Blogue dedicado a pesquisas e leituras no domínio das indústrias culturais (imprensa, rádio, televisão, internet, cinema, vídeo, videojogos, música, livros e centros comerciais) e das indústrias criativas (museus, exposições, teatro, espectáculos). Blogueiro desde 26 de Dezembro de 2002. Endereço electrónico: Rogério Santos.

31.3.09

MOSTRAÇÃO E DEMONSTRAÇÃO


Daniel Dayan escreve sobre o terrorismo-espectáculo na televisão, tendo como objecto de análise os actos terroristas de 11 de Setembro de 2001 e o modo como passaram na televisão. O momento da primeira transmissão é o de choque (p. 10), com os que fazem televisão a improvisarem e a difundirem imagens que lhes escapam. Os dias seguintes já não são os de difusão mas do desempenho deliberado, de performance da terapia, da gestão do trauma, do luto. A mostração inscreve-se numa demonstração. A este segundo momento, Dayan indica um terceiro, o do concerto das respostas públicas ao acontecimento, em que as respostas passam por diversas esferas públicas. A quarta performance é a dos públicos e dos mestres de pensamento que se pronunciam sobre o acontecimento, com justificações, acusações e condenações (p. 12).

Mais à frente, Daniel Dayan volta a analisar o mostrar e enquadrar (p. 237). A prática de mostrar implica formas de agir, numa convocação de Jürgen Habermas. Mas também aponta para as acções performativas de J. L. Austin, no que chama de behavitives (que daria, se traduzido, a improvável palavra comportamentativo) e o modelo dramatúrgico do funcionamento da esfera pública, numa recuperação dos trabalhos de Erwing Goffman. Sem esquecer a esfera de controvérsia legítima de Daniel Hallin e a esfera do desvio de Michael Schudson. E o trabalho que o próprio Dayan escreveu com Elihu Katz sobre a televisão cerimonial (p. 258).

O Terror Espectáculo. Terrorismo e Televisão, volume organizado por Daniel Dayan, e agora editado pelas Edições 70, contém capítulos de autores tão importantes como Paddy Scannell, Serge Tisseron, François Jost, Paolo Mancini, Roger Silverstone (já desaparecido), Barbie Zelizer, Michael Schudson, Annabelle Sreberny e muitos outros. Com 454 páginas, o livro divide-se em quatro partes, sendo a terceira ("Reagir") dedicada aos públicos.

Como gostaria de ter agora um dia livre para ler estas magníficas páginas. Parabéns a José Carlos Abrantes, o director da colecção, e Pedro Bernardo, o director da editora, pela ideia da publicação.

Daniel Dayan estará em Portugal em Maio em congresso organizado pelo Centro de Estudos de Comunicação e Cultura da Universidade Católica Portuguesa, The (in)Visibility of War in Literature and the Media (7 a 9 de Maio).

ANTÓNIO PINTO RIBEIRO

No vídeo abaixo, inclui-se um excerto da conferência dada por António Pinto Ribeiro (Fundação Calouste Gulbenkian) hoje na Universidade Católica Portuguesa, com o título A Cultura como Festa e como Guerra. Uma iniciativa do Centro de Estudos de Comunicação e Cultura daquela universidade.

30.3.09

CULTURA E PODER

O Poder da Cultura é um curso para gestores culturais que explora as relações de poder e inicia em 29 de Abril em São Paulo (no sítio Cultura e Mercado).

PERDAS NA INDÚSTRIA MUSICAL

Os dados da Associação Fonográfica Portuguesa referem uma quebra de 11,5% em 2008 face ao ano anterior em termos de comercialização da música. A redução de venda de CD não está a ser compensada pela venda de downloads (Expresso de sábado).

Entretanto, a Associação Fonográfica Portuguesa indica acções contra a pirataria. Por exemplo, ontem, na Feira de Estela (Póvoa de Varzim), houve a apreensão de 11993 cópias pirata de obras fonográficas e videográficas e que estavam na posse de vendedores portugueses e marroquinos.

SERRALVES

No Expresso de sábado, José Luís Porfírio revela desapontamento pela exposição Fountain, de Bethan Huws. Porfírio não gostou dos secadores de garrafas reutilizados pela artista, nascida no País de Gales, uma recordação do ready-made Porte-bouteilles de Marcel Duchamp de 1913. Também não se deixou impressionar pelos barquinhos de junco que Huws aprendeu em criança. Mas o que o irritou mais foi a sala em frente à entrada, despojada de tudo e com uma inscrição Nu descendo uma escada. Melhor seria escrever rampa em vez de escada, conclui o crítico de arte. Igual desagrado lhe mereceram os textos com jogos de palavras: "o que veio primeiro, a galinha ou o ovo? Resposta: o ovo, por ser a forma mais primitiva"; "um casal francês adoptou uma criança chinesa e, após um ano e meio, devolveu-a. Queixa: ela não falava chinês".

Bethan Huws faz instalação, escultura, ready-made, obras textuais, aguarelas, filme, procurando reconstruir coisas e lugares que já perderam o sentido.

Por ser uma exposição de fotografia, não houve crítica aos trabalhos de Guy Tillim, "Avenue Patrice Lumumba", onde se mostra a paisagem africana pós-colonialismo: decadência ou regresso à natureza, caso das velhas estátuas agora jazendo em armazéns ao ar livre, a lentidão de gestos quotidianos, as cores. Aqui, há um igual perder o sentido dos objectos.

A meu ver, o mais belo é a arquitectura de Siza Vieira, onde aqueles objectos efémeros - porque expostos num tempo limitado - são como que o conteúdo que satisfaz as formas. Por vezes, confundo a janela que deixa ver a paisagem com a obra do artista, nos reflexos, nos contornos, nas silhuetas, na iluminação, na mistura de tudo.

TEATRO EM LISBOA: QUE ESTRATÉGIAS?


Hoje, a partir das 19:00, no Teatro São Luiz, Lisboa. Encontro com profissionais do Teatro e com Catarina Vaz Pinto, António Pinto Ribeiro, Nuno Artur Silva e Pedro Costa, inserido na iniciativa Estratégias para a Cultura em Lisboa, promovida pela Câmara Municipal de Lisboa e organizada pela Dinâmia/ISCTE.

Painéis:

1. 19:00-19:45 - Formação e construção das trajectórias profissionais. Convidados: Carla Bolito, Carlos Pessoa.

2. 19:45-20:30 - O Teatro e os seus públicos: difusão, circulação e formação de públicos. Convidados: Miguel Abreu, Teatro Praga.

3. 20:30-21:15 - Estratégias de programação e articulação entre a oferta teatral da cidade. Convidados: Mónica Calle, Miguel Seabra.

4. 21:15-22:00 - Os lugares do teatro em Lisboa. Convidada: Lúcia Sigalho.

5. 22:00-22:45 - O papel das autarquias na promoção teatral. Convidados: Rosália Vargas (a confirmar), Miguel Honrado.

29.3.09

CULTURALITE


Culturalite é o tema central do número 6, o mais recente da revista Comunicação & Cultura, da UCP.

No editorial, escreve Catarina Duff Burnay: "«Televisão lite» e «literatura lite» são expressões comummente usadas para designar os produtos das indústrias culturais. [...] O sexto número da revista Comunicação & Cultura, longe de quaisquer preconceitos, propõe-se reflectir sobre o lado lite da vida, através da apresentação de seis artigos que exploram as revistas femininas, o cinema de Hollywood, a televisão e a telenovela, enquanto dispositivos antropologicamente válidos e essenciais para uma análise actualizada do estado da arte das ciências da comunicação e dos estudos de cultura".

Eu acrescentaria: trata-se de um jogo feliz do uso da palavra inglesa light, da sua pronúncia e das possíveis grafias e significados em português: cultura leve e espécie de estádio que quer ser arte mas não tem suficiente categoria para isso, pelo menos segundo os intelectuais. Será cultura de massa, ou cultura pimba? E por que consegue tantas audiências e leitores?

O volume tem textos de Lawrence Grossberg (e uma entrevista a ele), Elisabeth Bronfen, Maria da Graça Setton, Isabel Ferin, Isabel Gil, Jorge Fazenda Lourenço e Miguel-Pedro Quádrio e uma entrevista a Mário Jorge Torres, que é mais um texto de autor que entrevista (o entrevistador foi mais operador de vídeo, como se vê na parcela abaixo).

PORTO, PRAÇA DA BATALHA


Sentados, de olhar vago ou acompanhando pacatamente o que se passava noutro ponto do praça. O outro homem enfrenta desconfiado a máquina. A tarde estava cheia de sol mas fria, não o suficiente para pôr aqueles homens a girar pela rua.

PORTO, RUA DE SANTO ILDEFONSO


A qualidade da fotografia revela a inépcia do fotógrafo. Muita luz na máquina fotográfica significa pouco contorno nos objectos ou pessoas. Estas parecem pouco mais do que silhuetas.

No canto inferior esquerdo, dois jovens conversam enquanto fumam. Estão mesmo juntos a um manequim (há um segundo mas não ficou enquadrado na fotografia), no que parece anunciar uma loja de chineses.

Mais acima uma tabuleta antiga indica a sede de O Informador Fiscal. Na página online de O Informador Fiscal, é-nos informado que "Nascemos há 74 anos na cidade do Porto. Hoje estamos em todo o País, ao serviço do contribuinte e do público em geral".

26.3.09

CADERNO ÍPSILON

O caderno Ípsilon, do jornal Público, saiu a primeira vez em 2001, ainda com a designação Y. Em Fevereiro de 2007 assumiu a actual designação, aglutinando outros suplementos como o Mil Folhas.

O caderno, que sai às sextas-feiras e é uma das áreas mais rentáveis economicamente do jornal, abrange assuntos de música e cinema, mas também artes do espectáculo e literatura. É um suplemento ligado à produção diária do P2, o segundo caderno do jornal, como aliás a reformulação da direcção decidida esta semana veio comprovar - a directora dos dois cadernos é a mesma.

O Ípsilon e o P2 preenchem a designação de jornalismo cultural, em que cada profissional tem, a par da objectividade factual sobre os acontecimentos, uma forma mais livre de escrita (subjectividade). E também cobre a designação de jornalismo literário.

Com uma média de 64 páginas (agora reduzidas a 48), tem muitas notícias de agenda - exposições, produções cinematográficas, música, arquitectura, artes, teatro, livros. Alguma informação da actualidade é retirada dos media de prestígio internacional, como Guardian, Variety, Hollywood Reporter. Decompõe-se em dois eixos centrais: crítica, opinião.

Versão online: http://ipsilon.publico.pt/.

[alguns destes elementos foram obtidos a partir de relatório de estágio de mestrado de Cláudia Silva, ontem defendido na Universidade Nova de Lisboa]

FUSÃO DE OPERAÇÕES JORNALÍSTICAS NO EXTERIOR

As redacções dos jornais Los Angeles Times e Chicago Tribune decidiram fazer em conjunto as reportagens fora dos Estados Unidos. Actualmente, o Chicago Tribune tem repórteres em cinco cidades (Beirut, Islamabad, Londres, Cidade do México e Moscovo) e o Los Angeles Times tem em 15 (incluindo Bagdad, Londres e Seul).

Fonte: European Journalism Centre, de hoje

APOIO AO JORNALISMO

Arne Koenig, presidente da European Federation of Journalists (EFJ), e Aidan White, secretário-geral da mesma entidade, escreveram aos partidos políticos representados no Parlamento Europeu na semana passada (20 de Março), solicitando que coloquem a sobrevivência do jornalismo no centro das campanhas eleitorais de Junho, assegurando que, quem quer que ganhe nas eleições, se comprometa com a protecção ao jornalismo. Na carta, aqueles responsáveis da EFJ consideram que o jornalismo é um elemento chave da democracia europeia e merece a mesma protecção que a banca e a indústria automóvel, actividades que têm recebido milhões de euros.

Fonte: EUobserver, de ontem.

25.3.09

AS MUDANÇAS NO PÚBLICO

EXPLICADAS PELO PRÓPRIO DIRECTOR, AQUI.

Informação às 22:51.

PROJECTO DE INDÚSTRIAS CULTURAIS NO NORTE DE PORTUGAL

  • O segundo projecto aprovado é o "Indústrias Culturais - Criativas", que visa o apoio à indústria cultural no Norte de Portugal, e Galiza (Espanha) e resulta de uma parceria entre a DRCN e a Junta da Galiza. A parceria prevê a criação de um Centro de Recursos e Apoio que estará sedeado em Vigo e terá como funções dinamizar, apoiar e promover a actividade industrial da cultura galaico-portuguesa, realizar encontros de profissionais e de artistas da euro-região e criar materiais de difusão e promoção destinadas às indústrias culturais. O projecto tem um orçamento de 1,7 milhões de euros.
(fonte: RTP, ontem)

ENCONTROS DO OLHAR 2009

No próximo dia 31, inicia-se no IPF-Porto um ciclo de seis conferências subordinado ao tema Contributos para a História da Fotografia no Porto: uma perspectiva. O primeiro conferencista é António Manuel Morais e o tema é Estórias da Fotografia do Porto. Local e hora: Rua da Vitória, 129 (Porto), às 21:30.

Observação: o sítio do IPF está muito desactualizado.

A CULTURA SEGUNDO CARRILHO

As páginas centrais do Diário de Notícias trazem o texto completo que Manuel Maria Carrilho fez chegar recentemente à Fundação Res Publica. Do jornal, retiro algumas parcelas (com que concordo):

  • A cultura é hoje reconhecida como um factor decisivo no desenvolvimento de qualquer país, como um pilar que, nas suas diversas vertentes, contribui não só para o desenvolvimento dos países como para a afirmação dos povos e para a visão que eles têm do seu futuro. [...] Para já não falar da atonia e da desorientação que têm marcado áreas tão vitais como as do livro e da leitura, do cinema e do audiovisual, em que não se vislumbram, ao nível da tutela do sector, quaisquer opções, orientações ou políticas. A política cultural tornou-se assim cada vez mais invisível, ilegível e incompreensível, ameaçando fazer, dos anos 2005/09, uma legislatura perdida para a cultura. [...] Sem um orçamento minimamente realista, nenhuma política é possível. Por isso, a área da cultura deve ser dotada com 1% do Orçamento do Estado, sendo fundamental que se assuma de um modo absolutamente claro esse compromisso para a próxima legislatura. Essa meta poderá atingir-se gradualmente: 0,6 em 2010, 0,8 em 2011, 0,9 em 2012 e 1% em 2013. [...] No campo das responsabilidades estruturais estão as de assegurar um digno funcionamento de instituições nacionais da maior importância para o País, como a Biblioteca Nacional, a Torre do Tombo, a Cinemateca Nacional, os Teatros Nacionais de São Carlos, de D. Maria II e de São João, a Companhia Nacional de Bailado. Ou, ainda, de instituições como as Fundações de Serralves, da Casa da Música e do Centro Cultural de Belém. No âmbito das suas responsabilidades estruturais estão a de garantir a manutenção e a valorização do Património Classificado, nacional e mundial, assim como da Rede Nacional de Museus. Sem esquecer o seu papel, em todo o território, na Rede de Leitura Pública, na Rede de Cineteatros e na Rede de Arquivos.

O LIVRO DO FUTURO


Conforme noticiado antes, José Afonso Furtado, director da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian, falou hoje ao fim da tarde sobre As Novas Vidas do Livro, na Universidade Católica, uma organização do seu Centro de Estudos de Comunicação e Cultura.

Retiro algumas ideias, caso dos seis pontos da interacção tecnologias/mercados/tipos de conteúdo que acrescentam valor: 1) facilidade de acesso, 2) actualização rápida e sem custos elevados, 3) escala, isto é, capacidade de aceder à grande quantidade, 4) capacidade de pesquisa, 5) intertextualidade, e 6) multimedia. As tendências que detecta e em que está envolvido o livro do futuro são: 1) rede omnipresente, 2) desenvolvimentos tecnológicos, 3) passagem da economia do produto para a economia de serviços, 4) passagem da economia de compra e venda para a de licença, 5) modelos de pricing, 6) práticas sociais, e 7) ambiente de comércio electrónico.



[observação: além da qualidade amadora do vídeo, a captação de som foi prejudicada por ruído dentro da sala que não pude controlar]

24.3.09

O ERRO DO PS

Na minha leitura, a lei do pluralismo e da não concentração dos meios de comunicação social, aprovada na Assembleia da República, rejeitada pelo presidente da República e em fila de espera para nova aprovação no Parlamento, não serve quando se detectam movimentos como a reestruturação do jornal Público e a carta do "Jornalismo Escrito Pago" que agora publiquei. Ou como anteontem eu citava Paulo Querido sobre a próxima "vítima" das actividades digitais: a informática.

Não está em causa a concentração da propriedade, fraca e de pouco poder em Portugal (basta pensar na facilidade com que a Prisa comprou a TVI, ou nas actuais dificuldades da SIC, nos despedimentos da Controlinveste e, agora, nas mudanças do Público), mas a alteração radical de paradigma. O pluralismo pode perder-se pelo simples desaparecimento dos media clássicos. Os sítios da internet, incluindo os blogues, não têm estruturas empresariais nem códigos éticos e deontológicos, não fazem investigação, não usam os princípios da acurácia (exactidão) e do contraditório e ainda não são modelos de negócio que empregam pessoas.

