segunda-feira, 21 de março de 2005

COMO ESCREVER UM BOM TÍTULO NA IMPRENSA

Há dois anos atrás, Dinis Alves lançava o livro Foi você que pediu um bom título? Lugar privilegiado do acontecimento, como o autor escreveu citando Estrela Serrano (p. 12), o trabalho seria todo dedicado à análise da construção dos títulos das notícias dos jornais.

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Agora coube a vez à edição do livro Títulos das notícias, de Mário Pinto e Wlodzimierz Jósef Szymaniak (MinervaCoimbra). O subtítulo esclarece melhor os propósitos do texto: Recursos retórico-estilísticos. Intencionalidade ou acaso? Na introdução, lê-se que um dos objectivos "reside em verificar até que ponto o uso de certas figuras retóricas, nomeadamente da metáfora ou da metonímia, resulta da decisão consciente do usuário ou é tão-só produto da acção dos mecanismos universais da linguagem e da língua portuguesa em particular" (p. 10). Baseados na perspectiva da retórica aberta por Charles Perelman, os autores, nas conclusões, escreveriam o seguinte: "consideramos que o recurso às figuras retóricas no discurso jornalístico enriquece sobremaneira o texto e, em consequência, convida o leitor a um diálogo intelectual com o autor da notícia ou da reportagem" (p. 105).

Os autores partem da classificação categorial que inclui: 1) metaplasmas (figuras que incidem sobre o aspecto sonoro ou gráfico das palavras), 2) metataxes (figuras que afectam a estrutura frásica do discurso), 3) metassememas (figuras que afectam as características sémicas do discurso), e 4) metalogismos (figuras que afectam o valor lógico da frase).

De entre várias figuras da primeira, Mário Pinto e Wlodzimierz Jósef Szymaniak escolheram a aliteração, que consiste na repetição dos mesmos fonemas, como O fugitivo fugiu ou O caçador caçado (p. 16). Da categoria das metataxes, escolho a anáfora, que consiste na repetição de um vocábulo ou de uma fórmula num dado lugar do texto, exemplificado em Todos em luta contra todos (p. 24). Já na categoria dos metassememas, distingo a sinédoque, que consiste na transferência do significado para além do uso habitual ou literal, como Os olhos da América na guerra ou Torneiras da serra de Sintra vão ter mais um Verão seco (pp. 51-52). Finalmente, das figuras dos metalogismos, escolho a antonomásia, onde se substitui um nome comum por um nome próprio ou vive-versa: Lance triunfal (Lance é o nome de um ciclista) ou Ave e reboque avariam aviões (após a paragem forçada de um avião, com reactor danificado, o que o foi substituir também se avariou) (p. 34).

Mário Pinto ensina na Universidade Fernando Pessoa (Porto) e o polaco Wlodzimierz Jósef Szymaniak é professor no Instituto Piaget.

Leitura: Mário Pinto e Wlodzimierz Jósef Szymaniak (2005). Títulos das notícias. Recursos retórico-estilísticos. Intencionalidade ou acaso?. Coimbra: MinervaCoimbra. 113 páginas.

domingo, 20 de março de 2005

LEITURAS DE HOJE

tomwolfe.jpg1) El Pais. O escritor Tom Wolfe sobre blogues: "os blogues são, provavelmente, algo de bom: toda essa gente que faz circular informação. Certamente é o melhor que ocorreu ao jornalismo. A maioria dos blogues é lixo; mas, se se procura, sempre se pode encontrar alguma coisa interessante. Os blogues podem reproduzir rumores que a imprensa não publica, podem fazer muitas coisas. São fontes possíveis que nos dão uma informação que não tínhamos antes. E faz falta mais informação".

2) El Pais. Robert Iger, o próximo homem forte da Disney. Toma o poder a partir de 30 de Setembro, sucedendo ao polémico Michael Eisner, que eu já tratei neste blogue. elpais2032005.jpg

A Disney procurara alguém externo ao grupo, mas acabou por escolher o número 2. Bob, como lhe chamam familiarmente, entrou no gigante mediático em 1974. Em 1987, foi vice-presidente de programação da ABC Sport. Um ano decorrido, chegava a vice-presidente executivo da ABC Television Network. No final da década atingia a presidência da ABC Entertainment e, em 1993, era designado presidente da cadeia de televisão. Assim, Robert Iger é dos responsáveis de topo que mais conhece do negócio televisivo. Para ganhar a batalha, ele precisa de ter os olhos postos em dois homens: 1) Steve Jobs, da Apple e chefe dos estúdios de animação da Pixar, 2) Roy Disney, o sobrinho do fundador, que não está de acordo com o processo de selecção do sucessor de Eisner e quer uma mudança na direcção do grupo.

3) Le Monde. Lil Jon e o crunk. Lil Jon [Lil representa o acento sulista da palavra little] é o nome artístico de Jonathan Smith, que tendo lançado em Janeiro o seu terceiro álbum, Crunk juice, já vendeu dois milhões de cópias. Crunk significa a contracção das palavras crazy (louco) e drunk (bêbado).

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Como o hip-hop, o crunk é um tipo de música talhada para as discotecas e que veio de Atlanta, do sul dos Estados Unidos, onde Lil Jon se iniciou como produtor. Com menos arsenal guerreiro que o rap, as músicas do crunk - assentes em cânticos como aqueles que se ouvem em estádios de futebol tipo go team - alimentam-se de elementos ligados ao machismo, homofobia e pornografia. Diz o próprio Lil Jon: "não éramos rappers [em 1997, quando lançou o disco Who U Wit], não fazíamos improvisações (freestyle), embora tivéssemos a ideia dos slogans (cânticos)". No crunk há parecenças com os excessos do punk rock.

lemonde21320052.jpg4) Le Monde. Televisão digital terrestre em França a partir do próximo dia 31. Em França chama-se TNT (télévision numérique terrestre). Ao lado dos sete canais hertzianos (TF1, France 2, France 3, Canal+, France 5, Arte e M6), nascerão mais sete canais acessíveis gratuitamente, desde que se adquira um descodificador.

