NOVAS MEDIDAS DE INCENTIVOS AOS MEDIA REGIONAIS
[Nota prévia: trata-se de informação veiculada pela MediaXXI, de que sou director editorial, pelo que não posso promover a mesma revista. Para evitar esconder interesses, declaro a minha ligação]
Estão previstas novas medidas de incentivos aos media regionais. Assim, para os jornais prevê-se o apoio de marketing em termos de distribuição, discriminação positiva de incentivos para órgãos de comunicação sediados em regiões mais desfavorecidas, apoios aos jornais on-line, aumento da expedição paga (de 15% para 20%) e aumento do período de renovação das assinaturas na imprensa das comunidades portuguesas (de 9 para 12 meses).
No tocante à rádio, será facilitada a transmissão de alvarás, o fomento de grupos municipais de rádio (temáticos e em concelhos limítrofes), a contratação de jornalistas e outros profissionais parcialmente pagos pelo Estado e a redução da obrigatoriedade de emissão das actuais 24 horas para 16 horas.
CLÁSSICA FM
A rádio Luna acabou os seus serviços no fim-de-semana. Contudo, a emitir na mesma frequência e também a partir do Montijo [o que significa o mesmo estúdio e material de emissão], está a funcionar a Clássica FM, com música clássica. Será para continuar?
Textos de Rogério Santos, com reflexões e atualidade sobre indústrias culturais (imprensa, rádio, televisão, internet, cinema, videojogos, música, livros, centros comerciais) e criativas (museus, exposições, teatro, espetáculos). Na blogosfera desde 2002.
quarta-feira, 10 de março de 2004
terça-feira, 9 de março de 2004
EFEMÉRIDE
CEM ANOS DA CONFERÊNCIA DE ALBERTO BESSA SOBRE A HISTÓRIA DO JORNALISMO
Faz hoje cem anos que o jornalista Alberto Bessa proferiu uma comunicação sobre a história do jornalismo, passada ainda em 1904 a livro. Na realidade, foi a 9 de Março de 1904, que Alberto Bessa apresentou uma comunicação por altura da inauguração da Sociedade Literária Almeida Garrett, em Lisboa, grémio de escritores, literatos e artistas.
Do acontecimento, encontra-se eco no Diário de Notícias, de 10 de Março de 1904, na segunda página: “[O] curioso trabalho de Alberto Bessa manifesta não só grande investigação de notas e de factos notáveis no jornalismo de quase todo o mundo, como também um grande estudo sobre a especialidade, como se pode verificar do extracto que publicamos”. O Diário de Notícias era o jornal onde Bessa trabalhava.
Mais à frente na mesma notícia: “A imprensa, sendo, como é, a palavra organizada em instituição, tornada eco da multidão anónima, obscura, desvalida, paciente, irresoluta e murmurante, servindo, com a sua voz, de válvula de segurança providencial, e um grande bem, apesar de todos os defeitos que queiram encontrar-lhe e de todas as manchas que lhe possam ser notadas. […] O jornalista é o factor subjectivo e pessoal, moral e responsável do exercício da imprensa. De coragem, independência e civismo deve ser formado o seu carácter: de penetração, lucidez e imparcialidade feito o seu critério; de talento, entusiasmo e amor formada a sua alma, votada a todas as concepções mais elevadas da arte e da beleza, na justiça, na verdade e no bem”.
Alberto Bessa, para além do Diário de Notícias, trabalhou nos jornais O Século e O Diário, antes de ingressar em O Jornal do Comércio e das Colónias, no ano da implantação da República. Neste último jornal chegou a director. Bessa foi também um grande dinamizador do movimento associativo dos jornalistas, sendo um dos fundadores da Associação da Imprensa Portuguesa. Num outro local, desenvolverei este tema.
Livro: Alberto Bessa (1904). O jornalismo. Esboço histórico da sua origem e desenvolvimento até aos nossos dias. Lisboa: Viúva Tavares Cardoso
CEM ANOS DA CONFERÊNCIA DE ALBERTO BESSA SOBRE A HISTÓRIA DO JORNALISMO
Faz hoje cem anos que o jornalista Alberto Bessa proferiu uma comunicação sobre a história do jornalismo, passada ainda em 1904 a livro. Na realidade, foi a 9 de Março de 1904, que Alberto Bessa apresentou uma comunicação por altura da inauguração da Sociedade Literária Almeida Garrett, em Lisboa, grémio de escritores, literatos e artistas.
Do acontecimento, encontra-se eco no Diário de Notícias, de 10 de Março de 1904, na segunda página: “[O] curioso trabalho de Alberto Bessa manifesta não só grande investigação de notas e de factos notáveis no jornalismo de quase todo o mundo, como também um grande estudo sobre a especialidade, como se pode verificar do extracto que publicamos”. O Diário de Notícias era o jornal onde Bessa trabalhava.
Mais à frente na mesma notícia: “A imprensa, sendo, como é, a palavra organizada em instituição, tornada eco da multidão anónima, obscura, desvalida, paciente, irresoluta e murmurante, servindo, com a sua voz, de válvula de segurança providencial, e um grande bem, apesar de todos os defeitos que queiram encontrar-lhe e de todas as manchas que lhe possam ser notadas. […] O jornalista é o factor subjectivo e pessoal, moral e responsável do exercício da imprensa. De coragem, independência e civismo deve ser formado o seu carácter: de penetração, lucidez e imparcialidade feito o seu critério; de talento, entusiasmo e amor formada a sua alma, votada a todas as concepções mais elevadas da arte e da beleza, na justiça, na verdade e no bem”.
Alberto Bessa, para além do Diário de Notícias, trabalhou nos jornais O Século e O Diário, antes de ingressar em O Jornal do Comércio e das Colónias, no ano da implantação da República. Neste último jornal chegou a director. Bessa foi também um grande dinamizador do movimento associativo dos jornalistas, sendo um dos fundadores da Associação da Imprensa Portuguesa. Num outro local, desenvolverei este tema.
Livro: Alberto Bessa (1904). O jornalismo. Esboço histórico da sua origem e desenvolvimento até aos nossos dias. Lisboa: Viúva Tavares Cardoso
segunda-feira, 8 de março de 2004
Defendida tese de mestrado sobre ficção nacional (telenovelas)
Catarina Burnay, professora da Universidade Católica Portuguesa, defendeu hoje de manhã uma tese de mestrado sobre televisão, naquela universidade, intitulada "Ficção nacional: a emergência de um «novo» paradigma televisivo". O período de estudo foi o ano televisivo de 2000-1 e a telenovela investigada foi "A indomada". Para ela, o género telenovela produziu profundas alterações quer a nível da produção de televisão quer em termos de recepção.
A novel mestre (passou com a nota de Muito Bom) analisou a mudança de paradigma na audiência em termos de conteúdos ficcionais, quando as(os) telespectadoras(es) passaram a apreciar mais as telenovelas de produção nacional em detrimento das de origem brasileira. Antes de detalhar o seu estudo empírico, a autora analisou o fenómeno telenovela, desde Gabriela, cravo e canela (1977), na RTP - em que todo o país paralisou, obrigando mesmo ao adiamento de sessões parlamentares -, ao acordo escrito, em 1995, entre a SIC e a TV Globo para passagem em exclusivo no novo canal privado português desse formato, até à viragem entabulada pela TVI, que, na passagem da década, apostou na produção de telenovelas originais portuguesas. Tudo isto com o crescente clima de concorrência, com contra-programação e auto-promoção. Para Catarina Burnay, o novo paradigma televisivo, na TVI, deveu-se a uma associação de informação (de infotainment, com informação e entretenimento juntos), entretenimento e ficção nacional. Aqui o destaque iria para o trabalho da produtora NBP (de Nicolau Breyner).
Qual a base teórica da tese hoje defendida? Os estudos da escola de Frankfurt (indústria cultural), os cultural studies de Stuart Hall (com o seu texto fundador de 1973 de codificação/decodificação, agora disponível em português), bem como estudos da América Latina (Martín-Barbero e Maria Imacolata Lopes). Para além de uma análise quantitativa (1999-2002), a autora fez uma análise qualitativa, com entrevistas semi-directivas, em termos de produção (entrevistou responsáveis da TVI e da NBP) e em termos de recepção (21 entrevistas a consumidores de televisão). Quanto a conceitos de recepção operou quatro: quotidiano familiar/contexto de recepção, subjectividade/objectividade, género ficcional, produção e técnica.
Entre outras conclusões, o trabalho de Catarina Burnay aponta os seguintes sobre a produção ficcional portuguesa: boa representação da realidade nacional, técnica mais evoluida (se comparada com uma vintena de anos anteriores ao período estudado, em argumentos, actores e condução destes, e elementos técnicos empregues), representação de uma realidade menos violenta que a retratada nas telenovelas brasileiras, a ficção como agente socializante (no sentido de comunidades interpretativas ou imaginárias) e reconciliação do público português com o género.
Em suma, trata-se de um trabalho pioneiro em estudos de recepção de programas de ficção nacional televisiva, o que é de elogiar, estudar e continuar, no tocante à área das culturas do quotidiano, desenvolvida pela professora Isabel Ferin (Un. de Coimbra), aliás orientadora da tese de Catarina Burnay.
A novel mestre (passou com a nota de Muito Bom) analisou a mudança de paradigma na audiência em termos de conteúdos ficcionais, quando as(os) telespectadoras(es) passaram a apreciar mais as telenovelas de produção nacional em detrimento das de origem brasileira. Antes de detalhar o seu estudo empírico, a autora analisou o fenómeno telenovela, desde Gabriela, cravo e canela (1977), na RTP - em que todo o país paralisou, obrigando mesmo ao adiamento de sessões parlamentares -, ao acordo escrito, em 1995, entre a SIC e a TV Globo para passagem em exclusivo no novo canal privado português desse formato, até à viragem entabulada pela TVI, que, na passagem da década, apostou na produção de telenovelas originais portuguesas. Tudo isto com o crescente clima de concorrência, com contra-programação e auto-promoção. Para Catarina Burnay, o novo paradigma televisivo, na TVI, deveu-se a uma associação de informação (de infotainment, com informação e entretenimento juntos), entretenimento e ficção nacional. Aqui o destaque iria para o trabalho da produtora NBP (de Nicolau Breyner).
Qual a base teórica da tese hoje defendida? Os estudos da escola de Frankfurt (indústria cultural), os cultural studies de Stuart Hall (com o seu texto fundador de 1973 de codificação/decodificação, agora disponível em português), bem como estudos da América Latina (Martín-Barbero e Maria Imacolata Lopes). Para além de uma análise quantitativa (1999-2002), a autora fez uma análise qualitativa, com entrevistas semi-directivas, em termos de produção (entrevistou responsáveis da TVI e da NBP) e em termos de recepção (21 entrevistas a consumidores de televisão). Quanto a conceitos de recepção operou quatro: quotidiano familiar/contexto de recepção, subjectividade/objectividade, género ficcional, produção e técnica.
Entre outras conclusões, o trabalho de Catarina Burnay aponta os seguintes sobre a produção ficcional portuguesa: boa representação da realidade nacional, técnica mais evoluida (se comparada com uma vintena de anos anteriores ao período estudado, em argumentos, actores e condução destes, e elementos técnicos empregues), representação de uma realidade menos violenta que a retratada nas telenovelas brasileiras, a ficção como agente socializante (no sentido de comunidades interpretativas ou imaginárias) e reconciliação do público português com o género.
Em suma, trata-se de um trabalho pioneiro em estudos de recepção de programas de ficção nacional televisiva, o que é de elogiar, estudar e continuar, no tocante à área das culturas do quotidiano, desenvolvida pela professora Isabel Ferin (Un. de Coimbra), aliás orientadora da tese de Catarina Burnay.
domingo, 7 de março de 2004
PROGRAMAÇÃO TELEVISIVA NA RTP
A notícia já veio nos jornais durante a semana passada. Retenho algumas ideias do que li do Público, sobre as apostas de programação futura da RTP.
Nos campos da ficção e do documentário, incentivar-se-á a produção de originais portugueses. Anuncia-se o início das filmagens da série de ficção histórica "A Ferreirinha" (casa de vinhos do Douro), a adaptação para ficção de textos literários de autores nacionais de nomeada, uma série longa de 60 episódios, "O segredo" (vida de emigrantes portugueses no Brasil), e uma série de ficção juvenil de temática actual. No capítulo de documentários, passarão séries sobre a história recente de Portugal, retratos da sociedade contemporânea e biografias. Há ainda a aposta em magazines de saúde, língua portuguesa, defesa do ambiente e artes e espectáculos, nomeadamente.
Mais horas em directo e maior diversidade em antena são outras ideias-chave na nova programação da RTP, que muda a sua imagem gráfica (televisão e rádio) e transfere as suas instalações para Cabo Ruivo até final do mês. No Telejornal desaparece a faixa de rodapé onde passam as notícias, que distrai a atenção dos espectadores, e passa a haver um alinhamento sequencial. Finalmente, espera-se para breve a conclusão de negociações para o canal Memória na plataforma por cabo.
CATALÀ-ROCA: BARCELONA/MADRID - AÑOS CINCUENTA
Inaugurou anteontem a exposição com este nome na Galeria Municipal da Mitra.
Do catálogo que a acompanha, lê-se que se encontram "fotografias suas numa infinidade de livros, lugares e publicações de todo o género, que cedo o tornaram uma garantia de prestígio e um plhar perdurável sobre a realidade. Depressa travou amizade com os pintores Salvador Dalí ou Joan Miró", que vemos, aliás, no conjunto inicial das fotografias da exposição. Català-Roca ganhou, desde os anos de 1940, uma aura literária, vanguardista e artística. Seria o caso de dois livros que publicou em 1954, dedicados a Madrid e a Barcelona.
Na exposição vêem-se rostos de gente conhecida (como os citados Dalí e Miró) ou anónima, na rua, em locais urbanos ou nos arrabaldes das duas cidades, arquitectura, as sombras, os contra-luzes e os claros-escuros com motivos da cidade (o metro, as bolhas de sabão, a venda de pequenos objectos, a neve nos automóveis, a ermida coberta de lápides de mármore, o carrossel, o gato no alfarrabista, os carros eléctricos de Barcelona - mais parecidos com os do Porto que os de Lisboa). Ou a publicidade com o polícia a cavalo, como na imagem que acompanha este post. Em mais de cem imagens.
Català-Roca nasceu em Tarragona (1922) e faleceu em Barcelona (1998, exactamente a 5 de Março). A sua exposição é unicamente com fotografias a preto e branco, que abandonaria definitivamente em 1973. Sete anos depois, realiza o filme Femme/woman. A tapestry by Joan Miró, recebendo um prémio (The Golden Eagle). Em 1995, publica o livro Foto-grafias A-cromáticas. Dois anos depois, tem lugar uma exposição sobre toda a sua obra [elementos retirados do catálogo. Uma iniciativa do Instituto Cervantes de Lisboa e da Câmara Municipal de Lisboa].
A notícia já veio nos jornais durante a semana passada. Retenho algumas ideias do que li do Público, sobre as apostas de programação futura da RTP.
Nos campos da ficção e do documentário, incentivar-se-á a produção de originais portugueses. Anuncia-se o início das filmagens da série de ficção histórica "A Ferreirinha" (casa de vinhos do Douro), a adaptação para ficção de textos literários de autores nacionais de nomeada, uma série longa de 60 episódios, "O segredo" (vida de emigrantes portugueses no Brasil), e uma série de ficção juvenil de temática actual. No capítulo de documentários, passarão séries sobre a história recente de Portugal, retratos da sociedade contemporânea e biografias. Há ainda a aposta em magazines de saúde, língua portuguesa, defesa do ambiente e artes e espectáculos, nomeadamente.
Mais horas em directo e maior diversidade em antena são outras ideias-chave na nova programação da RTP, que muda a sua imagem gráfica (televisão e rádio) e transfere as suas instalações para Cabo Ruivo até final do mês. No Telejornal desaparece a faixa de rodapé onde passam as notícias, que distrai a atenção dos espectadores, e passa a haver um alinhamento sequencial. Finalmente, espera-se para breve a conclusão de negociações para o canal Memória na plataforma por cabo.
CATALÀ-ROCA: BARCELONA/MADRID - AÑOS CINCUENTA
Inaugurou anteontem a exposição com este nome na Galeria Municipal da Mitra.
Do catálogo que a acompanha, lê-se que se encontram "fotografias suas numa infinidade de livros, lugares e publicações de todo o género, que cedo o tornaram uma garantia de prestígio e um plhar perdurável sobre a realidade. Depressa travou amizade com os pintores Salvador Dalí ou Joan Miró", que vemos, aliás, no conjunto inicial das fotografias da exposição. Català-Roca ganhou, desde os anos de 1940, uma aura literária, vanguardista e artística. Seria o caso de dois livros que publicou em 1954, dedicados a Madrid e a Barcelona.
Na exposição vêem-se rostos de gente conhecida (como os citados Dalí e Miró) ou anónima, na rua, em locais urbanos ou nos arrabaldes das duas cidades, arquitectura, as sombras, os contra-luzes e os claros-escuros com motivos da cidade (o metro, as bolhas de sabão, a venda de pequenos objectos, a neve nos automóveis, a ermida coberta de lápides de mármore, o carrossel, o gato no alfarrabista, os carros eléctricos de Barcelona - mais parecidos com os do Porto que os de Lisboa). Ou a publicidade com o polícia a cavalo, como na imagem que acompanha este post. Em mais de cem imagens.
