter (ver aqui).






[imagens aquando da apresentação dos trabalhos de Sara Bica mais Mariana Pinto e Pedro Andrade, no 1º painel do encontro, com moderação de Fernando Ilharco, e de Mário Pires e Lauro António, no 2º painel, com moderação de Carla Ganito]
[mensagem actualizada às 23:52]
UM BLOGUE RELACIONADO COM A RÁDIO

A seguir o blogue A Irmandade do Éter. Indicam desejar "devolver à arte radiofónica (?) a sua pureza e honestidade anteriores. Independentemente do tema tratado, torna-se essencial que a obra transmita uma ideia autêntica, fruto da individualidade do autor".
Os seus autores são Francisco Amaral (Íntima Fracção), Francisco Mateus (Rádio Crítica), Hugo Pinto (Miss Tapes), Nídio Amado (O Cubo), Pedro Esteves (lado B), Ricardo Mariano (Vidro Azul) e Zito C. (bitsounds).
BLOGUES
Hoje, é dia de falarmos de blogues - de manhã cedo até à noite.
Até depois.
13.11.08
MORTE DA BLOGOSFERA? NÃO CREIO
A minha última mensagem referiu Nicholas Garr, a partir de um texto editado no blogue da enciclopédia Britannica, onde ele escreve sobre a morte da blogosfera. Mas não destaquei toda a importância do texto, pois remete para um artigo que escreveu em 29 de Outubro de 2005, no seu blogue Rough Type.
O ponto de partida deste texto é o fascínio que ele tem acerca da utopia que nasce com cada nova tecnologia. Partilho desse fascínio.
Ora, Carr busca a memória de outra tecnologia - a rádio sem fios, de Marconi. E cita os ensaios editados sob o nome Imagining Tomorrow, publicados em 1986, de que destaca um de Susan J. Douglas, uma das maiores historiadoras da rádio. Escreveu ela que a rádio sem fios tem um lugar especial no imaginário americano porque combinou idealismo e aventura com ciência. Comenta Carr que a rádio sem fios trouxe um movimento popular que democratizou os media. Foi o que aconteceu com a blogosfera, conclui ele. Poucos anos depois, a rádio utópica era ocupada pelas empresas e pelos negócios, desfazendo o ideal inicial. Segundo Carr, à blogosfera está destinado igual futuro.
O texto dele merece ser lido até ao fim. Mas há uma coisa que não posso deixar de dizer, sem me considerar demasiado esperto. O que ele escreveu em 2005 já eu dizia no I Encontro de Blogues em 2003. Não, não sou clarividente, mas percebe-se à distância a comparabilidade. O movimento mais próximo da blogosfera é a rádio dos anos 1920, pela facilidade de construção, pela novidade, pela esperança de alargamento democrático dos media. Da rádio, ficou um meio insubstituível, que persiste até hoje. Da blogosfera, certamente que ficarão sementes fabulosas, juntando texto, imagem e som. Para mim, ainda é cedo para decretar a morte da blogosfera.
AINDA SOBRE A MORTE DA BLOGOSFERA
Na continuação da proposta de Paulo Querido (Mas certamente que sim!), sobre a morte da blogosfera, vi outra referência sobre o mesmo tema, e no mesmo dia, no blogue da enciclopédia Britannica.
Considera Nicholas Carr que a blogosfera parece ter entrado na sua crise de meia-idade: o que parecia fresco e cheio de novidade em 2004 é agora familiar e cansativo. Mas Carr vê mais adiante: se continua a haver um conjunto de bons blogues, inscritos num espaço público mas aberto à intimidade e à observação pessoal, o argumento de que os blogues estão fora dos media tradicionais desapareceu. Diz o mesmo articulista que a maioria dos blogues mais populares são empresas comerciais com equipas de escritores e jornalistas, com agressivas operações comerciais e com estratégias de links para outros blogues com objectivos idênticos. E acrescenta: alguns são bons, outros são aborrecidos.
Parece que a ideia romântica da blogosfera - onde cada um escreve o que pensa ser útil e o partilha com outros, formando uma comunidade - está rapidamente a desaparecer. Poderá ser. Mas não esqueço uma coisa - o ano está a acabar, os media mais fortes precisam de uma palavra-chave ou acontecimento ou ideia do ano enquanto marca deste 2008 e, certamente, a palavra blogue não vai ser a eleita. Por isso, procura-se afanosamente uma outra. Será o Twitter, que casa mais convenientemente a internet com o telemóvel?
Eis um dos motivos para amanhã estarmos no IV Encontro dos Blogues, na Universidade Católica - a discussão do futuro da blogosfera (passe a publicidade e fazendo uma declaração de interesse, dado eu ser um dos organizadores). Esperamos que muitos blogueiros estejam presentes!
12.11.08
O FIM DA BLOGOSFERA
O post de hoje de Paulo Querido no blogue Mas certamente que sim! refere a comunicação que ele vai fazer no IV Encontro de Blogues, na próxima sexta-feira. Tem um título provocatório: O fim da Blogosfera. Mas é melhor transcrever o seu texto:
- O fim da blogosfera — é o título da comunicação que vou apresentar na próxima sexta-feira ao IV Encontro de blogues, que se realiza nos dias 14 e 15 de Novembro de 2008, na Universidade Católica Portuguesa.Ultimamente o tema tem sido abordado na mais insuspeita imprensa (e também nalguma menos insuspeita). O número de deserções aumenta, os 300 geeks portugueses (estive a contá-los um por um) trocam os seus blogues em inglês pelo Twitter em inglês com os mesmos extraordinários resultados, há quem aproveite o momento para, vestido o melhor ar blasé, fechar a loja com alguma dignidade antes de desaparecer ingloriamente dos topes, o Carlos Teixeira desabafa dizendo, “para ser sincero“, não saber “muito bem se existe motivo para manter um blogue, seja ele de que forma for, a Wired titula que isso dos blogs é oh, tão 2004 e, acima de tudo, temos a peremptória afirmação de The Economist, o blogging já não é o que era porque entrou no mainstream, o nosso particular obrigado à The Economist (olha a vénia, Miguel) por nos tirar da ignorância com tão, digamos, Iluminada Descoberta.Assim sendo, penso que poderei discorrer calmamente, com uns slides, sobre o fim da blogosfera sem que me caiam em cima ou venham perguntar pela fonte. Quer mesmo conversar sobre isto, leitor? Apareça por lá.