Como mostra a imagem, este mês 35% dos lares terão já possibilidades de captar os novos canais, percentagem que subirá para 50% no próximo mês de Setembro, 65% no primeiro semestre do próximo ano, chegando à quase totalidade dentro de dois anos. Espera-se que até 2010 desapareça a difusão analógica, o que significa maior qualidade de imagem (720 pixels em 576 linhas) e de som (Dolby 5.1) - muito próximo da qualidade de um DVD - e interactividade. Os investidores pretendem que a televisão digital terrestre se torne uma alternativa comercial interessante face ao cabo e ao satélite.
FUNÇÃO SOCIAL DA PUBLICIDADE EXTERIOR

maza.jpgEste é o título do capítulo de Marta Pacheco Rueda no livro coordenado por Raúl Eguizábal Maza, La comunicación publicitaria, lançado pela editora sevilhana Comunicación Social, em 2004. Para Marta Pacheco, docente na universidade de Valladolid, a publicidade em locais externos tem uma história rica e importante no país vizinho (e em Portugal, acrescento eu). A autora divide-a em dois momentos distintos: até cerca de 1980 e depois.

No primeiro período, os cartazes (outdoors) não tinham enquadramento jurídico. A sua exposição funcionava sem regras, e promovia publicidade a produtos e marcas comerciais mas também eram usados para as campanhas políticas. Normas mais rigorosas impediriam a publicidade ao tabaco e a bebidas alcoólicas (que não teria uma proibição absoluta e permanente).

1984 é um ano de mudança. A câmara municipal (ayuntamiento) de Madrid adjudica à empresa Cemusa a instalação de equipamentos mobiliários nas paragens de autocarro. O novo conceito de mobiliário tem diversas características: 1) importância do desenho dos suportes, 2) estandartização do formato dos cartazes, 3) redução do período de contratação e surgimento de novos suportes - colunas e mupis, com variantes (painéis electrónicos, relógios), comercializados em diversos circuitos (Pacheco, 2004: 122). Para além da exploração comercial, os novos suportes de comunicação exterior prestam um serviço público - planos da cidade (com informação "você está aqui"), com a rede de transportes públicos, actividades ou serviços culturais ou apenas informativos.

Além disso, as concessionárias dos mupis e dos equipamentos nas paragens de autocarro obrigam-se a adquirir, reparar e limpar os espaços em redor desses equipamentos de mobiliário urbano. Em Espanha, podem mesmo ter espaços de recolha de material a reciclar, como garrafas e pilhas. E instalarem elementos de sinaléctica: sinais de tráfego, papeleiras (p. 125).

Existe, assim, a concretização de três elementos: 1) comodidade (bancos e protecção contra a chuva nas paragens dos autocarros), 2) informação, 3) contribuição para a conservação do meio ambiente.

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Leitura: Marta Pacheco Rueda (2004). "La función social de la publicidad exterior". In Eguizábal, Raúl (coord.) La comunicación publicitaria. Antecedentes y tendencias en la sociedad de la información y el conocimiento. Sevilha: Comunicación Social. 140 páginas; preço aproximado: €11,45.

sábado, 19 de março de 2005

zildacardoso.jpgDA PRAÇA DA REPÚBLICA À RUA DO PARAÍSO

Ontem, o blogue Dias com árvores fez uma referência à poda das tílias da Praça da República, no Porto.

Eu passei por lá, anteontem. Mas o sol já se tinha posto e eu não pude observar. Fizera um pequeno périplo pela zona, eu que vivi ali perto durante mais de uma dezena de anos, para não dizer que nasci por lá. Entrei na igreja da Lapa, percorri a rua do Paraíso, ainda atraído pela monografia de Zilda Cardoso (Campo das Letras, 2001), desci parte da rua Faria Guimarães (tudo envolto em obras e pó, por causa de uma estação do metro) e regressei à Praça da República.

Ainda tenho na memória as chamadas de atenção do guarda-freio (condutor) dos eléctricos que terminavam a carreira na Praça da República: cá:umpu (a pronúncia referente ao local, chamado antigamente de Campo de Santo Ovídio). Era a carreira 7, desaparecida há muito. Agora, existe uma carreira de autocarros, o 72, se fixei bem.

A quem gostar do tema árvores, recomendo uma visita ao blogue Dias com árvores.
ALGUMAS NOTAS SOBRE O CONGRESSO DE JORNALISMO, CIÊNCIAS E SAÚDE

congressoUFP7.jpgDecorreu no Porto, na Universidade Fernando Pessoa, o congresso Jornalismo, ciências e saúde (II congresso luso-brasileiro e IV congresso luso-galego de estudos jornalísticos), nos dias 17 e 18. Inscritos 400 participantes portugueses, brasileiros e galegos. O mentor da organização foi Jorge Pedro Sousa, professor daquela universidade.

Do que observei [por razões profissionais, só estive no primeiro dia do congresso], retirei algumas notas. A primeira para realçar a comunicação de Nelson Traquina, professor da Universidade Nova de Lisboa, que analisou as notícias sobre o VIH-sida na imprensa, nomeadamente no Diário de Notícias e no Correio da Manhã, ao longo de vinte anos (e que mereceu destaque no jornal Primeiro de Janeiro, no dia 18).

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O autor partiria de três hipóteses: 1) orientação da notícia para o acontecimento ou para a problemática, 2) proximidade geográfica como possível determinação da secção e do peso da notícia, e 3) notícias orientadas para as fontes oficiais. Das suas conclusões, eu destacaria: 1) à medida que a sida se transformou num problema universal, as notícias nos jornais portugueses tornaram-se nacionais, 2) as notícias seriam dominadas por fontes oficiais biomédicas até ao começo da década de 1990, altura em que as ONGs se constituiriam como fontes alternativas, 3) as notícias contavam estórias médicas, devido ao peso das fontes biomédicas, 4) ao longo do tempo, foi crescendo de importância o género reportagem, 5) as notícias da sida têm uma periodização, indo da invisibilidade (poucas notícias) até uma época de pânico moral (receio do contágio) e acabando numa era de rotina. Eu tive o prazer de comentar o seu texto assim como o de outro conferencista, Pedro Alcântara Silva (ICS).

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Das comunicações apresentadas no primeiro dia, destaco ainda duas, a de Fernando Correia (na quarta imagem do bloco de seis) e Carla Baptista, Memórias vivas do jornalismo português: um contributo para o estudo do período 1933-1974, e a de João Canavilhas, A saúde na blogosfera portuguesa.

