Blogue dedicado a pesquisas e leituras no domínio das indústrias culturais (imprensa, rádio, televisão, internet, cinema, vídeo, videojogos, música, livros e centros comerciais) e das indústrias criativas (museus, exposições, teatro, espectáculos). Blogueiro desde 26 de Dezembro de 2002. Endereço electrónico: Rogério Santos.

31.7.08

LIVRARIAS INDEPENDENTES


A notícia vem na edição de Agosto da revista Os Meus Livros.

Com assinatura de João Morales, director da revista, ficamos a saber do movimento criado por cerca de meia centena de lojas, a LI - Livrarias Independentes. A direcção provisória da associação (a ser formalizada em Setembro) é composta por João Cruz (Clepsidra), Jaime Bulhosa (Pó dos Livros), Catarina Barros (Trama), Amadeu Peseiro (A Livraria) e José Tavares (Livraria Círculo das Letras).

Objectivos imediatos: relação com os editores, publicidade e ligações comerciais, relacionamento com o Estado, formação.

Desejo muitos sucessos à nova associação.

CONSTANÇA LUCAS EXPÕE NA GRAPHIAS - CASA DA GRAVURA (S. PAULO, BRASIL)


É a partir do dia 2 e até dia 28 de Agosto que Constança Lucas e Renata Gonçalves expõem desenhos, pinturas, gravuras e livros de artista na Graphias - Casa da Gravura, à rua Joaquim Távora, 1605, em S. Paulo (perto da estação do metro Ana Rosa).


Agradeço o convite para estar presente e a litografia que aqui reproduzo, mas o Brasil fica longe, do outro lado do Atlântico (imagem da artista feita por Renata Gonçalves que eu tirei do blogue Imagem e Palavra).

Retiro a seguinte informação deste blogue: "Os trabalhos apresentados são habitados por cães, figuras recorrentes pesquisadas em diferentes meios, fazendo uso de diversos procedimentos artísticos". Há uma conversa com as artistas no dia 23 de Agosto, pelas 15:00.

30.7.08

FÃS DO SCRABBLE PROCURAM MANTÊ-LO NO FACEBOOK


Li a notícia na newsletter de hoje do European Journalism Centre: os fabricantes de brinquedos Mattel e Hasbro querem retirar o jogo Scrabulous da rede social Facebook, alegando que há direitos de autor infringidos pela rede social. A acção desencadeou-se ontem, com rapidamente 13 mil assinaturas de pessoas ligadas à rede social e fãs do jogo numa petição (neste momento, deve estar bem maior). A vigorosa campanha de defesa do jogo seguiu outras vias como cartas, emails e chamadas telefónicas para os fabricantes.

O Scrabbe é um jogo de tabuleiro onde se preenchem palavras, em que 2 a 4 jogadores procuram marcar pontos formando palavras interligadas. Adquiriu o nome Scrabulous quando passou para jogo online. No Facebook, há quase 600
mil membros que diariamente jogam o jogo. A intenção de remover o jogo do Facebook, onde é um dos dez mais populares jogos, tem a ver com a partição da licença de propriedade comercial do Scrabble em duas: a Hasbro tem direitos nos Estados Unidos e no Canadá e a Mattel em todo o resto do mundo. A adaptação do jogo à internet foi feita pelos irmãos Rajat e Jayant Agarwalla, dois especialistas de software de Calcutá [imagem retirada do sítio BBC NEWS].

NOITES DE QUINTA-FEIRA NOS MUSEUS


Até 4 de Setembro, entre as 18:00 e as 23:00, com redução do preço para metade.

Nos museus Nacional de Arqueologia, Nacional do Azulejo, Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves e Nacional de Arte Antiga. Ver
www.imc-ip.pt para conferir datas (pois nem todos têm as mesmas disponibilidades).

19º FESTIVAL INTERNACIONAL DE BANDA DESENHADA DA AMADORA


O 19º Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora (FIBDA) realiza-se entre 24 de Outubro e 9 de Novembro deste ano.

Nessa ocasião, organizam-se Concursos de BD e de Cartoon com objectivo "de encontrar novos valores, incentivar a produção da Banda Desenhada e proporcionar a sua apresentação pública". O tema central do FIBDA e dos concursos é Tecnologia e Ficção Científica.

Na categoria de Banda Desenhada, existem dois escalões etários: A (17-30 anos) e B (12-16); na categoria de Cartoon existe um só escalão, indo dos 16 aos 30 anos.

Para conhecer as normas de participação nos Concursos de BD e de Cartoon e a ficha de inscrição, ver
aqui.

ESPECTADORES DE CINEMA

Baixou o número de espectadores de cinema este ano comparativamente aos valores de 2007, como se pode ver no quadro seguinte e que retirei do sítio do Instituto do Cinema e do Audiovisual, quase 40%. Em Junho, último mês com estatísticas, passaram nas salas de cinema filmes como Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, Sexo e a Cidade, e O Incrível Hulk, mas, mesmo assim, as bilheteiras venderam menos 900 mil bilhetes que em período homólogo do ano passado! A quebra explica-se pelos DVD e pelos filmes na internet? Ou ainda pela proliferação de festivais musicais, que concorrem com tempos livres e gastos com a cultura? Ou igualmente pela crise económica?

29.7.08

AUDIÊNCIAS DA RÁDIO PÚBLICA E REACÇÕES


O blogue A Nossa Rádio traz hoje uma mensagem importante, intitulada Antena 0,2: a arte que destoca e assinada por Álvaro José Ferreira.

Da minha leitura, a mensagem tem dois planos, o primeiro dos quais é sobre o nível de audiências da Antena 2. Álvaro José Ferreira compara dados do segundo trimestre de 2008 com período homólogo de 2005 para escrever que nunca a Antena 2 teve tão pouca audiência. Procurei nos arquivos da Marktest mas só pude comparar dados do primeiro trimestre de 2008 face a igual período de 2005, constatando que, em termos de grupos de rádio, baixaram os grupos RDP, TSF e Media Capital, subindo apenas o Grupo Renascença, à custa da RFM (ver quadros em baixo, que retirei dos arquivos da Marktest). Logo, as críticas podem ser endereçadas a quase todas as estações de rádio porque perderam audiência, o que quer dizer que o meio rádio está a perder audiência nestes grupos - para o grupo Renascença e para outras estações. A perda de ouvintes no grupo Media Capital é muito significativa, o que justifica as recentes demissões e despedimentos naquele grupo (caso do Rádio Clube Português).

Baixando o grupo RDP em termos de audiência, o problema distribui-se pelos vários canais. O mais grave é a Antena 1, que perdeu 0,3% entre 2005 e 2008 em termos de share de audiência (mas a Rádio Comercial, do grupo Media Capital, perdeu 0,9%, por exemplo). A Antena 2 perdeu 0,1% em termos de share de audiência.

A meu ver, dos conceitos usados pela Marktest, o mais frágil de trabalhar é o de audiência acumulada de véspera. Trata-se de conhecer tendências através da memória do entrevistado, o que é um bem sempre escasso. E, em termos de reach semanal, indicador que permite saber quantos portugueses ouvem rádio pelo menos uma vez por semana, os respondentes indicam 3,2% em "Não sabem estação/posto", o que é um valor com significado. 0,1% pode ser resultado da margem de erro. Além de que não nos podemos esquecer que a Antena 2 é uma estação com uma programação de elite, para uma minoria qualificada - e que parece não conseguir reproduzir-se em termos de novas gerações, com educação musical débil ou irregular apesar da abertura escolar em todo o país. Esta educação passa pela rádio, mas também pela escola no geral e pela cultura das famílias e da população. Justificar a perda de audiência pelo trabalho da dupla Rui Pego e João Almeida é redutor, por pouca simpatia que se possa ter pelo que fazem os dois responsáveis do canal.

O segundo plano da mensagem do blogue
A Nossa Rádio é sobre a defesa da qualidade do serviço musical da Antena 2. Partilho diversos pontos de vista daquele blogueiro, como a amplidão dada à música étnica ou música electrónica de ambiente, a necessidade do regresso de Jorge Rodrigues, a excessiva quantidade de jingles e autopromoções. Ou o uso excessivo da palavra, como no programa da manhã (com frequência desligo o rádio, pois as conversas são intermináveis e a música é dada aos "30 segundos" ou aos "20 segundos", como diz o animador.

28.7.08

INTERNACIONALIZAÇÃO


Saúdo os amigos da Universidade do Minho pelo conjunto de comunicações apresentadas no congresso da IAMCR (International Association of Media and Communication Research), como se lê aqui. Parabéns pela grande internacionalização daqueles investigadores e docentes de Braga, em especial a Joaquim Fidalgo, nomeado vice-presidente da Secção de Investigação e Formação em Jornalismo da IAMCR, o qual se junta a Helena Sousa. Iguais felicitações a outros docentes de outras universidades.

WEBLIOGRAFIA? SITOGRAFIA? O QUE É?


Segundo notícia no sítio da RTP, "Os livros, um dos recursos mais comuns nas bibliografias de trabalhos académicos individuais ou de grupo, têm vindo a ser preteridos aos documentos digitais, numa tendência que começa a manifestar-se cedo e chega ao ensino superior".

Um trabalho de Helena de Sousa Freitas, da agência Lusa, a ler (prestei alguma informação sobre o tema).

Observação: fiz uma pesquisa pelo Google, motor de busca a que recorro igualmente, e descobri dois blogues que colocaram todo o texto de Helena de Sousa Freitas. Um colaborador do Sala dos Professores, chamado Ambrósio, colocou no final do texto o seguinte comentário: "E assim vai a educação no reino socrático...". O título da notícia do blogue A Tua Escola era "Ensino: Livros preteridos a documentos digitais, diz estudo" [o texto não indica qualquer estudo]. Por comparação com este título, a notícia na RTP e no Expresso tinha título igual, "Ensino: Livros preteridos a documentos digitais como fonte de consulta dos estudantes", ao passo que no Açoriano Oriental era "Documentos digitais como fonte de consulta preferencial dos estudantes".

NOTICIÁRIO INTERNACIONAL

Do total de notícias publicadas nos jornais dos Estados Unidos, apenas 11% dizem respeito a acontecimentos internacionais, com a China à frente (16,6% desses 11%), de acordo com o Project for Excellence in Journalism agora divulgado. A seguir, vêm vários países, muitos deles por causa de conflitos em que os próprios americanos estão envolvidos: Iraque (7,6%), Burma (7,2%), Paquistão (5,3%), Zimbabwe (5,2%), Israel (5,2%), Palestina (4,4%), Afeganistão (3,9%), Irão (2,6%), Cuba (2,2%), Rússia (1,9%) e Líbano (1,6%).

Fonte: Editors Weblog Newsletter

TEATRO GIL VICENTE

Isabel Nobre Vargues, docente da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde ensina história e jornalismo, toma posse hoje, pelas 12:00, como directora do Teatro Académico de Gil Vicente, em cerimónia pública a ter lugar na Sala do Senado, na Reitoria da Universidade.

Desejo os maiores sucessos à professora Isabel Vargues neste seu novo cargo.

27.7.08

ARTIGOS SOBRE LIVROS


Da leitura de jornais neste fim-de-semana, encontrei vários sobre livros, mostrando aspectos sociológicos e tecnológicos.

O primeiro que quero destacar é o saído no Expresso de ontem e assinado por Luís M. Faria. O ponto de partida do artigo é o reconhecimento que a "leitura é uma das maiores conquistas da Humanidade e também uma das mais estáveis". Se a leitura nos últimos séculos tem estado assente no papel, a tecnologia de tinta electrónica parece estar a abrir um caminho diferente. O Sony Reader em 2006 e o Kindle mais recentemente representam a ponta tecnológica dessa mudança. Escreve Faria, seguindo Jeff Bezos, da Amazon, que música, cinema e leitura curta se renderam já ao digital, o que acabará por acontecer ao livro, ainda em tecnologia analógica. Um dos sucessos da tecnologia de tinta digital é que o aparelho não precisa de luz por detrás do texto, o que permite economizar energia. Isto além de poder armazenar muitos livros numa só memória e possibilitar a pesquisa por palavras - como se faz num texto em Word.

Já o texto de Isabel Coutinho, ontem no Público, fala igualmente de tecnologia, mas opõe o mesmo Kindle ao iPhone. Nos textos mais recentes da jornalista, é óbvia a simpatia que ela nutre por este segundo aparelho. E, na presente peça, argumenta ainda mais razões: o Kindle tem imagem a preto e branco, não é táctil, não tem o telefone do iPhone (e outras potencialidades como o tipo de programas, que incluem o PowerPoint e o Word) e será substituído por um novo modelo com ecrã maior. Mesmo que a Amazon, a detentora do Kindle, queira entrar no mercado do livro escolar, que vale nos Estados Unidos mais de cinco mil milhões de dólares.

Quanto ao texto do Público de hoje, assinado por Sudarsan Raghavan, o livro é apresentado como meio de cultura e de resistência política e cultural. A reportagem fala de uma livraria de Bagdad, de Nabil al-Hayawi. De sessenta anos, dirige a Renaissance, livraria que o seu pai abriu em 1957 na rua Mutanabi. Diz o texto que a livraria, após a invasão americana, expôs textos religiosos xiitas, literatura sunita wahhabi extremista e revistas ocidentais com mulheres pouco vestidas. Com o aumento da expressão religiosa extremista, a livraria passou a vender unicamente textos religiosos xiitas, o Corão e dicionários de inglês. No ano passado, al-Hayawi seria vítima da explosão de um carro armadilhado mesmo em frente à livraria, que lhe matou o seu único filho e quase também o matou, tendo de fazer várias operações e movimentando-se agora com muita dificuldade. Esta parte do texto é muito pungente, e igualmente a imagem do velho livreiro. Mas diz ele: "O Iraque é a minha alma. Eu vou e venho. Mas nunca partirei".

Isto é: enquanto as peças noticiosas que se referem à indústria do livro nos Estados Unidos dão um destaque inaudito à tecnologia e à desejada rápida substituição do livro em papel, a reportagem sobre a livraria de Bagdad mostra o livro como meio de conhecimento e tolerância, como objecto de cultura e património da humanidade. Aparentemente, temos aqui um movimento a duas velocidades. Ou mesmo dois mundos. Qual deles vai persistir? Qual o de maior valor simbólico? Ou: será que o livro digital manterá o espírito de cultura e de resistência, guardado em espaços onde as pessoas se encontram (ao sábado na livraria iraquiana, a qualquer dia nas nossas livrarias) e discutem, formando um dos meios mais importantes do espaço público moderno?

