O blogueiro regressa na segunda-feira. Esta semana, ele prolonga o fim-de-semana; não há "ponte", mas inventa-se uma, na procura de outros ares. É que existe mais mundo além dos blogues.
29.6.06
O blogueiro regressa na segunda-feira. Esta semana, ele prolonga o fim-de-semana; não há "ponte", mas inventa-se uma, na procura de outros ares. É que existe mais mundo além dos blogues.
O negócio da compra da Bertrand (48 livrarias e as editoras Bertrand e Quetzal) pelo grupo alemão Bertelsmann faz despertar um objectivo imediato: destronar a liderança da FNAC (além da concorrência dos hipermercados). A Bertelsmann comprou a FNAC através de uma subholding, a Direct Group, detentora do Círculo de Leitores. O novo grupo passa a deter 12% do total do mercado do livro, com as duas cadeias de livrarias a facturarem €66 milhões o ano transacto (no mesmo ano, a FNAC facturou €40 milhões). Agora, a meta são €80 milhões de facturação.
Não há números precisos da aquisição, mas fala-se em €30 milhões de investimento em dois anos. Só o Círculo de Leitores vendeu 1,8 milhões de livros a 340 mil sócios, em 2005. Agora, será possível vender livros do Círculo nas lojas Bertrand. E a nova entidade accionista espera fazer crescer o conceito loja em centro comercial no mercado em Espanha.
A Bertrand foi fundada em 1732. Em 1998, Manuel Bullosa vendeu a sua posição de accionista ao Grupo Mello (ano de aparecimento da FNAC). Desde 1993, a Bertrand era presidida por José Mattoso, tendo-se modernizado nos anos recentes. A loja do centro comercial Vasco da Gama é a que mais vende, mas também têm sucesso as do Chiado e Picoas, para além de outras noutros pontos do país.
Em Portugal, a Bertelsmann possui ainda a gráfica Printer Portuguesa e 33% da Media Capital (TVI e rádios). O mercado livreiro alterou substancialmente nestes anos recentes, o que levou a Bertelsmann a investir em Portugal: 1) os livros vendem-se em quiosques e supermercados, 2) aumentou o número de títulos e baixou a tiragem de cada um deles, 3) a novidade deixa de durar um tempo médio (dois anos) para passar a quinze dias, 4) trabalha-se em catálogo, com lançamento de múltiplos livros para alguns deles conhecerem o êxito.
[elementos retirados das peças publicadas no Público de ontem e hoje, respectivamente assinadas por Joana Gorjão Henriques e Alexandra Prado Coelho]
Os dados divulgados pela APCT (Associação Portuguesa para o Controlo das Tiragens) sobre a circulação média dos jornais são um grito de alerta para os jornais nacionais. Exceptuando os gratuitos (Metro, com capitais da Media Capital, e Destak, da Cofina), os jornais pagos conheceram quedas significativas. Os jornais que eu compro diariamente, Público e Diário de Notícias, baixaram 9,4 e 9,5% respectivamente em relação ao primeiro trimestre do ano passado (46119 e 36305 exemplares). Já o Jornal de Notícias baixou de 102026 para 99989 e o Correio da Manhã de 125027 para 119431, queda que também apanhou o 24 Horas e os desportivos e os semanários.
Na leitura das notícias não encontro explicações, a não ser a queda dos jornais pagos e a subida dos gratuitos. Será uma transferência pura, ou há outros factores como a crise económica e o consumo de notícias pela televisão e pela internet?
Com a qualidade a que já nos habituou, saíu o número 9 da revista aguasfurtadas, com três componentes e seus responsáveis: Letras (Luísa Marinho e Rui Manuel Amaral), Artes Visuais (Leandro Ribeiro e Francisco Eduardo) e Música (Pedro Junqueira Maia).
Em edição do NJAP/JU (Núcleo de Jornalismo Académico do Porto/Jornal Universitário), e com sede na rua Miguel Bombarda, 187, Porto, contém 277 páginas de textos e imagens. De entre os textos, contam-se os de Inês Lourenço, Tiago Gomes, Rui Lage, Pedro Ribeiro, Marcelo Rizzi, Adrienne Rich, Virginia Woolf e Filipe Guerra, para além de trabalhos de fotógrafos e artistas plásticos e um CD com obras de Alexandre Delgado, Ruben Andrade, Dimitris Andrikopoulos e do grupo de jazz Espécie de Trio.Destaco - trata-se de mero gosto pessoal - o texto de Miguel Lorga Miranda, De que falamos quando falamos do riso. O autor escreve sobre o riso ao longo da humanidade, e da sua não consensualidade em termos de espaços culturais, apesar da sua larga importância. Para S. Bento, por exemplo, nos instrumentos de boas obras como regras, "Não dizer palavras vãs ou que provoquem o riso; não gostar de rir muito nem à gargalhada". O evitar o riso estava na base da escala da humildade. Também Santo Agostinho, olhando para o seu passado, identifica o riso como algo que passou. Já na oração de S. Francisco estipulava-se o oposto: "Onde houver tristeza, que eu leve a alegria".
O conto de Filipe Guerra também despertou a minha atenção. Logo pelo seu começo: "Cada conto é uma casa, há livros que são cidades. Noventa por cento das personagens saem de casa, entram em casa, procuram casa, perdem a casa. Os outros dez por cento não têm casa e sonham com ela". [fotografia de Bruno Espadana]Este número será apresentado no dia 6 de Julho, a partir das 21:30, nos Espaços JUP (Rua Miguel Bombarda, 187), no Porto, com a realização de um espectáculo que incluirá as actuações dos projectos Mana Calórica e Las Tequillas.
Visite o blogue da revista aguasfurtadas aqui e veja o primeiro vídeo de promoção do número nove aqui.
28.6.06
Para além dos media clássicos, os blogues dedicam hoje atenção ao tratamento noticioso da deliberação da ERC ontem tornada pública (Jornalismo e Comunicação e irreal tv). O documento da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), que soma 102 páginas, é um importante instrumento de análise sobre televisão comercial em Portugal, pelo que deve ser lido na totalidade. Eu respiguei alguns dados.
Assim, entre Maio e Junho de 2005, os canais comerciais (SIC e TVI) apresentaram junto da AACS (entidade anterior à ERC) os pedidos de renovação de licenças de televisão, atribuídas em 1992. O processo transitou para a actual ERC, que iniciou funções em 17 de Fevereiro último.