Català-Roca nasceu em Tarragona (1922) e faleceu em Barcelona (1998, exactamente a 5 de Março). A sua exposição é unicamente com fotografias a preto e branco, que abandonaria definitivamente em 1973. Sete anos depois, realiza o filme Femme/woman. A tapestry by Joan Miró, recebendo um prémio (The Golden Eagle). Em 1995, publica o livro Foto-grafias A-cromáticas. Dois anos depois, tem lugar uma exposição sobre toda a sua obra [elementos retirados do catálogo. Uma iniciativa do Instituto Cervantes de Lisboa e da Câmara Municipal de Lisboa].
sábado, 6 de março de 2004
MEDIA CAPITAL NA BOLSA DE VALORES - ENTREVISTA DE MIGUEL PAES DO AMARARAL AO EXPRESSO
A entrar dentro de um mês na Bolsa de Valores, Paes do Amaral concedeu uma entrevista ao Expresso (conduzida por Ana Serzedelo e Pedro Lima). O encaixe previsto é da ordem dos €250 milhões. Desaparecerá a quase totalidade dos 37% do fundo Hicks Muse Tate & Furst (entrado em Setembro de 1999, momento fundamental para o controlo da TVI), enquanto se manterão os 40% da Media Capital e os 23% dos columbianos da Bavaria. Em 2003, o grupo teve receitas de €200 milhões e um EBITDA de €36 milhões. A dispersão de capital na Bolsa será uma oportunidade de expansão e trará a dimininuição da dívida de €170 milhões para 120 milhões.
A Media Capital - como já escrevi neste sítio - é um grupo de media diversificado, actuando nas actividades de televisão e produção televisiva, rádio, outdoors e internet. Começou na imprensa, nomeadamente a económica, mas acabou por vendê-la à Recolectos, ao passo que o semanário Independente foi comprado pela actual directora.
A entrevista é importante no que toca à análise da concorrência. E o presidente da Media Capital aponta dois alvos. O primeiro é a rádio. Para Paes do Amaral, a actual lei serve apenas os interesses da Renascença. Desde há muito que Paes do Amaral acha que o limite de cinco frequências (lei da concentração) é escasso para quem pretenda investir nos media. A Media Capital já atingira esse limite [Rádio Comercial, Rádio Clube Português, Cidade FM, Best Rock e Romântica FM]. Curiosamente, estas afirmações são publicadas no momento em que mais duas frequências [Luna e Voxx] são compradas pela Media Capital (através de Nobre Guedes). O que quer dizer que a lei está morta, ou a Autoridade da Concorrência e a Alta Autoridade para a Comunicação Social estão desatentas. Aliás, em livro publicado já este ano, sobre propriedade dos media, Elsa Costa e Silva (Os donos da notícia), escreveu sobre a benevolência da aplicação da legislação nacional. Ela estava a pensar exactamente na Media Capital.
O segundo alvo é a PT, líder do mercado de internet de banda larga. A suspensão do serviço por parte da Media Capital tem a ver com a dificuldade de concorrência. Paes do Amaral diz que "existe uma pressão do mercado e das autoridades para não afectar muito o negócio da PT". Eu compreendo esta segunda parte, mas tenho dificuldades quanto à primeira. Sendo o mercado livre, como se pode falar da pressão do mesmo em favor de uma só empresa? Aliás, no mesmo caderno do jornal, surge uma notícia informando a próxima campanha da Novis e da Clix, destinada a combater, pelo preço e pelo serviço, a PT.
Sobre a audiência no mercado de televisão - a TVI representa dois terços da facturação do grupo -, Paes do Amaral considera como objectivo a permanência na zona dos 30 a 35%. No prime-time, onde se concentra a parte mais substancial do investimento publicitário, ele quer manter a TVI nos 35 a 40% de mercado. Claro que um valor muito elevado no day-time não acarretaria aumentos de publicidade. Quanto à internacionalização, confirma o que se tem lido: a venda de formatos produzidos pela NBP para a América do Sul e países de leste, enquanto se desenvolve a estratégia de alargar para o Brasil e Espanha.
A entrar dentro de um mês na Bolsa de Valores, Paes do Amaral concedeu uma entrevista ao Expresso (conduzida por Ana Serzedelo e Pedro Lima). O encaixe previsto é da ordem dos €250 milhões. Desaparecerá a quase totalidade dos 37% do fundo Hicks Muse Tate & Furst (entrado em Setembro de 1999, momento fundamental para o controlo da TVI), enquanto se manterão os 40% da Media Capital e os 23% dos columbianos da Bavaria. Em 2003, o grupo teve receitas de €200 milhões e um EBITDA de €36 milhões. A dispersão de capital na Bolsa será uma oportunidade de expansão e trará a dimininuição da dívida de €170 milhões para 120 milhões.
A Media Capital - como já escrevi neste sítio - é um grupo de media diversificado, actuando nas actividades de televisão e produção televisiva, rádio, outdoors e internet. Começou na imprensa, nomeadamente a económica, mas acabou por vendê-la à Recolectos, ao passo que o semanário Independente foi comprado pela actual directora.
A entrevista é importante no que toca à análise da concorrência. E o presidente da Media Capital aponta dois alvos. O primeiro é a rádio. Para Paes do Amaral, a actual lei serve apenas os interesses da Renascença. Desde há muito que Paes do Amaral acha que o limite de cinco frequências (lei da concentração) é escasso para quem pretenda investir nos media. A Media Capital já atingira esse limite [Rádio Comercial, Rádio Clube Português, Cidade FM, Best Rock e Romântica FM]. Curiosamente, estas afirmações são publicadas no momento em que mais duas frequências [Luna e Voxx] são compradas pela Media Capital (através de Nobre Guedes). O que quer dizer que a lei está morta, ou a Autoridade da Concorrência e a Alta Autoridade para a Comunicação Social estão desatentas. Aliás, em livro publicado já este ano, sobre propriedade dos media, Elsa Costa e Silva (Os donos da notícia), escreveu sobre a benevolência da aplicação da legislação nacional. Ela estava a pensar exactamente na Media Capital.
O segundo alvo é a PT, líder do mercado de internet de banda larga. A suspensão do serviço por parte da Media Capital tem a ver com a dificuldade de concorrência. Paes do Amaral diz que "existe uma pressão do mercado e das autoridades para não afectar muito o negócio da PT". Eu compreendo esta segunda parte, mas tenho dificuldades quanto à primeira. Sendo o mercado livre, como se pode falar da pressão do mesmo em favor de uma só empresa? Aliás, no mesmo caderno do jornal, surge uma notícia informando a próxima campanha da Novis e da Clix, destinada a combater, pelo preço e pelo serviço, a PT.
Sobre a audiência no mercado de televisão - a TVI representa dois terços da facturação do grupo -, Paes do Amaral considera como objectivo a permanência na zona dos 30 a 35%. No prime-time, onde se concentra a parte mais substancial do investimento publicitário, ele quer manter a TVI nos 35 a 40% de mercado. Claro que um valor muito elevado no day-time não acarretaria aumentos de publicidade. Quanto à internacionalização, confirma o que se tem lido: a venda de formatos produzidos pela NBP para a América do Sul e países de leste, enquanto se desenvolve a estratégia de alargar para o Brasil e Espanha.
sexta-feira, 5 de março de 2004
LUNA - 106,2: A MELHOR MÚSICA DE JAZZ
ENTRE A HOMENAGEM À RÁDIO LUNA E A MEMÓRIA DO TEMPO
No momento em que desaparece injustamente a Rádio Luna (e a Voxx) não posso deixar de homenagear a estação que ainda consigo ouvir hoje. Apesar de sintonizar intermitentemente as duas estações, da Voxx recordo a voz grave e de sotaque nortenho em fantásticos spots e da Luna a música clássica e também o jazz (que decerto influenciou a Antena Dois, que já deu direito de cidadania a esta música).
2004 fica a oitenta anos das primeiras emissões regulares de rádio em Portugal (considero 1924, lá para o Outono, e não 1925, como diz habitualmente a bibliografia da matéria, como o começo das emissões no país). Aproveito, por isso, para recordar duas estações, a primeira de Abílio Nunes dos Santos Júnior, o CT1AA, que começou as primeiras “chamadas” em 1924, numa mistura de grafia, fonia e radiodifusão. Ainda nesse ano, passava a transmitir concertos às quintas e aos sábados, estendendo depois ao domingo. Um dos locutores era o santomense Herculano Levy (1889-1969), poeta, intelectual e depois grande proprietário de imobiliário. Santos Júnior era comerciante (foi dono dos Armazéns do Chiado, onde fica hoje, entre outras lojas, a FNAC) e tinha duas paixões: os automóveis (com um Bugatti ficou em segundo lugar no circuito do Campo Grande, por esses anos) e a rádio (comprava microfones nos Estados Unidos, num tempo em que o Atlântico se atravessava por navio). Então, as estações fechavam em Agosto e Setembro para férias.
O outro emissor que quero lembrar é o de José Joaquim de Sousa Dias Melo (1898-1982), o CT1AB. Em 1924, era gerente de um hotel que ainda hoje existe na esquina da rua da Betesga com a rua Augusta, em Lisboa (quando passo por ali, imagino ver uma antena no topo do telhado e a modesta mesa de emissão com um microfone junto a um pick-up que ele próprio confeccionou, conhecimentos que adquiriu numa permanência em França).
A aventura radiofónica de Dias Melo foi muito mais curta que a vida da Luna. Mas tinham semelhanças: eram artesanais, não buscavam o lucro e tinham o prazer da música clássica (embora há oitenta anos os discos fossem uma novidade e por algumas estações passavam músicos que tocavam ao vivo nos programas). Dias Melo, que passaria a gerente de uma ourivesaria na mesma zona da baixa lisboeta, deixou a radiodifusão mas manteve-se ligado à fonia até morrer, pagando os recibos referentes à sua licença de fonia, como indica um ofício da Rede de Emissores Portugueses aos Serviços de Radiocomunicações (27 de Agosto de 1982).
Num dos seus mais bonitos livros, o historiador José Augusto França (Os anos vinte em Portugal, 1992: 86) identifica a estação de José Dias Melo, a qual tinha “uma revistinha lançada a copiógrafo em 1924”. Como era a radiodifusão deste amador? Ele iniciara “os seus trabalhos como amador emissor em meados de 1924, com os melhores resultados, merecendo eles várias referências nas revistas da época. No princípio de 1925, já era ouvido no Porto, Tavira e outros pontos em fonia [alternava fonia com radiodifusão, embora fosse mais forte naquela] com grande intensidade e os receptores melhores naquele tempo eram o Bourne, Schnel e Reinartz, de duas ou três válvulas. […] além dos registos dos primeiros trabalhos, mencionados atrás, ainda possuo algumas dezenas de cartões e de entre eles destaco um relativo ao meu primeiro QSO a distância com o célebre F8BF”. A técnica, e não a programação, dominava o esforço dos amadores de rádio em 1924.
Apesar da grande mágoa pelo desaparecimento das estações, a paixão continua. A rádio é, com toda a certeza, o medium mais fantástico que o homem inventou.
ENTRE A HOMENAGEM À RÁDIO LUNA E A MEMÓRIA DO TEMPO
No momento em que desaparece injustamente a Rádio Luna (e a Voxx) não posso deixar de homenagear a estação que ainda consigo ouvir hoje. Apesar de sintonizar intermitentemente as duas estações, da Voxx recordo a voz grave e de sotaque nortenho em fantásticos spots e da Luna a música clássica e também o jazz (que decerto influenciou a Antena Dois, que já deu direito de cidadania a esta música).
2004 fica a oitenta anos das primeiras emissões regulares de rádio em Portugal (considero 1924, lá para o Outono, e não 1925, como diz habitualmente a bibliografia da matéria, como o começo das emissões no país). Aproveito, por isso, para recordar duas estações, a primeira de Abílio Nunes dos Santos Júnior, o CT1AA, que começou as primeiras “chamadas” em 1924, numa mistura de grafia, fonia e radiodifusão. Ainda nesse ano, passava a transmitir concertos às quintas e aos sábados, estendendo depois ao domingo. Um dos locutores era o santomense Herculano Levy (1889-1969), poeta, intelectual e depois grande proprietário de imobiliário. Santos Júnior era comerciante (foi dono dos Armazéns do Chiado, onde fica hoje, entre outras lojas, a FNAC) e tinha duas paixões: os automóveis (com um Bugatti ficou em segundo lugar no circuito do Campo Grande, por esses anos) e a rádio (comprava microfones nos Estados Unidos, num tempo em que o Atlântico se atravessava por navio). Então, as estações fechavam em Agosto e Setembro para férias.
O outro emissor que quero lembrar é o de José Joaquim de Sousa Dias Melo (1898-1982), o CT1AB. Em 1924, era gerente de um hotel que ainda hoje existe na esquina da rua da Betesga com a rua Augusta, em Lisboa (quando passo por ali, imagino ver uma antena no topo do telhado e a modesta mesa de emissão com um microfone junto a um pick-up que ele próprio confeccionou, conhecimentos que adquiriu numa permanência em França).
A aventura radiofónica de Dias Melo foi muito mais curta que a vida da Luna. Mas tinham semelhanças: eram artesanais, não buscavam o lucro e tinham o prazer da música clássica (embora há oitenta anos os discos fossem uma novidade e por algumas estações passavam músicos que tocavam ao vivo nos programas). Dias Melo, que passaria a gerente de uma ourivesaria na mesma zona da baixa lisboeta, deixou a radiodifusão mas manteve-se ligado à fonia até morrer, pagando os recibos referentes à sua licença de fonia, como indica um ofício da Rede de Emissores Portugueses aos Serviços de Radiocomunicações (27 de Agosto de 1982).
Num dos seus mais bonitos livros, o historiador José Augusto França (Os anos vinte em Portugal, 1992: 86) identifica a estação de José Dias Melo, a qual tinha “uma revistinha lançada a copiógrafo em 1924”. Como era a radiodifusão deste amador? Ele iniciara “os seus trabalhos como amador emissor em meados de 1924, com os melhores resultados, merecendo eles várias referências nas revistas da época. No princípio de 1925, já era ouvido no Porto, Tavira e outros pontos em fonia [alternava fonia com radiodifusão, embora fosse mais forte naquela] com grande intensidade e os receptores melhores naquele tempo eram o Bourne, Schnel e Reinartz, de duas ou três válvulas. […] além dos registos dos primeiros trabalhos, mencionados atrás, ainda possuo algumas dezenas de cartões e de entre eles destaco um relativo ao meu primeiro QSO a distância com o célebre F8BF”. A técnica, e não a programação, dominava o esforço dos amadores de rádio em 1924.
Apesar da grande mágoa pelo desaparecimento das estações, a paixão continua. A rádio é, com toda a certeza, o medium mais fantástico que o homem inventou.
OS DEZ PRINCIPAIS OPERADORES EUROPEUS DE CABO EM BANDA LARGA EM NÚMERO DE ASSINANTES (2003)
1º - NTL (Reino Unido) - 864.600
2º - Telenet (Bélgica) - 389.000
3º - Telewest (Reino Unido) - 367.410
4º - UPC TeleKabel (Áustria) - 200.000
5º - Essent (Holanda) - 198.000
6º - TV Cabo (Portugal) - 196.500
7º - Cablecom (Suíça) - 190.000
8º - Noos (França) - 182.500
9º - ONO (Espanha) - 174.000
10º - Casema (Holanda) - 154.000
Fonte: Informa Telecom (via BoletinBit, da Universidade de Navarra, de hoje)
1º - NTL (Reino Unido) - 864.600
2º - Telenet (Bélgica) - 389.000
3º - Telewest (Reino Unido) - 367.410
4º - UPC TeleKabel (Áustria) - 200.000
5º - Essent (Holanda) - 198.000
6º - TV Cabo (Portugal) - 196.500
7º - Cablecom (Suíça) - 190.000
8º - Noos (França) - 182.500
9º - ONO (Espanha) - 174.000
10º - Casema (Holanda) - 154.000
Fonte: Informa Telecom (via BoletinBit, da Universidade de Navarra, de hoje)
ARQUIVO DA BBC DISPONÍVEL NA INTERNET NO PRÓXIMO OUTONO
O director de Tecnologia e Novos Media da BBC, Ashley Highfield, anunciou que os utilizadores poderão aceder a milhares de arquivos de audio e vídeo na internet a partir do próximo outono. O serviço faz parte do compromisso da empresa pública britânica em facilitar o acesso público aos seus arquivos, para uso privado ou educativo. Os clips disponíveis, até três minutos de duração, contêm material de notícias, reportagens e entrevistas emitidas pela emissora.
O director de Tecnologia e Novos Media da BBC, Ashley Highfield, anunciou que os utilizadores poderão aceder a milhares de arquivos de audio e vídeo na internet a partir do próximo outono. O serviço faz parte do compromisso da empresa pública britânica em facilitar o acesso público aos seus arquivos, para uso privado ou educativo. Os clips disponíveis, até três minutos de duração, contêm material de notícias, reportagens e entrevistas emitidas pela emissora.
PRIMEIRAS PÁGINAS DO PÚBLICO
Saíu hoje o livro das primeiras páginas do jornal Público. São 300 páginas entre 1990 e 2003, custando €25.
Pela sua leitura - uma escolha entre as mais de cinco mil primeiras páginas já editados pelo jornal - consegue-se compreender a marcha dos acontecimentos mais marcantes dos anos recentes. O livro interessa a historiadores, a semiólogos, a sociólogos, a jornalistas. A queda do muro de Berlim, o 11 de Setembro, as vitórias políticas e desportivas, os Nóbeis, as mortes de figuras de grande notoriedade, os avanços da ciência, as chacinas e as guerras - tudo se encontra nessas páginas. Sem referir as embaladas em publicidade, como ocorreu algumas vezes.
Diz o director do jornal que a primeira página sofreu "alterações de forma e, por vezes, de estilo". Ele não diz, mas deve referir-se à transformação gráfica de 2001, que provocou muitas cartas de leitor, até o director entender que não se publicariam mais cartas de leitores contrários à remodelação. Aliás, não terá havido proporção entre as cartas de desagrado e as efectivamente publicadas face às poucas cartas de apoio.
Um pormenor curioso - que consta da informação prestada na última página impressa do livro - é a da digitalização dos jornais a partir de 2001. A qualidade de reprodução é muito melhor que a da reprodução dos anos anteriores - com base nos jornais impressos. Absorvidos no quotidiano, não nos damos conta das transformações dos jornais - e dos outros media. Interessante ainda o facto de, no cabeçalho do jornal, se ter abandonado a indicação da morada física do periódico para passar a existir o endereço electrónico.