A meu ver, há um desfasamento total entre o que se legisla e o que nos já diz o presente. Quando acordarmos, na alegria de uma boa nova lei, o mundo está todo às avessas. Sem concentração da propriedade e sem pluralismo político.

JORNALISMO ESCRITO PAGO

EU TAMBÉM ADIRO AO MOVIMENTO DO JORNALISMO ESCRITO PAGO (email recebido de Afonso Pimenta, às 19:29 de hoje)

MFJEP - Movimento a Favor do Jornalismo Escrito Pago

http://mfjep.wordpress.com/

O "Anti- Twitter"

O jornalismo, como o tivemos, não durará. Existe uma certa demissão na transferência para o virtual. O cidadão informado - que, acima de tudo, se quer, a ele próprio, informado – reduz-se, em grande medida, à fragmentação; ao pluralismo em linha. Encontra-se, parcialmente, desligado. Este modelo, como complemento de uma tentativa de agarrar o actual, embora menos reflectido, é já necessidade. Longe de substituir o conhecimento integrado que o artigo de opinião, a reportagem densa e a investigação demorada conferem.

Numa realidade em que muita da “actualidade” não passa de tentativa de desinformação, manipulação, apropriação ou veículo de marketing e propaganda, afirma-se a necessidade de atenção ao pormenor.

A tentação do entretenimento, o jornalismo direccionado, o argumento do consumidor activo encerra a contradição de um maior sedentarismo. A World Wide Web torna-se, assim, menos democrática. Na afirmação das nossas escolhas, vamos ao encontro do que já somos. A notícia “num clique”, confirma-nos: mantém-nos longe.

O jornalismo escrito, enquanto produto, não pode ser encarado exclusivamente como tal: ele é aquilo que me alerta para o que eu não sou. O único veículo que possuo para estar atento relativamente ao que é exterior à minha diminuta capacidade de alcance e atenção: o poder.

A acomodação do consumidor à formatação preguiçosa dos jornais em linha tem conduzido ao desinvestimento publicitário , diminuição qualitativa e consequente perda de novos leitores, emagrecimento de redacções e falência de inúmeras publicações a nível global.

O relativista, na sua constante necessidade de almofadar a realidade dirá que tudo se recompõe: o mercado regula sempre, como sempre nos quiseram fazer crer, apesar de inúmeros avisos, a interminável corte de padres economicistas. Começa aqui o problema: o mercado, visto como um gigante, ausente de influência humana. Redundância.

Segundo previsões, o formato em linha, numa hipotética realidade – de resto, segundo alguns, mais próxima do que desejaríamos acreditar – em que o suporte físico desapareça, poderá apenas suportar 10% dos custos que as publicações actuais exigem. Saber custa dinheiro. Pelos vistos, a democracia também.

Por isso, compro um jornal por dia.

Afonso Pimenta

Movimento

Faço parte dos muitos que, gradualmente, foram deixando de comprar jornais. O processo começou há anos. A partir de certa altura, todos os principais jornais estavam online. Na internet conseguia ler mais jornais do que seria possível em papel. Quando, há cerca de 8 anos, trabalhei como jornalista num site, nos meus favoritos havia uma pasta “Jornais”, e dentro, uma pasta para cada país. Entre jornais portugueses, espanhóis, franceses, ingleses, alemães, italianos e americanos, tinha uns 30 links disponíveis, que me permitiam saltar rapidamente para a página do jornal. Isto aconteceu, obviamente, na pré-história.

Actualmente, com a subscrição de feeds, o meu método anterior é algo de anacrónico e obsoleto. No Google Reader, no telemóvel, num PDA, em qualquer tipo de suporte é possível subscrever as actualizações de uma publicação online. É possível organizar, filtrar, personlizar a recepção dos novos textos, através do leitor de feeds que usarmos. Dessa forma podemos acompanhar, arquivar e pesquisar uma quantidade grande de informação. Sei perfeitamente que a internet oferece ferramentas interessantes e versáteis, que - e faço a inversão de sentido sem ironia - os jornais não podem substituir. O que motivou a minha participação no
MFJEP não é sentir, de alguma forma, repulsa ou sobranceria em relação aos jornais e outras publicações online, e muito menos algum tipo de desprezo ou fobia em relação ao meio www.

Associo-me desde o início ao
MFJEP - Movimento a Favor do Jornalismo Escrito Pago, porque vejo nesta iniciativa uma forma de cidadãos exigentes e atentos lutarem contra a degradação deste pilar fundamental da democracia que é o jornalismo.

Sei que dizer, em relação ao jornalismo, que se trata de “um pilar fundamental da democracia” é um cliché gasto pela repetição - pelo menos tanto quanto a expressão “movimento a favor”. Talvez o desinteresse e a falta de iniciativa, crónicas e contagiosas maleitas de que padecem os portugueses, expliquem que nos custe tanto movimentarmo-nos em conjunto a favor de algo que nos diz respeito. A maior parte das pessoas não se alarma com o perigo de degradação da qualidade do jornalismo, quanto mais reflectir sobre as suas consequências directas na degradação da qualidade da democracia. É também aqui que pretendemos atacar, ferindo a inércia e a preguiça, despertando e usando de saudável agitação.

Tal como o Afonso refere no texto que lançou este movimento, o jornalismo que conhecemos hoje, pode acabar dentro de pouco tempo. O modelo existente ainda tem o jornal de papel com o seu preço de capa e a sua publicidade tradicional, mesmo se nos sites se concentram mais serviços e, na maior parte dos casos, mais notícias e mais actualizadas que na versão em papel. Ora, com a queda nas compras e os custos de manutenção não só da versão impressa mas também da versão e serviços online, muitos jornais correm o risco de fechar. Outros, ainda que não acabem, poderão ser desvirtuados até ao ponto de se perderem grande parte dos critérios jornalísticos.

Se nada mudar, ficaremos entregues a um número (ainda mais) reduzido de jornais, quase todos apenas na versão online. E, o problema maior é esse, a versão online não será o que é hoje - com as redacções a serem reduzidas e os jornalistas a acumular tarefas e a ficar sem tempo para assegurar qualidade e rigor.

Compra um jornal por dia! Estás a assegurar o teu futuro, não só o dos jornais. Ou preferes um mundo sem informação credível? Escolhe viver num futuro em que a imprensa livre se reforça e consolida, em vez de desaparecer ou ficar moribunda.

Nuno Miranda Ribeiro (
http://mfjep.wordpress.com/http://twitter.com/mfjepmfjep@live.com.pthttp://twitter.com/mfjepmfjep@live.com.pt)

GRANDES MUDANÇAS NO JORNAL PÚBLICO

  • José Manuel Fernandes vai assumir a direcção da edição online do Público, acumulando com a direcção da edição em papel do diário da Sonaecom, avançou ao M&P o responsável.

    O jornal vai assumir "um novo modelo organizativo" sendo criada uma direcção editorial operacional, que mantém a ligação com as outras direcções da empresa (financeira, comercial, marketing e produção), liderada por Nuno Pacheco, actual director-adjunto. Paulo Ferreira surge como director da edição impressa de segunda a quinta-feira e Manuel Carvalho fica com a direcção das edições em papel de sexta-feira a domingo. Bárbara Reis assume a direcção de edição dos suplementos Y, Fugas, Pública e P2. A mudança surge na sequência de uma reorganização interna do título, com vista a um maior foco no online, com implicações, além na distribuição de funções executivas na direcção editorial do título, na organização do funcionamento e horários de toda a equipa.
[Texto retirado da newsletter Meios & Publicidade, informação distribuída minutos atrás]

TELEVISÃO PARA CRIANÇAS E JOVENS

O estudo A televisão e as crianças, de Sara Pereira (coordenadora), Manuel Pinto e Eulália Pereira, do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho, em encomenda para a ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social), foi hoje apresentado na Fundação Calouste Gulbenkian.

Como o título faz depreender, a investigação caracteriza a programação infantil e juvenil nos quatro canais generalistas (RTP1, RTP2, SIC e TVI) durante um ano (Setembro de 2007 a Outubro de 2008), isto é, a programação cujo público-alvo específico é constituída por 15,3% da população nacional. A monitorização teve por base a análise de grelhas de programação e de materiais audimétricos e com suporte no visionamento dos programas (p. 20). A programação incluiu duração, localização nas grelhas, géneros, formatos, temas, origem geográfica, público-alvo e formas de empacotamento dos programas (p. 21). Os autores deram relevo ao programa contentor, espaço conduzido por um ou mais apresentadores e preenchido essencialmente por séries de animação, mas também passatempos, concursos, reportagens e com inclusão de crianças no estúdio (p. 49).

Programação
A percentagem das emissões globais orientadas para as audiências mais jovens atinge 12,7% do total da emissão (p. 62), não muito distante da população dessas faixas etárias (15,3%, como acima escrevi). O segundo canal do serviço público (RTP2) destaca-se, dedicando um quarto do total do tempo de emissão aos públicos infanto-juvenis e com regularidade ao longo da semana. No total, os dois canais públicos emitem quase sete horas diárias e a SIC e a TVI juntas 4,5 horas diárias (p. 65). O texto coloca dúvidas quanto ao esvaziamento de programas para aquelas faixas etárias na RTP 1 (embora o canal 2 suprima esta debilidade). Aproximadamente dois terços da programação infantil e juvenil passa no horário matinal (6 às 12 horas) (p. 69), seguindo-se o segmento horário das 17 às 20 horas correspondente a 21% do total das emissões. Os autores entendem que este último segmento deveria ter uma maior percentagem de programas, dado as crianças estarem em casa, e reforçam esta posição quando analisam os horários de programação ao fim-de-semana, interrogando-se a quem interessa a programação em horas tão matutinas (p. 76). A TVI aposta no horário do fim da tarde, com Morangos com Açúcar, duas horas seguidas com um episódio novo e a repetição do da véspera (p. 81).

A ficção animação ocupa 67% da duração dos programas, seguindo-se a telenovela (17%). Esta última tem representantes como Morangos com Açúcar, Floribella, Chiquititas e Rebelde Way (p. 88). Os dois canais públicos são os que têm a maior percentagem de ficção animação, com destaque maior para a RTP2 em diversidade de linguagens, histórias, personagens, conteúdos e valores (p. 91). Os autores do estudo destacam a série Ilha das Cores, na RTP2, e concluem que a esmagadora maioria (83,5%) dos programas com currículo educativo se destina ao público infantil até aos cinco anos (p. 95). Ou seja: com o crescer da idade, a oferta televisiva é inferior. A diversidade de formatos de desenhos animados 2D pode estar relacionada com a maior existência nos mercados de televisão, por causa dos avanços tecnológicos e das técnicas de produção.

Sara Pereira, Manuel Pinto e Eulália Pereira identificam quatro temas principais na programação: convivência interpessoal (19%), acção e aventura (18%), descoberta e conhecimento do mundo/meio (14%) e situações da vida quotidiana (14%) (p. 106). Assim, privilegiam-se assuntos que as crianças observam na vida quotidiana e que os adultos valorizam no desenvolvimento dos mais pequenos. Os autores chamam a atenção para o tema enredos novelísticos que na TVI preenche 54% dos programas (p. 112), caso singular no estudo. De novo o impacto da série Morangos com Açúcar.

Quanto a origem da programação, 58% vem da Europa e 22% da América do Norte (p. 114). Regista-se o carácter residual da programação produzida na América do Sul (1%), em especial dadas as afinidades culturais e linguísticas com o Brasil e visíveis em programas para outras faixas etárias.

Ao longo dos 12 meses do estudo, e com a excepção da TVI, a estrutura de apresentação dos programas infantis e juvenis é a de bloco/contentor: na RTP 1, o "Brinca Comigo" (73,6% da programação do canal), na RTP 2, o "Zig Zag" (95,2%), na SIC, o "SIC Kids" (43,3%) (p. 148). A estrutura de contentor visa fidelizar o público (não saída para outros canais) (p. 150). O estudo também conclui que os canais operam numa lógica de sequencialidade horária, baseada na repetição diária e semanal do mesmo tipo de espaços (p. 152). Da parte das estações privadas, SIC e TVI, há predominância de telenovelas para as faixas etárias analisadas. A faixa etária 6-10 anos tem mais força na SIC e a dos 11-16 anos na TVI (p. 153).

O trabalho de Sara Pereira, Manuel Pinto e Eulália Pereira destaca ainda os dez programas mais vistos, a publicidade e autopromoções e patrocínios. Como outras principais conclusões, a equipa considera ainda haver pouca investigação sobre a programação oferecida às crianças, reconhecendo haver somente um programa estudado, "Rua Sésamo". E apontam quatro áreas problemáticas relacionadas com: 1) programas e as lógicas de programação, 2) estratégias e tácticas dos operadores televisivos, 3) crianças e quadros e contextos de vida, e 4) academia e investigação e estudos de mercado.

Um trabalho fundamental, hoje apresentado na conferência A Televisão e as Crianças, organizada pela ERC (na imagem, da esquerda para a direita: Estrela Serrano e Azeredo Lopes, ambos da ERC, e Marçal Grilo, da Fundação Gulbenkian, na abertura dos trabalhos).

23.3.09

PINTURA E ARTES VISUAIS

Paulo Variz, de quem escrevi no blogue aqui, é tema de um ensaio no blogue el pintor de la vida moderna, de Carlos Primo. Para o autor do blogue:

  • Este joven artista portugués compagina su empleo diario como macroeconomista con una multitud de actividades creativas que él ejerce con frescura y sin prejuicios de ningún tipo. Diseña moda, pinta, hace collages y construye esculturas e instalaciones. Además, de vez en cuando trabaja como modelo. Lo más interesante de todo es el modo en que integra todas estas facetas bajo un fuerte contenido intelectual que sabe fagocitar y exteriorizar a través de su siempre sorprendente obra.

QUINTO CANAL COM NOVO CHUMBO

A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) excluiu de novo as propostas concorrentes ao concurso para a licença de operador do quinto canal generalista de televisão: Zon e Telecinco (Público Última Hora).

O QUE PASSA NA CINEMATECA EM ABRIL DE 2009


  • A constelação de sete estrelas maiores do firmamento de Hollywood brilha de novo nas tardes de segunda a sexta-feira na Sala Félix Ribeiro, com as inevitáveis excepções dos feriados da Páscoa. HUMPHREY BOGART brilha num dos seus mais míticos papéis, às ordens de Howard Hawks, em TO HAVE AND HAVE NOT, o tal filme em que encontrou a “rapariga do assobio” que o prendeu para o resto da vida, Lauren Bacall; MARLON BRANDO surpreende os seus admiradores com um talento inesperado, cantando e dançando ao lado de Frank Sinatra em GUYS AND DOLLS; GARY COOPER é a imagem perfeita do heróico soldado colonial na obra-prima do género, THE LIVES OF A BENGAL LANCER; CLARK GABLE é o amotinado Fletcher Christian em MUTINY ON THE BOUNTY, papel que lhe valeu uma nomeação para o oscar de melhor actor; CARY GRANT surge num dos seus mais enérgicos papéis, como editor de jornal em HIS GIRL FRIDAY; PAUL NEWMAN encontra pela primeira vez Robert Redford no mítico western, BUTCH CASSIDY AND THE SUNDANCE KID; e JOHN WAYNE aparece numa espectacular e “technicolorida” aventura, lutando contra um polvo gigante, no que foi o seu único encontro com Cecil B. DeMille, em REAP THE WILD WIND.

    Os acólitos dos sete “deuses” são, este mês, apenas três devido aos feriados. Mas é um trio que vale por muitos mais, do clássico ERROL FLYNN ao moderno WARREN BEATTY, passando pelo mais popular dos “divos” da década de 50: ROCK HUDSON, pretexto para (re)apreciarmos alguns clássicos como THEY DIED WITH THEIR BOOTS ON, GENTLEMAN JIM, DESPERATE JOURNEY, THE LAWLESS BREED (todos de Raoul Walsh), MCCABE AND MRS. MILLER, de Robert Altman, e o surpreendente (e estreia nesta sala) $ (DOLLARS) de Richard Brooks.
[texto da Cinemateca Portuguesa]

ESPECTÁCULOS E SOCIOLOGIA DOS PÚBLICOS

A ARTEMREDE - Teatros Associados, associação cultural criada em 2005 e que representa 16 municípios e uma escola, publicou recentemente o seu Plano Estratégico 2008-2015 (agradecimentos a Carlos Filipe Maia, que mo deu a conhecer).



De 2002 a 2006, abriram mais de 130 recintos em todo o país, entre bibliotecas, museus, teatros e centros culturais, alargando a oferta de programação e com melhores condições de acesso à cultura. Isso quer dizer que as autarquias têm dado um relevo especial à agenda da cultura.

Entre 1986 e 2003, houve um crescimento na evolução da despesa dos municípios (613%), mas processa-se uma inversão desde então, reflexo da crise económica. Por seu lado, o investimento do Ministério da Cultura foi mais elevado em 2001 e 2002.

