domingo, 10 de julho de 2005

AFINAL, O TERRORISMO NÃO ESCOLHEU NACIONALIDADES

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Basta ver os nomes dos desaparecidos ou mortos nos ataques terroristas no dia 7 em Londres. Monika Suchocka, Ojara Ikeagwo, Shahera Akther Islam, Chung For Yuen, Behnaz Mozakka e Gladys Wundowa têm nomes ou apelidos familiares que não são britânicos, conforme as páginas de hoje do Sunday Times. Possivelmente, entre eles havia crentes no Islão.
ARRASTINHO *

O título do tema do provedor do leitor do Jornal de Notícias de hoje é: "Era uma vez um arrastão". Manuel Pinto retoma no jornal um assunto que já debatera no blogue Jornalismo e Comunicação e que foi o grande assunto do dia faz precisamente agora um mês. Recorda o professor universitário: "Políticos e autarcas apareceram de imediato com ar de catástrofe, chamando a atenção para o facto da criminalidade ter, com este caso, e por assim dizer, ascendido à primeira divisão". Com os dias, continua a ler-se no jornal de hoje, o balanço feito apontava para praticamente não haver vítimas do arrastão. Manuel Pinto critica, perante as dúvidas, os media de não terem batido "porta a porta, a interrogar fontes diversas, a recolher depoimentos, a reconstituir os factos".

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Em texto à parte, Manuel Pinto chama a atenção para a actuação de Vozes que não se ouvem nem lêem nos media. Escreve: "Na Internet, além do acesso a este vídeo (eraumavezumarrastao.net), é possível encontrar, nomeadamente nos weblogues, uma diversidade de contributos para a reflexão deste caso, que não foi possível encontrar nos grandes media. Quem visitar sítios como O céu sobre Lisboa, Blougouve-se, Indústrias Culturais ou Da Literatura, entre outros, não encontrará certamente factos novos, até porque a esmagadora maioria destes espaços de expressão dos cidadãos não são de profissionais e os seus autores não dispõem do tempo (e, em muitos casos, da competência) para procurar e investigar. Mas confronta-se com interrogações, relacionamento de factos, análises e sugestões que os jornalistas profissionais não perdiam nada em considerar mais".

O que escreveram os outros jornais

O Expresso de ontem deu título na primeira página à revisão da perspectiva do incidente de 10 de Junho. O Público de hoje dá-lhe um destaque em página interior (p. 29). Se é certo que foi o texto de Adelino Gomes, do mesmo jornal, a dar conta do vídeo de Diana Andringa - e que levou Manuel Pinto a interrogar-se no seu blogue e a servir de núcleo para a discussão que agora se repercute nos jornais - o Público segue a ideia do Expresso de ontem. O título do diário de hoje é Comandante da PSP diz que não houve arrastão. O mesmo responsável policial admite ter sido pressionado pelos media e considera a designação arrastão, usada no comunicado da polícia, como infeliz.

Importa aqui ver o nível da importância das notícias segundo a página em que elas se inserem. Claro que uma notícia na primeira página chama mais a atenção, destina-se a vender. Quando um acontecimento deixa a primeira página e passa para uma página interior isso quer dizer que perdeu o impacto. Mas, certamente neste caso, a notícia de hoje merecia igual destaque que o dado no dia 11 de Junho. Constituiriam tipo de prova e contra-prova. O texto de hoje, ainda por cima "esmagado" por publicidade de duas universidades, não tem o impacto dado pelo Expresso de ontem ou pelas notícias que sairam na altura do ocorrido.

Considero aqui uma outra coisa: se há circularidade da informação e das perspectivas entre os media - a notícia de ontem do Expresso marcou a de hoje do Público -, essa ideia de circularidade (e de influência ou reflexão) marca também o trabalho dos blogues (como Manuel Pinto deixa implícito no seu trabalho).

* arrastinho foi a designação original de Manuel Pinto dada à ocorrência, no seu blogue Jornalismo e Comunicação.

[texto concluído às 19:19]
AS ENTREVISTAS COM OS MINISTROS DA CULTURA

Explico melhor: o Público de hoje traz duas importantes entrevistas com dois dos principais responsáveis da cultura (e das indústrias culturais e criativas) do país, a ministra Isabel Pires de Lima e o líder da TVI, José Eduardo Moniz. Dito de outro modo, os elementos que gerem a cultura de elite e a cultura de massa (embora o mundo se não reduza a duas culturas distintas e antagónicas, como C. P. Snow distinguira entre cultura científica e cultura literária).

Do que disse Isabel Pires de Lima retiro algumas frases e ideias. A primeira é sobre a política do ICAM (Instituto do Cinema, Audiovisual e Multimedia), que a ministra garante ser de continuidade. Ela fala da regulamentação da lei do cinema e do audiovisual, de que haverá uma primeira proposta em finais de Julho, com distinção entre o cinema e o audiovisual. A ministra fala em "Deixar bem claro que o cinema tem que ser encarado numa dimensão de serviço cultural público, que importa cuidar de forma diferente do audiovisual", querendo "aumentar o financiamento disponível e diversificar as fontes de financiamento para garantir, também, que o audiovisual não será alheio ao cinema de produção nacional".

Embora não conheça mais indicações sobre esta regulamentação além da entrevista, parece-me clara a vitória dos defensores da especificidade e excepcionalidade do cinema como arte, uma perspectiva claramente francesa (e do actual governo espanhol) e contra a ideia mais britânica e americana de indústria cultural, agregada numa cadeia de valor em que o audiovisual é motor principal. E isto não me parece continuidade, até se me afigura uma atitude de rompimento com as políticas do audiovisual dos governos do PSD e do ministério de Carrilho, que apostou numa clara linha de envolvimento do cinema no audiovisual e no multimedia (período de José Costa Ramos à frente do ICAM).