Por último, destaco o peso das metareferências dos media. Ainda no domingo, com a edição do Diário de Notícias, foi distribuído um CD com sons da TSF, agora que passam 16 anos de actividade da estação de rádio. As auto-promoções passam também por esta área. Trata-se, num caso como noutro, de magníficos instrumentos de trabalho, que interessam sobremaneira aos investigadores.
Saíu hoje o livro das primeiras páginas do jornal Público. São 300 páginas entre 1990 e 2003, custando €25.
Pela sua leitura - uma escolha entre as mais de cinco mil primeiras páginas já editados pelo jornal - consegue-se compreender a marcha dos acontecimentos mais marcantes dos anos recentes. O livro interessa a historiadores, a semiólogos, a sociólogos, a jornalistas. A queda do muro de Berlim, o 11 de Setembro, as vitórias políticas e desportivas, os Nóbeis, as mortes de figuras de grande notoriedade, os avanços da ciência, as chacinas e as guerras - tudo se encontra nessas páginas. Sem referir as embaladas em publicidade, como ocorreu algumas vezes.
Diz o director do jornal que a primeira página sofreu "alterações de forma e, por vezes, de estilo". Ele não diz, mas deve referir-se à transformação gráfica de 2001, que provocou muitas cartas de leitor, até o director entender que não se publicariam mais cartas de leitores contrários à remodelação. Aliás, não terá havido proporção entre as cartas de desagrado e as efectivamente publicadas face às poucas cartas de apoio.
Um pormenor curioso - que consta da informação prestada na última página impressa do livro - é a da digitalização dos jornais a partir de 2001. A qualidade de reprodução é muito melhor que a da reprodução dos anos anteriores - com base nos jornais impressos. Absorvidos no quotidiano, não nos damos conta das transformações dos jornais - e dos outros media. Interessante ainda o facto de, no cabeçalho do jornal, se ter abandonado a indicação da morada física do periódico para passar a existir o endereço electrónico.
Por último, destaco o peso das metareferências dos media. Ainda no domingo, com a edição do Diário de Notícias, foi distribuído um CD com sons da TSF, agora que passam 16 anos de actividade da estação de rádio. As auto-promoções passam também por esta área. Trata-se, num caso como noutro, de magníficos instrumentos de trabalho, que interessam sobremaneira aos investigadores.
quinta-feira, 4 de março de 2004
PELOS REINOS DA DISNEY
Após uma sessão de cinco horas em Filadélfia, e com a presença de três mil accionistas, Michael Eisner deixou ontem a presidência da Disney, como se discutia desde há semanas.
Dois membros da administração que se haviam demitido em Novembro – Stanley Gold e Roy Disney, sobrinho do fundador da companhia (e que liderou esta revolta do rato Mickey) – estavam felizes no final da assembleia-geral. Mas as notícias ainda não dão muito bem conta do que vai acontecer. Primeiro, parece que se tratou de um conflito de personalidades e não da discussão estratégica do que deve ser a visão empresarial. Depois, sabe-se que, para o lugar de presidente, Eisner foi substituído por George Mitchell, antigo senador e negociador da paz na Irlanda do norte, que já pertencia ao conselho de administração há nove anos. Mas Eisner, de 61 anos, permanecerá como administrador executivo (CEO), ele que acumulava as duas funções. Como será a coabitação? Adivinham-se fortes atritos, ou este é o princípio do fim de Eisner?
Pode ler mais em Independent.co.uk News.
TVI LIDERA SHARES DE AUDIÊNCIA EM FEVEREIRO
Embora com uma escassa margem, a TVI teve, em Fevereiro, 29,7% de share de audiência, o que permitiu à estação recuperar a liderança perdida em Abril de 2003 para a SIC. Pode ler mais em Marktest.
MEDIA CAPITAL NA BOLSA
Em comunicado, a Media Capital confirmou o que já se sabia há semanas, conhecimento reforçado pela campanha de publicidade institucional em curso: a ida a bolsa para cotação. O grupo multimedia (televisão, rádio, outdoors, internet e cinema, através da Castello Lopes) pretende fazer uma oferta pública inicial que deverá atingir 250 milhões de euros.
Após uma sessão de cinco horas em Filadélfia, e com a presença de três mil accionistas, Michael Eisner deixou ontem a presidência da Disney, como se discutia desde há semanas.
Dois membros da administração que se haviam demitido em Novembro – Stanley Gold e Roy Disney, sobrinho do fundador da companhia (e que liderou esta revolta do rato Mickey) – estavam felizes no final da assembleia-geral. Mas as notícias ainda não dão muito bem conta do que vai acontecer. Primeiro, parece que se tratou de um conflito de personalidades e não da discussão estratégica do que deve ser a visão empresarial. Depois, sabe-se que, para o lugar de presidente, Eisner foi substituído por George Mitchell, antigo senador e negociador da paz na Irlanda do norte, que já pertencia ao conselho de administração há nove anos. Mas Eisner, de 61 anos, permanecerá como administrador executivo (CEO), ele que acumulava as duas funções. Como será a coabitação? Adivinham-se fortes atritos, ou este é o princípio do fim de Eisner?
Pode ler mais em Independent.co.uk News.
TVI LIDERA SHARES DE AUDIÊNCIA EM FEVEREIRO
Embora com uma escassa margem, a TVI teve, em Fevereiro, 29,7% de share de audiência, o que permitiu à estação recuperar a liderança perdida em Abril de 2003 para a SIC. Pode ler mais em Marktest.
MEDIA CAPITAL NA BOLSA
Em comunicado, a Media Capital confirmou o que já se sabia há semanas, conhecimento reforçado pela campanha de publicidade institucional em curso: a ida a bolsa para cotação. O grupo multimedia (televisão, rádio, outdoors, internet e cinema, através da Castello Lopes) pretende fazer uma oferta pública inicial que deverá atingir 250 milhões de euros.
quarta-feira, 3 de março de 2004
SOBRE UMA ENTREVISTA DE RITA FIGUEIRAS
Com livro apontado para sair este ano na editora Livros Horizonte (colecção CIMJ), Os opinion maker na imprensa de referência portuguesa 1980-1999, Rita Figueiras foi entrevistada no número mais recente da JJ – Jornalismo & Jornalistas. Em trabalho conduzido por Carla Martins, a investigadora e professora da Universidade Católica Portuguesa parte da noção de Espaço Opinião nos media, o qual simula a diversidade e o pluralismo através da presença de múltiplas perspectivas. Melhor dizendo, o Espaço Opinião é um arquétipo do espaço público simbólico em que se encontram o editorial do jornal, os espaços dos fazedores de opinião, os convidados, as cartas de leitor, a ficha técnica, as citações. Nessas páginas, pretende-se simular fisicamente o que se entende por opinião pública, a opinião formada dos vários sectores que compõem a sociedade.
Rita Figueiras identifica e analisa um dos players mais importantes do Espaço Opinião – o Opinion Maker (fazedor de opinião), que exerce uma função crítica (eu diria fortemente opinativa), expressa em artigos e comentários. Por vezes, as suas posições remetem o jornalista para o papel de mensageiro e de pé de microfone. O Opinion Maker é, predominantemente, um não-jornalista, com uma competência determinada (especialista ou, frequentemente, alguém de grande disponibilidade a nível de discurso, dizendo coisas “de uma forma muito acabada, num tom muito peremptório, o que, do ponto de vista mediático, é altamente apelativo”). Há benefícios mútuos para os fazedores de opinião e os media em que comunicam: aqueles com vantagens de índole nobre (a participação na formação da opinião pública) e pragmáticas (reconhecimento público das suas posições); os media porque capitalizam a notoriedade dos Opinion Makers, no que se transforma numa imagem de marca do meio de comunicação social.
Notas: A revista JJ aqui referenciada é o número 17 (Janeiro/Março de 2004). Traz um artigo de Rómulo de Carvalho (O uso da linguagem científica na comunicação social). O meu destaque vai ainda para um artigo de Vanda Ferreira sobre os maiores mercados de jornais.
A editora Livros Horizonte (na colecção CIMJ) editará mais cinco livros até Dezembro:
João Carlos Correia, Comunicação e cidadania. Os media e a dinâmica das identidades na sociedade
João Carlos Correia, Comunicação e sociedade: a fenomenologia de Alfred Schutz
Maria João Silveirinha, A formação das identidades nas democracias liberais. Comunicação e mediações sociais
Maria João Silveirinha (org.), As mulheres e os media
Cristina Ponte, Leitura das notícias. Linhas de análise do discurso jornalístico
DE UM LIVRO DE (E SOBRE) STUART HALL
“O mito de origem dos Estudos Culturais reza que Stuart Hall é seu pai. Foi director do Centre for Contemporary Cultural Studies (CCCS) da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, durante o seu período mais fértil, os anos 70. Na verdade, é um dos pais, pois o mito de origem inclui Richard Hoggart, Raymond Williams e, às vezes, E. P. Thompson nesse papel. Mas foi Stuart Hall quem assumiu os Estudos Culturais como projecto institucional na Open University, e continuou, periodicamente, a se pronunciar sobre os rumos de algo que se tornou um movimento académico-intelectual internacional. […] Quando colocado na posição de grande mestre e exaltado por aquilo que escreveu, Hall desconversa, pois, mais importante do que criar discípulos, é alimentar o debate sobre a temática. Diante de um comentário sobre a importância do seu ensaio «Que ‘negro’ é esse na cultura negra?», reforçou a metáfora antropofágica ao dizer: «Help yourself». Sirva-se. […] Com a preocupação de fazer dialogar uma teorização complexa e sofisticada com as demandas de segmentos sociais, Hall transferiu-se, em 1979, de Birmingham para a Open University, uma instituição de ensino superior na qual adultos obtêm diplomas universitários através de uma combinação de educação a distância e seminários intensivos. […] Nos anos 80 e 90, veio a aceitação dos Estudos Culturais no meio académico britânico e a sua incorporação pela indústria editorial como linha de produção académica e de interesse geral, com boas vendas. Finalmente, Stuart Hall assistiu a um crescente interesse pelos Estudos Culturais fora da Grã-Bretanha, por estudiosos nos mais diversos lugares, principalmente no enorme e rico meio universitário dos Estados Unidos”.
Stuart Hall nasceu em 1932 na Jamaica.
(do texto de introdução de Liv Sovik ao livro Stuart Hall. Da diáspora – identidades e mediações culturais. Organizado por Liv Sovik, e editado em Belo Horizonte e Brasília, pela Editora UFMG e pela Unesco, em 2003. O meu obrigado a Juliana Iorio que me trouxe do Brasil este exemplar que vou ler o mais rapidamente possível)
Com livro apontado para sair este ano na editora Livros Horizonte (colecção CIMJ), Os opinion maker na imprensa de referência portuguesa 1980-1999, Rita Figueiras foi entrevistada no número mais recente da JJ – Jornalismo & Jornalistas. Em trabalho conduzido por Carla Martins, a investigadora e professora da Universidade Católica Portuguesa parte da noção de Espaço Opinião nos media, o qual simula a diversidade e o pluralismo através da presença de múltiplas perspectivas. Melhor dizendo, o Espaço Opinião é um arquétipo do espaço público simbólico em que se encontram o editorial do jornal, os espaços dos fazedores de opinião, os convidados, as cartas de leitor, a ficha técnica, as citações. Nessas páginas, pretende-se simular fisicamente o que se entende por opinião pública, a opinião formada dos vários sectores que compõem a sociedade.
Rita Figueiras identifica e analisa um dos players mais importantes do Espaço Opinião – o Opinion Maker (fazedor de opinião), que exerce uma função crítica (eu diria fortemente opinativa), expressa em artigos e comentários. Por vezes, as suas posições remetem o jornalista para o papel de mensageiro e de pé de microfone. O Opinion Maker é, predominantemente, um não-jornalista, com uma competência determinada (especialista ou, frequentemente, alguém de grande disponibilidade a nível de discurso, dizendo coisas “de uma forma muito acabada, num tom muito peremptório, o que, do ponto de vista mediático, é altamente apelativo”). Há benefícios mútuos para os fazedores de opinião e os media em que comunicam: aqueles com vantagens de índole nobre (a participação na formação da opinião pública) e pragmáticas (reconhecimento público das suas posições); os media porque capitalizam a notoriedade dos Opinion Makers, no que se transforma numa imagem de marca do meio de comunicação social.
Notas: A revista JJ aqui referenciada é o número 17 (Janeiro/Março de 2004). Traz um artigo de Rómulo de Carvalho (O uso da linguagem científica na comunicação social). O meu destaque vai ainda para um artigo de Vanda Ferreira sobre os maiores mercados de jornais.
A editora Livros Horizonte (na colecção CIMJ) editará mais cinco livros até Dezembro:
João Carlos Correia, Comunicação e cidadania. Os media e a dinâmica das identidades na sociedade
João Carlos Correia, Comunicação e sociedade: a fenomenologia de Alfred Schutz
Maria João Silveirinha, A formação das identidades nas democracias liberais. Comunicação e mediações sociais
Maria João Silveirinha (org.), As mulheres e os media
Cristina Ponte, Leitura das notícias. Linhas de análise do discurso jornalístico
DE UM LIVRO DE (E SOBRE) STUART HALL
“O mito de origem dos Estudos Culturais reza que Stuart Hall é seu pai. Foi director do Centre for Contemporary Cultural Studies (CCCS) da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, durante o seu período mais fértil, os anos 70. Na verdade, é um dos pais, pois o mito de origem inclui Richard Hoggart, Raymond Williams e, às vezes, E. P. Thompson nesse papel. Mas foi Stuart Hall quem assumiu os Estudos Culturais como projecto institucional na Open University, e continuou, periodicamente, a se pronunciar sobre os rumos de algo que se tornou um movimento académico-intelectual internacional. […] Quando colocado na posição de grande mestre e exaltado por aquilo que escreveu, Hall desconversa, pois, mais importante do que criar discípulos, é alimentar o debate sobre a temática. Diante de um comentário sobre a importância do seu ensaio «Que ‘negro’ é esse na cultura negra?», reforçou a metáfora antropofágica ao dizer: «Help yourself». Sirva-se. […] Com a preocupação de fazer dialogar uma teorização complexa e sofisticada com as demandas de segmentos sociais, Hall transferiu-se, em 1979, de Birmingham para a Open University, uma instituição de ensino superior na qual adultos obtêm diplomas universitários através de uma combinação de educação a distância e seminários intensivos. […] Nos anos 80 e 90, veio a aceitação dos Estudos Culturais no meio académico britânico e a sua incorporação pela indústria editorial como linha de produção académica e de interesse geral, com boas vendas. Finalmente, Stuart Hall assistiu a um crescente interesse pelos Estudos Culturais fora da Grã-Bretanha, por estudiosos nos mais diversos lugares, principalmente no enorme e rico meio universitário dos Estados Unidos”.
Stuart Hall nasceu em 1932 na Jamaica.
(do texto de introdução de Liv Sovik ao livro Stuart Hall. Da diáspora – identidades e mediações culturais. Organizado por Liv Sovik, e editado em Belo Horizonte e Brasília, pela Editora UFMG e pela Unesco, em 2003. O meu obrigado a Juliana Iorio que me trouxe do Brasil este exemplar que vou ler o mais rapidamente possível)
terça-feira, 2 de março de 2004
SOBRE OS JORNAIS
1. “Jornais diários ganham 107 mil leitores em dez anos” (Diário Económico), “24 Horas e CM foram os jornais que mais aumentaram as vendas nos últimos cinco anos” (Público): eis dois títulos de jornais editados ontem e que reflectem dados da Associação Portuguesa de Controlo de Tiragem (APCT). A APCT foi instituída em Maio de 1986, “com o objectivo de comprovar e certificar os números de tiragem e circulação dos editores associados, bem como a sua penetração geográfica no mercado”.
Para o Diário Económico, a informação de maior relevo é o aumento dos matutinos em 24,5% do número de leitores desde 1993, correspondendo a mais 107 mil leitores em Portugal. Destes, os jornais generalistas Correio da Manhã e Jornal de Notícias foram os que verificaram um maior aumento. Analisando os mesmos dados da APCT, o Público prefere destacar o aumento da circulação média por edição no período 1998-2003 dos jornais 24 Horas e Correio da Manhã. O Diário Económico chama também a atenção para o fenómeno dos jornais gratuitos em Portugal, com custos baixos de produção, redacções pequenas e informação quase sempre local. Neste momento, são gratuitos os jornais da Região (grupo Impresa) e Destak, distribuído no metro e nos comboios de Lisboa, bem como alguns jornais sectoriais. Quanto aos jornais desportivos, o Público refere as tendências erráticas em termos de tiragens deste tipo de publicações. Escreve-se: É também na imprensa desportiva que se adivinha a maior descida do número de exemplares vendidos e oferecidos nestes cinco anos em análise”.
O atento Manuel Pinto (Jornalismo e Comunicação), em comentário de ontem no seu weblog, escreveu: “É certo que se regista um crescimento significativo de jornais como o Correio da Manhã e Jornal de Notícias. Mas é indesmentível o peso da imprensa gratuita e dos diários desportivos (um caso que merecia um estudo aprofundado e uma análise comparativa com o que se passa noutros países). Por outro lado, não parece preocupar muito os comentadores - responsáveis de pelo menos dois dos jornais portugueses de referência, citados na notícia, o facto de os segmentos de leitores mais jovens estarem aparentemente cada vez mais afastados do hábito da leitura de diários”.
2. Segundo a Meios & Publicidade, o Diário de Notícias prepara alterações no seu grafismo e conteúdo. Na altura de comemorar 140 anos, entre as novidades, “poderão estar a mudança da página do editorial, que deverá passar para o início do jornal, assim como a passagem da programação a apenas uma página. Por outro lado, o título deverá perder o tom cor-de-laranja durante a semana e aos sábados, passando a actual configuração do jornal a sair unicamente aos domingos. Os colunistas do Diário de Notícias também poderão ser alterados”. Refira-se que o Diário de Notícias baixou a sua tiragem de 52 mil exemplares em 1998 para 47 mil em 2003, altura em que Bettencourt Resendes foi substituído à frente do jornal pelo actual director Fernando Lima.