Sobre a renovação, a ERC entende ser uma das manifestações mais relevantes e significativas da regulação dos media (ponto 2), pelo que chegou à conclusão (o conselho regulador da ERC) que algumas obrigações dos operadores de televisão não foram cumpridas satisfatoriamente conforme a proposta apresentada aquando do concurso para obtenção das licenças (ponto 9). A ERC não espera que os canais comerciais apresentem uma programação erudita (ponto 10) mas tão só patamares de maior exigência, com garantias de diversidade, oferta e pluralismo (ponto 12).
A ERC releva o modelo de serviço público ou de interesse público relevante (ponto 20), sem confundir com interesse do público (ponto 22). E aponta o caminho da televisão comercial não apenas no sentido do entretenimento e distracção, mas também dos fóruns de debate público e de cidadania (ponto 25).
No capítulo IV do documento, apresenta-se uma metodologia de análise de programação (pp. 42-46), onde se consideram quotas relativas à origem de programas, características dos programas (1998-2005), grelhas de 2005 e evolução de programação 1999-2005. Os capítulos V e VI analisam a programação da SIC e da TVI, páginas de leitura obrigatória para quem quer saber da programação televisiva no nosso país. Ficam aqui curtos exemplos.
Quanto à SIC, a programação cultural está longe de preencher os objectivos relativamente ao pluralismo cultural, e o canal deve recuperar os programas especializados de reportagem e programas infantis a horas adequadas ao público-alvo. Quanto à TVI, deve diversificar a programação no horário nobre (20:00-23:00) e transmitir missa semanal aos domingos, entre outras obrigações. O conjunto de obrigações dos dois canais lêem-se nas páginas 98-102.
[de seguida, dois quadros, retirados do documento assinalado no começo da mensagem, e dizendo respeito aos dois canais de televisão]

Se passeia em Tóquio e quer obter uma informação, precisa apenas de aceder a um telefone, no hotel, restaurante ou monumento histórico onde se encontrar no momento. Ao premir um botão, obtém a informação sobre o que procura ou vê.
O novo serviço foi tornado possível pelo trabalho de três empresas japonesas e da GeoVector, uma pequena empresa americana de tecnologias. Os telefones combinam a navegação baseada em satélite, de precisão inferior a nove metros, com uma bússola electrónica que fornece orientação. Se ligado a um computador, há a possibilidade de ver a imagem. A tecnologia começou por ser desenvolvida devido ao requisito, previsto para 2007, dos serviços de emergência terem receptores baseados em localização geoestratégica.
Os analistas dizem que, por isto, o Japão vai um par de anos à frente do desenvolvimento tecnológico. Trata-se de uma nova fronteira para a mobilidade, aproveitando as potencialidades dos celulares e dos telefones fixos sem fios.
[ver mais em Herald Tribune de ontem, assinado por John Markoff e Martin Fackler, do New York Times; via newsletter do European Journalism Centre]
Escreve Carina Teixeira, com data de anteontem, no sítio brasileiro ArteCidadania, que a Capoeira "se popularizou por misturar luta, dança, arte marcial, música e brincadeira numa única e complexa manifestação cultural" e é já praticada em 51 países.
Inicialmente, foi uma espécie de resistência a escravidão e chegou a ser proibída no país, mas ganhou a simpatia dos desportistas no Brasil e no mundo. Continua o texto: "Em razão da imigração brasileira, a Capoeira se disseminou pelo mundo e conta hoje, com diversos centros de aprendizado e prática em 51 países. Já é reconhecida como esporte pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Ministério do Esporte e Secretaria de Alto Rendimento, sendo considerado uma modalidade genuinamente brasileira e uma atividade de alto rendimento físico".Só na Califórnia, há 120 cursos, incluindo o da Universidade de Berkeley. "Houve um boom de capoeira, especialmente depois que ela foi reconhecida como esporte pelo Comitê Olímpico Brasileiro", declara o Doutor em antropologia cultural Sergio Luiz de Souza Vieira. "A capoeira entrou em clubes da classe média alta, em colégios e universidades”, completa [lido no texto citado].
O texto inteiro pode ler-se aqui. [imagem igualmente retirada da mesma notícia]
Vinha no Correio da Manhã da última sexta-feira: Luciana Abreu, a principal intérprete de Floribella (SIC), é tratada como uma princesa. Nada de deslocação em transportes públicos, pois a produção vai buscar e levar a casa a jovem actriz, oriunda de Vila Nova de Gaia e finalista do programa Ídolos. "Flor" entra em 60% das cenas, mas não faz figura de corpo presente. Quando não fala, não aparece simplesmente nas cenas. Diz ainda o jornal que as filmagens começam às 9:00 e acabam às 20:00, com um intervalo para almoçar.O mesmo jornal (texto de Ricardo Tavares e fotografia de Natália Ferraz) refere ainda o "ordenado justo" de Luciana Abreu, idêntico ao dos protagonistas das outras novelas, cerca de quatro mil euros. Além do ordenado, a jovem actriz-cantora recebe royalties (direitos de autor) pela venda do seu CD. O álbum da novela juvenil da SIC vendeu, logo nos primeiros dias, mais de mil cópias. A RGB Chris Morena é a produtora argentina que criou a novela.
Já o 24 Horas de sábado (formato revista) preferiu destacar Cristina Cavalinhos, que desempenha o papel de governanta alemã na mesma Floribella. Actriz que debutou no teatro da Cornucópia, de Luís Miguel Cintra, Cristina Cavalinhos deu uma ajuda na direcção de casting da novela, apercebendo-se rapidamente que ela seria um sucesso. Diz ela: "A história é muito fantasiosa, vai de encontro ao universo das crianças. É muito a história da Cinderela misturada com a retratada no filme Música no coração. Tem ainda presente um lado de comédia, que põe as pessoas bem-dispostas".Na mesma revista 24 Horas, outra cinderela mostrava os seus pés (e calçado): Diana Chaves, dos Morangos com açúcar (TVI), é o rosto da colecção de sandálias de uma dada marca. Oito pares, oito peças de vestuário. Diz a peça que as sandálias vão do artesanal ao marinheiro, do clássico à tendências africanas e do étnico ao romântico. Escreve quem sabe: "os pés ficam confortáveis e os detalhes são de arrasar". Isto é: a morangomania passa também pelas sandálias.
27.6.06
Como já referira aqui no blogue, realizou-se, ontem ao final da tarde, o lançamento do primeiro número da revista Comunicação & Cultura, da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa. Com a presença do reitor da universidade, Professor Braga da Cruz, e da directora da faculdade e da revista, professora Isabel Gil, a apresentação do número, sob o tema de capa A cor dos media, esteve a cargo de Rui Marques, médico e com mestrado em Ciências da Comunicação, actual ACIME (Alto Comissário para a Imigração e Minorias Étnicas).