PÓS-GRADUAÇÕES EM EDIÇÃO E EM LIVRO INFANTIL


Curiosamente, os meus colegas da Universidade Católica apostam em pós-graduações em Edição e em Livro Infantil (a partir de anúncio publicado ontem no Expresso). Gosto desta tenacidade analógica. Parabéns.

BATMAN


O Joker (
Heath Ledger) é um bandido atípico: entra na Mafia mas actua isoladamente, não tem qualquer código de conduta, eliminando impiedosamente mesmo os que colaboram com ele. Nem tem objectivos semelhantes aos dos outros elementos da Mafia - o dinheiro não é tudo para ele, podendo atear fogo a milhares de notas sem se comover. É um louco, toma atitudes incompreensíveis para os outros, mas não é ingénuo nem tonto.

O homem morcego (Batman) (
Christian Bale) é um grande empresário de tecnologias durante o dia e justiceiro à noite. Usa aparelhos sofisticados na luta contra o crime, levando-me a considerar estarmos perante um filme de objectos. Ao invés, o Joker usa apenas uma faca e com a perícia e resultados tão bons como as máquinas daquele. Mas, e sem que o filme nos mostre muito, o Joker é também perito em explosões de dinamite através de controlos remotos muito desenvolvidos. O filme é, assim, o confronto entre tecnologia pré-moderna e tecnologia pós-moderna, em que se juntam espectacularidade e eficácia.

O procurador (
Aaron Eckhart), a namorada deste (que já foi de Batman) (Maggie Gyllenhaal) e o chefe da polícia (Gary Oldman) combatem o Joker mas não o conhecem bem. Por isso, precisam do homem morcego em dado momento. Este não consegue porém evitar que os dois primeiros morram às mãos do Joker.

Se o Joker é um indivíduo estranho e solitário, o Batman não tem muita gente a apoiá-lo directamente. Actuam ambos de modo clandestino - ou pouco deles se sabe. De Batman, conhecemos a paixão que ainda tem da antiga namorada e os dois colaboradores tecnólogos (
Michael Caine e Morgan Freeman), também filósofos da condição humana. No final do filme, um deles demite-se do seu cargo, deixando mais isolado o justiceiro.

Como disse acima, o filme (de
Jonathan Nolan) está rodeado de objectos tecnológicos, que existem para cumprir as determinações dos homens. E, segundo aspecto a salientar, o implausível do uso das máquinas é contrabalançado com uma memória cultural que nos vem dos desenhos animados: o Batman e o Joker não morrem às mãos do outro, apesar das oportunidades de um eliminar o outro. É como se fosse um jogo contínuo em que justiça e crime fossem duas faces da mesma moeda, como o procurador gostava de jogar, em que perder e ganhar fazem parte constante desse jogo.

26.7.08

MUSEUS DE BERLIM


Nos museus da ilha dos museus de Berlim, encontram-se peças de origem mesopotâmica, grega e egípcia e pintura medieval e renascentista. Fruto de coleccionismo, compra e retirada de peças do próprio local. Desde a reunificação alemã, tem havido um grande esforço na recuperação arquitectónica dos edifícios.

25.7.08

NOTÍCIAS DA IMPRESA


Os jornais dão hoje informações variadas da vida da Impresa, grupo liderado por Pinto Balsemão e que detém nomeadamente os títulos de imprensa Expresso e Visão e o canal de televisão SIC.

Assim, no Diário de Notícias, lê-se sobre os lucros do grupo no primeiro semestre deste ano. Foi mantido o nível de receitas nos € 138 milhões e aumentaram os custos operacionais para € 116,7 milhões. Igualmente se dá conta da aquisição de 50% da Edimpresa, negócio aprovado pela Autoridade da Concorrência, passando o grupo Impresa a deter a totalidade da área de edição em papel e que adopta a nova designação Impresa Publishing

Já o Público (Inês Sequeira) prefere destacar a subholding Impresa Digital, onde estão as empresas multimedia do grupo. Em 2007, a área valeu € 22 milhões, 7,87% das receitas consolidadas. O portal AEIOU, agregador dos conteúdos do grupo, a MyGames, ligado ao mundo dos videojogos e do vídeo a pedido, a 7Graus, com sítios de fotografia, e o sítio do imobiliário são alguns dos principais negócios da área.

CAFÉ TERTÚLIA EM CASTELO DA MAIA (MAIA)


"Retratar e proporcionar o ambiente dos cafés do início do século XX" foi a ideia inicial da Tertúlia Castrense, café situado na Maia (Rua Augusto Nogueira da Silva, 779, Castelo da Maia), aberto desde 2002 [todas as imagens desta mensagem pertencem aquele sítio e newsletter do café].



Hoje, actua o dueto de jazz TERYLENE, composto por Francisco Ferro na voz principal e Rui Correia na guitarra e vozes (primeira imagem abaixo) (para saber mais deste agrupamento ver em http://www.terylene.net/ e www.myspace.com/fibraterylene). No dia 30 de Julho (quarta-feira), as QUARTAS DOS CONTOS, Clara Haddad apresenta Allah Hu Akbar! Alla Hu Akbar! (segunda imagem abaixo), com concepção, interpretação e texto de contos tradicionais por Clara Haddad e sonoplastia e som de José Fernando Almeida (para saber mais dela ver http://www.clarahaddad.blogspot.com/).


PINTURA DE RICARDO PAULA


Inaugurou ontem e prolonga-se até 21 de Setembro a exposição de pintura de Ricardo Paula, na Cordoaria Nacional, representando uma carreira de 25 anos e intitulada Carvões da Vida.

Nascido em 1964, é designer de formação, planificador gráfico de cinema e televisão e foi director de arte em agências de publicidade. A sua pintura traça um percurso entre impressionismo e figurativo.

O OLHAR INTERROGADOR DO GATO


O gato regressou e espreitou à minha janela, indagando o que estava a escrever no computador. Mas foi-se embora rapidamente, saltando para uma pequena plataforma de regresso à casa onde habita. Coisa admirável: o animal não tem vertigens da altura em que se movimenta e faz acrobacias (ou não tem consciência disso).

Ou imaginar um petisco seria suficientemente forte para assumir o risco?


24.7.08

CRIATIVIDADE VERSUS POLÍTICA


O Creative Partnerships é um sítio onde se expressa o programa do Governo do Reino Unido em termos de aprendizagem criativa juvenil. O sítio trabalha essa vontade política de desenvolver competências e abrir ou alargar oportunidades quanto ao futuro dos jovens. Ou talentos criativos, como se ouve num dos vídeos abaixo. Neste ponto, não me importa saber se se trata de mera propaganda político-partidária ou de um programa sério.

Pego nesta questão ao lembrar-me do projecto apresentado ontem no Porto sobre indústrias criativas. Trata-se de uma sugestão para os produtores (e intelectuais) seduzidos por aquele programa, bastando espreitar estes dois pequenos vídeos produzidos pelo
Creative Partnerships, onde é central o papel do secretário de Estado da Cultura, Andy Burnham (e também do seu colega das Escolas, Ed Balls), colocados respectivamente ontem e no dia 28 de Maio. O governo inglês pretende oferecer cinco horas semanais de arte e cultura de alta qualidade a todos os jovens. Assim, formar-se-ão públicos produtores e consumidores das indústrias criativas e culturais.

MEDIDAS CONTRA A PIRATARIA ELECTRÓNICA

Os pais que deixem os seus filhos copiar ilegalmente músicas e filmes através da internet sofrerão sanções como a redução substancial da velocidade de acesso à internet, noticia o Times Online de hoje, no que me parece ser a primeira medida séria contra a pirataria electrónica.

Os seis principais fornecedores de acessos à internet ingleses - BT, Virgin Media, Orange, Tiscali, BSkyB e Carphone Warehouse - assinaram essa proposta. Em compensação, o Governo abandona a posição controversa de desligar os serviços de banda larga a tais famílias permissivas da pirataria.

Acrescente-se que tem sido grande a pressão da indústria discográfica e do cinema de Hollywood, com perdas de milhões de euros com a pirataria electrónica.

JORNALISMO EM MUDANÇAS


Para Mark Glaser, do sítio Media Shift, em texto editado ontem, no momento em que sucedem notícias de despedimentos e venda de media nos Estados Unidos, há outra questão em discussão: os jornalistas mais jovens não querem permanecer nos media onde trabalham porque sentem que estes são lentos a mudar a sua cultura empresarial.

Glaser entende haver a necessidade de mudar o modo como historicamente as redacções funcionam, com os editores a reunir à parte para tomada de decisões sobre o que se deve escrever na edição daquele dia. Segundo ele, as ideias de inovação acabam por não vingar, o que frustra a vontade dos jornalistas mais jovens.


No sentido de fortalecer a sua opinião, Mark Glaser, jornalista e crítico dos media, parte de um estudo feito por Vickey Williams em dez salas de redacção, num projecto que se desenrolou entre 2004 e 2007, onde se detalham as mudanças ocorridas na cultura jornalística (ver relatório All Eyes Forward, em PDF).

23.7.08

MAIS SOBRE INDÚSTRIAS CRIATIVAS


Segundo a peça assinada por Sérgio C. Andrade no Público, foi apresentado hoje o estudo O Desenvolvimento de um Cluster de Indústrias Criativas na Região do Norte, promovido pela Fundação de Serralves, com a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N), em parceria com a Junta Metropolitana do Porto, a Casa da Música e a Sociedade de Reabilitação Urbana da Baixa Portuense.

Do documento electrónico já disponibilizado pela CCDR-N, o estudo parte de três pontos: "Necessidade de encontrar novos sectores de actividade, mais inovadores e com maior capacidade de servir de interface entre o meio académico e científico e o meio empresarial; Existência de uma rede de universidades e estabelecimentos de ensino politécnico que criam uma população com apetência para serem dinamizadores de indústrias da criatividade e que muitas vezes se perdem, por falta de enquadramento estratégico e também pela inexistência de ofertas de espaços de instalação; Existência de um propósito de requalificação, de revitalização e até de regeneração urbana nas cidades da Região Norte, designadamente no Porto".

A proposta reflecte o interesse de "maximizar o potencial criativo da região está estruturada em três eixos estratégicos": capacidade e empreendedorismo criativos, crescimento dos negócios criativos, e atractividade dos lugares criativos.

O texto agora publicitado tem uma primeira parte de definições, como o conceito de indústrias criativas, a partir do inglês Department of Culture, Media and Sports (Creative Industries Taskforce, Department of Culture, Media and Sports, Reino Unido, 1997, e que eu aqui já destaquei algumas vezes), com os seguintes subsectores (imagem retirada do documento, p. 15).


No documento, as indústrias criativas são: 1) baseadas em indivíduos com talento criativo, 2) aliados a gestores de recursos económicos e tecnológicos, 3) gerando produtos vendáveis, 4) cujo valor económico assenta nas suas ropriedades “culturais” ou “intelectuais”. Os autores do documento falam em “indústrias criativas” (ou “indústrias culturais”) (p. 25), sem distinguir as diferenças ou a hierarquia que se pode instaurar entre elas, como o fez John Hartley (2005). Distinguem igualmente cidades criativas, com um subcapítulo específico, turismo cultural (p. 32), pessoas e empreendedorismo criativo (p. 36), clusters criativos (p. 39) e propriedade intelectual (p. 41).

O documento destaca a existência de um estudo (Creative Economy Report 2008, UNCTAD, igualmente já referido aqui no blogue), que indica que, em Portugal, o sector das indústrias criativas contribuiu com 1,4 % do PIB em 2003, correspondendo a € 6.358 milhões, significando o terceiro principal contribuinte para o PIB português, logo a seguir aos produtos alimentares e aos têxteis (1,9% cada) e à frente de importantes sectores como indústria química (0,8%), imobiliário (0,6%) e sistemas de informação (0,5%) (p. 23).

A seccção II, com um capítulo chamado Ecologia e economia criativas na região Norte (a partir da p. 48), desenvolve mais conceitos, como infra-estrutura e programação cultural de prestígio, acesso a financiamento especializado, existência de núcleos especializados de investigação e incubação nas universidades, existência de redes de parcerias (networking) ou existência de espaços de produção e consumo cultural.

Regozijo-me com o facto de haver um projecto para a área norte do país em termos de indústrias criativas. O documento entende que a área norte do país tem recursos, agentes e energia para avançar com propostas significativas, nomeadamente nas cidades e centros históricos de Porto, Braga, Guimarães, Vila Real e Aveiro (aparentemente, a fronteira mais meridional desta região norte é Aveiro. E porque não incluir Coimbra, que não fica a uma distância muito maior do Porto que Vila Real, 121 quilómetros contra 96)? O texto fala igualmente de cidades universitárias como Barcelos ou Vila Nova de Famalicão (ignoro a importância destes locais, mas parece-me que está a ser empolado o conceito de cidade universitária). Igualmente fixo os projectos apresentados como modelo: Design Studio, Incubação Aquário de Som e Imagem, ID+, UP IN-Inovação, UP Media, UPTEC-Parque de Ciência e Tecnologia da UP, Centro de Criação das Artes de Rua de Santa Maria da Feira. Os autores falam também do projecto Guimarães Capital Europeia da Cultura 2012. Retiro das páginas 69 e 82 um conjunto de outras actividades, mas serão suficientes para se falar de indústrias e cidades criativas? Ou serão ainda um embrião para outras actividades?



No documento hoje apresentado, foram identificadas várias instituições consideradas "relevantes para a implementação de um sistema regional de empreendedorismo criativo": Escola Superior Artística do Porto; ESAD; Faculdade de Belas Artes da UP; Escola das Artes (Universidade Católica); ESMAE; Instituto Multimédia; Instituto Politécnico; Escola Jazz - Jazz ao Norte; Instituto das Artes e da Imagem; Escola Profissional de Artes do Espectáculo; Conservatório de Música do Porto e Instituto Português de Fotografia. Outras foram igualmente apresentadas no projecto.

O ponto 7.2.4.2, sobre a estrutura empresarial, aborda as empresas na óptica das indústrias criativas, no que me parece um dos pontos mais importantes do documento (a partir da p. 94). Retiro somente duas ideias sobre oportunidades quanto ao mercado nacional (leitura SWOT). O primeiro aparece na p. 102: "Em Portugal há um fenómeno de substituição dos sectores tradicionais por novos, cujo impacto é muito significativo na Região Norte. O esforço de penetração dos novos sectores, empresas e produtos, é propício à Publicidade".