A máquina de escrever na redacção dos jornais

Fernando Correia e Carla Baptista traçam três marcos decisivos na história da imprensa em Portugal: 1) 1869 (nascimento do Diário de Notícias), 1933 (lei constitucional do Estado Novo, com a criação do regime censório), e 1974 (liberdade de imprensa). Os dois autores encontram, contudo, uma diferenciação no bloco 1933-1974 - o período que estão a trabalhar -, realçando o período dos anos 1960 em diante. É que, conforme a perspectiva deles, a história do jornalismo não se pode separar da história social. Daí eles convocarem acontecimentos como as eleições de 1958 (a que concorreu Humberto Delgado), o começo da guerra colonial (1961), a luta anti-fascista, as crises estudantis de 1962 e 1969, a formação da ala liberal na Assembleia Nacional e a proposta de uma nova lei da imprensa, e a emigração (França, Suíça e Alemanha).

Em termos de história da imprensa e dos media, Fernando Correia e Carla Baptista assinalariam os seguintes momentos: 1) 1957 - nascimento da RTP e importância do jornalismo radiofónico, com notícias hora a hora, 2) vespertinos a desempenharem função de pilotagem nos projectos editoriais, com reuniões matinais, 3) 1973 - aparecimento do semanário Expresso, 4) componente tecnológica, com a vulgarização da máquina de escrever, do telex e do gravador de som [hoje, na era do computador, já nos havíamos esquecido destas tecnologias!], 5) consolidação das salas de redacção em secções, aumentando a juvenilização e uma maior qualificação académica dos repórteres.

Quanto à comunicação de João Canavilhas, ele analisa os blogues dedicados à saúde como enquadrados em três tipos de situação: 1) veículo entre profissionais, para troca de experiências, acesso à informação e comunicação permanente, 2) orientado para profissionais e utentes, com dados sobre medicina preventiva, campanhas de sensibilização e conselhos a doentes e familiares, e 3) blogues de saúde, como diários, sobre políticas de saúde, consultório, investigação e notícias, ensino e informação em geral. O autor, que está a fazer um trabalho notável na investigação deste novo meio de comunicação, recolheu informação de 23 blogueiros, possuidores de 20 blogues, os quais considera como novos mediadores (gatekeepers) e com especialização e personalização.

quinta-feira, 17 de março de 2005

CONGRESSO DE JORNALISMO NA UNIVERSIDADE FERNANDO PESSOA

Começou, com a presença de cerca de 400 inscritos, o congresso de jornalismo, aqui na Universidade Fernando Pessoa. Para além do interessante discurso inaugural, a cabo de Marques de Melo, velho professor da Universidade Metodista de S. Paulo, a mesa das conferências de abertura já teve lugar. Nelas falaram Nelson Traquina (notícias sobre VIH-sida) e Pedro Alcântara Silva (sistema de saúde em Portugal).
RAMÓN ZALLO – TEXTOS SOBRE INDÚSTRIAS CULTURAIS

Zallo (1992) parte de uma ideia forte – a da cultura se estender aos efeitos económicos. As indústrias culturais entendem-se como o "conjunto de ramos, segmentos e actividades auxiliares industriais e distribuidoras de mercadorias com conteúdos simbólicos, concebidas por um trabalho criativo, organizadas por um capital que se valoriza e destinadas finalmente aos mercados de consumo, com uma função de reprodução ideológica e social".

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Sob este conceito dividem-se em:
1) indústrias de edição descontínua, como as editoriais, fonografia, cinema, edição videográfica,
2) indústrias de produção e difusão contínuas, como imprensa, rádio e televisão, que coincidem com os meios de comunicação,
3) indústrias sem canal autónomo de distribuição e difusão, como publicidade e produção videográfica,
4) segmentos tecnoculturais da informática e electrónica, como informática doméstica e Internet,
5) segmentos culturais da indústria geral como desenho gráfico e industrial ou imagem de produto.

A sequência inerente às actividades de difusão contínua [em fluxo], como a imprensa, rádio ou televisão, ajuda o formato fixo e a programação estável, mas com informação sempre em mudança – no caso da imprensa – e com programas quase sempre distintos – no caso da rádio e da televisão. Nas actividades descontínuas [editorial], de produto, como a indústria editorial, fonográfica e cinematográfica, a repetição com ligeiras variações de fórmulas de êxito, as modas de mudança imediata, a produção em série (serialização), o marketing cultural, a própria concepção de cultura como produto de consumo de uso único e imediatamente descartável, alcançavam uma grande parte da produção cultural. As indústrias culturais têm tendência à serialização e não escapam às determinações do funcionamento e da sociedade ocidental de produção e consumo.

Leituras: Zallo, Ramón (1988). Economía de la comunicación y la cultura. Madrid: Akal
Zallo, Ramón (1992). El mercado de la cultura. Estructura económica y política de la comunicación. Donostia: Tercera Prensa

quarta-feira, 16 de março de 2005

AMANHÃ E DEPOIS DE AMANHÃ NA UNIVERSIDADE FERNANDO PESSOA (PORTO)

Realiza-se, amanhã e dia seguinte, o II Congresso Luso-Brasileiro de Estudos Jornalísticos e IV Congresso Luso-Galego de Estudos Jornalísticos. As actas on-line podem ver-se neste endereço.
AINDA O LIVRO DE FELICIANO DUARTE BARREIRAS

Durante os meses de Fevereiro e Março de 2003, o então secretário de Estado teve reuniões com responsáveis dos media regionais (jornais e rádios). Agora, ele dá conta dos resultados decorrentes dessas reuniões que agregaram 622 pessoas, e de um inquérito por elas preenchido (respostas: 99%), o qual me parece importante destacar, pois traça uma radiografia do sector (ler a partir da página 70 do livro).

Assim, ele convidou os 900 jornais regionais (do conjunto de 4291 títulos registados no ICS) e 354 rádios locais (334 generalistas e 20 temáticas). Participaram nas reuniões 450 jornais (53% do total) e 209 rádios (59%).

Análise SWOT (forças, fraquezas, oportunidades e ameaças)

Da análise incluida no livro, destaco os seguintes pontos. Primeiro, os níveis etários dos consumidores de media locais: enquanto os leitores de jornais são mais velhos, o segmento etário que mais ouve rádio situa-se entre os 25 e 34 anos. Isto pode significar que o "modelo de incentivo à leitura traduzido no apoio ao porte pago falhou" (p. 73). Segundo, os principais problemas colocados aos media de proximidade: pulverização de títulos de imprensa regional e de rádios locais, o que se traduz em "grande fragilidade económica, o que não favorece a independência editorial". Para combater isso, o autor preconiza o estabelecimento de parcerias estratégicas, com redução de custos fixos e melhoria de qualidade dos produtos finais (p. 72).

