Blogue dedicado a pesquisas e leituras no domínio das indústrias culturais (imprensa, rádio, televisão, internet, cinema, vídeo, videojogos, música, livros e centros comerciais) e das indústrias criativas (museus, exposições, teatro, espectáculos). Blogueiro desde 26 de Dezembro de 2002. Endereço electrónico: Rogério Santos.

30.6.05

NEGÓCIOS DA CHINA

Durante muito tempo, negócios da China era uma expressão que significava fazer um bom negócio. Talvez por influência de Macau, enclave chinês sob administração portuguesa até ao final do século XX. Daí também se falar em árvore das patacas, fruto da grande movimentação de dinheiro, dado Macau ser uma zona de muito jogo (e outras actividades) [a moeda local chamava-se pataca]. Nos últimos anos de administração portuguesa do território, os funcionários públicos e outros empregados destacados em comissão de serviço no território regressavam com dinheiro e com redes de amizade. Estas eram úteis quando um deles alcançava ou era nomeado para um posto importante na administração pública ou numa empresa. Funcionava o espírito do grupo de Macau - ninguém se esquecia de quem ali estivera.

Nos últimos anos, houve uma inversão de valores e conceitos. O que vem da China é mau: os produtos baratos competem com os nossos e deitam abaixo empregos e empresas. Muitas empresas deslocalizam-se para aquele enorme país. De bom negócio com a China passou-se ao oposto.

Vem agora a campanha do banco Santander. Não sei a proposta do banco, mas quando diz Ganhar é lucrar com a China deve estar a propor voltar à fase dourada em que tudo o que vinha daquela zona do Globo era útil e interessante para os nossos negócios. Vou investigar!
A EMISSORA NACIONAL SEGUNDO NELSON RIBEIRO

O autor distingue três períodos na vida da Emissora Nacional (EN) desde o seu arranque até ao final da Segunda Guerra Mundial: 1) de 1933 a Julho de 1935, 2) de Agosto de 1935 ao final de 1940, e 3) de 1941 a Fevereiro de 1945. Período experimental, posse de António Ferro como dirigente máximo da EN e alteração de programação atendendo à próxima derrota da Alemanha na guerra são elementos determinantes dessas três fases da estação oficial.

Nelson Ribeiro entende que Salazar não deu muita importância à radiodifusão; daí o atraso na constituição da rede de onda curta para irradiar programas e propaganda até às colónias. Contudo, e apesar disso, houve um controlo político sobre todos os que falavam ao microfone, tendo de perfilar o ideal do Estado Novo. Momentos marcantes da EN seriam os começos da Guerra Civil de Espanha (1936) e da Segunda Guerra Mundial (1939). Apesar da neutralidade, a EN tendeu para as forças nacionalistas de Franco e houve uma permissibilidade à transmissão de notícias do país de Hitler.

O estudo agora lançado faz também luz da importância de António Ferro, o ideólogo do regime, o da política do espírito [na imagem, inauguração de navio, com transmissão em directo na Emissora Nacional. Locutor: Fernando Pessa]. Referência às outras estações importantes da época - Rádio Clube Português e Rádio Renascença -, análise da programação da estação do Estado e um forte enquadramento teórico da propaganda como gestora da ideia de emissora do regime são outros dos contributos do livro de Nelson Ribeiro. A meu ver, imprescindível a sua leitura para quem queira estudar o período entre 1933 e 1945, em especial a radiodifusão portuguesa.

29.6.05

LIVRO A EMISSORA NACIONAL NOS PRIMEIROS ANOS DO ESTADO NOVO 1933-1945

De Nelson Ribeiro (ed. Quimera) - lançamento hoje, pelas 18:30, na Universidade Católica Portuguesa (Lisboa).

Espero escrever algumas linhas acerca do livro, mal o consiga ler (embora eu conheça já a tese de mestrado que deu origem ao livro, e que já comentei aqui no blogue).
JOSHUA BENOLIEL NA LISBOAPHOTO 2005

[imagem parcial da fotografia de Joshua Benoliel - "Embarque do Corpo Expedicionário Português para a Flandres", 1917 - retirada do álbum LisboaPhoto 2005, p. 62]

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Chovera ou prometia chover e era Inverno. As duas mulheres à esquerda transportam guarda-chuvas e os seus casacos compridos estavam abotoados. O chão parece um pouco enlameado, devendo sujar os sapatos de fivela e, presumo, de pequeno salto de ambas as mulheres. Atrás, uma terceira mulher tem um rosto mais entristecido. De lenço negro, possivelmente já se havia despedido do namorado ou marido, a caminho da Flandres, onde muitos portugueses morreriam na frente da batalha (La Lys, 9 de Abril de 1918). Talvez o namorado fosse o soldado de bigode que vemos à direita, cabisbaixo, já a caminhar.

O rapazio, do lado esquerdo da imagem, acompanha a marcha dos soldados entre o medo e o espanto da movimentação. Verifico a cor da pele deles, muito meridional. Mas fixemo-nos agora no casal da frente.

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A rapariga, de rosto muito fino e estatura mediana, tem os olhos semicerrados. O soldado pega meigamente no queixo da mulher prestes a rebentar em choro, após o último beijo. Eles sabiam que a despedida podia não ter regresso. Na mesma mão onde segura o guarda-chuva, tem um pequeno embrulho preso por corda. Não se sabe se o embrulho se destinava ao soldado, já de mochila às costas, de um pequeno haver dela ou de peça de roupa para entregar a uma cliente (efabulemos que ela era costureira).

À parte estes dramas pessoais, o quadro deve ser compreendido ao nível mais vasto da sociedade. Depois de se ter comprometido com o país que não enviaria tropas para a frente da batalha da Primeira Guerra Mundial, Afonso Costa, primeiro-ministro, mudou de ideias. O país atravessava uma conjuntura política e económica difícil; melhor não ficou, arrastando-se por entre o descontentamento e a escassez de bens de primeira necessidade, enquanto chegavam as notícias das primeiras baixas em combate. A repressão interna teve lugar no Verão e Outono desse mesmo ano de 1917. No final do ano, Sidónio Pais assumia o poder, instaurando uma ditadura militar (no final de 1918, Sidónio seria assassinado).

Possivelmente, o namorado daquela mulher ainda muito jovem (19 anos? 20 anos?) não regressou ao cais da estação de Santa Apolónia. Qual terá sido o percurso da rapariga? Arranjou outro namorado, casou e teve filhos? Ou ficou viúva para toda a vida? Que alegrias teria, passados os anos de juventude?

A acompanhar as fotografias de Joshua Benoliel há um texto de Emília Tavares, em português e inglês. Retiro um pequeno excerto: "As imagens que este novo tipo de jornalismo [em cujo fotojornalismo se insere Benoliel] produziu são o reflexo de uma nova relação visual na sociedade de 1900, em que a cultura urbana, com todos os elementos a ela associados (comércio, transportes, lazer, movimento, luz, trânsito, arredores, favorecidos, desfavorecidos, vistas gerais, pormenores, lapsos de tempo, revoluções, homenagens, escala humana, signos), participou de forma imbricada e determinante".

Esta e outras imagens de Benoliel podem ser vistas na Cordoaria Nacional (relevo para imagens do rei D. Carlos e família e implantação da I República), juntamente com filmes do começo do século XX, integradas na LisboaPhoto 2005, cujo álbum reproduzo abaixo a capa [Hannah Starkey, The dentist, 2003, prova cromogénea, Interim Art/Maureen Paley, Londres] (assim como o do Salão Lisboa 2005, de ilustração e banda desenhada).

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28.6.05

GANHAR PRÉMIOS EM RÁDIO É BOM

Eis a conclusão a tirar da notícia de hoje do Media Network Weblog, sobre as medalhas ganhas pela secção inglesa da Radio Netherlands. Foram seis medalhas no prestigiado concurso Radio Programming and Promotion do Festival de Nova Iorque, que reconheceu "o melhor trabalho mundial" em rádio. Um painel de especialistas internacionais teve como variáveis de análise: valores de produção, organização, apresentação da informação, criatividade e uso do meio.

O anúncio dos vencedores ocorreu ontem, no 24º festival de Programas de Rádio Internacional, em Nova Iorque.
ROTEIRO CULTURAL ATINGE CEM NÚMEROS

O 30 Dias em Oeiras atinge o 100º número. Parabéns à autarquia de Oeiras pela informação mensal que presta aos seus munícipes. Haverá uma comemoração a 8 de Julho.

Do programa cultural do presente mês, e que consta na edição nº 99, pode ainda ver o filme Mar adentro, de Alejandro Amenábar, no cine-municipal (auditório Eunice Muñoz), hoje a partir das 18:00, com preços oscilando entre €2 e €3, ou visitar o Projecto Terminal (hangar K7, Fundição de Oeiras).
NOTÍCIAS DE JORNAIS


1) O adeus às cassetes (Diário de Notícias, 27 de Junho)

O texto de Nuno Galopim lembra o fim próximo da cassete áudio, criada em 1963 pela Philips. A cassete ganhou a adesão dos consumidores, em títulos pré-gravados e em fitas virgem, prontas a gravar. Elas chegaram a comportar 120 minutos de gravação e haviam substituido as velhas fitas magnética em rolo. Agora é a sua vez de desaparecerem devido aos CDs e às formas digitais de gravação. O pico de vendas, escreve Galopim, deu-se em finais dos anos 1980.

2) O consumidor como actor de publicidade (Le Monde, 25 de Junho)

A publicidade nos media procura distinguir-se da paisagem dos anúncios diários, para evitar o alheamento às suas mensagens, escreve Laurence Girard, enviado do jornal ao festival de filme publicitário em Cannes. Primeiro, uma campanha de televisão tem sequência em outros suportes, como a rádio, a internet e os cartazes de rua, mas também se pode fazer acompanhar por um videojogo ou por um DVD. Um construtor de automóveis, Volvo, escolheu fazer pequenos programas que representam cenas da vida quotidiana, filmadas no interior do veículo, e difundidas na internet.

Agora, tenta-se o marketing viral, com a publicidade a obter um maior impacto. Mas também se procura a publicidade lúdica, como a do anúncio do jornal britânico The Economist, criado pela agência BBDO em Londres. Um cartaz de rua representa uma lâmpada: de cada vez que um transeunte passe pelo cartaz, a lâmpada acende.

3) Ainda há literatura de cordel (The New York Times, suplemento que acompanhou a edição do Le Monde, de 25 de Junho)

No Brasil, continuam os poetas a ler os seus poemas de cidade em cidade, de mercado em mercado. Vêm de tempos muito antigos, e os textos nascem de velhas lendas, como a rapariga que bateu na mãe e se tornou num cão ou a rapariga que casou 14 vezes e continua virgem. Ou acontecimentos mais recentes, como a morte de uma criança devorada por um leão, quando ela se aproximou do circo, escreve Larry Rohter. Há sempre um lado cómico mas um outro moral. Poetas de cordel e cantadores percorrem o nordeste brasileiro, cantando mas também vendendo os seus pequenos livros até 32 páginas com poemas que podem ter apenas seis linhas.

Com a rádio, a televisão e, agora, a internet, o foco de interesse da literatura de cordel mudou, para atrair as audiências. Os intelectuais de São Paulo e Rio de Janeiro são coleccionadores ou admiradores dos panfletos de cordel, e a estética desta literatura pode ver-se na cultura popular, incluindo a música pop. Os governos federais e de Estado usam o cordel para promover a segurança, o conhecimento político e as medidas de saúde.

4) Os trabalhos do provedor de leitor do El Pais (19 e 26 de Junho)

Sebastián Serrano escreveu este domingo sobre como se dá o cálculo das manifestações. A organização de uma manif fala sempre em números elevados, a polícia e os representantes do governo em números mais baixos. Como calcular. Explica o provedor: o jornal utiliza mapas dos locais por onde circula a manif e aplica técnicas digitais para obter uma superfície com um dado número de metros quadrados. A partir daí estima o número máximo de assistentes por metro quadrado [a imagem da página refere-se à recente manifestação convocada pelo Forum da Família em 16 de Junho].

No domingo anterior, Serrano dedicara-se a analisar as fontes confidenciais. Por regra, o jornalista deve indicar as fontes de onde obteve a informação. Mas em casos extremos, como no terrorismo, essa regra precisa de ser ponderada, por razões de segurança de quem a dá. Mas, ouviu o provedor de um jornalista experiente, nesses casos deve haver outras fontes identificadas que reforcem a informação.

5) O jornal Blitz em mudanças (Diário de Notícias, 27 de Junho)

Nasceu em 1984, quando um grupo de jornalistas resolveu fazer uma publicação sobre música, moda, publicidade e cinema. Ao fim de um ano, o Blitz já dava lucro, o que surpreendeu quem o dirigia na altura, escreve agora Sónia Correia dos Santos.

Em 1992, o jornal foi comprado pela actual Impresa (SIC, Expresso, Visão). Depois de um período de crescimento, as vendas baixaram. O aparecimento da internet não terá sido alheio a essa queda, ocorrida em 1999. Já antes, em 1995, o jornal atribuía prémios de música.

Agora, entra em nova fase. Espero que o Blitz volte a ter êxito. Assinado: um leitor regular dos primeiros anos do jornal.

27.6.05

LISBOA: CIDADE REMEDIADA, ENVELHECIDA, AGARRADA À TELEVISÃO

Retirei esta frase de artigo saído ontem no jornal Público (caderno Local Lisboa), assinado por João Pedro Henriques, que parte de um estudo preliminar de Manuel Villaverde Cabral, investigador do ICS (Instituto de Ciências Sociais). Cerca de um terço da população desta cidade tem um rendimento mensal líquido igual ou inferior a €800 e mais de 50% um rendimento inferior a €1500. Mais de um terço dos lisboetas (35,5%) tem para cima de 45 anos. Em termos de classes sociais, as profissões científicas, quadros técnicos e médios são as mais representativas (41,6%), seguindo-se os assalariados do sector terciário (29,9%), trabalhadores manuais assalariados (14,3%), patrões, dirigentes e profissões liberais (9,1%), pequeno patronato comércio e indústria (3,9%) e trabalhadores manuais independentes (1,3%). Relativamente a práticas religiosas, quase 80% dos respondentes - que nunca aparecem quantificados - declararam ter actividade nula ou rara. O estudo tem o título Cidade & Cidadania e procura traçar um perfil eleitoral dos lisboetas. Daí que se tenha procurado avaliar a exposição da população à informação política: ela vem da televisão, a que se seguem a rádio, os jornais e a internet.

Por questões de trabalho, estou a ler um conjunto de livros sobre públicos de cultura e sua formação. Um dos textos mais antigos mas mais marcantes é o de José Machado Pais, ele também sociólogo do ICS, e colegas, editado em 1994 e chamado Práticas culturais dos lisboetas. Fico-me pela análise ao impacto da informação cultural sobre a população. Mais de 50% desta não tinha conhecimento das principais realizações culturais. Obviamente, trata-se de um estudo com mais de dez anos de existência e os canais de promoção e divulgação da informação cultural aumentaram e podem ter mais sucesso. Retenho outro dado do mesmo estudo: os jovens eram os maiores protagonistas da cultura de saída (consumo cultural fora do lar), uma quase interdição aos de mais 65 anos.

Estes dados são de proveniência diferente e estão desfasados mais de dez anos no tempo. Mas será que mudou? Ou ainda cristalizou mais, no sentido de consumos mais reduzidos dado que a população envelheceu?

Talvez valha a pena reflectir na carta aberta de António Mega Ferreira hoje no Público, em que, a propósito de uma polémica alimentada por um colunista do jornal, ele defende não um casino e três teatros ou um jardim para o Parque Mayer mas uma zona com habitações. Lisboa tem perdido habitantes para as periferias e quem vive dentro da cidade está a envelhecer. Ainda é uma população remediada, mas continuará a sê-lo por muito tempo, à medida que tem mais anos de idade e deixa de ser profissionalmente activa?

Adenda colocada às 21:30

Também há similitudes com a realidade no Porto. Segundo o texto de Augusto Santos Silva e colegas, Públicos para a cultura (2000), no universo dos não-praticantes de cultura, o grupo dos mais velhos representa um valor elevado dos que têm na televisão quase o único elemento de cultura de massa. Mas a televisão penetra em quase todas as condições sociais, com apenas 3% a declararem não a ver. Claro que, quantos mais recursos sociais detidos, menor é a dependência da televisão (2004: 45).
HAROLD LASSWELL

Harold Lasswell (1902-1978), psicólogo e investigador nas áreas de política e das ciências sociais, é bastante conhecido pelo seu modelo de comunicação: quem diz o quê a quem, por que canal e com que efeito. O primeiro quem controla a mensagem, o segundo quem é a audiência ou receptores, o quê é a matéria comunicada, o canal conduz à análise dos media, o efeito é a reacção do público.




Um dos mais importantes trabalhos de Lasswell foi Propaganda technique in world war (1927), em que desenvolve o conceito de propaganda (de novo na ribalta aquando da guerra no Iraque, na Primavera de 2003). Para Lasswell, a propaganda tem quatro objectivos prioritários: 1) mobilizar o ódio contra o inimigo, por meio de histórias de grande atrocidade; 2) manter a amizade dos aliados; 3) preservar a amizade e procurar a cooperação dos que se mantêm neutros; 4) desmoralizar o inimigo. A propaganda, segundo Lasswell, é a técnica de influenciar a acção humana através da manipulação das representações, como símbolos, por meio de rumores, relatos, imagens e outras formas de comunicação social.

Lasswell estudou particularmente a campanha governamental que fez alterar a opinião pública americana de uma posição anti-guerra para uma de pró-guerra e contra a Alemanha (I Guerra Mundial). Ele via na propaganda um utensílio essencial para a gestão governamental da opinião, isto é, a necessidade de gerar o apoio das massas ao seu governo. Mais tarde, Carl Hovland e um grupo de psicólogos de Yale editavam um livro, onde se descreviam experiências efectuadas durante a I Guerra Mundial sobre o exército americano, também a propósito da propaganda (1949).

Estávamos no começo da Mass Communication Research, a cargo de Lasswell, e centrada em dois eixos: os efeitos das mensagens dos media e a análise de conteúdo para descobrir as razões da influência directa total sobre as audiências, então atribuída aos media. A teoria linear da agulha hipodérmica – um modelo directo de causa e efeito – procurava trabalhar a forma de melhor influenciar os públicos. Lasswell foi, sucessivamente, professor nas universidades de Milikan, Chicago, Columbia e Yale.

