[imagem parcial da fotografia de Joshua Benoliel - "Embarque do Corpo Expedicionário Português para a Flandres", 1917 - retirada do álbum LisboaPhoto 2005, p. 62]
Chovera ou prometia chover e era Inverno. As duas mulheres à esquerda transportam guarda-chuvas e os seus casacos compridos estavam abotoados. O chão parece um pouco enlameado, devendo sujar os sapatos de fivela e, presumo, de pequeno salto de ambas as mulheres. Atrás, uma terceira mulher tem um rosto mais entristecido. De lenço negro, possivelmente já se havia despedido do namorado ou marido, a caminho da Flandres, onde muitos portugueses morreriam na frente da batalha (La Lys, 9 de Abril de 1918). Talvez o namorado fosse o soldado de bigode que vemos à direita, cabisbaixo, já a caminhar.
O rapazio, do lado esquerdo da imagem, acompanha a marcha dos soldados entre o medo e o espanto da movimentação. Verifico a cor da pele deles, muito meridional. Mas fixemo-nos agora no casal da frente.
A rapariga, de rosto muito fino e estatura mediana, tem os olhos semicerrados. O soldado pega meigamente no queixo da mulher prestes a rebentar em choro, após o último beijo. Eles sabiam que a despedida podia não ter regresso. Na mesma mão onde segura o guarda-chuva, tem um pequeno embrulho preso por corda. Não se sabe se o embrulho se destinava ao soldado, já de mochila às costas, de um pequeno haver dela ou de peça de roupa para entregar a uma cliente (efabulemos que ela era costureira).
À parte estes dramas pessoais, o quadro deve ser compreendido ao nível mais vasto da sociedade. Depois de se ter comprometido com o país que não enviaria tropas para a frente da batalha da Primeira Guerra Mundial, Afonso Costa, primeiro-ministro, mudou de ideias. O país atravessava uma conjuntura política e económica difícil; melhor não ficou, arrastando-se por entre o descontentamento e a escassez de bens de primeira necessidade, enquanto chegavam as notícias das primeiras baixas em combate. A repressão interna teve lugar no Verão e Outono desse mesmo ano de 1917. No final do ano, Sidónio Pais assumia o poder, instaurando uma ditadura militar (no final de 1918, Sidónio seria assassinado).
Possivelmente, o namorado daquela mulher ainda muito jovem (19 anos? 20 anos?) não regressou ao cais da estação de Santa Apolónia. Qual terá sido o percurso da rapariga? Arranjou outro namorado, casou e teve filhos? Ou ficou viúva para toda a vida? Que alegrias teria, passados os anos de juventude?
A acompanhar as fotografias de Joshua Benoliel há um texto de Emília Tavares, em português e inglês. Retiro um pequeno excerto: "As imagens que este novo tipo de jornalismo [em cujo fotojornalismo se insere Benoliel] produziu são o reflexo de uma nova relação visual na sociedade de 1900, em que a cultura urbana, com todos os elementos a ela associados (comércio, transportes, lazer, movimento, luz, trânsito, arredores, favorecidos, desfavorecidos, vistas gerais, pormenores, lapsos de tempo, revoluções, homenagens, escala humana, signos), participou de forma imbricada e determinante".
Esta e outras imagens de Benoliel podem ser vistas na Cordoaria Nacional (relevo para imagens do rei D. Carlos e família e implantação da I República), juntamente com filmes do começo do século XX, integradas na LisboaPhoto 2005, cujo álbum reproduzo abaixo a capa [Hannah Starkey, The dentist, 2003, prova cromogénea, Interim Art/Maureen Paley, Londres] (assim como o do Salão Lisboa 2005, de ilustração e banda desenhada).

Eis a conclusão a tirar da notícia de hoje do
ROTEIRO CULTURAL ATINGE CEM NÚMEROS
1) O adeus às cassetes (Diário de Notícias, 27 de Junho)
2) O consumidor como actor de publicidade (Le Monde, 25 de Junho)
3) Ainda há literatura de cordel (The New York Times, suplemento que acompanhou a edição do Le Monde, de 25 de Junho)
4) Os trabalhos do provedor de leitor do El Pais (19 e 26 de Junho)
No domingo anterior, Serrano dedicara-se a analisar as fontes confidenciais. Por regra, o jornalista deve indicar as fontes de onde obteve a informação. Mas em casos extremos, como no terrorismo, essa regra precisa de ser ponderada, por razões de segurança de quem a dá. Mas, ouviu o provedor de um jornalista experiente, nesses casos deve haver outras fontes identificadas que reforcem a informação.