O Plano Estratégico 2008-2015 distingue, no caso específico das artes do espectáculo, o finalizar o projecto de construção de teatros e cineteatros (financiados pelo POC/FEDER). O programa Difusão das Artes do espectáculo esteve em vigor em 2000-2002, complementando as redes de recintos. Há hoje mais espectáculos, festivais e eventos de rua. Contudo, processou-se uma quebra de público. A razão reside na oferta demasiado elevada face aos recursos financeiros e tempo disponível da população.

O texto agora disponível dá uma ênfase especial aos espectáculos promovidos pela ARTEMREDE - Teatros Associados, com 9253 espectadores em 2005 e 16740 em 2007. Quanto a formação, a associação realizou cursos de operador de som e imagem, técnico de palco, serviços educativos, gestão e programação de teatros municipais, marketing cultural e relações públicas, e-comunicação, percursos pela arte e cultura do século XX e outros. O plano mostra igualmente a importância da cultura em rede, com espaços de debate e reuniões. Nos anos de 2005 a 2007, o orçamento de promoção de espectáculos e actividades culturais alcançou cerca de 317 mil euros e as receitas atingiram um total de mais de 70 mil euros, enquanto os hotéis locais registaram ganhos de quase 48 mil euros e as gráficas locais um crescimento de quase 56 mil euros.

Das principais metas de consolidação e crescimento, o plano aponta cinco: novos associados (mais 5 a 10), orçamento de programação (aumento de 5% ao ano), públicos (mais 10% ao ano), criação artística (um mínimo de dois espectáculos novos por ano) e mecenato (correspondente a 5% do orçamento de programação). Desse modo, os eixos de intervenção estratégicos são seis: programação, públicos, formação, qualificação da gestão e funcionamento, sustentabilidade, governação e cultura de rede.

Os associados da ARTEMREDE - Teatros Associados são os municípios de (por ordem alfabética) Abrantes, Alcanena, Alçobaça, Almada, Almeirim, Barreiro, Cartaxo, Entroncamento, Moita, Montijo, Nazaré, Palmela, Santarém, Sintra, Sobral de Monte Agraço e Torres Novas. A meu ver, concelhos importantes como Cascais e Oeiras deveriam pertencer a esta associação.

Ver mais em ARTEMREDE.

NAS ORIGENS DO PERIODISMO MODERNO: CARTAS A ORESTES

Livro de João Bernardo da Rocha Loureiro (1778-1853), com organização, introdução e notas do Prof. José Augusto dos Santos Alves e prefácio do Prof. José Esteves Pereira que farão a apresentação no dia 25 de Março, pelas 19:00, na FNAC do Centro Comercial Vasco da Gama, em Lisboa.


  • Toda a biografia de João Bernardo da Rocha Loureiro (1778-1853) só pode ser uma história intelectual, partindo do princípio que foi um homem de pensamento e acção. É sobretudo do homem que se tratará neste estudo biográfico, avisando que não se trata aqui de uma apresentação do liberalismo ou do vintismo. As referências à doutrina, certamente indispensáveis, serão incompletas e sumárias, preocupando-se José Augusto dos Santos Alves mais com as vias, os caminhos, que conduziram o autor das Cartas a Orestes à imagética liberal-vintista.

    Quem era pois Rocha Loureiro? Como se formou? Que influências? É a estas interrogações que este pequeno exórdio tenta responder, sem pretensões, mas também sem “beatice”. João Bernardo da Rocha Loureiro foi um homem público, enquanto periodista e deputado. A sua biografia inscreve-se num encadeamento histórico que pesa sobre ele e sobre o qual agiu muitas vezes (informação da editora).
Mais informações no blogue da MinervaCoimbra.

22.3.09

A MORTE DA REALITY STAR

Reality star britânica, assim lhe chamou o US Magazine.com no obituário de Jade Goody, falecida hoje de madrugada com um cancro diagnosticado há sete meses. Ela tinha 27 anos e fora conhecida por ter participado no reality show Big Brother inglês em 2002. Então, foi ridicularizada pelo seu fraco nível de educação (pensava que Saddam Hussein era boxeur). Depois, numa outra edição do Big Brother, em 2007, criou uma controvérsia com a actriz indiana Shilpa Shetty, a quem chamou "Shilpa Poppadom" [crepe indiano], e criticou a sua comida e a sua pronúncia.

Mais recentemente, ela protagonizou um casamento apoiado pelos media (22 de Fevereiro) e pretendeu que a sua morte fosse filmada em directo, o que não aconteceu. A sua mãe disse que ela dormiu nas últimas 24 horas, longe dos sobressaltos da sua vida dos últimos anos. Por seu lado, o primeiro-ministro inglês, Gordon Brown, considerou que ela fez muito pela divulgação do cancro cervical, a doença que a vitimou.

Gostaria de traduzir reality star por estrela da realidade, mas não me parece bem. Trata-se mais de uma celebridade, celébre pela celebridade em si, não consubstanciada em nada. Tornou-se conhecida por participar num programa onde pôs a nu uma deficiente formação escolar, escândalo na sociedade ocidental onde a escola tem um papel central, mas onde saem muitas pessoas com idêntica formação deficiente. O escândalo em torno dela cresceu quando insultou a actriz indiana. Mas, de celebridade "má", passou a celebridade "boa" e activista quando adoeceu e se casou e baptizou os dois filhos pequenos. Enquanto muitos escondem a doença, ela teve coragem (ou falta de prudência) exibindo as suas debilidades físicas. No sentido das estrelas do Big Brother, regra geral mediatizadas por desvios sociais, viveu uma existência desbragada e exuberante, condimentos essenciais para fazer notícias, manchetes e capas de revistas.

O EFEITO DA INTERNET NAS INDÚSTRIAS CULTURAIS

A ler com atenção o texto de Paulo Querido no seu Certamente. Começa assim:

  • A primeira vítima da partilha digital foi a indústria musical, já lá vai uma década. O cinema temeu o pior e, talvez por ter reagido cedo, escapou. A seguir foram os jornais a declararem-se vítimas da Internet, essa “praga” que supostamente destrói a capacidade de lucro das indústrias culturais.A próxima vítima chama-se indústria da informática. (Texto de arquivo; primeira versão publicada na semana passada no Expresso Multimedia).
E continua assim: "A praga da Internet decorre do seu extraordinário poder produtivo enquanto fábrica colectiva global que é simultaneamente rede de distribuição. Com milhões de processadores incansáveis e grátis, software de fábula grátis e milhões de seres humanos a usá-los, a Internet gera abundância nunca vista".

FESTIVAL DE CURTAS-METRAGENS NO PORTO


A 2ª edição do Porto7 – Festival internacional de curtas-metragens do Porto vai decorrer de 10 a 14 de Junho, naquela cidade. É constituído por diversas secções:

1) Competição Internacional de Curtas-metragens – Curtas-metragens de ficção seleccionadas para esta secção. Prémios: Melhor Curta-metragem, Melhor Argumento Original, Melhor Actor, Jovem Realizador (até 30 anos),

2) Competição de Curtas-Metragens Porto7 – Curtas-metragens de ficção, sob o tema Porto. Prémio: Melhor Curta-metragem Porto7

3) Competição de Videoclip – Videoclips musicais. Prémio: Melhor Vídeoclip

4) Mostra de Curtas-Metragens – Exibição das Curtas-metragens concorrentes ao Festival, que apesar de não seleccionadas para a secção competitiva serão exibidas nesta mostra.

5) Mostra Porto7 Mood – Exibição de filmes seleccionados pela organização, com o intuito de promover, dinamizar e fomentar a produção cinematográfica.

A data limite para envio de filmes a concurso é 5 de Maio 2009.

Para saber mais, procurar em www.porto7.com.

21.3.09

EÇA EM CARICATURA

DIA MUNDIAL DA POESIA

É hoje. Ontem começou a Primavera.

AGENDA MEDIÁTICA E POLÍTICA

Nestes dois últimos dias, surgiram algumas questões tendo como centro os media e a sua relação com a política. Em ano de várias eleições políticas, é interessante verificar como o território dos media é ocupado de maneira impressiva.

Episódios (ou pseudo-acontecimentos): anúncio da Antena 1; críticas do noticiário das 20:00 das sextas-feiras da TVI na ERC. Agentes sociais: partidos políticos (PS e PSD, aquele mais identificado em termos de nomes individuais, como Arons de Carvalho), entidade reguladora (ERC), media (TVI, identificado com José Eduardo Moniz, director do Público e colaboradores deste jornal, na edição de hoje, respectivamente José Manuel Fernandes, Eduardo Cintra Torres e José Pacheco Pereira).

Observação: quem tivesse lido a notícia publicada ontem - no Diário de Notícias e no Público - sobre a análise que a ERC vai fazer às críticas de espectadores à TVI, leria dois tipos distintos de abordagem, uma mais neutra no primeiro, outra dando relevo ao director-geral da TVI, ameaçando ir à guerra total se se comprovasse a ERC ser serva do poder. Nesta última notícia, percebeu-se uma melhor definição do enquadramento do tema, com uma identificação de quem era e o que pretendia. A notícia do Público, apesar de maior tendenciosa (por dar mais relevo a uma fonte de informação), era mais completa e mostrava melhor a realidade em jogo. A isto chamo campo de notícia: a perspectiva distinta nos vários media a partir de um facto (ou pseudo-facto).

Posições: pelo escrito acima, ela é mais visível e entendível no Público. Logo, e goste-se ou não, é um jornal a seguir nos próximos dias. A posição do Diário de Notícias é mais factual, menos interpretativa e comprometida com uma posição, com menos interesse político e intelectual.

Ameaças e oportunidades: a posição de Arons de Carvalho, em texto há uma semana publicado no Expresso, onde defendia a existência de uma campanha negra em torno do primeiro ministro, tem contraponto em José Eduardo Moniz, na notícia de ontem do Público, como aliás ele se expressou igualmente na semana passada em conferência na Católica. As posições de ambos estão bem definidas e expressam uma luta entre um partido político e um canal de televisão (e jornais como Público e Sol), o que ameaça a relação habitual de combate político: partido de poder versus partido de oposição. Esta ameaça está consubstanciada numa queixa da líder do principal partido de oposição durante a actual semana: Manuela Ferreira Leite disse que os media a não escutavam. Aqui, há duas interpretações: os media preferem ouvir o poder político de serviço e não a oposição; as propostas dela não convencem os media. A oportunidade é ver os media como continuadores da defesa da liberdade no espaço público, numa altura em que a opinião pública tem outra agenda: desemprego.

Última observação: em ano eleitoral, é compreensível que os pseudo-acontecimentos ganhem uma ampliação inexplicável noutros períodos. O anúncio da RDP deveria ter sido logo eliminado, ou pensado previamente no impacto que teria, mesmo antes da sua emissão. Há que prever as conotações. A tensão que existe em tempos de eleições é propícia a estas interpretações. O pedido de demissão da direcção da RDP é excessivo, faz parte da espuma dos dias. Ao invés, o comportamento da ERC continua a ser minuciosamente escrutinado; e a ERC é uma entidade de grande poder mas, ao mesmo tempo, frágil, pois ela emana da Assembleia da República; se a relação entre os dois principais partidos políticos está comprometida (como no caso do provedor de Justiça), tal significa que a entidade sofre igualmente dessa degradação da relação dos partidos.

PAVILHÃO 28

O Pavilhão 28 já foi usado. Agora está desabitado, lá não há doentes. Poderia ser o sítio dos doentes desesperados, isolados, deixados sem humanidade, terminais. As paredes estão nuas e os tectos degradados. Aliás, há restos de pintura e desenhos num dos quartos. O longo corredor, com pouca luz à noite, mete medo. Não fora os outros visitantes, ficaria assustado.


O ambiente é propício para as exposições/instalações. O efémero e o ilusório da duração, o reciclável, os materiais pobres, a noção escassa de beleza em termos de como os ocidentais se exprimiram desde antes do Renascimento, o trágico da humanidade, o habitar e deixar de ser habitado, o frio resultante desse desaparecimento, estão ali patentes. Há, não posso deixar de afirmar, o desespero de uma geração jovem. Urbana, muito letrada, parece que procura o desconforto, a pobreza material. E dar conta da desagregação das cidades - de partes das cidades, prontras para o camartelo - e das psicologias individuais.

Underconstruction, na ala direita, usa os vídeos como representantes maiores da arte. Filmes sobre a periferia de Lisboa, a miscigenação, a cultura dos outros, marginalizadas mas existentes e vivas. Apartamentos, na ala esquerda, conta por exemplo com RAM, que utilizou dois quartos da pavilhão para expor. De um lado, estão os seus graffitis pintados em rectângulos de vidro; do outro lado, ficaram as marcas desses quadros antes de migrarem para o lado. Resistem espaços brancos rodeados por sinais e cores e formas monstruosas, a apontar para a doença mental. Este lado, agora ausente de vida, revela traços de uma alegria perdida da habitabilidade. Ou: fala-nos das experiências de pintores radicais de finais do século XIX que indicavam a sua degradação física, explorando as cores e as formas nos quartos que habitavam, antes da explosão do graffti no espaço público, como acontece hoje. O abandono do Pavilhão 28 expressa-se em RAM como nas fotografias de Gundula Friese. Alemã, ela fotografou os locais desabitados da Alemanha oriental pós 1989. Ruínas, degradação, esquecimento, mesmo a má qualidade das fotografias, indicam um estado de alma da fotógrafa - e do resto dos artistas da exposição/instalação.

20.3.09

ACESSO MAIS DIFÍCIL AOS MEDIA

O audiovisual na Europa, particularmente em Itália e nos países de leste, está sob pressão, naquilo a que se chama contra-reforma, um retrocesso ao tempo do controlo político típico do período da Guerra Fria. Uma sondagem do Open Society Institute, apresentada anteontem em Bruxelas, diz que muitas empresas de media, face à crise económica, não satisfazem os requisitos de serviço público (pluralismo), ao passo que as elites políticas estão a regressar a posições partidárias.

Fonte: European Journalism Centre.

EXPOSIÇÃO NO MUSEU DO CHIADO

Desenvolvida pelo Instituto Cultural Romeno de Bucareste e apoiada pela sua delegação em Lisboa, a exposição As Cores da Vanguarda – Arte na Roménia 1910-1950 apresenta pela primeira vez um conjunto fundamental do desenvolvimento das vanguardas da pintura romena entre 1919 e 1950 (67 peças). Inauguração dia 26 de Março, às 19:00.

CONGRESSO SOBRE GÉNERO E MEDIA

O Congresso Género, Media e Espaço Público, a realizar em 22 e 23 de Outubro, em Coimbra. Organizado pelo Instituto de Estudos Jornalísticos (IEJ) da Universidade de Coimbra e pelo Centro de Investigação Media e Jornalismo (CIMJ). Contactos: coloquiogenero@gmail.com.

A TELEVISÃO E AS CRIANÇAS

Conferência organizada pela ERC no dia 24 na Fundação Calouste Gulbenkian, auditório 3 (clicar em cima da imagem para a ampliar).

PLATAFORMA TRANSCULTURAL

TEATRO BOCAGE

MAMELUCO

Dia 1 de abril, às 21:00, no Café Piu Piu, em São Paulo (Rua 13 de Maio, nº 134, Bela Vista), a banda Os mamelucO apresenta o espectáculo Vira Lata.


Mameluco significa híbrido brasileiro, filho de europeu colonizador com indígena. Como o nome sugere, Os mamelucO é uma mistura que se pode ter na música brasileira, do samba ao blues, do côco ao choro. Este ano, vão lançar um CD, tendo já quatro músicas gravadas, disponíveis no MySpace. São Huguêra no violão, voz e cavaquinho, Gunnar Vargas no violão e voz, Peu na gaita, Cláudio Oliveira no baixo, Dan! na bateria, Paula da Paz na voz e Rafael Franja na percussão.

Contactos: Vanessa Sórice.

19.3.09

CIDADANIA DIGITAL

Duas fotografias do primeiro painel do seminário realizado hoje no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.


Começo da minha participação (segundo painel): "O presente artigo associa media digitais e responsabilidade social e procura justificar duas perspectivas: os media digitais promovem a cidadania e expressam a sociedade do conhecimento. Nele, abordam-se conceitos como responsabilidade social, criatividade e trabalho colaborativo, software social de livre acesso, jornalismo de cidadania e cultura pro-am, com análise de dois meios digitais de excelência, blogues e wikipedia".

CINEMA DE EDGAR PÊRA

Ontem, Edgar Pêra deu uma conferência chamada Manifestos Cine-Cosmopolitas. Foi apresentado por Eduardo Cintra Torres.


BREVE - II

Estou de acordo com António Pinto Ribeiro, no texto "Os Mitos das Indústrias Criativas", hoje no Público.

Diz ele que sem cidades cosmopolitas, com cenas artísticas e internacionais de prestígio, as indústrias criativas não têm um futuro muito adequado. Diz: as indústrias criativas não são solução milagrosa, nem se receita por decreto. E contesta a percentagem geralmente atribuída em termos de PIB. No caso português, isso passa por contabilizar televisão, cinema e música sem expressão de exportação. Além do deslumbramento com a tecnologia, que guia alguns dos teóricos das indústrias criativas.