Passagem do modelo da agulha hipodérmica para o efeito limitado dos media

Menos interessado em dividir o acto de comunicação nas várias partes e mais interessado em examinar o todo face ao processo social global, Lasswell considera as três funções do processo de comunicação: 1) vigilância sobre o meio ambiente, que revelam ameaças e oportunidades que afectam a comunidade, em termos de valores; 2) correlação de forças entre os componentes da sociedade, 3) transmissão da herança social (Lasswell, 1978: 117).

Este texto, inicialmente impresso em 1948, mostra a transição feita pelo autor da teoria hipodérmica para a dos efeitos limitados. Ele destaca os líderes grupais especializados, que desempenham papéis específicos de vigilância sobre o meio e conduzem estruturas de atenção, proporcionando uma determinada condutibilidade da mensagem (1978: 107). Além disso, as mensagens ocorrem dentro do Estado mas envolvem mais os canais familiares, a vizinhança, os grupos e os contextos locais (1978: 109), podendo existir a comunicação em dois sentidos (a retroacção). Estava-se na segunda função apontada pelo autor, a correlação de forças entre os componentes da sociedade, e que conduz ao terceiro elemento do processo social: a transmissão de valores de geração para geração. Ideais como esclarecimento, respeito ou bem-estar sucedem ao longo das gerações como valores pilares de uma sociedade (1978: 111), os miranda (termo latino que designa os valores dignos de admiração e respeito), moldados e distribuídos nas instituições, como o lar e a escola.

Leituras: Harold Lasswell (1978). “A estrutura e a função da comunicação na sociedade”. In Gabriel Cohn (org.) Comunicação e indústria cultural. S. Paulo: Companhia Editora Nacional (original de 1948) (pp. 105-117), ou
Harold Lasswell (2002). “A estrutura e a função da comunicação na sociedade”. In João Pissarra Esteves (org.) Comunicação e sociedade. Lisboa: Livros Horizonte e CIMJ (pp. 49-60)

26.6.05

ALMOÇO DE BLOGUEIROS, ONTEM EM VILA NOVA DE GAIA

Ontem, não pus qualquer mensagem no blogue. Razão: ter rumado até Vila Nova de Gaia, para participar num almoço de blogueiros, organizado pelo Orlando Braga, do blogue Letras Com Garfos.

Foram cerca de 35 comensais, alguns já habituais nestas confraternizações. Dias atrás, quando escrevia sobre Benedict Anderson e as suas comunidades imaginadas, pensei na blogosfera. Mas acho que se está a estabelecer um patamar paralelo ou acima ao enunciado por Anderson, o das comunidades identificadas num objectivo. Há regularidades que começo a detectar nestas reuniões de comensais da blogosfera, que vieram (foram) da Grande Lisboa, do Grande Porto, Guimarães, Aveiro, Beja, Faro, numa demonstração de criação de amizades ainda que informais. Descobri que há blogueiros(as) que se conhecem há muitos anos, outros que são vizinhos na cidade onde moram, têm profissões iguais.

Como não posso colocar imagens que tirei ao grupo, por combinação prévia, fica uma vista muito estreita do restaurante Tromba Rija, onde os comensais se reuniram. E também um pormenor da feira de antiguidades (umas mais que as outras) da ribeira de Gaia e a fachada de um edifício a lembrar as cerâmicas da zona da rua Soares dos Reis, uma memória desprezada com este vigor.



LEITURAS DE JORNAIS

1) Sida extinta

Eis um título o mais errado possível de uma breve publicada ontem no Expresso, na página 32. Um Governo não decreta a extinção de uma doença. Pode declarar o fim de uma comissão de acompanhamento da doença, que foi o caso. O título foi assim construído porque o texto se inseriu na coluna de Últimas, sem espaço para mais.

Não posso comentar a pertinência da extinção da Comissão Nacional de Luta Contra a Sida (CNLCS), por não ter elementos avaliativos da justeza da medida, exactamente na semana em que a estrutura (embora com outro nome) comemorava vinte anos de trabalho. Mas, se o Governo tiver razão, significa uma de duas coisas: 1) a doença está controlada e não justifica um departamento especial para o seu acompanhamento, com integração adequada num alto-comissário para a saúde, onde se envolvam doenças igualmente mortais como sida, cardiovasculares e oncologia, 2) a estrutura estava burocratizada e não produzia trabalho concreto.

Recordo somente a génese da estrutura ligada à sida. Ela arrancou em 20 de Junho de 1985, após notificação das primeiras mortes no ano anterior. A designação inicial foi Grupo de Trabalho da Sida e contou com a liderança de Laura Ayres. Mais tarde, a designação mudou para CNLCS, em Abril de 1990, mantendo a mesma responsável. Após a sua morte, por doença cardiovascular, em Janeiro de 1992, o lugar foi preenchido por Machado Caetano e Odete Ferreira, esta no final do mesmo ano de 1992. Durante cerca de dez anos, foi Odete Ferreira a imagem da CNLCS. Uma mudança governamental operou a sua substituição, num momento em que a sida deixava as primeiras páginas dos jornais como elemento de terror e descontrolo sanitário.

Espero regressar com este tema lá para o Outono, explicando o modo como a imprensa tratou a doença ao longo de cerca de quinze anos.

2) Televisão no celular

Segundo Andrew Murray-Watson, do Sunday Telegraph de hoje, a televisão no telefone móvel será uma realidade em breve. Comenta ele, se cada britânico consome à volta de 18 horas semanais em televisão, por que não introduzir uma televisão móvel?

Todos os principais operadores de celulares estão a ultimar as suas ofertas. Esta semana coube a vez à Virgin Mobile, em parceria com a British Telecom, apresentar um serviço que permite aos seus clientes terem um telemóvel com televisão. As experiências ainda decorrem com um pequeno número de clientes em torno da autoestrada M25. O serviço comercial será lançado em 2006 se a prova piloto tiver sucesso. Há, neste momento, oferta de três canais - Sky News, Sky Sports News e uma estação de música, a Blaze. O Sunday Telegraph experimentou a tecnologia e concluiu que ela funciona. Trata-se do DAB. Dia sim dia não ou mês sim mês não, escreve-se que o DAB não serve, que está ultrapassado. No Natal passado, foi o sucesso de vendas de receptores de rádio em DAB; agora, a promessa de televisão no telemóvel através de DAB.

Entretanto, a concorrência experimenta outras tecnologias. A Orange usará a rede 3G (terceira geração de celulares). Contudo, a resolução de imagem não é tão boa como a do DAB, embora seja pioneira, pois já oferece comercialmente o serviço a £10 mensais (grosso modo: €15 mensais), que inclui o Big Brother e um canal de corridas de cavalos, aos escassos clientes que aderiram. Uma terceira tecnologia espreita e dá pelo nome de DVB-H (digital video broadcast-handheld), em desenvolvimento pela O2 em Oxford. Um analista terá dito que o DVB-H será o VHS do Betamax do DAB (traduzido por miudos: o Betamax era um sistema de gravação vídeo de melhor qualidade que o VHS, mas este acabou por triunfar graças ao marketing das empresas que o comercializaram; o mesmo poderá acontecer com o DAB, ultrapassado pelo DVB-H).

Aguardam-se desenvolvimentos tecnológicos. Duas coisas são, porém, certas: 1) o DAB não é para desprezar; 2) a televisão não vai morrer por causa da internet, pois canais temáticos e a pagamento estão a encontrar outras formas de distribuição.

3) RSS (Really Simple Syndication) ou como criar o seu próprio jornal

No mesmo Sunday Telegraph de hoje, Guy Dennis fala-nos do RSS (Really Simple Syndication) - o modo como as notícias estão a ser distribuidas na internet e as grandes implicações que isso terá na forma dos grupos mediáticos fazerem dinheiro. Trata-se de um software que organiza as notícias de acordo com o interesse do consumidor da internet, agregando-as de uma determinada maneira. A escolha determina, digamos, notícias vencedoras e notícias perdedoras. Por isso, há uns que são entusiastas e outros que nem por isso. Aliás, RSS tanto pode querer significar Really Simple Syndication como Rich Site Summary!

Muitas organizações noticiosas têm oferecido dois serviços em conjunto: o conteúdo de uma história nelas produzidas e a agregação e selecção de outras geradas por agências noticiosas. O RSS pode alterar o conceito e permitir aos leitores escolherem o que querem receber em termos de matérias. Haverá ainda alterações quanto ao design de páginas web e na publicidade. A grande esperança é que o RSS chame a atenção de audiências para um história específica e, a partir daí, para outras partes do sítio, o que pode rentabilizar os investimentos publicitários.

A primeira vez que eu li sobre RSS foi no blogue Intermezzo, de Daniela Bertocchi, o que ilustra a vanguarda da sua responsável.

4) A escola da Bauhaus em exposição em Barcelona

Não resisto a reproduzir esta página da revista do El Pais de hoje [conto com a benevolência do editor do jornal em não me cobrar direitos de autor, pois se trata de uma página magnífica, como a que é publicada na página seguinte da revista, uma aguarela de Vasili Kandinski para o director da Bauhaus, o arquitecto Walter Gropius].

A Bauhaus foi a mais influente escola artística alemã entre 1919 e 1933, quando o nazismo a fechou. Agora a exposição em Barcelona (sala Caixaforum) mostra a vida e as festas organizadas por professores da escola, como Mies van der Rohe, Gropius, Kandinski, Paul Klee. Para quem viajar até à Catalunha, a não perder. Eu fico-me com o texto de Ignacio Vidal-Folch.

[post acabado às 20:54]

24.6.05

JORNAIS DESPORTIVOS COM MAIS PÁGINAS VISTAS NO ONLINE

Segundo o estudo Netpanel da Marktest, as três primeiras posições no ranking dos jornais e revistas online com mais páginas visitadas em Maio são ocupadas por jornais desportivos: Bola online (9,2 milhões de páginas), Record online (7 milhões) e Jogo online (quase 4 milhões).

Contudo, em termos de jornal online mais acedido, o Público online continua à frente, seguidos da Bola online, Record online e Diário Digital. Lê-se ainda no mesmo trabalho: "Em Maio, 691 mil portugueses com quatro e mais anos acederam a sites de jornais, revistas ou de notícias portugueses, o que representa 53,1% dos internautas desse período. Neste mês observou-se um acréscimo no número de visitantes destes sites, que receberam mais 2,8% de utilizadores únicos do que em Março e mais 10,4% do que no mês homólogo de 2004. A média diária de utilizadores únicos de sites portugueses de jornais, revistas ou notícias foi idêntica à verificada no mês anterior, com 132 000, mais 16,8% do que no mesmo mês do ano anterior".

Como comentário principal à informação disponibilizada pela Marktest: a tendência do online segue a da leitura dos jornais em papel, em que o desportivo ganha à informação geral (e de qualidade). Neste estudo, o registo vai especialmente para o número de páginas acedidas mas também para o acesso aos sítios.

CURSO O CINEMA E AS NOVAS TECNOLOGIAS DA IMAGEM DIGITAL

A realizar na Universidade do Algarve e com a seguinte estrutura:

Dia 28, pelas 11:00 - ante-estreia, com a conferência Hollywood and New Media: A Brief History, por Susan Murray (New York University).

Dia 4 de Julho, pelas 14:00 - conferência de abertura As artes visuais e a plasticidade operativa do digital, por Miguel Leal (artista plástico e professor da FBAUP).

Seminários: 1) Modos de enunciação no ciberespaço, por Arlindo Machado (Universidade de São Paulo -USP), de 4 a 8 de Julho, das 14:00 às 16:00, e 2) Cinema digital: passado, presente e futuro, por Javier Ruiz (Universidad Europea de Madrid), nos mesmos dias, das 16:00 às 18:00.

A MÚSICA NOS ANOS 40 EM PORTUGAL

A música em Portugal nos anos 40 é um texto escrito por João de Freitas Branco e publicado em volume da Fundação Calouste Gulbenkian, que recolheu todas as intervenções proferidas num colóquio realizado em Abril de 1982, com o título genérico Os anos 40 na arte portuguesa - a cultura nos anos 40. Aí se incluem textos de Joel Serrão, Nuno Portas, Rui Mário Gonçalves, o já referido Freitas Branco, Tomaz Ribas, Luís Francisco Rebello, João Bénard da Costa, David Mourão-Ferreira, Eduardo Lourenço e José Augusto França.

A rádio nos finais dos anos 1930

João de Freitas Branco, no seu texto, dedica alguma atenção à rádio e à sua importância - para além do ensino oficial, das salas de espectáculos e da indústria fonográfica - na formação musical das gerações de meados do século XX. Ele parte de um "comentário à escolha de pessoas em postos cruciais da acção cultural no campo da música" (1982: 62). Embora em muitas das áreas as pessoas nomeadas fossem claramente identificadas com Salazar, na rádio pública muitas delas foram escolhidas apenas pela estrita competência e que, embora dando "garantias de não militância «subversiva" [,] não eram propriamente adeptos da situação política" (idem). O ministro da tutela era Duarte Pacheco, que nunca aderiu ao partido da União Nacional, e morreu ainda jovem, vítima de acidente de viação.

Escrevia Freitas Branco: "O resultado foi uma programação que, desde os concertos da Sinfónica e das suas orquestras-satélites (Genérica, Popular, de Câmara) e as emissões do Quarteto de cordas e do Trio com piano até às transmissões de obras gravadas em disco, não correspondeu às expectativas das mentalidades mais retintamente situacionistas" (idem). Mas, mais tarde, com a direcção de António Ferro, a partir de 1941, manter-se-ia a qualidade de programação: "Suponho ter sido sua [de Ferro] a ideia duns serões de estúdio, é claro que em directo, nos quais os intérpretes, elém de tocar ou cantar as peças programadas, deveriam conversar um pouco uns com os outros. A experiência não resultou, mas os serviços aproveitaram a maré para emissões regulares de música viva, pelos nossos melhores executantes, ou por estrangeiros que por cá se encontravam, em geral refugiados de guerra e de perseguições políticas ou raciais" (Branco, 1982: 63). Sem pertencerem aos quadros da Emissora Nacional, brilharam dois nomes: José Viana da Mota e Guilhermina Suggia. E houve uma boa quantidade de primeiras audições, bastando consultar os volumes do Arquivo musical português, de César Leiria [imagem das primeiras locutoras da Emissora Nacional, em destaque numa publicação da mesma estação].

Leitura: João de Freitas Branco (1982). "A música em Portugal nos anos 40". Vários, Os anos 40 na arte portuguesa - a cultura nos anos 40. Lisboa: Gulbenkian, pp. 55-75

23.6.05

NOVA LINHA EDITORIAL DA BBC

A BBC adopta, desde hoje, uma nova linha editorial. Esta considera que a exactidão (precisão ou acurácia) é mais importante que a velocidade do que se diz. O compromisso da estação oficial inglesa tem a ver com o comportamento mantido durante (e depois) da guerra do Iraque. Também o uso de gravações secretas será escrutinado, no sentido de prestar um contrato adequado com as audiências da BBC (curioso o pormenor do registo: audiência e não público ouvinte ou telespectador). Ética e valor são os padrões que a estação quer manter preservados, escreveu em comunicado Stephen Whittle, responsável pela política editorial da BBC.

Fonte: European Journalism Centre.
NA MINHA CIDADE NÃO ACONTECE NADA

Na minha cidade não acontece nada. Lisboa no cinema (anos 20 - cinema novo) é um texto de Tiago Baptista publicado no último número da revista Ler História. Um título tão (pouco) saboroso significa um texto intrigante? Ou interessante?

Trabalhando na Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema, obviamente que Tiago Baptista iria escrever sobre cinema. Melhor: sobre a representação cinematográfica de Lisboa entre o cinema mudo e o cinema novo (anos 1960). A sua tese é que, "salvo raríssimas excepções, Lisboa quase não surgiu nos filmes portugueses [até à década de 1960] e que as suas escassas representações retrataram menos uma realidade arquitectónica e urbanística concreta e reconhecível do que uma determinada ideia de cidade".

Há uma parte do texto aqui referenciado que quero destacar, a que diz respeito a Leitão de Barros e ao seu filme Lisboa, crónica anedótica (1930). Barros e António Lopes Ribeiro, vindos da crítica de cinema, e outros como Jorge Brum do Canto e Manoel de Oliveira desempenharam um papel de relevo "na defesa das vanguardas cinematográficas europeias e na actualização do cinema português", escreve Tiago Baptista. Mas esse caminho seria desviado com a afirmação do regime, caso das obras de Lopes Ribeiro. Curiosamente, o filme Lisboa, crónica anedótica teve um registo anormal; daí o interesse nele. É que Leitão de Barros mostrava no seu filme a Lisboa suja, vigarista e "cano-de-esgoto" (Baptista, 2005: 172).

Era o tempo da lei dos cem metros - pequenas películas exibidas antes da longa metragem em cada sessão. Isto levou à proliferação de más pequenas metragens que, com o tempo, foram esquecidas e destruídas porque, entendeu-se, a prata contida nas películas era mais valiosa que o seu conteúdo (hoje, muitas dessas imagens teriam um valor incalculável). Mas era também o tempo em que se pensava num "género específico de «filmes documentários de exportação»", o que não se encontrava no filme de Barros, como anotou o crítico de cinema, Alberto Armando Pereira. O filme, com o saloio e o conto do vigário, afirmava-se contra-corrente, sem qualquer alusão à cidade moderna, monumental, do anúncio luminoso, das avenidas novas e de António Ferro.

A pressão foi forte, por parte dos críticos como dos distribuidores, que Leitão de Barros se viu obrigado a fazer uma segunda versão, de exportação para o mercado brasileiro [imagem do realizador retirada do sítio do Instituto Camões]. As imagens menos gratificantes do original seriam substituídas pelos aspectos monumentais da cidade. O filme inicial mostrava um saloio (habitante rural dos arredores de Lisboa) a apalpar um manequim, rebanhos de carneiros a atravessarem as avenidas novas, as peixeiras do Cais do Sodré com os seus filhos nus dentro das canastras onde antes estava o peixe vendido.