EBC
A EBC (Empresa Brasil de Comunicação) é uma empresa do governo federal do Brasil criada em 2007 para gerir as emissoras de rádio e televisão públicas federais. A EBC possui, entre outros meios, a TV Brasil, canal que estreou a programação em 2 de Dezembro de 2007, quando se iniciaram as transmissões de sinal de televisão digital no Brasil e a TV Brasil Integración, de divulgação do país para a América Latina (informação a partir da Wikipedia).
Retiro do sítio da EBC a seguinte informação:- Quando escreveram a Constituição brasileira, base de nossa jovem democracia, os constituintes estabeleceram, no artigo 223, que o sistema de radiodifusão teria as vertentes privada, governamental e pública, de forma a se complementarem. Temos no Brasil redes de televisão privadas, bem estruturadas, que oferecem programação variada mas de padrão comercial. A TV privada contribuiu fortemente, desde o seu surgimento, para a integração nacional e para a modernização da sociedade brasileira. Temos ainda canais governamentais dos Três Poderes nos três níveis da federação (Canal NBR, TV Senado, TV Câmara, TV Justiça, entre outros), utilizados, pelos governantes, para a legítima e necessária prestação de contas e divulgação de seus atos. O que não não temos - afora a experiência restrita da TV Cultura de São Paulo, que é de âmbito estadual - é uma televisão pública, entendida como aquela que não está subordinada nem às regras do mercado nem ao controle do poder político mas sim à influência direta da sociedade civil. Quando concebeu a existência de canais públicos de radiodifusão (radio e TV), os constituintes estavam pensando na diversidade, no aumento da oferta de opções, para que os brasileiros tenham maior possibilidade de escolher o que desejam ver na TV. A TV Pública, com participação direta da sociedade em sua gestão,deve ferecer uma programação diferenciada da que é exibida pela TV comercial, com ênfase na informação artística, cultural e científica, no bom jornalismo, no debate das questões nacionais, na expressão da pluralidade social. Este é o perfil da maioria das TVs Públicas existentes em outros países, principalmente nos da Europa Central. A criação de um sistema público de comunicação, em que a sociedade civil, mais do que o mercado ou o Estado, tenha voz ativa e participação direta, é uma antiga aspiração da sociedade brasileira, que finalmente agora encontra condições favoráveis para sua realização. Entre elas, o salto tecnologicopropiciado pela adoção padrão digital, o amadurecimento do debate e, pela primeira vez, a disposição do Governo Federal em viabilizar o projeto.
Para ouvir online a Rádio Nacional de Brasília, clicar aqui.
11.11.08
CINEMA NA INTERNET

O sítio Europa Film Treasures é um local a visitar. Nele - isto é, na internet -, podem apreciar-se importantes filmes europeus a partir de diversos arquivos.
O primeiro filme que espreitei foi Gordon Highlanders (1899), de William Walker. Depois vi Emperor William II’s visit to Copenhagen (1903), de Peter Elfelt. Estes e outros tesouros podem ser vistos, voltados a ver, analisados, estudados, discutidos.
Posso escrever que se trata de uma das boas notícias do ano. A má notícia é que Portugal não integra a lista de um enorme conjunto de países europeus que disponibilizam arquivos de cinema neste projecto.
EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA "MAUCHA"
Dezoito imagens captadas na primeira manhã de 2008, na Herdade da Maucha (Alentejo) pelo fotógrafo José Francisco, patente na Colorida Galeria de Arte (Rua Costa do Castelo 63, Lisboa,
www.colorida.pt), entre 15 de Novembro e 31 de Dezembro.
INDÚSTRIA CULTURAL EM MANOEL NETO
Em mensagem colocada ontem no blogue Cultura e Mercado, Manoel J. de Souza Neto escreve sobre Vamos debater a indústria cultural.

Lê-se ali:
- O debate presente na relação artista, indústria e sociedade. Mas antes de expor os fatos e sair escrevendo, quero apresentar minhas motivações. Tenho acompanhado nas últimas duas décadas os debates, livros e pesquisas culturais pela perspectiva dos independentes, isso muito antes do assunto ter retornado como tema central da política pública executada pelo Ministério da Cultura. Em um momento anterior em que o assunto estava restrito a pesquisas acadêmicas sem a menor visibilidade, debatidas em eventos desgarrados pelo Brasil realizados em guetos, com toda sorte de intelectuais, artistas marginais e periféricos, que para os atores centrais, são apenas aqueles sem sucesso.
SOBRE LIVROS

Jorge Manuel Martins, cujo livro Profissões do livro. Editores e gráficos, críticos e livreiros (2005) comentei aqui e aqui, publicou uma separata ao mesmo livro, editada pelo Centro de Línguas e Culturas, da Universidade de Aveiro, com o título Livros: difícil é vendê-los (2007).
Neste trabalho de 20 páginas, o autor propõe-se abandonar a teoria da cadeia de valor (diferentes etapas na produção de um bem, estruturadas segundo saberes e profissões diferentes e que introduzem valor económico em cada uma delas) e falar da rede social do livro. Para compreender a rede social do livro, Jorge Manuel Martins diz que "cada um dos mediadores do livro «interpreta e filtra, selecciona e produz sentido, contribuindo com a sua própria marca, ou com o seu capital simbólico socialmente reconhecido, para transformar um produto base num valor acrescentado e num pacote de benefícios» e que, na nova rede do livro, cruzam-se agora vidas tão especializadas quanto convergentes, sem actores principais nem secundários, em equilíbrio culturalmente desafiante" (p. 43).
Na página seguinte do texto, o autor apresenta um quadro de oferta (produção, difusão) e procura (organizações, indivíduos).
Destaco ainda no trabalho de Jorge Manuel Martins aquilo a que chama de auxiliares de diagnóstico, em que apresenta as fontes de análise dos actores sociais da difusão do livro (pp. 51-57). Um dos elementos que igualmente destaco é a observância de algumas tendências: concentração versus excesso de produto, prioridade aos best-sellers versus ausência de livros de fundo, novos consumidores, aumento das devoluções e descontos crescentes, e proliferação de feiras e saldos enquanto diminuem as livrarias tradicionais e se disputa o espaço nas lojas.