BREVE - I

Hoje, o Diário de Notícias aparece com novo grafismo.

Sou lento a aceitar novos grafismos. Já o escrevi aqui numa das mudanças de grafismo do Público. Só por habituação (esquecimento do grafismo anterior) é que passo a gostar.

Mas não gosto do tratamento às fotografias. As fotografias de Vítor Constâncio e Dias Loureiro (página 2) ainda passam despercebidas, pela pequena dimensão das mesmas. Mas a de Rui Pereira, que nem sequer aparece mencionado na notícia, essa não. O texto refere uma acusação de António Costa, presidente da câmara de Lisboa, à polícia e ao Ministério da Administração Interna. Rui Pereira aparece com um sinal a abranger todo o nariz. Perguntas: foi operado ao nariz e anda com um penso? Usa uma máscara antigripe? Está vestido para o Carnaval? Não, a fotografia indica que há um vídeo com a notícia no novo sítio do jornal.

O tratamento gráfico da fotografia é um pavor!

18.3.09

ANIVERSÁRIO DO BLOGUE

Em 17 de Março de 2003, escrevi aqui no blogue:

OBJECTIVOS DO WEBLOG
Este weblog destina-se a apresentar textos sobre indústrias culturais (imprensa, rádio, televisão, internet, videojogos, publicidade).


O Indústrias entra no sétimo ano de vida! A quantidade de textos que aqui publiquei! Deixei de escrever a palavra weblog, aportuguesando para blogue, mudei de grafismo do blogue (nem reflecti sobre a última mudança), dei conferências, escrevi um livro, encontrei e fiz muitas amizades graças ao blogue, inspirei outras pessoas a investigar sobre a área. Tantas coisas boas graças ao blogue.

O meu reconhecido agradecimento aos leitores.

CIDADANIA DIGITAL EM COLÓQUIO

Amanhã, 19 de Março, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.

REVISTA DE ARGUMENTISTAS E DRAMATURGOS


A APAD (Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos) já editou o número 2 da sua revista trimestral dedicada ao cinema e ao teatro (ver aqui).

O tema do número é Empresas de Guionistas, onde se destacam os seguintes textos: entrevistas a Nuno Artur Silva (Produções Fictícias), Adriano Luz (Casa da Criação) e Nuno Bernardo (beActive), directório com as principais empresas de conteúdos, conversa com Alexandre Valente sobre Second Life, dois artigos sobre Robert Mckee (seminário em Lisboa, por Manuel Pureza; livro Story, por Jorge Palinhos), artigo sobre Direitos de Autor e análise a filmes (Ricardo Oliveira e Maria João Cordeiro) e ópera (António Lourenço).

Excerto do editorial:
  • Os argumentistas nunca foram os mesmos, em Portugal, desde meados da décadade 90, quando um grupo de autores decidiu criar uma empresa que coordenassee tornasse viável a produção contínua de guiões. Nasciam as Produções Fictícias (PF). Foi a partir deste ponto de partida que procuramos ouvir alguns protagonistas de uma face mais empresariável dos argumentistas.

EXPOSIÇÃO APARTAMENTOS

No dia 20 de Março, sexta-feira, pelas 21:30, é inaugurada, no Pavilhão 28 - Espaço Expositivo do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, a exposição APARTAMENTOS, que reúne trabalhos de Vasco Sá Cabral, Gundula Friese, Sónia Duarte e Ram. Comissário: Bruno Malveira. O Centro Hospitalar fica no Hospital Júlio de Matos (Avenida do Brasil, 53, Lisboa).


  • *Quer esteja enraizado ou desenraizado, o indivíduo vive sempre profundamente determinado pela relação com o seu interior e exterior. Em APARTAMENTOS, a individualidade é a palavra de ordem apresentando-se como um dos mais importantes valores artísticos. É necessário ter consciência de que o indivíduo vive o mesmo destino comum, mas cada um deles, vive-o de maneira diferente, a partir das suas próprias experiências. Por vezes, o indivíduo entra em ruptura com o exterior, com a realidade a que está confinado, optando por se manifestar a partir de uma perspectiva holístico-construtiva – em busca da unidade individual e que lhe permite aceder a uma noção e relação absoluta da realidade.*

    *Com frequência, pretende-se encontrar um único modo de fruição no espaço onde os vários artistas expõem as suas obras. Em APARTAMENTOS acontece algo semelhante, com a única diferença de imaginar cada um dos artistas encerrados nos seus próprios casulos. Assim, o espaço ganha os contornos de uma longa mesa de degustação. *

    *Este local permite, também, controlar as forças do ego, para que cada um dos artistas assegure a sua identidade e abordagens perante a individualidade. Consequentemente, não há qualquer tipo de fusão.*

    *APARTAMENTOS** debate-se com o real facto de que a memória é efémera. É o reflexo do indivíduo se defender da pressão social e cultural exercida nos dias de hoje; na procura de novas possibilidades para confrontar o exterior, o real e a esteticidade do belo.*

17.3.09

LANÇAMENTO DO LIVRO DE HELENA CORDEIRO

Conforme indicara abaixo, foi apresentado hoje O Papel Principal. Um estudo de caso. As capas da Elle de edição Portuguesa, de Helena Cordeiro (ed. Media XXI). Eu tive muito prazer em fazer a apresentação de um trabalho que foi inicialmente uma dissertação de mestrado que orientei. Além de mim, falou também o editor, Paulo Faustino - e a autora, obviamente.



Parte da minha apresentação do livro:

  • O livro de Helena Cordeiro é sobre a leitura e o consumo de uma revista feminina, a Elle em edição portuguesa. Começa com as seguintes perguntas, na página 21: as capas da Elle veiculam que informação? O que destacam? Que temas principais? E que lugar têm as revistas na vida quotidiana da mulher portuguesa? A estas perguntas inteligentes, a autora deu respostas concretas, como se lê ao longo do livro.

    [...] O Papel Principal, o livro de Helena Cordeiro, não é herdeiro das polémicas em torno do Centre for Contemporary Cultural Studies de Birmingham, mas segue as linhas propostas pelas autoras acima indicadas, como se observa na bibliografia desta obra. No conjunto, Joke Hermes foi a investigadora que Helena Cordeiro seguiu de mais perto. Basta ver o modo como construiu o seu quinto capítulo. Escreve ela, na página 139: "as revistas femininas são tornadas importantes para os seus leitores através da construção de repertórios (fazendo referências a sistemas de significado subliminares) e, consequentemente, contabilizando visões estereotipadas das leitoras".

    Helena Cordeiro fez entrevistas em profundidade com dez mulheres leitoras das glossies, revistas de formato internacional, papel brilhante e preço elevado. Escolheu essas entrevistadas a partir de três variáveis: idade (25 a 40 anos), profissão, classe social/nível de vida (média, média alta). Obviamente, os resultados não são universais, mas representam aqueles estratos. A compreensão dos resultados só pode dar-se através da leitura da totalidade do capítulo. Mas fico-me com a observação que as revistas constituem uma "base de sustentação para os repertórios de conhecimento partilhado" (página 149).

    Além do trabalho de inquérito, na sequência de trabalhos das autoras já identificadas, Helena Cordeiro fez análise de conteúdo às capas e às chamadas na capa. Usou, assim, uma segunda metodologia de investigação, elemento crucial em sociologia. Olhou e interpretou as capas da Elle durante dezassete anos, onde sempre apareceram mulheres bonitas, elegantes e jovens, num evidente estereótipo da realidade. É que as mulheres com que nos cruzamos todos os dias podem não corresponder a esse perfil físico sem deixarem de ser encantadoras. As capas são também do domínio da moda e dos conselhos físicos e higiénicos. Helena Cordeiro conclui com outro tipo: a revista ajuda a alimentar o mito da mulher bela que atingiu a igualdade e a liberdade. Na Elle – e mais noutras revistas –, encontramos mensagens fortes e apelativas da sexualidade. Destaque para outra conclusão: a importância da expectativa confirmada – quando se compra uma revista feminina, sabe-se à partida o que se vai encontrar (página 154). O mesmo se poderia dizer das revistas masculinas, de desportos motorizados, de artes e leilões.

    [...] No começo do livro, Helena Cordeiro apresenta o editorial da primeira edição portuguesa da Elle, de autoria de uma jornalista entretanto desaparecida, Tereza Coelho. Escreveu ela que a Elle "Surgira em França depois da guerra, em Novembro de 1945, pelo entusiasmo e intuição de Hélène Lazareff (o marido, Pierre Lazareff, dirigia nesses tempos o France-Soir). Duas ideias básicas: surpreender a transformação quotidiana do mundo na viragem do século, afirmar a imagem de juventude que domina, cada vez mais, essa transformação" (página 19). Quotidiano em transformação e juventude são palavras chave da revista, então como hoje.

    A estrutura da obra de Helena Cordeiro assenta em três partes, a primeira das quais fala da representação da mulher na imprensa do género, a segunda da revista feminina e a terceira do corpus da revista analisada, a Elle. Fico-me na segunda parte, capítulo três, no qual a autora divide em uso quotidiano dos media, leitura das glossies, tipologias e significados dados às revistas, importância das revistas femininas no quotidiano da mulher e construção de novas realidades.

LISBOA

LANÇAMENTO DE LIVRO HOJE

O Papel Principal. Um estudo de caso. As capas da Elle de edição Portuguesa, de Helena Cordeiro (ed. Media XXI). Às 18:30, na Universidade Católica Portuguesa (Sala da Expansão Missionária).

CURSO DE IMAGINÁRIA RELIGIOSA


De 1 de Abril a 20 de Maio, no Centro Cultural do Patriarcado de Lisboa. Módulos: Imaginária no norte de Portugal nos séculos XVII e XVIII - artistas, formas e funções, com Manuel Joaquim Moreira da Rocha (Faculdade de Letras/Universidade do Porto), O triunfo da escultura religiosa em madeira no Porto, do século XVIII ao século XX - oficinas, obras e artistas, com José Manuel Tedim (Universidade Portucalense), A escultura coimbrã do século XVI – as figuras, os retábulos, e as capelas todas-em-pedra, com Carla Alexandra Gonçalves (Universidade Aberta), A produção de imaginária religiosa em Lisboa no século XVIII – mestres, formas e influências, com Sandra Costa Saldanha (Centro Cultural do Patriarcado de Lisboa), Um percurso pela imaginária no Alentejo no período moderno, com Joaquim Oliveira Caetano (Museu de Évora), Imaginária religiosa no Brasil nos séculos XVII e XVIII - oficinas conventuais e escolas regionais, com Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Questões de iconografia na imaginária luso-oriental em marfim – séculos XVI-XVIII, com Maria Cristina Osswald (Universidade do Minho, UNED (Madrid) e UNICAMP (Brasil), Iconografia da Cruz de Cristo na imaginária portuguesa, com Carlos A. Moreira Azevedo (Escola das Artes/Universidade Católica Portuguesa).

16.3.09

NEWSMAKING - I

Assinalei na sexta-feira, a notícia editada no Público online sobre o Museu da Rádio, assinado por Ana Machado. No jornal em papel, a notícia surgiu no dia seguinte.

Na internet, o texto tinha quatro blocos. Na notícia em papel, surgem apenas os dois blocos iniciais, com alguns ajustamentos. O que se omitiu na edição em papel foi fundamentalmente as vozes de especialistas ou outros que discordavam do modelo de museu da rádio.


O que aqui e agora quero salientar é a constatação da limitação ou constrangimento da edição em papel: o espaço disponível. O essencial (positivo) da informação está no papel; logo, o jornal prestou um bom serviço. Mas a ideia de contraste de opiniões, de exploração de contradições desaparece, apesar do texto em papel criticar a inexistência do museu da rádio como a lei da rádio o indica; logo, o jornal não informou bem.

O exemplo agora apresentado leva-me a reflectir em algo que nunca pensara. Diz-se que a televisão e a rádio dão informação em tempo real e os jornais reflectem. Mas a internet baralhou esta análise. Por um lado, acusa-se a informação via internet de ser jornalismo "sentado", em que o profissional está em frente do computador e busca aqui e ali e compõe as suas peças, sem qualquer investigação. Mas, por outro lado, a maior disponibilidade em espaço e tempo leva a que a internet seja mais profunda em análise que o jornal. Na notícia acima, publicada na internet, percebe-se que a jornalista falou/telefonou a quatro fontes, dando conta do contraditório sobre a questão; na notícia em papel, lê-se apenas o respondido por uma fonte.

Conclusão: o newsmaking (fazer as notícias) é (ou tende a ser) mais rico na internet.

NEWSMAKING - II

O Guardian de 12 de Março publicou um texto sobre uma expectável transformação arquitectónica de Paris (texto de Angelique Chrisafis, na página 8). Basicamente o texto dizia que o presidente francês Nicolas Sarkozy quer deixar obra sua em Paris, cidade de dois milhões de habitantes e com uma cintura com seis milhões de habitantes de etnias diferentes e de elevados graus de pobreza. Sarkozy convidou dez arquitectos para repensarem esses arredores e apresentarem propostas que transformem Paris como o Barão Haussmann fez em meados do século XIX. O texto realça Richard Roger, o arquitecto que co-desenhou o Centro Pompidou nos anos de 1970, um dos proponentes da revitalização da cidade a mostrar no próximo mês.

Ontem, domingo, no Público, Alexandra Prado Coelho, retoma o tema (página 19). Cita o Guardian (embora sem indicar data de edição) e segue de muito perto a notícia. E também a AFP (Agence France Presse), que possivelmente fez a divulgação da peça do Guardian (ou foi o Guardian que seguiu a France Presse?), nomeadamente a infografia que sustenta a imagem.



A minha leitura em termos de newsmaking é que o jornalista segue várias pistas e informações para escrever as suas peças. Podem ser de fontes directas (fontes oficiais, outras fontes), pesquisa pessoal ou artigos e peças jornalísticas em outros meios. Num livro que publiquei há três anos, chamei a isto campo de notícia: a informação circula pelos vários media e toma ângulos e perspectivas diferentes segundo o meio e o jornalista. No caso presente, justifica-se a oportunidade da publicação da notícia pelo impacto do que está em jogo.

NEWSMAKING - III

O jornal A Voz de Torcena pode deixar de ser publicado em papel. A dificuldade em arranjar publicidade e o lançamento do sítio na internet, que tem tido muita procura, são as justificações para a possível transferência para o formato electrónico. Como promessa do jornal da zona de Tercena, em Oeiras, "um sistema noticioso mais aliciante, na medida em que será trabalhado diariamente e as notícias chegarão mais rápidas a casa dos utilizadores não só locais e nacionais como internacionais".


O newsmaking está em processo de rápida alteração. Não são apenas os jornais de âmbito nacional e mais comerciais, como New York Times e Público, que reflectem sobre as novas tendências, mas igualmente jornais locais e regionais. O problema, contudo, é que os jornais digitais ainda não desenvolveram um modelo de negócio adequado.

Agradecimento a Carlos Filipe Maia, que me fez chegar a informação.

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Diário de bordo

Este é o sexto dia sem acesso ao email da Netcabo (houve um período de funcionamento no sábado de manhã). Os servidores estarão fora de serviço até ao dia 18 à noite, esperando-se então a conclusão da reparação da avaria, segundo me disseram há pouco do Apoio ao Cliente.

É muito, mas muito, tempo sem email. Especialmente para quem o paga e usa o email para trabalho, como marcar reuniões e receber informação profissional.

Espero que a Zon envie uma informação posterior com desculpas aos seus clientes.

15.3.09

INVESTIMENTOS NA CULTURA

O Guardian de ontem (texto de Charlotte Higgins) questionava a continuidade da existência de entidades culturais devido a previsíveis cortes orçamentais devido à crise financeira instalada no mundo. O jornal estima que a baixa vem de 2007, com uma queda de 7% no ano passado. Alguns patrocinadores privados estão a retirar-se, dadas as dificuldades empresariais. O investimento privado no Reino Unido para a cultura é de 686,7 milhões de libras, enquanto o DCMS (Department of Culture, Media and Sports) planeia investir 437,6 milhões para o período de 2010 e 2011.

Os Estados Unidos e o Reino Unido têm problemas distintos, e diferentes possivelmente da Europa continental e do resto do mundo. Nos Estados Unidos, em que o apoio estatatal é mínimo, é possível que dez mil organizações culturais soçobrem durante 2009, estima a organização sem fins lucrativos Americans for the Arts. Os donativos provêm de empresas actualmente a braços com problemas de liquidez para os seus próprios negócios. No Reino Unido, a juntar à crise financeira veio a queda da cotação da libra, cerca de 30% relativamente ao dólar e 25% ao euro. Isto traz um fraqueza e uma oportunidade. Os que importam trabalho ou serviços fora do país pagam mais, o que já obrigou ao cancelamento de compromissos, como o San Francisco Ballet e exposições em galerias e centros de arte; os que produzem localmente, caso de Londres, ganham pois têm mais visitantes ou espectadores, dado que o preço baixou por comparação com o euro e o dólar.