5) O jornal Blitz em mudanças (Diário de Notícias, 27 de Junho)



Segundo Andrew Murray-Watson, do Sunday Telegraph de hoje, a televisão no telefone móvel será uma realidade em breve. Comenta ele, se cada britânico consome à volta de 18 horas semanais em televisão, por que não introduzir uma televisão móvel?
No mesmo Sunday Telegraph de hoje, Guy Dennis fala-nos do RSS (Really Simple Syndication) - o modo como as notícias estão a ser distribuidas na internet e as grandes implicações que isso terá na forma dos grupos mediáticos fazerem dinheiro. Trata-se de um software que organiza as notícias de acordo com o interesse do consumidor da internet, agregando-as de uma determinada maneira. A escolha determina, digamos, notícias vencedoras e notícias perdedoras. Por isso, há uns que são entusiastas e outros que nem por isso. Aliás, RSS tanto pode querer significar Really Simple Syndication como Rich Site Summary!
Não resisto a reproduzir esta página da revista do El Pais de hoje [conto com a benevolência do editor do jornal em não me cobrar direitos de autor, pois se trata de uma página magnífica, como a que é publicada na página seguinte da revista, uma aguarela de Vasili Kandinski para o director da Bauhaus, o arquitecto Walter Gropius].
Trabalhando na Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema, obviamente que Tiago Baptista iria escrever sobre cinema.
A pressão foi forte, por parte dos críticos como dos distribuidores, que Leitão de Barros se viu obrigado a fazer uma segunda versão, de exportação para o mercado brasileiro [
- Presidente da UCP [não sei descodificar a sigla] – António Fidalgo
No outro dos seus livros, Understanding media, McLuhan considera que os media são extensões dos sentidos do homem e das suas funções: a roda como extensão do pé, a escrita como extensão da vista, o vestuário como extensão da pele, os circuitos eléctricos como extensão do sistema nervoso central (1979: 390). Ainda não era o computador, mas ele estava próximo de se tornar um elemento massificado.
REVISTA MEDIA & JORNALISMO
CAPITALISMO DE IMPRENSA
O modelo cultural norte-americano entende ser o crescimento da tecnologia em geral – imprensa, literacia, tecnologias da comunicação – uma narrativa do progresso. A história das tecnologias da comunicação torna-se a história do aumento do conhecimento humano.
Eis a proposta de Bryan Appleyard, no Sunday Times de hoje, que destaca os títulos mais vendidos segundo o New York Times: 1) Freakeconomics, que aplica a teoria económica a quase todas as formas de actividade humana, 2) The world is flat, que revela o modo como tudo está a mudar com a globalização, 3) Blink, que sugere que podemos saber de tudo sem pensarmos em nada, 4) On bullshit, perspectiva filosófica sobre a corrupção de linguagem e verdade dos políticos e dos relações públicas [melhorei a tradução], 5) Collapse, sobre o falhanço das sociedades. Cada um à sua maneira, continua Appleyard, é sobre tudo e procura transformar o nosso entendimento do mundo através de uma "grande ideia".
A vantagem: a câmara representa o triunfo da democracia. Ou como dizia uma frase anarquista numa parede há muitos anos: "a polícia protege-nos, mas quem nos protege da polícia"? Os defensores das máquinas encontraram uma expressão própria: "vigilância ao contrário". Sabemos que hoje podemos estar a ser seguidos por uma câmara: no supermercado, na auto-estrada, à entrada de um prédio. Ora, por via disso, qualquer tentativa dos cidadãos se protegerem do Estado e das empresas está condenada ao fracasso. O acesso geral a máquinas fotográficas digitais faz com que participemos em vigilantes de quem nos vigia ou em que arranjemos imagens para defesa pessoal em caso de complicação.
Innis (1894-1952) trabalhara a partir de realidades tecnológicas e sociais como a electricidade e a recentralização do império económico (da Inglaterra aos Estados Unidos), do poder e do conhecimento a partir da electricidade (que prometera descentralização, liberdade e democracia) [
O livro de Jane Eldershaw, escritora e ilustradora de revistas como a New Woman e a Vogue Australia, de onde é natural, é um texto divertido. A edição em língua inglesa é do ano passado, a madrilena MAEVA editou-a em espanhol já este ano, simplificando o título para Los zapatos de mi vida.