QUEBRA DE VENDA DE JORNAIS NA DINAMARCA

De acordo com o blogue Newspaper Innovation, o mercado dinamarquês de jornais está a perder circulação. Os jornais pagos cairam quase 25% nos últimos dez anos, de 1,6 milhões de exemplares em 1997 para 1,2 milhões em 2007. Mas a circulação dos jornais gratuitos está a baixar ainda mais rapidamente.
Continua a notícia: o que começou por ser uma série rápida de lançamentos de jornais gratuitos entre Agosto e Outubro de 2006 tornou-se uma série de encerramentos ainda mais espectacular. O mais recente é o 24timer, editado em Odense e em Aalberg, na passada sexta-feira, como informa o MediaWatch (em dinamarquês). Cada edição tinha uma circulação de 20.000 exemplares.
10.11.08
ENCONTRO DE BLOGUES EM LISBOA
Vai decorrer nos próximos dias 14 e 15 de Novembro (próxima sexta-feira e sábado), o IV Encontro de Blogues, desta vez na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa.
Ainda estão abertas inscrições para a participação individual e frequência dos ateliês de Photoshop e Ferramentas da Web 2.0. Para saber mais informações, ver no blogue do IV Encontro.
LEITURA DE BANDA DESENHADA
Dado o sucesso de sessões anteriores, a Bedeteca vai manter o Grupo de Leitores de Banda Desenhada (GLBD), actividade da Bedeteca de Lisboa, concebida em colaboração com Sara Figueiredo Costa e Pedro Moura. O novo ciclo terá Sara Figueiredo Costa como moderaradora (a Sara é a autora do blogue Cadeirão Voltaire, agora com problemas informáticos de actualização).
O objectivo principal do GLBD é partilhar leituras de títulos de banda desenhada. As sessões decorrem no auditório da Bedeteca de Lisboa, às 16:30, de 15 em 15 dias. Na sessão do passado sábado, o GLBD terá discutido a lista de livros para selecção.
Para saber mais, enviar um email para bedeteca@cm-lisboa.pt.
Fonte: Bedeteca
DESENHO HUMORÍSTICO DOS "RIDÍCULOS" EM EXPOSIÇÃO
Até 31 de Dezembro, as bibliotecas especializadas de Lisboa Bedeteca e Hemeroteca Municipal apresentam, nas instalações da primeira, um conjunto de primeiras páginas do jornal Os Ridículos, bissemanário humorístico, acompanhadas das respectivas provas enviadas para e recebidas dos serviços de censura do Estado Novo (Comissão de Censura e o carimbo VISADO Pela Comissão de Censura) (1933-1945).
Segundo os organizadores, na mostra de Os Ridículos,
- a gargalhada, no mínimo, irrompe dobrada em face deste confronto de traços: o do mestre desenhador e o do censor zeloso, perante uma linguagem gráfica insinuativa.A exposição será organizada em três núcleos temáticos (política nacional, política internacional e Lisboa), e conta com desenhos e caricaturas da autoria de Alonso, Stuart, Colaço, Natalino, Silva Monteiro, Américo e Pargana. Através dos cortes às versões iniciais propostas pelos ilustradores, e da comparação com as páginas finais, é possível descortinar os resultados do controlo do Estado sobre o discurso humorístico e gráfico veiculado por este jornal, por outras palavras, sobre a liberdade de expressão, aqui essencialmente plástica – razões de sobra para não perder esta exposição.
A exposição é comissariada por Álvaro Costa de Matos (Hemeroteca Municipal) e Pedro Bebiano Braga (Museu Rafael Bordalo Pinheiro). O material pertence à colecção da Hemeroteca Municipal e representa "documentos bem reveladores dos objectivos e especificidades da censura sobre a imprensa, neste caso, sobre um jornal humorístico, bem como das estratégias e respostas dos jornais, muitas delas subtis, para contornar a acção do famoso lápis azul".Os Ridículos começaram a publicar-se em Lisboa em 1895, por iniciativa e sob a direcção de José Maria da Cruz Moreira, o "Caracoles". Em Setembro de 1897, a direcção é assumida por "Auto-Nito", outro humorista muito popular na época. Apesar do entusiasmo inicial, a suspensão foi inevitável devido à forte concorrência entre os jornais humorísticos e ao elevado analfabetismo existente no país. Oito anos depois, em 1905, "Caracoles" pega novamente no jornal e, juntamente com "Esculápio" (Eduardo Fernandes), reedita Os Ridículos, aproveitando a efervescência política que precedeu a implantação da República. A partir de 1906, já sem a colaboração de Eduardo Fernandes, o jornal conheceu uma fase de franco desenvolvimento, enveredando pela crítica política e pela sátira aos acontecimentos dominantes da época; os seus jocosos comentários granjearam-lhe uma popularidade e uma notoriedade que se manteriam praticamente até ao fim do jornal, em 1984. Entre os seus colaboradores destacam-se Alonso (Santos Silva), Colaço, Silva Monteiro, José Pargana, Stuart de Carvalhais e Natalino Malquiades, no desenho humorístico e na caricatura política, enquanto os textos eram assegurados nomeadamente por Gamalhães (Xavier de Magalhães), Sousa Pinto, Aníbal Nazaré, Nelson de Barros, Borges de Antão e Casimiro Godinho (texto retirado da informação produzida pelos organizadores da exposição).
NOTAS PARA UM ESTUDO COMPARATIVO DE PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA
Diz Canclini (Culturas Híbridas, p. 67) que a América Latina foi colonizada pelos países mais atrasados da Europa. Mas um professor cabo-verdiano (Wlodzimierz Szymaniak) aponta outra perspectiva: os portugueses foram os primeiros a chegar ao continente africano e os últimos a sair. O atribuído atraso e a maior permanência geraram, com certeza, uma identidade própria.
Daí ser curiosa a percepção que se tem de Portugal no Brasil e noutros países, incluindo os africanos. Em Cabo Verde, os mais velhos ainda têm uma ligação afectiva a Portugal: vêem a RTP África e seguem os clubes de futebol (Benfica, por exemplo). Os mais novos importam as modas das telenovelas. As ligações aéreas entre Fortaleza (Brasil) e Praia (Cabo Verde) são frequentadas por cabo-verdianas que compram a moda de vestuário vista na novela brasileira e a revendem na ilha de Santiago. Se Cabo Verde não tem qualquer sala de cinema, os canais televisivos de conteúdo religioso, oriundos do Brasil, têm uma penetração crescente. Existem duas bibliotecas nas nove ilhas do arquipélago, mas as aquisições são reduzidas, com o essencial das sobras da feira anual do livro português. Há duas universidades privadas e sei de um editor brasileiro que quer colocar os seus livros ali. O português das ilhas muda de sotaque e a língua de troca, a habitualmente falada, é o crioulo, num universo de meio milhão de habitantes.Moçambique coabita com a pressão do inglês da África do Sul e de 20 línguas regionais que compõem um mosaico longe da homogeneidade linguística do português. A rádio, o meio mais eficaz em alcançar todo o país, dá relevo à identidade nacional e regional, pelo que transmite essa pluralidade linguística, num conjunto de 20 milhões de habitantes. Certamente, em Angola há um fenómeno próximo.