Os desafios que se colocam são: maior qualidade de gestão, necessidade de "um marketing mais agressivo, novas ideias para angariação de publicidade, grafismos mais interessantes, programas de rádio mais apelativos" (p. 75). Há aqui algumas ideias a desenvolver mas outras carecem de uma adaptação à realidade, como definir o que é um programa mais apelativo na rádio. No campo estrito da imprensa regional, a leitura do livro de Feliciano Barreiras Duarte precisa de ser comparada com a de Paulo Faustino, A imprensa em Portugal. Transformações e tendências (2004), dado o fôlego desta última obra.

Apesar dos gráficos inseridos não terem resultados absolutos e, por isso, não permitirem uma leitura precisa, os respondentes consideraram que se ouve bastante rádio nos distritos de Aveiro, Leiria e Santarém. Quanto aos jornais, os distritos de Aveiro e Viana do Castelo são os de maior leitura [observação: o quadro é de percepção quase impossível]. No capítulo da rádio, os inquiridos - eles próprios responsáveis das emissoras - acham que o Estado deve apoiar fundamentalmente a modernização das rádios, a produção de conteúdos e a formação profissional (p. 81). Já quanto à imprensa, as respostas vão no sentido de apoio na distribuição e na produção dos jornais (p. 85).

Embora dito acima, os mesmos respondentes consideram como maiores dificuldades no território da rádio: angariação de publicidade, falta de recursos humanos, excesso de concorrência e más condições técnicas (p. 82). No campo dos jornais regionais, as maiores dificuldades encontram-se na angariação de publicidade, na distribuição, na falta de recursos humanos e na captação de novos assinantes (p. 87). Dos principais problemas encontrados na imprensa (p. 88), o que surge à cabeça é o excesso de títulos, a gestão amadora e a falta de apoios do Estado (esta é um tema recorrente em todas as respostas).

Como pontos de oportunidade e desenvolvimento, Feliciano Duarte Barreiras assinala a informação de proximidade como um dos "principais mediadores pelos fluxos de comunicação entre a sociedade civil e a administração pública" (p. 110), para além dos contributos para promover as regiões e aumentar a credibilidade e proximidade da leitura (pp. 140-141). O livro tem ainda uma componente comparativa internacional (Suécia, Noruega, Áustria, França, Holanda e Finlândia) (pp. 118-131).

terça-feira, 15 de março de 2005

OS LEGADOS DOS SECRETÁRIOS DE ESTADO LIGADOS AOS MEDIA

Em 2002, Alberto Arons de Carvalho publicava a sua memória à frente da secretaria de Estado da Comunicação Social, com o título Valerá a pena desmenti-los? (MinervaCoimbra). Era um tempo de mudanças nos media, em especial na televisão pública. Na altura, li-o atentamente e registei o período em que o título aparece no corpo do texto: "Há uma clara desigualdade na relação jornalistas-cidadãos, que remete demasiadas vezes estes últimos para um conformismo bem pouco saudável: «valerá a pena desmenti-los?»" (p. 107). Estruturado na forma de cartas enviadas a actores sociais dos media, esta frase estava incluída na carta imaginária dirigida a Óscar Mascarenhas.

Agora, com mudança de Governo e de maioria parlamentar, coube a vez a Feliciano Barreiras Duarte dar à estampa o seu Informação de proximidade. Jornais e rádios (Âncora Editora)

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Porque recebi um exemplar do livro há pouco mais de uma hora, fico-me, neste post, com a indicação do índice: 1) os programas dos XV e XVI governos constitucionais para a área da comunicação social, 2) da reforma da comunicação social do Estado à reforma da comunicação social de proximidade (rádios e jornais), 3) a reforma da comunicação social de proximidade (jornais e rádios), 4) informação de proximidade - a reforma global e coerente, 5) a concretização e a calendarização da reforma, 6) conclusões.

Dada a particular importância do sector e das transformações sofridas - embora algumas não tenham sido cumpridas, como a alteração do sector da rádio -, vou incluir este livro de balanço de actividade governativa nas minhas leituras prioritárias [agradeço o exemplar assinado pelo autor, como o fora feito no de Arons de Carvalho].
A MAIS NOVA EDIÇÃO DA NEWSLETTER DA RUA DE BAIXO

Tenho acompanhado com muito carinho a edição digital da newsletter da Rua de Baixo.

Na mais recente, os seus responsáveis dão conta do final de uma história: "Finalmente vamos descobrir o final desta net-novela que nos acompanhou durante um ano. Devido ao grande número de novos utilizadores e amigos que nos acompanham na rua de baixo, gostaríamos de relembrar o conceito desta net-novela. No inicio do ano passado, propusemos um desafio ao nosso colaborador e amigo, Paulo Kellerman. A ideia era simples: criar uma história que tivesse como pano de fundo a rua de baixo e um grupo de amigos. Todos os meses, seria editado um capítulo, sem uma sequência pré-definida, directamente ligado a uma personagem e um ano. Durante todo o ano passado fomos conhecendo os problemas e vivências deste grupo de amigos. Agora chegamos finalmente ao climax. Vão surpreender-se".

modalisboa.JPGA newsletter também destaca, entre outras actividades, a ModaLisboa 24. Lê-se na newsletter: "A LisboaFashionWeek está de volta sob o tema Fast-Forward para ditar as tendências das estações Outono/Inverno 05/06 em Portugal. Entre 17 e 20 de Março, o armazém Terlis vai voltar a ser o cenário de todo o fascínio e curiosidade que as passerelles criam à sua volta. Desta vez, esperamos, sem incidentes políticos". Contam-se com os estilistas portugueses Alexandra Moura, Alves & Gonçalves, Ana Salazar, Anabela Baldaque, Dino Alves, José António Tenente, Katty Xiomara, Lidija Lolovrat, Luís Buchinho, Maria Gambina, Miguel Vieira, Nuno Baltazar, Osvaldo Martins, e Pedro Mourão.
O CORPO HUMANO NOS ANÚNCIOS

Na publicidade exposta nos mupis da semana passada, fotografei cartazes onde se revela essencial a exposição do corpo humano. Ele mostra-se em perfumes, cremes, vestuário e automóveis.