O segundo aparece na p. 122: "A atractividade deste subsegmento [edição] para os criativos é média, sendo muito competitiva e difícil de gerir. A ameaça da substituição do suporte papel pode causar a obsolescência deste subsegmento e provocar a migração para outro dos subsegmentos criativos. Noutro sentido, a evolução ocorrerá através da utilização de novos suportes digitais pelas actuais empreses de edição. Contudo, a função do criativo, qualquer que seja a evolução, manter-se-á inalterada". A que se segue: "Assiste-se a uma revolução no mercado da Edição. O retalho sofre, de alguns anos a esta parte, o embate de novas formas de chegar ao cliente (FNAC, Internet, Amazon). Recentemente, com o advento de um processo de concentração de Editoras, aumenta a sua importância e poder negocial face ao criativo, mas também melhora a competitividade do livro gerado em Portugal, uma vez que beneficiará de recursos para uma maior promoção e um mais baixo custo de produção . Destes processos resulta uma maior oferta à disposição do consumidor final, o que aumenta a procura. As tecnologias de apoio à logística de distribuição e à produção de livros, jornais e revistas vêm reforçar a necessidade de grandes tiragens para colher economias de escala".

Porque necessitava de mais tempo para ler e analisar o documento, não faço aqui a apreciação mais profunda. Mas posso concluir, sem me comprometer muito, que se trata de um bom documento a que se segue a hipótese de o executar. Há questões de ordem financeira, empresarial, políticas e culturais que o documento aborda ou necessita de desenvolver. A ideia de uma Agência para o Desenvolvimento Criativo do Norte de Portugal pode ter pernas para andar. Contudo, não podemos negligenciar o facto das indústrias criativas terem medrado na Austrália e no Reino Unido fundamentadas em fortes indústrias culturais, como o cinema, a produção vídeo e os espectáculos ao vivo - ocorrências pouco fortes no norte do país - e em agentes criativos e empresariais fortes.

O consórcio responsável pelo Estudo Macroeconómico para o desenvolvimento de um cluster das Indústrias Criativas na Região do Norte foi constituído pela empresas Tom Fleming Creative Consultancy, Horwath Parsus, Opium, Gestluz Consultores e Comedia.

22.7.08

A ANSIEDADE PERANTE UM NOVO MEIO


Historicamente, cada novo meio de comunicação desperta dois tipos de impacto, um optimista, outro pessimista. A isso, Sonia Livingstone designa pelo debate entre liberais e críticos. Apliquemos esta dicotomia ao ciberespaço - por um lado, as crianças com a internet desenvolvem competências muito rapidamente e tornam-se (mais os jovens) os grandes consumidores e criadores, por outro lado, as crianças são seres vulneráveis a uma cultura cada vez mais comercializada.

Vou-me centrar no lado dos efeitos morais, do pânico moral. Violência, estereótipo, exploração comercial, conteúdo pornográfico, reforço de acções agressivos e de comportamentos passivos e acríticos - eis as doenças diagnosticadas por Livingtone quando se estuda o impacto negativo da internet. Mas já os videojogos, o cinema, a televisão, a banda desenhada passaram por este trajecto. Raramente é feito um discurso positivo. Recordo-me, quando estudei a história da rádio nos seus primórdios, de ler alguns discursos e peças jornalísticas optimistas, como o facto de trazerem conhecimento ao indivíduo e harmonia ao lar. Mas trata-se de uma óptica mais rara que a contrária.

Livingstone segue um estudo muito considerado de Stanley Cohen, quando este escreveu sobre os medos que a televisão traria à juventude, no final dos anos 1950, acabando com a ideia de uma idade de ouro da infância inocente. Examinado mais de perto tratava-se de um estereótipo da classe média temendo o efeito da "poluição" das classes populares.

De que modo se poderiam aplicar estes conceitos (e preconceitos) a acontecimentos recentes, como o arquivamento do caso Madie ou dos ciganos versus negros em Loures mais as casas vandalizadas daqueles? Ou dos veraneantes italianos confraternizando numa praia e ignorando os corpos mortos de duas raparigas ciganas? Qual o impacto e a formação de opinião pública através das imagens (manipuladas) da televisão?

Parece-me que, à ansiedade, se junta a aceitação passiva de imagens e perspectivas. É o regresso do velho conceito de audiência.

Leitura de base: Sonia Livingstone (2005). "Media audiences, interpreters and users". In Marie Gillespie (ed.) Media audiences. Milton Keynes: Open University

21.7.08

ARCA RUSSA


A Arca Russa de Alexander Sokurov é um filme totalmente filmado no museu do Hermitage, em S. Petesburgo, Rússia.

Autor de filmes como
Mãe e Filho (1996), Pai e Filho (2003) e Alexandra (2007), este filme Arca Russa (2002), apoiado pelo Ministério da Cultura da Federação Russa, descreve uma visita ao museu russo do cineasta (voz off) acompanhado de um marquês francês do século XVIII, ressuscitado para acompanhar o cineasta ao mundo russo daquela época. Histórias dos czares e das czarinas, modos de viver da faustosa corte e o olhar sobre algumas das mais importantes pinturas expostas no museu, num só plano, possibilitado pela tecnologia do vídeo digital, mostram uma obra fascinante deste respeitado realizador.

Recordo apenas a longa cena de baile, na parte final do filme. Longa e soberba. Assim como a apresentação de credenciais do embaixador do Irão ao czar, com a deambulação da câmara, fixando rostos, movimentos e a riqueza de cores do vestuário.

Só lamento não o ter visto num ecrã de cinema, pois o filme não foi distribuido comercialmente. Mas vale a pena comprar o DVD - para ver as imagens desse longo plano. E para ouvir os sons, por exemplo, o de pássaros durante a saída da czarina para um pequeno passeio no exterior do palácio (seriam corvos?) e do respirar arfante dela e do seu acompanhante. E lembrar que todo o filme foi filmado num só dia, em vésperas do Natal de 2002, após ensaios de meses a fio. Só um realizador do nível de Sokurov podia planear um tão longo dia sem falhas. E, certamente, pode comemorar o Natal de forma particular.

[obrigado ao Carlos por me ter dado a conhecer e visualizar o filme]

REPRESENTAÇÃO OFICIAL PORTUGUESA NA EXPOSIÇÃO INTERNACIONAL DE ARQUITECTURA, LA BIENNALE DI VENEZIA


Portugal estará representado oficialmente na Exposição Internacional de Arquitectura, La Biennale di Venezia, que decorre de 14 de Setembro a 23 de Novembro 2008, sob o título Out There: Architecture Beyond Building.

Na apresentação desta participação, José Gil e Joaquim Moreno escrevem inicialmente: "O tema geral da Bienal de Veneza – «Lá Fora: Arquitectura para lá do edificado» – pode, numa certa perspectiva, implicar que a dimensão do «Fora» se encontra de tal maneira integrada e activa num espaço interior que induz uma ilimitação do exterior no interior".

CULTURA PARTICIPATIVA


Henry Jenkins, o autor do conceito de cultura participativa - de que já escrevi, nomeadamente aqui -, tem seguidores em Portugal.

Célia Quico (quadro superior da empresa de tecnologias, televisão por cabo e telecomunicações ZON) irá defender a sua tese de doutoramento intitulada Audiências dos 12 aos 18 anos no contexto da convergência dos media em Portugal: emergência de uma cultura participativa?, pelas 14:30 de 16 de Setembro, na Universidade Nova de Lisboa.


O trabalho de Célia Quico estuda o interesse e a utilidade de um formato de media que solicita contributos e a criação e partilha de conteúdos pelos seus utilizadores, com base em estudos de audiências, recepção e cultural studies e culturas de fãs analisadas por investigadores como Henry Jenkins.

Júri constituído por: António Câmara (FCT/UNL), Cristina Ponte (FCSH/UNL), Manuel José Damásio (Universidade Lusófona), Óscar Mealha (Universidade de Aveiro), Vítor Reia-Baptista (Universidade do Algarve), Francisco Rui Cádima (FCSH/UNL) e Peter Olaf Looms (Universidades de Copenhaga e de Hong Kong).

LIVRO DIGITAL


No dia 6 deste mês, o New York Times publicava um texto sobre o papiro electrónico, um leitor electrónico de livros holandês, o Readius.



O vídeo seguinte tem cerca de um ano, pelo que pude apurar. Mas dá para prever o futuro do leitor electrónico de livros, para além do Kindle.


AMADORISMO


O livro de Andrew Keen, O Culto do Amadorismo, pode dividir-se em duas partes: de um lado os sete primeiros capítulos, publicados em 2007; do outro lado, o oitavo capítulo, já com observações sobre acontecimentos deste ano. Mas é evidente a sua perspectiva, a da defesa dos cépticos face à considerada Web 2.0, opondo críticos aos utópicos digitais ou os pragmáticos aos tecno-utópicos, num tempo de celebração do amador, do YOU, como apareceu na capa de uma revista americana de grande audiência.

Posto de outro modo: Keen define amador como "alguém com um passatempo, que implique conhecimentos ou não, alguém que não ganha a vida com esse interesse, um leigo, sem credenciais, alguém que «dá uns toques»" (p. 48). Amador é, ainda para Keen, aquele que cola, remistura, empresta, copia - isto é, rouba a propriedade intelectual, o que vai contra a ética de respeitar a criatividade dos outros (p. 136). O que parece grátis - Google, YouTube, MySpace, FaceBook - está a custar uma fortuna. Isto porque estas empresas não criam emprego mas geram tão somente lucro, andando a dizimar as indústrias editorial, musical e noticiosa através do que chamam "agregação" (p. 39).

Quais, então, os principais alvos de acusação por parte de Keen? Os blogues (que roubam a informação dos jornais), a Wikipedia (em que os pouco conhecedores exercem pressão sobre os especialistas e alteram os verbetes das entradas da Wikipedia), o YouTube (em que vídeos sem qualquer qualidade são vistos por milhões de visitantes). Por exemplo, os jornais empregam jornalistas profissionais, que adquirem a sua arte mediante instrução e experiência (p. 56). A Time Warner ou a Disney criam e produzem filmes, música e televisão, ao passo que a Google é um parasita, em que o seu único feito foi ter arranjado um algoritmo que liga conteúdos e cobra aos anunciantes desde que estas hiperligações recebam cliques (p. 130). Há, continua, o escarnecer da celebração antiga do trabalho duro, da disciplina, da frugalidade e da abnegação, em troca das valorizações irracionais e dos milionários instantâneos (p. 145).

O amador é, na perspectiva de Keen, um pirata que, em vez de criar, rouba ao remisturar. Um exemplo: os jornais e as revistas, fontes fidedignas de informação sobre o mundo, estão a perder leitores, em detrimento de blogues e sítios gratuitos, que vão buscar sempre a informação aqueles (p. 23). A estes amadores, Keen chama-os de macacos. E lembra a história de T. H. Huxley, para quem se dêssemos máquinas de escrever infinitas a macacos infinitos, algum macaco acabaria por criar uma obra-prima (p. 18). Milhões de amadores produtores de vídeo colocados no YouTube talvez resultem no surgimento de uma obra-prima, conclui Keen.

Mas Andrew Keen diz porque escreve assim. Confessa-se quase logo no começo do livro, quando descreve a ida a um acampamento em Setembro de 2004, onde se encontrou com outros utópicos de Sillicon Valey (p. 26). Aí passou de crente a céptico, ele que quase ficara rico com a internet - com aquilo que hoje critica. Chama-lhe a grande sedução (título do primeiro capítulo) e descreve o seu audiocafe.com, um sítio onde quis colocar toda a música a disponibilizar a toda a gente.

O oitavo capítulo é o reconhecimento de que se devem aproveitar as potencialidades da Web 2.0, mas em que os verdadeiros criadores sejam recompensados pelo seu esforço e remunerados e reconhecidos por isso. Volta ao exemplo da Wikipedia e fala da cisão entre Larry Sanger e Jimmy Wales, com aquele a propor autoridade face a um igualitarismo radical (p. 173). Objectivo: ter um trabalho de boa qualidade na internet aproveitando as tradições e o profissionalismo dos media anteriores (p. 175).

20.7.08

ERIC ROHMER


Os amores de Astrea e de Celedon serão, com certeza, o testamento de Eric Rohmer. Velho e doente, talvez ele não filme mais.

Por isso, o filme já traz em si uma grande nostalgia pelos tempos perdidos, pela inocência desaparecida, pela levada pureza de sentimentos. A lembrar Manoel de Oliveira no modo teatral da representação, o filme não é verosímil. Druídas, ninfas, pastores e cavaleiros (estes não presentes) são os seres humanos e espirituais que povoam a história. Filmado num sítio que não era o ideal inicial do realizador, mas que teve de abdicar dada a degradação da paisagem natural, a história decorre numa floresta maravilhosa (ou encantada), onde o trabalho parece submeter-se à música, à juventude e à alegria, a par de um código ético e estético muito vincado e da honra em cumprir promesssas.

Astrea relega o amor de Celadon. Este, desgostoso, atira-de ao rio, querendo morrer. As ninfas encontram-no e devolvem-lhe a vida. Uma delas apaixona-se por ele e pretende mantê-lo cativo num castelo saído dos livros de cavalaria da Idade Média, quando a cultura celta saía do domínio romano. Celadon sai, disfarçado de mulher, disfarce que o há-de aproximar de Astrea.

O filme não é verosímil, anotei acima. Mas demonstra uma linha de fazer cinema que é distinta da americana, nomeadamente a de ficção científica, com pós-humanos, ciborgues, violência e espaços desertificados ou destruídos por uma qualquer guerra atómica. O cinema é uma arte da ficção, do irreal, do ainda não criado.

COLÓQUIO BRASIL-ESPANHA

V Colóquio Brasil-Espanha de Ciências da Comunicação, de 28 a 30 de Agosto de 2008, na Faculdade de Comunicação Social da Universidade de Brasília, em que as indústrias culturais estarão em grande destaque (ver o programa preliminar aqui ).


18.7.08

INCÊNDIO JUNTO À AUTOESTRADA


Não muito longe do Fundão, onde a temperatura do ar rondaria os 40 graus centígrados.

ARQ./A - HERANÇA LE CORBUSIER


Com Nuno Portas e Luís Santiago Baptista. No Clube Literário do Porto, Rua Nova da Alfândega, n.º 22, Porto, no dia 25 de Julho, 18:30.

ENCONTRO DE TEATRO DOS LEITORADOS DO INSTITUTO CAMÕES


Vai decorrer nos próximos dias 21 a 25 de Julho o II Encontro de Teatro dos Leitorados do Instituto Camões, na Fábrica da Pólvora de Barcarena, em Oeiras. Reunem-se 60 aprendentes de português, oriundos da Alemanha, Croácia, Hungria, Polónia e Sérvia, que efectuarão sessões de trabalho e apresentarão os seus espectáculos com recurso à Língua Portuguesa. Entrada livre.