O Brasil tem à volta de 180 milhões de habitantes. É um país emergente, cujo futuro vai ser marcante no planeta. Daí serem visíveis os esforços de parcerias empresariais e académicas com o mundo que fala português, mas igualmente as relações com os Estados Unidos, a África do Sul, a Índia e a China.
Por isso, o brasileiro é orgulhoso do seu país. Há um movimento para a auto-suficiência em combustíveis. A produção de álcool a partir da cana de açúcar para substituir a gasolina está a transformar radicalmente a agricultura. Os agricultores preferem a rentabilidade da cana à produção de alimentos. Confessava-me um quadro superior de uma empresa gráfica que as marcas de automóveis têm as suas fábricas no Brasil, dando emprego a uma mão de obra qualificada. Nos anos mais recentes, e com particular ênfase em 2007, as emissoras públicas de rádio e televisão procuram ganhar espaço às ondas comerciais, abrindo espaço a outras programações que não apenas a telenovela. Mas esta, a música e o futebol continuam imagens de marca e de exportação.
As televisões seguem as comunidades de emigrantes brasileiros, nomeadamente as de orientação religiosa evangélica. No Japão, por exemplo, abriu recentemente um canal.
No campo dos media, os países de língua portuguesa passaram por etapas semelhantes: fim da ditadura portuguesa (1974) e repercussão directa na independência dos países africanos (1975), fim da ditadura militar no Brasil (1984). Mas a relação Estado-media privados segue um fluxo distinto. Em Portugal e nas antigas colónias africanas, a evolução seguiu de uma orientação marxista para uma economia de mercado, com surgimento de novos títulos nos jornais, canais de televisão e de rádio e televisão por cabo (nomeadamente em Portugal e Moçambique). No Brasil, os anos mais recentes assistem a um interesse renovado nas estações públicas do audiovisual, com o fortalecimento da comunicação pública, ambicionando a qualidade e o prestígio da RTP. Os envolvidos no processo brasileiro acham que a televisão da Câmara dos Deputados e a televisão do Senado caminham no sentido do serviço público capaz de disputar audiências da Globo. Para mim, a actual situação do Brasil lembra muito a americana da PBS.
9.11.08
MUSEU DA IMPRENSA NACIONAL, BRASÍLIA
O Museu Nacional da Imprensa fica no Sector da Indústria Gráfica (SIG), Quadra 06, Lote 800, em Brasília, desde 1982. Ouvimos o seu responsável, Rubens Cavalcanti Jr., falar do museu e da ligação da imprensa nacional à chegada da corte real portuguesa ao Rio de Janeiro em 1808, há duzentos anos atrás, portanto:
8.11.08
LUSOCOMUM (2)
Como escrevi ontem, realizou-se nos passados dias 3 e 4, no Instituto de Educação Superior de Brasília (IESB), daquela cidade, o seminário internacional Lusocomum sob o tema "Transparência, Governança, Accountability e Comunicação Pública". Agora, apresento um vídeo com excertos das comunicações de Wlodzimierz Szymaniak (docente do Instituo Jean Piaget, de Cabo Verde) e de Julieta Langa (docente da Universidade Eduardo Mondlane, de Moçambique), que falaram sobre a comunicação social daqueles países.
7.11.08
LUSOCOMUM
Nos passados dias 3 e 4, realizou-se no Instituto de Educação Superior de Brasília (IESB), daquela cidade, o seminário internacional Lusocomum sob o tema "Transparência, Governança, Accountability e Comunicação Pública".
O encontro envolveu investigadores do Brasil, Cabo Verde, Moçambique e Portugal. No vídeo abaixo, Fernando Paulino dá conta dos resultados do seminário (registo feito ontem). Fernando Paulino, um dos principais artífices do seminário, é docente na Universidade de Brasília e no IESB e provedor do ouvinte da rádio pública brasileira.
Espero dar mais informações sobre o encontro nos próximos dias.
6.11.08
PÓS-GRADUAÇÃO DE MEDIA & ENTRETENIMENTO

Está a preparar-se uma pós-graduação em Media & Entretenimento na Universidade Católica Portuguesa.
O curso surge na sequência do conhecimento adquirido nesta área científica, nomeadamente a organização da 8.ª Conferência Mundial de Economia dos Media, que, em Maio último, juntou em Lisboa destacados investigadores dos media a nível internacional. Alguns desses investigadores e professores participarão como docentes no curso, o que confere uma orientação internacional das matérias leccionadas.
A pós-graduação em Media & Entretenimento é um curso de 211 horas destinado a fornecer competências na área dos media e do entretenimento, distribuída por seis módulos ou disciplinas e com 40 ECTS atribuídos aos alunos que façam o trabalho final (projecto) e tenham uma frequência mínima de 50 sessões. Para saber mais informações, clicar aqui.
Declaração de interesse: sou coordenador da pós-graduação.
5.11.08
OBAMA VERSUS MCCAIN
Acompanhei, até ao começo da madrugada, como alguns canais de cabo apresentaram as eleições nos Estados Unidos. No sítio onde estou, vi a TVE (Espanha), a TV5 (França), a CNN e a Global News (Brasil).
Destacou-se uma, a americana. Mais activa, mais colorida - parecia o ambiente de festa de um comício. Usaram-se ecrãs touchscreen, os jornalistas e apresentadores tinham grande empatia e objectividade, sem tempo a perder, mudando com frequência de âncora.
O canal brasileiro recorreu nomeadamente a anteriores ministros dos negócios estrangeiros e a dois jornalistas destacados em Nova Iorque. O canal espanhol foi muito equilibrado, com uma jornalista a fazer perguntas a um painel e a constantes ligações aos Estados Unidos, onde um jornalista acompanhava as contagens. O canal francês não o vi tão de perto, mas tinha um dispositivo próximo do espanhol.