Primeiro o dorso masculino (rapaz quase imberbe no Bvlgari e homem com muito óleo ou bronzeado no Paco Rabanne XS) ou ângulo de rosto com barba por fazer (Dunhill). A seguir, longas e esbeltas pernas femininas (creme Garnier). Dos quatro anúncios seguintes, os primeiros pertencem à Mango, em estilo diferente de outros anúncios da empresa espanhola. Agora, para apresentar a moda da Primavera, surge a modelo Lizzy Jagger, filha do líder dos Rolling Stones, com um ar mais exótico face à imagem angélica e frágil das rapariguinhas que deram a cara pela marca em anos anteriores. Finalmente, os anúncios à Kia, uma marca de automóveis que lança dois modelos: Sportage e Picanto. Parece haver uma continuidade com a Lizzy do segundo anúncio da Mango e o primeiro dos anúncios da Kia: a mulher amazona.

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Mercearia

Também publicidade a produtos alimentares (chocolates Toblerone, com a face moldada à forma pontiaguda do mesmo) faz parte do conjunto de meios lançados a semana passada nos mupis. Finalmente, e ainda dentro dos produtos para a economia do lar, a cadeia de supermercados Continente lançou outdoors na passagem do seu vigésimo aniversário. Alguns destes outdoors estão em zonas urbanas degradadas, mas de grande circulação rodoviária.

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segunda-feira, 14 de março de 2005

CRISTINA PONTE - UMA PRODUÇÃO CIENTÍFICA COERENTE

ponte5.jpgSaíu agora o seu último livro, Crianças em notícia. A construção da infância pelo discurso jornalístico 1970-2000, editado na prestigiada colecção "Imprensa de Ciências Sociais", do Instituto de Ciências Sociais.

Professora no departamento de Ciências da Comunicação da Universidade Nova de Lisboa, Cristina Ponte analisa, no texto agora publicado, o "tratamento jornalístico de crianças e infância" através do modo como um jornal de referência, o Diário de Notícias, trabalha esse universo. Depois de olhar a forma como se tem feito a construção social da criança, a autora aborda o tratamento feito no jornal e detecta várias agendas nesse tratamento. Desde a "cobertura do acidente doméstico como fatalidade, que marca o jornal de 1970, como contraponto a todos os silêncios sobre o social, passamos para a «criança beneficiária» da iniciativa de organizações políticas e associativas, em 1975. [...] É nos anos 80 que os cuidados primários de saúde e assistência surgem com destaque" (p. 16).

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Resultado da tese de doutoramento de Ponte defendida em 2002, ela tem um prolongamento no livro saído o ano passado, com o título Leitura das notícias (Livros Horizonte) e Televisão para crianças - o direito à diferença (Escola Superior de Educação João de Deus, 1998), produto da sua tese de mestrado defendida em 1994.

Outras problemáticas seriam, entretanto, trabalhadas pela autora, como o discurso jornalístico na cobertura da toxicodependência (capítulo no livro colectivo de Traquina, Cabrera, Ponte e Santos, O jornalismo português em análise de casos, Caminho, 2001) e da sida (Notícias e silêncios. A cobertura da sida no Diário de Notícias e no Correio da Manhã, Porto Editora, 2004).

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Da autora retiro a seguinte proposta que, embora escrita na introdução do livro de grupo O jornalismo português em análise de casos, tem a sua marca: "São estudos de «jornal na mão», que variam nas suas formas de análise: alguns adoptam contributos de linhas de investigação baseadas em inquéritos ou na análise quantitativa de conteúdo, outros fazem incursões pela análise da linguagem jornalística enquanto discurso social e enquanto produtor de estórias e de propostas de leituras do mundo, outros ainda entram nas salas de redacção, em observação participante das teias de relações entre jornalistas e entre estes e as fontes" (p. 12).

Observação: Além dos trabalhos publicados, Cristina Ponte tem tido um trabalho meritório como co-directora da revista Media & Jornalismo, do CIMJ, e tradutora e revisora científica de edições (Denis McQuail, Teorias da comunicação de massas, Gulbenkian, 2003), além do trabalho menos visível de orientação de teses de mestrado e de doutoramento. Sem falsas modéstias, a Cristina Ponte pertenceu a uma turma de mestrado (2000-2002) que terá sido das melhores da Universidade Nova de Lisboa. Dela fizeram parte também Rogério Ferreira de Andrade (ex-director do curso de Comunicação Organizacional da Universidade Lusófona), António Pinto Ribeiro (anterior programador responsável pela Culturgest), Maria João Silveirinha (professora da Universidade de Coimbra e autora ou organizadora de dois livros publicados muito recentemente), Ana Cabrera (professora do ensino secundário, co-autora do livro de Traquina e colegas acima referenciado e preparando-se para defender tese de doutoramento sobre a imprensa no tempo de Marcello Caetano) e Jacinto Godinho (jornalista da RTP e docente na Universidade Nova de Lisboa, a semanas de defender tese de doutoramento).

domingo, 13 de março de 2005

O CENTENÁRIO DE RAYMOND ARON

Confesso que não sou leitor nem apreciador de Raymond Aron. Por não o conhecer e porque as suas preocupações intelectuais não têm sido as minhas. Não estudei duas das suas mais emblemáticas obras, Opium des intellectuels (1955), sobre a tradição antitotalitarista, ou Penser la guerre: Clausewitz (1976), sobre a teoria do conflito e da violência militar. Dele, li apenas - e parcialmente - As etapas do pensamento sociológico. A minha perspectiva da obra e da vida dele é, pois, e culturalmente falando, muito frágil.

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Raymond Aron (1905-1983), que se via a si próprio como espectador envolvido (engagé) ou era visto como discreto mas precioso, nasceu faz hoje exactamente um século. "Sociólogo e filósofo, tradutor e editorialista, foi acima de tudo um grande professor da lucidez", escreve-se no Le Monde deste domingo, veículo que suporta a minha mensagem.