Leitura: Tiago Baptista (2005). "Na minha cidade não acontece nada. Lisboa no cinema (anos 20 - cinema novo)". Ler História, 48: 167-184. Preço do volume: €13,10

22.6.05

PROGRAMA PRELIMINAR DO II ENCONTRO DE BLOGUES

Já existe um programa preliminar do II Encontro de Blogues, a decorrer na Universidade da Beira Interior (Covilhã), nos dias 14 e 15 de Outubro. Assim:

Sexta-feira – 14 de Outubro
14:00 – Recepção e Acreditação
15:00 – Início das actividades dos Grupos de trabalho
18:00 – Sessão de Abertura –
- Presidente da UCP [não sei descodificar a sigla] – António Fidalgo
- Presidente do DCA [idem para a sigla] – Paulo Serra
Conferência de Abertura
22:00 – Noite Weblog

Sábado – 15 de Outubro
10:00 – Continuação das actividades dos Grupo de Trabalho
11:00 - Sessão 1 – De olho na blogosfera
12:30 – Intervalo para almoço
14:00 – Sessão 2 – A blogosfera vista pela blogosfera
17:45 – Intervalo para café
18:00 – Sessão 3 – Horizontes da Blogosfera
19:30 - Encerramento
21:00 – Jantar Convívio
24:00 – Convívio Weblog

Embora esta informação ainda não esteja disponível no blogue do II Encontro de Blogues, aconselho a que façam uma visita a este endereço. Observação: gosto muito, mesmo a sério, do logótipo do encontro - parece-me ter saído das mãos de um jovem pai (ou mãe), às voltas com um brinquedo do filho (um cavalinho?).

Recordo que o primeiro encontro de blogues decorreu na Universidade do Minho (Braga) decorreu em Setembro de 2003. Recupero aqui a opinião de um dos elementos presentes nesse encontro: "Gostei de ter participado no encontro. O José Luis [Orihuela] e o Manuel Pinto convenceram-me definitivamente do potencial da ferramenta para uso educativo e as restantes discussões ajudaram-me a abandonar a minha - confesso - quase total ignorância sobre o tema. Gostei, sobretudo, da franqueza com que se discutiram as coisas e guardo, para mim, um momento que me pareceu significativo do que este encontro pode gerar de positivo em futuras realizações conjuntas - a constatação, por parte do Fernando Zamith, de que ninguém se lembrou de criar uma comissão, para elaborar um relatório preliminar sobre a eventual constituição de uma associação de bloguers. Gostei, ainda, que o Carlos Baquero e alguns dos seus camaradas do Departamento de Informática da UM tenham mostrado interesse em partilhar com esta comunidade (que lhes é estranha) parte da já vasta experiência adquirida na sua outra comunidade (vide GilDot)". [Luís António Santos, do blogue Atrium, em texto arquivado no Encontro de Weblogs].
ESCOLA CANADIANA DE COMUNICAÇÃO (III)

Marshall McLuhan

[continuação das mensagens de 19 e 20 de Junho e adaptado de Rogério Santos (1998). Os novos media e o espaço público. Lisboa: Gradiva]

Na era das auto-estradas da informação, um dos mais famosos sociólogos dos anos 60, Herbert Marshall McLuhan, converteu-se em profeta dos tempos vindouros. Antigo professor de literatura inglesa, McLuhan notabilizou-se por livros como A galáxia Gutenberg e Understanding media.

mcluhan3.JPGmcluhan1.jpg

Em A galáxia de Gutenberg, examina a tecnologia mecânica que resultou do alfabeto e da máquina impressora (McLuhan, 1977: 371). O autor considera que a invenção da imprensa trouxe a fragmentação ao universo sensorial, com a estrutura visual a substituir a primitiva galáxia acústica e táctil. A imprensa multiplicou as informações visuais e submeteu o homem à organização linear de elementos discretos e uniformes. Estávamos na era de Gutenberg: os caracteres impressos no livro produzido em série originariam profundas transformações no homem e na sociedade saídas do séc. XVI, tais como o nacionalismo em política, a perspectiva na pintura renascentista, a substituição da poesia pela prosa na literatura, o individualismo no usufruto da cultura, a uniformidade e repetitibilidade (McLuhan, 1977: 161; McLuhan, 1979: 197).

Projectava-se a ideia de cadeia de montagem, mesmo antes da revolução industrial. McLuhan regista a dissolução da galáxia Gutenberg em 1905, com a descoberta da curvatura do espaço (1977: 340). Aparece uma nova galáxia, a de Marconi, e vislumbra-se a hipótese de fim da hipertrofia visual em benefício de um novo equilíbrio sensorial. Se as sociedades fechadas dependiam da palavra, do tambor e de outros media auditivos, a idade da electrónica anunciava a nova forma de tribo, a aldeia global.

mcluhan2.jpgNo outro dos seus livros, Understanding media, McLuhan considera que os media são extensões dos sentidos do homem e das suas funções: a roda como extensão do pé, a escrita como extensão da vista, o vestuário como extensão da pele, os circuitos eléctricos como extensão do sistema nervoso central (1979: 390). Ainda não era o computador, mas ele estava próximo de se tornar um elemento massificado.

Media quentes e media frios

McLuhan defendia que os media alteram a relação do homem com o seu meio envolvente. Na televisão, por exemplo, não interessa tanto o programa em si mas o modo de recepção, totalmente diferente de outros modos (como o livro, a escola ou o museu). Daí a sua metáfora: o meio é a mensagem, a relação do receptor com o referente.

Para ele, os media electrónicos dividem-se em quentes e frios – quanto maior for o número de elementos de informação numa mensagem e mais densa a substância informacional, mais quente é a mensagem. Assim, um retrato é quente e uma caricatura é fria; uma fotografia e um filme são quentes e a imagem televisiva é fria (constituída de um número limitado de pontos). A "temperatura" da mensagem liga-se à participação do receptor: numa mensagem quente, o sentido é dado pelo emissor; numa mensagem fria, o sentido é dado pelo receptor que está implicado na comunicação.

O livro Understanding media construiu-se em torno da electricidade, tecnologia não centralizada, mas descentralizada [há, aqui, uma forte influência de Harold Innis, que trabalhei recentemente], garantindo a flexibilidade de múltiplos centros (como seria, nos nossos tempos, a internet). A iluminação enquanto extensão da energia é um exemplo de como as extensões alteram a percepção. Com a tecnologia eléctrica, o homem prolonga, ou projecta para fora de si mesmo, um modelo do próprio sistema nervoso central. Devido à sua acção de prolongar o sistema nervoso central, a tecnologia eléctrica parece favorecer a palavra falada e participativa, e promover os usos do telefone, da rádio e da televisão.

A filosofia de McLuhan é optimista. Escritos nos anos 60, uma época de expansão e afirmação da cultura de origem anglo-saxónica, os seus livros marcariam uma geração mas caíram no limbo do esquecimento nos anos seguintes. Com o crescimento das tecnologias de informação, o seu nome era recuperado e a sua leitura procurada de novo.

Leituras: McLuhan, Marshall (1977). A galáxia Gutenberg. S. Paulo: Companhia Editora Nacional
McLuhan, Marshall (1979). Os meios de comunicação como extensões do homem. S. Paulo: Cultrix

21.6.05

REVISTA MEDIA & JORNALISMO

Saíu o nº 6 da Media & Jornalismo, com o título de capa Investigação e globalização. A recente vinda do investigador Pertti Alasuutari, professor finlandês de sociologia e editor do European Journal of Cultural Studies, serviu para uma entrevista e um artigo assinado por ele. Ele tem trabalhado a construção das identidades no quotidiano, a recepção mediatizada e as audiências, bem como as questões da metodologia na pesquisa social.

Outros textos pertencem a Lídia Marôpo, Maria João Silveirinha, Rogério Santos, Catarina Burnay e Estrela Serrano. A Media & Jornalismo pertence ao Centro de Investigação Media e Jornalismo e é editada pela MinervaCoimbra.
CAPITALISMO DE IMPRENSA

Saíu em português o livro de Benedict Anderson, Comunidades imaginadas (em colecção das Edições 70), que eu já destaquei aqui no blogue. Trata-se de um texto fundamental para a compreensão dos mecanismos que promovem (e promoveram desde sempre) o nacionalismo. Mas é a análise da interacção entre capitalismo e imprensa no livro de Anderson que me fascina e me leva a escrever sobre ele.

Por capitalismo de imprensa, o autor entende um conceito vasto que cobre a edição livreira desde o séc. XVI e que se traduz num conhecimento que vive da reprodução e da disseminação (se quisermos, podemos aqui associar textos de Walter Benjamin, Harold Innis e Marshall McLuhan, que escreveram sobre o tema). Seguindo um livro de referência, de Lucien Febvre e Henri-Jean Martin (L'apparition du livre, 1958), Anderson detém-se no mercado inicial de leitores de latim e no aproveitamento posterior das línguas vernáculas para uma crescente produção de livros. As obras de Lutero representariam um terço dos livros em língua alemã vendidos entre 1518 e 1525 (p. 67). Entre 1522 e 1546 surgiram 430 edições das suas traduções da Bíblia.

Faziam-se novos públicos, incluindo comerciantes e mulheres, que não dominavam o latim mas línguas vernáculas, e instituiam-se instrumentos de centralização administrativa na Europa moderna. As nações debutavam apoiadas na língua e na imprensa. A principal característica da língua é a capacidade de gerar comunidades imaginadas, construir solidariedades particulares (p. 176). O fundamental do livro impresso é a manutenção de uma forma permanente, através da sua reprodução infinita.

Num outro lugar do texto, Benedict Anderson estuda a imprensa americana, que começara por ser um apêndice do mercado. Escreve ele: "As primeiras gazetas continham - para além de notícias sobre a metrópole - informações comerciais (datas de partida e chegada de navios, preços habituais de determinads mercadorias em determinados portos), bem como sobre as nomeações políticas nas colónias, os casamentos nas famílias ricas, etc." (p. 93). Esta imprensa adquire um carácter particular, pois se um crioulo (nascido numa colónia, apesar de descendente de metropolitanos europeus) poderia ler um jornal de Madrid, por exemplo, embora nada encontrasse sobre o seu mundo, o funcionário peninsular, mesmo que morasse na mesma rua, evitaria ler o jornal da colónia.

20.6.05

DOIS ANOS DE BLOGOUVE-SE

Para comemorar os dois anos do seu blogue, aniversário a comemorar no próximo dia 27, João Paulo Meneses, do Blogouve-se, vai afixar um guia ético e técnico que pauta o seu comportamento de blogueiro. À hora a que escrevo, ele ainda não está escrito no blogue.

Para mim, trata-se de uma forma muito profissional de trazer questões éticas e deontológicas a um terreno marcado pela liberdade com poucas regras definidas. Protocolos de bom comportamento - ou, como agora se diz: boas práticas - nunca fizeram mal a ninguém. Daí eu achar que o J. P. Meneses faz muito bem em publicar o seu código. Depois da rádio (Tudo o que se passa na TSF), ele lança bases para a blogosfera. Os meus parabéns!

Nota acrescentada às 22:37: Referencio o começo do código ético e técnico de J. P. Meneses: "Pretende-se que este guia seja uma forma de estabelecer uma relação mais transparente com os eventuais leitores ou uma maneira de a clarificar. Há, ainda, um objectivo suplementar: diz-se, muitas vezes, que não há ética na blogosfera e que, por isso, ela dificilmente poderá ser uma referência. É um contributo;
"1. Obviamente, este GET não é um repositório dos códigos éticos/deontológicos ou dos manuais de estilo jornalístico. Porque não precisa (não é jornalismo) ou porque seria redundante (quando são princípios devidamente incorporados)".
ESCOLA CANADIANA DE COMUNICAÇÃO (II)

Harold Innis

[este texto segue muito de perto a obra de James W. Carey, Communication as culture, editada em 1992]

O modelo cultural norte-americano entende ser o crescimento da tecnologia em geral – imprensa, literacia, tecnologias da comunicação – uma narrativa do progresso. A história das tecnologias da comunicação torna-se a história do aumento do conhecimento humano.

É contra este enquadramento que se deve ler a obra de Harold Innis. Para ele, cada fronteira (geográfica) possui uma fileira de apoio (back tier). Os interesses da fileira de apoio são determinados pela extensão com que os produtos da fronteira fortalecem a economia, havendo mais complementaridade do que concorrência de produtos, e acentuando a sua posição estratégica. No continente norte-americano, a primeira fileira de apoio era a Europa.

Mercados de peles, peixe e madeira

O desenvolvimento do continente americano foi determinado pelas políticas e lutas das capitais europeias. As consequências destas políticas e conflitos foram esboçados nos estudos de Innis sobre os mercados sobre peles, peixe, madeira. Com o declínio gradual da influência da Europa, a fileira de apoio mudou-se para os centros metropolitanos da América do Norte – Canadá e América – mas o controlo efectivo passou para Nova Iorque e Washington relativamente às fronteiras do Canadá e dos Estados Unidos. Através dos estudos da produção e comercialização do papel e da pasta de papel, conclui-se que as formas mecanizadas da comunicação eram responsáveis por novos tipos de relações de império e de fileira de apoio e fronteira.

Innis viu no crescimento no final do séc. XVIII e no séc. XIX um processo contínuo de descentralização e recentralização que se movia numa forma dialéctica com as pequenas comunidades do interior (hinterland) a tentarem escapar à influência das metrópoles, mas a serem absorvidas mais tarde. Antes da revolução americana, as mensagens moviam-se num eixo leste-oeste entre Londres e as colónias. Em geral, as colónias comunicavam umas com as outras através de Londres. As notícias nos primeiros jornais americanos eram exclusivamente europeias na origem, e a comunicação era mais forte entre as cidades portuárias e a Inglaterra do que entre as cidades e as zonas interiores da própria América. As cidades americanas estavam isoladas relativamente umas às outras e ligavam-se mais às cidades portuárias e às capitais europeias.

Nova Iorque como novo centro de comunicações e tráfego comercial versus linha ferroviária da Canadian Pacific

Nova Iorque substitui Londres. No começo do séc. XIX, afirma-se como o centro americano da comunicação e de controlo das estradas do comércio e da comunicação com o interior. Nova Iorque mantinha contactos com a Europa por via marítima, enquanto a informação entre as cidades passava agora por Nova Iorque. A hegemonia desta metrópole fortaleceu-se com a construção do caminho-de-ferro de Chicago a Nova Orleães. Nova Iorque e os seus comerciantes, empresas e elites passaram a controlar um sistema de informação cada vez mais centralizado que liga a fileira de apoio do norte e actua mesmo como um fornecedor de muitas cidades canadianas.

As estradas do comércio da cultura delineadas pelo canal (do rio Hudson) e pelo caminho-de-ferro foram alteradas pelo telégrafo, revistas, filmes, telefone, radiodifusão e aviação. Mas Nova Iorque mantém-se central no fluxo de comunicação e cultura, com a importância do corredor Nova Iorque-Washington e as ligações metrópole-interior fluindo de leste e oeste. Há um corredor oriental (de Nova Iorque a Washington) na comunicação americana que criou o monopólio de conhecimento nas notícias e no entretenimento.

Innis descobriu que a linha ferroviária da Canadian Pacific seguia a rota do velho comércio das peles, o que o levou a interessar-se pelas matérias-primas económicas (peixe, peles, madeira e pasta) que tinham sido a base da economia canadiana. Para ele, o desenvolvimento do Canadá e dos Estados Unidos constituiu uma extensão, no Novo Mundo, do poder e das políticas europeias – Espanha, Inglaterra, França. A América do Norte seria, assim, constituída por três bandas largas: o norte do Canadá, com as rotas do comércio das peles ligando a Nova França e a Europa; o sul da América, com matérias-primas como o tabaco e o algodão, para a Inglaterra; e entre as duas a economia mista do norte da América. O continente, como um todo, representava a adaptação da cultura europeia à nova geografia. Os modelos de comércio não eram uma resposta aos factores locais mas eram controlados, mesmo no início do séc. XIX, pelas políticas de Londres, Madrid e Paris.

Dos estudos do negócio das peles germinaram duas ideias que serviram os seus posteriores estudos de comunicação. A primeira foi a pergunta: o que facilitou a grande migração das pessoas e da cultura europeias, levando-as do perímetro da Europa para o “novo mundo”? A segunda ideia foi a implantação da teoria dos centros de comércio. A expansão da Europa na América do Norte baseou-se numa fileira de invenções: na construção de navios, na navegação e na arte de fazer a guerra. Em cada país foram as melhorias na comunicação que constituíram o impulso central: barcos de maior velocidade, instrumentos de navegação eficazes, imprensa.

Imprensa

A imprensa encorajou a expansão coordenada e sistemática dos impérios europeus. Primeiro, encorajou a centralização da autoridade nacional através de um código legal uniforme, uma língua normalizada, um sistema escolar uniforme, e uma administração centralizada capaz de integrar províncias e regiões separadas (ideias que McLuhan vai aproveitar). Segundo, permitiu a descentralização da administração nacional através da forma durável da comunicação. Foi a imprensa e a navegação que permitiram quebrar as fronteiras da geografia e alargar até ao “novo mundo”.

A rápida expansão da indústria jornalística da América, após a invenção da penny press, intensificou a procura americana pela pasta e pelo papel canadianos. O Canadá foi projectado como economia de matérias-primas a fornecer à Inglaterra e aos Estados Unidos. Muitas das decisões centrais ao desenvolvimento do Canadá foram feitas em Londres, Nova Iorque e Washington. Para balancear as suas importações, os Estados Unidos exportavam capitais, bens e, crescentemente, cultura. Nos seus estudos sobre o papel, Innis descobriu o verdadeiro duplo condicionamento do Canadá: os Estados Unidos importavam matérias-primas para impressão do Canadá e exportavam produtos acabados a partir das matérias-primas canadianas: jornais, livros, revistas e publicidade. Eis o dilema do país: apanhado entre a procura do papel e o fornecimento americano dos jornais, livros e revistas, estava ameaçada a independência do Canadá. Daí, Innis estudar as relações entre as rotas do comércio e as rotas da cultura, argumentando que as mudanças na tecnologia da comunicação afectam a cultura ao alterarem as estruturas pela mudança do carácter dos símbolos e da natureza da comunidade.

Às culturas relacionadas com o espaço ele opõe as culturas relacionadas com o tempo: culturas com interesses no tempo-história, continuidade, permanência, contracção; cujos símbolos dependiam da confiança – oral, mito-poética, religiosa, ritualista; e cujas comunidades se enraizavam no local – laços íntimos e uma cultura histórica partilhada. Os media relacionados com o espaço são leves e portáteis e permitem a extensão no espaço.