As eleições americanas despertaram (despertam) muito interesse, caso da TVE que prolongou o seu especial pela noite dentro (acompanhei até às três horas de Espanha). Das palavras mais salientes, destaco a de mudança. Também anotei a palavra alerta - algumas promessas do candidato agora vencedor podem não se efectuar tão cedo, atendendo à situação financeira mundial e empresarial (fusão de bancos no Brasil, apoio a bancos na Tailândia, nacionalização de um banco em Portugal).
Com as eleições americanas acaba um ciclo político naquele país. W, o filme de Oliver Stone, não podia ser mais actual na radiografia do legado de Bush Júnior. Como ilustra o filme, W quis agradar ao pai, que o repelia constantemente, vendo-o como a ovelha ranhosa da família, desajeitado, ignorante e belicoso. No filme, Bush Sénior aparece constantemente a aconselhar o filho a mudar de rota ou a querer evitar o seu contacto, devido à desastrosa e contínua política seguida por Júnior.
Além do filme, a história irá apreciar a governação deste presidente tão imprudente e impopular. Um jornal, um destes dias, comentava que também a cultura pop o irá julgar. Pelo tema, espero retomar ao assunto proximamente.
4.11.08
OS FILHOS DE LUMIÈRE
Só agora é que tomei contacto com o blogue os filhos de lumière. Percorri parcela substancial das suas mensagens e fui parar ao trabalho de jovens alunos do 7º ano do secundário de Serpa, "armados" de realizadores de filmes. E gostei muito.
Nasceram em 30 de Janeiro de 2001, certamente um dos mais antigos blogues activos no país. A primeira mensagem, intitulada O Primeiro Olhar - 1 dá conta de "Realização de curtas-metragens individuais e colectivas: participantes entre 9 e 12 anos". Das equipas de formadores retiro os seguintes nomes: Regina Guimarães (Realização e Montagem), Catarina Alves Costa (realização), Manuel Mozos (realização), João Pinto Nogueira (realização), Saguenail (Realização e Montagem), Sandro Aguilar (realização e montagem), Pedro Duarte (montagem), Nina Ramos (montagem), Pedro Marques (montagem)Paulo Américo (Imagem), Olga Ramos (imagem), Alexandra Afonso (imagem), Paulo Ares (imagem), Inês Carvalho (imagem), Rui Coelho (Som), Olivier Blanc (som), Francisco Veloso (som),Luís Botelho (som) e Catarina Graça (Produção). Em mensagens seguintes, surgem outros nomes. Não sei se as equipas se mantêm, mas o trabalho é muito profícuo.
Na mensagem de 1 de Setembro de 2002, anunciam que, "Na sequência do seu primeiro ano e meio de actividade em torno dum projecto de escola do espectador, a Associação Os Filhos de Lumière, ciosa de cumprir com os seus objectivos de alargamento e qualificação de novos públicos para o Cinema, julgou útil criar um eixo de actividade directamente ligado aos estabelecimentos de ensino, procurando interlocutores privilegiados que farão frutificar os esforços e os projectos pedagógicos desenvolvidos por esta estrutura. Assim, Os Filhos de Lumière lançarão, a partir do final do mês de Setembro uma série de workshops intitulados CINEMACÇÃO, destinados a professores de todas as disciplinas do quinto ao décimo segundo ano de escolaridade".
Mais recentemente, em 17 e 18 de Outubro, decorreu na Cinemateca Francesa (Paris), o primeiro encontro, que reuniu cineastas, professores e parceiros culturais que participam em Cinema, cem anos de juventude (Le Cinema, cent ans de jeunesse), marcando assim o início de um programa pedagógico de iniciação ao cinema no meio escolar e que integra 4 países: França, Espanha, Portugal (desde 2006) e Itália (desde 2008). A organização portuguesa (representada no blogue os filhos de lumière) indica que "A equipa portuguesa presente neste encontro inclui os cineastas que orientam este dispositivo, as quatro professoras que com eles colaboram (em Serpa, Lisboa e Moita), e representantes da associação Os Filhos de Lumière e da Cinemateca Portuguesa (parceiros culturais)". A associação fica na Calçada do Duque, 3, 1º andar, aqui em Lisboa.
Do blogue, retiro um vídeo sobre a realização de um pequeno filme realizado pelos alunos da escola de Serpa acima indicada. Vale a pena consultar o blogue e procurar saber mais coisas da associação.
3.11.08
SOBRE JORNALISMO E TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO (II)
Embora presente nas linhas anteriores, quero alargar o meu pensamento. Trata-se de um exercício teórico a necessitar de trabalho empírico: qual o peso do poder das tecnologias sobre as profissões do jornalismo? Há rupturas ou adaptações? As rupturas decorrem de um só facto, de uma só tecnologia? Ou de uma conjugação no tempo e no espaço? Há uma ruptura em si, ou deslocações que combinam tradição e ruptura?
Não pretendo desenvolver Thomas Khun e seguidores, mas encontro uma explicação simples através da pintura: exemplos de Picasso (com os períodos azul e rosa, de grande realismo pictórico) ou de Van Gogh (a aprendizagem em adulto das técnicas da pintura), em que movimentos antagónicos acompanham o progresso material e intelectual dos artistas em si e no contacto com o meio ambiente. Podemos falar de etapas, de modelos, de representações.
A minha discordância é face à escola do determinismo tecnológico, cheio de optimismo e perfeição. Há um deslumbramento tecnológico, como quando adquirimos um novo gadget. O importante aqui é descobrir o discurso preponderante de uma época e enquadrá-lo numa perspectiva científica ou reflexiva. Cada período histórico produz o seu próprio quadro de representações, fazendo a revisão dos anteriores períodos.
Penso em três momentos de alterações: introdução da máquina de escrever, introdução do computador, acesso à Internet. A minha hipótese de partida é que o momento de maior ruptura é o segundo – a introdução do computador –, pois ele significou um novo mapa de rotinas e eliminou uma profissão, a dos tipógrafos. Mas foi uma ruptura silenciosa (ou silenciada) porque os historiadores e os sociólogos não se debruçaram suficientemente sobre ela.