GRAN TORINO

Clint Eastwood vota no Partido Republicano e é muito reaccionário. Sou mais preciso: ele não gostou do presidente Bill Clinton e não deve gostar de Barack Obama. Mas, apesar de republicano, não se impressionou com Bush Junior; pelo contrário. Basta olhar para as personagens do filme Gran Torino: a geração do meio, a da idade entre Clinton, Bush Junior e Obama, não presta, a avaliar pelo modo como Walt Kowalski, a personagem interpretada por Eastwood, olha os filhos. Já a geração dos jovens "chinocas" - como Tao - representa o futuro, a renovação da nação, simbolicamente representada pelo longo e belo plano final, quando o jovem asiático viaja no Gran Torino por uma avenida sem fim, ao lado do mar, que pode ainda significar a ligação dos Estados Unidos à China e outros países daquele continente.

Eastwwod é também conservador. Vê-se como ele reage aos forasteiros asiáticos agora vizinhos. E como Walt Kowalski considera negativamente o filho, vendedor de carros japoneses, ele que trabalhou toda a vida na Ford. A perda da produção própria para a importação significa redução de empregos e de independência, a mudança do antigo médico, já reformado, por uma especialista de origem asiática e a crítica aos modos de comportamentos dos seus netos leva-o a uma permanente condenação. Ele já não compreende o mundo.

Mas a personagem Walt Kowalski parece arrastar uma contradição. Ele é de origem polaca, os seus amigos são italianos, irlandeses, sabe-se lá de que mais países! A reacção à vinda de novos imigrantes esconde a sua condição? Sim, de certo modo. A aceitação dos asiáticos no seu bairro significa que ele não pode impedir a mudança, dado que a geração mais antiga de imigrantes se desfez, se alastrou pelo país, e se degradou. O filme mostra como os Estados Unidos são um país de melting pot, de mistura, mas com muita luta até chegar a um novo equilíbrio. Por isso, ele toma partido dos "chinocas", que compreende melhor que a família dos filhos, e por quem se sacrifica quando tem de enfrentar um bando de hmongs.

A redenção de Walt Kowalski (é assassinado, mas garante a paz à família "protegida") é o reverso da violência dele e da América na guerra da Coreia. O simbolismo surge quando ele dá a medalha ganha em combate ao jovem asiático. E a aceitação da família de Tao lembra os papéis que Eastwood desempenhou noutros filmes, como Million Dollar Baby, em que faz de conselheiro físico e espiritual de uma rapariga que segue o boxe como actividade de recuperação pessoal. Naquele que terá sido o seu último filme, o velho, reaccionário e conservador Eastwood representa, na conflitualidade e na raiva quase constante, uma mensagem de esperança. A mudança geracional pode trazer boas novidades. Talvez, no fundo, ele se aproxime do ideal democrático de Obama e lamente os anos perdidos de Bush Junior. Gran Torino é um grande filme que nos faz rir e nos faz chorar e que, sobretudo, nos faz pensar. Ao contrário de Million Dollar Baby, em que a personagem interpretada por Eastwood assiste à explosão vencedora da boxeur e à sua queda (uma hemorragia cerebral em combate leva-a ao estado de coma), em Gran Torino, o jovem asiático é o espectador da queda da personagem desempenhada por Eastwood.

Uma última reflexão, a das cenas iniciais e finais. O filme começa com o funeral da mulher de Kowalski, o filme acaba com o funeral deste. Assiste-se a um rito de passagem, a uma transição de uma geração para outra, mas em que se preservam os valores, os ideais americanos de fortuna e liberdade. No filme, só o velho Kowalski podia fazer esse papel de entrega do testemunho. O filme começa com a igreja e o padre a reflectir sobre vida e morte, o filme acaba com o advogado a ler o testamento - a religião e a lei acompanham esses valores imperecíveis dos países.

Dos filmes mais recentes e de incomparável qualidade de Clint Eastwood destaco Mystic River e a história comparada em Flags of Our Fathers e Letters from Iwo Jima.

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É esta a mensagem em permanência a quem procura aceder ao email da Netcabo, serviço da Zon Multimedia, nos últimos cinco dias. Incluindo clientes que pagam pelos serviços da Zon (o acesso regressou ontem por curtas horas, mas voltou a desaparecer a ligação).

Não é tempo de mais? Será que a Zon vai pedir desculpa aos seus clientes? Indemnizá-los? Ou ignorar tudo?

14.3.09

BERNARD MIÈGE EM SÃO PAULO

Em pós-graduação da Universidade de São Paulo (Brasil), de 23 a 27 de Março e de 13 a 17 de Abril.


[via Elizabeth Saad Corrêa no Facebook]

ARQUITECTURA DE COIMBRA EM BERLIM

A Escada Mecânica no Castelo de Rivoli, em Itália, de João Mendes Ribeiro, e o aparthotel que o Atelier do Corvo projectou e está a ser construído em Angola são dois dos 21 projectos que compõem a exposição Arquitectura: Portugal fora de Portugal.

A exposição, promovida pela Ordem dos Arquitectos Portugueses, foi inaugurada no dia 4 de Março, na galeria Aedes/ Architekturforum em Berlim, por ocasião da visita de Estado à Alemanha de Aníbal Cavaco Silva. Está patente até 9 de Abril.

GESTÃO E COMUNICAÇÃO CULTURAL - SEMINÁRIOS POR TONI PUIG


Nos dias 5 e 7 de Maio de 2009, no Auditório do Padrão dos Descobrimentos (Lisboa), Toni Puig vai realizar dois seminários sobre Gestão e Comunicação Cultural, numa organização da Academia de Produtores Culturais.

Em entrevista recente concedida a Rui Matoso, Puig disse:

  • Toda a cultura, toda a programação cultural, cujo objectivo não esteja ancorada no contexto concreto das cidades concretas (reais) e na melhoria das condições de vida intelectual dos cidadãos, não é cultura, é espectáculo! Eu sou um grande defensor dos espectáculos, claro! Precisamos de espectáculos de qualidade, no tipo de vida que levamos precisamos de distracções. Mas, de modo lato diria que tudo o que promove o pensamento é cultura, e tudo o que nos distrai é espectáculo, diversão. Precisamos das duas coisas obviamente.
E explicou ainda:

  • Eu comecei por trabalhar em Barcelona com os temas da animação sociocultural, que significa trabalhar com as pessoas e implicá-las nos processos. Depois chegou a era da gestão cultural, e acharam que tudo aquilo era muito popular, onde havia muita gente popular e anónima. Isso não lhes interessava, por isso sucumbiram ao glamour da gestão cultural. Criaram equipamentos, e muito bem, mas agora estão aborrecidos, sem dinheiro, sem saber o que fazer, pois já programaram de tudo. A gestão cultural funcionou sempre como distribuição de produtos e um difusor de artistas e de actividades, nunca colocou a tónica no pensamento. São cadeias de distribuição comercial de produtos que provoquem resultados imediatos, económicos ou mediáticos. Por isso, não colocam o assento na melhoria da qualidade de vida dos cidadãos.
O principal objectivo dos seminários com Toni Puig é fornecer abordagens teóricas e práticas úteis, eficazes e críticas quanto à produção e práticas culturais contemporâneas a responsáveis por equipamentos culturais (produtores, directores ou programadores) do sector público e privado e organizações socioculturais do terceiro sector. Toni Puig é conhecido pelo seu pensamento crítico humanista sobre as metodologias da gestão cultural, casos do Marketing e da Comunicação Cultural. A iniciativa conta com o apoio da EGEAC/Padrão dos Descobrimentos e a parceria institucional da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (Mestrado em Práticas Culturais para Municípios).

ESTUDO SOBRE REVISTAS FEMININAS

No próximo dia 17 de Março, pelas 18:30 e na Universidade Católica Portuguesa (Sala da Expansão Missionária), vai ser lançado o livro O Papel Principal. Um estudo de caso. As capas da Elle de edição Portuguesa, de Helena Cordeiro, numa edição da Media XXI.

Trata-se de um trabalho que tem como principal objecto o estudo das revistas femininas e o seu impacto nas leitoras. A autora estudou as capas da revista Elle mas também o seu conteúdo. Além disso, entrevistou muitas leitoras, dentro da perspectiva da etnografia.

O vídeo reflecte uma pequena entrevista com a autora.



No livro, Helena Cordeiro escreve sobre a representação da mulher, o corpo feminino nas revistas, a moda, a construção da sexualidade e as glossies (revistas de papel brilhante e com boa impressão gráfica, como a Elle).

13.3.09

O MUSEU VIRTUAL DA RÁDIO

O texto de Ana Machado, no Público Última Hora, de há quase vinte minutos atrás, tem um título categórico: Museu Virtual da rádio e televisão lançado hoje ainda sem espaço físico para colecção (endereço: Museu Virtual da RTP).


Fica o texto todo:

  • Lei da Rádio impõe conservação de um museu material
    Museu Virtual da rádio e televisão lançado hoje ainda sem espaço físico para colecção

    13.03.2009 - 17h50 Ana Machado

    A RTP propõe, a partir de hoje, uma visita virtual ao espólio de rádio e televisão. Um moderno portal de Internet, onde se mostram os objectos e os conteúdos – sons e imagem – que fizeram a história destes media em Portugal, é lançado hoje. Mas ainda não existe o museu físico de rádio e televisão, prometido desde o encerramento do Museu da Rádio, da Rua do Quelhas, a 1 de Abril de 2006.

    Talvez arranque no segundo semestre deste ano. Mas não como museu, apenas como "colecção visitável", o que contraria a Lei da rádio, que obriga à sua existência.

    A viagem virtual começa no átrio de entrada do edifício da RTP, na Avenida Marechal Gomes da Costa, em Lisboa. A partir daí, as portas abrem-se: "Bem vindo ao Museu Virtual da RTP", pode ler-se no final da introdução em museu.rtp.pt. O visitante virtual pode escolher a mostra da colecção de alguns dos objectos ligados à história da rádio, ou os da televisão, ou ainda optar pelos conteúdos, onde pode ouvir, no caso da rádio, e ver, no caso da televisão, uma selecção dos sons e imagens que marcaram os 74 anos de rádio e os 52 de televisão.

    Se preferir tem ainda acesso, numa das portas virtuais, a entrar na exposição sobre os 50 anos da RTP, percorrendo o espaço onde esta exposição tem estado patente e onde deverá, mais tarde, nascer o espaço físico que acolherá parte da colecção de objectos da rádio e televisão.

    Museu prometido há três anos continua por nascer

    A criação de um museu da rádio e da televisão é prometida desde 2006, quando, depois de 1 de Abril desse ano, o Museu da Rádio, que se situava na Rua do Quelhas foi encerrado, para que a RTP pudesse vender o prédio que o acolhia. Cerca de cinco mil objectos, que representam uma das maiores colecções da Europa sobre história da rádio, foram então empacotados, esperando pela construção de um novo espaço, que teria metade do tamanho do edifício do Quelhas e que seria dividido com a televisão. Mas até hoje o novo museu da rádio e televisão, projectado para as instalações da RTP na Avenida Marechal Gomes da Costa, continua por nascer.

    "Tentamos alargar o leque de públicos, a pensar em quem não se desloca ao espaço dos museus. E este é um espaço que permite uma visualização que não é possível directamente", frisa Pedro Braumann, director do gabinete de estudos e documentação da RTP, responsável pela iniciativa do Museu Virtual, que não quis avançar com o custo deste investimento: "Foram algumas dezenas de milhares de euros", adiantou apenas.

    É o mesmo responsável que explica, sobre a ainda não existência de um museu físico, em paralelo com um virtual, que o novo contrato de concessão do serviço público de televisão obriga apenas à existência de uma colecção visitável: "Um museu obriga a uma série de obrigações com quadro de pessoal, por exemplo, e o contrato de concessão (do serviço público de televisão) apenas obriga a ter uma colecção museológica visitável", disse, referindo-se à cláusula 20 desse diploma, que fala da "obrigação museológica de ter uma colecção representativa da evolução da rádio e televisão".

    Braumann garante, contudo, que o espólio de rádio e televisão está disponível integralmente para pessoas com interesses específicos, como investigadores.

    Crítica à falta de critério científico

    Mas Manuel Bravo, conservador do Museu da Rádio entre 1996 e 2004, que enaltece o carácter apelativo deste novo Museu Virtual, lembra outro diploma legal que obriga o contrato de concessão de serviço público de televisão a ir mais longe: "O contrato de concessão de serviço público é da televisão. E o que a Lei da Rádio ainda em vigor obriga, no seu artigo 48, é à existência e manutenção de um museu de rádio", frisa o antigo conservador, jornalista e ex-director de informação da RDP.

    Manuel Bravo questiona ainda a inexistência, entre o espólio "exposto" no Museu Virtual, de material de rádio profissional: "Não vejo aqui gravadores e microfones profissionais. Onde estão as nagras? E o magnetofone K4, dos poucos que existem na Europa? E um telégrafo? Onde está a telegrafia sem fios? De onde vem a rádio? Quem fizer esta visita virtual, cientificamente não fica a saber nada", alerta o ex-conservador.

    Do espólio do museu de rádio ficam ainda esquecidos objectos de carácter mais sentimental, como os estúdios de gravação de teatro radiofónico, que incluíam a caixa de areia que serviu para gravar os passos que iniciam o "Grândola, Vila Morena". Ou o rádio de António Oliveira Salazar, comprado pelo ditador em 1937 e mais tarde adaptado a gira-discos, porque Salazar não quis gastar dinheiro num novo. Ou a secretária onde Fernando Pessa escrevia em casa, doada pela família.

    "Andamos a juntar peças desde 1966. O Museu só abriu em 1992. Foi uma dificuldade para o abrir, lembrou Manuel Bravo ao PÚBLICO em 2006, numa visita guiada ao Museu da Rádio, já depois de ter fechado as portas.

    Museus virtuais complementam

    Rogério Santos, docente da Universidade Católica, investigador, com várias obras publicadas sobre a história da rádio e autor do blogue Indústrias Culturais, defende que os museus virtuais deviam ser um complemento e lembra que, apesar de promoverem uma maior acessibilidade, não promovem a investigação da história dos "media": "É um erro transformar a coisa física numa realidade virtual e não quer dizer que se esteja a promover a investigação. Este tipo de museus deviam ser exclusivamente um complemento", diz, lembrando a promessa da RTP de criar um museu da rádio e televisão após a venda do edifício do Quelhas.

    António Nabais, museólogo, presidente da Assembleia Geral da Associação Portuguesa de Museus, frisa o valor do espólio de rádio português: "É um património riquíssimo, que a Alemanha ou o Reino Unido perderam com a II Guerra Mundial. Não devia estar encaixotado. Temos objectos únicos no mundo. Nós todos temos direito a esse património. Pagámos para o erguer e pagámos para o destruir", defende o especialista.

    Sobre o modelo de museu virtual, Nabais frisa as vantagens, mas diz que não chega: "O virtual é muito bom, é uma boa forma de divulgar, mas só tem sentido quando não temos nada. Neste caso devia ser complementar de um espaço físico. Estamos a assistir ao encerramento de museus, como o caso do da Rádio, do de Arte Popular, do Museu do Vinho de Alcobaça. Estamos a empobrecer o país. Este é um sinal de empobrecimento, não podemos só preocupar-nos com os bancos que estão a falir. E aqui não consta que a Polícia Judiciária se tenha preocupado com o Museu da Rádio".
Estou, obviamente, com Manuel Bravo. Tenho muita, mas muita pena, do modo como o património da rádio está a ser tratado. Do meu conhecimento, será difícil encontrar na Europa um património tão rico como o nosso. A administração da RTP deve repensar o modelo traçado nos anos mais recentes e realçar a importância desse património. O país merece. A rádio e a sua história merecem-no.

LISBOA


Cartaz junto à estação de metro da Cidade Universitária, meia hora atrás.

12.3.09

MUSEU DA RÁDIO

Já há o museu virtual. Quem a ele já acedeu, gostou.

Mas falta o museu real, físico. Esse é que é o verdadeiro.

Para quando?

ADEUS A JOÃO MESQUITA

  • Morreu esta madrugada, vítima de cancro, o jornalista João Mesquita, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas e jornalista do Público desde à sua fundação até 31 de Agosto de 1993.João Mesquita foi o principal autor do texto que deu a primeira manchete do PÚBLICO, em 5 de Março de 1990, que tinha por título “Cunhal: resistir até ao fim" (Última Hora Público).
A última vez que me cruzei com ele foi num fim de tarde frio, no El Corte Inglés, aquando do lançamento do livro Espaços Perdidos. Coimbra, coordenado por João Figueira (ver aqui), em 16 de Dezembro de 2008.

MAU JORNALISMO

Max Rufus Mosley (nasceu a 13 de Abril de 1940) é o presidente da Fédération Internationale de l'Automobile (FIA), uma associação sem fins lucrativos que representa os interesses das organizações automobilísticas em todo o mundo. A FIA é a responsável pela Fórmula Um e outras corridas internacionais, traduzo livremente da Wikipedia.