Leitura: James W. Carey (1992). Communication as culture. Nova Iorque e Londres: Routledge (pp. 134-161)

19.6.05

LEITURAS DE JORNAIS

1) livros que respondem às nossas dúvidas

Em qualquer ocasião, mas em especial em épocas de crise (económica, social, moral), surgem livros com respostas às nossas dúvidas e que apontam o caminho para o futuro, de modo imperturbável. Parece, assim, haver dois mundos: os que têm dúvidas (seres normais) e os que apenas têm certezas. Há, assim, grandes ideias e soluções para os nossos problemas; basta ler o livro adequado ao momento.

Eis a proposta de Bryan Appleyard, no Sunday Times de hoje, que destaca os títulos mais vendidos segundo o New York Times: 1) Freakeconomics, que aplica a teoria económica a quase todas as formas de actividade humana, 2) The world is flat, que revela o modo como tudo está a mudar com a globalização, 3) Blink, que sugere que podemos saber de tudo sem pensarmos em nada, 4) On bullshit, perspectiva filosófica sobre a corrupção de linguagem e verdade dos políticos e dos relações públicas [melhorei a tradução], 5) Collapse, sobre o falhanço das sociedades. Cada um à sua maneira, continua Appleyard, é sobre tudo e procura transformar o nosso entendimento do mundo através de uma "grande ideia".

Cáustico, ele acrescenta outros títulos: Felicidade, Tudo o que é mau é bom para você, Mundos paralelos. E não esquece Tom Peters, Em busca da excelência, que foi traduzido para português e eu me obriguei a ler na época. A estes prospectivadores ou futurólogos, o colunista chama wossers, palavra que me pôs à nora para encontrar um termo adequado na nossa língua. Por isso, procurei mais à frente entender-me com Appleyard, que menciona um professor de economia, Paul Ormerod, que escreveu um livro chamado Porque falham muitas coisas. Elas falham porque todas as grandes ideias económicas estão erradas. Ormerod sugere um modelo biológico para a teoria económica, dada a complexidade do mundo humano. O seu livro é anti-wosser - atrever-me-ia agora a traduzir por anti-iluminado -, equilibrando a crença desmesurada quando se fala no progresso tecnológico e nas grandes ideias.

Por isso, se vê o mundo por um ângulo negativo, não se fie muito nos que prometem explicações e soluções para o seu problema ou os do mundo. As grandes ideias - grandes mas rígidas - residem no plano teórico. O que precisamos, aconselha o colunista, é de serenidade, aceitação, pequenas alegrias. A que acrescentaria, da minha lavra: deve-se continuar a trabalhar e a tratar com os outros - vizinhos, colegas e simples desconhecidos - em busca de soluções pequenas e imperfeitas que sejam.

2) será que a imprensa regional de Vila Real é o espelho do país?

Em dois dias seguidos, o jornal Público trouxe notícias alarmantes sobre a imprensa regional de Vila Real. Ontem, foi o caso do secretário de Estado Ascenso Simões não aceitar uma entrevista sua concedida ao jornal Notícias de Vila Real, pois não fizera a revisão da mesma. Isto obrigou a uma reimpressão de 2750 exemplares. Hoje, vem o caso do presidente da câmara de Vila real, Manuel Martins, que não gostou da sua fotografia impressa num jornal, o que obrigou a uma reimpressão de 500 exemplares.

Se estes dois exemplos não são únicos no país, a comunicação social regional não tem qualquer credibilidade, dependendo completamente dos poderes (central e autárquico). Quando se aproximam eleições a nível local, isto é preocupante.

3) Os pequenos irmãos

Do que o El Pais fala é das câmaras digitais (em máquina ou no celular), que conhecem uma procura enorme. Isto traz uma vantagem e um problema, segundo escreve Patricia F. de Lis. Comecemos pelo problema: os especialistas em intimidade acham que a proliferação das câmaras acaba com a privacidade tal como a conhecemos. Há ginásios nos Estados Unidos e no Reino Unido que proibem os seus sócios ou frequentadores de entrarem como telemóveis com câmara. Recentemente, no Japão começaram a circular carruagens destinadas somente a mulheres, porque havia homens que tiravam imagens à roupa interior de mulheres que usavam mini-saia. Mas também pode haver espionagem industrial, pelo que a americana Sprint está a oferecer aos seus clientes empresariais celulares sem câmara.

A vantagem: a câmara representa o triunfo da democracia. Ou como dizia uma frase anarquista numa parede há muitos anos: "a polícia protege-nos, mas quem nos protege da polícia"? Os defensores das máquinas encontraram uma expressão própria: "vigilância ao contrário". Sabemos que hoje podemos estar a ser seguidos por uma câmara: no supermercado, na auto-estrada, à entrada de um prédio. Ora, por via disso, qualquer tentativa dos cidadãos se protegerem do Estado e das empresas está condenada ao fracasso. O acesso geral a máquinas fotográficas digitais faz com que participemos em vigilantes de quem nos vigia ou em que arranjemos imagens para defesa pessoal em caso de complicação.

Do que não escapamos é do grande irmão (big brother) que Orwell descrevia no seu livro 1984, a sociedade da vigilância.
ESCOLA CANADIANA DE COMUNICAÇÃO (I)

Chama-se escola canadiana de comunicação à dos teóricos que destacaram os media como influenciando a sociedade (Harold Innis, Marshall McLuhan, Derrick de Kerckhove). Esta escola tem uma forte componente de determinismo tecnológico, em especial os dois últimos pensadores. O determinismo tecnológico refere-se à ideia que a tecnologia é o agente da mudança social e liga-se ao valor de progresso, considerando a tecnologia como factor independente, com propriedades, curso de desenvolvimento e consequências (Murphy e Potts, 2003: 11-12). Esta perspectiva salienta que uma inovação técnica com sucesso, se implementada a uma escala suficientemente vasta, gera um novo tipo de sociedade.

Innis (1894-1952) trabalhara a partir de realidades tecnológicas e sociais como a electricidade e a recentralização do império económico (da Inglaterra aos Estados Unidos), do poder e do conhecimento a partir da electricidade (que prometera descentralização, liberdade e democracia) [imagem de Innis retirada do sítio Critical Mass]. O autor canadiano, que detecta uma relação metrópole-hinterland, num país, com fileiras produtivas de apoio de outro país ou império, considera que um determinado meio de comunicação (ou transporte) é capaz de gerar uma sociedade diferente, pode servir de motor da própria história.

Innis aplicou factores históricos e geográficos à análise dos transportes, comércio e media, enquanto opunha uma cultura baseada na oralidade a outra assente na electricidade. Para ele, a tradição oral era do domínio do diálogo, dos valores e da especulação filosófica. Ao invés, a cultura da electricidade é a da sensação e da mobilidade. Se a cultura oral significa preservar os elementos de estabilidade, o poder eléctrico e dos media electrónicos traduzem-se em crescimento imperial e tecnologia.

McLuhan, ao descrever as sociedades onde impera a electricidade como sendo abertas e se interligando, olhou a electricidade de modo diverso (optimista) de Innis (pessimista) . Em McLuhan, com a ideia de aldeia global, de acesso livre da informação e da troca livre da informação, anuncia-se a rede (a internet), como exemplo de contra-cultura.

Leituras: Andrew Murphy e John Potts (2003). Culture & technology. Nova Iorque: Palgrave Macmillan
Filipa Subtil (2003). "Uma teoria da globalização avant la lettre. Tecnologias da comunicação, espaço e tempo em Harold Innis". In Hermínio Martins e José Luís Garcia (coords.) Dilemas da civilização tecnológica. Lisboa: Instituto de Ciências Sociais [trata-se de um magnífico texto, ainda por cima acessível em português]
James W. Carey (1992). Communication as culture. Nova Iorque e Londres: Routledge
Jorge Pedro Sousa (2003). Elementos de teoria e pesquisa da comunicação e dos media. Porto: Edições Universidade Fernando Pessoa

[continua]

18.6.05

OBRIGADO À SAPATEIRA DA NET

Pelos comentários profundos e inteligentes colocados aos meus posts recentes. Mas esconder-se atrás de um nickname quando se cita Virilio não é tão simpático como eu gostaria. Opções...
ÁLBUNS DE IMAGENS

Vale a pena espreitar os álbuns de imagens de Mário Pires no blogue retorta.net. Eles são concertos, ensaios e instrumentos. Faltam apenas os sons.

SERVIÇOS SONAE

Os jornais referiram-se ontem ao novo pacote de serviços de telecomunicações e media oferecidos pela Sonae (Sonaecom). Segundo o Público, telefone, acesso à internet por banda larga e televisão vão custar €22,5 mensais. Quando abrir o serviço, vou logo aderir - é que só para a TV Cabo (televisão e internet) pago €56,4 mensais, muito mais do dobro do que será oferecido pela Sonae. E aqui não entra em linha o custo mensal do telefone fixo.

O artigo do Público, assinado por Rui Jorge Cruz, é muito curioso pela informação que coloca. O sistema a usar - ADSL2+ (variante do ADSL) - proporciona débitos elevados (10 Mbps), fornecendo, em tempo real, filmes e outros conteúdos. Uma das ofertas mais relevantes vem do "clube de vídeo", com milhares de filmes disponíveis, noticiários e desporto.

Pode desdobrar-se o artigo do Público em quatro partes: 1) parceria efectuada anteontem entre a Soanecom e a RTP, para esta disponibilizar emissões e conteúdos nos serviços daquela, 2) declaração de Almerindo Marques (RTP), esperando que "este seja o primeiro de outros projectos" celebrados com outros operadores (e os canais da RTP na TV Cabo não são uma parceria?), 3) declaração de Paulo Azevedo (Sonaecom), em que este serviço permitirá "maior escolha para o consumidor" e em que "as novas oportunidades serão tanto para os utilizadores como para os criadores de conteúdos", 4) declaração de Luís Reis (Sonaecom), para quem o serviço em oferta, o 3.Play, chegará (poderá chegar) a 95% de lares de Lisboa e Porto e a 45% de lares com acesso à rede telefónica fixa, após ter a garantia do acesso às respectivas centrais telefónicas, embora aqui possa haver problemas "resultantes do estado destas linhas [de cobre da Portugal Telecom].

O artigo do Diário de Notícias, assinado por Filipe Morais, cobre outras informações, complementares daquelas. A Sonaecom propõe-se fornecer inicialmente 100 canais, mas tem o objectivo de chegar aos mil, "com o utilizador a poder organizá-los por ordem de preferência". Mas os dois parágrafos iniciais são a parcela mais importante da peça: a Sonaecom propôs à France Télécom sair da Optimus, Novis e Clix para entrar com mais 23,7% na holding (em espécie, através da emissão de 70 milhões de novas acções), isto se o ministério da Economia viablizar o negócio. Há, assim, um reforço de capital na empresa mãe das telecomunicações da Sonae mas uma retirada directa do negócio dos telefones celulares.

Isto pode indiciar a fragilidade do negócio dos móveis e um recentrar na actividade combinatória telecomunicações (fixas e móveis)/media electrónicos/entretenimento. O que conduz à perda do argumento principal na queixa recentemente apresentada em Bruxelas face à existência de duas redes (fixa e cabo) da PT.

Observação final: o Público pertence ao grupo Sonae, o Diário de Notícias ao grupo Portugal Telecom. Por muita independência existente nas redacções, as notícias dos jornais face aos seus próprios grupos não são negativas, mas já o são face aos grupos concorrentes.
Post dedicado às leitoras do blogue

SAPATARIAS

14.jpgO livro de Jane Eldershaw, escritora e ilustradora de revistas como a New Woman e a Vogue Australia, de onde é natural, é um texto divertido. A edição em língua inglesa é do ano passado, a madrilena MAEVA editou-a em espanhol já este ano, simplificando o título para Los zapatos de mi vida.

O que se lê na portada do livro? São as memórias ilustradas, cheias de humor e sabedoria da vida de uma mulher através dos sapatos. Sim, para Eldershaw, pode contar-se uma vida olhando para os sapatos que uma pessoa - neste caso, uma mulher - usa. Misto de antropologia, sociologia, economia, ilustração e non sense, eis um livro leve para consumir num dia quente de Verão, enquanto se experimenta um calçado ligeiro.

O ponto de partida é: a prova mais reveladora dos seus valores básicos reside no seu calçado. Escreve a autora: "Depois de anos a sair com rapazes cheguei a uma conclusão indiscutível: é assombroso o número de coisas que podes chegar a saber de um indivíduo baixando o olhar até essa parte do seu vestuário" (p. 71). Por norma, os homens desesperam porque as mulheres perdem tempos infindos a ver montras de sapatos. Explica Eldershaw que isso se deve a uma velhíssima divisão de tarefas que vem desde a pré-história: os homens, fanfarrões, dedicavam-se à caça de antílopes com lança, as mulheres, precavidas, recolhiam frutos e cuidavam das coisas domésticas. Comprar sapatos tem a ver com esta recatada tarefa de recolecta (p. 109). E, com a idade, a mulher aprende a usar sapatos cómodos e práticos, libertando-se das restrições de manter um aspecto perfeito na sua actividade profissional.

Como não posso reproduzir as belas imagens do interior do livro - pois não pedi antecipadamente autorização, e incorro em pena legal se o fizer -, deixo abaixo imagens das muitas sapatarias da Avenida de Roma, aqui perto de casa, para regalo dos olhos de quem quiser.

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17.JPGDesejo muitas boas compras. Conselho: compre calçado confortável, adequado à estação. Mas pode adquirir sapatos coloridos, abertos, às tiras, com salto ou quase sem ele. Há duas semanas, se a memória me não falha, o Expresso trazia recomendações em termos de vestuário e calçado aos empregados da Caixa Geral de Depósitos, cuja sede fica perto da Avenida de Roma. Aí encontra um outro tipo de conselho!

17.6.05

BLOGUES QUE VOU SEGUIR MAIS ATENTAMENTE

Eles falam basicamente sobre tecnologias mas mostram uma grande atenção à sua correlação com a sociedade. Um é de um blogueiro do Porto (João Paulo Meneses) e o outro de Lisboa (Hugo Neves da Silva), um está a fazer o doutoramento e o outro o mestrado (jornalismo, comunicação). Já me referi a eles em algumas situações (um deles consta do meu último post). São osegundochoque e lisbonlab.
AINDA O COLÓQUIO DE ONTEM SOBRE BLOGOSFERA

Um dos presentes no colóquio de ontem na Cordoaria Nacional, Hugo Neves da Silva, do blogue lisbonlab, tem uma proposta, que passo a citar (os sublinhados coloridos no texto são meus):

"Recentemente, uma amiga, colega de mestrado e jornalista ficou desempregada. Recordo-me perfeitamente de na altura lhe ter sugerido que criasse um blogue onde publicasse as reportagens que estava a terminar, de forma a mostrar o seu valor e quem sabe ter alguma oportunidade profissional. Felizmente, por ter tido rapidamente uma oportunidade de trabalho noutro órgão de comunicação social, acabou por não seguir o meu conselho. Curiosamente, no evento de ontem, Pacheco Pereira afirmou que não conseguia compreender por que motivo é que os inúmeros recém-licenciados da área de Comunicação Social ou os jornalistas desempregados, não criam os seus próprios blogues, nos quais podem publicar as suas notícias ou reportagens, mostrando as suas capacidades. Afinal, tempo não lhes falta. Na sua opinião, os «jornalistas» que tiverem qualidade e valor, serão certamente convidados a integrar os órgãos de comunicação social tradicionais.

"Como muitas vezes o mais difícil é dar o pontapé de saída, associado à vertente experimental que associei a este blogue desde o seu início e ao enorme espaço de alojamento que neste momento possuo desde que migrei para um domínio próprio, gostaria de lançar o desafio de criar um blog, por exemplo newsblog.lisbonlab ou observador.lisbonlab. Nesse espaço qualquer licenciado em comunicação social, jornalismo ou jornalista desempregado, poderia publicar gratuitamente as suas notícias, reportagens, entrevistas ou fotografias. Pessoalmente, responsabilizo-me pela disponibilização do espaço de alojamento, pela criação do blogue e pela sua manutenção. Assim que haja três interessados em colaborar neste desafio, inicio a criação do blogue. Os interessados em colaborar deverão expressar a sua vontade, enviando-me um email para lisbonlab@gmail.com".

Por favor, visitem o blogue lisbonlab.

Entretanto, o Diário de Notícias de hoje publicou uma peça muito equilibrada sobre o mesmo evento (de que incluo uma pequena parcela). Pena não aparecer assinada!
PALAVRAS SUPERLATIVAS

Houve um tempo em que a palavra mercado - como espaço físico de troca, compra e venda de produtos - já não era suficiente para determinar a dimensão esse espaço. Começou a falar-se de supermercado, onde cada tipo de produto era referenciado por marcas. Sou contemporâneo dessa palavra. Se, até aí, o local possível de aquisição de bens de primeira necessidade era um espaço pequeno e havia uma relação interpessoal entre quem vendia e quem comprava, mediado por uma barreira, o balcão, o supermercado alterou a relação de troca. Aboliram-se os balcões e, por vezes, as portas - caso de centros comerciais. Creio que de França veio a palavra hipermercado (aliás, uma marca que chegou a estar implantada no nosso país). Hipermercado é a palavra máxima para designar as superfícies de compra de bens, já não reduzidos a bens de primeira necessidade, mas onde se pode comprar de tudo - livros, gasolina, medicamentos um destes dias.

Claro que, ao lado do tratamento impessoal e onde o cliente pode mexer nas peças ou bens antes de comprar, os bens têm já indicação de preço, em forma electrónica de código de barras (em fim de ciclo, no presente momento), e criam-se nichos dentro do hipermercado, como numa concessão ao antigo armazém: de um lado, há provas (experimenta-se, antes de comprar, assistido por uma jovem apresentadora); por outro lado, há especialistas (caso dos electrodomésticos) que prestam conselhos antes da decisão da aquisição. Como no supermercado, o transporte de bens até à caixa registadora e desta para o parque de automóveis é feito por um carrinho. O supermercado e ainda mais o hipermercado implicam uma geografia de arrabalde ou periferia de centro urbano.

Mais recentemente, fomos enriquecendo o nosso vocabulário com palavras novas. Uma delas foi apagão. Há não muitos anos, Lisboa e uma parte do país ficou, repentinamente, sem energia eléctrica. Causa eventual: uma sobrecarga de utilização. Mas a resposta política foi uma cegonha que fez um curto-circuito e provocou o apagamento. Na realidade, as cegonhas escolhem sítios bem altos para os seus ninhos (torres de igreja, postes eléctricos), mas custa-me a crer que a ave, mesmo com as asas todas abertas tenha uma dimensão superior à distância das linhas eléctricas entre si.