Da sua comunicação - e após realçar a ligação e distinção das palavras comunicação e cultura do nome da revista, e que se pode ver num pequeno vídeo que fiz -, partiu do tema cor, que nasce da luz e é uma metáfora na filosofia e na espiritualidade, pois encaminha para uma dupla postura: unidade e diversidade. A cor, expressou, resulta da manifestação da luz com diferentes matizes que se reflectem nos mais variados materiais onde ela pousa. Aproveitou Rui Marques para trazer as notícias à reflexão. Com frequência, elas falam sobre cor ou etnia ou religião como sendo o outro. Ora, a diferença individual em termos de cor, etnia ou religião não é razão para racismo ou xenofobia. Daí que ele proponha uma desconstrução desses estereótipos, pois o que faz conflituar não é a diferença mas o facto de sermos semelhantes. Media e pluralidade poderia ser o binómio que Rui Marques destacou na sua apresentação da revista.
A Comunicação & Cultura, publicação semestral, tem neste número inicial textos de Stuart Hall (Identidade cultural e diáspora), Roberto Carneiro (Hibridação e aventura humana), Catarina Duff Burnay (Identidade e identidades na ficção televisiva nacional - 2000-2006), Isabel Ferin (Imagens da diferença: prostituição e realojamento na televisão), Catarina Valdigem (Brasileiros e ciganos no prime-time português: estudo de caso), Margarida Lima de Faria e Renata Almeida (A problemática da "identidade" e o lugar do "património"), Marcos Ferreira (The (de)construction of "Yugostalgia" through Kusturika's cinematic eye), Luís Bonixe (As rádios locais em Portugal: uma análise do discurso jornalístico) e Rita Curvelo (entrevista a François Colbert). Isabel Gil assina o editorial e a introdução ao presente número. A revista é editada pela Quimera.
Da parte final do editorial de Isabel Gil, destaco: "Postulando os valores humanistas da defesa da dignidade humana, do reconhecimento da diferença e da diversidade como vectores centrais para a construção de uma saudável cultura democrática, a revista Comunicação & Cultura apresenta-se como projecto plural, espaço de abertura ao novo, de exploração de novas práticas; como cartografia do vasto território da comunicação na contemporaneidade".
O próximo número, referente a Outono-Inverno 2006, tem como tema de capa Lobbying e marketing político, coordenado por Rita Figueiras. Dentro do tema, aceitam-se trabalhos - submetidos a referee - sobre lobbying e media, mediatização das campanhas eleitorais, estratégias de agendamento mediático, fontes e jornalistas e assessoria de imprensa.
26.6.06
Com o título Humanização e Vitalização dos Espaços Públicos, vai ser lançado formalmente o nº 4 dos Cadernos Edifícios, no dia 5 de Julho, pelas 18h:00, no Centro de Congressos do Laboratório Nacional de Engenharia Civil. Na mesma altura, decorrerá uma conferência sobre o tema, pelo arquitecto Nuno Portas, especialista na matéria e, durante muitos anos, ligado à actividade do Núcleo de Arquitectura do LNEC.

Informações suplementares sobre o tema: blogue infohabitar, animado pelo arquitecto António Baptista Coelho.
Tenho uma admiração e estima grande por Mário Mesquita. Trata-se de um dos maiores intelectuais do país, reflectindo e escrevendo muito bem sobre a cultura em geral e os media em particular, em livros e na sua coluna semanal do Público.
Mas ontem, com a leitura do texto sobre o caso Dreyfus (1894) e consequências que se arrastaram até hoje, fiquei preocupadíssimo. É que, não muito distante da sua fotografia, surgia a ilustração de um cow-boy, com o seu revólver apontado para a direita, após o fulminar de uma bala. O dito cow-boy tem lenço atado ao pescoço, veste calças de ganga e tem um ar de rufião. Dá pelo nome de Lucky Luke.
Sei que Mário Mesquita é um hábil trabalhador da palavra e da argumentação, mas acho-o muito urbano e pacífico, o que não se coaduna em nada com a figura do cow-boy. Distraído, apesar de haver uma pequeníssima chamada de atenção junto à imagem, só na edição do jornal de hoje é que eu compreendi tratar-se de publicidade a um conjunto de álbuns em b.d. (banda desenhada), a começar a sair um destes dias.

Apesar de não me parecer escandalosa a forma como Mário Mesquita se faz acompanhar pelo cow-boy, não seria melhor uma outra forma de promoção dos ditos livros fora do espaço de opinião?
Mas o jornal da concorrência - o Diário de Notícias -, desde a sua recente alteração gráfica (Janeiro de 2006), também nos brinda com ilustrações a acompanhar os textos de opinião. Com frequência, não sei o significado das mesmas junto aos textos. Na edição de hoje, a ilustrar o artigo de João César da Neves, que escreve sobre economia e campeonato mundial de futebol, surge uma máquina de triturar cereais [peço desculpa se me engano]. Não sei se dirá respeito a imagens publicitárias de há um século e tal será uma forma do jornal homenagear esse tempo do quase começo da industrialização do país.

De todo o modo, o que me parece é que as ilustrações já não ocupam o lugar que eu imaginava para elas, o acompanhamento de textos, explicando visualmente o que se lia. Na realidade, os géneros jornalísticos estão mudados, havendo alguns modelos híbridos difíceis de classificar.
O Centro de Investigação Media e Jornalismo (CIMJ) organiza, nos dias 13 e 14 de Novembro de 2006, na Escola Superior de Comunicação Social (Lisboa), o seminário internacional Jornalismo e Actos de Democracia. Para o call for papers (até 15 de Setembro), clicar aqui.
Nos vídeos, Isabel Ferin (professora associada da Universidade de Coimbra e presidente da comissão organizadora do encontro) e Nelson Traquina (professor catedrático da Universidade Nova de Lisboa e presidente do CIMJ) apresentam, respectivamente em português e inglês, o programa e os objectivos do seminário.
TEMA MUSICAL QUE ACOMPANHA A ACTRIZ DE NOVA NOVELA
Recebi esta informação porque, no blogue com o nome destas crónicas, dou regularmente eco de actividades culturais que se passam no país.