21 Julho, 21:30 - As três pessoas ou o senhor Valéry dizia, a partir do livro de Gonçalo M. Tavares - Teatro da cidade branca, Belgrado (Sérvia),
22 Julho, 21:30 - Macbetos, texto de Sofia Campos Soares - Lusco-Fusco, Zagreb (Croácia),
23 Julho, 21:30 - inQUIETudes, baseado em textos e poesias de Fernando Pessoa - Teatro Lusotaque, Colónia (Alemanha),
24 Julho, 21:30 - Conversas de mulheres, texto de José Carlos Dias - Grupo de Teatro Pisca-Pisca, Varsóvia (Polónia),
25 Julho, 21:30 - Bom Quixote, texto de István Tasnádi - Rei Rudolfo - Teatro Ambulante, Budapeste (Hungria).

17.7.08

A BLOGOSFERA COMO VIGILANTE DOS MEDIA


As interacções e trocas entre pessoas - como na blogosfera - tendem em geral a ser mais benéficas que as estruturas criadas através da exercício deliberado do poder, apesar de bem intencionadas - caso das instituições de regulação (Stephen Cooper, Watching the Watchdog, 2006: 303).

Durante muito tempo, hesitei em ler este livro de Stephen Cooper, professor de comunicação da Universidade Marshall (localizada em Huntington, West Virginia). A estrutura parecia-me confusa, com muitas citações de blogues em casos particulares respeitantes à realidade americana. Agora, nestes últimos dias, recuperei o texto e olhei com mais pormenor - e o que se me aparentava desorganizado adquiriu uma nova forma. De tal modo que, revendo a sua arquitectura, o vou aproveitar para diversas finalidades.

O livro tem oito capítulos, mas é como se tivesse três partes estruturantes: 1) elementos base da crítica dos blogues (exactidão, enquadramento, agendamento e gatekeeping, práticas jornalísticas), 2) economia dos blogues (incluindo o conceito de cadeia de valor), 3) blogosfera como esfera pública (a partir de Jürgen Habermas e Elizabeth Noelle-Neumann, embora eu preferisse a distinção montada por Michael Schudson entre Jürgen Habermas e Benedict Anderson). Se a "primeira" parte utiliza conceitos gratos ao jornalismo e a "segunda" materiais que se encontram habitualmente nas indústrias culturais e criativas, a "terceira" emprega tipologias que se usam quando se interpretam públicos e audiências.

A definição de blogue em Cooper é simples: sítio da internet focado na publicação de documentos, escrito por um indivíduo ou um pequeno grupo de indivíduos. A tese principal do livro é que os blogues estão a evoluir no sentido da sua institucionalização social legítima (p. 18). O editor do blogue pode não ter uma recompensa financeira pelo seu trabalho no blogue mas tem uma compensação na perspectiva da teoria dos usos e gratificações: reconhecimento, contributo para a renovação da esfera pública. E, ponto essencial do livro, há uma interacção positiva entre os media clássicos e os blogues, com estes a vigiarem o que aqueles fazem e a darem contributos e pistas para o desenvolvimento de temas começados por aqueles, quando os não iniciam.


Leitura: Stephen Cooper (2006). Watching the Watchdog. Spokane, WA: Marquette Books

GALEGO-PORTUGUÊS


Não vou comentar, mas tão somente chamar a atenção para a curiosidade: o sítio Mapamundi Música, um projecto de Juan Antonio Vázquez e Araceli Tzigane, que vale a pena espreitar, tem informações em castelhano, inglês, francês e galego-português. Sublinho esta última língua!


16.7.08

DEFINIÇÃO DE JORNALISMO DE CIDADÃO


Quando as pessoas anteriormente conhecidas como audiência utilizam as ferramentas da imprensa que existem para informar outras, isso é jornalismo do cidadão (Jay Rosen, Press Think, 14.7.2008).

Ver como Alexandre Gamela comenta esta definição no seu blogue
O Lago (14.7.2008).

MUSEU VIRTUAL DA RÁDIO E DA TELEVISÃO

Anteontem, escrevi sobre o museu da Rádio, sob a forma de uma CARTA ABERTA A PEDRO JORGE BRAUMANN. Nesse texto, pedia ao responsável pelo Núcleo Museológico que fosse reconsiderada "a criação de um espaço de museu virtual, sem mais nada. Os visitantes querem peças reais, físicas".

Confirma-se a abertura do museu virtual, elemento complementar da colecção visitável com peças museológicas de carácter mais eminentemente simbólico, num total de aproximadamente cem peças, a expor num espaço de 300 metros quadrados e a abrir até ao final de 2008 (ou, caso surja um imprevisto, nos dois primeiros meses de 2009). As peças são ligadas aos dois meios representados na RTP: rádio e televisão. O museu virtual permite fazer pesquisa de conteúdos. Além das peças a expor, há ainda uma reserva visitável, guardada em adequadas condições de temperatura e humidade em espaço das caves da sede da RTP (em Lisboa). As peças existentes em Pegões, como escrevi na mensagem acima mencionada, são objectos sem qualidade científica ou repetidos. Em simultâneo com a abertura da colecção visitável e do museu virtual, abrirá na Madeira a exposição comemorativa dos 50 anos da RTP, que esteve anteriormente em Lisboa.

Destas informações, depreende-se o acabar definitivo do Museu da Rádio, o que confirma a incorrecção dos termos da carta que recebi em
Maio de 2004: "a instituição dará oportunamente lugar ao futuro Museu da Rádio e Televisão, passando a incorporar também o espólio do núcleo museológico da RTP". O museu virtual não substitui o museu real, é uma falácia em que andamos a embarcar desde que existe a internet, mais precisamente desde o momento da sua explosão massificada, 1995! Dentro dessa panaceia à second life, a anterior ministra da Cultura queria um museu virtual da Língua portuguesa, ideia que o actual titular fez muito bem em acabar.

O museu virtual faz-se quando não há peças, bens tangíveis, elementos vivos, que suprimam tais faltas. É essa a grande virtude, por exemplo, do museu do cinema em Berlim, magnífico espaço em que a imagem tem o lugar principal - mas o cinema é basicamente imagem, logo não há discrepância de grandeza maior. Agora, desaparecer um museu da rádio - com um espólio bem melhor do que em outros sítios e que funcionava -, não, isso é imperdoável. Sem os conhecer, fiz uma cartografia de responsáveis: a administração da empresa da rádio pública e a tutela no Governo. Os consumidores da cultura e os apreciadores da rádio, presentes e futuros, apontarão o dedo a estas entidades por deixar desaparecer uma instituição como o Museu da Rádio.

Um museu virtual, ainda que complementar, faz-me lembrar a ideia do Portugal dos pequenitos (Coimbra) ou da Minitália (Milão), espaços de lazer para os mais pequenos, lembrando uma época passada, e desenhada com (pre)conceitos patrióticos e saudosistas. E não acredito na versão da escassez de finanças: a anterior ministra da Cultura propôs criar um museu público.


Um museu virtual pressupõe conhecimento. Onde está ele no tocante à rádio? Que investigações têm sido feitas sobre a rádio? Que livros estão publicados? Que conferências sobre a história da rádio? Ou que protocolos com as universidades para estudar a rádio? Não, não há, ou pelo menos eu não conheço em abundância - e procuro andar actualizado.

Lisboa vai ficar um tudo nada melhor do que, por exemplo, Berlim: com o museu virtual, a RTP tem um espaço visitável, coisa que a rádio pública alemã não tem na sua capital, fechado há dois ou três anos. Mas, certamente, o Museu da Rádio português tinha um maior espólio. E espaços, como o estúdio em que Artur Agostinho falava à reportagem da Rádio Renascença (
aqui, realizada em finais de 2007), ficarão desmontados, por falta de espaço na colecção visitável.

Agradeço a amabilidade das informações prestadas pelo Dr. Pedro Jorge Braumann. Compreendo, afinal, que as suas funções são executivas. A decisão de não criar o Museu - melhor, de manter o Museu - veio da tutela no Governo, observando eu, ainda, as contradições de um assessor da administração da RTP quando me respondeu em 2004.

MOSTRA DE CURTAS METRAGENS NO RIO DE JANEIRO


A 5ª Mostra Curtas, parte da Mostra PUC-Rio e destinada a universitários, tem inscrições abertas. O tema do festival deste ano, a decorrer de 19 a 22 de Agosto, é livre, abrangendo as categorias ficção, não-ficção, documentário e animação. Os filmes, que devem ter até 20 minutos, podem ser apresentados em VHS ou DVD.

Os interessados em participar precisam de preencher uma ficha de inscrição disponível no sítio
www.puc-rio.br/mostrapuc.

[informação obtida no sítio
Cultura e Mercado]

15.7.08

SÍTIO SOBRE LIVROS


Para quem gosta de acompanhar a indústria e a cultura do livro, recomendo o sítio Tökland, revista audiovisual de fomento à leitura. Os animadores são Txetxu Barandiarán, de Bilbau e com quem me cruzei há anos na Galiza, e Pablo Odell e Joan Odell, ambos de Barcelona. Provêem do mundo do papel e da imagem, mas foi a internet que os uniu.

GESTÃO CULTURAL

A Universidad de Alcalá de Henares (UAH) e o Instituto de Postgrado de Estudios Culturales y de Comunicación (IPECC) organizam um master em Gestão Cultural, a decorrer durante um ano (20 de Outubro de 2008 a 30 de Junho de 2009). Os alunos adquirirão conhecimentos e técnicas necessárias para o desenvolvimento do trabalho profissional no terreno da Gestão Cultural. A Universidade fica a 30 quilómetros de Madrid. Para saber mais, procurar em http://www.ipecc.net/.

[informação via blogue Comunicación Cultural, de Javier Celaya]

BLOGUES - O IMPACTO INTERNACIONAL DO ENCERRAMENTO DO BLOGUE PORTUGUÊS PÓVOA ONLINE


Cornelius Rahn, do European Journalism Center, escreveu ontem um artigo intitulado Blogocépticos ponderam regulação na Europa, com preocupações dizendo respeito à privacidade e liberdade de expressão na internet em geral e nos blogues em particular.

No artigo, Rahn destaca o exemplo ocorrido a semana passada com um blogue português , Povoa Online,
desligado pela Google Portugal após uma sentença de tribunal, que considerou que o(s) autor(es) do blogue tinham difamado o poder local. O blogue tinha "opinado" em muitos dos seus textos e caricaturas. A Global Voices Advocacy fez um longo relato do facto no passado dia 5, o que ilustra a sua importância (os media clássicos fizeram referência ao acontecimento nos últimos dias).

Com pseudónimo Tony Vieira, o blogueiro abriria um novo espaço chamado Povoa Offline (imagem retirada do sítio Global Voices Advocacy).

Cornelius Rahn segue a definição do sítio
Search Win Development, que entende o blogue como representando um ponto de vista pessoal - mesmo que muitos tentem introduzir múltiplos ângulos do tema em mãos. Os blogues surgem da ideia da inexistência da objectividade e da possibilidade de modificar a sua posição após consulta de várias fontes. A blogosfera é uma plataforma de opinião, mas os seus editores não têm dado muita atenção ao factor económico - não procuram retirar valor económico dessa actividade. A opinião transparente, continua Rahn, é o ar fresco da comunicação dos tempos mais recentes (aconselho à leitura do texto total do autor).

A Comissão de Cultura e Educação do Parlamento Europeu adoptou um relatório sobre pluralismo dos media europeus em Junho passado. Não contém uma ameça real para os blogues mas traça algumas ideias de controlo, assegura Rahn, nomeadamente a clarificação do seu estatuto, como escreveu o proponente do relatório, Marianne Mikko, deputado pela Estónia. Mikko quis ver esclarecidas as responsabilidades profissionais e financeiras dos blogueiros, assim como restringir o anonimato em que muitos blogues persistem, caso do blogue português acima mencionado.

Cornelius Rahn está a tirar um grau universitário na Universidade de Maastricht (Estudos Europeus). A seguir, vai estudar jornalismo na Universidade de Hong Kong. Os seus interesses são a liberdade na internet e os media nos países em desenvolvimento.

14.7.08

CARTA ABERTA A PEDRO JORGE BRAUMANN


Caro Dr. Pedro Jorge Braumann,

O Museu da Rádio fechou, com imensa tristeza de todos os que gostam da rádio, em finais do ano passado. O primeiro anúncio li-o em Maio de 2004, quando se dizia estar para breve o seu encerramento. Então, passavam doze anos depois de ter sido aberto ao público (1992). Por essa ocasião, eu escrevi uma carta à administração da RDP. Na resposta (ver aqui em
28 de Maio de 2004), li: “o actual Museu da Rádio não será «desmantelado». Pelo contrário, a instituição dará oportunamente lugar ao futuro Museu da Rádio e Televisão, passando a incorporar também o espólio do núcleo museológico da RTP”.

Em finais do ano passado (2007), quando o museu estava definitivamente fechado, o Dr. Pedro Braumann dizia à Rádio Renascença (ver vídeo aqui, realizado por Dina Soares e Conceição Sampaio) que já não iria haver um museu, por decisão do Governo e da administração da RTP. Nessa ocasião, respondia ir abrir um núcleo de peças físicas visitáveis até ao fim do ano (2007). A posição da RTP mudava totalmente, o que significa ausência de verdade de quem me escreveu há quatro anos.

Estamos em Julho de 2008, e ainda não há museu ou núcleo de “reserva visitável”, expressão que usou na entrevista à Renascença. Sabemos que há peças guardadas nas caves das instalações centrais da RTP, à Avenida Marechal Gomes da Costa em Lisboa (garagem), e outras num edifício em Pegões, onde funcionou o emissor de ondas curtas da estação (e cuja segurança não será a melhor).

Parece que, agora, a aposta é a criação de um espaço de museu virtual.

Caro Dr. Pedro Jorge Braumann, como Director do Núcleo Museológico da Rádio (e da Televisão), peço que reconsidere – ou diga a quem teve a ideia para reconsiderar – a criação de um espaço de museu virtual, sem mais nada. Os visitantes querem peças reais, físicas. Para virtual, já temos a internet (e esta, apesar de nos dar imagens de todo o mundo, não acaba com a vontade de viajar, de contactar com a realidade física do mundo). Precisamos de ver o microfone de CT1AA (do pioneiro Abílio Nunes dos Santos Júnior), a mesa de programação de que Artur Agostinho falava no vídeo da Rádio Renascença, o estúdio em que ele falou, os aparelhos de recepção, muitos deles oferecidos pelos ouvintes.