Também surgiu a palavra buzinão. Nos últimos dez a quinze anos houve dois, pelo menos. Tratava-se de uma buzinadela geral em portagens de auto-estrada, protestando contra a sua implantação ou aumento de taxas. Isso surgiu em momentos de forte contestação política. Outra palavra foi calçadão. Ali para os lados de Cascais, junto ao mar, há um passeio comprido onde as pessoas podem passear, correr, andar de bicicleta ou simplesmente conversar, com uns bares e pequenos restaurantes (infelizmente tem estado fechado para obras). Já não é uma calçada, uma rua, um caminho - atingiu um ponto superlativo. Mais recentemente fomos surpreendidos pela palavra arrastão. Para mim, o termo significava barco de pesca maior que a traineira (pesca costeira) e que pode ir até mares profundos à pesca do bacalhau, por exemplo. Ora, o novo arrastão quer dizer movimento de gente no sentido de perturbar a ordem pública (roubando, provocando destruição).

Percebi que a palavra vem do Brasil, como as anteriores. Só que quem reportou esqueceu-se de uma coisa. Hoje, em Portugal, há uma grande comunidade brasileira que procurou o país para trabalhar. Como fala a mesma língua quer ser igual ao falante de cá. Essa legitimidade parece que ficou esquecida quando um jornalista disse: pois, o arrastão foi violento mas nada que se compare com o Brasil. Errado, arrastão já é uma palavra superlativa - e para não ser tão violento como do outro lado do Atlântico convinha construirmos outra palavra. Talvez arrastaozinho (sem til). Ao menos, assumíamos o ridículo da comparação!

[observação: depois de construir esta mensagem, dei a volta por vários blogues (8:47). Manuel Pinto já havia proposto ontem a palavra arrastinho. A minha ideia não é, pois, original. Rendo-me a quem pensou mais depressa]
DETERMINISMO TECNOLÓGICO

Para Marshall McLuhan (1911-1980), os media são tecnologias que alargam as percepções sensoriais humanas. Ao propor que o meio é a mensagem, argumenta que o significado cultural dos media não reside no seu conteúdo mas no modo como altera a nossa percepção do mundo. O impacto de qualquer tecnologia está na "mudança de escala, momento ou modelo que introduz nos assuntos humanos". O impacto particular das tecnologias dos media está no modo como alteram os "modelos de percepção rapidamente e sem qualquer resistência".

Daí se considerar McLuhan um determinista tecnológico, que define a história pela mudança tecnológica. A tecnologia da escrita induz uma mudança fundamental no modo como os seres humanos se relacionam uns com os outros, realçando a visão sobre o som, a leitura individual sobre as audiências colectivas.

O seu principal foco foi o peso dos meios de comunicação electrónicos (inicialmente, ele falou de meios eléctricos) [imagem retirada do sítio McLuhan.ca Global Research Network], que geraram as suas próprias consequências culturais no séc. XX (Murphy e Potts, 2003: 14). Para ele, rádio, cinema, alta-fidelidade e televisão constituíram uma mudança face às condições culturais da impressão, com os seus legados intelectuais de linearidade e racionalidade . O fluxo globalizado de informação, que começou com o uso da radiodifusão de satélite, nos anos de 1960, criou a aldeia global. A velocidade eléctrica da comunicação, com uma base audiovisual, e a saturação da sociedade com imagens e sons vindos de todo o mundo, produzem um campo perceptível total, em contraste com os modelos ordenados das culturas dominadas pela imprensa.

Para McLuhan, os efeitos culturais do meio impresso foram racionalidade e fragmentação social. Por contraste, os meios de massa audiovisuais forneciam uma corrente contínua e variada de informação de uma grande variedade de fontes. O resultado foi uma implosão cultural, na qual as pessoas ficavam a conhecer o mundo como uma comunidade de aldeia: podiam começar a pensar miticamente outra vez, atirando as camisas de força de uma dada cultura, determinada pelas propriedades da impressão.

Leitura: Andrew Murphy e John Potts (2003). Culture & technology. Nova Iorque: Palgrave Macmillan

16.6.05

BLOGOSFERA E O CIDADÃO

Foi o quarto e último da série Debates DN, uma realização dos 140 anos do Diário de Notícias, versando sobre blogues. O moderador foi Miguel Gaspar, jornalista da casa, e os oradores José Pacheco Pereira e Daniel Oliveira, ambos com blogues muito conhecidos.

Miguel Gaspar (ao centro na imagem) procurou definir o território da conversa: blogosfera como espaço público com uma nova dimensão e local de intervenção? Como jornalismo participativo, em que intervêm anónimos ou não jornalistas e divulgam acontecimentos e imagens (caso do tsunami)? Como vigilantes dos media (desmontando histórias)?

Daniel Oliveira (à direita na imagem), blogueiro do colectivo Barnabé, começou por referir a simplicidade do meio, elemento que o capacitou a democratizar-se rapidamente. Para ele, a nível internacional, a guerra do Iraque marcou a expansão dos blogues, enquanto a massificação da blogosfera portuguesa, nomeadamente a identificada com a política, se deveu à fragilidade da comunicação social e a uma questão geracional (os comentadores políticos nos media clássicos vêem de 1974).

Os blogues entre novas formas criativas e um diferente tipo de solidão urbana

Por seu turno, José Pacheco Pereira, após concordar com a ideia de que fazer um blogue é simples e pessoal (sem editor), destacou a evolução desta ferramenta relativamente às páginas pessoais. O blogue tem uma relação diferente com o tempo, é como um pergaminho que se estende no ecrã (o que não está no ecrã está no limbo, corre o risco de não ser consultado e lido). Por isso, o blogue favorece o sentido da imediaticidade, a escrita do tempo presente. A mensagem ou comentário são colocados em tempo real, distintos do diferido nos outros media. A cacofonia, a multiplicidade ou pluralidade de vozes, é o resultado do espaço democrático do meio.

Para além de destacar a importância dos blogues na comunicação social, o blogueiro do Abrupto entende que o novo espaço público é ainda dos domínios: 1) das novas formas criativas (literárias e estéticas), 2) da solidão urbana (em especial a dos blogues actualizados às 3 e 4 horas da manhã, problemática que se encontra também nos chats). Na intervenção inicial, Pacheco Pereira ainda teve oportunidade de referir ao projecto MyLifeBits, da Microsoft, que estuda a possibilidade de colocarmos tudo o que vimos, lemos e ouvimos num disco duro, uma vida inteira num programa informático. Esta memória individual arquivada útil pode ter um reverso: se for roubada, é uma vida que se rouba!

A uma pergunta da assistência - o blogue como hipótese de espaço de contracultura -, Daniel Oliveira falou do seu percurso mais recente, o de cronista num jornal (Expresso). Ele considera haver muito mais crítica e agressividade nos blogues - que comentam logo um erro ou falha dos jornalistas - face ao jornal. Aqui, a crítica, a existir, é lenta. Se há desgaste no blogueiro, o colunista do jornal não tem retroacção do seu trabalho.

Muito mais foi dito. A sessão, apesar de não começar à hora exacta, acabou depois das 20:30. Foi uma conversa muito interessante, em que também se abordou a possibilidade dos blogues se transformarem em actividade comercial.
No fim, Pacheco Pereira aceitava a hipótese de um pagamento por consulta às páginas dos blogues: afinal, escrever aqui é tempo que se gasta, e o tempo deve ser contabilizado como elemento económico [ao lado, imagem da exposição dos 140 anos do Diário de Notícias. Perguntas sobre a exposição: depois de sair da Cordoaria Nacional, a exposição vai para algum sítio? Não foi uma má ocasião terem feito agora a exposição, com feriados e jovens em época de exames? Vai ficar alguma coisa de memória, como um livro?].
MEDIA, IMIGRAÇÃO E MINORIAS ÉTNICAS

Foi ontem apresentado o trabalho conduzido por Isabel Ferin (Universidade de Coimbra) e de Clara Almeida Santos com o título acima designado, uma encomenda do Observatório da Imigração, entidade pertencente ao ACIME. A apresentação do trabalho decorreu durante a tarde, integrado num conjunto de actividades, de que destaco também a conferência de Gian Maria Bellu, jornalista do diário italiano La Repubblica sobre a temática imigração e integração (à esquerda na imagem).

No trabalho de Ferin e colega, foram observadas 1791 peças jornalísticas respeitantes a 2004 (imprensa e televisão). Da análise as autoras concluiram ter havido um pico em Janeiro, sendo a hipótese explicativa o facto de as quotas de entrada de imigrantes terem constado da agenda política nessa altura.

Dos principais temas abordados nas notícias, ressaltam o ilegal (ou indocumentado) e o policial. Mas o crime é o mais abordado enquanto assunto noticioso (19,5% das peças de imprensa e 26,6% em televisão). As autoras encontraram uma dicotomia nas peças de televisão: muito curtas (em voz off) mas também mais compridas (reportagens).

Tem havido, ao longo do tempo, uma melhor definição de minorias, deixando o singular para passar a distinguir as várias origens: de leste, brasileiros, chineses, paquistaneses, indianos. Por exemplo, na televisão deu-se uma maior ênfase à comunidade chinesa enquanto a cigana (predominante no ano anterior) quase desapareceu. Em termos de peças de imprensa, há uma dispersão geográfica ao passo que as notícias de televisão localizam-se em Lisboa (35,4%), devido às estações estarem aqui situadas. Quanto a vozes, a imprensa recorre com frequência a especialistas sobre a imigração (8%), ao passo que a televisão junta especialistas e vozes populares, verificando-se um decréscimo de vozes institucionais (SEF, governo, polícia).

O trabalho de Isabel Ferin e Clara Almeida Santos foi comentado por jornalistas, num conjunto de contributos úteis. Refira-se que este é o terceiro trabalho de análise dos media sobre imigração e minorias étnicas, fruto de encomenda do Alto Comissariado para a Integração e Minorias Étnicas, sendo o primeiro executado pelo Obercom e o segundo já liderado por Isabel Ferin. Neste momento, não se sabe se o programa irá continuar - pois prevêem-se alterações na cúpula do ACIME -, mas julgo ser muito valiosa a sua manutenção.

Prémios de jornalismo

Já ontem referi os nomes dos vencedores dos prémios [na imagem, o padre António Vaz Pinto, Alto Comissário, dava começo à sessão de entrega de prémios]. Manifesto, antes de tudo, o regozijo pela rádio ter arrecadado dois prémios, o grande prémio, atribuído a Carlos Raleiras (TSF) - Fronteiras à margem do sonho - e o da rádio, ganho por António José Soares (RR) - Sorrisos de leste. São peças de grande densidade emocional e bem construídas, em que as vozes e os sons ganham uma nova dimensão. Se Soares apresenta um trabalho optimista (casos de sucesso entre imigrantes, que ele entrevistou ao longo do país), Raleiras mostra como o sonho de chegar a uma terra prometida pode ser uma armadilha, mas onde há ajuda e possibilidades de refazer a esperança.

Na imprensa, Luís Filipe Ribeiro (Visão) - De Portugal, com amor - retratou o modo como ucranianos vivem em Portugal, muitas vezes afastados da família e o modo como se reencontram. O jornalista (e o fotógrafo) foram à Ucrânia e trouxeram retratos dessas famílias cheias de saudade e descrevem como uma jovem se reencontrou com o pai, aqui em Lisboa, quatro anos depois da separação. A sua leitura faz lembrar os pequenos dramas pessoais e familiares de portugueses que, nas décadas passadas, foram trabalhar para França, Alemanha, Suíça e Luxemburgo.

Já a peça de Carla Adão (RTP África) - Herança d'África [os dois fotogramas aqui inseridos pertencem ao trabalho da jornalista] - retrata a vida de jovens de segunda geração de imigrantes de países africanos, já aqui nascidos e que se sentem bem em Portugal mas onde há memórias e apelos de outras latitudes e culturas. Sem ter um texto construído pela jornalista - que preferiu recorrer a uma psicóloga de educação para fazer de "apresentadora" dos vários casos pessoais - a peça retrata esse misto de pertença e não-pertença, positivo porque traz novas mentalidades e perspectivas, negativo porque pode conduzir a uma descrença no futuro pessoal.


Observação: o blogueiro foi presidente do júri deste prémio de jornalismo.

15.6.05

REVISTAS



Já saíu o número 22 (Abril/Junho) da JJ - Jornalismo e Jornalistas. Tema de capa: "Uma certa moda anunciada" sobre a crise e/ou mutação do jornalismo, escrita por J.-M. Nobre Correia. Elejo um primeiro texto da revista, o de Gonçalo Pereira, "Dissecando as notícias do ambiente", síntese da sua brilhante tese de mestrado defendida na Universidade Católica [na imagem, a primeira página do seu texto na JJ]. A propósito, ele vai estar na mesma universidade, amanhã ao fim da tarde, exactamente a falar desse texto. É livre a entrada para o colóquio. E elejo um segundo trabalho, o de Cátia Candeias, que entrevista Aralynn Abare McMane, do departamento de educação da WAN (Associação Mundial de Jornais).

Na mesma JJ, há o anúncio do número 6 da Media & Jornalismo. Já me disseram que a revista está pronta, mas ainda não a vi. Estou com uma grande curiosidade em folheá-la. É que há um artigo meu: "Jornalismo português em finais do século XIX". Onde escrevo sobre Alberto Bessa e jornalistas seus contemporâneos. Perdoem a publicidade (também não se trata de uma declaração de interesses).

Prémios de jornalismo pela tolerância do ACIME

Prometo amanhã fazer o desenvolvimento (e falar do colóquio que decorreu durante a tarde), mas ficam já os nomes dos vencedores: 1) rádio - António José Soares (Renascença) - Sorrisos de leste, 2) televisão - Carla Adão (RTP África) - Herança d'África, 3) imprensa (escrita e online) - Luís Filipe Ribeiro (Visão) - De Portugal, com amor, e 4) grande prémio - Carlos Raleiras (TSF) - Fronteiras à margem do sonho. Parabéns a todos.
PRÉMIO IMIGRAÇÃO E MINORIAS ÉTNICAS: JORNALISMO PELA TOLERÂNCIA

O ACIME entrega hoje o prémio de jornalismo pela tolerância sobre imigração e minorias étnicas.

Imprensa (escrita e online), rádio e televisão são as áreas premiadas. Há ainda um grande prémio, a sair dos trabalhos nestas áreas. Espero fazer amanhã uma abordagem precisa ao evento.

Debate sobre blogues

Integrado nos debates DN 140 anos, amanhã haverá um debate sobre blogosfera e o cidadão, na Cordoaria Nacional, aqui em Lisboa, pelas 18:00. Modera Miguel Gaspar, com Pacheco Pereira e Daniel Oliveira como oradores.

14.6.05

NECROLOGIAS

Concordo quase plenamente com o que ontem editou Paula Cordeiro, no blogue NetFM, a propósito das mortes de Álvaro Cunhal e Eugénio de Andrade. O título da sua mensagem seria Bons momentos de rádio. Escrevendo habitualmente sobre a rádio, a professora universitária anotou que "quer a Antena 1 quer a TSF dedicaram parte da manhã informativa a cada uma das figuras. No geral, as restantes estações limitaram-se a fazer pequenos apontamentos nos noticiários à hora certa". Eu, antes da dez da manhã, ouvia a Antena 1. Curiosamente, tomei conhecimento da morte de Cunhal perto de Santa Comba Dão, terra de Salazar, que eu atravessava de automóvel vindo de mais a norte em direcção a Lisboa.

Da produção de stock às capas de jornais

Mas os bons momentos de rádio tiveram, no caso da estação pública, trabalho editorial prévio, pois foi feita uma emissão especial durante cerca de uma hora sobre o antigo líder comunista, com certeza não executada em cima da hora. Um investigador francês, Patrice Flichy, a propósito da televisão, distingue produção de fluxo (a necessidade de ter notícias hora a hora) e produção de stock (a passar em momentos específicos). Isto significa que os "bons momentos de rádio" também contaram com a percepção de que Cunhal estava a morrer.

Quanto à televisão vi apenas parte do noticiário das 20:00 do canal público. Já havia horas de intervalo entre o conhecimento da morte de Cunhal e o noticiário pelo que foi possível ouvir testemunhos de apoiantes e críticos da linha política da personalidade agora desaparecida. A televisão, como usa o elemento "voz popular" como uma das estratégias de alongamento do noticiário, entrevistou gente anónima que falou sobre Cunhal. E, se a rádio pode distribuir a informação também pelo desaparecimento de Eugénio de Andrade, pressupondo um público mais conhecedor, a televisão deu a primazia ao político, dado o poeta não ter a notoriedade popular daquele. Como observou com pertinência Madalena Oliveira, do blogue Jornalismo e Comunicação: "O mesmo se repete de cada vez que morre um personalidade da vida pública - a morte é uma notícia que se prolonga interminavelmente nos telejornais".

O mais interessante viria do campo da imprensa, como escreveu Manuel Pinto, do mesmo blogue Jornalismo e Comunicação. Com uma mensagem intitulada A primeira página, ele mostra como foi diferente o dispositivo dos editores dos jornais de qualidade (Público, Diário de Notícias), populares de qualidade (Jornal de Notícias) e populares (Correio da Manhã) (remeto para o seu blogue a leitura completa do post). Como resolver o facto de duas figuras públicas morrerem no mesmo dia? Qual o relevo de cada uma?

O resultado do Diário de Notícias foi o mais espectacular em termos de impacto. Ao desenhar a fórmula de duas capas - uma em cada lado do jornal - uma das metades foi dedicada ao político e a outra, impressa ao contrário, ao poeta (no quiosque onde compro os jornais, o lado de cima tinha a capa de Eugénio de Andrade) - o jornal resolveu facilmente essa tarefa (ver texto de Luís António Santos, no blogue Atrium). Isso encontra-se com alguma frequência em livros bilingues, onde tanto se pode começar de um lado como do outro. Mas também em livros de banda desenhada. Confesso que gostei mais da capa do Público, que juntou aos dois desaparecidos um terceiro, o pintor René Bertholo, dando-lhe uma página completa (p. 49).

Páginas de necrologia e gravatas pretas

Pus-me a meditar - na sequência do comentário de Madalena Oliveira acima referido - em como a necrologia toma conta dos media. Dantes, era possível correr as últimas páginas dos jornais, onde se noticiavam as mortes, mas também os nascimentos, os baptizados e os casamentos (menos os divórcios), negócio praticamente deixado aos pequenos jornais locais e regionais. Em jornais de grande tiragem, apenas o Jornal de Notícias tem uma secção de necrologia com peso de publicidade (do mesmo modo ainda é possível ver, nas pequenas cidades, informação colocada nos estabelecimentos comerciais sobre os falecimentos, a fim dos conhecidos saberem para onde vai o funeral). Já os diários de Lisboa quase não têm este espaço: a morte é do domínio privado, não se anuncia mas esconde-se. À excepção das figuras públicas, que merecem lugar na primeira página com indicação do ano de nascimento (e de morte, como nós não soubessemos o ano em curso).