3. Ainda segundo a newsletter de hoje da Meios & Publicidade, há novidades sobre a revista do grupo Cofina, a lançar até Junho. Ela chamar-se-á Sábado e tem saída semanal prevista à sexta-feira. A Cofina reconhece o prestígio do título que existiu há uma década atrás, pelo que decidiu recuperá-lo. A direcção editorial conta com João Marcelino, actual director do Correio da Manhã, e com o jornalista João Gobern na direcção. A redacção, já completa, começa hoje a trabalhar no edifício do jornal desportivo Record, também pertença da Cofina. Ainda por definir estão o dia do lançamento oficial e o preço de capa da revista.
1. “Jornais diários ganham 107 mil leitores em dez anos” (Diário Económico), “24 Horas e CM foram os jornais que mais aumentaram as vendas nos últimos cinco anos” (Público): eis dois títulos de jornais editados ontem e que reflectem dados da Associação Portuguesa de Controlo de Tiragem (APCT). A APCT foi instituída em Maio de 1986, “com o objectivo de comprovar e certificar os números de tiragem e circulação dos editores associados, bem como a sua penetração geográfica no mercado”.
Para o Diário Económico, a informação de maior relevo é o aumento dos matutinos em 24,5% do número de leitores desde 1993, correspondendo a mais 107 mil leitores em Portugal. Destes, os jornais generalistas Correio da Manhã e Jornal de Notícias foram os que verificaram um maior aumento. Analisando os mesmos dados da APCT, o Público prefere destacar o aumento da circulação média por edição no período 1998-2003 dos jornais 24 Horas e Correio da Manhã. O Diário Económico chama também a atenção para o fenómeno dos jornais gratuitos em Portugal, com custos baixos de produção, redacções pequenas e informação quase sempre local. Neste momento, são gratuitos os jornais da Região (grupo Impresa) e Destak, distribuído no metro e nos comboios de Lisboa, bem como alguns jornais sectoriais. Quanto aos jornais desportivos, o Público refere as tendências erráticas em termos de tiragens deste tipo de publicações. Escreve-se: É também na imprensa desportiva que se adivinha a maior descida do número de exemplares vendidos e oferecidos nestes cinco anos em análise”.
O atento Manuel Pinto (Jornalismo e Comunicação), em comentário de ontem no seu weblog, escreveu: “É certo que se regista um crescimento significativo de jornais como o Correio da Manhã e Jornal de Notícias. Mas é indesmentível o peso da imprensa gratuita e dos diários desportivos (um caso que merecia um estudo aprofundado e uma análise comparativa com o que se passa noutros países). Por outro lado, não parece preocupar muito os comentadores - responsáveis de pelo menos dois dos jornais portugueses de referência, citados na notícia, o facto de os segmentos de leitores mais jovens estarem aparentemente cada vez mais afastados do hábito da leitura de diários”.
2. Segundo a Meios & Publicidade, o Diário de Notícias prepara alterações no seu grafismo e conteúdo. Na altura de comemorar 140 anos, entre as novidades, “poderão estar a mudança da página do editorial, que deverá passar para o início do jornal, assim como a passagem da programação a apenas uma página. Por outro lado, o título deverá perder o tom cor-de-laranja durante a semana e aos sábados, passando a actual configuração do jornal a sair unicamente aos domingos. Os colunistas do Diário de Notícias também poderão ser alterados”. Refira-se que o Diário de Notícias baixou a sua tiragem de 52 mil exemplares em 1998 para 47 mil em 2003, altura em que Bettencourt Resendes foi substituído à frente do jornal pelo actual director Fernando Lima.
3. Ainda segundo a newsletter de hoje da Meios & Publicidade, há novidades sobre a revista do grupo Cofina, a lançar até Junho. Ela chamar-se-á Sábado e tem saída semanal prevista à sexta-feira. A Cofina reconhece o prestígio do título que existiu há uma década atrás, pelo que decidiu recuperá-lo. A direcção editorial conta com João Marcelino, actual director do Correio da Manhã, e com o jornalista João Gobern na direcção. A redacção, já completa, começa hoje a trabalhar no edifício do jornal desportivo Record, também pertença da Cofina. Ainda por definir estão o dia do lançamento oficial e o preço de capa da revista.
segunda-feira, 1 de março de 2004
CINEMA NA TELEVISÃO
Agora que já se conhecem os vencedores dos Óscares de Hollywood - e o grosso dos prémios foi para o Senhor dos anéis - vale a pena escrever sobre cinema na televisão. Isto com base numa notícia publicada ontem no El Pais.
Durante anos, diz a notícia, o cinema foi o pilar da programação dos canais de televisão em Espanha. Era um valor seguro para prender as audiências. Hoje, a aposta está nas séries televisivas. Mas o cinema continua presente, embora em menor representatividade. Num relatório sobre 2003, a Entidad de Gestión de los Derechos de Productores Audiovisuales conclui que "o cinema perdeu o protagonismo nos ecrãs de televisão" em termos de quantidade. O fenómeno explica-se pela mudança da política de contratação dos canais, devido ao aumento dos custos de contratação do cinema por imposição das grandes majors americanas e, ao mesmo tempo, à vontade dos canais reduzirem custos. Mas não há um critério uniforme. Se o primeiro canal da TVE dá relevo ao cinema americano mais conhecido, com estrelas de nomeada e temas de acção ou suspense, o segundo canal do Estado privilegia as películas espanholas, os dramas, os títulos românticos e os melodramas. Já o Canal + e o Digital + têm por base a programação cinematográfica.
Nota-se optimismo na passagem do cinema espanhol nos canais de televisão, apoiado pelos números: a RTVE investiu 24 milhões de euros no cinema espanhol em 2001, valor que subiu para 39,5 milhões em 2003, ao passo que descem as previsões de compras de longas-metragens americanas (86 milhões em 2002 para 35 este ano). E os dados agora disponibilizados mostram que quando há um filme a passar na televisão os shares são bons. A notícia do El Pais cita algumas películas espanholas que atingiram um share bem acima dos 25%. Como conclusão, considera-se que o investimento em cinema é importante, dada a actual grande criatividade em Espanha nesta indústria. Em que a televisão também ganha, ao passar após o êxito nas salas de cinema tais películas, amortizando os custos iniciais.
E como vamos em Portugal?
Agora que já se conhecem os vencedores dos Óscares de Hollywood - e o grosso dos prémios foi para o Senhor dos anéis - vale a pena escrever sobre cinema na televisão. Isto com base numa notícia publicada ontem no El Pais.
Durante anos, diz a notícia, o cinema foi o pilar da programação dos canais de televisão em Espanha. Era um valor seguro para prender as audiências. Hoje, a aposta está nas séries televisivas. Mas o cinema continua presente, embora em menor representatividade. Num relatório sobre 2003, a Entidad de Gestión de los Derechos de Productores Audiovisuales conclui que "o cinema perdeu o protagonismo nos ecrãs de televisão" em termos de quantidade. O fenómeno explica-se pela mudança da política de contratação dos canais, devido ao aumento dos custos de contratação do cinema por imposição das grandes majors americanas e, ao mesmo tempo, à vontade dos canais reduzirem custos. Mas não há um critério uniforme. Se o primeiro canal da TVE dá relevo ao cinema americano mais conhecido, com estrelas de nomeada e temas de acção ou suspense, o segundo canal do Estado privilegia as películas espanholas, os dramas, os títulos românticos e os melodramas. Já o Canal + e o Digital + têm por base a programação cinematográfica.
Nota-se optimismo na passagem do cinema espanhol nos canais de televisão, apoiado pelos números: a RTVE investiu 24 milhões de euros no cinema espanhol em 2001, valor que subiu para 39,5 milhões em 2003, ao passo que descem as previsões de compras de longas-metragens americanas (86 milhões em 2002 para 35 este ano). E os dados agora disponibilizados mostram que quando há um filme a passar na televisão os shares são bons. A notícia do El Pais cita algumas películas espanholas que atingiram um share bem acima dos 25%. Como conclusão, considera-se que o investimento em cinema é importante, dada a actual grande criatividade em Espanha nesta indústria. Em que a televisão também ganha, ao passar após o êxito nas salas de cinema tais películas, amortizando os custos iniciais.
E como vamos em Portugal?
domingo, 29 de fevereiro de 2004
AFINAL, MAIS AINDA SOBRE A CULTURA DA INDÚSTRIA
Uma citação apenas:
"Onde Benjamin via poder democratizador, nomeadamente pela tendencial universalização do acesso à produção cultural, vê Adorno apenas uma mais eficaz integração na lógica mercantil capitalista e a redução do receptor ao estatuto de simples consumidor, expropriado de toda a possibilidade de afirmação autónoma por máquinas de comunicação progressivamente centralizadas" (prefácio de António Sousa Ribeiro à obra de Adorno Sobre a indústria da cultura, editado em 2003 pela Angelus Novus, p. 8).
Uma citação apenas:
"Onde Benjamin via poder democratizador, nomeadamente pela tendencial universalização do acesso à produção cultural, vê Adorno apenas uma mais eficaz integração na lógica mercantil capitalista e a redução do receptor ao estatuto de simples consumidor, expropriado de toda a possibilidade de afirmação autónoma por máquinas de comunicação progressivamente centralizadas" (prefácio de António Sousa Ribeiro à obra de Adorno Sobre a indústria da cultura, editado em 2003 pela Angelus Novus, p. 8).
sábado, 28 de fevereiro de 2004
AINDA A CULTURA DA INDÚSTRIA - OU O CINEMA NA TELEVISÃO
Tem sido considerável o peso da ficção cinematográfica na televisão. Seguindo a distinção introduzida por Patrice Flichy (1980, Les industries de l'imaginaire, Presses Universitaires de Grenoble. Eu possuo a edição de 1991), detectam-se indústrias de fluxo (produtos determinados pela continuidade, caso do jornal diário) e editorial ou mercadoria cultural (caso do livro ou do filme, sem o constrangimento da hora de fecho do jornal ou do noticiário televisivo).
Ora, o filme na televisão é um produto editorial que se insere no fluxo contínuo da programação. O filme transforma-se em série, arrastando consigo - como escreve Bustamante (2003, A economia da televisão, Porto: Campo das Letras) - todo o imaginário colectivo do cinema: géneros cinematográficos, estrelas, estúdios. O uso habitual do filme na televisão foi tardio nas cadeias norte-americanas, tornando-se depois um elemento fundamental na programação televisiva, mas foi substituido lentamente pela ficção televisiva. Na Europa, com o arranque da televisão privada eleva-se o número das longas-metragens, quer nas estações públicas quer nas novas estações (Bustamante, 2003: 109). O mesmo autor destaca o uso do cinema na televisão: primeiro, para tapar buracos na programação; nos anos 1960 e 1970, a televisão, ainda pública, torna-se uma espécie de cineclube, com o cinema a ser uma referência máxima do audiovisual. Depois, a partir dos anos 1970, a televisão apropria-se do cinema e absorve os seus universos, linguagens e mundos técnicos (Bustamante, idem). O cinema constitui-se como o modelo da ficção televisiva, "género de assalto" da televisão privada, ainda para usar a expressão do autor espanhol que venho seguindo.
O Anuário de Comunicação 2002-2003 do Obercom traz dados relativos a 2001. De um total de 8746 horas de emissão televisiva da SIC, 2616 eram do género filmes cinematográficos, produções e vídeos televisivos e, dentro deste último valor, 776 eram cinema (quase 9% do número de horas de emissão). À frente do cinema em número de horas, a SIC em 2001 passou mais telenovelas (1323 horas), infantis e juvenis (1183 horas), talk-shows (1057 horas) e informação diária (809 horas). Muito atrás vinham concursos, reality-shows, desporto, recreativos e variedades, entre outros géneros. No mesmo ano de 2001, concluiam-se 12 longas metragens de ficção de cineastas portugueses, sendo 6 exclusivamente nacionais, enquanto o financiamento do ICAM para novas longas metragens atingia 4,5 milhões de euros, traduzido em 79,1% do total desses filmes (incluindo co-produções). O Obercom, neste anuário, não traz indicações quanto ao número de espectadores que visionaram os filmes (nomeadamente portugueses) passados na televisão, o que daria uma ideia interessante da inserção de um meio no outro meio.
É óbvio, contudo, perceber a importância que a televisão tem hoje para o cinema. Neste sítio, tenho referido o peso crescente dos DVD na promoção (e venda, claro) dos filmes que passam nos ecrãs. Em vez de se falar de fronteiras não será melhor falar de especificidades e de complementaridades, dentro da cadeia de valor das indústrias culturais?
Tem sido considerável o peso da ficção cinematográfica na televisão. Seguindo a distinção introduzida por Patrice Flichy (1980, Les industries de l'imaginaire, Presses Universitaires de Grenoble. Eu possuo a edição de 1991), detectam-se indústrias de fluxo (produtos determinados pela continuidade, caso do jornal diário) e editorial ou mercadoria cultural (caso do livro ou do filme, sem o constrangimento da hora de fecho do jornal ou do noticiário televisivo).
Ora, o filme na televisão é um produto editorial que se insere no fluxo contínuo da programação. O filme transforma-se em série, arrastando consigo - como escreve Bustamante (2003, A economia da televisão, Porto: Campo das Letras) - todo o imaginário colectivo do cinema: géneros cinematográficos, estrelas, estúdios. O uso habitual do filme na televisão foi tardio nas cadeias norte-americanas, tornando-se depois um elemento fundamental na programação televisiva, mas foi substituido lentamente pela ficção televisiva. Na Europa, com o arranque da televisão privada eleva-se o número das longas-metragens, quer nas estações públicas quer nas novas estações (Bustamante, 2003: 109). O mesmo autor destaca o uso do cinema na televisão: primeiro, para tapar buracos na programação; nos anos 1960 e 1970, a televisão, ainda pública, torna-se uma espécie de cineclube, com o cinema a ser uma referência máxima do audiovisual. Depois, a partir dos anos 1970, a televisão apropria-se do cinema e absorve os seus universos, linguagens e mundos técnicos (Bustamante, idem). O cinema constitui-se como o modelo da ficção televisiva, "género de assalto" da televisão privada, ainda para usar a expressão do autor espanhol que venho seguindo.
O Anuário de Comunicação 2002-2003 do Obercom traz dados relativos a 2001. De um total de 8746 horas de emissão televisiva da SIC, 2616 eram do género filmes cinematográficos, produções e vídeos televisivos e, dentro deste último valor, 776 eram cinema (quase 9% do número de horas de emissão). À frente do cinema em número de horas, a SIC em 2001 passou mais telenovelas (1323 horas), infantis e juvenis (1183 horas), talk-shows (1057 horas) e informação diária (809 horas). Muito atrás vinham concursos, reality-shows, desporto, recreativos e variedades, entre outros géneros. No mesmo ano de 2001, concluiam-se 12 longas metragens de ficção de cineastas portugueses, sendo 6 exclusivamente nacionais, enquanto o financiamento do ICAM para novas longas metragens atingia 4,5 milhões de euros, traduzido em 79,1% do total desses filmes (incluindo co-produções). O Obercom, neste anuário, não traz indicações quanto ao número de espectadores que visionaram os filmes (nomeadamente portugueses) passados na televisão, o que daria uma ideia interessante da inserção de um meio no outro meio.
É óbvio, contudo, perceber a importância que a televisão tem hoje para o cinema. Neste sítio, tenho referido o peso crescente dos DVD na promoção (e venda, claro) dos filmes que passam nos ecrãs. Em vez de se falar de fronteiras não será melhor falar de especificidades e de complementaridades, dentro da cadeia de valor das indústrias culturais?
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2004
A CULTURA DA INDÚSTRIA
Foi este o título que João Mário Grilo, reconhecido cineasta e professor universitário, deu na sua coluna semanal da revista Visão, no passado dia 12 de Fevereiro. A propósito de duas ocorrências: a) a apresentação do projecto de lei sobre a criação de um Fundo de Investimento e Desenvolvimento das Artes Cinematográficas e do Audiovisual; b) a edição recente, pela editora Angelus Novus, de uma colectânea de textos de Theodor Adorno sobre a crítica das indústrias culturais.
O texto de J. M. Grilo está escrito com muita elegância e precisão. Ele referencia alguns dos comentários de Theodor Adorno e conclui a sua peça com a seguinte afirmação: “O que equivale a dizer que a indústria cultural não é nenhuma realização (natural) da cultura na idade industrial, mas a sua pura e simples expropriação; a possibilidade de inscrever, nas designações ocas de arte e cultura, a mediocridade dos ciclos de produção e consumo. Na indústria cultural e nesse perverso jogo de ilusões, a arte dilui-se na vida para que a obra se converta no «produto» que apenas a promete e simula”.
Será que algo está “a mudar no reino português das imagens em movimento”?
Eis a parte substancial do subtítulo do texto escrito nas páginas seguintes da mesma edição da Visão, de autoria da jornalista Sara Belo Luís, ao mesmo assunto do diploma das artes cinematográficas e do audiovisual. O qual contém elementos interessantes para uma análise das indústrias culturais – o tema nuclear do blog.
O projecto de lei que institui o Fundo de Investimento e Desenvolvimento das Artes Cinematográficas e do Audiovisual (como já abordei neste sítio há dias atrás) prevê receitas vindas de operadores e distribuidores de televisão de pagamento (5% dos resultados líquidos) e dos distribuidores de cinema (um montante não inferior a 2%). Prevê ainda a participação de outras entidades com as quais se estabelecerão protocolos de investimento (a PT já assinou um protocolo nesse sentido, embora eu não saiba se na qualidade de detentora da rede de televisão por cabo, na de distribuidora de cinema ou na de outra entidade – por exemplo, a de produtora de conteúdos).