Ora, Max Mosley anda nas bocas do mundo, como revela o The Guardian de hoje (e outros jornais, certamente). Ele ganhou 60 mil libras num processo que pôs no tribunal contra o jornal tablóide News of the World. Este escrevera sobre práticas sadomasoquistas daquele. Mosley invocou o direito da privacidade e da reputação dos indivíduos e das famílias e da moralidade pública.

Na mesma semana, Gerry McCann veio a público tecer críticas ao modo como a imprensa inglesa tem visto o problema do desaparecimento da sua pequena filha Madeleine na costa algarvia (a portuguesa fez o mesmo). Os McCann passaram de vítimas a criminosos, sem que a investigação policial tivesse chegado a uma conclusão definitiva.

Em artigo de opinião no Guardian, John Lloyd divide o seu texto em duas partes. Vale a pena meditar nelas. A primeira dá conta do modo como as celebridades se adaptam aos calendários diários dos media. Os McCanns, no sentido de manterem vivo o interesse nas buscas da sua filha criaram acontecimentos mesmo que não houvesse novidades na investigação. Estabeleceram aquilo a que se chama agendamento: fornecimento regular de informação com impacto. Acabaram por ficar prisioneiros disso. A segunda parte do texto de Lloyd diz que Mosley e os McCann têm razão: há que preservar o valor público de proteccção da vida privada, mesmo quando incida sobre pessoas que têm comportamentos não bem vistos por outros, reconhecendo-se que os jornalistas não estão bem equipados no desempenho de agentes da moral, actividade que deve ser guardada para outros e para a lei e a consciência.

Noutro artigo no mesmo jornal e sobre o mesmo assunto, Mariella Frostrup parte de outra perspectiva, a da simpatia com a causa dos McCann e a do nojo provocado pela história de Mosley. Um duplo padrão, diz ela, uma boa publicidade contra uma má publicidade. Não sei se Frostrup escreveu com cinismo, mas a verdade é que ela destaca a ingenuidade de Gerry McCann dois dias atrás, quando este argumentou precisar de estar na arena pública para manter viva a esperança de encontrar a sua filha. McCann ainda não aprendeu a lição, escreve a jornalista: os flashes dos fotógrafos e das câmaras apenas procuram matéria noticiável, haja boas ou más razões à partida. Frostrup não quer restrições à liberdade de imprensa, com um regulador mais apertado. Já há multas, humilhação pública e receio de ir a tribunal - meios suficientes para extirpar o "mau" jornalismo.

A CONFERÊNCIA DE ONTEM NO CORREIO DA MANHÃ

José Eduardo Moniz, conferencista ontem no ciclo Choque de Comunicações, organizado pelo Centro de Estudos de Comunicação e Cultura, foi notícia no Correio da Manhã de hoje.

JOSÉ EDUARDO MONIZ SOBRE TELEVISÃO

Ontem, como aqui escrevi, José Eduardo Moniz, Director-Geral da TVI, fez uma conferência intitulada A Televisão num Mundo Audiovisual em Mudança na UCP. No vídeo, Moniz fala de seis assuntos: 1) televisão generalista e novas plataformas, 2) perfil de oferta para o telespectador, 3) surgimento do quinto canal, 4) três canais de notícias, 5) programação de qualidade, e 6) blocos informativos.


11.3.09

SOBRE A TELEVISÃO E A TVI

Hoje, ao fim da tarde, José Eduardo Moniz, Director-Geral da TVI, deu uma conferência intitulada A Televisão num Mundo Audiovisual em Mudança, na Universidade Católica Portuguesa, a começar o ciclo Choque de Comunicações, uma organização do Centro de Estudos de Comunicação e Cultura. Espero publicar amanhã de manhã um vídeo de cerca de 14 minutos (ao lado de Moniz, Eduardo Cintra Torres, da organização).


10.3.09

PORTAL DE COMUNICAÇÃO DA AUTÓNOMA DE BARCELONA

O Portal da Comunicação do Instituto de Comunicação da Universidade Autónoma de Barcelona comemora o seu oitavo aniversário com o lançamento de uma nova versão em português em colaboração com o OberCom - Observatório da Comunicação: Portal da Comunicação. Ver mais dados no Portal da Comunicação.

OS MEDIA E AS LEIS PENAIS, NOVO LIVRO DE SARA PINA


O livro de Sara Pina, Media e Leis Penais, editado agora pela Almedina, é um texto a ler com atenção.

Basta atentar no índice. Na primeira parte, estuda o Direito e Sociedade, Media e Sociedade, Media e Direito Penal e Os Media "Fontes Informais" de Direito Penal. Na segunda parte, avalia Os Media como "Fontes informais" de Direito Penal e Processual Penal. A Situação Portuguesa e um Estudo de Caso, O Processo Casa Pia (que rebentou quando ela estava na Procuradoria Geral da República). Tem também 15 entrevistas (com os mais notáveis representantes da relação entre media e justiça).

A autora abre o livro com a seguinte indicação: "As questões da justiça e do direito vêm ganhando, nas décadas recentes, crescente espaço informativo nos mass media, particularmente na televisão mas também na imprensa, não só no que respeita à informação propriamente dita sobre casos, sobretudo penais, em investigação ou julgamento (e os próprios media fazem hoje frequentemente investigação em matéria penal), mas também no que respeita ao debate crítico das próprias soluções legislativas concorrentes em cada um desses casos, tanto as de direito substantivo como as de direito adjectivo".

A autora defende o ponto de vista que os media podem influenciar o processo legislativo. Ela fala mesmo de mediatização da justiça como relevante na colocação da agenda de prioridades políticas. Isto é, os media podem actuar enquanto fontes informais e doutrinárias de jure constituendo, em especial em matéria penal e processual penal.

De relevo para o meu conhecimento as páginas 57 a 90. Orientada por João Pissarra Esteves, a autora segue muito o pensamento deste professor, assim como Mário Mesquita e Nelson Traquina.

Sara Pina foi jornalista da Visão e assessora de imprensa da Procuradoria Geral da República. Actualmente é docente universitária e colabora com a FLAD. O livro é o resultado de tese defendida na Universidade Nova de Lisboa.

338 páginas, €19,80

MEMÓRIAS POLÍTICAS - I

O Estado Novo (1926-1974) foi um regime fascista ou uma ditadura e regime autoritário? A historiadora Irene Pimentel, numa aula hoje na Universidade Católica, pendeu para a segunda opção. O regime de Salazar, que assume a presidência do Conselho de Ministros em 1932, é caracterizado como conservador e autoritário, é antiparlamentar mas mantém uma Assembleia Nacional, embora com um só partido.

A aula de Irene Pimentel teve a PIDE, polícia política do Estado Novo, como alvo central. Falou da Polícia de Vigilância e de Defesa do Estado (PVDE), criada em 1933, e da PIDE, que lhe sucedeu em 1945 e durou até 1969, quando mudou de designação para DGS. Apontando distinções com a Gestapo, a polícia política portuguesa dependia do ministério do Interior enquanto a polícia alemã era um estado dentro do Estado. Os presos da PIDE eram colocados em prisão preventiva três meses a que se seguia um outro de igual período. Nesse tempo, os presos eram interrogados. Métodos: não os electrochoques, mas a tortura do sono (privação do sono) e estátua (o preso não se podia mexer). Informadores, escutas telefónicas e intrusão postal eram outras armas usadas pela polícia de Estado. Em 1945, a PIDE adapta a “medida de segurança” à sua actividade: o indivíduo perigoso podia ser internado num hospital. Nesta perspectiva, os presos políticos pertenciam a associações de malfeitores. Nos períodos mais complicados, chegou a haver mais de 500 presos políticos anuais.

Irene Pimentel não analisou a acção da PIDE nas antigas colónias.

MEMÓRIAS POLÍTICAS - II

No sítio do leste de Angola onde estive entre finais de 1971 e meados de 1973, os militares conheciam os representantes da PIDE. Então, havia três tipos de grupos coloniais brancos, para além dos escassos funcionários públicos: o exército (a companhia central do batalhão, isto é, mais de cem homens), os agentes da polícia política e o comerciante. Este, oriundo da Beira Baixa, servia uns bifes muito apetitosos e possuía moeda própria, isto é, passava senhas aos seus empregados que pagavam com esses papéis os bens que compravam na loja. Além da loja e do restaurante, alugava quartos. Por estranho que pareça, houve duas famílias de militares que lá se alojaram, acompanhando as comissões de maridos ou filhos. Num dos casos, a família era composta pelo militar, mulher, filha, pai, mãe e irmão. Tinham levado de Portugal uma frota de três carros de alta cilindrada (as estradas eram boas; o fomento em Angola conseguira estradas bem melhores do que aqui). A riqueza deles deu para “passarem férias” com o militar.

Não se podia dizer que se jogava xadrez com os representantes da polícia política, mas conheciam-se os seus nomes e as pequenas moradias em que viviam, já não me lembro se com ou sem família, pelo que muitas vezes me cruzei com eles. Por vezes, os militares milicianos, jovens e atrevidos, falavam em política e discordavam da guerra colonial. Houve muitas conversas políticas durante esses longos meses (bem mais interessantes do que as que eu ouvira quando estivera no quartel em Paço d’Arcos e, à noite, alguns de nós jogavam cartas e falavam dos livros que liam, como os de José Cardoso Pires). A reacção dos membros da PIDE naquele canto perdido de Angola era pedir (quase cortezmente) para os militares se calarem. Eles sabiam o desprezo que os militares lhes dedicavam, além de se sentirem em desvantagem numérica dado o número irrisório de agentes e das suas armas (espingardas) serem bem menos poderosas do que as do exército.

Numa zona em que a UNITA era maioritária e estava quase ao serviço dos militares portugueses e em que a facção Daniel Chipenda do MPLA conseguiu um ou outro êxito (o 1º de Maio de 1972 foi devastador para a nossa companhia, com a morte de sete companheiros), que acções a PIDE levou a efeito? E que relatórios escreveu sobre cada militar?

[imagem de 1972 já aqui publicada em 16 de Dezembro de 2005]

JORNAIS

"O grau mínimo de apoio do Estado [à imprensa] deve consistir na promoção da leitura de jornais, através de campanhas dirigidas a jovens, à população em geral e grupos específicos. Mas isso também pode (e deve) ser feito através de compras regulares de jornais por vários organismos públicos (escolas, bibliotecas, etc.), com base em critérios claros" (José Vítor Malheiros, Público de hoje).

FILMINHO 2009 - MOSTRA DE FICÇÃO PORTUGUESA


Por onde anda o cinema luso actualmente? A resposta a esta pergunta será dada nas seis sessões da Mostra de Ficção Portuguesa que terá lugar, nos dias 11, 18, 25 de Março e 1 e 8 de Abril, no Museu Verbum, em Vigo. A proposta de André Martins, coordenador desta Mostra e director do Filminho – Festa do Cinema Galego e Português, passa por não se concentrar num só estilo mas, sim em opções emergentes.

DANÇA EM SÃO PAULO

Para comemorar 20 anos de coreógrafo, Anselmo Zolla realiza uma Gala nos dias 16 e 17 de Março, no TD - Teatro de Dança. No programa, serão apresentados trechos de criações encenados por convidados da Cia. Sociedade Masculina, Studio3 Cia. De Dança, Balé da Cidade de São Paulo e outros.


Espectáculo na APAA - Associação Paulista dos Amigos da Arte, Avenida Ipiranga, 344, Subsolo, Edifício Itália, São Paulo, Brasil (Metro República). Mais informações em http://twitter.com/canalaberto e www.canalaberto.com.br.

OBRIGADO, LEITORES BRASILEIROS

Nota-se o regresso às aulas dos leitores brasileiros do blogue. Olhando o Free Web Stats Counter, vêem-se muitas luzinhas no Brasil, significando muita procura de informação neste blogue.

LIVRO SOBRE AS CAPAS DA REVISTA ELLE

Na newsletter de hoje da Meios & Publicidade, referência ao livro de Helena Cordeiro a ser lançado na próxima semana. Título da obra: O Papel Principal.

9.3.09

A TELEVISÃO NA TRANSIÇÃO DE SALAZAR PARA CAETANO

A Televisão e a Ditadura (1957-1974), texto de Francisco Rui Cádima, pode ser lido aqui. De acordo com Cádima, a RTP foi mais instrumentalizada por Marcelo Caetano do que por Salazar. Com Salazar, o regime foi expectante e provinciano face ao desenvolvimento da televisão. Manuel Maria Múrias como responsável da televisão na área da informação marcou a transição da informação televisiva de 1963 para 1964, continuada por Ramiro Valadão, que entra na RTP em 1970, já pela mão de Marcelo Caetano. Para além da mudança de pessoas e seu reflexo na liderança na redacção, houve uma importante alteração no quadro do próprio discurso televisivo e no quadro da estratégia propagandística do regime.

FACEBOOK VERSUS TWITTER

Para quem gosta de lutas, tipo A versus B, a newsletter de hoje do European Journalism Centre traz uma notícia apetitosa. É sobre o fundador e especialista da rede social Facebook, Mark Zuckerberg, que terá aberto uma conta secreta na rival Twitter. O fascínio de Zuckerberg tem a ver com a tentativa não conseguida da Facebook comprar a Twitter por 500 milhões de dólares no ano passado. Agora, o sucesso da Twitter leva a Facebook a vê-la como modelo. Na semana passada, a Facebook anunciou ir redesenhar a sua rede para que haja uma partilha de informação em tempo real.

8.3.09

CIDADES CRIATIVAS

Competitividade tecnológica favorecida pela tolerância cooperativa, texto escrito por Valter T. Dubiela no blogue Factorama (26 de Janeiro último) merece ser lido. O texto começa deste modo: "Richard Florida propôs um indice de tolerância para avaliar a competitividade de cidades".

Por ele, eu segui um link até às lições sobre a história das cidades, por Spiro Kostof, em 1991.

EXPOSIÇÃO DE PINTURA DE ISABEL CARRETAS


A partir de 10 de Março, pelas 18:30, na Livraria Círculo de Letras, Rua Augusto Gil, 15 B, em Lisboa.

JORNAIS: DO FINAL DO SÉCULO XIX AO LONGO PERÍODO DO ESTADO NOVO


No final do século XIX, o Século publicava 53 mil exemplares diários, com grande audiência nas camadas médias urbanas e notável penetração fora de Lisboa (Tengarrinha, 2006: 172). Nascera republicano mas, com a saída de Magalhães Lima, passou a envolver-se menos na luta política. Semelhante tiragem tinha o Diário de Notícias, conservador e apartidário embora veiculando a posição do poder.

Na altura do golpe militar de 1926, havia 17 jornais diários em Lisboa e 3 no Porto. Também noutras cidades havia jornais diários (Braga, Évora e Coimbra). Entre 1928 e 1974, Tengarrinha distingue três fases na relação entre o poder político e a sociedade (e os jornais), com a primeira decorrendo até 1931, com a atenção principal a incidir sobre a triagem da informação, embora sem critérios muito definidos. A segunda (1931-1954) foi marcada pela preocupação central de afirmação do regime, segundo linhas de orientação bem identificadas de modo a ser criado uma opinião pública favorável. A terceira é dominada pela preocupação de impedir informação desfavorável ao regime.

Leitura: José Tengarrinha (2006). Imprensa e Opinião Pública em Portugal. Coimbra: MinervaCoimbra

RADIO CAROLINE

Em meados da década de 1960, houve uma extraordinária explosão da música pop inglesa, mas as únicas estações de rádio que as passavam estavam em navios "pirata", como a Radio Caroline. Agora, um filme, The Boat That Rocked, de Richard Curtis, traz as memórias desse tempo, onde se redefine a música, a moda e a juventude da época (Simon Garfield, The Observer de hoje). No Reino Unido, o filme estreia no dia 3 de Abril.


A Radio Caroline começou a emitir em Março de 1964 e encerrou no Verão de 1967, quando a legislação anti-barcos pirata se aplicou ao caso. O seu fundador foi Ronan O'Rahilly, um jovem empresário irlandês da música pop frustrado por não ver sucesso com as bandas de que era agente. Na altura, já havia estações de rádio a emitirem a partir de barcos na Holanda e na Escandinávia para audiências específicas, pelo que O'Rahilly julgou oportuno adaptar o movimento ao público jovem do Reino Unido.

Nos primeiros meses de emissão, bandas como os Beatles, Rolling Stones e Who tiveram um grande sucesso graças à emissora instalado num barco em águas internacionais. Isso representou um novo movimento na música, na moda e nos comportamentos da juventude inglesa. O top ten de Julho de 1964 (três meses após o lançamento da Radio Caroline) dá conta dessa explosão: 1º)The House of Rising Sun, the Animals, 2º) It's All Over Now, Rolling Stones, 3º) Hold Me, PJ Proby, 4º) Someone Someone, the Tremeloes, 5º) It's Over, Roy Orbison. A BBC, que emitia apenas algumas horas semanais de música pop, demorou a compreender o fenómeno.