Ainda me lembro do cenário de destruição da ponte de Entre-os-Rios em 2001. Para além da carga emotiva, e da contínua e exagerada presença dos jornalistas em directo, os jornalistas âncora (pivôs) vestiam gravatas pretas. O espaço de rigor e isenção, que se exige dos media, transforma-se nestas ocasiões. Noutras, no caso do futebol, levam-se cachecóis e bandeiras, publicitando gostos e tendências pessoais. Os media, em especial a televisão, procuram ser nossos íntimos, entrar amigavelmente dentro das nossas casas; daí, todo esse à-vontade.

13.6.05

NELSON RIBEIRO E A RÁDIO RENASCENÇA

Para substituir Rui Pêgo como director de programas da Renascença foi nomeado Nelson Ribeiro, até agora responsável pela Mega FM, o canal mais recente do grupo Renascença.

Do que eu conheço de Nelson Ribeiro - independentemente de outros valores dentro da RR -, trata-se de uma boa escolha. Radialista, professor universitário e historiador [para além da tese de licenciatura sobre a estação de que é nomeado agora director e que saiu em livro, A Rádio Renascença e o 25 de Abril, 2002, uma sua história da rádio está no prelo: A Emissora Nacional nos primeiros anos do Estado Novo, 1933-1945, em edição da Quimera], é um profissional muito aplicado. Nelson Ribeiro já vinha sendo preparado para vôos mais altos dentro do grupo Renascença.
JESÚS MARTÍN-BARBERO

Nasceu em Ávila (Espanha, 1937) e vive na Colômbia desde 1963. Estudou filosofia em Lovaina (Bélgica, 1971) e Antropologia e Semiótica na École des Hautes Études (Paris, 1972-1973). Fundou e dirigiu o Departamento de Ciências da Comunicação na Universidade de Valle (Colômbia), sendo professor e investigador desse departamento (1983-1995). Na Universidade ITESO (Guadalajara, México), investiga os novos regimes da oralidade cultural e os aspectos visuais da electrónica.

Martín-Barbero tem trabalhado, fundamentalmente, os estudos de ciências sociais e a investigação em comunicação na América Latina [imagem retirada do sítio INFOAMÉRICA]. Destacam-se os seguintes contributos: 1) adaptação de sistemas teóricos à realidade sociocultural e política da América latina (e da Colômbia), 2) trabalha temas como a telenovela, enquanto expressão de matrizes históricas e culturais, a cidade e as indústrias culturais, 3) estuda a recepção enquanto domínio das ciências da comunicação. Para ele, a recepção faz-se como reconhecimento e apropriação, 4) centra-se nos processos locais da cultura, funcionando ou não de acordo com o domínio cultural dos meios de comunicação. Existe uma relação entre cultura local e cultura mediática, onde se negoceiam as identidades segundo os contextos culturais. A cultura popular é autónoma e independente da cultura de massa, com valor próprio nas identidades culturais latino-americanas.

Publicou, entre outros, os livros Comunicación masiva: discurso y poder (Quito: Epoca, 1978), Communication, Culture and Hegemony (Londres: Sage, 1993), Dos meios às mediações (Rio de Janeiro: UFRJ, 1997) e Los ejercicios del ver. Hegemonía audiovisual y ficción televisiva (com Germán Rey) (Barcelona: Gedisa, 2000).

No texto em análise Dos meios às mediações, Martín-Barbero parte da análise de autores da escola de Frankfurt (Adorno e Horkheimer) sobre os efeitos "dos processos de legitimação e lugar de manifestação da cultura em que a lógica da mercadoria se realiza" (p. 63) e faz o encontro posterior com os trabalhos de Benjamin, atravessando o conceito de indústria cultural. Para a construção do conceito de indústria cultural, Martin-Barbero elenca os seguintes elementos: 1) unidade do sistema (que regula a dispersão, com a introdução da produção em série na cultura, p. 65), 2) degradação da cultura em indústria de diversão, e 3) dessublimação da arte ("a indústria cultural banaliza a vida quotidiana e positiviza a arte", p. 67).

Martín-Barbero chama a atenção para o estranhamento e o aristocratismo cultural de Adorno, "que se nega a aceitar a existência de uma pluralidade de experiências estéticas" (p. 70), casos do jazz e da arte popular. E indica o modo como Benjamin terá sido discriminado por Adorno e Horkheimer. Benjamin, ao invés, não "investiga a partir de um lugar fixo, pois torna a realidade como algo descontínuo" (p. 72), e trabalha áreas e assuntos como Baudelaire, as artes menores, a fotografia. Dois temas serão condutores para ler Benjamin – as novas técnicas e a cidade moderna –, projectos que o próprio Martín-Barbero também abraça.

Um dos temas mais populares de Benjamin é o de A obra de arte na época da sua reprodutibilidade técnica, que traz consigo o conceito perdido de aura (da obra única e quase acessível, hoje reprodutível pelas técnicas). Isto é, aquilo que, para Adorno, se tornava o máximo de degradação cultural (o jazz, o cinema), constitui um novo modo de recepção cultural (p. 76). Martín-Barbero, no seu rastreio filosófico, chega a Edgar Morin e à sua ideia de indústria cultural, que não é a racionalidade que enforma a cultura, mas "o modelo peculiar em que se organizam os novos processos de produção cultural" (p. 81). A divisão de trabalho e a mediação tecnológica no cinema são compatíveis com a criação artística.

Em Martín-Barbero, o mediador assume um papel fundamental. O mediador, pessoa que habita ou visita um bairro da cidade, permite um fluxo permanente de sentidos, com novas experiências culturais e estéticas. A mediação é a articulação "entre os processos de produção dos media e as suas rotinas de utilização no contexto familiar, comunitário e nacional" (Ferin, 2002: 145). Aqui, o discurso narrativo dos media adapta-se à tradição narrativa popular; por isso, a importância de estudar as telenovelas enquanto formato televisivo contemporâneo.

Leituras: Isabel Ferin (2002). Comunicação e culturas do quotidiano. Lisboa: Quimera
Jesús Martín-Barbero (1997). Dos meios às mediações. Rio de Janeiro: UFRJ

9.6.05

FÉRIAS DE BLOGUEIRO

Porque em Lisboa há dois feriados seguidos (amanhã e segunda-feira), não editarei posts estes dias. O blogueiro vai descansar...
RÁDIO

Governo lança literacia pela rádio

O governo moçambicano lançou anteontem um programa de literacia através da rádio, com o objectivo de atingir inicialmente perto de 20 mil pessoas nas províncias de Maputo (capital), Manica e Cabo Delgado, respectivamente no sul, centro e norte do país. O programa foi lançado pelo ministro da Educação Aires Aly durante uma visita do presidente Armando Guebuza. Para além do programa com 45 lições radiofónicas e duração de três meses, o projecto engloba a produção de manuais para professores e alunos [fonte: European Journalism Centre].

É uma espécie de telescola, como o nosso país teve com o alargamento da televisão a todo o país e que funcionou durante anos para as crianças do ensino primário em locais de difíceis condições de escolas.

Voxx: o adeus definitivo

Os emissores da anterior rádio Voxx vão transmitir a rádio Cidade FM. Ao mesmo tempo, a frequência desta última (107,2 Mhz) dará lugar à Foxx FM, com formato de "música urbana negra". Prevê-se que estas alterações ocorram no final do Verão [fonte: Meios & Publicidade].
AINDA SOBRE JORNALISMO DIGITAL E OUTRAS MATÉRIAS

[observação primeira e única: a mensagem que coloquei ontem, sobre as jornadas de Braga, foi uma reflexão inicial da matéria. O comentário inicial do Luís Santos fez-me temer que eu tivesse sido injusto e excessivo. Por vezes, o meu voluntarismo magoa as pessoas que prezo, e os docentes e alunos da Universidade do Minho que conheço merecem-me todo o respeito e amizade]

1995, ano do começo do jornalismo digital no nosso país, fica a meio de uma década importante na história dos media em Portugal. Primeiro, devido ao surgimento da televisão privada (SIC em Outubro de 1992, TVI em Fevereiro de 1993). Depois, porque o jornal Público arrancou em 1990. Em terceiro lugar, ocorreram as privatizações de jornais (Diário de Notícias, Jornal de Notícias) e de uma estação de rádio (Comercial), nacionalizadas depois da revolução de 1974. A rádio TSF começara poucos anos antes - constituindo uma parte importante do panorama actual dos media portugueses. A oferta de televisão a pagamento (cabo) completa o quadro audiovisual. Embora começando antes, o uso dos computadores generalizou-se - nos media como em muitas actividades - e o acesso à internet principiou exactamente na metade da década.

Transformações

Nesta curta reflexão, a que acrescentarei mais em mensagens posteriores, projecto especificamente as transformações em quatro media: os tradicionais (imprensa, rádio, televisão) e o novo (internet). Em termos de (re)arranjo interno e externo, a partir de factores de índole tecnológica, económica e cultural. A minha leitura aponta para uma incidência forte destes factores sobre os media, que os fazem interagir como se se tratassem de placas tectónicas.

Enumero algumas mudanças: passagem de monolitismo (uma só estação de televisão) para a diversificação de oferta (mais canais de sinal aberto; televisão por cabo, com escolha de vários pacotes conforme o pagamento), que arrasta a necessidade de medir audiências, apesar da pulverização das mesmas (mais canais, mais diversificação de públicos), entrada em força de profissionais com formação académica em comunicação (o primeiro curso data de 1979), mix crescente de informação e entretenimento (provocado, por exemplo, pelo peso dos reality-shows), tendência contraditória de mais notícias internacionais e mais notícias nacionais (alongamento dos noticiários) num registo leve, maior relevo para os directos (vindos da rádio para a televisão).

Já na imprensa - e após o rápido desaparecimento dos tipógrafos, uma classe profissional até aí muito importante, por via do uso do computador na sala de redacção -, os anos 1990 testemunham a segmentação de títulos e públicos-alvo (nomeadamente as revistas), fenómeno que se acentua na actual década, a alteração de secções fundamentais num jornal (por exemplo, desaparece a secção trabalho e sindicalismo, muito visível nos anos 1970 e 1980, e ganha relevo a do ambiente), a imagem ganha espaço (para além da fotografia, a infografia resume frequentemente acontecimentos ou temas), os textos reduzem tamanho, o formato tablóide faz quase desaparecer o broadsheet.

A rádio, após o boom das estações de proximidade (legislação de 1989), conhece um certo amadurecimento: perda da importância de programas de autor, mesmo que fossem medíocres, e ascensão dos tops e das playlists, programas programados por computador, ligação à indústria de espectáculos. A obrigatoriedade de noticiários diários e da emissão 24 horas por dia levou a, entre outros factores, a um reagrupamento em termos de concentração, fenómeno também visível na imprensa regional e que se ampliou esta década.

Quanto ao novo meio, a internet, a sua entrada e adesão fez-se com grande rapidez. Enquanto os media anteriores precisaram de muitos anos para se afirmarem, a internet ganhou muita popularidade durante a segunda metade da década de 1990. Aqui, há um fenómeno a que voltarei: o seu sucesso deveu-se muito à juvenilização do consumo. Se os públicos mais velhos lêem jornais e vêem televisão, aos públicos mais jovens é aceite o conselho de aquisição de computadores e ligação à internet em termos domésticos (familiares). Os sociólogos da comunicação frisaram esta importância nas novas compras de meios electrónicos por parte da geração mais nova de cada lar. Embora hoje tenha desaparecido o discurso, na década passada os pais compravam computadores porque entendiam que essa tecnologia favorecia a formação escolar dos filhos. E estes, que já tinham uma cultura visual diferente da dos pais (jogos arcade e vídeo versus televisão), adoptaram a internet. Entretanto, os jovens são já adultos e responsáveis pela mudança de consumos - do jornal em papel para o jornal digital.

[continua]

8.6.05

AINDA AS JORNADAS DOS DEZ ANOS DE JORNALISMO DIGITAL EM PORTUGAL

Daniela Bertocchi e Sérgio Denicoli publicaram o texto Jornalismo digital. A internet e o declínio dos jornais no sítio do Observatório da Imprensa brasileiro, com uma leitura sobre as jornadas realizadas a semana passada na Universidade do Minho. Dos jornalistas presentes, e segundo o texto agora editado, "talvez uma das maiores frustrações destes 10 anos de jornalismo digital tenha acontecido no âmbito editorial. Muitos dos debatedores concordaram em que pouco se avançou em termos de linguagem ciberjornalística, apesar de insistentes falatórios em torno das potencialidades hipertextuais, interativas e multimidiáticas do meio".

Ainda de Daniela Bertocchi, e sobre a mesma temática, também foi publicada no Observatório da Imprensa uma entrevista a Ramón Salaverría, com o título A tecnologia não é inimiga. Como pano de fundo, o livro recente do professor da Universidade de Navarra, Redacción periodística en internet (Eunsa, 2005) [dicas de Manuel Pinto, no Jornalismo e Comunicação de hoje].

Sem me sobrepor à leitura total da entrevista a Salaverría - aconselhável -, proponho dois pequenos excertos: "Na minha tese de doutorado analisei três mil obras sobre redação. Entre elas, 1.500 manuais propriamente ditos. Peguei desde as obras do século 18 até o fim do século 20. A conclusão que cheguei é que aquilo que se sugere como uma boa redação em termos de estilo é o mesmo há três séculos. E Aristóteles é uma referência brilhante. Ele já dizia há 25 séculos que os elementos desnecessários deveriam ser eliminados da redação, já que o que é supérfluo é negativo. Uma referência clara de que a concisão exige a máxima densidade informativa. Disso já sabemos. Para o caso particular da web, precisamos então ir além". Mais à frente, à pergunta da entrevistadora sobre o que os jornalistas devem ter em conta quando escrevem para a web, Salaverría respondeu: "Em poucas palavras, a essência é ter em mente que o estilo jornalístico permanece, como dissemos. E procurar configurar seus conteúdos segundo as novas possibilidades hipertextuais, interativas e multimídia que o meio oferece. Não se trata de renunciar completamente ao passado, mas abrir os olhos às novas possibilidades".

Uma reflexão sobre as tecnologias e as indústrias culturais

Em Braga, Salaverría falaria de tecnófobos e tecnófilos, os primeiros com horror quase epidérmico às tecnologias (disfóricos) e os segundos uns optimistas que crêem na bondade de qualquer tecnologia (eufóricos). Parece-me que o mundo se tem pautado entre estes extremos, embora a maior parte de nós se situe num espaço intermédio desses pontos.

O discurso tecnológico recorre com frequência à imagem do progresso e do bem-estar. Os cientistas, até ao começo do séc. XX, não aparentavam ter dúvidas quanto à bondade das suas pretensões. Vivia-se numa postura positivista e racionalista. A public understanding of science seria o corolário dessa visão, em que se procurou transmitir, sem a linguagem dura das disciplinas científicas, para várias camadas da população, os sucessos dessas actividades. Cientistas e jornalistas colaborariam na divulgação da ciência.

A bomba atómica, os acidentes nucleares e químicos, a poluição, o enriquecimento e a tomada de posições políticas por parte de cientistas cujo princípio seria contribuir para o bem estar geral e não a procura do lucro como principal objectivo, tornaram problemática a colaboração entre cientistas e jornalistas. Agora, a profissão do jornalista está, ela mesma, ameaçada pela tecnologia. Melhor dizendo: as competências serão modificadas pela tecnologia. Dentre estas, destaque para a necessidade de manipular programas, usar uma linguagem diferente da produzida até agora (mais curta e incisiva), empregar novas fontes de informação, escrever no sentido do imediato.

O discurso dominante em Braga foi o tecnológico. Faltou algum distanciamento sociológico e histórico. Na minha perspectiva, sem isto não é possível ter-se um domínio completo da realidade. Por exemplo, quando se fala do perfil do jornalista, para além das competências tecnológicas - que os jovens saídos da universidade já possuem, pelo que o recado é dirigido aos jornalistas mais velhos -, não se pode escamotear a importância de áreas de saber diferenciados. Falo de, entre outras disciplinas, de literatura, história, ciências exactas (física, matemática, medicina, biologia), economia, ciências políticas, cultura. Os jovens que entram nas redacções dominam linguagens informáticas e técnicas de recolha de informação mas precisam de ter uma visão do mundo, que os cursos de banda estreita e curta duração (três anos) não dão. E como é feita esta formação?

Há uma outra questão, que tem ocupado uma parcela das reflexões neste blogue, que se prende com as mutações profundas que as tecnologias digitais conferem ao conjunto das indústrias culturais. Do livro ao cinema, da indústria discográfica ao jornalismo, as cadeias de valor, as estruturas empresariais e as competências profissionais estão todas em discussão. E em muitas a indefinição é tão grande ou maior que no jornalismo. Veja-se na rádio e na indústria discográfica, com o iPod e MP3 [imagem da campanha actual da Samsung sobre os MP3 portáteis: Agora, és tu quem mexe a música. Imagem colocada às 19:05]. Não deixa de ser curioso que a entrevista de Ramón Salaverría a Daniela Bertocchi, disponível na internet (meio digital), tenho por base a reflexão sobre um livro (meio analógico) recentemente editado. Prometo voltar ao tema.
REVISTAS

O acontecimento visto pela Trajectos

É já o número 6 da revista dirigida por José Rebelo (ISCTE) e agora editada pela Casa das Letras (empresa que sucedeu à Notícias Editorial).

Tema do dossiê: o acontecimento. Rebelo convidou Luis Quéré a escrever sobre o assunto, respondendo depois ao desafio vários investigadores nacionais e estrangeiros, que convocaram vários saberes. Para Quéré, o acontecimento tem uma dualidade, desdobrando-se para o passado e alongando-se no futuro, e é descontínuo, em que um acontecimento precede outro, ligados por contextos mas recontextualizados. Sem estabelecer algum critério de valorização, o que seria vã pretensa minha, chamo a atenção para o cuidado filosófico do texto de Raquel Paiva e Muniz Sodré, ambos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, intitulado Sobre o facto e o acontecimento.