A máquina de escrever na redacção melhorou a legibilidade dos textos por parte dos tipógrafos. A máquina substituía o texto escrito em papel, mas continuava a servir de intermediário entre duas profissões, jornalistas e tipógrafos. O tipógrafo passava para a linguagem da tipografia aquilo que o jornalista escrevia à mão ou à máquina de escrever. Quase que era indistinto o texto aparecer escrito à mão ou na máquina. O tipógrafo tinha poder. A luta no jornal República (1975) é um exemplo dessa distinção.
Nos anos seguintes, até meados da década de 1980, a entrada do computador na sala de redacção trouxe uma profunda alteração, possivelmente maior que as entradas da máquina de escrever e da Internet. O tipógrafo desapareceu, mas não conheço relatos académicos dessa transformação. Há também uma questão de classe: o tipógrafo era operário, o jornalista é o que escreve notícias e acede a fontes poderosas ou importantes. Se quisermos, deixou de haver um intermediário – ou uma espécie industrial de copista. O jornalista passou a ser o autor do texto e o escritor definitivo junto à impressão. Isto no jornal, pois os outros meios dispunham de outras tecnologias. Mas a analogia que se faz frequentemente é entre o jornalista do jornal e o da Internet.
No período entre a introdução do computador e da Internet (10 a 15 anos), houve mudanças pouco estudadas dentro e fora da redacção. Por exemplo, a entrada de sistemas de contabilidade e gestão, o arquivo de documentos pessoais, a ligação entre jornalistas e editores. A Internet trouxe pelo menos duas vias: o endereço electrónico (email) e o acesso à www (agora mais conhecida como Internet). Há já duas gerações a lidar com o computador, a dos anos 1980 e 1990 e a que entrou com a Internet e as facilidades informáticas de elaboração de vídeos, podcasting e blogues. A primeira geração, de transição, desenvolveu competências no posto de trabalho, além de tirar cursos específicos de curta duração. A segunda geração, digital, experimentou tecnologias digitais nos anos de escolaridade, entre colegas, ainda antes de entrar na redacção, incluindo jogos de computador. Estas alterações tecnológicas associam-se a outras transformações como juvenilização e feminização das redacções, criação ou ampliação de secções, temas ou problemáticas como saúde, ambiente e minorias, surgimento de novos títulos e meios: Público, Independente, SIC, TSF.
Registo ainda outras características, como o aumento de notícias mais leves (soft news) e de entretenimento e o cinismo dos jornalistas face aos poderes, com a ideia de cães de guarda ou vigilantes do poder. A par destas duas últimas características, Schudson (2003) nota uma geração de jornalistas mais bem apetrechados culturalmente. A segunda geração dos computadores apresenta maior aceitação quanto ao trabalho multimedia, nomeadamente na participação de chats e elaboração de vídeos e animação.
A transformação tecnológica traduz-se numa questão de cultura e de mentalidades, de migração cultural e tecnológica analógica para o digital. O computador associou-se à modernidade, ainda mais do que o acesso à Internet. Foi feito um prolongado discurso de literacia. A própria evolução das máquinas informáticas levaria o profissional a procurar manter uma actualização que não existia previamente e que se torna uma marca fundamental nunca sentida antes.
A geração digital, a da Internet e dos jornais electrónicos de 1995, tem-se adaptado tecnologicamente, como disse, dentro do ambiente das máquinas digitais, conquanto a transição ainda esteja em curso em várias indústrias culturais (cinema, televisão), em especial na transmissão (e não na produção e recepção ou reprodução). O dispositivo eufórico trazido pelas novas máquinas parece descobrir um homem novo, capaz de trabalhar com múltiplas tecnologias ao mesmo tempo e com iguais ganhos: usa o telemóvel, trabalha no computador, ouve música, gere uma grande abundância de recursos. Mas perde atenção e concentração, pois a imediatez e a rapidez de resposta, evidenciada nos chats como o Messenger, não permitem a reflexão. Claro que o jornalismo sempre foi uma profissão de acção, da escrita quase automática. O que evidencia uma continuidade, visível na observância das rotinas produtivas do velho e do novo jornalista são muito idênticas, mesmo no caso do gatekeeper.
As tecnologias assentes na rede electrónica de comunicações estabelecem elas próprias novos interesses, como a redacção multimedia. Aqui, detecto duas tendências, a das empresas profissionais, detentoras de licenças e prosseguindo o lucro, que articulam trabalhos nos vários media, e a dos projectos amadores, que combinam tecnologias com experimentação e inovação, que as empresas profissionais absorvem, em termos de recursos humanos e de bancos de ideias.
REDES
Um tema central do livro de Brian Winston (Media Technology and Society, 1998) é rede, a que dedica a parte IV. A rede é o grande sistema, escreve. Se a rede de computadores na década de 1990 assume as proporções que hoje todos conhecemos, com a omnipresente presença da internet, Winston remonta a ideia de rede, em termos modernos, ao telégrafo de Morse e ao telefone de Bell, tecnologias eléctricas e ainda não electrónicas.

Em 1845, Morse e O'Reilly concorriam na construção de linhas de telégrafo. O investimento elevado, as lutas judiciais para resolver atribuição de licenças em vários pontos dos Estados Unidos e o vandalismo de postes e linhas de transmissão levaram à aceitação de uma empresa monopolista forte naquele país. Na Europa, eram os Estados que suportavam esse investimento.
A ideia de rede perpassou para as comunicações transoceânicas de telégrafo. Mas vigorava ainda o princípio do ponto-a-ponto, de emissor a receptor fixo. Podemos dizer que se tratava de uma rede rígida e linear. O telégrafo transmitia mensagens criptadas (Morse), mais tarde reformado pelo telex, com texto, e que ainda perdura em algumas redacções.
O telefone (1875) trouxe novidades. A central telefónica era um centro onde chegavam e partiam muitas linhas, que se ligavam num percurso multilinear: A podia ligar a B, C, D, etc., de cada vez que fazia uma chamada. O operador (masculino) do telégrafo cedia o lugar à telefonista, pois as mulheres eram mais gentis e eficientes no atendimento. Além da transmissão da voz, os visionários do telefone ofereceram notícias e música, não vingando como negócio mas antecipando a rádio. Durante décadas, a voz permaneceu como território do telefone, não se vislumbrando o caleidoscópio de actividades que o futuro telemóvel traria: texto, máquina fotográfica e de vídeo, acesso à internet, máquina de jogos vídeo.