O governo trabalhista de Harold Wilson foi lento a reagir à iniciativa ilegal de emissão de rádio a partir de barcos porque tinha uma maioria muito pequena no parlamento e não queria perder votos. Mas um deputado do partido Liberal, Jeremy Thorpe, desencadeou uma acção, considerando que as emissões de rádio podiam interferir nos sinais de emergência e confundir outros barcos em alto mar. A luta pelo encerramento da rádio Caroline começou a ser mais violenta em 1966.

O filme conta, entre outros, com os actores Bill Nighy, Kenneth Branagh e Emma Thompson. O DJ Johnnie Walker, um dos animadores da Radio Caroline, agora com 63 anos, funcionou como conselheiro do filme.

7.3.09

ECONOMIA POLÍTICA E INDÚSTRIAS CULTURAIS

A ler com interesse o texto de Estela Kurth, Uma abordagem da economia política da comunicação no mercado de televisão aberta no Rio Grande do Sul.

DIREITOS DE AUTOR E PIRATAS

  • Indústria cultural portuguesa quer cortar Net a piratas

    A ideia partiu da Associação para a Gestão da Cópia Privada (AGECOP) e já foi encaminhada para o Governo: os produtores de música e vídeo propõem o corte da Net aos piratas. A AGECOP pretende criar um movimento que leve o Governo a punir quem recorre à cópia ilegal de música, vídeos e livros através da Internet. "As indústrias culturais não sobreviverão se não se tomar uma atitude. Já temos um quadro legislativo que proíbe downloads ilegais, mas não há aplicação no terreno", refere Tozé Brito, produtor de música e responsável da AGECOP, inquirido pelo Público. Tozé Brito lembra ainda que França e Irlanda já começaram a implementar o corte de acessos à Net como punição para quem descarrega ou distribui ficheiros piratas na Internet. A proposta da AGECOP deverá ser analisada hoje [ontem] durante uma acção de formação na Universidade Nova de Lisboa.
Fonte: Exame Informática online de ontem

RTP - O DIA DO ANIVERSÁRIO


"A primeira emissão regular, também baptizada, por muitos, de oficial, foi a 7 de Março de 1957. A idade da RTP começava a ser contada. Desde então, tem sido contada. Porém, nesse dia, o público era ainda cautelosamente esclarecido: «Começam hoje as emissões da Radiotelevisão Portuguesa, que ainda não terão carácter definitivo, visto tratar-se justamente de ensaio que se alongará por alguns meses, até que esteja pronta a instalação da cadeia de emissores que cobrirá 60% do território metropolitano. Só então se farão emissões de tipo definitivo. Todavia, este período de ensaio, quer quanto ao número, quer quanto à qualidade dos programas, representa, na verdade, um avanço sensível relativamente às emissões da Feira Popular»" (O Século, 7.3.1957).

[texto e imagem retirados do livro de Vasco Hogan Teves, RTP 50 Anos de História, 2007]

MUSEU DO CHIADO

A visita a Outras Ficções (Other Fictions), A arte portuguesa de 1850 até hoje, título da presente exposição temporária patente no Museu do Chiado (Lisboa), levou-me a escrever esta mensagem.

Do sítio Viajar.clix, retiro a seguinte informação: "O museu encontra-se dividido em salas, organizadas por secções: pintura portuguesa da primeira metade do século XX, sala Columbano, pintura da segunda metade do século XIX e arte moderna portuguesa, além da sala para exposições temporárias. Alvo de uma bela intervenção arquitectónica, em 1994, assinada por Jean-Michel Wilmotte, o museu pode ser visitado de quarta a domingo, das 10 às 18 horas, e às terças-feiras, das 14 às 18". Ao ler outro sítio (blogue do Museu), verifico a alteração doo objectivo do museu: "A colecção de arte portuguesa, de 1850 à actualidade, constitui a mais importante colecção portuguesa de arte contemporânea, incluindo pintura, escultura, desenho, vídeo, entre outros media. O programa de exposições temporárias, de particular relevância, ocupando totalmente o espaço de exposição".

Assim, o Museu deixou de ter uma perspectiva histórica (escolas, perspectivas específicas de cada uma, principais autores) para integrar exclusivamente uma perspectiva de novidade (moda), temática (mais sociológica ou psicológica) ou circulação de exposições com obras de outra proveniência. O olhar museológico clássico (história) foi substituído ou desautorizado por uma perspectiva de curador ou galerista. A primeira permite a constituição de um gosto, através da percepção de colecção permanente, disponível para a pedagogia ou para o visitante que quer conhecer o que de melhor existe num país sobre arte. A segunda privilegia a moda, o efémero, a falsa reconstituição histórica.

Raquel Henriques da Silva foi a primeira directora após o incêndio do Chiado (1994-1998), a que sucedeu Pedro Lapa. No blogue do museu, acima indicado, há dois parágrafos que, a meu ver, identificam o pensamento dos dois directores. Primeiro, a posição definida em 1994: "Desde a reabertura a insuficiência de espaço, quer para a colecção, quer para as exposições temporárias foi um facto notório". Depois, a posição do actual director: "A ausência de espaço tem-se revelado como um dos factores mais constrangedores de toda a diversidade de actividades que o museu procura desenvolver, seja a possibilidade de apresentar com carácter de continuidade as suas colecções, seja a de desenvolver exposições temporárias com a escala desejada ou ainda actividades pedagógicas, todas estas dimensões da actividade museográfica encontram limitações cuja resolução tem tardado".

O que prevaleceu foi, pois, o aspecto das mostras temporárias em detrimento da visão de conjunto. A verdade é que, nos anos mais recentes, a colecção foi substituída pela exposição temporária, como a presente, que se subordina a quatro conceitos, Lugar, Reversibilidade, Rebaixamento, Acontecimento. A exposição é demasiado conceptual para agradar a quem pugne pela formação de gosto. Actualmente, o Museu de Arte Contemporânea configura-se, segundo o meu ponto de vista, como um espaço de grande virtualidade. Lamento que tenha surgido tão grave mudança de rumo, a pretexto da falta de espaço.

PATTI SMITH

Em palco, a raiva - parece que cólera - é amplificada pela electricidade. À voz dura mistura-se o braço e o punho erguido. Não há muitos sinais da reacção do público, a não ser uma onda em salto. Fica-se com a ideia que o mundo acaba ali, desaguando para a violência - ou para a revolução (como a crítica a G. W. Bush).

Em casa, é uma voz suave, uma mão que brinca com o gato, que fala de coisas quase banais, que mostra as fotografias. Há um grande desalinho nos objectos, coisas pelo chão, descuido. Talvez reflictam um desprendimento dos bens materiais, a recusa em viver bem, a aceitação das coisas simples da vida. Ou ainda a teimosia em não querer sair do seu sítio, do seu sofá, até um dado momento. Ficar - e não partir.

Em terceiro lugar, há o longo espaço de memórias. Pelos familiares desaparecidos, pelo visitar as campas dos poetas incompreendidos no seu tempo. Há uma nítida recuperação de valores do seu tempo e de tempos antigos. Aliás, ela usa uma metáfora dos antigos que escrevem para a posteridade, a pensar nos que hão-de nascer, e dos mais modernos que elogiam e celebram os antigos, como se existisse um permanente retorno.

Patti Smith (nome de nascimento Patricia Lee Smith) nasceu em 1946 no Illinois e cresceu em New Jersey. Como a família não era rica, foi trabalhar aos dezasseis anos para uma fábrica. Em 1967, mudou-se para Nova Iorque e conheceu Robert Mapplethorpe numa altura em que trabalhava numa livraria. Apesar da homossexualidade de Mapplethorne, os dois viveram juntos e mantiveram amizade até à morte dele por sida em 1989. Após uma longa ligação com o poeta Jim Carroll, conheceu Fred "Sonic" Smith, antigo guitarrista da banda MC5. Fred morreria de ataque cardíaco em 1994, ano em que também morreu Todd, o irmão de Patti.

Na década de 1970, Patti pintou, deu recitais, escreveu sobre rock (revista Cream) e compôs canções. Em 1975, lançou o seu primeiro álbum, Horses, uma espécie de fusão entre o rock e a música punk que se avizinhava, incluindo a recitação de poesia. Easter (1978) foi um álbum de muito sucesso. Depois de se ter retirado com a família, voltou com o álbum Dream of Life (1988), nome que dá o título ao filme de Steven Sebring, agora em exibição (elementos a partir da
Wikipédia). Ver entrevista em texto e vídeo em Ípsilon, Público.

6.3.09

APRESENTAÇÃO DO LIVRO DE HELENA CORDEIRO


O Papel Principal. Um estudo de caso. As capas da Elle de edição Portuguesa, de Helena Cordeiro (ed. Media XXI). Lançamento em 17 de Março, 18:30, na Universidade Católica Portuguesa (Sala da Expansão Missionária).

Há muito enclausuradas entre os preconceitos da dita intelectualidade e o desinteresse académico, as revistas femininas seguem o seu caminho, aparentemente imunes às críticas. Esta pesquisa procura não só entender a correlação existente entre as implicações disciplinares deste tipo de imprensa de género e a(s) sua(s) representação(ões) globalizada(s) da mulher e do feminino, mas também a razão para o aparente nó cego criado pelo prazer retirado da sua leitura e a simultânea vergonha por lê-las. Ao adoptar uma atitude depreciativa, este tipo de leitura promove, em última análise, o seu status cultural muito baixo. O que as capas das revistas femininas internacionais ou Glossies oferecem tanto em termos imagéticos como textuais (expressos nas chamadas de capa) por forma a apelar à sua leitura e como são vistas e lidas por uma amostra seleccionada de leitoras portuguesas – são estes, resumidamente, os pontos principais nos quais baseamos esta análise que persegue a necessidade de compreender o proper locus de ócio da mulher moderna e sua óbvia ligação ao prazer (texto da autora que acompanha a promoção do lançamento do livro).

FOTOGRAFIA DE SUSANA PAIVA

A fotógrafa portuguesa Susana Paiva integra, a partir de 5 de Março, uma exposição colectiva de fotografia em Bruxelas, na Galeria [mana.art] (rue des Renards 28 Vossenstraat). Intitulada "5 x 5" e organizada por Margarida Guia e Lucas Hees, a mostra inclui, para além dos trabalhos de Susana Paiva, fotografias de Gregoire Cheneau, Franck Gerard, Noelle Hoeppe e Anissa Michalon.

Para saber mais de Susana Paiva, ver aqui, aqui e aqui. Sobre ela, já escrevi no blogue aqui, aqui e aqui.

LAURO ANTÓNIO E O CINEMA

Excerto em vídeo da comunicação de Lauro António, ontem na Universidade Católica Portuguesa.


5.3.09

CURTAS

"Juventude realizadora de curtas não se esqueçam de nos fazer chegar os vossos filmes por www.imagofilmfest.com ou www.reelport.com" (a partir do Twitter).

ASSOCIAÇÃO OS FILHOS DE LUMIÈRE

O MOMENTO XV de O SABOR DO CINEMA, ciclo de projecções-conversa bianual, programado pelo oitavo ano consecutivo pela Associação Os Filhos de Lumière, em parceria com a Fundação de Serralves, está a decorrer no Auditório de Serralves até 5 de Abril. A colaboração tem dois aspectos: 1) com o Auditório do Museu de Serralves, sessões dirigidas ao público em geral (domingos, 16:00), 2) envolve o Serviço Educativo da mesma instituição, sessões dirigidas às escolas (terças-feiras, às 10:00 ou às 14:00, alternadamente). Mais informações em Os Filhos de Lumière.

PROGRAMA RÁDIO EM DEBATE

O tema, esta semana, são os programas dirigidos às crianças e adolescentes. Geny Marcondes (apresentadora do pioneiro Reino da Alegria, criado na década de 1940, que revelou actores como Fernanda Montenegro e Chico Anysio), Bia Bedran (que recebeu, em 1985, o prémio Ondas como melhor programa de rádio internacional), Zé Zuca (Rádio MEC e Rádio Nacional do Rio), Sandra Peres (Palavra Cantada), Raquel Grabáuska (Cuidado que mancha), Camila Targino (Rádio Pipoca) e Airton Medeiros (Escola Brasil) são as entrevistados do Rádio em Debate que analisa os programas dirigidos ao público infanto-juvenil. Ouvir em EBC (Brasil).

ÍCONES

Jonathan Meades, no Intelligent Life (The Economist), edição da Primavera de 2009, escreve sobre ícone, que considera uma palavra omnipresente. Cada época usa um léxico próprio com algumas palavras a terem um emprego exagerado (hoje, no começo de uma frase, diz-se o irritante: "é assim"). Isto é, as palavras são sujeitas a modas, a morais, a etiquetas, à política e à música popular. Hoje, uma palavra tem uma vida quase desconhecida, amanhã, pode ser um termo influente. Há palavras pseudo-científicas que vêm dos dirigentes - empowerment, SWOT, driver, implementar. O jornalês pode ser outro tipo de linguagem.

Meades - que na mensagem sigo de muito perto - fala de ícones. O Oxford English Dictionary (OED) descreve icónico como "designando uma pessoa ou coisa vista como representativa de uma cultura ou movimento; importante ou influente num contexto particular (cultural)" [imagem de James Dean no sítio oficial do actor]. O dicionário da Porto Editora indica para icónico o "pintado ao vivo; conforme o modelo; pintado do natural". É evidente que a definição do OED já não é adequada, pois hoje ícone significa: notável, celebrado, promoção com zelo, reverenciado, longamente estabelecido, autêntico, facilmente reconhecível, memorável, importante, estimável, estereotipado, atípico, representativo, não habitual, popular, acessível, inevitável.
Vivemos, continua Meades, num mundo de celebração e moda permanente (hype). Tudo tem classe mundial, qualquer banda rock que sobreviva à depreciação narcótica ou a um empresário menos sério é lendária, os artistas são heróis. Cada cidade ou região tem um edifício de que se vangloria: torre, catedral, arranha-céus, câmara municipal. Para além da representação e do símbolo, estas estruturas têm utilidade: a estação do Oriente (Calatrava), o museu Guggenheim de Bilbau (Gehry), a ópera de Sidney (Jørn Utzon). A estas estruturas juntam-se imagens, esculturas, ícones.

Ícone deriva de uma palavra grega, significando semelhança, retrato ou imagem. Durante séculos associou-se a imagens de Cristo e o seu sofrimento e ressurreição. O ícone foi adoptado pela igreja oriental: imagens pintadas da Virgem a cores douradas e circulares. Na Anatólia, a cidade de Konya chamara-se primitivamente Iconium.

Implícito no uso moderno de icónico é a aspiração deliberada de investir coisas e pessoas com propriedades que se tornam milagrosas e sobre-humanas, mágicas e parecidas a deuses, Futebolistas, estrelas de cinema, celebridades, Jagger parece Pã, o deus dos bosques, dos campos, dos rebanhos e dos pastores da mitologia grega, Robert Plant lembra Dionísio, deus grego do vinho, das festas, do lazer, do prazer [Barack Obama, pelo artista de rua de Los Angeles Shepard Fairey]. A mudança do nome de Farrok Bulsana para Freddie Mercury foi uma antevisão do que aconteceu. A música popular criou estes deuses. Regimes como o Terceiro Reich (Hitler), União Soviética (Estaline) e China (Mao) foram teocracias (tipo de governo com influência religiosa): os ditadores procuraram matar Deus e substitui-lo.

Veja-se Hitler, continua Meades: o bigode, a saudação nazi, a madeixa no cabelo. A suástica é um logo, que não foi roubado deliberadamente à religião indiana do jainismo. Os comícios de Nuremberga eram rituais entre o marcial e o sagrado. Terríficos como uma cerimónia azteca e piegas como uma opereta amadora, esses comícios ficavam na retina de quem assistia a eles. Hojes, tais cenários são visíveis em palcos de estádios que acolhem as bandas de rock.

Os ícones significam quatro condições:

1) afectam-nos quer gostemos ou não. Exemplos: Picasso, Oprah Winfrey, Michael Schumacher,
2) a imagem transcende o seu objecto,
3) o sujeito é legível em termos de escrita visual. Exemplos: a silhueta de Napoleão com a mão dentro do capote; Chaplin com o chapéu, o bigode e a bengala, Jagger com o par de lábios [imagem pertencente ao Victoria and Albert Museum],
4) reconhecimento imediato, o que pede imutabilidade. Exemplos: garrafa de Coca-Cola, torre Eiffel, Big Ben, cabina telefónica e autocarro de dois pisos em Londres, Che Guevara, Marilyn Monroe, James Dean, Barack Obama.

O domínio da televisão durante meio século trouxe o declínio gradual da retórica e da oratória, substituindo-as pelo discurso naturalista em múltiplos media, com uma grande disseminação de imagens.

19 ANOS: PARABÉNS, PÚBLICO

DIA MUNDIAL DO LIVRO

Ler é um prazer. Ler um livro é um prazer maior. Hoje, Dia Mundial do Livro, ler é um prazer, um grande prazer.