O que já estou a ler e recomendo vivamente é o texto inicial da revista (fora do dossiê), de Mário Mesquita, Teorias e práticas do jornalismo do telégrafo ao hipertexto, ensaio de uma inegável qualidade sobre o termo e o conceito de objectividade.

Marketeer remodelada

Escreve, sobre o novo grafismo da Marketeer, o director editorial Carlos Manuel de Oliveira no número de Maio da publicação: "Este formato vai permitir um melhor aproveitamento do espaço gráfico. Uma nova estrutura possibilita uma arrumação diferente e uma melhor distribuição dos conteúdos. Um novo grafismo e uma maior presença de imagem tornará a revista mais atractiva, mais aberta".

Destaco as secções conceitos & ideias e estudos & teses. Nesta última, a referência a um artigo sobre o ISCTE, assinado por Rita Caetano. Fico-me pelo destaque: "O ISCTE é a escola com maior número de doutorados em marketing e com o maior número de docentes na área, além de ser também aquela em que os seus docentes têm maior número de divulgação de livros". A secção comunicação & media apresenta, por seu turno, análises interessantes para ler. Assim, Leonor Araújo escreve sobre criar conceitos, nada mais nada menos que a campanha da cerveja da Sagres, Bohemia, de que já passei aqui imagens dos mupis. A secção acaba com análises de audiência e de share, a partir de dados da Carat.

O número de Maio traz dois suplementos, um dedicado ao marketing relacional e o outro ao marketing farmacêutico.

7.6.05

RÁPIDAS MELHORAS, LUCIANO!

Conheci Luciano Canhanga, jornalista angolano de uma rádio privada de Luanda, num curso recente aqui em Lisboa, na Universidade Católica. Tive imenso prazer em ensiná-lo como se constrói um blogue. Ele pode ser visto no endereço Olho atento.

Soube hoje que o Luciano teve um gravíssimo desastre de automóvel. O blogue dele está parado em 31 de Maio. De Lisboa para Luanda, desejos de rápidas melhoras.
ALCAMEH

Não conhecia o blogue alcameh, de Maria do Sameiro Pedro, a partir de Beja. É "sobre literatura infanto-juvenil e o que mais se verá". A ler.
INDÚSTRIAS CULTURAIS (VI)

[conclusão da análise das indústrias culturais com base muito centrada em livro de Bustamante e colegas, 2002]

Rádio

Existem sistemas digitais de transmissão, produção e recepção há aproximadamente uma década. O standard da rádio digital DAB criado na Europa, Eureka 147, foi aceite em muitos países, fazendo pensar numa renovação tecnológica graças a uma melhor qualidade de som. Mas a agenda marcada pela CE não se cumpriu em nenhum país europeu e teme-se que nunca vingue no mercado.

Contudo, não podemos ignorar que o DAB tem grandes vantagens. As empresas radiofónicas podem optimizar o espectro radioeléctrico, pois é possível combinar diversas ofertas pragmáticas num só bloco e utilizando um único transmissor. Outra vantagem é transmitir serviços de informação multimedia num ecrã. Os primeiros serviços DAB iniciaram-se na Europa em Setembro de 1995 no Reino Unido (BBC) e Suécia (Sociedade Sueca de Radiodifusão). Em Portugal, a RDP tem feito publicidade ao serviço desde há algum tempo. O problema é apresentar uma transição para o digital sem que se produza um apagão, a substituição definitiva dos receptores analógicos por digitais [há, igualmente, problemas na televisão digital terrestre].

No contexto de transformação, a Internet supõe uma verdadeira revolução para muitas indústrias culturais e entre elas a radiodifusão que encontra na rede das redes um novo caminho para a distribuição do sinal radiofónico. Num primeiro momento, as rádios chegam à internet para deixar a marca da sua existência, reforçar a imagem da empresa e das suas estrelas radiofónicas e difundir a grelha de programação. Numa segunda fase, graças aos avanços tecnológicos, serve para rentabilizar o novo canal de distribuição de duas maneiras: juntando ficheiros de alguns espaços, facilitando a escuta da programação em directo. As experiências pioneiras de bitcasters começaram em 1995, com a empresa Progressive Networks (actualmente Real Networks) a lançar no mercado a primeira versão de Real Audio, um pacote informático que possibilita a transmissão streaming.

O bitcaster nasce da fusão de bit e broadcast, termo mais acertado para falar das emissoras de rádio e televisão que difundem conteúdos através da rede da internet, sejam conteúdos em directo ou em diferido. O streaming é uma tecnologia de transmissão que facilita a audição ao utilizador, pois não fica à espera da descarga total do ficheiro áudio para começar a reprodução dos conteúdos sonoros.

Televisão

A cadeia de valor envolve divisões de publicidade das cadeias ou agências de filiais exclusivas, mas também agências em exclusivo (régies) negoceiam a venda de espaços. Estrutura-se, assim, um mercado complexo com multiplicidade de agentes intermediários – cadeias-régies ou exclusivos-centrais-agências-anunciantes – que mantêm uma tensão contínua de mercado.

Televisão digital: constitui uma transformação maior face ao mercado televisivo anterior. Abarca o âmbito da televisão e de todas as indústrias culturais, devido à quantidade de população, tempo de audiência e capacidade pedagógica. A televisão digital contempla-se cada vez mais como uma porta privilegiada da sociedade da informação. As concessões de televisão digital – codificadas ou em aberto – multiplicaram o número de agentes do sector e, em consequência, elevaram muito o pluralismo potencial do sistema televisivo. Se a televisão privada analógica, gratuita ou de assinatura, rompeu o espaço nacional e abriu mercado para agentes exteriores, a televisão digital, especialmente de assinatura, permeabilizou mais as fronteiras.

Televisão e internet: as cadeias de televisão estão a instalar-se nos sítios web. A estratégia geral não ultrapassou as fases iniciais de reforço da promoção e da imagem corporativa (informação sobre a sua programação e as suas estrelas, com escassos recursos interactivos e de fidelização dos utilizadores e quase nenhuma aposta em conteúdos novos ou canais virtuais. Algumas iniciativas orientadas para a informação permanente e actualizável, através da rede levariam à digitalização das redacções (e potencialidades da sala de redacção). Começam a constituir-se nas cadeias de televisão as fábricas de conteúdos multiplataforma, aptos para difusão em todos os suportes que tenham possibilidades públicas (da televisão temática à internet e ao telemóvel). A crise da economia dotcom e da publicidade na Internet reduziu essas intenções em 2001.

Videojogos

Na indústria dos videojogos, há a absorção do mercado pelos grandes desenvolvimentistas norte-americanos e japoneses de videojogos (tanto para PC como para consolas). O videojogo on-line é a grande aposta dos desenvolvimentistas de software e um poderoso motor de desenvolvimento de portais web destinados a pôr em contacto jogadores de todo o mundo que procuram novas formas de jogar em tempo real. Isto também quer dizer que há um reposicionamento geral dos códigos tradicionais do jogo, perfis de utilizador e convergência multimedia. Há dois tipos de produto: os videojogos especificamente desenhados para jogar em rede, através da Internet ou em salas locais, e os portais que oferecem um catálogo amplo de jogos, acedidos através da página e jogados on-line (de forma gratuita ou não). O utilizador tem de comprar o software do videojogo (em formato CD), instalá-lo no seu PC pessoal e depois assinar on-line a página web do videojogo. A procura elevada desta forma de jogar levou múltiplos portais a porem em linha outros jogos, gráfica e tecnicamente menos ambiciosos. Em geral, a oferta destes portais baseia-se em agrupar dezenas de jogos em três tipos: acção (aventuras gráficas), estratégia (jogos de papel) e clássicos (xadrez, dominó, bilhar).

O jogo on-line substitui o conceito de distribuição existente nas indústrias culturais editoriais tradicionais. Se a maioria de jogos de certo nível gráfico e técnico se encontram editados e comercializados em formato CD, a tendência adoptada pela maioria dos distribuidores é oferecer a compra do software on-line através da mesma página intermediária que liga os jogadores. Esta nova forma de distribuição do software, que tem de ultrapassar os problemas derivados de descarregar grandes volumes de dados com as actuais ligações, elimina qualquer tipo de agente na cadeia distribuidora e deixa como únicos agentes a empresa desenvolvimentista, a encarregada de o comercializar, o servidor ou portal web intermediário e o utilizador final.

Cadeia de valor na indústria de videojogos: o desembolso global do consumidor deve repartir-se entre o custo do software do videojogo, instalado previamente em cada computador (30-60 euros) para as empresas desenvolvimentistas e titulares do produto e uma quota de assinatura paga ao servidor para proporcionar o acesso a uma comunidade de jogadores em linha.

Leitura: Enrique Bustamante et al. (2002). Comunicación y cultura en la era digital. Barcelona: Gedisa, pp. 37-270. Os textos que me serviram de base aos posts são de Gloria Gómez (livros), Gustavo Buquet (indústria fonográfica), José María Álvarez (cinema), Luis Alfonso Albornoz (imprensa), Rosa Franquet (rádio), Enrique Bustamante (televisão) e Pedro Manuel Moreno (videojogos). O volume contém ainda um capítulo de Ramón Zallo, autor que eu já aqui apresentei (embora noutros textos dele).

6.6.05

UM BLOGUE DE CINEMA A SEGUIR

Os seus autores são Mafalda Azevedo e Francisco Valente e estão no blogue Mise en Abyme, desde o começo do ano [imagem retirada daquele blogue].



No post de hoje, Mafalda Azevedo entrevista Margarida Gil, a realizadora do filme Adriana, actualmente em exibição. Sobre a presente situação do cinema português, responde a realizadora: "Acho que estamos numa época muito perigosa. Há uma vontade muito grande de acabar com aquilo que distinguiu o cinema português das outras cinematografias. O desejo de normalização aliado à situação de crise financeira e ao desaparecimento de figuras como a do João César Monteiro cria um panorama pouco animador. No entanto, acho que há vozes, profundamente solitárias, por exemplo as de Pedro Costa e Miguel Gomes, que mantêm um espírito de resistência e de luta pela liberdade de expressão no cinema português".
INDÚSTRIAS CULTURAIS (V)

[continuação de análise das indústrias culturais seguindo de muito perto o texto de Enrique Bustamante e colegas (2002). Comunicación y cultura en la era digital. Industrias, mercados y diversidad en España. Barcelona: Gedisa. Anterior mensagem a 1 de Junho]

Indústria cinematográfica

Sobre a cadeia de valor no cinema, é dada pela progressiva integração vertical entre distribuição e exibição. A propriedade dos circuitos de exibição mais importantes pertence aos distribuidores mais destacados. A repartição estimada de percentagens de entrada entre distribuidor e exibidor dá 55% ao exibidor e 45% ao distribuidor. Destes 45% vão 30% para o produtor, mas de forma progressiva até amortizar os adiantamentos de distribuição. Isto implica que o distribuidor amortiza os seus custos e só depois começa a pagar ao produtor.

Uma nova faceta da indústria é a da digitalização do cinema: ainda que existam numerosas inovações tecnológicas ligadas às telecomunicações e à televisão, o suporte fotoquímico de 35 mm perdura como standard internacional. A sua flexibilidade permitiu a sua integração noutras inovações como a televisão ou o DVD para facilitar o consumo. Claro que a digitalização fomenta uma profunda mudança tecnológica que parte do desaparecimento do 35 mm, modifica as formas de consumo e abre possibilidades de novos modelos de negócio para produtores, distribuidores e exibidores.

A digitalização aparece como novo factor competitivo para os conteúdos em geral e o cinema em particular, e integra as seguintes aplicações tecnológicas: 1) produção digital, 2) cinema electrónico para projecção, 3) descarga de películas pela Internet com standards de compressão de imagens e sons MPEG-4 (não streaming) [imagem retirada do programa de cinema da Câmara Municipal de Oeiras para o presente mês].

Até 2000, não havia películas digitais e apenas se utilizara a tecnologia digital para efeitos especiais. O chamado d-cinema ou e-cinema supõe substituir os projectores de películas fotoquímicas por um tipo de projecção electrónica de alta qualidade que o olho humano não pode distinguir (1280x1028 pixels). A sua vantagem reside em que a distribuição se pode realizar à escala mundial sem necessidade de cópias, para poder levar o sinal para qualquer suporte de telecomunicações (satélite, cabo, Internet) às clássicas salas de cinema.

Claro que, com a digitalização, a cadeia de valor sofrerá profundas alterações, aproximando os produtores-criadores de películas aos potenciais espectadores. No fio desta mudança criam-se novas oportunidades ligadas a novos modelos de negócio, ficando de fora os intermediários. A crescente distribuição digital gerará uma nova cadeia de valor controlada por uma nova distribuição ou bem em portais de acesso ou em redes internacionais de descarga de películas nas salas.

Imprensa diária e periódica – o salto on-line

A imprensa é um produto perecível, de curta vida útil e de conteúdo múltiplo. Ela compõe-se basicamente por dois tipos de conteúdos simbólicos: conteúdos editoriais (com secções, suplementos e revistas); conteúdos publicitários (marcas, produtos, serviços).

As editoras jornalísticas obtêm os seus lucros pela compra de exemplares pelos leitores e pela inserção de publicidade nas páginas dos jornais e revistas por parte dos anunciantes. Os jornais gratuitos alteram este estado de coisas. O segmento de mercado da imprensa diária, sobretudo o de informação geral, tem características próprias (idioma, conhecimento do mercado, contactos políticos para gerar a informação). No mercado de imprensa não diária, há entrada de grupos empresariais de capital estrangeiro, com revistas "femininas" (revistas de coração) e "práticas", com as suas respectivas especializações.

Imprensa on-line: a partir da última década do séc. XX, o campo das indústrias culturais e o sector académico correspondente às ciências da comunicação estão a ser atravessados pela digitalização da produção de bens e serviços de carácter informativo e pelo surgimento de novas redes digitais. A internet está a ter um protagonismo singular em relação à formulação de produtos informativos. Hoje, a maioria das empresas converteram-se em editoras de conteúdos intangíveis que utilizam a Internet para chegar aos leitores tradicionais e para alcançar novos leitores.

Nos anos 1980, as empresas jornalísticas passaram pela fase de informatização do processo produtivo de notícias. Esta informatização povoou as redacções com computadores pessoais e permitiu o acesso a bancos de dados de tipos distintos, introduzindo um tratamento mais flexível no momento de elaborar os materiais jornalísticos. Nessa época, apareceu também o CD-ROM, com vantagens para os serviços de hemeroteca – facilidade de conservação dos conteúdos jornalísticos. Os resultados de uma empresa jornalística que decide lançar uma edição digital e, em geral, de qualquer sítio web, pode vir de: a) venda de conteúdos, b) assinatura da publicação, c) publicidade, d) patrocínio, e) comércio electrónico, f) subvenções.

Paralelamente ao crescimento da presença de publicações on-line, o sector académico tem produzido investigações e teses de mestrado e doutoramento (casos das editoras Celta, de Oeiras, MinervaCoimbra, de Coimbra, e Horizonte, de Lisboa, por exemplo).

[continua]

5.6.05

CRESCE A OPOSIÇÃO AOS CORTES DE EMPREGO NA SWISSINFO

No dia em que se fala do "sim" dos suíços aos acordos de Schengen e Dublin, tomo conhecimento de uma outra notícia que envolve as comunidades de nacionais daquele país espalhados pela Europa, nomeadamente Itália, Alemanha, Espanha e Portugal.

Segundo notícia de anteontem do sítio Swissinfo, está a haver um movimento para impedir a redução de postos de trabalho de 120 para 40 da própria agência que dá informação para os nacionais da Suíça nos países citados. Parece existir um número crescente de suíços a trabalhar em Portugal, por exemplo. O ano passado, as emissões em onda curta já tinham sido canceladas. A agência é financiada pelo governo do país.
RUA DE BAIXO - EDIÇÃO DE JUNHO DA NEWSLETTER ALTERNATIVA

Saíu já a edição de Junho da revista digital Rua de Baixo. Um dos temas fortes é a conversa com D-Mars, "um dos MCs com mais história no panorama nacional, que surge agora como Rocky Marsiano, onde alia o jazz com o hip-hop", lê-se na entrada da publicação:

"Rocky Marsiano, nome que surgiu como alcunha e que acabou por pegar, é o alter-ego de D-Mars, o luso-croata vocalista dos Micro. Lançou recentemente The Pyramid Sessions, uma agradável fusão do hip hop com o jazz, que resulta em 14 faixas de um álbum que poderia ter uma só, pela facilidade com que se ouve de uma ponta à outra sem que disso se dê conta". Entrevista conduzida por Hugo Pinheiro.

Na revista, e no meio de muita informação interessante, a notícia da vinda da banda Shivaree a Portugal, no Santiago Alquimista, no próximo dia 22, para apresentar o disco Who got trouble. O espectáculo integra-se em ciclo de concertos da rádio Radar.
MÚSICA TOTAL

Também a seguir com atenção a newsletter música total. net. Destaco o Cool Jazz Fest, em Oeiras, Mafra e Cascais, de 10 a 30 de Julho, que integra actuações de artistas e bandas como José Feliciano, Thievery Corporation, Maria Bethânia, Mariza, Jamie Cullum e Mariane Faithfull.

4.6.05

REVISTAS E JORNAIS EM CIMA DA MINHA SECRETÁRIA

Os dias passam velozes e não há tempo para digerir a informação toda. De algum material que me chegou ou comprei, faço agora uma síntese.

Publicações da Câmara Municipal de Oeiras

O Gabinete de Comunicação e Departamento de Assuntos Sociais e Culturais tem (têm) tido a gentileza de me enviar informação cultural sobre o que se passa naquele concelho (para os leitores brasileiros: Oeiras é uma cidade junto a Lisboa, localizada na foz do rio Tejo e que acompanha uma parcela do oceano Atlântico, onde há uma elevada concentração de quadros superiores e muitas empresas de tecnologias de ponta, designadamente as de informação, o que propicia uma intensa actividade cultural).



No número do 30 Dias em Oeiras, destaques para a entrevista com Madredeus e para o programa das Festas de Oeiras, de 3 a 19 de Junho, bem como a estreia absoluta em Portugal de Todas temos a mesma história, de Dario Fo, Nobel da Literatura 1997, o regresso do cinema, às terças-feiras, ao Auditório Eunice Muñoz (antigo Cine-Oeiras) e a continuação do Projecto Terminal, no Hangar K7 da Fundição de Oeiras, integrando os colóquios sobre O Estado das Artes em Portugal, com Alexandre Melo, Delfim Sardo, António Pinto Ribeiro, entre outros.