A nós, que gostamos seriamente da rádio, não compreendemos que o destino das peças físicas não esteja perfeitamente acautelado. Não percebemos que haja uma selecção de peças por causa da falta de espaço, e que isso possa conduzir a que outras peças estejam destinadas à destruição ou venda por presumível menor valor patrimonial. O espólio do antigo Museu da Rádio não deve ser espartilhado, por respeito aos que construiram esse património, pela necessidade de explicar às novas gerações a importância da rádio em Portugal e por todos os que querem estudar a rádio. Um erro económico de hoje (poupar no espaço) pode revelar-se um desastre no futuro, se perdermos a memória colectiva do país ou traços fundamentais para a sua reconstituição.

Sabemos, igualmente, que a administração da RTP ouve bem as suas posições; por favor, use essa boa influência para dar feliz destino às peças do antigo Museu da Rádio. O país ficar-lhe-á grato por isso.

De um amigo e colega que o estima.

PERFIL SOCIOLÓGICO DOS JORNALISTAS PORTUGUESES


Recebi hoje o número 12 da revista Trajectos, do ISCTE e dirigida por José Rebelo. O tema de capa é dos assuntos mais importantes no tocante aos jornalistas portugueses, dado apresentar os primeiros dados de um estudo de equipa liderada pelo próprio José Rebelo, intitulado Perfil sociológico do Jornalista Português e financiado pela FCT, que decorreu no CIES (Centro de Investigação e Estudos de Sociologia) entre 2005 e 2008. A metodologia assentou em cinquenta entrevistas semidirectivas a jornalistas, permitindo as representações dos próprios quanto à vida e actividade profissional. O estudo, no seu todo, será publicado proximamente.

Vou ler atentamente o que agora se publica (textos de Alexandre Manuel, Avelino Rodrigues, Adelino Gomes, José Luiz Fernandes, Isabela Salim, Pedro Diniz de Sousa e Diana Andringa).

INTERNET, JORNAIS, GOOGLE E BLOGUES


A discussão começou na quinta-feira passada, quando Jeff Jarvis, do blogue Buzzmachine, escreveu que, como a Google é boa em arranjar publicidade e como os jornais em papel estão a reduzir vendas, o melhor seria a Google dedicar-se ao jornalismo.

Foi quando Andrew Grant-Adamson, do blogue
Wordblog, logo no mesmo dia, acrescentou que a Google pode ser a infra-estrutura mas deve deixar os jornais controlarem o conteúdo, a publicidade, a marca e o relacionamento com o exterior.

No momento em que escrevo esta mensagem, já existem 61 comentários à mensagem de Jeff Jarvis. Fico-me por um, o de
SteveGarfield, quando ele indica ter ouvido dizer que um grande jornal admitiu 60 programadores para desenharem o seu novo sítio. Se sim, ele acha que, na fase seguinte, o "fazer notícias" deve incluir a colaboração de blogueiros locais.

Trata-se, assim, de uma grande corrente de discussão e opinião: parece que os blogues voltam a ser uma ferramenta importante para o jornalismo.

13.7.08

OS FILHOS DAS CELEBRIDADES


Meio mundo dos media fala do nascimento dos filhos de Angelina Jolie e Brad Pitt, ontem à noite, em Nice: um rapaz, Knox Leon, e uma rapariga, Vivienne Marcheline. A família Brangelina, duas das mais badaladas celebridades actuais do cinema, tinha já quatro filhos: Maddox, 6; Pax, 4; Zahara, 3; e Shiloh, 2. O próprio presidente da câmara de Nice leu um comunicado em inglês, mostrando-se muito feliz por os nascimentos terem ocorrido naquela cidade!

As fotos dos bebés agora nascidos foram negociadas em exclusivo, indo o valor a pagar para uma associação de caridade.

NOTÍCIAS SOBRE LIVROS


Da leitura dos jornais de ontem, encontrei duas referências à indústria dos livros.

A primeira veio no Público, onde a propósito do iPhone Isabel Coutinho escreve que uma das razões que a vai levar a comprar um aparelho daqueles é para ler livros. Acrescenta que ficou convencida desde que viu o aparelho da Apple na Book Expo America há pouco tempo: "As páginas do livro são folheadas com toques de dedo para a esquerda e para a direita e é possível fazer pesquisa de palavras no texto". Além de que a Adobe está a trabalhar para a Apple iPhone, o que significa num futuro próximo ler o formato .epub nesses aparelhos. O tamanho da letra não se altera com a dimensão do ecrã onde se está a ler.

A segunda veio no Expresso, onde António Lobato Faria, administrador da editora Oficina do Livro, agora integrada no grupo LeYa, diz que uma editora só existe enquanto projecto empresarial: "uma actividade económica normal em que a comunicação e o marketing são elementos tão indispensáveis como a distribuição". Mas acredita igualmente na paixão do (pelo) livro.

HISTÓRIAS VÁRIAS


Nas Encruzilhadas do Romance Antigo: Espaços, Fronteiras, Intersecções é o tema do IV Congresso Internacional sobre Romance Antigo, a realizar na Gulbenkian (21 a 26 deste mês). O evento conta com a participação de especialistas como Simon Goldhill (intérprete da poesia grega, vindo da Universidade de Cambridge), Carlos García Gual, docente de filologia grega (Universidade Complutense de Madrid) e o escritor Steven Saylor, autor de contos sobre a Roma Antiga (informação retirada da Agenda Cultural Lisboa, número de Julho).

A Fábrica da Pólvora de Barcarena, construída no início do século XVII para o fabrico daquele tipo de explosivos, tem, desde 1994, uma outra função: espaço de cultura, lazer e educação. Ali funciona também a Universidade Atlântica. O Festival Sete Sóis - Sete Luas realiza-se ali (informação retirada da Agenda Cultural 30 Dias, de Oeiras, número de Julho/Agosto).

José Nisa, médico e autor de letras musicais, foi igualmente director de programas e administrador da RTP. Estava na RTP em 1977, quando lhe propuseram uma telenovela chamada A Gabriela. Diz Nisa: "A única coisa que dava para ter medo era ter 120 ou 150 episódios. E se não funciona"? O programa teve um sucesso que vem em todos os livros que se escrevem sobre o período. Então, Nisa teve outras alegrias, ao comprar Os Marretas, a Heidi e o Marco, parte da programação orientada para as crianças e em que Maria Alberta Menéres ajudou imenso (informação retirada da revista Os Meus Livros, de Julho).

A REPRESENTAÇÃO DAS MULHERES NOS MEDIA, COMUNICAÇÃO E IDENTIDADE SOCIAL


"A representação das mulheres nos media dos estereótipos e «imagens de mulher» ao «feminino» no circuito da cultura", de Maria João Silveirinha, no livro organizado por João Pissarra Esteves, é um artigo com uma estrutura exemplar.

A autora apresenta assim o problema: "quando a investigação fala em representações nos media é, com frequência, para denunciar, como falsos, os estereótipos construídos em torno de certos grupos ou indivíduos" (p. 103). O objecto de análise é a representação mediática das mulheres, tema a que Maria João Silveirinha vem dedicando muita atenção nos últimos anos, tipificada neste texto que resulta de uma sua permanência na Universidade de Glasgow, e em especial com Greg Philo, com quem a autora trabalhou.

Escreve Maria João Silveirinha que a contestação identitária dos estereótipos como representações mediáticas situa-se nos anos de 1960 em torno de raça, sexo e classe.

Depois da apresentação do problema, a autora e docente universitária (Coimbra) trata de definir a origem do termo estereótipo, associado ao de representação. Daí, percorrer nomeadamente Lippmann e o estereótipo (teoria dos efeitos), Adorno ( e o pouco material que ele dedica à análise da mulher; escola crítica), Tuchmann e a imagem da mulher (teoria construtivista), cultural studies (integrando o pós-estruturalista Foucault, com a sua multiplicidade e diferença) e o circuito da cultura (representação, identidade, produção, consumo, regulação).

Sem demonstrar particular atenção à análise de Adorno, vejo o destaque que ela dá em número de páginas (5,5 em 24). Já as representações no circuito da cultura despertam maior envolvimento (emocional e científico) (6 páginas). O CCCS foi um espaço de crescimento de estudos feministas, como Charlotte Brundson, Janice Winship e Angela McRobbie, entre outras. A imagem do feminismo tem inscrita uma dimensão cultural, que a autora deslinda (p. 118).

O modelo de circuito da cultura, que se encontra em Du Gay et al. (1997, Doing cultural studies: the story of the Sony Walkman), podemos igualmente ver na produção da Open University, Understanding Media, cinco volumes sob a responsabilidade da direcção de David Hesmondhalgh.

Deixo apenas duas frases do texto de Maria João Silveirinha:


  • A forma como a cultura é representada afecta o modo como é identificada (p. 122)
    O centro da pesquisa sobre a representação foi cada vez mais focado na questão de como os media representam, re-apresentam e constituem as identidades sociais (p. 125)
O texto de Maria João Silveirinha tem um lugar especial no livro organizado por João Pissarra Esteves (Comunicação e identidades sociais, Livros Horizonte, 2008), contando com textos de outros autores, para além do referido nesta mensagem e do organizador do livro, Gil Baptista Pereira, João Carlos Correia, Clara Roldão Caldeira, Lídia Marôpo e Maria Lucília Marcos, um conjunto de investigadores muito perto de João Pissarra Esteves (diversos deles fizeram investigação de mestrado e doutoramento com ele), numa linha próxima da teoria crítica de Habermas, alargada a temas como identidade, movimentos sociais, representação das mulheres, crianças e minorias sexuais, o nós face ao Outro e responsabilidade social.

12.7.08

NOTÍCIAS DO GRUPO GUARDIAN


Segundo notícia publicada ontem no sítio BoomTown, da jornalista Kara Swisher, o grupo britânico Guardian Media Group anunciou ter comprado a empresa paidContent, um sítio de informação sobre os media digitais, por 30 milhões de dólares.

A paidContent pertence à ContentNext e foi fundada pelo editor Rafat Ali em 2002. Tem escritórios em Santa Monica (Califórnia), e Manhattan (Nova Iorque). Com o slogan The Economics of Content (a economia do conteúdo), a paidContent foi pioneira no espaço online com reportagens de alta qualidade sobre os media online e a actividade digital desenvolvida pelas grandes companhias de media.

Ver todo o artigo em
BoomTown. No mesmo artigo, pode ver-se um vídeo que Kara Swisher fez a Rafat Ali há um ano.

CONFERÊNCIA SOBRE JOGOS DIGITAIS


A conferência Digital Games 2008, Conferência sobre Jogos Digitais (Conference on Digital Arts), vai realizar-se no Porto, nos próximos dias 6 e 7 de Novembro (ver http://www.digitalgamesgroup.org/cdg2008), com deadline de submissão a 19 Setembro 2008.

Segundo a organização:


  • Digital Games 2008 é um evento organizado pela comunidade portuguesa de jogos digitais - Digital Games Group. É a primeira conferência de uma série, que se deverá passar a efectuar anualmente, e pretende ser um encontro para promover a investigação e a indústria de jogos digitais em Portugal. Conta, para isso, com a participação de investigadores e profissionais da área de jogos digitais para divulgação de trabalhos e troca de experiências entre as comunidades académica e industrial.
    Este ano, a Digital Games 2008 realiza-se em conjunto com a ARTECH 2008 - 4th International Conference on Digital Arts, no Porto, a 6 e 7 de Novembro. O evento será mutidisciplinar, assim como o é a área dos jogos digitais, e procura contribuições em vários tópicos, desde a arte de desenho de jogos a aspectos da sua computação, assim como a reflexão crítica. A conferência procura submissões originais, de qualidade, encorajando a participação quer da comunidade industrial, quer da comunidade académica.

    Tópicos de interesse
    1) Design - Desafios, Mecânicas e Regras; Interfaces e Interacção; Ergonomia e Usabilidade; Estética de Jogos Digitais; Narrativa, História e Personagens; Arte e Design de Jogos Digitais; Experiência de Jogo e Entretenimento; Serious Gamming,
    2) Teoria - Efeitos Sociais, Culturais e Cognitivos; Teoria de Jogos; Comunidades dos Jogos; Modelos de Jogador; Jogos e outros Géneros: Cinema, Banda Desenhada, Artes Visuais, Música, Literatura, Publicidade,
    3) Indústria - Gestão de Projectos de Jogos Digitais; Postmortems; Plataformas: PCs, Consolas, Telemóveis, TV Digital Interactiva, Ferramentas de Desenvolvimento; Testes de Jogabilidade; Propriedade Intelectual; Distribuição; Oportunidades Nacionais,
    4) Computação - Computação Gráfica; Computação Afectiva; Inteligência Artifícial; Computação Móvel; Desenvolvimento Online; Realidade Virtual/Aumentada.

    Características dos artigos
    Os artigos podem ser escritos em Inglês ou Português, e não devem ultrapassar os limites definidos, incluindo todas as tabelas, figuras e referências. Full papers: 10 páginas, Short papers: 5 páginas, Demos: 2 páginas. Os full papers devem primar por serem inéditos e de relevância em termos de pesquisa teórica, empírica ou aplicada. Os short papers podem descrever pesquisas futuras, novas ideias ou estudos preliminares. As demos podem enquadrar pequenos protótipos que representem de algum modo um factor de inovação na área dos jogos digitais dentro dos tópicos de interesse da conferência. Todas as submissões devem seguir as normas das Lecture Notes in Computer Science (LNCS) (ver "Authors Instructions" em
    http://www.springer.de/comp/lncs/authors.html).
    Os trabalhos submetidos serão avaliados e seleccionados pela Comissão de Programa. Os trabalhos com melhor avaliação serão publicados em formato e-book com ISBN. Sistema de Submissão:
    http://www.easychair.org/conferences/?conf=digitalgames2008.

[informação a partir da lista da SOPCOM, Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação]

ELEIÇÕES SEM APOIO DE BLOGUES


A resolução Nº 22.718/08 do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) do Brasil restringiu a utilização da internet nas eleições deste ano naquele país. A propaganda eleitoral nos media digitais será permitida apenas na página do candidato destinada exclusivamente à campanha. Essa restrição do TSE inibe que os candidatos usem comunidades virtuais, blogues, grupos de discussão, links patrocinados, emails, Youtube e Second Life para divulgarem os seus nomes.

Ver mais informações em
Mídia Cidadã, do jornalista Michel Carvalho, de S. Vicente (Estado de S. Paulo, Brasil). Escreve Carvalho:

  • Ao contrário de outros países, o Brasil limitou a internet na campanha eleitoral a fim de evitar o abuso do poder econômico. Em tese, o postulante com mais recursos teria a possibilidade de construir uma grande rede virtual a seu serviço.
[obrigado a José Gabriel Andrade pela dica]

11.7.08

COMUNICAÇÃO POLÍTICA


Acaba de ser publicado o livro Estudos de Comunicação Política - Análise de Conteúdo da Mensagem na Campanha e Pós-Campanha Eleitoral nas Eleições Presidenciais, de Paula do Espírito Santo, docente do ISCSP (Instituto do Superior de Ciências Sociais e Políticas).