A publicidade (ou promoção) da banda sonora de uma novela por um meio de comunicação é um episódio de uma longa história (de milhares de anos) do modo a divulgar produtos ou bens. Assim, na Pompeia petrificada pela erupção do vulcão Vesúvio (ano 79 da nossa era), é possível lermos inscrições publicitárias. Depois, muito mais tarde, em especial desde a segunda metade do século XIX, cada vez mais produtos vêm sendo publicitados, primeiro nos jornais, depois nos media electrónicos. Nos jornais de finais do século XIX e começos do século XX, há imagens que acompanham o texto publicitário, mas este tem maior importância do que aquele. Anúncios a vestuário, sabão, tabaco e máquinas agrícolas são algumas das áreas. Sobre o sabão, aliás, contam-se histórias deliciosas. Como era necessário educar as pessoas a terem hábitos higiénicos – não havia o costume de tomar banho todos os dias ou com muita frequência – a publicidade a sabões e sabonetes frisava os cuidados de saúde. O sabão foi um dos primeiros produtos a possuir nomes de marcas. Para obter um impacto maior, as marcas de sabões, sabonetes e produtos de limpeza patrocinaram as radionovelas – daí a designação, em inglês, de soap opera (soap, de sabão) dada às novelas na rádio e, mais tarde, na televisão. Em Portugal, o detergente que patrocinava as novelas era o Tide, rapidamente transformado no mais popular junto das donas de casa, o público preferencial desse tipo de programas. Um dos outros produtos a ter designações próprias foi o tabaco, hoje banido da publicidade por questões de saúde.
Com o crescimento da publicidade surgiu um novo léxico: orçamento (muitas vezes dito com o termo inglês: budget), público-alvo, outdoor, pesquisa publicitária, agência de meios, notoriedade, campanha publicitária, concepção gráfica, frequência de inserções, teaser (campanha desdobrada em momentos diferentes), below the line (publicidade em oposição a acções de relações públicas, por exemplo), audiências.
Num livro fascinante e de leitura rápida editado o ano passado, de Wally Olins, chamado A marca, o autor, um dos mais prestigiados criadores de identidade de marcas, traça três tipos de marcas referentes a produtos ou serviços. Assim, a primeira designação – marca monolítica (corporate) – é quando os variadíssimos produtos de uma empresa ou grupo de empresas possuem a mesma designação. Casos da Nokia (até à fusão anunciada a semana passada com a Siemens) ou da marca de brinquedos Lego. A segunda designação, validada (endorsed), é quando uma organização possui uma série de marcas com nome próprio e identidade. Estou a pensar na Sonae, que tem os supermercados Continente, o jornal Público, empresas de conglomerados de madeira, hotéis a nascer na zona de Tróia. Aqui, com a particularidade de toda a gente conhecer o patrão, pessoa muito interveniente no espaço público. A terceira designação – individualizada (branded) – é quando o nome de um produto não se identifica com a organização, caso dos produtos de limpeza ou de alimentação (Procter & Gamble, por exemplo).
A publicidade, que começara nos jornais, acompanhou a evolução dos media. Na rádio, usa-se o termo inglês jingle, a que eu costumo chamar musiquinha. Todos nós fixamos jingles de anúncios ao longo da vida (género: “O que é bom é Nacional”). E também anúncios de televisão, aqui com uma particularidade. Como o tempo custa bastante dinheiro, a publicidade televisiva conta, em doze a dezasseis segundos, uma história sobre a marca ou produto, com planos de imagens muito rápidos, na linguagem dos videoclips. Neste momento, pensa-se em anúncios de um segundo; a questão é saber como é que um período tão curto de tempo chama a atenção do consumidor. Talvez subliminarmente. Imaginação, choque e som mais alto quando o anúncio passa na televisão são algumas das características da publicidade, em especial na televisão, o meio mais importante para a publicidade, infelizmente com menor investimento na rádio, este nosso meio de comunicação tão agradável e útil. Com a invenção do telecomando, os telespectadores e consumidores passaram a mudar de canal sempre que aparecem blocos publicitários. Tal levou os publicitários a criarem um outro mecanismo de percepção das marcas dos produtos e serviços, a que chamaram product placement. O boné do treinador ou do jogador de futebol, mais a marca de águas em cima da mesa e voltada para as câmaras de televisão, ou o patrocínio inscrito no painel atrás da mesa são estratégias semelhantes à enunciação da marca pelo actor ou actriz na série ou novela ou a focagem, em primeiro plano, de um dado produto com marca.
A publicidade de marcas é uma área de grande criatividade. Basta pensar no trabalho do anúncio de televisão ou do cartaz. Combinam-se múltiplos saberes: o escritor (caso do “Há mar e mar, há ir e voltar”, do poeta Alexandre O’Neill), o pintor, o fotógrafo, o gráfico, o especialista em desenho computadorizado. Ou o publicitário em si, como o brasileiro Edson Athayde. Ou ainda no uso que a pintura pop art deu à publicidade, como as sopas de tomate Campbell’s pintadas por Andy Wharol, o artista que dizia que, no mundo dos media electrónicos, cada pessoa podia aspirar a um máximo de quinze minutos de fama. Além dos neons das grandes cidades, como Nova Iorque, Londres ou Lisboa. E dos festivais de publicidade, o mais famoso dos quais é Cannes, cuja edição mais recente decorreu ao longo da semana passada.
Queria, quase a terminar, referir os picos de anúncios nos media em geral. O maior ocorre de Setembro a Novembro (o regresso às aulas, primeiro, e a aproximação do Natal, depois), a que se sucede o começo do Verão (férias). Obviamente, os meses mais baixos em termos de publicidade são Janeiro (o dinheiro para as compras termina no dia de Ano Novo) e Agosto (quando as pessoas vão de férias para fora, as que conseguem ir). Mas há também picos durante eventos especiais, como o actual mundial de futebol, onde algumas das caras dos anúncios pertencem ao treinador e aos jogadores da selecção. Além deste sector, também as vedetas de televisão (actrizes, modelos, apresentadores) ganham bom dinheiro suplementar com anúncios às mais variadas actividades. Muitos de nós, porque simpatizamos com essas figuras públicas, fixamos as marcas e tornamo-nos potenciais compradores. A isso se chama construir a notoriedade da marca.
Voltando ao princípio da crónica e ao anúncio da banda sonora da novela. Não se pode olhar para a proposta promocional de modo negativo. Isto porque a música sugere a acção de uma dada estrela de televisão na narrativa da novela. O produto fica muito mais bem identificado, afinal o objectivo máximo da publicidade.
[texto da crónica que passará hoje por volta das 10:00, na Antena Miróbriga Rádio ou 102,7 MHz (região de Santiago de Cacém)]
Descobri este ficheiro vídeo, com cenas caricatas dentro de noticiários televisivos americanos:
http://www.youtube.com/watch?v=VQKxO2bQsBU
23.6.06
BERTA CARDOSO NO MUSEU DO FADO
Por falta de tempo, volto a escrever no blogue apenas na próxima semana, esperando tecer um comentário sobre a exposição e a sua importância para a compreensão das artes dos espectáculos - indústrias criativas, como tenho aqui definido - em Portugal e durante o século passado.