Os blogues para Manuel Pinto

"A blogosfera é extremamente diversa. Pelo facto de alguns dos blogues mais conhecidos serem de jornalistas, criámos uma grande analogia com o jornalismo, o que não é certo. O blogue tem múltiplas funções; a do diário pessoal tem algum peso, há alguma «lógica de café» também, mas depois há ensaios de acompanhamento crítico da vida social, de que o jornalismo é só uma vertente. [...] podemos dizer que há um alargamento desse mesmo espaço [público] e, como virtualidade, uma chance nova de acompanhamento de questões públicas. [...] É um espaço de auto-edição que alarga a expressão individual e colectiva" (entrevista saída no umjornal deste mês, publicação mensal da Universidade do Minho).

Na mesma página e sobre o mesmo tema, Luís António Santos escreve: "A blogosfera preenche espaços deixados em aberto nas estruturas política, social, mediática e/ou comercial, e constitui-se como local de ruptura, acolhedor para ideias marginais". O jornal ummedia é dirigido por Joaquim Fidalgo, tendo Luís António Santos como editor executivo.

Carmen Dolores no JL - ou a minha tardia declaração de amor

Em 7 de Maio do ano passado, eu afixara um post contendo um pequeno excerto do livro de Carmen Dolores, Retrato inacabado. Memórias (1984, Lisboa: O Jornal, pp. 59-60). Agora retomo o assunto.

Não posso fazer uma declaração de amor formal a Carmen Dolores, até porque ela casou em 1947, no ano a seguir aos meus pais se terem casado. Mas sempre a admirei muito, em especial quando a via na televisão, muitos anos atrás. Em termos de teatro ao vivo, segui-a menos do que gostaria. Agora, ao ler, a página do último Jornal das Letras, Artes e Ideias - JL, reparo melhor como é uma mulher inteligente e generosa, em termos do que fez na cultura deste país.

Como gosto de fazer pequenos cortes no que leio, aqui fica uma citação do texto: "Por vezes, ouvíamos também aqueles belos discos de ópera, na velha grafonola, depois substituída pela imponente telefonia. Começou aí a minha paixão pela Rádio. Onde me estreei aos 14 anos a dizer poemas e a interpretar teatro radiofónico, justamente num programa organizado pelo meu irmão, o António Sarmento, na antiga Rádio Sonora". Mais tarde, em 1943, ela ligava-se ao cinema, no filme Amor de perdição, de António Lopes Ribeiro, que a levou também para o teatro. Há 60 anos atrás, estreava-se no Teatro da Trindade, nos Comediantes de Lisboa, na peça de Jean Giradoux, A mensageira dos deuses.

Li, há algumas semanas, que Carmen Dolores estava a escrever uma (nova) autobiografia. Espero que o texto agora publicado no JL seja prenúncio disso mesmo. Longa vida para ela!

A misteriosa chama da rainha Loana, de Umberto Eco

Sobre o livro, escrevi neste blogue nos dias 19, 22 e 25 de Abril último. Hoje, o caderno "Mil folhas" do Público dá destaque adequado à obra de Eco. O título é "Memória em eco", uma boa sugestão ao próprio texto do autor italiano. A prosa é assinada por João Lobo Antunes. Nas duas páginas há reprodução de imagens de bandas desenhadas e de livros da época narrada (ou melhor: recordada) no livro, durante as décadas de 1930 e 1940.

Também a ler no mesmo caderno o texto de Maria Filomena Mónica sobre o historiador Eric Hobsbawm.

3.6.05

CONTEÚDOS PAGOS NA INTERNET

Há, talvez, um ano o jornal El Pais (Espanha) anunciou o começo do pagamento de conteúdos no acesso à sua página da internet. Mas hoje faz uma alteração nesse objectivo.

Sem acabar com o acesso pago a assinantes (cerca de 45 mil), regressa uma modalidade de acesso a conteúdos gratuitos. Explico melhor. Qualquer pessoa pode pesquisar e obter informação do jornal madrileno, caso de notícias de última hora. Mas aos assinantes ficam reservados serviços como o acesso ao jornal francês Le Monde, a takes da agência Efe (espanhola) em tempo real e à escuta de um conjunto de estações de rádio espanholas.

Uma boa decisão da gestão do grupo mediático a que pertence o El Pais e uma boa notícia para os cibernautas. E o que vai fazer o Público?
SOCIOLOGIA DO JORNALISMO

Quando, no passado dia 28, referi a próxima edição do livro de Érik Neveu - na imagem aqui ao lado -, não imaginava que ela já estava pronta. Por isso, a minha alegria quando Manuel Pinto, no blogue Jornalismo e Comunicação, destacou a saída do trabalho do conceituado professor de Rennes.

Hoje, um dos coordenadores da colecção ofereceu-me um exemplar, que eu agradeço do fundo do coração. Não é pela oferta, pois considero o livro de Neveu um dos textos fundamentais na área da sociologia do jornalismo. Já o escrevera na ocasião da sua saída em França, há quatro anos. E noto que o livro da Porto Editora se baseou na reedição francesa de 2004, prova de uma maior actualidade. Não posso comparar com a edição original, porque perdi o rasto ao exemplar. Talvez emprestado, talvez escondido por outro livro num certo desalinho das minhas prateleiras. Mas aconselho a sua leitura.
DEZ ANOS DE JORNALISMO DIGITAL EM PORTUGAL

Foram dois dias animados de discussão em torno dos dez anos de jornalismo digital em Portugal, na Universidade do Minho, em organização do Departamento de Ciências da Comunicação. Destaco dois convidados estrangeiros: Rosental Calmon Alves (Universidade do Texas, Austin, Estados Unidos) e Ramón Salaverría (Universidade de Navarra, Espanha).

Rosental Alves fez um discurso pessimista quanto ao jornalismo em papel mas tomou a posição diametralmente oposta quanto ao futuro do jornalismo digital. Os efeitos da internet sobre os media tradicionais são avassaladores, o que o levaria a falar em mediacídio [o suicídio dos media], que acarreta a morte de empresas e questiona o actual estatuto das carreiras dos profissionais dos media.

A revolução do digital será comparável - ou até maior - que a realizada pela criação da imprensa por Gutenberg. Falando da rapidíssima disseminação da Rede, o professor brasileiro com cátedra em Austin descreveu o conjunto de princípios sobre a passagem de um modelo de comunicação para outro (a partir de Fiedler): co-evolução e coexistência, propagação, sobrevivência, oportunidade, atraso na adopção, metamorfose. É a mediamorfose, compreensível pela massa crítica ganha pelo jornalismo online e mensurável em audiência (que supera já a do jornalismo em papel). Para Rosental Alves, o jornalismo do futuro assenta em adaptabilidade, em aprender a aprender, em criatividade e perder os bloqueios face às tecnologias. Mas deixou algumas críticas ao jornalismo digital como o de ser ainda pouco criativo e algo burocrático [que eu não compreendi, dado ter defendido anteriormente a criatividade como eixo do jornalismo do futuro e o pouco tempo de existência do novo modo de fazer comunicação não ser índice de burocracia].

Na sua longa mas brilhante e entusiasmante conferência, o professor Rosental designou a revolução digital como eucêntrica - leio/vejo tudo o que eu quero, na hora que eu quero, onde eu quero e no formato que eu quero. Por isso, a referência às tecnologias do RSS e do Podcasting, onde eu monto a minha página e a sequência de músicas que eu quero. E a alusão aos blogues, que eliminaram a relação unívoca dos media de massa entre emissor e receptor e o privilégio do jornalismo atribuído unicamente aos jornalistas.





A posição de Salaverría

Ramón Salaverría é, apesar da juventude, um académico com carreira já consolidada na Universidade de Navarra. Por isso, não se estranhou o facto de, embora olhando com entusiasmo o futuro do jornalismo digital, anotar quatro perspectivas diferenciadas: 1) expectativas cumpridas pelo jornalismo digital, 2) não cumpridas, 3) efeitos inesperados, e 4) prospectiva. Com recurso a dados estatísticos sempre muitos recentes, Salaverría [que eu vira na sua universidade, em Novembro passado, e fiz um longo comentário neste blogue] diria que, das expectativas cumpridas pela internet (e que o jornalismo digital é uma expressão), ao aumento na sua utilização corresponde um menor consumo de televisão, telefone e jornais. Já das expectativas não cumpridas, o professor espanhol apoiou-se em texto de Nora Paul (Março de 2005), onde se aponta nomeadamente o espaço ilimitado para as notícias não significar mais tempo para os leitores (que têm um limite físico), o diálogo entre jornalistas e leitores, uma melhor compreensão e clareza nas relações entre jornalistas e fontes de informação e o aproveitamento das possibilidades de arquivo.

Quanto aos efeitos inesperados, destacou a reconfiguração do mercado da comunicação e das suas empresas (se, há vinte anos, os media se isolavam segundo o meio, a internet tornou-se aglutinadora de imprensa, rádio e televisão), traduzível na resposta a pedidos de públicos até aí não atendidos, acarretando uma crise da figura do jornalista, que Rosental Calmon Alves também identificara. Finalmente, em termos de prospectiva, os números indicam que a internet é já o primeiro meio escrito na Europa, enquanto se espera que, em 2008, o volume de negócios na internet alcance o da televisão, o que significa que os negócios dos media tradicionais passam a ser condicionado pela internet. O jornalismo participativo é outra das apostas do futuro.




Nota: para ler resumos mais profundos e ver mais imagens, consultar o blogue das jornadas Dez Anos de Jornalismo Digital em Portugal, da responsabilidade da organização, a quem eu felicito pelo excelente trabalho e acolhimento. Acrescento que o blogueiro apenas esteve um dia, e não dois, fora da Rede. A divulgação das jornadas em Braga merece este esforço, apesar das viagens e da noite menos bem dormida (a cidade estava em festa e o grupo das jornadas fez uma confraternização memorável, laços que não se podem desperdiçar).

1.6.05

DOIS DIAS SEM POSTS

Espero regressar à rede no próximo sábado.
NOTÍCIAS

Trabalho sobre blogues

Hugo Neves Silva, já aqui assinalado por ter realizado um estudo sobre blogues, voltou a escrever sobre o tema. Desta vez, o título é O papel dos blogues na comunicação organizacional, e pode ser apreciado em Lisbonlab.

Livro sobre cibertexto

Espen Aarseth vai lançar o livro Cibertexto: perspectivas sobre a literatura ergódica, na colecção "Figurações", da editora Pedra da Roseta. O evento realiza-se no Centro Cultural de Belém, a 3 de Junho, pelas 19:30. Da nota de apresentação enviada pela editora, lê-se que a obra procura responder a questões como: podem os jogos de computador ser concebidos como grande literatura? Será que a evolução e expansão dos géneros da cultura digital implica que o modo narrativo do discurso - romance, filmes e televisão - está a perder a sua posição dominante? E como conceber, actualmente, a estética da textualidade ciborgue? Espen Aarseth é professor associado e investigador principal no Centro de Pesquisa em Jogos de Computador do Departamento de Estética Digital e Comunicação (DiAC) da IT - Universidade de Copenhaga (Dinamarca) e Professor II do Departamento de Media e Comunicação da Universidade de Oslo.

III jornadas de comunicação do Algarve

Vão decorrer até 24 de Junho as III Jornadas de Comunicação da Universidade do Algarve. Aliado ao facto de Faro ser a Capital Nacional da Cultura, as jornadas são espaço para uma associação de diferentes entidades. Assim, tal ocorre com o jornal Barlavento, de Portimão, que comemora 30 anos, com o Cineclube de Faro, em que a Universidade participa no ciclo de O cinema e a comunicação social (Tavira), e com a RUA - Rádio Universitária do Algarve, na organização do I Encontro Nacional de Rádios Universitárias (também rampa de lançamento do II Encontro Ibero-americano de Rádios Universitárias, em Faro, 2006). Mais detalhes podem ser vistos no blogue III Jornadas da Comunicação.

José Carlos cria um novo blogue

Nasceu ontem e chama-se Os media, o jornalismo e nós. Nestes dois dias de existência, Abrantes escreveu sobre o congresso da WAN - World Association of Newspapers. Ao provedor do leitor do Diário de Notícias, desejo felicidades para mais um blogue seu.
PREMIADO ARTIGO DA MEDIAXXI

Retiro a informação da newsletter Meios & Publicidade: o trabalho da jornalista Cátia Candeias Viagens na nossa rede, inserido em dossiê sobre o projecto Cidades e Regiões Digitais, "publicado pela revista Media XXI, venceu o prémio editorial da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (APDSI). O texto premiado traça o retrato do país a nível digital, região a região". Como anterior director da revista MediaXXI, não posso deixar de me congratular e por felicitar a Cátia pelo belo trabalho que tem desenvolvido. Boa sorte para ela.
INDÚSTRIAS CULTURAIS – IV

[continuação do tema trabalhado nos últimos dias]

[O texto seguinte segue de muito perto a obra coordenada por Enrique Bustamante (2002, pp. 37-270). O livro preenche três importantes campos: agentes da estrutura, cadeia de valor, digitalização e rede]

Livros

A indústria editorial baseia-se na exploração comercial de um produto cultural original, intelectual e criativo. Nesta actividade, há agentes distintos: selecção da obra, reprodução material, distribuição e transporte físico dos exemplares do centro de produção para os lugares de venda, e venda propriamente dita.

Nos anos 50, passou-se da fase artesanal para a de indústria cultural. Agora, o sector caracteriza-se por uma crescente concentração, resultando os grupos de fusões, absorções ou integrações entre editoras médias e pequenas (concentração horizontal) e ligação a outros sectores culturais (concentração vertical e multimedia). A venda de livros sempre teve um canal preferido, a livraria, em que o livreiro conhecia os clientes e a produção editorial. Hoje, há cadeias de livrarias (Bertrand), livrarias em centros comerciais (FNAC) e venda de livros em grandes superfícies, com uma estratégia concertada: exposição e venda de títulos de grande procura, edição para a educação e literatura, jogando com o preço e os descontos e acabando com o preço fixo das livrarias tradicionais.

Em termos de cadeia de valor: o custo material do livro (papel, impressão) representa 20% do preço final. As editoras estipulam 10% de gastos gerais de administração e gestão, 10% para a promoção e publicidade, e (46) 10% para tarefas de selecção e assessoria editorial. Na parte restante, os distribuidores beneficiam de 10% e as livrarias levam 30% do preço do livro. Os restantes 10% são para descontos (que atingem 25% nas grandes superfícies) e para o armazenamento. A incidência da tecnologia digital na indústria editorial passa pelo suporte de livros com novos produtos multimedia e pela utilização da rede como montra da produção editorial convencional, ao utilizar a mesma rede para vender os livros de papel e a produção digital comercializada – os e-books. Ao falar de produção on-line fala-se de livros que se editam na rede.

Indústria discográfica

Os elementos centrais da estrutura industrial da música (popular) incluem o mercado de venda de discos, a indústria de gravações, as empresas editoriais, os concertos, as agências de concertos, os representantes, os locais de ensaio, as vendas de partituras e de instrumentos, as sociedades encarregadas da gestão da propriedade intelectual, os meios de difusão de massa, a educação musical e as políticas respeitantes à música.

O boom consumista processou-se após a II Guerra Mundial (1939-1945). Então, inventaram-se os discos de vinil de 33 rpm e de 45 rpm, num mercado massivo. Em 1982, o mercado americano lançou um novo suporte, o disco compacto (CD), com um aumento espectacular de vendas. O pico deu-se no ano de 1995, com o domínio do mercado por cinco grandes multinacionais ou majors: BMG, EMI, Sony, Universal, Warner, que produzem e distribuem mais de 80% das vendas. O mercado americano é o de maior venda.

Os conteúdos musicais produzidos pelas casas discográficas podem classificar-se em três grandes repertórios: clássico (5,5%), nacional (30 a 70%) e internacional (30 a 60%). Os artistas e discos produzidos nos Estados Unidos formam a maior percentagem do repertório internacional. Durante os anos 1980, as grandes discográficas começaram a interessar-se pelo repertório local como forma de acrescentar lucros económicos. Cadeia de valor: o preço médio de venda do CD na União Europeia situa-se à volta dos €20, enquanto nos Estados Unidos se cifra nos €17 (nos anos mais recentes, a Universal fez baixar os preços na venda, o que provocou um movimento quase geral).

Por regra, os preços dos discos compactos gravados pelas companhias multinacionais são mais elevados que os preços dos discos produzidos pelos selos discográficos independentes. Do custo de cada disco, 9,3% representa os custos directos de produção, que incluem o estúdio de gravação, a remuneração do produtor e o fabrico; 8,1% destina-se a promoção e marketing; 11,3% é a margem operativa que fica na empresa discográfica. Cada artista arrecada 9,4% do preço de vendas, e mais 4% dos direitos de autor. A distribuidora fica com 4% para cobrir os custos, e a loja com 40,1% como margem bruta. O IVA representa uma parcela substancial no preço final do disco.

Há um processo crescente e total da digitalização: o MPEG-I layer 3, mais conhecido por MP3, é um sistema de compressão de áudio digital, que permite reduzir o espaço ocupado por um arquivo digital até 10 vezes o seu tamanho original, e com uma qualidade semelhante à de um CD. Esta tecnologia permite armazenar e trocar arquivos, na Internet, através de sistemas de telefonia móvel ou qualquer outro sistema de transmissão digital de som. Devido à eficiência da compressão e à excelente qualidade de som, converteu-se rapidamente em standard recomendado por todos os organismos internacionais competentes.

Durante os primeiros anos da década de 1990, o MP3 teve várias aplicações no âmbito profissional, caso da codificação de áudio para a transmissão de sinais via satélite. Tornou-se verdadeiramente popular quando em 1997 um grupo de hackers (piratas informáticos) reescreveram o interface de utilizador de uma aplicação comercial MP3 do Windows, deixando-o à disposição dos internautas que o quisessem usar. Em pouco mais de um mês, o sistema passou do âmbito profissional para o do consumo massivo e, em 1999, converteu-se no conceito mais utilizado em todos os motores da Internet. Por outro lado, o streaming de áudio ou fluxo contínuo de som é uma tecnologia que permite emitir arquivos de som através da Internet, com a particularidade de que não podem ser guardados no disco duro do utilizador, mas apenas ouvidos no momento da ligação com a página da web de que faz a descarga. A combinação da tecnologia MP3 com o streaming e as potencialidades da rede revolucionaram o processo de difusão da rede.

[continua]