Para a autora, "A obra tem como cenário político o espaço da campanha e pós-campanha eleitoral, onde se destaca a análise de conteúdo de perto de 180 cartazes de eleições presidenciais em Portugal e em França. Esta linha-chave da investigação centra-se na análise de conteúdo do cartaz e do slogan enquanto veículos relevantes de comunicação política. Desta obra destaque-se ainda a análise dos debates televisivos dos candidatos a Presidente da República, nas eleições Presidenciais de 2007, onde se analisam alinhamentos dos conteúdos assim como as diferenças de comunicação entre canais televisivos, de modo a percepcionar objectivos de comunicação e enquadramento jornalístico".

AGENDAMENTO DE NOTÍCIAS

Comparado com os dias anteriores, o dia de hoje está mais calmo (leia-se: reflexivo) em termos de notícias de política.

Desde as eleições internas do PSD (principal partido da oposição, agora liderado por Manuela Ferreira Leite) até ontem (debate parlamentar do Estado da Nação), as notícias foram em crescendo de dramatismo, incluindo um estudo da SEDES, uma associação cívica com existência desde o começo da década de 1970. O agendamento (temas mais empregues nos media e nos meios políticos) surgiu dividido em dois. O primeiro, a identificação da crise económica e financeira interna, crise económica e financeira externa. Do lado do partido do governo (PS), defendeu-se a ideia que a crise interna está debelada e dos esforços se concentrarem na redução dos riscos quanto à crise externa, de que o governo não é responsável e não pode controlar a totalidade das variáveis (aumento dos preços dos combustíveis e dos produtos alimentares, bens importados). Do lado do PSD e da restante oposição à esquerda e à direita do PS no leque parlamentar, a acusação de que ambas as crises estão incontroláveis. O segundo tema de agenda foi o das obras públicas, que o PS considera importantes para rearrancar a produção industrial (comboio de alta velocidade, aeroporto de Alcochete, novas autoestradas) e que o PSD entende servir para aumentar a despesa pública (caso do TGV e das autoestradas).


O dia D era ontem, onde o debate parlamentar iria opor o novo líder da bancada parlamentar do PSD, Paulo Rangel, ao primeiro-ministro, José Sócrates. Os media, quer a televisão quer os jornais, apostaram muito neste embate, como se fosse um jogo desportivo, à espera da derrota de um ou de outro, estilo corrida de cavalos, como os investigadores dos media estudam e que, entre nós, Estrela Serrano também o fez. Objectivo: reduzir as ideias, as propostas daqueles políticos e dos outros parlamentares a um jogo de quem fica à frente ou ganha.

Vi o que a televisão mostrou ontem; comprei os jornais para ler hoje. Seleccionei três jornais: Público, jornal sério e de referência, Diário de Notícias, jornal sério e de qualidade com uma tendência para popular, e Correio da Manhã, jornal popular. As capas dos três estão acima, observando-se que o Correio da Manhã não dá qualquer informação, de modo oposto ao dos outros dois. Público e Diário de Notícias dividem quase igualmente os destaques ou manchetes por dois assuntos: discussão do Parlamento, com referências a Sócrates, e venda do iPhone em Portugal.

Entrando dentro dos jornais, o primeiro grande destaque do Correio da Manhã é precisamente a discussão do Estado da Nação (duas páginas, com quatro fotos dos líderes do PS, PSD, CDS e BE), a que se segue a sua manchete (Quique Flores, treinador do Benfica, ameaça sair). No espaço dedicado à política, as duas páginas dividem-se em sete notícias e uma coluna de citações, espaços muito próximos do modelo da internet, com cor nas fotografias e notícias curtas. Informação muito equilibrada, fica em três linhas a ideia que a prestação do novo líder parlamentar do PSD não convenceu.

O Diário de Notícias dedica cinco páginas, com textos jornalísticos e comentários (João Lopes, António Costa Pinto, Francisco Almeida Leite), num total de 14 peças jornalísticas e 7 jornalistas em acção, o que dá conta do esforço de informação do jornal. Além da referência aos principais pontos das medidas preconizadas pelo primeiro-ministro, o Diário de Notícias anota igualmente as posições dos partidos e a posição das empresas de combustíveis, alvo de um novo imposto. Os textos dos jornalistas são, a meu ver muito isentos, citando as ideias mais importantes dos discursos dos vários líderes parlamentares. Já os textos dos comentadores são subjectivos, no sentido de considerarem que o dirigente do PSD não saiu a ganhar.

O Público dedica quatro páginas com trabalhos de seis jornalistas, num total de seis textos. Mais à frente, na coluna do editorial, o director escreve sobre e contra Sócrates. Como nos outros jornais, neste jornal há, dentro de uma caixa, informação sobre as principais medidas anunciadas pelo poder. Os textos assinados pelos jornalistas são, como nos outros dois jornais, muito equilibrados e isentos, embora uma das peças indique, com base num comentário de dirigente do PS, que a saída da sala de parlamentares do PSD queria dizer que estes não teriam gostado da intervenção do seu líder. "Desalinhado" com o distanciamento dos jornalistas, o director usa a prerrogativa dos comentadores do Diário de Notícias mas, ao invés destes, toma uma posição diferente, de oposição ao primeiro-ministro, falando em demagogia na medida de imposto sobre as empresas que vendem combustíveis e pedindo para este concretizar melhor as medidas anunciadas.

Sem contar com o Correio da Manhã, que não tem comentadores sobre a matéria, o que mais importante foi dito nos jornais reside nos comentadores, pois são marcas de água (ideológicas, se quisermos). Não obrigados à objectividade dos jornalistas, mostram para que lado pendem. E, nesta minha leitura, o Diário de Notícias está mais próximo do PS e o Público do PSD (ou da oposição em geral).

REVISTAS DE SOCIEDADE, COR-DE-ROSA OU DE TELEVISÃO


Um take da Lusa veiculado ontem indica que a comissão parlamentar de Ética, Cultura e Sociedade pediu à ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social) que "analise as revistas de sociedade por considerar que põem frequentemente em causa direitos à imagem e intimidade, defende num parecer aos relatórios de regulação do sector" (retirei o texto do jornal Público online).

Estas publicações fazem com muita assiduidade artigos e imagens atentatórias da vida pessoal e familiar de personalidades (políticas, do mundo das artes e dos espectáculos), causando danos muito elevados no seu bom nome.

TELEVISÃO - A COMPANHIA DOS MAIS VELHOS


Para a Marktest Audimetria/MediaMonitor, no primeiro semestre de 2008, cada português viu 3 horas, 37 minutos e 26 segundos de televisão em média por dia e em casa.

Tal valor sobe para indivíduos com mais de 64 anos de idade, atingindo a média de 5 horas, 30 minutos e 51 segundos!


Para saber mais dados sobre este tópico, ler
Marktest.

ECONOMIA DA CULTURA NA UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES (RIO DE JANEIRO, BRASIL)

JORNALISMO


Foi agora distribuído o número 34 da revista Jornalismo & Jornalistas (Abril/Junho). Destaco o tema principal, a imprensa gratuita, e a entrevista de Michael Schudson.

Sobre a imprensa gratuita, Helena de Sousa Freitas (Lusa) começa por ouvir os directores daquele tipo de jornais. Um deles disse: "as grandes cidades têm hoje um conjunto de pessoas activas com um poder de compra bem inferior ao que seria desejável". Outro acrescentou: "A vida acelerada dessas pessoas não lhes permite ler jornais com tanta profundidade". E um responsável por um dos jornais concluiu que os jornais pagos não se moldaram "à evolução de uma sociedade em que o ritmo de vida das pessoas durante a semana é incompatível com páginas e páginas de notícias demasiado longas". Posição contrariada por um dos directores: "julgo que sobreviverão sempre os jornais pagos que acrescentarem o comentário, a análise cuidada e aprofundada, a reportagem no local, a opinião".


A jornalista escreve também sobre os projectos que se goraram. Um responsável por um destes projectos falhados desabafa que faltou "uma estrutura muito forte na área comercial", havendo necessidade de "existir um grande grupo por detrás", reflecte outro interveniente no sector. O que significa que a publicidade é fundamental para a criação e manutenção dos gratuitos.

Estão aqui, se quisermos, os principais argumentos presentes na discussão entre jornais pagos e gratuitos. Os directores destes últimos têm consciência dos limites dos seus jornais, como os responsáveis dos pagos também sabem o que corre bem e o que corre mal nas suas empresas.

Do conjunto de peças assinadas por Helena de Sousa Freitas, a minha atenção foi ainda para uma entrevista com João Vieira, que escreveu uma tese (presumo de licenciatura) sobre os jornais gratuitos e o contributo para a leitura. Vieira entende que os gratuitos transportam uma informação complementar, proporcionando uma leitura rápida dos principais acontecimentos da actualidade em tempos mortos (viagens casa/trabalho e de retorno), mas não dispensam leituras aprofundadas nos media mais clássicos (televisão, jornal, internet).

10.7.08

AMANHÃ É DIA D

O IPHONE.

PUBLICIDADE A BEBIDAS



[algumas imagens foram acrescentadas em 22 e 25 de Julho de 2008]

TV GLOBO E AS CIBERPESQUISAS DO CENTRO DE CIBERCULTURA DA UNIVERSIDADE DA BAHIA (BRASIL)


Foi no passado sábado (5 de Julho) que o programa Globo Universidade, da TV Globo, destacou as pesquisas do Centro de Estudos e Pesquisa em Cibercultura - Ciberpesquisa da Universidade Federal da Bahia (UFBA), com a participação do coordenador do Centro e do Grupo em Cibercidades, André Lemos, e Macello Medeiros, Karla Brunet e Fernando Firmino. São quatro matérias-entrevistas. Ver mais em Jornalismo & Internet. Blog do GJOL (ver vídeo em Globo.com).

A SOCIABILIDADE DA RUA


Tim Sieber, antropólogo americano, veio a Lisboa pela primeira vez em 1995, começando a familiarizar-se com os estudos antropológicos sobre cidades e ruas portuguesas e do sul da Europa.

Para ele, há abordagens específicas norte-americanas e dos países do sul da Europa no respeitante às cidades. Os estudos norte-americanos sempre se mantiveram alheados da análise das ruas, pois a sociabilidade emanada delas era ligada não à burguesia ou classe média mas às classes na base da pirâmide social, os pobres e a classe operária, sem falar de migrantes (raça ou etnia). Por exemplo, o sociólogo Elijah Anderson escreve sobre pessoas decentes e de rua, significando estas últimas os negros, o tráfego de droga e a polícia. Por seu lado, Richard Sennett entende que a família é uma fortaleza contra a esfera pública, criando uma ecologia social em que imigrantes, minorias e pobres habitam o centro histórico das cidades e as classes média e alta se refugiam em subúrbios dentro de condomínios fechados (gated communities).

Na Europa, e sobretudo em Portugal, a rua significa interacção, sociabilidade e integração. Sieber segue outros investigadores, destacando a heterogeneidade social no espaço público e nos bairros residenciais. Um desses estudos pertence a Graça Índias Cordeiro sobre as Escadinhas da Bica, onde a rua é um ponto estratégico de encontro e de observação. Tal explica, ou está por detrás de, a riqueza da taxinomia das ruas e vias públicas – becos, calçadas, escadas, escadinhas, travessas, praças, largos, pátios, ruas, avenidas e alamedas.

Sieber estuda textos clássicos sobre turismo em Lisboa. Fernando Pessoa escreveu O que o turista deve ver (1925), Norberto Araújo Peregrinações em Lisboa (1938-1939), José Saramago Viagem a Portugal (1985), este com 15 páginas dedicadas a Lisboa. Mas nenhum deles mostrou a cidade povoada por lisboetas, preferindo falar do património construído.

Quem aborda as ruas e as pessoas que lá se cruzam não são os escritores mas sociólogos, antropólogos e geógrafos. O que leva Tim Sieber a falar da rua onde viveu em 1998, à Alfama, onde descreve os moradores, as profissões, a memória que têm da rua e até um cão, o Péri. Apesar de pequena, a rua era um espelho da diversidade de Lisboa. Um espaço público como a rua é uma espécie de sala de visitas pública, um espaço flexível, uma variedade de actividades.

Por oposição, Tim Sieber fala da Expo’98 e da distinção de espaço público e privado, com um controlo social acentuado: os pobres, os trabalhadores, os velhos e as pessoas do campo estiveram excluídas do programa de actividades da Expo’98 assim como da habitação. Descreve até as barreiras naturais dessa zona habitacional, a completar até 2010, face a Moscavide e Prior Velho, por ausência relativa de rede intermediária de ruas.

O autor lembra as críticas a cidades planificadas como Brasília, em que os planos formais procuraram evitar a vida de rua. Contudo, 75% dos actuais residentes de Brasília vivem em espaços construídos pelo esforço popular fora das zonas planificadas. E Sieber conclui do seguinte modo: se as ruas estão vedadas às pessoas, elas acabam por criá-las.


Leitura: Tim Sieber (2008). "Ruas da cidade e sociabilidade pública: um olhar a partir de Lisboa". In Graça Índias Cordeiro e Frédéric Vidal (org.) A rua. Espaço, tempo, sociabilidade. Lisboa: Livros Horizonte, pp. 47-62

9.7.08

LINKS - UM TEXTO A NÃO PERDER


Este do Público de hoje, assinado por Paulo Querido.

Uma curta citação: "«O verdadeiro valor nesta equação não é o conteúdo ou a informação - ambas a caminho de se tornarem commodities - mas os links, que são a nova moeda dos media. Os links podem ser explorados e monetarizados. O conteúdo está a tornar-se uma carga, aquilo que temos de ter para obtermos links, mas em si mesmo o conteúdo não gera valor, precisa de uma audiência, isto é, precisa dos links»."

Para além de bem escrito e de conter informação a estudar, destaco o facto do artigo ser assinado por Paulo Querido, que durante anos nos habituou a ser lido no Expresso. Se está como freelance no Público é um bom sinal: este jornal passa a ter mais um expert nestas matérias.

SOBRE O TEATRO


O Público tem proporcionado vasta leitura sobre as polémicas do teatro (e da Cinemateca).

Primeiro foi o texto de João Bénard da Costa, director da Cinemateca, artigo fino sobre a antiga ministra da Cultura, a propósito de um abaixo assinado a correr no Porto e a pedir a existência de uma cinemateca naquela cidade. Foi um texto a desancar na ex-ministra, logo seguido pelo do crítico de cinema António Roma Torres, a dizer que assinara o documento mas se demarcava de Isabel Pires de Lima. O texto mais assombroso viria pela pena de Luís Miguel Cintra, director do teatro Cornucópia.