O que mais me faz escrever esta nota é que Jean-Paul Sartre teve recentemente honras de páginas de jornais portugueses aquando do centenário do nascimento. Em situação idêntica, Raymond Aron também merece uma nota jornalística. Curiosamente, os dois foram companheiros: em 1924, a fotografia de promoção da École normale supérieure da rua de Ulm mostra Raymond Aron ao lado de Sartre e de Paul Nizan entre outros. Foram anos de grandes e profícuas discussões. Mas os amigos Aron e Sartre acabariam por se separar em campos ideológicos distintos (Front populaire em 1936; Guerra Fria; Maio de 1968; embora com o intervalo de editor do Combat e da fundação da revista Temps modernes, ao lado de Sartre, Simone de Beauvoir, Merleau-Ponty, André Malraux). Para a discussão académica e para a opinião pública, Sartre ficou na memória. Aron fez um trajecto indo do partido socialista para o RPF (Rassemblement du peuple français), após curta passagem ministerial, e, em 1947, começava a fazer comentário político no Le Figaro, um jornal identificado à direita.

Os seus mestres em filosofia eram Léon Brunsvicg e Alain, antes de descobrir Max Weber. Aron estava a estudar na Alemanha quando Hitler assumiu o poder (Setembro de 1930), tendo a intuição que o nazismo não era uma onda passageira mas vinha para ficar. Ele obtivera o lugar de assistente de francês na universidade de Colónia (1930-1931), onde leu, pela primeira vez, O Capital de Karl Marx e descobriu toda a filosofia alemã, em especial Max Weber (aliás, o eixo principal da sua lição inaugural no Collège de France, em 1970). Aron voltaria à Alemanha em 1933.

No totalitarismo alemão, Raymond Aron descobre e defende a sua origem judaica, apesar dos perigos evidentes (muito mais tarde, em 1967, terá um outro choque: a guerra dos seis dias, que opôs Israel aos seus vizinhos árabes). A observação do fenómeno alemão levá-lo-ia a comentar em Opium des intellectuels: "A liberdade é a essência da cultura ocidental, o fundamento do seu êxito, o segredo da sua extensão e da sua influência".

A grande e importante ligação de Aron ao mundo intelectual francês pode provar-se simplesmente por ter ajudado o início da carreira de Pierre Bourdieu, que foi seu assistente na universidade, e por ser o primeiro a comentar e a editar Hannah Arendt na colecção Liberté de l'esprit, que dirigia na editora Calmann-Lévy.

Nota: segui, neste post, como acima observei o Le Monde de hoje, em textos assinados por Marion Van Renterghem, Wolf Lepenies, Jean Birnbaum e Nicolas Baverez, e que ocuparam três páginas do jornal parisiense.
ÉVORA HÁ 70 ANOS

Gosto particularmente de ler biografias. Em regra, são leves e levam-nos a um outro tempo e gostos, permitindo perceber melhor os quadros de épocas já perdidas. Aprendi-as a ler há uns anos, a pensar em textos de história dos media, quer no campo da imprensa quer no da rádio, onde canalizei energias para o período de fins do séc. XIX até finais da década de 1930. Podem ter, contudo, um aspecto menos positivo: o ajuste de contas.

Sempre que encontro uma biografia, em especial se dedicada a uma localidade, precipito-me a comprar e a ler. Foi o que aconteceu com o livro de Maria Amélia Cutileiro Índias, intitulado Évora, ontem e hoje. Reflexões e memórias de uma inconformista, com quem me deparei ontem à noite, antes de ver um filme medíocre. E a capa do livro funcionou como elemento complementar de atracção, tal a beleza da fotografia.

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O que me interessou no livro de Maria Amélia Cutileiro Índias foi o seu tempo de infância e juventude passados em Évora. Nascida em 1928 numa cidade de interior do país, no arranque de um novo regime político, o registo da depois professora universitária da Universidade de Évora impressiona pelos traços sociológicos e etnológicos dessa época já recuada, nomeadamente os lazeres. Começa logo no princípio do livro: "Numa época em que a televisão não chegara ainda a Portugal, em que os aparelhos de rádio eram poucos e caros e em que o cinema no Salão Central poucas vezes acontecia, as diversões da população eborense centravam-se nos bailes, nos teatros das colectividades ou, mais raramente, no teatro Garcia de Rezende, quando uma companhia de Lisboa se deslocava a Évora" (p. 22).

Telefonia e "assaltos" carnavalescos

A autora viu morrer o pai aos 10 anos. Se, até aí, havia um trem de vida desafogado em família de classe média, depois começariam as dificuldades. Estava-se em 1938. Escreve Maria Amélia Cutileiro Índias: "Um outro entretenimento que também escapou aos cortes orçamentais foi o rádio - a «telefonia sem fios» ou apenas «telefonia» como então se chamava. E, desde o teatro radiofónico muito apreciado pela mãezinha às transmissões dos espectáculos de ópera, que a Madina [irmã mais velha da autora] ficava a ouvir até tarde, passando pela música ligeira ou pelos serões da FNAT - designada actualmente por INATEL - que a todas agradavam, foram muitos os momentos de prazer que o aparelho de telefonia nos proporcionou" (p. 67). Anos mais à frente, em 1944, quando uma doença grave a obrigou quase a ficar isolada em casa, os consolos eram "a leitura, a audição da Emissora Nacional e do Rádio Clube Português, as estações que melhor se ouviam no nosso rádio, a escrita" (p. 93).

No Carnaval, havia os "assaltos" em casas particulares. Jovens mascarados entravam em casa e eram recebidos com alegria e servidos de comida que nessa casa existisse, e que se podia prolongar com um baile. Para a autora: "Por vezes, os assaltantes levavam consigo alguns instrumentos musicais, que seriam tocados no caso de não haver discos na casa assaltada, pois o baile precisava de música" (p. 51).

Estava assim reconstituida uma época: 1) escassez de discos em termos de posse individual, fazendo-se o uso mais antigo de tocar música; 2) formação cultural através da rádio (uma espécie de paleo-rádio, para "apanhar" a designação de Umberto Eco relativamente à época da paleo-televisão, onde passavam programas de cultura erudita como a ópera, antes da necessidade de medir audiências como sucesso dos canais comerciais da neo-televisão).