A peça de Sara Luís Belo dá conta dos interesses distintos dos vários players no terreno. Se um distribuidor (Castello Lopes) está contra (em causa um pagamento à cabeça pela distribuição), um produtor (Costa do Castelo) mostra contentamento pela reformulação do sector. Curiosas são, contudo, as posições de dois cineastas, a de António-Pedro Vasconcelos (presidente da Associação de Realizadores de Cinema e Audiovisuais), que entende ser “preciso acabar com a chantagem de que a indústria é dissociável da arte”, e a de J. M. Grilo (presidente da Associação Portuguesa de Realizadores), que pensa diferentemente, ao afirmar que “é preciso dizer onde é que está a arte do audiovisual. Não vejo nenhuma vantagem em que o cinema se articule com este tipo de negócio”. Dois cineastas, duas visões distintas. O que me faz levar ao texto do mesmo J. M. Grilo na mesma edição da revista que venho a citar.
Sobre as indústrias culturais
Na realidade, Adorno e o seu companheiro de exílio Horkheimer nomearam o conceito de indústria cultural no final dos anos de 1930. Fugidos da Alemanha, por serem judeus, encontraram um ambiente cultural nos Estados Unidos muito diverso da Europa central a que pertenciam. O jazz e o cinema eram as artes [ou indústrias culturais, se as quisermos classificar deste modo] mais desenvolvidas. Adorno e Horkheimer tinham uma vincada cultura clássica. Adorno era mesmo pianista, compositor e crítico musical, mas de música clássica, relevando muito embora os músicos dodecafónicos, com quem ele se dava muito bem. Importante salientar aqui é o choque dos dois alemães, provenientes da alta cultura (aristocrática ainda) europeia.
Os textos de Adorno agora compilados em português – o que é de saudar – pautam-se por esta dupla desconfiança: 1) estrangeiro, 2) mergulhado numa cultura etiquetada como sendo menor.
Ora, desde os anos de 1960, a análise das indústrias culturais alterou-se [sem contar com o belíssimo texto de Walter Benjamin sobre o cinema na era da reprodutibilidade técnica]. O primeiro foi Edgar Morin. Mas nos anos de 1980, outros franceses de envergadura deram uma interpretação mais coerente de indústrias culturais. Estou a pensar em Patrice Flichy e Bernard Miège [prometo escrever sobre eles uma outra ocasião, mas talvez noutro sítio que não este].
Em 2002, o inglês David Hesmondhalgh escreveu um importante texto chamado exactamente Cultural industries. Quase ao mesmo tempo, o espanhol Enrique Bustamante publicava o seu livro A economia da televisão, agora traduzido em português e já aqui referido. Seguindo de perto o basco Ramón Zallo, Bustamante escreve que o conceito de indústrias culturais se converteu “no núcleo central de uma teoria fecunda, sociológica e económica, orientada nestas últimas décadas para a compreensão da produção e consumo da cultura de massas. […] os produtos e serviços culturais são compostos por protótipos reprodutíveis, caracterizados por uma permanente renovação, de valorização aleatória (alto risco económico), com custos fixos elevados (a criação e fabricação do master) e custos variáveis baixos (a reprodução e distribuição)”.
Há, assim, duas visões do mundo das indústrias culturais, a de J. M. Grilo e a de E. Bustamante. Eu gosto mais da segunda, embora reconheça a potência da primeira. Aliás, alicerçada em textos recentes, como os de Andrew Beck (2003, Cultural work. Understanding the cultural industries, Routledge) e de Heinz Steinert (2003, Culture industry, Polity Press).
Foi este o título que João Mário Grilo, reconhecido cineasta e professor universitário, deu na sua coluna semanal da revista Visão, no passado dia 12 de Fevereiro. A propósito de duas ocorrências: a) a apresentação do projecto de lei sobre a criação de um Fundo de Investimento e Desenvolvimento das Artes Cinematográficas e do Audiovisual; b) a edição recente, pela editora Angelus Novus, de uma colectânea de textos de Theodor Adorno sobre a crítica das indústrias culturais.
O texto de J. M. Grilo está escrito com muita elegância e precisão. Ele referencia alguns dos comentários de Theodor Adorno e conclui a sua peça com a seguinte afirmação: “O que equivale a dizer que a indústria cultural não é nenhuma realização (natural) da cultura na idade industrial, mas a sua pura e simples expropriação; a possibilidade de inscrever, nas designações ocas de arte e cultura, a mediocridade dos ciclos de produção e consumo. Na indústria cultural e nesse perverso jogo de ilusões, a arte dilui-se na vida para que a obra se converta no «produto» que apenas a promete e simula”.
Será que algo está “a mudar no reino português das imagens em movimento”?
Eis a parte substancial do subtítulo do texto escrito nas páginas seguintes da mesma edição da Visão, de autoria da jornalista Sara Belo Luís, ao mesmo assunto do diploma das artes cinematográficas e do audiovisual. O qual contém elementos interessantes para uma análise das indústrias culturais – o tema nuclear do blog.
O projecto de lei que institui o Fundo de Investimento e Desenvolvimento das Artes Cinematográficas e do Audiovisual (como já abordei neste sítio há dias atrás) prevê receitas vindas de operadores e distribuidores de televisão de pagamento (5% dos resultados líquidos) e dos distribuidores de cinema (um montante não inferior a 2%). Prevê ainda a participação de outras entidades com as quais se estabelecerão protocolos de investimento (a PT já assinou um protocolo nesse sentido, embora eu não saiba se na qualidade de detentora da rede de televisão por cabo, na de distribuidora de cinema ou na de outra entidade – por exemplo, a de produtora de conteúdos).
A peça de Sara Luís Belo dá conta dos interesses distintos dos vários players no terreno. Se um distribuidor (Castello Lopes) está contra (em causa um pagamento à cabeça pela distribuição), um produtor (Costa do Castelo) mostra contentamento pela reformulação do sector. Curiosas são, contudo, as posições de dois cineastas, a de António-Pedro Vasconcelos (presidente da Associação de Realizadores de Cinema e Audiovisuais), que entende ser “preciso acabar com a chantagem de que a indústria é dissociável da arte”, e a de J. M. Grilo (presidente da Associação Portuguesa de Realizadores), que pensa diferentemente, ao afirmar que “é preciso dizer onde é que está a arte do audiovisual. Não vejo nenhuma vantagem em que o cinema se articule com este tipo de negócio”. Dois cineastas, duas visões distintas. O que me faz levar ao texto do mesmo J. M. Grilo na mesma edição da revista que venho a citar.
Sobre as indústrias culturais
Na realidade, Adorno e o seu companheiro de exílio Horkheimer nomearam o conceito de indústria cultural no final dos anos de 1930. Fugidos da Alemanha, por serem judeus, encontraram um ambiente cultural nos Estados Unidos muito diverso da Europa central a que pertenciam. O jazz e o cinema eram as artes [ou indústrias culturais, se as quisermos classificar deste modo] mais desenvolvidas. Adorno e Horkheimer tinham uma vincada cultura clássica. Adorno era mesmo pianista, compositor e crítico musical, mas de música clássica, relevando muito embora os músicos dodecafónicos, com quem ele se dava muito bem. Importante salientar aqui é o choque dos dois alemães, provenientes da alta cultura (aristocrática ainda) europeia.
Os textos de Adorno agora compilados em português – o que é de saudar – pautam-se por esta dupla desconfiança: 1) estrangeiro, 2) mergulhado numa cultura etiquetada como sendo menor.
Ora, desde os anos de 1960, a análise das indústrias culturais alterou-se [sem contar com o belíssimo texto de Walter Benjamin sobre o cinema na era da reprodutibilidade técnica]. O primeiro foi Edgar Morin. Mas nos anos de 1980, outros franceses de envergadura deram uma interpretação mais coerente de indústrias culturais. Estou a pensar em Patrice Flichy e Bernard Miège [prometo escrever sobre eles uma outra ocasião, mas talvez noutro sítio que não este].
Em 2002, o inglês David Hesmondhalgh escreveu um importante texto chamado exactamente Cultural industries. Quase ao mesmo tempo, o espanhol Enrique Bustamante publicava o seu livro A economia da televisão, agora traduzido em português e já aqui referido. Seguindo de perto o basco Ramón Zallo, Bustamante escreve que o conceito de indústrias culturais se converteu “no núcleo central de uma teoria fecunda, sociológica e económica, orientada nestas últimas décadas para a compreensão da produção e consumo da cultura de massas. […] os produtos e serviços culturais são compostos por protótipos reprodutíveis, caracterizados por uma permanente renovação, de valorização aleatória (alto risco económico), com custos fixos elevados (a criação e fabricação do master) e custos variáveis baixos (a reprodução e distribuição)”.
Há, assim, duas visões do mundo das indústrias culturais, a de J. M. Grilo e a de E. Bustamante. Eu gosto mais da segunda, embora reconheça a potência da primeira. Aliás, alicerçada em textos recentes, como os de Andrew Beck (2003, Cultural work. Understanding the cultural industries, Routledge) e de Heinz Steinert (2003, Culture industry, Polity Press).
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2004
EM DEFESA DOS LP (DISCOS DE VINIL)
No passado dia 20, no DN Mais, suplemento do Diário de Notícias, escrevia José Victor Henriques sobre gira-discos. Aparentemente uma matéria anacrónica. Mas a sua leitura despertou-me interesse, eu que, como a maior parte das pessoas, trocou o vinil pelo CD.
Gira-discos
J. V. Henriques apresenta-nos o gira-discos Musical Fidelity M1. Para o colunista, este M1 saiu das mãos de Anthony Michaelson, criador de alguns dos melhores leitores de CD da actualidade, caso do A308 cr (24-bit “upsampling”). Sem publicidade, pois não tenho qualquer interesse na marca, deixo aqui a sua imagem.
O gira-discos foi lançado em Dezembro último. Se se produz é prova que há ainda cultores do vinil que os compram! Sabe-se que os DJ preferem manipular os discos pretos na transição de músicas. Li, há algum tempo atrás, que abriu uma loja perto da estação ferroviária de Santa Apolónia (Lisboa), onde se podem comprar os nostálgicos discos pretos (mas não indaguei se há negócio ou se a loja ainda está viva). E na Feira da Ladra há quem venda preciosidades em vinil.
Deixo a publicidade que se encontra no sítio da Musical Fidelity: “Now, at last, I can give you a final price of £ [...] for the turntable with outboard power supply and magnificent SME pick-up arm. The production version of the M1 exceeds even our best hopes for performance, sound and aesthetics. Due to its high mass, rigid construction, state-of-the-art suspension system and naturally inert structure, the M1 produces uncoloured, clear lucid images, which are simply stunning to hear. Its clarity and musicality really took my breath away when I had a careful listen”. Qualidade sonora, design e estética em primeiro lugar nos produtos desta marca. Diz ainda mais a publicidade; “a marca compromete-se com o audiófilo e as raízes musicais”, num justo equilíbrio entre preço e performance. Espantosa esta promoção!
Resumindo, J. V. Henriques presta homenagem a um formato que “teima em resistir à morte anunciada, e que tem ganho adeptos à medida que a indústria não define os formatos de alta resolução”. Qual a principal diferença entre o som do LP e do CD, pergunta o mesmo articulista. Ele tece comparações com o jornal onde escreve: “No DNA as fotos são reproduzidas com mais resolução e as cores são mais saturadas. Por outro lado, no DNA as fotos são reproduzidas na íntegra, enquanto no DN Mais optam por vezes por recortá-las. As fotos recortadas têm, sem dúvida, mais impacto gráfico. Por outro lado, perde-se o contexto. Embora o CD tenha evoluído espectacularmente nos últimos cinco anos, o LP oferece-nos um som menos «recortado» mas mais rico em informação sobre o contexto acústico que o envolve”. E o autor destaca ainda a Linn, outra empresa dos velhos-sempre-novos gira-discos, que continua a vender o Sondek LP12.
O que se passa com as vendas dos CD?
Tudo isto é curioso se olharmos para os dados já publicados sobre vendas em Portugal no ano 2003. Para o Público de 24 de Fevereiro, a venda de CD caiu 10%. Só no Natal é que as coisas se recompuseram. E dos dez álbuns mais vendidos, cinco eram portugueses [o primeiro dos quais o "Concerto acústico", de Rui Veloso]. O número de unidades não terá atingido os 10 milhões, segundo dados da Associação Fonográfica Portuguesa, escreveu a jornalista Carla Gonçalves de Almeida [em termos de DVD, venderam-se 6,8 milhões de cópias, quase o triplo de 2002 (2,5 milhões); deste volume, destacam-se 753 mil unidades musicais].
Explicações? Falta de dinheiro e downloads grátis. Num texto assinado por V.B., fornecem-se mais pormenores. Nunca se criou tanta música como agora, nunca se realizaram tantos concertos com salas esgotadas como agora. Só que o bouquet de ofertas é mais complexo. Pode assistir-se ao concerto anunciado dos Limp Bizkit, pagando-se o seu ingresso, mas “saca-se” à borla o seu último disco, da internet. Toda a indústria está a encarar o fenómeno dos downloads e da pirataria dos CD de modo mais proactivo – aceitando que não há reversibilidade no processo e que é necessário alterar os processos de trabalho em toda a cadeia de valor da indústria. Para isso, baixam-se os preços dos CD e tenta-se rentabilizar os downloads, criando sítios pagos.
O pequeno artigo acaba com pessimismo: talvez o CD como o conhecemos tenha os dias contados. É aqui que entram os gira-discos. Revivalismos?
No passado dia 20, no DN Mais, suplemento do Diário de Notícias, escrevia José Victor Henriques sobre gira-discos. Aparentemente uma matéria anacrónica. Mas a sua leitura despertou-me interesse, eu que, como a maior parte das pessoas, trocou o vinil pelo CD.
Gira-discos
J. V. Henriques apresenta-nos o gira-discos Musical Fidelity M1. Para o colunista, este M1 saiu das mãos de Anthony Michaelson, criador de alguns dos melhores leitores de CD da actualidade, caso do A308 cr (24-bit “upsampling”). Sem publicidade, pois não tenho qualquer interesse na marca, deixo aqui a sua imagem.
O gira-discos foi lançado em Dezembro último. Se se produz é prova que há ainda cultores do vinil que os compram! Sabe-se que os DJ preferem manipular os discos pretos na transição de músicas. Li, há algum tempo atrás, que abriu uma loja perto da estação ferroviária de Santa Apolónia (Lisboa), onde se podem comprar os nostálgicos discos pretos (mas não indaguei se há negócio ou se a loja ainda está viva). E na Feira da Ladra há quem venda preciosidades em vinil.
Deixo a publicidade que se encontra no sítio da Musical Fidelity: “Now, at last, I can give you a final price of £ [...] for the turntable with outboard power supply and magnificent SME pick-up arm. The production version of the M1 exceeds even our best hopes for performance, sound and aesthetics. Due to its high mass, rigid construction, state-of-the-art suspension system and naturally inert structure, the M1 produces uncoloured, clear lucid images, which are simply stunning to hear. Its clarity and musicality really took my breath away when I had a careful listen”. Qualidade sonora, design e estética em primeiro lugar nos produtos desta marca. Diz ainda mais a publicidade; “a marca compromete-se com o audiófilo e as raízes musicais”, num justo equilíbrio entre preço e performance. Espantosa esta promoção!
Resumindo, J. V. Henriques presta homenagem a um formato que “teima em resistir à morte anunciada, e que tem ganho adeptos à medida que a indústria não define os formatos de alta resolução”. Qual a principal diferença entre o som do LP e do CD, pergunta o mesmo articulista. Ele tece comparações com o jornal onde escreve: “No DNA as fotos são reproduzidas com mais resolução e as cores são mais saturadas. Por outro lado, no DNA as fotos são reproduzidas na íntegra, enquanto no DN Mais optam por vezes por recortá-las. As fotos recortadas têm, sem dúvida, mais impacto gráfico. Por outro lado, perde-se o contexto. Embora o CD tenha evoluído espectacularmente nos últimos cinco anos, o LP oferece-nos um som menos «recortado» mas mais rico em informação sobre o contexto acústico que o envolve”. E o autor destaca ainda a Linn, outra empresa dos velhos-sempre-novos gira-discos, que continua a vender o Sondek LP12.
O que se passa com as vendas dos CD?
Tudo isto é curioso se olharmos para os dados já publicados sobre vendas em Portugal no ano 2003. Para o Público de 24 de Fevereiro, a venda de CD caiu 10%. Só no Natal é que as coisas se recompuseram. E dos dez álbuns mais vendidos, cinco eram portugueses [o primeiro dos quais o "Concerto acústico", de Rui Veloso]. O número de unidades não terá atingido os 10 milhões, segundo dados da Associação Fonográfica Portuguesa, escreveu a jornalista Carla Gonçalves de Almeida [em termos de DVD, venderam-se 6,8 milhões de cópias, quase o triplo de 2002 (2,5 milhões); deste volume, destacam-se 753 mil unidades musicais].
Explicações? Falta de dinheiro e downloads grátis. Num texto assinado por V.B., fornecem-se mais pormenores. Nunca se criou tanta música como agora, nunca se realizaram tantos concertos com salas esgotadas como agora. Só que o bouquet de ofertas é mais complexo. Pode assistir-se ao concerto anunciado dos Limp Bizkit, pagando-se o seu ingresso, mas “saca-se” à borla o seu último disco, da internet. Toda a indústria está a encarar o fenómeno dos downloads e da pirataria dos CD de modo mais proactivo – aceitando que não há reversibilidade no processo e que é necessário alterar os processos de trabalho em toda a cadeia de valor da indústria. Para isso, baixam-se os preços dos CD e tenta-se rentabilizar os downloads, criando sítios pagos.
O pequeno artigo acaba com pessimismo: talvez o CD como o conhecemos tenha os dias contados. É aqui que entram os gira-discos. Revivalismos?
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2004
PRODUÇÃO EM TELEVISÃO
O sector televisivo é de natureza complexa, integrando três tipos de actividade: 1) produção de conteúdos, 2) programação, e 3) difusão ou distribuição do sinal. O que proponho é, dentro da produção, seguir a tipologia trabalhada por Bustamante (2003: 117):
I) Pela sua natureza comercial
1) De fluxo (informativos, concursos, variedades): programas em geral de menores custos, mas efémeros e de curta vida comercial (raramente geram activos).