A polémica estava instalada. Em dois dias seguidos, surgem artigos assinados por Isabel Pires de Lima e por Mário Vieira de Carvalho, secretário de Estado à altura daquela. Se Pires de Lima se apresenta como uma espécie de Maria Papoila, uma provinciana que chega à cidade e se encanta com os progressos da mesma, num texto de uma grande ironia, Vieira de Carvalho tem uma atitude muito mais intelectual e usa as palavras de modo mais assertivo.

Não gostei do mandato de Isabel Pires de Lima (e disse-o aqui). Mas Luís Miguel Cintra não sai bem desta pintura: se o Estado subsidia inclusive o aluguer do teatro Cornucópia e Cintra não gosta de ter o teatro cheio porque isso quer dizer teatro comercial, sinto que o dinheiro dos contribuintes não está a ser bem gerido (embora eu goste de ver as peças levadas a cena no teatro de Cintra).

Estava esta polémica a acabar e surge logo outra, com Diogo Infante, que se despede do Municipal Maria Matos e é indicado como director do Nacional D. Maria II. Uma promoção a merecer no "sobe e desce" do Público uma seta para cima. Mas, nesta situação, há coisas que não compreendo. Se o municipal não tem dinheiro e o actor/director salta para o nacional, significa que este tem dinheiro? É porque o município tem as contas sem controlo e precisa de poupar? E o país também não está com problemas de ordem financeira? E por que é que as autoridades (como o ministério da Cultura) não falam sobre se Infante vai ou não vai para o teatro nacional? Sabe-se primeiro pelos jornais? O poder político deixa-se ultrapassar e permite alimentar boatos?

Conclusão: as instituições perdem seriedade com estas demoras e inexactidões. Por mim, punha Diogo Infante com uma seta para baixo, e Luís Miguel Cintra também. Já a antiga ministra ficava com uma seta horizontal, pois não adiantou nem arrefeceu. E de Bénard da Costa espera-se que ele regresse de férias para voltarmos a ler as páginas encantadas que ele sabe preencher (mas sem polémicas, que perde peso).

OUTRAS PAISAGENS URBANAS DE BRASÍLIA


O Fernando Paulino ("correspondente" do Indústrias em Brasília) tinha-me avisado: o blogue http://www.umaoutrabrasilia.blogspot.com/ é mesmo "Uma outra Brasília". Fui lá espreitar e confirmei: o blogue de Usha Velasco mostra o Sector Comercial Sul, onde o nome do bar (Maracutaya Drinks) e a figura dos três macaquinhos são puras corruptelas, onde os chupa-chupas e rebuçados e chocolates são a perdição dela, que, entretanto, ouve e se diverte com Sivuquinha, que dá aulas de acordeão na Escola de Música. Escreve a Usha: "Piauiense, há 34 anos em Brasília, ele é pianista, sanfoneiro e um doce de pessoa".

Além disso, ela dá conta das gentes e das paisagens, da sua casa na Asa Norte, com muitas árvores à frente da sua janela, dos automóveis antigos e das suas chinelas, num registo simultaneamente profissional e intimista. Onde se descobre que há um lado popular na cidade moderna que nos é mostrada das fotografias.


8.7.08

CAFÉ EM ÉVORA


O Intensidez BiblioCafé fica na rua Escrivão da Câmara, 10/10 A, em Évora.

Na sua promoção, fica a perceber-se que abriu há dias, mais precisamente no dia 4. E lê-se:

  • quem veio por força do querer saber, quem esperava o há tanto anunciado: o lugar dos livros e um lugar para quem deles gosta; o lugar da quietude, para desfolhar histórias inteiras em amena e serena conversa; o encontro das outras artes, como a do café, a do vinho, da gastronomia... a da música, a da imagem, sei lá... todas elas, as dos prazeres íntimos, vividos a um ou a dois, entre amigos. O edifício, de natureza industrial, com registos documentados de finais do século IXX, situa-se no centro histórico da cidade de Évora, classificada como património mundial, pela UNESCO, ocupando uma área de perto de 200 m2, em piso térreo, dividida por duas salas, a primeira ampla e a segunda recatada e intimista.
Propõe-nos: tertúlias literárias, recitais de poesia e concertos, café-teatro, bailado e dança Contemporânea e muito mais. Ainda não há fotografias do local e das realizações.

Boa sorte! Quando formos a Évora, procuraremos logo a rua Escrivão da Câmara.

SALA-ESTÚDIO EM BEJA


Em Beja, o grupo arte pública prepara uma sala-estúdio para artes performativas.

Após 17 anos de actividade nos domínios das artes performativas, criação dramatúrgica, formação de públicos, técnicos e agentes culturais, dinamização comunitária e organização de Ciclos Temáticos e de Encontros de Criatividade, ligados à autarquia, o grupo arte pública decidiu avançar com casa própria, um antigo armazém no centro de Beja (não tenho mais pormenores do local).


Entretanto, Gisela Cañamero, a animadora de arte pública, coloca no seu blogue imagens de
Lana Slezic, fotógrafa croata que nos dá imagens impressionantes do Afeganistão.

TEATRO NA CASA MUSEU DE LEAL DA CÂMARA (SINTRA)


"Assista pela primeira vez em Portugal a uma iniciativa inédita, que vai levar o público a percorrer a Casa Museu Leal da Câmara durante a noite, na tentativa de descobrir o autor de um homicídio. Em plena década de 20, num animado serão no Casal Saloio, alguém será brutalmente assassinado", diz a organização do espectáculo. Nos dias 11, 12, 17 e 18 de Julho e 4, 5, 6, 11, 19, 20 e 27 de Setembro, pelas 21h30.


O Espaço Reflexo é uma casa situada no centro de Sintra (na rua pedonal paralela ao C.C. Olga Cadaval) e gerido por REFLEXO - Associação Cultural e Teatral. O principal objectivo da associação "é arranjar meios para permitir que a arte que se faz em Portugal possa respirar, abrindo as portas a novos criadores das mais diversas áreas, para que tenham a oportunidade de se expressarem artisticamente".

Com autoria e direcção de Michel Simeão, produção executiva de Ana Custódio, caracterização de efeitos especiais de Paula Dionísio, figurinos e adereços de Mónica Pedroto e elenco constituído por Ana Paula de Carvalho, Diogo Trabuco, Helena Madeira, José Gonçalo Pais, Lavínia Roseiro, Marta Osiecka e Michel Simeão. Ver mais em Espaço Reflexo.

SOBRE OS OBSERVATÓRIOS DOS MEDIA


Concepción Travesedo (2007) segue as palavras de María Patricia Téllez:
  • Os observatórios pretendem realizar uma reflexão aberta, gerando espaços públicos de discussão sobe temas de interesse, envolvendo jornalistas, académicos e investigadores, em diferentes sectores e organizações públicas e privadas (empresários, anunciantes, realizadores, publicistas), sobre temáticas e problemáticas que constituem a esfera pública comunicacional da democracia, aspecto que na conjuntura cobre especial importância.
Os principais elementos a constituir um observatório são:

1) reconhecimento da importância que a comunicação e os media têm na consolidação da democracia moderna,
2) percepção que os profissionais dos media estão numa situação crítica de submissão económica e ideológica,
3) intenção de moldar um público mais crítico, activo e participante enquanto consumidor dos media,
4) exercício regular e sistemático de monitoragem e seguimento dos media,
5) formulação de novas práticas, estilos e conteúdos,
6) exercício de uma pedagogia crítica relativa ao consumo dos media, através da internet, publicações, revistas, boletins, congressos e conferências,
7) elaboração de estudos, relatórios e análises comparativas,
8) criação de redes de articulação e intercâmbio.


Há observatórios especializados (pouco habituais) e observatórios que monitorizam múltiplos temas, tais como liberdade de expressão e de imprensa, direito da comunicação, ética, responsabilidade jornalística e dos media, qualidade informativa, direito ao livre acesso à informação, pluralismo e luta contra a concentração, participação cidadã e democratização da comunicação, defesa da vida íntima pessoal e eleições.

Em termos de origem e composição social, há observatórios vinculados a: 1) pessoas da profissão, académicos da comunicação ou jornalistas, 2) sociedade civil, 3) misto da sociedade civil e profissionais.

As metodologias empregues são sondagens, inquéritos, análise de conteúdo, estudo do discurso e narrativas, aplicadas a análises de rádio, televisão, revistas, imprensa, internet e cinema.


Leitura: Concepción Travesedo (2007). "Observatorios de medios". In Bernardo Díaz Nosty (dir.) Tendencias ' 07. Medios de comunicación. El escenario iberoamericano. Madrid: Fundación Telefónica, pp. 236-239

7.7.08

CONFERÊNCIA INTERNACIONAL SOBRE MEDIA E DESPORTO


A Conferência International sobre Media e Desporto promovida pelo Centro de Estudos de Comunicação e Cultura (Universidade Católica Portuguesa), marcada para 22 e 23 de Janeiro de 2009, analisará as representações desportivas nos media, dentro de perspectivas como a semiótica, a linguística e a sociologia.

Se quiser apresentar uma comunicação, envie um resumo (até 200 palavras) e um curto CV para media-and-sports-cecc@lisboa.ucp.pt até 15 de Setembro (o prazo foi alargado, pelo que não se deve considerar a data indicada no cartaz).

Comissão organizadora: Maria Clotilde Almeida, Rogério Santos, Rita Figueiras e Paula Órfão. Keynote speakers: Joachim Born (University of Giessen) e Richard Giulianotti (University of Durham).

JORNALISMO

  • O ideal é [o jornalista] ser o mais independente possível, mas a vida está longe de ser um ideal. O jornalista é alvo de muitas e diversas pressões para escrever o que o patrão quer que ele escreva. A nossa profissão é uma luta constante entre o nosso sonho, a nossa vontade de sermos completamente independentes e as circunstâncias reais em que nos encontramos, que nos obrigam a ser, ao invés, dependentes dos interesses, dos pontos de vista e expectativas dos nossos editores.
Ryszard Kapuściński (2008). Os cínicos não servem para este ofício. Lisboa: Relógio d'Água, pp. 40-41
  • de entre as actividades humanas, os meios de comunicação são os mais manipulados, na medida em que são instrumentos para influenciar a opinião pública e podem ser usados de várias formas consoante quem os gere. Existem diversas técnicas de manipulação. Nos jornais, podemos fazer uma manipulação através do que decidimos pôr na primeira página, do título que escolhemos e do espaço que damos a um acontecimento.

Idem, pp. 42-43

De Os cínicos não servem para este ofício, ressalto as páginas sobre o jornalismo (uma espécie de teoria sobre) (pp. 26-31), sobre a África (pp. 49-59), o diálogo com o escritor e crítico de arte John Berger (a partir da p. 65), em especial a sua análise sobre o desaparecimento dos camponeses e a postura - para ele negativa - das ONG humanitárias (pp. 74-77).

A editora Campo das Letras publicou alguns dos livros deste jornalista polaco falecido o ano passado: Mais um dia de vida - Angola 1975, O imperador, O império, Ébano - febre africana. Gostaria de ler La prima guerra del football e altre guerre di poveri (título em italiano retirado do livro de que fiz duas citações).

GÉNEROS JORNALÍSTICOS NOS MEDIA DIGITAIS


Gêneros emergentes no jornalismo digital: ensaio sobre a tipologia da notícia em sítios eletrônicos, de Thaïs de Mendonça Jorge, é um dos textos da Revista Científica de Comunicação Contra&Dição, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Brasil), no seu volume I.

Do resumo, retiro o seguinte:

  • O gênero jornalístico é fenômeno histórico e social integrado aos chamados cibermeios, configurando nova economia da escrita. Com base em pesquisa nos sítios eletrônicos uol.com.br e clarin.com, maiores portais em língua portuguesa e espanhola, este artigo estuda os gêneros que estão surgindo nas páginas noticiosas da rede mundial de computadores. Entre os tipos de notícia encontráveis, nem todos são novos. Há os que estão em transformação, os que se mantêm e os que passam por uma reciclagem. O relato colocado na página eletrônica, com recursos multimídia, seria apenas uma notícia ou o nome tornou-se inadequado? Examinando o jornalismo na internet a partir dos sítios eletrônicos brasileiro e argentino, o argumento principal é o de que a notícia está em processo de desenvolvimento, conseqüência da mutação que outros gêneros também sofrem ao se adaptar ao meio digital.

O texto completo pode ser lido aqui.

6.7.08

TÃO PERTO / TÃO LONGE


O projecto de António Pinto Ribeiro, ontem apresentado em primeira sessão, consistiu no convite para realizadores fazerem curtas-metragens onde realçassem a memória das coisas, agora que vivemos imersos na globalização, onde a homogeneidade acaba com a diferença.

Ontem, foram mostrados os primeiros sete filmes, esperando-se para finais de Outubro a mostra total de vinte filmes encomendados. Se o gosto pessoal elege uns em detrimento de outros, posso afirmar que todos eles transportam belíssimas imagens e histórias espantosas da riqueza da criação humana.

Os sete cineastas apresentados são Roxana Pope (A burka vermelha, Irão), Tiago Hespanha (O presente que veio de longe, Portugal), Dan Oki (La cravate à la Croate, Croácia), André Godinho (Namban Japan, Portugal), Margarida Cardoso (O código da vida de A. Montrond, Portugal), Vincent Maloi (Herero dresses, África do Sul) e Svetlana e Zoran Popović (The brass souls of our ancestrors, Sérvia).

Traço a sinopse de dois desses filmes de curta duração, o primeiro de Tiago Hespanha, que conta a história do cavaquinho, instrumento musical que viajou da madeira até às ilhas do Havai, rebaptizado de ukulele e tornado instrumento fundamental da música daquelas paragens. O segundo é o de Margarida Cardoso, que narra a ida de um conde francês Armand de Montrond para a ilha do Fogo, em Cabo Verde, onde deixou uma vasta descendência identificável por ser de pele negra mas cabelos e olhos claros.

LOJAS DE MILÃO


Lojas de Milão (gentileza de PCS) [observação: para ouvir o tema de Mariah Carey, clicar no ícone de altifalante ao lado da palavra Slide; para deixar de ouvir, clicar de novo no mesmo ícone].

HISTORY OF PORTUGUESE CINEMA


A short piece of Carlos Capucho' presentation on the history of Portuguese cinema (July, 2008).

5.7.08

GOOGLE - ASPECTOS OPERACIONAIS


Na passada quinta-feira, ouvi Paulo Barreto, director-geral da Google Portugal, falar no ciclo Conversas na aldeia global, promovido pela Câmara Municipal de Oeiras e moderado pelo jornalista Vasco Trigo.