22.6.06
NOVA IORQUE - DE TOPOS A UTOPOS (ALGUMAS INTERVENÇÕES)
Os vídeos pertencem a comunicações de David Cranmer (UNL) [Camille Saint Saens in New York], Klemens Detering (UCP) [A música latina em Nova Iorque], Alice Trindade (ISCSP) [Nova Iorque e The New Yorker], Vítor Oliveira (UCP) [Nova Iorque de 1930 - uma visão europeia] e Natalina Domingues (ISCSP) [Harlem Renaissance - da utopia à realidade].
21.6.06
MEMÓRIA DE MOURÃO-FERREIRA
A sessão contará também com um testemunho pessoal de Teresa Rita Lopes sobre o poeta e com a presença da sua família. Serão ainda lidos alguns dos poemas de Mourão-Ferreira pela actriz Silvina Pereira.
ANIMAÇÃO PARA INFORMAÇÃO
Estão abertas as vagas (cinco) para o Curso de Animação para Informação. O curso pretende aperfeiçoar a prática de animação de programas de rádio em estações com informação. Trabalha a relação entre animação e informação, na óptica do animador/jornalista.
Do comunicado recebido, lê-se: "O curso será ministrado nas instalações do RADIOLB da Universidade Autónoma de Lisboa. A parte de animação será dada por Ana Bravo (TSF) e a de jornalismo por Francisco Sena Santos (UAL). Para além das sessões de formação, os alunos serão monitorizados no seu trabalho de animação e de redacção. Para tal o curso simulará emissões de rádio com uma redacção a editar.O curso tem a duração (mínima) de 20 horas. Três das oito vagas serão preenchidas pelos melhores alunos da disciplina de Atelier Rádio (jornalismo/newsroom) da licenciatura de Comunicação (a título de prémio), pelo que há apenas 5 vagas".
O curso começa no dia 5 de Julho e termina dia 10, em horário diurno (tarde) ou pós-laboral.Para informações e inscrições contacte: jsousa@universidade-autonoma.pt, 966555616 ou visite http://radiolab.com.sapo.pt/cursos/animacao.htm.
NÚCLEO MUSEOLÓGICO DE TELECOMUNICAÇÕES


Os pequenos vídeos abaixo dão conta da reabertura do núcleo museológico, ontem ao fim da tarde. O blogueiro, que já escreveu sobre a história das telecomunicações em Portugal, regozija-se com a recuperação e publicitação daquele espaço de memória profissional e cultural em Vila do Conde.
20.6.06

No dia 26, pelas 18:30, na Sala de Expansão Missionária (Biblioteca João Paulo II), na Universidade Católica Portuguesa (UCP), em Lisboa, vai ser lançado o primeiro número da revista Comunicação & Cultura, da Faculdade de Ciências Humanas daquela universidade, editada pela Quimera. Preside Manuel Braga da Cruz (reitor da UCP) e apresenta Rui Marques (ACIME). A nova revista, semestral, é dirigida por Isabel Gil (directora da Faculdade de Ciências Humanas da UCP).
CINECLUBES E CINEFILIA - 2
Depois de descrever e analisar o cinema no seu começo, e da lenta separação entre cinema comercial e cinema enquanto arte, passou a definir os cineclubes, que dividiu em duas etapas principais, tendo a Segunda Guerra Mundial como baliza. Assim, nos anos de 1930, os primeiros cineclubes tinham uma acção restrita e dirigida às elites. O objectivo era alcançar os cinéfilos mas não as grandes massas. A segunda geração de cineclubes goza de uma amplitude maior, até devido à crescente mobilidade cultural das massas de trabalhadores fãs do cinema de qualidade.
Questões como cinema mudo (silêncio, fotogenia e montagem), introdução do sonoro (prevalência do texto) e variações em torno do conceito cinéfilo (inicialmente, o fã do cinema de qualidade, depois voltado mais para o cinema comercial) foram também abordadas pelo orador. A referência aos primeiros cineclubes nacionais e às revistas de cinema constituiram ainda temáticas destacadas por Paulo Jorge Granja.
19.6.06
NOVA IORQUE – DE TOPOS A UTOPOS
O programa é o seguinte:9:30 – Abertura do Encontro, com palavras de Abertura, Profs. Doutores Isabel Capeloa Gil, Directora da Faculdade de Ciências Humanas; Jorge Fazenda Lourenço, Coordenador do Centro de Estudos de Cultura, Línguas e Literaturas, Laura Bettencourt Pires, Coordenadora da Linha de Investigação Nova Iorque - De Topos a Utopos.
10:00 – Nova Iorque ― Capital do Mundo, Álvaro Martins
10:20 – De Pequeno Entreposto a Grande Centro Urbano, Raúl Filipe
10:40 – A Representação do Empire State Building em Love Affairs e Sleepless in Seattle
11:00 – 11:20 – Debate
11:20 – 11:40 - Pausa para Café
11:40 – Camille Saint Saens in New York ― Looking Back a Hundred Years Later, David Cranmer
12:00 - A Música Latina em Nova Iorque, Klemens Detering
12:20- 12:40 – Debate
12:40-14:30 – Pausa para Almoço
14:30 – Nova Iorque e The New Yorker, Alice Trindade
14:50 – Ulisses em Nova Iorque, Lara Duarte
15:10 – Nova Iorque de 1930 — Uma Visão Europeia, Vítor Oliveira
15:30-15:50 – Debate
15:50-16:10 – Pausa para Café
16:10 – Harlem Renaissance ― Da Utopia à Realidade, Natalina Domingues
16:30 – Nova Iorque ― Arquitecturas Utópicas, Aurora Coutinho
16:50 – Nova Iorque e As Lutas pelos Direitos das Mulheres, Laura Pires
17:10-17:30 – Debate
17:30 – Interlúdio Musical – New York Blues, Apresentação de Telmo Silva, Ivo Oliveira e Diogo Palhinha, alunos finalistas de Cultura Americana
18:00 – Conclusões do Encontro, Encerramento.
Para mais informações: 217214018 ou cecll@ucp.pt.
CINEMA E SEUS PÚBLICOS
A partir de um inquérito, traçou-se a regularidade na ida ao cinema: 60,8% vê mais de um filme português por mês, embora 93,3% prefira um filme estrangeiro. Duvido daquela percentagem dos que vêem cinema português – é que a produção anda à volta de 12 filmes anuais e o tempo de permanência nos ecrãs é escasso.Das razões apontadas para ver um filme português, cerca de 50% aponta o argumento, seguindo-se os actores e actrizes (28,7%) e a promoção do filme. Mas a satisfação sobre os filmes portugueses não é elevada, pelo ritmo lento da história ou narrativa. Respostas mais satisfatórias vêm da credibilidade das histórias, próximas da vida real, dos valores éticos, morais e culturais e de elementos técnicos como guarda-roupa das personagens, caracterização (maquilhagem, penteados, adereços) e escolha do elenco.