2) De stock (filmes, ficção televisiva, documentais, desenhos animados): programas com maior investimento e risco, mas geralmente com uma longa vida comercial e que geram activos empresariais.
A distinção entre fluxo e stock pertence a Patrice Flichy, em texto já antigo mas que mantém actualidade. Ele referia a existência de produtos contínuos (caso do jornal diário) e descontínuos (caso do filme), o que conduz a duas cadeias de valor diferentes. O filme, o disco ou o livro são protótipos (de custo inicial elevado ou muito elevado) que se reproduzem em quantidades variadas (de custo de reprodução muito baixo).
II) Pela sua origem
a) Produção própria: produzida total ou parcialmente pelo canal. 1) Produção interna: totalmente realizada pelo operador com os recursos próprios. 2) Produção externa: *) financiada: encomendada “chaves na mão” a um produtor externo, com total financiamento dos seus custos em dinheiro e recursos do canal, **) associada: co-produzida pelo canal com produtores independentes nacionais, ***) co-produção: co-produzida pelo canal em associação com produtores ou cadeias estrangeiros.
b) Produção alheia: compra de direitos de antena de programas produzidos sem colaboração do canal (produtos nacionais ou importados).
O peso acrescido da produção nacional nos anos 1990
Os canais privados de televisão que surgiram nas duas últimas décadas na Europa (em Portugal, em 1992, com a SIC, e 1993, com a TVI) iniciaram o seu percurso como difusores de programas alheios, excepto o que exigiam as concessões. Nos anos 1990, porém, alargou-se a produção nacional, em termos de ficção, com resultados superiores aos produtos norte-americanos, expulsando estes do prime-time (Bustamante, 2003: 119). Em Portugal, o salto dado pela TVI na produção de telenovelas portuguesas superou mesmo a visão de telenovelas brasileiras. O autor espanhol afirma mesmo que se estabelece mesmo uma rede de produção independente, pouco cultivada na história televisiva. É preciso, contudo, ter em conta que, na história da televisão pública, houve muitos géneros que foram produzidos internamente – o que leva a pensar na validade da afirmação do professor da Universidade Complutense. A tendência hoje visível precisa de ter maior consistência. Ainda não temos uma história económica completa da televisão pública e privada para fazermos um juízo definitivo.
Há, contudo, transformações que não se podem escamotear. Uma delas é a ligação entre o cinema e a televisão (e o aparecimento de entidades governamentais como o ICAM, que estimulam a ficção televisiva com a longa-metragem do cinema). Apesar da externalização, há apoios financeiros, que reduzem os custos e são sede de uma habitual maior criatividade. Em Portugal, há quase 40 produtores independentes de televisão, metade dos quais está associado na APIT, conforme post que coloquei no dia 19 deste mês. Bustamante (2003: 121) chama a atenção para a tendência de absorção vertical da produção, num controlo total da cadeia de valor. Outra das transformações, mais visível nos Estados Unidos que na Europa (e muito menos em Portugal), é o da criação de um segundo mercado (venda para circuitos diferentes, caso de mercados externos ou venda em DVD). Uma terceira transformação é a das co-produções internacionais. Finalmente, surge a ideia dos clones, os produtos testados num mercado nacional e adaptados a outros países. Lembramo-nos logo do reality-show Big Brother e da série Médico de família.
Bustamante salienta, na produção nacional, os seguintes géneros televisivos: longas-metragens, ficção televisiva, desporto de massas e telejornais. Estes têm um maior recurso a infotainment e auto-promoções, caso do noticiário da TVI. Nos géneros, acrescento, os concursos e reality-shows. Sánchez-Tabernero, em texto de 1997, salienta ainda a publicidade como género televisivo a não descurar.
Livros: Enrique Bustamante (2003). A economia da televisão. Porto: Campo das Letras (original de 1999)
Alfonso Sánchez-Tabernero et al. (1997). Estrategias de marketing de las empresas de televisión en España. Pamplona: EUNSA
O sector televisivo é de natureza complexa, integrando três tipos de actividade: 1) produção de conteúdos, 2) programação, e 3) difusão ou distribuição do sinal. O que proponho é, dentro da produção, seguir a tipologia trabalhada por Bustamante (2003: 117):
I) Pela sua natureza comercial
1) De fluxo (informativos, concursos, variedades): programas em geral de menores custos, mas efémeros e de curta vida comercial (raramente geram activos).
2) De stock (filmes, ficção televisiva, documentais, desenhos animados): programas com maior investimento e risco, mas geralmente com uma longa vida comercial e que geram activos empresariais.
A distinção entre fluxo e stock pertence a Patrice Flichy, em texto já antigo mas que mantém actualidade. Ele referia a existência de produtos contínuos (caso do jornal diário) e descontínuos (caso do filme), o que conduz a duas cadeias de valor diferentes. O filme, o disco ou o livro são protótipos (de custo inicial elevado ou muito elevado) que se reproduzem em quantidades variadas (de custo de reprodução muito baixo).
II) Pela sua origem
a) Produção própria: produzida total ou parcialmente pelo canal. 1) Produção interna: totalmente realizada pelo operador com os recursos próprios. 2) Produção externa: *) financiada: encomendada “chaves na mão” a um produtor externo, com total financiamento dos seus custos em dinheiro e recursos do canal, **) associada: co-produzida pelo canal com produtores independentes nacionais, ***) co-produção: co-produzida pelo canal em associação com produtores ou cadeias estrangeiros.
b) Produção alheia: compra de direitos de antena de programas produzidos sem colaboração do canal (produtos nacionais ou importados).
O peso acrescido da produção nacional nos anos 1990
Os canais privados de televisão que surgiram nas duas últimas décadas na Europa (em Portugal, em 1992, com a SIC, e 1993, com a TVI) iniciaram o seu percurso como difusores de programas alheios, excepto o que exigiam as concessões. Nos anos 1990, porém, alargou-se a produção nacional, em termos de ficção, com resultados superiores aos produtos norte-americanos, expulsando estes do prime-time (Bustamante, 2003: 119). Em Portugal, o salto dado pela TVI na produção de telenovelas portuguesas superou mesmo a visão de telenovelas brasileiras. O autor espanhol afirma mesmo que se estabelece mesmo uma rede de produção independente, pouco cultivada na história televisiva. É preciso, contudo, ter em conta que, na história da televisão pública, houve muitos géneros que foram produzidos internamente – o que leva a pensar na validade da afirmação do professor da Universidade Complutense. A tendência hoje visível precisa de ter maior consistência. Ainda não temos uma história económica completa da televisão pública e privada para fazermos um juízo definitivo.
Há, contudo, transformações que não se podem escamotear. Uma delas é a ligação entre o cinema e a televisão (e o aparecimento de entidades governamentais como o ICAM, que estimulam a ficção televisiva com a longa-metragem do cinema). Apesar da externalização, há apoios financeiros, que reduzem os custos e são sede de uma habitual maior criatividade. Em Portugal, há quase 40 produtores independentes de televisão, metade dos quais está associado na APIT, conforme post que coloquei no dia 19 deste mês. Bustamante (2003: 121) chama a atenção para a tendência de absorção vertical da produção, num controlo total da cadeia de valor. Outra das transformações, mais visível nos Estados Unidos que na Europa (e muito menos em Portugal), é o da criação de um segundo mercado (venda para circuitos diferentes, caso de mercados externos ou venda em DVD). Uma terceira transformação é a das co-produções internacionais. Finalmente, surge a ideia dos clones, os produtos testados num mercado nacional e adaptados a outros países. Lembramo-nos logo do reality-show Big Brother e da série Médico de família.
Bustamante salienta, na produção nacional, os seguintes géneros televisivos: longas-metragens, ficção televisiva, desporto de massas e telejornais. Estes têm um maior recurso a infotainment e auto-promoções, caso do noticiário da TVI. Nos géneros, acrescento, os concursos e reality-shows. Sánchez-Tabernero, em texto de 1997, salienta ainda a publicidade como género televisivo a não descurar.
Livros: Enrique Bustamante (2003). A economia da televisão. Porto: Campo das Letras (original de 1999)
Alfonso Sánchez-Tabernero et al. (1997). Estrategias de marketing de las empresas de televisión en España. Pamplona: EUNSA
terça-feira, 24 de fevereiro de 2004
Arte digital e cibernética
História. O nascimento da arte digital (então chamada arte por computador) ocorreu na exposição londrina Cybernetic serendipity (1968). A produção desses anos inspirar-se-ia bastante na abstracção geométrica. O aparecimento da imagem animada e de terceira dimensão (3D), no começo dos anos 1980, trouxe o cinema de animação e dos efeitos especiais e a vantagem suplementar sobre as duas dimensões – o volume. Construíam-se objectos por síntese, a partir de cálculos, com base em objectos reais, com realce para o filme de Steven Spielberg, Parque Jurássico (1993).
Já nos anos 1990, assistiu-se ao desenvolvimento acelerado da interactividade com a realidade virtual e os seus derivados, o multimedia e as redes digitais de comunicação, em que as trocas de informação entre o homem e o computador se fazem em tempo real e transitam nos dois sentidos. As imagens digitais apresentam, assim, duas características comuns: os cálculos automáticos feitos em computador e a interactividade entre quem os cria e quem é destinatário. Relação entre arte e ciência. São relações muito antigas, que remontam à pré-história ou ao Renascimento, para não sermos mais exigentes. Depois, na segunda metade do séc. XX, multiplicaram-se as referências à ciência: as matemáticas e a lógica inspiraram os minimalistas (métodos seriais e combinatórios), a óptica e a psicologia da percepção serviram de apoio à op art e à arte cinética, e a linguística estruturalista alimentou a arte conceptual.
No dobrar dos anos 1960, uma nova ciência impressionou os artistas – a cibernética, definida pela fórmula de Norbert Wiener como a ciência do controlo e da comunicação no animal e na máquina. Abraham Moles fundou a sua estética sobre a teoria da informação e Umberto Eco prolongava as suas teses ao desenvolver a teoria da obra aberta. Mais perto de nós, os temas do híbrido, do genético, do informacional e do artificial estão no centro de muitos dos trabalhos da arte digital.
Cibernética. Parece haver um regresso aos objectivos iniciais da cibernética – simular comportamentos e percepções, tipo de inteligência próxima do homem. Há uma evolução da interactividade: o computador produz objectos virtuais que não se comportam como simples coisas mas como seres artificiais dotados de alguma sensibilidade. A interactividade segue a evolução da cibernética.
Enquanto a primeira cibernética se interrogava sobre as noções de controlo e de comunicação (no animal e na máquina) e da informação, a segunda cibernética interroga-se sobre as noções de auto-organização, estruturas emergentes, redes, adaptação e evolução. Enquanto a primeira interactividade se interessava pelas relações entre computador e homem sobre o modelo estímulo-resposta ou acção-reacção, a segunda interactividade debruça-se sobre a acção conduzida pela percepção, corporização e processos sensoriais e motores. Se a interactividade no modo estímulo-resposta assentava sobre as relações tradicionais de autor, obra e espectador, a introdução de uma lógica de autonomia tornou estas relações mais complexas e profundas.
Leitura de: Edmond Couchot e Norbert Hillaire (2003). L’art numérique. Comment la technologie vient au monde de l’art. Paris: Flammarion.
Já nos anos 1990, assistiu-se ao desenvolvimento acelerado da interactividade com a realidade virtual e os seus derivados, o multimedia e as redes digitais de comunicação, em que as trocas de informação entre o homem e o computador se fazem em tempo real e transitam nos dois sentidos. As imagens digitais apresentam, assim, duas características comuns: os cálculos automáticos feitos em computador e a interactividade entre quem os cria e quem é destinatário. Relação entre arte e ciência. São relações muito antigas, que remontam à pré-história ou ao Renascimento, para não sermos mais exigentes. Depois, na segunda metade do séc. XX, multiplicaram-se as referências à ciência: as matemáticas e a lógica inspiraram os minimalistas (métodos seriais e combinatórios), a óptica e a psicologia da percepção serviram de apoio à op art e à arte cinética, e a linguística estruturalista alimentou a arte conceptual.
No dobrar dos anos 1960, uma nova ciência impressionou os artistas – a cibernética, definida pela fórmula de Norbert Wiener como a ciência do controlo e da comunicação no animal e na máquina. Abraham Moles fundou a sua estética sobre a teoria da informação e Umberto Eco prolongava as suas teses ao desenvolver a teoria da obra aberta. Mais perto de nós, os temas do híbrido, do genético, do informacional e do artificial estão no centro de muitos dos trabalhos da arte digital.
Cibernética. Parece haver um regresso aos objectivos iniciais da cibernética – simular comportamentos e percepções, tipo de inteligência próxima do homem. Há uma evolução da interactividade: o computador produz objectos virtuais que não se comportam como simples coisas mas como seres artificiais dotados de alguma sensibilidade. A interactividade segue a evolução da cibernética.
Enquanto a primeira cibernética se interrogava sobre as noções de controlo e de comunicação (no animal e na máquina) e da informação, a segunda cibernética interroga-se sobre as noções de auto-organização, estruturas emergentes, redes, adaptação e evolução. Enquanto a primeira interactividade se interessava pelas relações entre computador e homem sobre o modelo estímulo-resposta ou acção-reacção, a segunda interactividade debruça-se sobre a acção conduzida pela percepção, corporização e processos sensoriais e motores. Se a interactividade no modo estímulo-resposta assentava sobre as relações tradicionais de autor, obra e espectador, a introdução de uma lógica de autonomia tornou estas relações mais complexas e profundas.
Leitura de: Edmond Couchot e Norbert Hillaire (2003). L’art numérique. Comment la technologie vient au monde de l’art. Paris: Flammarion.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2004
EFEMÉRIDE
LISBOA E PORTO LIGADOS POR TELEFONE HÁ CEM ANOS.
NOVAS FACILIDADES PARA A IMPRENSA.
Faz hoje cem anos que Lisboa e Porto se ligaram por telefone. Foi exactamente a 23 de Fevereiro de 1904 que começou a funcionar o novo meio de comunicação entre as duas cidades, ainda a título experimental. No início, havia apenas uma linha em actividade, sendo preciso estabelecer regras, em que o rei, o chefe do governo e os ministros tinham prioridade no acesso às comunicações. As chamadas para os jornais efectuavam-se a horas previamente marcadas, ao fim do dia. Em pouco tempo, o telefone adquiriria grande importância para a imprensa, numa altura em que esta se começava a massificar.
Claro que já era possível então comunicar com todo o país em termos de telecomunicações, desde 1883, mas usando uma tecnologia mais antiga, a do telégrafo. Em Lisboa e Porto, a empresa que explorava o serviço telefónico era a Anglo-Portuguese Telephone (APT). A permissão para instalação e proveito económico de telefones no resto do país pertencia à Administração-Geral dos Correios e Telégrafos (CTT).
A edição de O Século de 24 de Fevereiro incluía a notícia de banquete realizado no Palácio de Cristal, no Porto, oferecido a Tomás Ribeiro, alto funcionário da Administração-Geral dos Correios e Telégrafos, e que orientara a montagem da estação telefónica central naquela cidade, enquanto em Lisboa tomavam posse as quatro telefonistas nomeadas para a estação central de Lisboa. Nesse número de O Século, em despacho telegráfico do Porto, anotava-se que “ficou hoje [dia 23] concluída a linha telefónica estabelecida entre Lisboa e Porto. As experiências deram magnífico resultado, ouvindo-se perfeitamente o que se dizia. O sr. José Augusto Monteiro, empregado superior da casa António Montenegro & Cª, tendo de falar hoje para a redacção das Novidades, foi encarregado pelo sr. conselheiro Emídio Navarro [seu director] de felicitar a imprensa do Porto pelo importante melhoramento”.
Também o Jornal de Notícias (Porto), de 24 de Fevereiro, se referiu de maneira entusiástica ao êxito do telefone: o ministro das Obras Públicas, natural do Porto, trocou palavras com o presidente da Câmara daquela cidade, dr. Sousa Avides, “não havendo a menor dificuldade nem embaraço na emissão do som”.
A linha telefónica entre as duas cidades atingia uma extensão de 350 quilómetros, com um par de fios apoiado em 4550 postes de pinho colocados ao longo do percurso, junto à estrada, o que facilitava o acesso para qualquer reparação da linha. O custo da montagem foi calculado em 40 contos de réis e o Estado estimava arrecadar anualmente uma receita de 29 contos. Em 1904, contavam-se apenas 3415 assinantes nas redes telefónicas em Lisboa e Porto, áreas concessionadas pela APT; só muito lentamente, nos anos seguintes, houve assinantes no resto do país, à medida que os CTT abriram estações telefónicas, como Coimbra e Braga em 1905.
Desde esse momento, as comunicações entre as duas cidades facilitariam a produção de notícias. Ao velho telégrafo - com mensagens em Morse - sucedia-se uma forma mais rápida e mais humana de contacto, o telefone.
[texto incluído no meu livro Olhos de boneca. Uma história das telecomunicações, 1880-1952 (1999). Lisboa: Colibri]
LISBOA E PORTO LIGADOS POR TELEFONE HÁ CEM ANOS.
NOVAS FACILIDADES PARA A IMPRENSA.
Faz hoje cem anos que Lisboa e Porto se ligaram por telefone. Foi exactamente a 23 de Fevereiro de 1904 que começou a funcionar o novo meio de comunicação entre as duas cidades, ainda a título experimental. No início, havia apenas uma linha em actividade, sendo preciso estabelecer regras, em que o rei, o chefe do governo e os ministros tinham prioridade no acesso às comunicações. As chamadas para os jornais efectuavam-se a horas previamente marcadas, ao fim do dia. Em pouco tempo, o telefone adquiriria grande importância para a imprensa, numa altura em que esta se começava a massificar.
Claro que já era possível então comunicar com todo o país em termos de telecomunicações, desde 1883, mas usando uma tecnologia mais antiga, a do telégrafo. Em Lisboa e Porto, a empresa que explorava o serviço telefónico era a Anglo-Portuguese Telephone (APT). A permissão para instalação e proveito económico de telefones no resto do país pertencia à Administração-Geral dos Correios e Telégrafos (CTT).