A electrónica entrou nas redes com a radiodifusão - a rádio na década de 1920, a televisão na passagem da década de 1940 para a década de 1950. Voz e imagem concorreriam com o texto dos media impressos e eléctricos (jornais, telefone).
Winston dá um relevo especial às tecnologias de gravação: o disco, o filme, o gravador de som, o gravador de vídeo. O registo do som e da imagem permitirá a repetição de programas, para além do directo, na rádio e na televisão. O prime-time da televisão assegura igualmente o directo e o diferido, o que eleva o conceito de rede. Além da ligação aqui e agora, ela pode dilatar-se no tempo e no espaço, consequência de grande efeito nos anos de 1990 com o computador.
As redes de satélite, nomeadamente as ligadas ao audiovisual, a televisão por cabo e as redes de computador são outras áreas de análise desenvolvidas por Winston. Escreve ele que a ideia de redes é tão velha como as telecomunicações. Do mesmo modo que as telecomunicações do século XIX, como o telégrafo e o telefone, a internet inclui a existência de máquinas (computadores) e o uso de codificadores de linguagem (mais o telégrafo que o telefone). Num período equidistante entre a descoberta e aplicação das redes de telecomunicações e as redes de computador surgiu uma teoria importante, a teoria da informação, em finais da década de 1940, que justificou as tecnologias então existentes e as que iriam surgir. A teoria emergiu num tempo de guerra em Norbert Wiener, que estudara a balística e promovera o termo cibernética, e em Shanon e Weaver que elaboraram um sistema telefónico mais eficiente.
As actividades de protótipo que conduziram à internet começaram com a ligação de um computador a um telefone fixo, em 1940, na IBM. Depois, em 1945, falava-se em bancos de dados (o memex era um aparelho de registo áudio e microfilme). Mais tarde, veio a Arpanet (1972) - o resto da história é contado em todos os livros sobre a internet.
Leitura: Brian Winston (1998). Media Technology and Society. Londres e Nova Iorque: Routledge
2.11.08
LIBERDADE NA COMUNICAÇÃO SOCIAL
No Expresso de ontem, Arons de Carvalho escreveu sobre a liberdade da comunicação social. Referiu o Estatuto do Jornalista, a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista e a liberdade da comunicação social para além dos direitos das empresas e dos seus funcionários, nomeadamente a recente legislação sobre concentração e pluralismo.
Deu maior ênfase à pluralidade existente na televisão em Portugal, pois desde 1992 há novos operadores. E realçou ainda a criação de mais uma empresa de cabo. Curiosamente, Arons de Carvalho não refere a história por detrás da segunda empresa de telecomunicações com cabo, a Zon Multimédia. Esta surgiu da separação da Portugal Telecom, que agora criou o Meo. Ela resultou de uma longa campanha da Sonae, detentora dos supermercados Continente e do jornal Público, entre outros activos, para a separação das actividades da Portugal Telecom, com uma oferta pública de compra da empresa de telecomunicações que fez acelerar o processo. Na minha óptica, nem o actual governo (PS) nem os anteriores governos (PSD) foram os líderes do processo, mas a teimosia dos dirigentes da Sonae. Este grupo não ganhou a PT mas alterou a realidade nacional. Por isso, e na minha óptica, deve fazer-se justiça a esses empresários.
No texto sintético mas importante do deputado do PS e antigo secretário de Estado da Comunicação Social há lugar também para a abertura do novo canal de via hertziana terrestre dentro da nova plataforma tecnológica. Eu não tenho muitas certezas do seu sucesso, dadas as dificuldades financeiras gerais, que se reflectem no investimento publicitário dos media.
Um último ponto do texto, a sua apreciação à ERC, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social. Arons de Carvalho considera haver uma melhoria no rigor e qualidade técnica das deliberações daquela entidade, o que todos nós concordamos. Mas fica o registo que ele nem sempre concorda com a forma como os seus responsáveis se pronunciam. Nunca o tinha lido neste sentido, o que é importante.
1.11.08
CAMPANHA PUBLICITÁRIA DA RTP
No blogue, coloquei imagens da campanha publicitária sobre a nova grelha de programação da RTP. Para um conhecimento mais geral da campanha, ver o blogue Estado de Sítio, da própria RTP, que inclui textos, imagens da campanha e vídeos. Entretenimento & dança, desporto e os grandes debates são, segundo o canal, os temas da campanha de publicidade.

Na imprensa (e na internet), decobri já dois textos sobre a campanha. O primeiro pertence a Ana Gaspar, do Jornal de Notícias, intitulado "Futebol para publicitar a RTP. Campanha criticada por destacar mais a modalidade do que os restantes conteúdos da estação pública", com data de 28 de Outubro. Retiro parte do texto da jornalista: "a opção tem suscitado questões como saber se a modalidade é serviço público ou se é correcto dar a ideia de que este é o conteúdo mais importante da grelha. A campanha publicitária para anunciar a nova programação do primeiro canal público transformou algumas caras da estação em «craques» da bola espalhados pelas principais cidades do país. Judite «Pitons» de Sousa, Bruno «Crouch» Nogueira e Jorge «Too Special» Gabriel assinalam o regresso da bola à antena". Ana Gaspar ouviu o director de Programas, José Fragoso, que explicou que a campanha estava já orçamentada e com um custo baixo, pois usa principalmente os canais de televisão e rádio do grupo público, além de mupis e um anúncio na RFM.
O texto mais interessante é o de Eduardo Cintra Torres, na sua coluna "O Manto Diáfano", que o jornalista e docente universitário mantém há anos no Jornal de Negócios e já resultou na publicação de dois livros. Mas é igualmente de uma grande dureza, pois parte do princípio que o dinheiro dos contribuintes foi mal gasto (a RTP é um grupo do Estado). Depois parte para a análise de três dos anúncios - sobre o futebol, mas não detalha o conjunto da campanha, nomeadamente os anúncios ao programa de Catarina Furtado, e que eu inseri aqui igualmente. E realça as mensagens: o regresso do futebol ao canal como se fosse o do filho pródigo, a vibração dos jogos em directo face aos resumos em diferido, o aumento de audiências na RTP com o futebol e a saída da rotina dos espectadores com a novidade do futebol no canal. Mais à frente, e num tom sempre muito crítico, Cintra Torres escreve que, apesar da notoriedade das três caras oriundas de áreas diferentes da programação, a "relação criada é zero de conteúdo e pouco salutar numa concepção de serviço público".