Leitura: Maria Amélia Cutileiro Índias (2004). Évora, ontem e hoje. Reflexões e memórias de uma inconformista. Lisboa: Colibri. 161 páginas, €10. Observação: chamo a atenção para o carinho com que Fernando Mão de Ferro, o editor da Colibri, dedica a este tipo de obras, ao longo dos anos que eu acompanho o seu trabalho. Em mim, a permanente gratidão por ter editado o livro Olhos de boneca, um texto que escrevi sobre telecomunicações e que saíu em 1999.

sábado, 12 de março de 2005

SOPCOM FAZ APRECIAÇÃO DO PROTOCOLO DE BOLONHA

Decorreu hoje de tarde uma reunião da SOPCOM (Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação), no ISCTE, para discussão da aplicação do protocolo de Bolonha à área das ciências da comunicação. Presentes 36 docentes dessa área provenientes de escolas superiores e universidades de diversos pontos do país, incluindo os membros da Comissão que elaborou um relatório para a ministra cessante da tutela do ensino superior. Saliente-se que este texto provocou uma discussão importante no seio da comunidade académica do sector, expressa na sua lista de discussão.

A reunião estava agendada desde há muito tempo. José Viegas Soares (presidente da Comissão e professor da Escola Superior de Comunicação Social) e os seus colegas da mesma comissão explicaram a base do documento, assente em dois grandes parâmetros: 1) perfis e competências, e 2) estrutura e duração dos ciclos. Empregabilidade e mobilidade seriam as duas palavras-chave na altura da encomenda do estudo pedido pela ministra do Ensino Superior. Em articulação com o modo de financiamento do segundo ciclo.

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[legenda à imagem, com uma parcela de elementos da mesa, da esquerda para a direita: Paula Cruz, José Viegas Soares, presidente da Comissão, José Paquete de Oliveira, presidente da SOPCOM, José Bragança de Miranda e Eduardo Geada]

Opções em cima da mesa

Como se leu ao longo do último ano, o Governo português queria apostar num primeiro ciclo universitário de três anos, financiado pelo Estado no caso das escolas públicas, findo o qual o aluno estaria com um grau académico apto para o emprego. O segundo ciclo (dois anos) teria um outro tipo de financiamento, pago pelo aluno. Tal decisão, a acontecer, implica uma forte reestruturação das universidades e politécnicos a nível de fontes de financiamento.

No país, existem 90 cursos de comunicação com designações variadas e com perfis e competências também variados. A Comissão propôs uma uniformização de designações, um modelo de ciclos - apontando para 3+2 (bacharelato ou licenciatura mais mestrado) -, uma não diferenciação entre universidade e politécnico na atribuição de diplomas, uma valoração mínima em termos de cadeiras de comunicação (25%-30%) e um currículo mínimo nacional que servisse de elemento unificador para os variados cursos, pensando fundamentalmente na mobilidade (programa Erasmus).

Após a apresentação dos principais elementos do trabalho da Comissão, Bragança de Miranda, professor da Universidade Nova de Lisboa e membro da direcção da SOPCOM, salientou a necessidade de se olhar a questão do protocolo de Bolonha como sendo de aplicação a três universos distintos: 1) universidade pública, 2) universidade privada, e 3) politécnico.

A sua leitura do documento da Comissão considera os seguintes elementos: 1) uma posição clara pela via profissionalizante, com o primeiro ciclo mais generalista e o segundo (e o terceiro, equivalente ao doutoramento) mais focalizado na investigação, 2) a tipologia dos cursos inseridos num quadro mais geral do tipo de faculdades, pois há as orientadas para a comunicação e as artes e as orientadas para as ciências sociais (e/ou humanas), 3) a importância da duração dos cursos (3+1, 3+2, 3+1+1) marca a designação do grau académico, 4) uma maior flexibilidade em termos de oferta de áreas de opção, dentro da perspectiva de major e minor, mas com um conjunto nuclear e fundamental de cadeiras de ciências da comunicação.

Seguiu-se uma longa e frutificante troca de opiniões e sugestões, ficando formado um grupo de trabalho que, a partir do documento da Comissão Viegas Soares, irá introduzir melhoramentos de modo a poder entregar junto do novo Governo uma proposta mais ampla e representativa da vontade da classe. Em simultâneo, a SOPCOM reunirá com colegas espanhóis, a 23 de Abril, para saber como está a decorrer o processo no país vizinho. É que o Governo terá de negociar em Maio a nível comunitário a inclusão ou não de Portugal no protocolo de Bolonha.
TEMAS PARA DISCUTIR COM O NOVO GOVERNO, SEGUNDO O BLOGUE BALEIA BRANCA

De João Carlos Correia, professor da Universidade da Beira Interior (Covilhã) e animador do blogue Baleia Branca, retiro os seguintes elementos da sua "Carta aberta" aos responsáveis deste país (post colocado às 19:50 de 11 de Março):

"a) O primeiro é o do início da discussão das televisões regionais. É uma discussão que deve ser assumida sem preconceitos nem ideias definitivas, tendo em conta a situação de mercado num momento de crise e as lições da experiência espanhola.

"[...] b) Um diz respeito à necessidade de revitalizar os emissores regionais da RTP, nomeadamente o emissor regional de Castelo Branco com recurso a todas as forças interessadas, nomeadamente a UBI, os Politécnicos do Interior com valências nesta área e até alguns excelentes quadros da Estação em causa. Poder-se-á dizer que os magros recursos do país não aconselham gastos elevados nesta área. Porém, o potencial material e humano da Universidade da Beira Interior ao nível do jornalismo audiovisual conhecido a nível nacional poderia ser uma mais-valia que nem sempre foi tida em conta.

"c) O último diz respeito à necessidade de fazer as Rádios locais cumprirem integralmente a Lei da Radiodifusão e as Leis da República que dizem respeito à independência dos titulares de licença de Radiodifusão. Por exemplo, a Rádio Clube da Covilhã é maioritariamente dirigida por pessoas da Câmara Municipal que a apoia de uma forma que se pode traduzir na impossibilidade prática de levar por diante um serviço independente. Porém, a Direcção da Cooperativa não deu a resposta esperada a diligências efectuadas pela Universidade da Beira Interior para que a Rádio Clube da Covilhã aproveitasse os estúdios e os recursos humanos da UBI [...]".

Para João Carlos Correia, "Talvez seja tempo de alguma iniciativa cidadã. Estes temas paroquiais são também nacionais". Faço aqui eco dos seus pontos de vista, dada a pertinência.

sexta-feira, 11 de março de 2005

HÁ FESTA NO BLOGUE

marioeloy.jpgOntem, entre as inúmeras tentativas frustradas de colocar um post em condições, o Sitemeter acusava o leitor nº 50 mil do blogue, um número redondo há muito ambicionado por este blogueiro.