4.3.09

DIÁRIO DE NOTÍCIAS, JORNAL DE NOTÍCIAS E OUTROS DO GRUPO CONTROLINVESTE

  • Mais de centena e meia de pessoas, a maioria pertencente aos quatro jornais da Controlinveste, manifestaram-se hoje em frente ao edifício do Jornal de Notícias, no Porto, em protesto contra os 119 despedimentos anunciados pelo grupo. Entre os manifestantes encontram-se boa parte dos despedidos, mas também muitos trabalhadores não abrangidos pela medida - jornalistas e não jornalistas - pertencentes aos quadros dos quatro jornais do grupo, que inclui o Jornal de Notícias, o Diário de Notícias, o 24 Horas e o diário desportivo O Jogo (Público Última Hora, 18:21).

O Diário de Notícias surgiu a 1 de Janeiro de 1865, ao preço de 10 réis. Um dos traços marcantes do jornal foi eliminar o artigo de fundo, pois “não discute política, nem sustenta polémica”. A imprensa noticiosa substituia a de opinião. A tiragem inicial foi de 5 mil exemplares, subindo para 9600 no final do primeiro ano. Desde o princípio, a sua venda foi feita por vendedores ambulantes, os ardinas, que apregoavam o jornal. Ao fim de dois meses de publicação, o jornal tinha 30 vendedores ao seu serviço, que recebiam dois réis por exemplar [em José Tengarrinha (1965). História da Imprensa Periódica Portuguesa. Lisboa: Portugália]. Na edição de 18 de Fevereiro de 1865, o Diário de Notícias trazia uma referência ao novo Jornal de Notícias (Porto), que havia adoptado uma forma de venda semelhante, copiando ainda o programa literário e administrativo do Diário de Notícias. A revolução do jornal de Lisboa espalhara-se ao país.

FESTIVAL DE MÚSICA CHEGA AO FIM?

Fim definitivo do Festival Intercéltico do Porto?, eis o que suspeita o sítio Crónicas da Terra (a partir de Luís Rei, no Twitter do mesmo).

LIVROS E LIVRARIAS

Nuevas librerías y viejos hábitos lectores, de Joaquín Rodríguez (a partir do Twitter de José Afonso Furtado).

AGENDAS CULTURAIS


Agendas culturais que fazem anos: 12 para 30DIAS (Oeiras) e 6 para Cascais Agenda Cultural (Cascais). Parabéns às duas.

Na agenda de Oeiras, destaco a Mostra de Teatro Amador 2009, de 21 de Março a 21 de Abril, em Algés, Barcarena, Carnaxide, Linda-a-Velha, Oeiras, Tercena, num total de doze espectáculos, com peças desenvolvidas pelos grupos existentes em Oeiras. Na de Cascais, relevo o curso livre A Música Portuguesa. Picos da sua história, de 7 de Março a 16 de Maio, no Museu da Música Portuguesa – Casa Verdades de Faria. Temas: renascimento e humanismo, escolas de Polifonia, barroco em Portugal, classicismo, romantismo, contemporâneo.

CONFERÊNCIAS SOBRE COMUNICAÇÃO

José Eduardo Moniz, Edgar Pêra, José Afonso Furtado, António Pinto Ribeiro, Laura Bulger e José Rodrigues dos Santos serão conferencistas no ciclo Choque das Comunicações, a realizar na Universidade Católica, a partir do dia 11 deste mês (para ver melhor a informação, clicar em cima da imagem).

O QUE PENSO DA ORQUESTRA DO YOUTUBE

Media sérios como o jornal Público e o sítio European Journalism Centre dão hoje muito relevo à orquestra sinfónica do YouTube, cujos ensaios começam no dia 15 de Abril.

O que fez o YouTube? Recebeu mais de três mil vídeos de músicos profissionais e amadores e fez audições através da internet. A escolha final dos 90 músicos foi uma mistura de votos online do público e de músicos de grandes orquestras.

Isto resulta numa enorme campanha de publicidade para o YouTube, a muito, mas muito, baixo custo. Fica-se com a ideia que o YouTube é amigo da música clássica, tem uma atitude de responsabilidade social. Com isto, esquecemo-nos do trabalho moroso e sério das múltiplas orquestras do mundo, as profissionais como as amadoras, de que os media sérios não falam, nunca falam. O valor-notícia que vejo é o facto da escolha ser feita pela internet, em que o público é soberano. Mas este público também votou nos concorrentes do Big Brother. Que eu saiba, ninguém se comoveu com a participação do público em programa tão mau.

3.3.09

RÁDIO

Marconi fez a transmissão do primeiro sinal da rádio sem fios através do Atlântico (1901). Reginald Fessenden produziu a primeira emissão de rádio ainda sem ser radiodifusão (Natal de 1906). No final da Primeira Guerra Mundial, muitos amadores enviavam sinais de chamada dos seus radiotelégrafos. David Sarnoff chamou de "caixa musical de rádio", colocado no centro da sala ao receptor que recebia concertos, palestras, humor. Em 1921-1922, muitas estações começaram a emitir; em Portugal, CT1AA emitia experimentalmente no Outono de 1924.

Amos’n’Andy foi uma série popular nos Estados Unidos, a partir de 1928. Oriundos de um meio rural, procuram o sucesso na grande cidade. Havia uma espécie de divisão de trabalho: um era mais ingénuo, o outro mais esperto (ou julgavam-se assim). As duas personagens criaram um estereótipo que passou no teatro, cinema, rádio e televisão. Amos’n’Andy estreou-se no período de ouro da rádio, conseguindo grandes audiências, o que levou ao patrocínio de uma marca de dentrífico e à emissão numa das grandes estações de Nova Iorque. Em Portugal, Zezé e Toni (António Feio e José Pedro Gomes), na Conversa da Treta (rádio, cinema, teatro) seriam uma actualizada espécie nacional, desde 1997.

TEATRO EM SÃO PAULO, BRASIL


De 6 a 8 de Março, o Teatro de Dança (programa da Secretaria Estadual de Cultura gerenciado pela APAA – Associação Paulista de Amigos da Arte) traz uma nova edição do programa Bem-Casado, em que um artista de S. Paulo divide a temporada com outro de uma cidade ou estado diferente.

Neste projecto, Carmen Gomide (fotografia de Luciana Bortoletto) divide o palco com o baiano Luiz de Abreu, que apresenta a Bahia, espectáculo baseado nos registos escritos das torturas sofridas por escravos africanos na Bahia do século XVIII e arquivos de registros de discriminação racial arquivados no Ministério Público da Bahia de 2006 até 2008.

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA DE NELSON D'AIRES


Mar Fêmea, exposição de fotografias de Nelson d'Aires, de 4 a 28 de Março, é um trabalho em duas partes - a da inauguração e a do encerramento: "a inauguração apresenta fotografias de uma espera e é contada através de símbolos que são metáforas. Durante esse tempo, vai ser criada e produzida na íntegra a matéria de conclusão cujas fotografias substituirão as anteriores".

Local: [Kgaleria], Rua da Vinha, 43A, Bairro Alto, Lisboa, 4ª a sábado, das 15:00 às 20:00 (excepto feriados). kgaleria@kameraphoto.com, www.kameraphoto.com/kgaleria

A INDÚSTRIA DA MÚSICA EM PORTUGAL

O Instituto de Etnomusicologia - Centro de Estudos de Música e Dança e o IASPM Portugal organizam o workshop A Indústria da Música em Portugal na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Orador Principal: Tózé Brito
Programa (11h-13h)
Sessão 1: 6 de Março
Produção Musical – elementos constitutivos e conceitos
Convidado – Rui Costa
Sessão 2: 20 de Março
Editora Fonográfica: Orgânica; A&R – Da contratação à gravação
Convidado – David Ferreira
Sessão 3: 3 de Abril
História da Indústria Fonográfica e Novos Desafios
Convidado – Paulo Ferreira
Sessão 4: 17 de Abril
Direitos de Autor e Conexos Contratos, Licenças, Agenciamento e Management
Convidado – Eduardo Simões
Sessão 5: 22 de Maio
Noções gerais sobre produção de espectáculos
Convidado – Luís Montez
Sessão 6: 5 de Junho
Promoção nos Media e na Internet
Convidado – Paulo Sardinha

2.3.09

LEI DO PLURALISMO E DA NÃO CONCENTRAÇÃO DOS MEDIA

O Presidente da República, Cavaco Silva, vetou a lei do pluralismo e da não concentração dos meios de comunicação social. Ele considerou não haver urgência em legislar sobre esta matéria. A lei fora aprovada apenas com os votos do PS. Ao longo da tarde, o deputado Arons de Carvalho (PS) e o ministro dos Assuntos Parlamentares Augusto Santos Silva indicaram ir levar em consideração as razões avançadas por Cavaco Silva. Por razões diferentes, partidos da oposição e sindicato dos Jornalistas apoiam o veto. Para melhor compreensão do que está em discussão, ver último parágrafo da notícia do Público Última Hora, de onde retirei a informação. A legislação regressa ao Parlamento para alteração ou aprovação como está.

GRAFFITI EM LISBOA

RÁDIO ZERO


A Rádio Zero faz três anos na sexta-feira dia 6.

Programa para esse dia:

00:00-01:00 - Directo de microfone aberto a partir do estúdio da Zero;
12:00-00:00 - Emissão de programas especiais dedicados ao aniversário da Zero.

CINEMA EM DISSERTAÇÃO DE MESTRADO

Foi hoje defendida a dissertação de mestrado de Sérgio Silva Os Processos Comunicativos Cinemáticos na Universidade Católica Portuguesa. Ele estudou, no âmbito da linguagem fílmica, os processos de criação em diferentes períodos da história do cinema e de alguns cineastas associados às estratégias de construção e formas comunicacionais no cinema ficcional. O autor, agora mestre em Ciências da Comunicação, dividiu o seu trabalho em três capítulos: o filme enquanto representação visual, som e som/filme, e narrativa e montagem.

Como grande objectivo, Sérgio Silva procurou saber se as questões-chave inerentes aos processos criativos do cinema foram ultrapassadas pelo surgimento de novas tecnologias. A conclusão a que chegou indica que a influência dessas tecnologias não é importante, pois os problemas iniciais do cinema continuam a preocupar os realizadores, caso do som. Assim, escreveu, "a linguagem fílmica não depende tanto da tecnologia ao dispor do cineasta, mas antes na habilidade individual do realizador e da equipa com que trabalha para elaborar uma cine-linguagem com eficiência comunicacional e, se possível, original".

ÁGUEDA

JORNALISMO CIDADÃO NOS BLOGUES DO NYT

O jornal New York Times planeia lançar uma série de blogues de proximidade (na perspectiva do jornalismo de cidadão), começando a fazer testes com sítios nas áreas de Fort Greene e Clinton Hill. Cada blogue é liderado por pessoal do New York Times como editor, mas os contributos vêm do público. Exemplo: 169–187 block of 5th Ave. Aqui, sabem-se notícias dos principais eventos em Nova Iorque durante o presente mês, classificações de restaurantes e outros locais, compras de fim-de-semana, apartamentos para venda, inspecções de higiene a restaurantes, fotografias, notícias políticas, etc.

1.3.09

PINTURA DE ISABEL CONTRERAS

Ela representa o feminino, a fertilidade e a terra e as cores vivas, telas e desenhos em duas dimensões, mulheres fortes (e corajosas) e multiculturais (brancas, mulatas), grávidas às vezes com brinquedos a substituir as crianças como as matrioscas outras vezes. Um interdito: a representação do homem. Mas ele é, penso, o ausente presente (ver aqui o anúncio da inauguração da exposição).

POESIA DE NUNO DEMPSTER


Lida por Sylvie Rocha, no dia 11 de Março, às 18:30, na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa.

O EFEITO PENÉLOPE CRUZ

A coroação de Penélope Cruz (a primeira mulher espanhola a ganhar um óscar) marca uma mudança cultural significativa em termos de atitudes para com actores não americanos, escreve o Observer de hoje. Na noite dos óscares, Cruz diria: "A todos los actores de mi país, muchíssimas gracias". Se o Reino Unido e a Índia festejaram os óscares no filme Slumdog Millionaire, em Espanha os jornais escreviam "Hollywood coroa Penélope". A actriz espanhola entrou no filme de Woody Allen, Vicky Cristina Barcelona, filme que não apreciei sobremaneira, em que Cruz desempenha um papel feminino secundário. Curiosamente, ela contracena com Javier Bardem, que se tornara o primeiro actor espanhol a ganhar um óscar com o filme de 2007 No Country for Old Man (Este País não é Para Velhos, na tradução portuguesa; Onde os Fracos Não Têm Vez, na tradução brasileira), dos irmãos Ethan e Joel Coen.

O Observer indica que este reconhecimento dos talentos espanhóis (e hispânicos) se deve ao crescente peso da comunidade de língua castelhana nos Estados Unidos: mais de 46 milhões ou 15,1% dos 305 milhões de habitantes, muitos deles vivendo nos estados da Califórnia, Arizona, Novo México e Texas. Nas últimas eleições, dois terços dos hispânicos votaram em Barack Obama; há 23 membros democratas e 1 membro independente no Congresso com sangue hispânico. E o cinema segue a tendência da rádio e da televisão, onde a minoria de língua castelhana está a aumentar a sua influência, nomeadamente nos estados acima indicados.

CINEMA INGLÊS

Não é só Danny Boyle, com o seu Quem quer ser bilionário, a sorrir de felicidade neste momento no Reino Unido. Para o Observer de hoje, a indústria inglesa de cinema está excitada com os filmes que serão exibidos nas próximas semanas ou meses e em que se sobressaem o talento e a capacidade da indústria. Ou é apenas o momento antes da recessão? Filmes a ser estreados (datas no Reino Unido): The Young Victoria, de Jean-Marc Vallée (6 de Março); In the Loop, de Armando Iannucci (17 de Abril); Shifty, de Eran Creevy (24 de Abril); A Frenchman's Guide to Love, de Jackie Oudney (Maio/Junho); An Education, de Lone Scherfig (Outono); London River, de Rachid Bouchareb (data a confirmar).

ADESÕES AO TWITTER

O Indústrias, no Twitter, teve três adesões na sexta-feira, seis ontem e oito hoje até esta hora. Isto prova ou o efeito de massificação da ferramenta ou da minha entrada não planeada no Twitter. Um comentário que recebi sobre o Twitter, na mensagem anterior: "como ferramenta social acho completamente dispensável para além do facto de aprofundar ainda mais o facilitismo em termos de escrita e algum alheamento. Passo os olhos pelo que se escreve e vejo apenas uma quantidade infindável de banalidades sem propósito algum".

Ainda não medi o alcance desta febre ou moda. Gente que comenta os resultados de futebol, congressos partidários e outros acontecimentos políticos, novidades tecnológicas, vontade de ir a concertos ou filmes - registos do que se faz e do que se pensa fazer. No FaceBook e no Linkedin recebo igualmente convites para participar em colóquios ou peças de teatro. Há uma transposição do efeito SMS para a internet, mas abrangendo grupos mais informais, que não chegaram a trocar números de telefone entre si, em especial quando se tratam de níveis etários diferentes ou de gostos e círculos de amizade distintos. As redes sociais, para além do efeito moda (hyper), e dos perfis (que, hipoteticamente, podem servir para contactos profissionais e de emprego), funcionam para publicidade ou promoção de actividades de grupos.

Como a informação que colocarei a seguir.

TEATRO-PERFORMANCE

Para quem estiver no dia 14 de Março em Lisboa e quiser conhecer um tipo de teatro diferente, pode participar na próxima performance do Teatro Imediato, um grupo de teatro playback.

Este tipo de teatro não é propriamente "teatro-espectáculo", mas uma experiência pessoal, de encontro com a arte: contar a história pessoal e vê-la representada instantânea e improvisadamente por actores, performers e músicos. Este tipo de teatro tem aplicações múltiplas. No Brasil, é aplicado na consultoria de recursos humanos, para abordagem de temas como a motivação, as relações de trabalho, a produtividade.

Local: Oficina da Pessoa (Avenida 5 de Outubro, 122, 3º dto, Lisboa, junto ao Oculista da Avenida). Horário: começo previsível às 21:00. Mais informações sobre o Teatro Imediato encontram-se aqui.

REDES (NÃO) SOCIAIS?

Todos os dias, recebo mensagens de internautas que querem seguir o que escrevo no Twitter. Confesso a minha incapacidade de compreensão das vantagens de escrever no Twitter e noutras redes sociais, apesar dos recentes e encomiásticos artigos de jornais (Diário de Notícias de quinta-feira, Expresso de ontem). Alguém escrevia que aderir às redes sociais é estar na moda.

Ontem, chegou-me o convite de um jornalista muito versado em tecnologias das redes sociais. Quando fui ler o que ele havia publicado, encontrei o seguinte: "Agradeço o interesse de todos os que enviaram pedidos, mas serve esta mensagem para informar que não escrevo no Twitter". Ora, para que serve a solicitação de adesão? É ele um caçador furtivo que quer ler o que os outros escrevem, mas não quer dizer o que pensa - ou faz neste momento? É ele sociável, ou o oposto? Para que quer o seguidor do Twitter seguir outros se não quer ser seguido? O Twitter é um panóptico para alguns? Um big brother?

As redes electrónicas são mesmo estranhas.