O livro seguiu duas metodologias: 1) inquérito a espectadores, junto à bilheteira e por telefone e internet, e 2) grupos de discussão. Para se entrar nestes últimos, a condição era não se gostar de cinema português. Opção aparentemente bizarra, ela tem cabimento se considerarmos que, apesar de 60,8% dos cinéfilos irem ver filmes portugueses, muitos fazem críticas sérias ao cinema nacional. Razões? Vai-se ao cinema como actividade lúdica, de distracção e identificação com os temas dos filmes escolhidos. Ao contrário, o cinema português dá-nos temas tristes (prostituição, racismo, droga, pobreza) e tem pouca dinâmica (depressivos e monótonos).
Se quisermos, podemos ver as coisas sob outro ângulo. Como escreve Paulo Viveiros na introdução: “não há uma indústria de cinema em Portugal, não há géneros cinematográficos que estabeleçam uma identificação do público com temáticas e actores. […] todos clamam nostalgicamente pelas comédias dos anos 30 e 40 do Estado Novo (António Silva, Vasco Santana, Ribeirinho, Beatriz Costa, Santos Carvalho), porque foi o único momento em que o cinema português gerou uma empatia com o público luso. E porquê? Justamente porque eram histórias banais com as «graçolas» («chapéus há muitos, seu palerma», «Ó Evaristo! Tens cá disto?») que incluíam um par romântico, que faz parte de qualquer género, sem qualquer pretensão intelectual” (pág. 18).
Ora, muita da actual produção cinematográfica nacional hoje é a de realizador-autor (43%). Uma sugestão feita no livro respeita ao making of, relevando o papel do produtor como indicando tema e realizador. Uma outra sugestão foi a criação de novos públicos. Aqui, fico igualmente com dúvidas. Dos inquiridos, 46,5% têm licenciatura, seguindo-se 33,6% com o 12º ano. Os estudantes representam a maior fatia de respondentes (47,4%). Em termos de idade, 51,1% têm entre 15 e 24 anos.
Criar novos públicos seria recuperar públicos, nomeadamente os acima dos 24 anos. Os estudos de consumo de cultura indicam que, a partir de um certo nível etário, baixa o número de espectadores. Explicações? Emprego, constituição de família e nascimento de filhos, redução do tempo de lazer.
Acresce-se a isto uma diminuição do número de espectadores ao longo dos anos mais recentes: o DVD faz concorrência, além de ser caro ir ao cinema. Mas há tendências contraditórias: em Portugal, nos últimos dois anos, inauguraram-se 133 salas de cinema (mas fecharam 55 ecrãs). Ou seja: há mais 12800 cadeiras disponíveis, mas menos 3800 espectadores por dia (Diário de Notícias, 11 de Junho de 2006). Contas feitas, há no país 650 ecrãs de cinema, mas nenhum em 95 concelhos do país (em números redondos, quase um terço dos concelhos nacionais). Distritos como Évora e Vila Real não têm mais de oito salas, tantas quanto cada um dos onze centros comerciais de Lisboa e Porto.
As esperanças dos exibidores não passam, infelizmente, pelos filmes portugueses, mas pelos blockbusters que se avizinham, como Cars, o filme de animação da Pixar, lá para o começo de Julho. Espero voltar a falar do assunto.
[texto da crónica que passará hoje por volta das 10:00, na Antena Miróbriga Rádio ou 102,7 MHz (região de Santiago de Cacém)]
18.6.06
MUSEUS - 1
Além do tempo disponível para quem lá vai, há sempre novidades. No claustro do Museu, o visitante poderá ver, a partir de 30 de Junho (e até 3 de Setembro), a exposição Momentos, de Paulo Neves [na imagem, o artista a criar uma obra].
MUSEUS - 2
A notícia precisa o lugar do encontro como sendo Lisboa. Daí que o blogueiro se tenha convencido da sua realização no Museu do Fado. Chega lá e pergunta ao empregado sobre esse evento. Ele diz ignorar por completo. Falo-lhe então de uma exposição a inaugurar no próprio museu, ao que o empregado, parecendo regressado de uma longa amnésia, afirma que sim, que se vai inaugurar uma exposição sobre a fadista, na próxima quinta-feira. E volto ao assunto do encontro, ao que ele admite conhecer a sua realização pela Associação dos Amigos do Fado, destacando (elevando o tom de voz) que esse grupo nada têm a ver com o Museu e que tal encontro lhe parecia ir realizar-se fora de Lisboa.
Para além de lento e omisso nas respostas, não foi capaz de entusiasmar os potenciais visitantes do Museu a entrarem no edifício. Pergunta: para que precisa uma instituição de um colaborador assim? Este é um exemplo de más práticas.
Observação: procurei no sítio da Associação Portuguesa dos Amigos do Fado, mas a actualização de notícias parou em 2004. E o sítio indicado pelo jornal como pertencendo a Ofélia Pereira, animadora das memórias da fadista, www.bertacardoso.com, não funciona. Além disso, o sítio do Museu do Fado tem apenas informação estática, o que não adiantou nada na minha pesquisa.
NUNO AZINHEIRA TEM RAZÃO
Num email bem escrito e muito completo, Nuno Azinheira, editor executivo adjunto do Diário de Notícias, jornalista que prezo muito e a quem agradeço a mensagem, elucida-me (a propósito de um post que coloquei aqui, onde critiquei "o uso de recursos humanos dos jornais no destaque do mundial de futebol") do seguinte:
- 1. O Mundial de futebol é um grande acontecimento em qualquer país civilizado.
2. O futebol não é um produto que interesse apenas aos leitores dos jornais tablóides.
3. Como (se) pode provar pela leitura de outros jornais de referência como o DN (em Portugal e no estrangeiro), um evento como o Mundial de futebol merece um tratamento de grande amplitude e com um evidente aumento de páginas.
- O Mundial de futebol é uma aposta editorial do DN. Legítima e discutível, como qualquer outra, mas é uma opção forte nossa. Por alguma razão, o DN foi o primeiro jornal generalista português a lançar o seu suplemento do Mundial. Entendemos que um acontecimento como uma prova desta natureza ultrapassa o interesse habitual que os portugueses têm em relação ao desporto e ao futebol. Por alguma razão, os jogos de Portugal têm tido mais de 80% de share na SIC. Não há 80% de portugueses a amar futebol.