Os produtos mais conhecidos da Google são: motor de pesquisa, correio electrónico Gmail, Google News, Blogger (onde este blogue está alojado), Picasa (fotografias), iGoogle, Google Earth, YouTube. A Google, a comemorar dez anos no próximo mês de Setembro, tem mais de quatro mil engenheiros em vários escritórios do mundo, dedicando cerca de 70% a melhorar o motor de pesquisa e o restante tempo a outros produtos e projectos, num total de quase 15 mil empregados. Muita desta gente está ligada à área de vendas, como acontece com o escritório português.

Apesar de produtos conhecidos como o YouTube ou o Gmail, as pessoas lembram-se do motor de pesquisa quando se lhes pergunta o que é o Google, como demonstrou um pequeno vídeo apresentado pelo moderador da sessão, onde se questionaram pessoas sobre a empresa.

Enorme agregador de informação, a saúde financeira da Google reside na publicidade. Atente-se na página da Google: o lado esquerdo do ecrã contém a indicação da palavra pesquisada, no topo superior, e informação de relevância no resto do lado esquerdo, mas incluindo já publicidade, que se estende ao lado direito da página. Os anunciantes pagam por cada clique feito no anúncio, valor definido pelo próprio cliente. A Google considera que quando um visitante clica no anúncio é porque ele está interessado, pois passou por um filtro anterior: o interesse no assunto. Para o anunciante, a publicidade gera vendas mas também contactos e uma base de dados. Uma empresa como a Google vende nomeadamente produtos relacionados com turismo, financeiros e retalho (bilhetes de avião e créditos à habitação, por exemplo).

Mas a Google está a dedicar maior atenção aos negócios associados ao telemóvel, nomeadamente conteúdos. Por exemplo, 85% da música digital comprada no Japão é destinada a telemóveis. Além da música, o consumo de televisão no telemóvel está a crescer bastante.

Em resumo, a Google aposta naquilo a que se chama a nuvem computacional, tudo o que diz respeito a produtos e aplicações na internet. Para os clientes individuais, todos os produtos são gratuitos (as empresas podem pagar 50 euros por utilizador e por mês se precisarem de caixas de correio de maior dimensão). A Google tem uma cota de mercado na ordem de 80% a 90% nos países ocidentais e 20% na China (aqui há operadores locais muito fortes).


Questões éticas (privacidade de dados) e responsabilidade social (investimento em energias alternativas, projecto acarinhado pelos fundadores da Google, Sergey Brin e Larry Page) foram temas suplementares dessa conversa de quinta-feira à noite.

4.7.08

O AUTOCARRO DA SELECÇÃO PORTUGUESA DE FUTEBOL


A Mala-Posta Inglesa e o Autocarro da Selecção é o título da comunicação de Eduardo Cintra Torres apresentado no congresso da SOPCOM, realizado em Braga entre 6 e 8 de Setembro de 2007. As actas do congresso foram agora publicadas.

O texto de Eduardo Cintra Torres


  • compara dois textos separados entre si 155 anos: o ensaio literário The English Mail-Coach, de Thomas De Quincey (1849), recordando a difusão pelas diligência do correio inglês das notícias das vitórias militares contra a França na Guerra Peninsular e Waterloo, e a transmissão televisiva em directo da viagem da Selecção Nacional de Futebol a bordo de um autocarro entre Alcochete e o Estádio da Luz, em Lisboa (RTP1, 04.07.2004). Aproxima os dois textos a singularidade da deslocação de um veículo simbolizando a grandeza da nação através de uma multidão que, também ela, representa a mesma nação na sua apresentação mediática. Ambos os textos se servem de um símbolo totémico efémero (a mala-posta/o autocarro) e de um símbolo colectivo também efémero (a multidão) para representar a fusão ao mesmo tempo temporal e atemporal entre o colectivo e uma ideia de pátria".
Mais à frente, continua Eduardo Cintra Torres:

  • As imagens da emissão mostraram o «cordão humano» ao longo do percurso onde foi autorizado e o entusiasmo genuíno ainda antes de o autocarro sair da Academia e até se dirigir ao Estádio da Luz. Em alguns momentos, a presença, a alegria dos manifestantes, as cores e o movimento das pessoas, bandeiras, cachecóis e bandeirolas, bem como a singularidade dos apoios, que incluíram cavaleiros, um desfile de motards, os helicópteros, asas delta, kite surf, dois aviões acrobáticos, «muitos carros parados na Ponte» e barcos acompanhando o percurso no Tejo, esse conjunto forneceu imagens inéditas e de grande vivacidade, cor e som.
Imagens do autocarro da selecção portuguesa de futebol e fãs a empurrarem-no também entraram no mais recente campeonato de futebol europeu, nomeadamente na publicidade de um patrocinador directo, promovendo energia alternativa. Cenas que se repetem com um grande vigor!

Para ver o texto com uma maior dimensão clicar no símbolo de SlideShare e clicar, de novo, no ícone "ecrã total".




CURSO DE MUSEOLOGIA NO PORTO


O Curso de Especialização em Museologia (equivalente ao 1º ano do ciclo de estudos em Museologia conducente ao grau de Mestre, segundo o processo de Bolonha / em fase de aprovação) vai arrancar na Faculdade de Letras da Universidade do Porto a partir de 15 de Setembro (Departamento de Ciências e Técnicas do Património – FLUP, Via Panorâmica, s/n Porto, com o email dctp@letras.up.pt.

Abrange áreas como: museu, colecções, conservação, exposições, serviços educativos, novas tecnologias, arquitectura, desenvolvimento, parcerias, criatividade e património (para ver melhor a imagem seguinte clicar no símbolo de SlideShare e voltar a clicar em ecrã cheio).


3.7.08

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA


A Exposição Por Ser de Lá, dos repórteres fotográficos Teotônio Roque e Andrea Gurgel, patente na Livraria Círculo das Letras (Rua Augusto Gil, 15 B, Lisboa), mostra um pouco da mistura da cultura potiguar (do Rio Grande do Norte, Brasil).

CITEMOR


Para ver em tamanho real o programa no ficheiro abaixo deste texto, clicar no símbolo SlideShare e, depois, carregar no ícone de ecrã inteiro.

JOSÉ PEDRO CORTES


Like an empty yard (II), de José Pedro Cortes, inaugura dia 5 de Julho, pelas 18:00, no Módulo - Centro Difusor de Arte, Calçada dos Mestres 34a (a Campolide), em Lisboa. Trata-se de um "conjunto de imagens que se foca na relação entre a paisagem urbana, que está distante, e a intimidade das relações pessoais".

SE NÃO ESTÁ NA INTERNET NÃO EXISTE

  • Nos anos mais recentes, dei-me conta de uma tendência - em vez de ter uma lista de livros citados, comecei a ter trabalhos [de alunos] citando listas contendo apenas um número de endereços URL de páginas de internet supostamente sem autor. Claro que as páginas tinham realmente autor, e alguns autores estavam indicados no fim da página, mas poderia haver um problema de correr todo o texto até ao fim da página, em especial depois de se ter tirado um bocadinho de informação nas primeiras linhas do início da página. Assim, os estudantes conceberam aquelas páginas como vindas simplesmente do éter da internet, como maná vindo do céu. E, uma vez que tinham procurado em seis sítios, declaravam a pesquisa concluída. Em nenhum momento se tinham aventurado a procurar na biblioteca ou sujado as mãos tocando aqueles documentos arcaicos a que os professores dinossáuricos chamavam "livros".

    Por isso, mudei a minha avaliação. Aos estudantes exige-se agora que usem pelo menos três livros e cinco artigos de jornais [científicos] que sejam relevantes para os seus trabalhos. A eles exige-se que tragam os livros e os artigos para a aula numa espécie de mostra e fala sobre eles. Eu exijo que eles demonstrem fisicamente o que fizeram na biblioteca e porque trouxeram os livros. Não os posso forçar a ler os livros, mas tendo o trabalho de os requisitar na biblioteca e atravessar o campus, julgo que há a possibilidade de, enquanto navegam na internet, abrirem um ou dois livros, com a consciência de que fizeram alguma coisa.
Extracto retirado de: Mark Perlman (2006). "If it isn't on the Internet, it doesn't exist. How the new generations view books as archaic relics". In Bill Cope e Angus Phillips (ed.) The Future of the Book in the Digital Ages. Oxford: Chandos Publishing, pp. 20-21. Mark Perlman é professor do departamento de Filosofia e Estudos Religiosos da Western Oregon University (Estados Unidos).

2.7.08

VIDA OU MORTE DO LIVRO?

Fiquei a pensar quando li o seguinte em A Photo Editor, de Rob Haggart (mensagem de ontem):

  • Penso que li o suficiente nas revistas sobre o kindle [aparelho electrónico de ler livros], no mês passado, para perceber que numa economia periclitante, com preços de petróleo a subir e uma mudança fundamental no modo como interagimos com o texto, se aproxima a morte do livro em papel. De todo o modo, parece começar a ser ridículo que aqueles livros que deitamos fora (eu não sei o número de livros vendidos mas devem aproximar-se dos 70% não vendidos, a exemplo das revistas, o que dá toneladas de lixo) ou guardá-los em armazéns ou nas nossas prateleiras acumulando pó (tradução minha).
Será que Jeff Gomez, como escrevi anteontem, tem razão? Ou é mais defensável a atitude de John B. Thompson - de maior abrangência, porque há mais produtos além do livro -, como escrevi ontem?

Obrigado a Carlos Filipe Maia, por me ter dado a conhecer o blogue acima identificado e a consequente posição sobre o livro.

ESCOLHER A CAPA DE UMA REVISTA


Retiro o começo da mensagem e a imagem do blogue A Photo Editor, de Rob Haggart, director de fotografia (mensagem dele de 24.6.2008).
  • Na minha carreira, fui de "vamos ver que histórias temos este mês para fazer uma boa capa" a "vamos fazer chamadas telefónicas a cada celebridade que tenha um filme a sair este mês até que uma nos diga sim", e então, claro, arranjar um jornalista que faça uma história numa semana ou menos. A capa de uma revista é a fonte de maior ansiedade, stress e pesadelos que alguém pode ter quando trabalha numa revista. Há sempre uma data de fecho, uma nova chamada a fazer ao anunciante, um fotógrafo a contactar, um local, uma peça de roupa e tudo o que é preciso para fazer a capa, até à conclusão do processo passam-se semanas, além do tempo e do espaço para colocar o resto das peças dentro da revista" (tradução minha, muito livre).

1.7.08

O ORGULHO DOS POVOS


Desde ontem, quando li a reportagem de Alexandra Lucas Coelho no Público sobre um livreiro de Cabul, Afeganistão, que não páro de pensar na entrevista e no entrevistado.

Sha Mohammed e a sua livraria Shah M. Books inspiraram o livro de Asne Seierstad, O livreiro de Cabul, esclarece a jornalista no lead. Na página da direita, aparece o homem que se define como sendo uma mistura de árabe, uzbeque e chinês. Diz que adora Shakespeare, que ensina a ver a sociedade à nossa volta. Das contas que eu fiz da leitura da peça, ele já terá vendido 22 mil livros daquele autor, em 34 anos! Claro que esteve preso e a sua livraria fechada com os russos e os talibans, pelo que a loja esteve aberta menos anos.

A sua memória é preciosa, ele que é mais velho do que eu apenas cinco anos. Diz que no tempo do rei Zahir Shah, até aos anos de 1970, o Afeganistão era um país moderno, com professores alemães, americanos e franceses na universidade de Cabul, as mulheres vestiam mini-saia e não cobriam o cabelo e eram cerca de 30% da população universitária.

Além da memória, há a coragem. De vencer as adversidades. Preso pelos russos, obrigado a usar barba pelos talibans, descrê do actual presidente e do apoio ocidental, pois este não chega a quem dele precisa: o povo afegão. Deste, e em especial da jovem geração, Mohammed tem orgulho: lê, estuda e é honesta.

O texto de Alexandra Lucas Coelho, mais uma outra peça que escreveu há dias sobre burkas e vestidos que ela comprou quando esteve recentemente no Afeganistão, lembrou-me um artigo de há anos (também no Público?) sobre uma mulher que tinha um antiquário em Bagdad. Com a guerra já a decorrer, a mulher dizia que continuava a abrir todos os dias as portas da sua loja, acto corajoso quando o poder político incentivava ao abandono do trabalho por parte das mulheres. Nós nunca mais soubemos dela: será que sobreviveu? Ou desistiu e foi-se embora de Bagdad? Ou morreu?

O olhar do livreiro de Cabul para a máquina fotográfica da jornalista é, ele próprio, uma esperança de dias melhores. É o orgulho dos povos, que podem perder tudo mas mantêm a dignidade. Eu prezo essas qualidades.

A INDÚSTRIA DO LIVRO SEGUNDO JOHN B. THOMPSON


Thompson dedicou três anos (2000-2003) a estudar o sector do livro, resultando no volume Books in the digital age. Analisou 16 empresas inglesas e americanas e entrevistou mais de 230 pessoas ligadas ao mundo dos livros, de editores a distribuidores e vendedores. Formou uma excelente base de observação e análise, em especial no mundo de língua inglesa e em dois sectores particulares do livro: edição universitária (incluindo jornais científicos) e edição de textos de apoio.

Não se trata - como é timbre do autor - de um texto especulativo, mas uma profunda análise sociológica. Recordo os dois primeiros capítulos do livro: a edição como prática económica e cultural (onde aborda conceitos como ciclo de edição e cadeia de valor) e estrutura social do campo da edição (a partir do conceito de campo em Bourdieu).

O seu campo de observação tem uma delimitação temporal: as mudanças no campo da edição desde os anos de 1980, em que destaca o crescimento dos títulos publicados, a concentração empresarial, a transformação do sector de retalho, a globalização do mercado e o impacto das novas tecnologias. Foi esta última questão que me levou à compra do texto de Thompson, dedicando ele um grande espaço de análise da revolução digital.

A digitalização está presente de forma total e com vantagens sobre tecnologias prévias em áreas da cadeia de valor como a escrita dos textos originais e a impressão digital dos trabalhos. De igual modo, está presente em toda a área administrativa e contabilística, assim como na promoção a digitalização assume papel cada vez mais relevante, como a internet e os sítios da internet, que não são meras montras de edições mas espaços de diálogo entre as editoras e os leitores, entre aquelas e os autores (mais antigos ou novos), entre editoras e outras empresas ligadas ao livro.


Leitura: John B. Thompson (2005). Books in the digital age. Cambridge e Malden, MA: Polity