Algumas dúvidas e comentários meus. Primeiro, o director de programas do canal público não se comprometeu com custos. Mas eles serão certamente elevados: mupis, anúncio de rádio e sítio da RTP, sem contar com a criatividade da agência de publicidade, caso dos vídeos. Segundo, distingo duas qualidades nos cartazes: a confiança ao público mais velho, assegurando um desporto popular e programas de entretenimento com músicas de décadas passadas; o apelo a públicos mais jovens, dado o tratamento gráfico, como se estivéssemos a jogar um videojogo ou a ver um filme de animação computadorizado. Terceiro, e na sequência do anterior, o lettering dos anúncios dedicados ao futebol dão uma ideia de movimento e dinamismo, de juventude e crença no futuro, ao passo que os três anúncios ao programa de Catarina Furtado apelam a três gerações ou três décadas (1960, com um penteado à Madalena Iglésias; 1970, com o onirismo da geração do flower power, apesar de colado à década anterior; 1980 em diante, com a iconografia da banda desenhada japonesa). Quarto, embora sem uma convicção a cem por cento, a programação de um canal público, para além da informação rigorosa, assenta numa filosofia de abrangência de gosto popular, onde o entretenimento e o desporto têm lugar.
SOBRE JORNALISMO E TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO (II)
[O que se segue é uma parcela adaptada do texto que produzi aquando da recente arguência na tese de doutoramento de Helder Bastos, na Universidade Nova de Lisboa]
Nos trabalhos sobre jornalismo, tecnologias da informação e ciberjornalismo, é frequente ler sobre desprofissinalização e desaptidão. A nova geração está mais bem apetrechada que a anterior. Isto faz esquecer iguais alterações em profissões como médico, engenheiro electrónico e arquitecto. Individualizar a profissão sem olhar o impacto das tecnologias em vários saberes tem sempre perigos. Cada geração, cada época histórica assiste a mudanças qualitativas e quantitativas, mas isso não quer dizer que a nova geração atingiu a perfeição ou a redenção.
Isso oferece-me algum tipo de reflexões:
1) Diz-se que uma das características dos novos media é a actualização permanente. Mas, isso já sucedia com a rádio e a televisão. Podemos dizer que os media electrónicos têm essa característica. Se quisermos, podemos remontar aos media pré-electrónicos, como as notícias de agência noticiosa através do telégrafo. O que significa que os media são criados para produzir actualidade. Durante décadas, quando as notícias o justificavam, os jornais faziam segundas e terceiras edições. A distinção, agora, é que não fica rasto das versões anteriores. Além disso, o ciberjornalismo é uma fatia pequena da internet, território vasto de entretenimento, informação, sítios empresariais, redes sociais, interligações múltiplas – e muito lixo. Não há uma realidade homogénea, mas níveis diversos: língua expressa, qualidade das mensagens, desequilíbrio entre texto, imagem e som, exactidão ou incorrecção das palavras e conceitos. Parece-me uma injustiça separar ciberjornalistas e jornalistas; o conceito de remediação, teorizado à frente, ajuda a minha causa. Em 1956, quando se inicia a publicação do Diário Ilustrado, o jornal passa a ser o primeiro com toda a redacção equipada com máquinas de escrever (Fernando Correia e Carla Baptista, 2007). Mas não se pode dizer que as outras redacções albergavam jornalistas pré-históricos. Embora com diferença de escassos anos entre si, as redacções dos media têm computadores desde a década de 1980 e Internet desde finais do século XX. O mercado em si encarrega-se de corrigir diferenças nas organizações mas também a nível etário. O computador Magalhães (para crianças) faz-se acompanhar de computadores igualmente simples para as pessoas mais velhas, que começam a escrever em email e em blogues. Conheço algumas histórias pessoais muito ilustrativas. O uso social das tecnologias faz-se em diversas direcções sociais, culturais, organizacionais e etárias, que se massificam.
2) Lembro os meus usos sociais das tecnologias electrónicas. O meu primeiro email foi de 1994, o meu primeiro telemóvel de 1996. Em 1999, quando fiz investigação para o doutoramento, a redacção do Diário de Notícias tinha um só computador ligado à Internet. Naquele jornal, dizia-se que o Público era um jornal facilitista com os profissionais a retirarem muita informação da internet, pois todos os postos de trabalho já tinham acesso. Podemos dizer que o Público correspondeu ao Diário Ilustrado em termos de desenvolvimento tecnológico. Mas, rapidamente, todos os media ficaram com acessos iguais. Testemunhando ainda a minha relação com as tecnologias, participei na criação de um blogue colectivo em finais de 2002. Estamos a falar de 14 anos, um leque de tempo muito curto. O que me leva a destacar a crítica ao discurso dominante num determinado período. Heinz Steinert (2003. Culture Industry, p. 166), autor da teoria crítica, dizia que, se na década de 1950, as fantasias do futuro se ligavam à conquista do espaço e à energia nuclear, as de hoje focam a internet. O mesmo autor distingue uma classe alta de especialistas de computadores com acesso a toda a informação, que vive, trabalha e ultrapassa as fronteiras regionais, e uma classe baixa, de trabalhadores e empregados assalariados ou por conta própria, irregulares e precários, com contacto com as tecnologias através das consolas de jogos. As diferenças sociais que resultam de vários níveis de educação são exacerbadas. Steinert é tão pessimista como Theodor Adorno e igualmente crítico da sociedade.
3) Atrás lembrei o conceito de remediação, de Jay David Bolter e Richard Grusin (2000), que agora desenvolvo. A remediação é a lógica formal pela qual os novos media remodelam [refashion] as formas mediáticas anteriores. À remediação associam-se a imediacidade, em que o estilo visual nos faz esquecer o meio (tela, filme), e a hipermediacidade, que nos lembra o meio no qual a mensagem aparece. Exemplo: muita da arte digital trabalha modelos ou imagens consagradas ao longo dos tempos e introduz-lhes variações. O que quer dizer que a nova forma aceita trabalhar conteúdos já existentes. O computador é uma tecnologia, actuando sob a forma de imediacidade ou hipermediacidade: os primeiros jornais electrónicos copiaram a "velha" forma do jornal de papel. De quantos anos precisou para se libertar dessa forma e tornar-se um portal com conteúdos próprios e interactividade (caso dos comentários dos leitores)?
[continua]