A mensagem de Nuno Azinheira conclui assim:
- As suas interrogações são legítimas e interessantes, mas, perdoe-me, são teóricas. A vida dos jornais é feita nas redacções. E os jornais são feitos para as pessoas. E as pessoas gostam de ver o Mundial, de ler as crónicas, de ver as classificações, de saber quando são os jogos, de conhecer os jogadores, de saber das lesões. Ora, se até os deputados da Nação mudam a sua agenda consoante os interesses do Mundial de futebol...
Cumprimentos para o Nuno.
LEITURAS DE ONTEM

Cinco axiomas para definir a Europa: o café; a paisagem a uma escala humana que possibilita a sua travessia; as ruas e praças nomeadas segundo estadistas, cientistas, artistas e escritores do passado - em Dublin, até nos terminais rodoviários se indica o caminho para as casas de poetas; a nossa descendência dupla de Atenas e Jerusalém; e, por fim, a apreensão de um capítulo derradeiro, daquele famoso ocaso hegeliano que ensombra a ideia e a substância da Europa mesmo nas suas horas mais luminosas.
E, mais à frente, após destacar uma palestra de Max Weber, a seguir ao final da Primeira Guerra Mundial (1918), e uma palestra de Edmund Husserl, pouco antes da sua morte e no momento em que a devastação da Segunda Guerra Mundial assolava a Europa, Steiner descreve o génio da Europa, aquilo a que William Blake chamou a "santidade do pormenor diminuto": a diversidade linguística, cultural e social, um mosaico que pode ser percorrido em curtas distâncias (pág. 49). A dignidade do homem, e do europeu, reside na percepção da sabedoria, na demanda do conhecimento desinteressado e na criação da beleza (pág. 53).
Ontem também li o discurso de Luís Miguel Cintra, ao receber o Prémio Pessoa (publicado no semanário Expresso, caderno "Actual", pp. 24-26):
E a ameaça, agora que o público voltou às salas, persiste com nova cara, com novas formas de restringir a liberdade de inventar. Creio que voltámos agora a outra forma de empresário, de patrão: são as próprias regras do mercado, os critérios dos níveis de audiência, a publicidade, o poder da televisão, a demagogia populista. Em meu entender, a ameaça agora é o reino dos programadores, a burocratização, a pré-formatação. E a sua capacidade de integrar no mercado qualquer inovação ou toda a diferença por mais rebelde que seja.
17.6.06
CINECLUBES E CINEFILIA
UMA VIDA NOVA
O documentário Uma vida nova, de Nuno Pires, vai passar na Cinemateca, dia 18 de Julho, pelas 21:30. A história conta-se rapidamente: "Não tinham sequer 20 anos. José e Guiomar foram para França a salto nos anos 70, sem saber uma palavra de francês. Deixavam Portugal sob a ditadura, à procura de uma vida melhor, mas sem nunca esquecer o seu país de origem e sempre com vontade de voltar um dia. Trinta anos depois, decidiram regressar. Porquê agora? Alguns meses atrás, os seus dois filhos escolheram viver em Portugal. Portanto, José e Guiomar já não têm nada que os prenda a França".A biografia do realizador revê-se na história. Como se lê no sítio Uma vida nova, é filho de pais portugueses, tendo nascido há 24 anos em Fontainebleau, nos arredores de Paris. Com duração de 24 minutos, Uma vida nova tem os pais de Nuno Pires como principais protagonistas.
Há seis anos, quando ainda tinha 18 anos, Pires é galardoado com o Prix du Jeune Ecrivain, atribuído à sua novela Histoire(s). Nesse ano de 2000 ingressa no curso de Cinema da Universidade Sorbonne Panthéon, em Paris. O mestrado foi concluído o ano transacto.
EXPOSIÇÃO DE VASCO BERARDO

PINTURA PORTUGUESA DOS ANOS 1930-40
O meu olhar ficou particularmente fascinado pelos dois óleos sobre madeira de Jorge Barradas (Lavadeiras, 1938, e Camponesa, 1937), pelo brilho das imagens e pela coloração de ambas. Mas, ao fundo da sala, para quem entra, resplandesce a obra mais antiga da mostra, a de Lino António (1923, sem título). Duas figuras de mulheres esguias, a uma mesa de café; que conversariam elas? Vale a pena ir ao Diário de Notícias e trazer o catálogo (€5).
16.6.06
PANOS – Palcos Novos Palavras NovasDramaturgia contemporânea, com três peças de teatro: 1) Cidadania, de Mark Ravenhill, 2) O segredo de Chantel, de Hélia Correia, e 3) Octávio no mundo, de Jacinto Lucas Pires. Segundo comunicado da editora Cotovia, "As três peças de teatro contemporâneo que compõem este volume resultam de um projecto que junta a dramaturgia contemporânea e o teatro escolar".
Para saber mais, consultar o sítio da Cotovia.
Carlos Romero escreve hoje duas páginas no Público sobre serviços gratuitos no tempo da globalização digital. Em hipótese, acho interessante a ideia, mas duvido em termos de resultados. Aliás, o jornalista reconhece, no último parágrafo da primeira coluna, que estas "liberalidades" - como ler jornais gratuitos no mundo físico ou na internet, retirar músicas e telefonar gratuitamente - não ocorrem no "mundo duro" da alimentação, vestuário ou habitação.
Um economista poderia explicar isto muito melhor do que eu. Há domínios intangíveis, como a cultura, que podem ser do domínio do gratuito. Eu frequentei uma escola primária gratuita, na adolescência lia numa biblioteca onde não era obrigado a pagar, escuto rádio sem pagar qualquer valor (excepto uma pequena parcela que está/esteve escondida nas facturas da EDP) e vejo televisão de feixe hertziano também sem pagar. Entro num supermercado para ver marcas (e bens) que lá se vendem sem ser obrigado a comprar e consumir. Claro que se tem de distinguir, no mínimo, duas coisas: 1) há serviços públicos, gratuitos, porque fazem parte da obrigação do Estado para a formação dos seus cidadãos; 2) os bens que estão nos supermercados podem não ser adquiridos imediatamente, mas a lógica publicitária de exposição leva-me a um consumo futuro.
É evidente que a gratuitidade esconde custos. O Estado fornece serviços universais aos cidadãos, mas estes pagam impostos, na proporção dos seus rendimentos. O acesso à internet é pago e não é um serviço universal. E, além disso, acontece porque há infra-estruturas para a passagem dessa informação, tais como redes de telecomunicações, algumas pagas pelo Estado (a partir de dinheiro dos contribuintes) e outras por entidades privadas (que investem à espera de retorno financeiro).