Começou assim a semana de festa no Indústrias Culturais, a qual acaba em 17 deste mês, dia em que o blogue comemora dois anos de actividade (na imagem, a pintura de Mário Eloy, Bailarico no bairro, óleo sobre tela pintado cerca de 1936 e pertencente ao Museu do Chiado, em Lisboa) [retirada do sítio ciarte.no.sapo].

Obrigado a todas(os) que me têm lido. O blogue é de todos nós!

Andrei Tarkovsky e Clint Eastwood

(Para a Cristina e para a Alexandra)

1) Não quis comparar ou misturar, porque não sou químico. Mas surgiu a oportunidade. Na tradição de: a) por um lado, e b) por outro lado. Talvez porque prossiga uma velha dialéctica. Paro para pensar: como devo fazer sofrer os alunos e quem me rodeia.

2) Os filmes que consumimos fazem parte da nossa biografia: eu vi Tarkovsky no Porto e Eastwood em Lisboa. Como se tivesse dividido a minha vida num antes e num depois. Os próprios nunca poderiam (poderão) saber; para as duas blogueiras acima referenciadas isso é do domínio do não essencial. Mas para mim é vital. O ar do Porto é húmido e as construções de granito são sólidas; em Lisboa o sol nunca se deixa enganar pelo nevoeiro matinal e as casas são pintadas e repintadas, parecendo frágeis. Isso marca a minha percepção dos filmes (apesar de os ver em salas fechadas, semelhantes em qualquer parte do mundo). A comparação vem por acréscimo.

3) O diálogo entre blogues é assimétrico, ou melhor, é assíncrono. Há uma vaivém, uma retoma permanente. Isso é uma riqueza: nós respondemos no lugar do outro blogue ou criamos um púlpito no nosso [eu não deixei o meu comentário no blogue da Cristina, porque a máquina não mo permitiu]. Será a dialéctica a tomar posse de novo no meu sítio?

Adenda colocada às 22:20: Carla Hilário de Almeida Quevedo, do blogue bomba inteligente, juntou-se à discussão Tarkovsky versus Eastwood. Ao seguir Kant, aguçou-me o apetite. Retiro dele: "Para distinguir se algo é belo ou não, referimos a representação, não pelo entendimento ao objecto com vista ao conhecimento, mas pela faculdade da imaginação (talvez ligada ao entendimento) ao sujeito e ao seu sentimento de prazer ou desprazer. O juízo de gosto não é, pois, nenhum juízo de conhecimento, por conseguinte não é lógico e sim estético, pelo qual se entende aquilo cujo fundamento de determinação não pode ser senão subjectivo". Immanuel Kant, Crítica da faculdade do juizo, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1990, p. 89. Os "argumentos que justifiquem escolhas tão díspares", como escreve C. H. A. Quevedo, são os que estão ao nosso alcance. Continuação de boa sorte na sua feliz página do Expresso.
jj7.JPGLIVROS E REVISTAS EDITADOS

Sairam, recentemente, a revista Jornalismo e Jornalistas (nº 21), o primeiro Barómetro da Comunicação (em CD-ROM), do Obercom, e Sociologia dos media, de Rémy Rieffel, da Porto Editora. Destas duas últimas publicações, quero agradecer o envio gratuito. Prometo ler rapidamente e fazer aqui referências aos textos.

Ainda mesmo antes de ler, na revista do Clube de Jornalistas, realço o texto de Vanda Ferreira, sobre o Panorama do ensino do jornalismo em Portugal, e da entrevista, feita por Felisbela Lopes, à jornalista da TVI Margarida Martins.

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LANÇADO LIVRO DE RITA FIGUEIRAS

[ontem à noite, não foi possível completar o post, pois esteve muito difícil colocar mensagens na Blogger.com]

Os comentadores e os media. Os autores das colunas de opinião, de Rita Figueiras, teve ontem a sua apresentação. Inicialmente tese de mestrado da autora, a sua publicação vem apoiar imenso a área sobre a qual escreve. Os jornais (e ainda a televisão e a rádio) têm um corpo crescente de comentadores, nomeadamente políticos, que fazem opinião e procuram influenciar a condução dos negócios políticos a partir dessas perspectivas. Estes comentadores, ou opinion-makers, como designou Figueiras, são "actores privilegiados (com acesso directo aos media de projecção nacional, para expor a sua argumentação)" (p. 57). A autora estudou (análise de conteúdo) o espaço Opinião em seis jornais de referência entre 1980 e 1999: Diário de Notícias, A Capital, Público, Expresso, Semanário e Independente. Temática que, aliás, ela continua a estudar no seu trabalho de preparação do doutoramento.

Apresentação do livro

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Como eu escrevera há dias, a cerimónia de apresentação do livro decorreu na biblioteca da Universidade Católica Portuguesa (UCP). Conforme se pode observar na imagem, Manuel Braga da Cruz, reitor da universidade, foi o primeiro a referir-se ao livro e, em especial à autora, que fez parte do primeiro curso da licenciatura de Comunicação daquela universidade [na imagem, e da esquerda para a direita: Isabel Ferin, professora da Universidade de Coimbra, Rita Figueiras, Manuel Braga da Cruz e Rogério de Moura, o editor dos Livros Horizonte].

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A apresentação científica do livro coube a Isabel Ferin, antiga professora da UCP e orientadora da tese de mestrado de Rita Figueiras, pelo que falou com muita propriedade do trabalho agora tornado público. Num texto sintético, Ferin destacou o apreço da autora, desde cedo na licenciatura, pelo tema, e pela necessidade de estudar o espaço de opinião na dupla vertente de espaço jornalístico e de secção temática. Frisou mesmo que o espaço de opinião é um valor simbólico de estar na democracia (o que é um modo diferente do que eu referi acima). Rita Figueiras, na sua obra, acentuaria o peso do chamado opinion-infotainment [informação leve de opinião], que se autonomizaria. E Ferin lembrou o peso, hoje, de programas como o televisivo Contra-informação ou destacáveis como o Inimigo Público (Público), onde essa opinião é dada de modo mais leve e com diversão. Se quisermos, um olhar simultaneamente cínico e humorado sobre a política e os modos de a fazer.

quinta-feira, 10 de março de 2005

JANTAR DA CAIXINHA

O blogue Pandora's Box está a organizar um jantar de blogues. Será a 2 de Abril, no restaurante Safari (Moscavide, Lisboa). Organizem-se, compareçam.