A edição de O Século de 24 de Fevereiro incluía a notícia de banquete realizado no Palácio de Cristal, no Porto, oferecido a Tomás Ribeiro, alto funcionário da Administração-Geral dos Correios e Telégrafos, e que orientara a montagem da estação telefónica central naquela cidade, enquanto em Lisboa tomavam posse as quatro telefonistas nomeadas para a estação central de Lisboa. Nesse número de O Século, em despacho telegráfico do Porto, anotava-se que “ficou hoje [dia 23] concluída a linha telefónica estabelecida entre Lisboa e Porto. As experiências deram magnífico resultado, ouvindo-se perfeitamente o que se dizia. O sr. José Augusto Monteiro, empregado superior da casa António Montenegro & Cª, tendo de falar hoje para a redacção das Novidades, foi encarregado pelo sr. conselheiro Emídio Navarro [seu director] de felicitar a imprensa do Porto pelo importante melhoramento”.
Também o Jornal de Notícias (Porto), de 24 de Fevereiro, se referiu de maneira entusiástica ao êxito do telefone: o ministro das Obras Públicas, natural do Porto, trocou palavras com o presidente da Câmara daquela cidade, dr. Sousa Avides, “não havendo a menor dificuldade nem embaraço na emissão do som”.
A linha telefónica entre as duas cidades atingia uma extensão de 350 quilómetros, com um par de fios apoiado em 4550 postes de pinho colocados ao longo do percurso, junto à estrada, o que facilitava o acesso para qualquer reparação da linha. O custo da montagem foi calculado em 40 contos de réis e o Estado estimava arrecadar anualmente uma receita de 29 contos. Em 1904, contavam-se apenas 3415 assinantes nas redes telefónicas em Lisboa e Porto, áreas concessionadas pela APT; só muito lentamente, nos anos seguintes, houve assinantes no resto do país, à medida que os CTT abriram estações telefónicas, como Coimbra e Braga em 1905.
Desde esse momento, as comunicações entre as duas cidades facilitariam a produção de notícias. Ao velho telégrafo - com mensagens em Morse - sucedia-se uma forma mais rápida e mais humana de contacto, o telefone.
[texto incluído no meu livro Olhos de boneca. Uma história das telecomunicações, 1880-1952 (1999). Lisboa: Colibri]
domingo, 22 de fevereiro de 2004
A TELEDEPENDÊNCIA SEGUNDO SARTORI
Para Giovani Sartori (2000), a televisão – a que chama vídeo, ver de longe – está a transformar o homo sapiens, produto da cultura escrita, em homo videns, com a imagem a destronar a palavra.
Sartori ilustra o seu raciocínio com o desenvolvimento da civilização a partir da escrita. Esta dá início ao abandono da comunicação oral, o qual culmina com a invenção da imprensa. O autor italiano segue mais Havelock (A musa aprende a escrever, original de 1988) do que McLuhan (A galáxia Gutenberg, original de 1962). O homo sapiens que multiplica o seu saber é o homem de Gutenberg (Sartori, 2000: 21). A evolução da imprensa resultaria, na passagem do séc. XVIII para o XIX, no jornal. Nesse momento, preparava-se um conjunto importante de avanços tecnológicos: telégrafo, telefone, rádio. Desaparecia a distância e começava a era das comunicações imediatas. A informação de massa difundia-se com o aparecimento da rádio. O jornal excluía o analfabeto; a rádio chegava junto dele. Mas com uma perda, a simplificação (2000: 73).
Grande parte do nosso vocabulário cognitivo e teórico consiste em palavras abstractas, sem equivalente preciso em coisas visíveis. É aqui que a televisão causa uma ruptura em termos comunicacionais, escreve Sartori. A televisão produz imagens e apaga conceitos, atrofia a capacidade de abstracção, e com ela, a capacidade de compreender (2000: 39). A imagem é inimiga da abstracção, destaca este autor apocalíptico (descrente na capacidade da televisão, por oposição a integrado, que vê virtualidades na imagem, seguindo a linguagem de Umberto Eco).
Além disso, a informação que surge na televisão é apenas aquela que pode apresentar imagens. Se não houver imagem, não há notícia. Sartori exemplificaria com as imagens relativamente à operação "Mãos Limpas" em Itália (movimento de juízes face à corrupção política): sempre as imagens de cofres de segurança de um banco, portas, janelas, ruas, automóveis, incumbidas de preencher o tempo da notícia. Em Portugal, os casos ligados à justiça há mais de um ano também preenchem este framing. Escreve ainda Sartori: se houver eleições na Alemanha ou no Reino Unido, estas são contadas em 30 segundos. Mas uma reportagem sobre uma estória de fazer chorar (caso de um crime) dura dois a três minutos. A televisão actua sobre os sentimentos e as emoções, em casos de matanças, tiroteios, manifestações, queixas, prisões.
Logo, o videodependente (o indivíduo passivo que passa cada vez mais horas diante de um televisor) tem pouco sentido crítico. Sartori aponta o dedo à formação das crianças, que antes de frequentarem a escola já tiveram uma longa aprendizagem televisiva, transportada para a noção de jogo. Entende que, ao se perder a capacidade de abstracção, se perde também a capacidade de distinguir o verdadeiro do falso. Para Sartori, a televisão “destrói mais saber e mais compreender do que aquilo que transmite” (2000: 14). Da televisão lamenta-se o facto de encorajar a violência, informar pouco ou mal e ser culturalmente regressiva. E conclui que a imagem é diferente do que se julga, porque: 1) o ver não é conhecer, 2) o conhecer pode ser ajudado pelo ver, 3) isto não invalida que conhecer por conceitos se desenvolva para além do visível (Sartori, 2000: 179).
Leitura de: Giovanni Sartori (2000). Homo videns. Televisão e pós-pensamento. Lisboa: Terramar
Para Giovani Sartori (2000), a televisão – a que chama vídeo, ver de longe – está a transformar o homo sapiens, produto da cultura escrita, em homo videns, com a imagem a destronar a palavra.
Sartori ilustra o seu raciocínio com o desenvolvimento da civilização a partir da escrita. Esta dá início ao abandono da comunicação oral, o qual culmina com a invenção da imprensa. O autor italiano segue mais Havelock (A musa aprende a escrever, original de 1988) do que McLuhan (A galáxia Gutenberg, original de 1962). O homo sapiens que multiplica o seu saber é o homem de Gutenberg (Sartori, 2000: 21). A evolução da imprensa resultaria, na passagem do séc. XVIII para o XIX, no jornal. Nesse momento, preparava-se um conjunto importante de avanços tecnológicos: telégrafo, telefone, rádio. Desaparecia a distância e começava a era das comunicações imediatas. A informação de massa difundia-se com o aparecimento da rádio. O jornal excluía o analfabeto; a rádio chegava junto dele. Mas com uma perda, a simplificação (2000: 73).
Grande parte do nosso vocabulário cognitivo e teórico consiste em palavras abstractas, sem equivalente preciso em coisas visíveis. É aqui que a televisão causa uma ruptura em termos comunicacionais, escreve Sartori. A televisão produz imagens e apaga conceitos, atrofia a capacidade de abstracção, e com ela, a capacidade de compreender (2000: 39). A imagem é inimiga da abstracção, destaca este autor apocalíptico (descrente na capacidade da televisão, por oposição a integrado, que vê virtualidades na imagem, seguindo a linguagem de Umberto Eco).
Além disso, a informação que surge na televisão é apenas aquela que pode apresentar imagens. Se não houver imagem, não há notícia. Sartori exemplificaria com as imagens relativamente à operação "Mãos Limpas" em Itália (movimento de juízes face à corrupção política): sempre as imagens de cofres de segurança de um banco, portas, janelas, ruas, automóveis, incumbidas de preencher o tempo da notícia. Em Portugal, os casos ligados à justiça há mais de um ano também preenchem este framing. Escreve ainda Sartori: se houver eleições na Alemanha ou no Reino Unido, estas são contadas em 30 segundos. Mas uma reportagem sobre uma estória de fazer chorar (caso de um crime) dura dois a três minutos. A televisão actua sobre os sentimentos e as emoções, em casos de matanças, tiroteios, manifestações, queixas, prisões.
Logo, o videodependente (o indivíduo passivo que passa cada vez mais horas diante de um televisor) tem pouco sentido crítico. Sartori aponta o dedo à formação das crianças, que antes de frequentarem a escola já tiveram uma longa aprendizagem televisiva, transportada para a noção de jogo. Entende que, ao se perder a capacidade de abstracção, se perde também a capacidade de distinguir o verdadeiro do falso. Para Sartori, a televisão “destrói mais saber e mais compreender do que aquilo que transmite” (2000: 14). Da televisão lamenta-se o facto de encorajar a violência, informar pouco ou mal e ser culturalmente regressiva. E conclui que a imagem é diferente do que se julga, porque: 1) o ver não é conhecer, 2) o conhecer pode ser ajudado pelo ver, 3) isto não invalida que conhecer por conceitos se desenvolva para além do visível (Sartori, 2000: 179).
Leitura de: Giovanni Sartori (2000). Homo videns. Televisão e pós-pensamento. Lisboa: Terramar
sábado, 21 de fevereiro de 2004
A MORTE DE MARIA HELENA FREITAS
Na altura do seu desaparecimento, o meu obrigado pelas horas de grande deleite a ouvir os seus programas na Antena 2. Fica uma doce memória.
Nota acrescentada posteriormente (22 de Fevereiro): morreu com 91 anos. Assinou o programa O canto e os seus intérpretes, programa emitido de 1959 a 2000 (Emissora Nacional, mais tarde RDP). Na sua casa de Paço d'Arcos, ficou um grande espólio, que inclui manuscritos de obras de João de Freitas Branco. Escreveu em jornais como A Voz, Diário Popular e Diário de Notícias. Tinha formação pianística e comentou ao vivo concertos e espectáculos de ópera.
Na altura do seu desaparecimento, o meu obrigado pelas horas de grande deleite a ouvir os seus programas na Antena 2. Fica uma doce memória.
Nota acrescentada posteriormente (22 de Fevereiro): morreu com 91 anos. Assinou o programa O canto e os seus intérpretes, programa emitido de 1959 a 2000 (Emissora Nacional, mais tarde RDP). Na sua casa de Paço d'Arcos, ficou um grande espólio, que inclui manuscritos de obras de João de Freitas Branco. Escreveu em jornais como A Voz, Diário Popular e Diário de Notícias. Tinha formação pianística e comentou ao vivo concertos e espectáculos de ópera.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2004
RETRATO DAS EMPRESAS DE MEDIA - II
A PT Multimedia deverá apresentar lucros no montante de 29 milhões de euros, relativos ao exercício de 2003, isto após cinco anos de prejuízos, conforme escreve o Correio da Manhã. Trata-se de uma estimativa da Espírito Santo Research, que aponta, contudo, a baixa rentabilidade da Lusomundo, quando comparada aos outros grupos de media cotados, a Impresa e a Cofina.
A Lusomundo, que inclui títulos como o Jornal de Notícias, Diário de Notícias, 24 Horas e TSF, continua “bastante abaixo do potencial das empresas em causa”. A principal alavanca dos lucros da PT Multimedia tem sido a TV Cabo.
A PT Multimedia deverá apresentar lucros no montante de 29 milhões de euros, relativos ao exercício de 2003, isto após cinco anos de prejuízos, conforme escreve o Correio da Manhã. Trata-se de uma estimativa da Espírito Santo Research, que aponta, contudo, a baixa rentabilidade da Lusomundo, quando comparada aos outros grupos de media cotados, a Impresa e a Cofina.
A Lusomundo, que inclui títulos como o Jornal de Notícias, Diário de Notícias, 24 Horas e TSF, continua “bastante abaixo do potencial das empresas em causa”. A principal alavanca dos lucros da PT Multimedia tem sido a TV Cabo.
SCARLETT JOHANSSON EM GRANDE ACTIVIDADE
Segundo o Público de ontem, Scarlett Johansson, após os filmes Lost in translation, de Sofia Coppola, e Rapariga com brinco de pérola, de Peter Weber, foi escolhida para dar imagem à campanha publicitária do novo perfume da Calvin Klein.
Em termos de cinema, a actriz começa no próximo mês o filme Synergy dos irmãos Weitz. Após este, em Maio, será dirigida por Brian de Palma, num policial com o título The black Dahlia.
Na imagem: Peter Weber dirigindo a actriz no filme Rapariga com brinco de pérola (crédito da imagem: El Cultural).
RETRATO DAS EMPRESAS DE MEDIA - I
A Cofina é uma holding com participações que detém participações na indústria (Atlantis e F. Ramada), media (Record, Correio da Manhã, Jornal de Negócios, entre outras publicações) e empresas de área da internet. Quer o Record quer o Correio da Manhã são líderes de mercado nos segmentos a que se dirigem.
Vai realizar a sua assembleia-geral em 1 de Abril, onde pretende obter autorização para elevar o seu capital em 6,8 milhões de euros, chegando aos 32,5 milhões de euros até ao próximo ano.
PARCERIA ENTRE A MICROSOFT E A DISNEY
Foi anunciada uma parceria entre os dois gigantes para desenvolverem conteúdo digital para os media. Esta aliança pode ser vista como atingindo dois objectivos. Um, o do futuro das plataformas de software no audiovisual. Segundo a Microsoft, assistir-se-á a um rápido acréscimo do fluxo de conteúdo para os consumidores. O outro é o da utilização, pela Disney, do formato de alta definição de Microsoft, com um nível de resolução mais alto que o normal DVD, tendo em vista especialmente os filmes para as crianças.
Os Marretas: a novidade no catálogo da Disney. Crédito da imagem: Jim Henson Productions
Segundo o Público de ontem, Scarlett Johansson, após os filmes Lost in translation, de Sofia Coppola, e Rapariga com brinco de pérola, de Peter Weber, foi escolhida para dar imagem à campanha publicitária do novo perfume da Calvin Klein.
Em termos de cinema, a actriz começa no próximo mês o filme Synergy dos irmãos Weitz. Após este, em Maio, será dirigida por Brian de Palma, num policial com o título The black Dahlia.
Na imagem: Peter Weber dirigindo a actriz no filme Rapariga com brinco de pérola (crédito da imagem: El Cultural).
RETRATO DAS EMPRESAS DE MEDIA - I
A Cofina é uma holding com participações que detém participações na indústria (Atlantis e F. Ramada), media (Record, Correio da Manhã, Jornal de Negócios, entre outras publicações) e empresas de área da internet. Quer o Record quer o Correio da Manhã são líderes de mercado nos segmentos a que se dirigem.
Vai realizar a sua assembleia-geral em 1 de Abril, onde pretende obter autorização para elevar o seu capital em 6,8 milhões de euros, chegando aos 32,5 milhões de euros até ao próximo ano.
PARCERIA ENTRE A MICROSOFT E A DISNEY
Foi anunciada uma parceria entre os dois gigantes para desenvolverem conteúdo digital para os media. Esta aliança pode ser vista como atingindo dois objectivos. Um, o do futuro das plataformas de software no audiovisual. Segundo a Microsoft, assistir-se-á a um rápido acréscimo do fluxo de conteúdo para os consumidores. O outro é o da utilização, pela Disney, do formato de alta definição de Microsoft, com um nível de resolução mais alto que o normal DVD, tendo em vista especialmente os filmes para as crianças.
Os Marretas: a novidade no catálogo da Disney. Crédito da imagem: Jim Henson Productions
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2004
APIT: NOVO RUMO PARA OS PRODUTORES INDEPENDENTES DE TELEVISÃO?
A APIT (Associação de Produtores Independentes de Televisão) reuniu-se hoje com altos responsáveis dos canais televisivos (RTP, SIC e TVI), tendo como anfitrião o ICAM. Para o presidente da direcção da APIT, Frederico Ferreira de Almeida (Fremantlemedia), trata-se do começo de um novo processo. Isto é, perspectiva-se uma forte mudança nas estratégias seguidas até agora neste ramo da cadeia de valor das indústrias culturais em Portugal.
Em cima da mesa do encontro, que contou com as presenças de Manuel Falcão (2:), Eduardo Moniz (TVI) e Manuel S. Fonseca (SIC), esteve o faseamento do pagamento de produções já concretizadas. Apesar de atrasos nos pagamentos, já não se fala em dívidas. Da reunião terá saído um consenso em torno de um maior volume de trabalho para este ano. Contudo, não foram revelados os montantes envolvidos. Para a associação, há necessidade de alterações legislativas, como isenções fiscais e televisão por cabo, ligada à área das telecomunicações e não à dos conteúdos.
Porém, foi recebido com agrado o acordo já firmado com a PT, em que esta se propôs investir 25 milhões de euros em cinco anos. Como escreve o Diário de Notícias de hoje, “O objectivo do fundo – no qual a PT participa enquanto «detentora de posições maioritárias em sociedades de distribuição e exibição cinematográficas, produção de canais temáticos e distribuição por cabo» e ao qual se deverão associar os três canais de televisão, para além de produtores, distribuidores e exibidores –, é assumidamente criar as estruturas que possibilitem a emergência de uma indústria do cinema e do audiovisual”. Falta ainda estabelecer as “diferenciações entre o «cinema» e o «audiovisual»”.
A APIT foi criada em Dezembro de 1996. Tem, actualmente, 21 produtores de televisão (num total de perto de 40 produtores a nível de todo o país). Da nova direcção, empossada há cerca de um mês, fazem parte, para além do responsável da Fremantle, dirigentes da Mandala, Endemol, D&D e Valentim de Carvalho. Pertencem ainda à APIT, entre outros produtores, a CLAP, Duvideo, Fábrica de Imagens, Herman Zap e Teresa Guilherme.