Certamente é verdade que há informação válida na internet, mas também há muito lixo. Será que, se quiser fazer uma tese sobre Kant, a internet ajuda? E o saber dos especialistas de Kant está todo na internet? E, se quero escrever sobre cinema, sobre os últimos trabalhos sobre cinema, eles estão na internet? A rede tem múltiplos elementos, muitos deles úteis, mas estes também se pagam (revistas especializadas, informação financeira, notícias do dia em jornais como o próprio Público).
Talvez valha a pena acompanhar a evolução do sítio YouTube, tornado já o maior alojador de vídeos do mundo. Aqui, onde se apela à inovação, muitos dos pequenos vídeos são experiências sem qualquer consistência, isto é, têm valor nulo. E valor nulo num espaço gratuito é pura diversão, que não faz andar o mundo. Mas o que o YouTube suporta são valores emergentes que se declararão, num futuro próximo. Começou com uma espécie de clube do sítio, convidando a mostrar produções, passará certamente a festival e rentabilizar-se-á com a publicidade a arranjar. O lado que se deve felicitar em experiências como esta é a capacidade de risco por um projecto do qual não se sabe, no verdadeiro começo, o grau de sucesso.
Aconselharia alguma prudência a quem escreve sobre serviços gratuitos de internet. A lógica de negócio é, aparentemente, diferente da lógica de outros negócios até aqui. Eu escrevo no Blogger há mais de três anos e ainda não me debitaram qualquer valor; contudo, eu contribui para a valorização desse negócio - pela fidelização e pela leitura de anúncios. Também eu fiquei deslumbrado quando a televisão pública (e, depois, a privada) me fizeram entrar em casa programas tão variados como notícias e espectáculos - teatro, cinema, novelas -, sem eu me deslocar de casa e nada pagar. O negócio da televisão privada passa pelo custo zero a troco de publicidade entre programas ou dentro deles (product placement). E o break even point (momento de começo de lucro) demora sempre anos a ser alcançado, pelo que o novo negócio só aparentemente é diferente do de outros tempos. Para mim, o gratuito tem dois fundamentos ideológicos: 1) propaganda (a televisão era para educar as massas), 2) consumo (sem gasto, mas suportado pela publicidade).
E há outra questão, passada sempre em branco quando escrevemos sobre sociologia da comunicação. Os primeiros meios já ambicionavam à interactividade. O telefone é um exemplo: falamos e ouvimos o nosso interlocutor (um para um). A plataforma tecnológica da rádio e da televisão não permite isso (é de um para todos), excepto as chamadas telefónicas para um animador do programa. Para haver interactividade, cada um de nós precisava de ter um emissor sintonizado no mesmo canal (frequência). Essa dificuldade foi superada com a ideia de rede (todos com todos), já marginalmente experimentada pelas redes de transmissão (rádio e televisão num país, Eurovisão em espectáculos, embora a filosofia fundamental fosse a progressão da transmissão ponto a ponto). O receptor passivo tornou-se activo (teoria da recepção em Hall) e, agora, o receptor é também produtor. A tecnologia associou-se à economia e relançou o papel de cada agente social, reduzindo (ou possibilitando a redução) da fronteira entre receptor e emissor. Hoje, todo o mundo pode ser produtor de conteúdos e partilhá-los (uso, oferta) ou trocá-los a um determinado valor (lucro).
A prudência estende-se a outro domínio, e que o jornalista precisa de reflectir. Se eu e mais sessenta blogueiros nos associarmos e produzirmos um jornal online - com critérios jornalísticos e usando apenas o nosso tempo livre, com o eventual apoio publicitário - não estaremos a destruir o negócio do jornal de papel e o seu posto de trabalho? Se as empresas de telecomunicações por onde passa o tráfego pedirem o pagamento de uma "portagem" aos produtores de conteúdos e aos servidores, a gratuitidade pode ficar menos gratuita e mais dispendiosa? Claro que as empresas de telecomunicações também têm interesses nos servidores, apesar dos mais inovadores estarem fora do país - o que confere a Portugal e muitos outros países o estatuto de periféricos nos novos negócios (exemplo: não há uma Amazon de língua portuguesa).
Um terceiro nível de prudência - e, quiçá, o mais moralista. A vadiagem proposta por Agostinho da Silva (exposta nas duas páginas do jornal) não se aplica ao mundo inteiro. Os que precisam de trabalhar todos os dias - exactamente para comprar a alimentação, o vestuário e a habitação, o "mundo duro" de Carlos Romero - têm é de se preocupar com a existência do emprego ou do trabalho. Se este se "deslocalizar" para leste, o interesse em serviços gratuitos pela internet reduz-se substancialmente.
Último reparo: relacionar fotocopiadoras analógicas com globalização digital pode não dar o efeito pretendido. A aparente morte do analógico e o paradisíaco digital, mais a desmaterialização, ainda irão dar muito que falar. A edição de discos pode ser um primeiro passo: e se as editoras prescindissem na distribuição, o último elo da cadeia de valor, da digitalização, regressando ao analógico, como se faria o download gratuito? Se calhar, as editoras vão reflectir sobre esse assunto e sopesar vantagens e desvantagens face ao cobrar um euro por música em download. Por mim, prefiro viajar para os sítios reais e não ver filmes desses sítios.
Se calhar, o problema aqui colocado já não merece discussão. A mim, importa-me olhar a História e estabelecer comparações. Qualquer alteração social ou tecnológica não ocorre toda num só tempo e em todo o espaço. Uma mudança significa movimentos de progressão mas também de regressão. E os media anteriores, como a rádio e a televisão, quando surgiram, trouxeram promessas que nunca se cumpriram, por dificuldades variadas. O desenvolvimento intelectual e a harmonia social e cultural foram objectivos não cumpridos. Agora surge outra promessa tentadora: a gratuitidade. ¿Será para cumprir?
MEDIA NETWORK WEBLOG COM NOVA CARA
Com frequência, cito notícias que leio no Media Network Weblog, de Andy Sennitt.O Media Network começou em 7 de Maio de 1981, fez não há muito 25 anos. O Media Network era difundido semanalmente pela Radio Netherlands, tendo atingido mil edições. Foi dirigido por Jonathan Marks, que desempenhou vários papéis dentro da gestão da estação até ser tornar director criativo. Andy Sennitt, que era um dos colaboradores, passou a trabalhar a tempo inteiro, participando na expansão do sítio da internet da Radio Netherlands. O programa inicial de rádio acabou em Outubro de 2000, mas na Primavera de 2003, quando rebentou a guerra do Iraque, os responsáveis da Radio Nether