A APIT (Associação de Produtores Independentes de Televisão) reuniu-se hoje com altos responsáveis dos canais televisivos (RTP, SIC e TVI), tendo como anfitrião o ICAM. Para o presidente da direcção da APIT, Frederico Ferreira de Almeida (Fremantlemedia), trata-se do começo de um novo processo. Isto é, perspectiva-se uma forte mudança nas estratégias seguidas até agora neste ramo da cadeia de valor das indústrias culturais em Portugal.
Em cima da mesa do encontro, que contou com as presenças de Manuel Falcão (2:), Eduardo Moniz (TVI) e Manuel S. Fonseca (SIC), esteve o faseamento do pagamento de produções já concretizadas. Apesar de atrasos nos pagamentos, já não se fala em dívidas. Da reunião terá saído um consenso em torno de um maior volume de trabalho para este ano. Contudo, não foram revelados os montantes envolvidos. Para a associação, há necessidade de alterações legislativas, como isenções fiscais e televisão por cabo, ligada à área das telecomunicações e não à dos conteúdos.
Porém, foi recebido com agrado o acordo já firmado com a PT, em que esta se propôs investir 25 milhões de euros em cinco anos. Como escreve o Diário de Notícias de hoje, “O objectivo do fundo – no qual a PT participa enquanto «detentora de posições maioritárias em sociedades de distribuição e exibição cinematográficas, produção de canais temáticos e distribuição por cabo» e ao qual se deverão associar os três canais de televisão, para além de produtores, distribuidores e exibidores –, é assumidamente criar as estruturas que possibilitem a emergência de uma indústria do cinema e do audiovisual”. Falta ainda estabelecer as “diferenciações entre o «cinema» e o «audiovisual»”.
A APIT foi criada em Dezembro de 1996. Tem, actualmente, 21 produtores de televisão (num total de perto de 40 produtores a nível de todo o país). Da nova direcção, empossada há cerca de um mês, fazem parte, para além do responsável da Fremantle, dirigentes da Mandala, Endemol, D&D e Valentim de Carvalho. Pertencem ainda à APIT, entre outros produtores, a CLAP, Duvideo, Fábrica de Imagens, Herman Zap e Teresa Guilherme.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2004
A DISNEY É A NOTÍCIA DO DIA
Hoje, surgiram duas notícias opostas embora complementares sobre a vida do gigante americano das indústrias culturais, a Disney. Por um lado, a recusa da oferta da sua aquisição pela Comcast; por outro lado, a compra dos direitos da série Os Marretas.
A oferta de aquisição hostil sobre a Disney pela Comcast (a maior companhia de televisão por cabo dos Estados Unidos) foi de 42 mil milhões de euros, lançada a semana passada. Com este movimento, a Comcast pretendia tornar-se o maior grupo de media e entretenimento do mundo. Caso a aquisição se concretizasse, a Comcast integrararia, para além dos estúdios Disney, a cadeia de televisão generalista ABC, o canal desportivo ESPN, os parques temáticos e a rede de clientes da Comcast, com mais de 21 milhões de assinantes. A Disney considerou baixa a proposta, rejeitando-a em comunicado emitido anteontem. O conselho de administração deu o apoio ao CEO Michael Eisner, mas manifestou disponibilidade para analisar outras propostas. Apesar da dívida da Walt Disney, que ultrapassa os nove milhões de euros, pensa-se que o conglomerado pode sobreviver. Até porque, nos últimos resultados trimestrais, a Disney apresentou lucros de 323 milhões de euros, mais do dobro relativamente ao ano de 2002. Não se trata, contudo, de assunto encerrado: recentemente, um dos descendentes de Disney abandonou a direcção, em oposição a Eisner, e fala-se do interesse em elementos da mesma direcção ponderarem a aquisição do próprio grupo, numa interessante luta interna pelo poder.
Quase ao mesmo tempo, a Disney anunciava a compra de todos os direitos da série Marretas (Muppet show) aos herdeiros de Jim Henson, por cerca de 100 milhões de euros. Segundo as notícias das agências noticiosas, o acordo para compra dos direitos dos Marretas termina uma odisseia de 14 anos para levar o sapo Cocas e Miss Piggy até ao império do rato Mickey. Já em 1990, o CEO Michael Einser oferecera cerca de 150 milhões de euros pela série, mas a morte de Jim Henson, criador dos bonecos, não permitiu a concretização do negócio. Depois, seguiu-se um período em que os direitos da série foram negociados pelos herdeiros por cerca de 680 milhões de euros ao grupo alemão EM-TV, entretanto falido em 2002. No ano passado, a família Henson readquiriu os direitos da série por 78 milhões.
Recorde-se que, nos últimos dois meses, a Disney foi notícia quer pelo êxito de Finding Nemo, o peixe desenhado nos estúdios da Pixar, empresa pioneira na animação por computador, fundada por Steve Jobs (Apple), quer pela não renovação do contrato, em 2006, estabelecido entre as duas companhias e responsável pelos últimos grandes sucessos do conglomerado de media e entretenimento fundado pela figura mítica de Walt Disney.
Hoje, surgiram duas notícias opostas embora complementares sobre a vida do gigante americano das indústrias culturais, a Disney. Por um lado, a recusa da oferta da sua aquisição pela Comcast; por outro lado, a compra dos direitos da série Os Marretas.
A oferta de aquisição hostil sobre a Disney pela Comcast (a maior companhia de televisão por cabo dos Estados Unidos) foi de 42 mil milhões de euros, lançada a semana passada. Com este movimento, a Comcast pretendia tornar-se o maior grupo de media e entretenimento do mundo. Caso a aquisição se concretizasse, a Comcast integrararia, para além dos estúdios Disney, a cadeia de televisão generalista ABC, o canal desportivo ESPN, os parques temáticos e a rede de clientes da Comcast, com mais de 21 milhões de assinantes. A Disney considerou baixa a proposta, rejeitando-a em comunicado emitido anteontem. O conselho de administração deu o apoio ao CEO Michael Eisner, mas manifestou disponibilidade para analisar outras propostas. Apesar da dívida da Walt Disney, que ultrapassa os nove milhões de euros, pensa-se que o conglomerado pode sobreviver. Até porque, nos últimos resultados trimestrais, a Disney apresentou lucros de 323 milhões de euros, mais do dobro relativamente ao ano de 2002. Não se trata, contudo, de assunto encerrado: recentemente, um dos descendentes de Disney abandonou a direcção, em oposição a Eisner, e fala-se do interesse em elementos da mesma direcção ponderarem a aquisição do próprio grupo, numa interessante luta interna pelo poder.
Quase ao mesmo tempo, a Disney anunciava a compra de todos os direitos da série Marretas (Muppet show) aos herdeiros de Jim Henson, por cerca de 100 milhões de euros. Segundo as notícias das agências noticiosas, o acordo para compra dos direitos dos Marretas termina uma odisseia de 14 anos para levar o sapo Cocas e Miss Piggy até ao império do rato Mickey. Já em 1990, o CEO Michael Einser oferecera cerca de 150 milhões de euros pela série, mas a morte de Jim Henson, criador dos bonecos, não permitiu a concretização do negócio. Depois, seguiu-se um período em que os direitos da série foram negociados pelos herdeiros por cerca de 680 milhões de euros ao grupo alemão EM-TV, entretanto falido em 2002. No ano passado, a família Henson readquiriu os direitos da série por 78 milhões.
Recorde-se que, nos últimos dois meses, a Disney foi notícia quer pelo êxito de Finding Nemo, o peixe desenhado nos estúdios da Pixar, empresa pioneira na animação por computador, fundada por Steve Jobs (Apple), quer pela não renovação do contrato, em 2006, estabelecido entre as duas companhias e responsável pelos últimos grandes sucessos do conglomerado de media e entretenimento fundado pela figura mítica de Walt Disney.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2004
LIVRO DE ELSA COSTA E SILVA SOBRE CONCENTRAÇÃO DOS MEDIA
Conforme referi neste espaço de comunicação, foi lançado há dias o livro de Elsa Costa e Sá sobre concentração dos media, na nova colecção de livros de comunicação da Porto Editora. Ele é o resultado de uma tese de mestrado que a autora defendeu em Novembro de 2002, na Universidade do Minho. Com um tema em constante movimento, Elsa Costa e Sá acrescentou várias considerações finais para actualização.
Trata-se de um livro bem organizado, dividido em três partes. Na primeira, define os conceitos de cultura, capitalismo, concentração e oligopólio, úteis para a concatenação da parte final. Já na segunda parte, apresenta os principais agentes do sector dos media no mundo e um capítulo sobre legislação e regulação, no seguimento de trabalhos já desenvolvidos pela Universidade do Minho. A última parte do livro da também jornalista do Diário de Notícias referencia o que me parece mais importante para a realidade nacional: a análise dos grupos de media em Portugal. A autora divide-os em quatro principais grupos - os históricos (Impresa; PT/Lusomundo) e os novos (Media Capital; Cofina). Apesar de elencar também os grupos do Estado (RTP, RDP) e da Igreja Católica (Renascença), a autora parte do princípio que os principais players são os quatro primeiros. Todo o capítulo 7 é dedicado a explicar as lógicas de concentração e as suas motivações.
Na parte final do seu livro, Elsa Costa e Silva inclui entrevistas aos principais protagonistas dos quatro grupos de media. Documento interessante, porque histórico, pois, volvidos quase dois anos sobre a data das entrevistas, muitas coisas alteraram. Mesmo um dos protagonistas já deixou de o ser...
Uma palavra final relativamente à Universidade do Minho e ao Instituto de Ciências Sociais (ICS), de onde parte esta tese agora publicada. O ICS conta já com um meritório trabalho teórico. Refira-se que não é por acaso que a recente classificação dada pela FCT aos centros de investigação em comunicação atribuiu a mais alta classificação ao centro ligado aquele instituto. A colecção agora encetada inicia-se com dois trabalhos produzidos naquela universidade [um a meias entre Elizabete Barbosa e o jornalista do Público e investigador António Granado]. E os dois coordenadores da colecção são nomes conhecidos no meio jornalístico e académico: Joaquim Fidalgo e Manuel Pinto. Em modesta análise feita por mim há dois ou três anos, eu previa estar a nascer a escola do Minho. O que já aconteceu.
Recordo ainda que os números mais recentes das revistas Media XXI e Jornalismo e Jornalistas (JJ) dedicaram amplo espaço ao tema da concentração dos media em Portugal.
Livro: Elsa Costa e Silva (2004). Os donos da notícia. Concentração da propriedade dos media em Portugal. Porto: Porto Editora
Conforme referi neste espaço de comunicação, foi lançado há dias o livro de Elsa Costa e Sá sobre concentração dos media, na nova colecção de livros de comunicação da Porto Editora. Ele é o resultado de uma tese de mestrado que a autora defendeu em Novembro de 2002, na Universidade do Minho. Com um tema em constante movimento, Elsa Costa e Sá acrescentou várias considerações finais para actualização.
Trata-se de um livro bem organizado, dividido em três partes. Na primeira, define os conceitos de cultura, capitalismo, concentração e oligopólio, úteis para a concatenação da parte final. Já na segunda parte, apresenta os principais agentes do sector dos media no mundo e um capítulo sobre legislação e regulação, no seguimento de trabalhos já desenvolvidos pela Universidade do Minho. A última parte do livro da também jornalista do Diário de Notícias referencia o que me parece mais importante para a realidade nacional: a análise dos grupos de media em Portugal. A autora divide-os em quatro principais grupos - os históricos (Impresa; PT/Lusomundo) e os novos (Media Capital; Cofina). Apesar de elencar também os grupos do Estado (RTP, RDP) e da Igreja Católica (Renascença), a autora parte do princípio que os principais players são os quatro primeiros. Todo o capítulo 7 é dedicado a explicar as lógicas de concentração e as suas motivações.
Na parte final do seu livro, Elsa Costa e Silva inclui entrevistas aos principais protagonistas dos quatro grupos de media. Documento interessante, porque histórico, pois, volvidos quase dois anos sobre a data das entrevistas, muitas coisas alteraram. Mesmo um dos protagonistas já deixou de o ser...
Uma palavra final relativamente à Universidade do Minho e ao Instituto de Ciências Sociais (ICS), de onde parte esta tese agora publicada. O ICS conta já com um meritório trabalho teórico. Refira-se que não é por acaso que a recente classificação dada pela FCT aos centros de investigação em comunicação atribuiu a mais alta classificação ao centro ligado aquele instituto. A colecção agora encetada inicia-se com dois trabalhos produzidos naquela universidade [um a meias entre Elizabete Barbosa e o jornalista do Público e investigador António Granado]. E os dois coordenadores da colecção são nomes conhecidos no meio jornalístico e académico: Joaquim Fidalgo e Manuel Pinto. Em modesta análise feita por mim há dois ou três anos, eu previa estar a nascer a escola do Minho. O que já aconteceu.
Recordo ainda que os números mais recentes das revistas Media XXI e Jornalismo e Jornalistas (JJ) dedicaram amplo espaço ao tema da concentração dos media em Portugal.
Livro: Elsa Costa e Silva (2004). Os donos da notícia. Concentração da propriedade dos media em Portugal. Porto: Porto Editora
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2004
CINCO MINUTOS DE JAZZ NA RDP
O programa de José Duarte, Cinco minutos de jazz, existe desde 21 de Fevereiro de 1966, certamente o programa decano da rádio portuguesa. O concerto de aniversário será no dia 19, às 22 horas, com a cantora Jacinta, no auditório da RDP. Um verdadeiro acontecimento, o aniversário.
Entretanto, os músicos que passarão pelo programa da estação pública nos próximos dias são:
17 Fev – Wayne Shorter
18 Fev – Dave Douglas
19 Fev – Gerry Hemingway Quartet
20 Fev – Cecil Taylor & Italian Instabile Orchestra
O programa de José Duarte, Cinco minutos de jazz, existe desde 21 de Fevereiro de 1966, certamente o programa decano da rádio portuguesa. O concerto de aniversário será no dia 19, às 22 horas, com a cantora Jacinta, no auditório da RDP. Um verdadeiro acontecimento, o aniversário.
Entretanto, os músicos que passarão pelo programa da estação pública nos próximos dias são:
17 Fev – Wayne Shorter
18 Fev – Dave Douglas
19 Fev – Gerry Hemingway Quartet
20 Fev – Cecil Taylor & Italian Instabile Orchestra
domingo, 15 de fevereiro de 2004
ESCOLA E MEIOS DE COMUNICAÇÃO
Saiu agora o número 32 (correspondente a Maio/Agosto de 2003) da Revista Iberoamericana de Educación, com o tema “Escuela y medios de comunicación / Escola e meios de comunicação”, que pode ser acedido electronicamente no sítio http://www.oei.es. Dos textos, salientam-se os de Jesús Martín-Barbero, Mar de Fontcuberta e Manuel Pinto. O texto deste professor associado do departamento de Ciências da Comunicação e director do mestrado em Comunicação, Cidadania e Educação do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, intitula-se «Correntes da educação para os media em Portugal: retrospectiva e horizontes em tempos de mudança».
Segundo a síntese do texto de Manuel Pinto, “resulta verdadeiramente urgente redefinir o conceito de cidadania, redescobrir os campos e as dimensões implicadas nele, ensaiar novos modos de aprender a viver, individual e colectivamente nos novos cenários que estão se desenhando, com a preocupação de reequilibrar o papel e a missão da escola”. Ainda na síntese considera que “nos países que sofreram a experiência de regimes autoritários – e que possuem uma experiência democrática ainda insuficiente entretecida nas práticas quotidianas – resulta difícil conquistar um espaço para a educação para os meios”, caso de Portugal.
Para o autor, “Se entendemos a educação para os meios em sua relação com os processos sócio-culturais e de mudança social, devemos vinculá-la com as características mais notáveis dos mesmos: aceleração da vida social, enfatização da cultura do presente, deslocalização, alteração da noção de escala e crise das grandes narrativas que davam sentido à acção humana e à História. Por outro lado, se a compreendemos como educação para a comunicação e para a cidadania, é necessário, antes de tudo, que se estabeleça um novo e adequado paradigma pedagógico que se apoie na relação entre a teoria e a prática, e que chegue aos centros de formação de professores”.
A revista é publicada pela "Organización de Estados Iberoamericanos para la Educación, la Ciencia y la Cultura", com sede em Madrid.
Saiu agora o número 32 (correspondente a Maio/Agosto de 2003) da Revista Iberoamericana de Educación, com o tema “Escuela y medios de comunicación / Escola e meios de comunicação”, que pode ser acedido electronicamente no sítio http://www.oei.es. Dos textos, salientam-se os de Jesús Martín-Barbero, Mar de Fontcuberta e Manuel Pinto. O texto deste professor associado do departamento de Ciências da Comunicação e director do mestrado em Comunicação, Cidadania e Educação do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, intitula-se «Correntes da educação para os media em Portugal: retrospectiva e horizontes em tempos de mudança».
Segundo a síntese do texto de Manuel Pinto, “resulta verdadeiramente urgente redefinir o conceito de cidadania, redescobrir os campos e as dimensões implicadas nele, ensaiar novos modos de aprender a viver, individual e colectivamente nos novos cenários que estão se desenhando, com a preocupação de reequilibrar o papel e a missão da escola”. Ainda na síntese considera que “nos países que sofreram a experiência de regimes autoritários – e que possuem uma experiência democrática ainda insuficiente entretecida nas práticas quotidianas – resulta difícil conquistar um espaço para a educação para os meios”, caso de Portugal.
Para o autor, “Se entendemos a educação para os meios em sua relação com os processos sócio-culturais e de mudança social, devemos vinculá-la com as características mais notáveis dos mesmos: aceleração da vida social, enfatização da cultura do presente, deslocalização, alteração da noção de escala e crise das grandes narrativas que davam sentido à acção humana e à História. Por outro lado, se a compreendemos como educação para a comunicação e para a cidadania, é necessário, antes de tudo, que se estabeleça um novo e adequado paradigma pedagógico que se apoie na relação entre a teoria e a prática, e que chegue aos centros de formação de professores”.
A revista é publicada pela "Organización de Estados Iberoamericanos para la Educación, la Ciencia y la Cultura", com sede em Madrid.
Subscrever:
Mensagens (Atom)