Uma segunda linha de intervenção da ministra, e que deve ser de louvar, é a sua política a seguir ao livro (internacionalização da literatura portuguesa, por exemplo): ir às feiras do livro, caso da de Londres, apostar nos incentivos de tradução em Inglaterra ou publicação no Brasil. Diz ela: "em vez de tentarmos exportar o livro português para o Brasil, que chega lá a preços bárbaros, passámos a apoiar a edição de livro português por editoras brasileiras". Claro que esta política vem do ministério anterior, como lembra o jornalista e a ministra aceita, e o que se passa num sentido também é válido no outro. Não seria melhor acertar uma política a nível dos escalões mais elevados dos decisores políticos para que houvesse uma circulação sem os condicionamentos actuais? Em ciências sociais, no jornalismo e nas indústrias culturais, para dar estes exemplos, a edição brasileira é muito maior em títulos; assim, continuamos a perder, se queremos estar actualizados.

Da teoria da entretenização

José Eduardo Moniz não concorda com a etiqueta da entretenização. Acha ele que "quem a propaga muitas vezes são aqueles que têm dificuldade em acompanhar o dinamismo do tempo". Um pouco adiante entende que "Há conteúdos que anteriormente não estavam lá, hoje há porventura informação sobre espectáculos que não existiam no passado, ou espectáculo mais light, isso é verdade, mas na medida em que há também uma importantização de conteúdos que não existia".

A meu ver, há necessidade de esclarecer um ponto. Os "eles" criticados pelo responsável da TVI são quem? Os intelectuais? Os críticos de televisão? São apenas os académicos portugueses? E os que estudam a televisão a nível internacional, quer em termos de programação e informação, andam todos fora do dinamismo do tempo? Não serão já muitos? Mais valia reflectir e aceitar que quem comanda a programação e os informativos são as medições de audiência, úteis para angariar publicidade, a qual alimenta os canais de televisão. Assim, perdia-se nebulosidade e ganhava-se em profundidade e nitidez.

Outra ideia central na entrevista a Moniz é a duração dos noticiários. Ele entende que o aumento da duração se deve a duas razões: mais informação hoje e necessidades financeiras (o custo fixo da informação torna-a mais barata que fazer outros programas, apesar de dizer à frente que a informação não é barata). Mas Moniz está disponível para reduzir a duração dos noticiários.

Observação: registo na entrevista ao director da TVI dois neologismos: entretenização e importantização. Não os conhecia.

sábado, 9 de julho de 2005

8ª COLINA

É o nome do jornal da Escola Superior de Comunicação Social (Lisboa), produzido pelos alunos do Curso de Jornalismo. Trimestral e envolvendo questões da região de Lisboa, o 8ª Colina é lançado oficialmente na próxima segunda-feira, 11 de Julho, às 14:30.
LEGISLAÇÃO PARA PUBLICIDADE ALTERNATIVA

É uma das notícias da secção de media do Público de hoje: os canais portugueses de televisão querem legislação para meios publicitários alternativos, caso do soft sponsoring e do product placement. O soft sponsoring consiste na utilização de programas de televisão ou filmes no cinema para publicitar produtos (presença, por exemplo, de informação a marcas tipo "este programa é patrocinado por"). Já o product placement é a utilização de produtos de determinada marca, por exemplo num episódio de telenovela, quando um actor ou actriz faz referência explícita a uma marca ou a câmara se fixa num produto dessa marca.

Estas novas formas de publicidade visam combater a ineficácia cada vez maior da publicidade em espaços próprios, pois os telespectadores fazem zapping (mudam de canal) quando surgem os separadores anunciando publicidade. Estima-se que haja uma redução de audiências da publicidade tradicional até 30% nos próximos cinco anos.
NOTÍCIAS DO MERCADO FINANCEIRO DAS TELECOMUNICAÇÕES

A peça escrita por Anabela Campos, no Público de hoje, sobre a situação das empresas de telemóveis dá conta de alguma derrapagem financeira. Há dias tinha sido a TMN, com efeitos na PT em termos de bolsa (que, entretanto, já recuperou algum terreno). Agora, a Sonaecom sofreu um trambolhão nas acções, com uma descida ontem de 4,4%, a fechar nos €3,01. Razões: o reforço de investimento na Optimus, o "impacte negativo da descidas das tarifas de interligação" e a má situação económica nacional, que conduz à retracção de consumos.

Estas notícias não são boas quando as empresas de telemóveis estão a fazer a transição para a 3G (terceira geração), com investimentos fortes na mudança de terminais. E não se ouve falar muito sobre conteúdos para os celulares 3G, embora o negócio de toques (e de SMS) continue a suportar o crescimento do sector.
UM MAR DE SONS

Trata-se do CD comemorativo da 100ª edição do roteiro cultural de Oeiras, o 30 Dias. Tem, como se lê no pequeno catálogo que acompanha o disco, "Nove músicas cantadas ou tocadas por gentes de Oeiras, numa mistura de sons e estilos", englobando de nomes conhecidos no panorama musical nacional a jovens bandas de garagem: Coro de Santo Amaro de Oeiras, Fade Out, Pedro Osório, Cramol, Desso Blues Gang, Pedro Carneiro, Maria Guinot, Flushot e Coro infantil de Santo Amaro de Oeiras.



A confraternização da 100ª edição do roteiro cultural foi aproveitada para o lançamento do disco, ouvindo-se ao vivo o grupo de música tradicional Cramol e a banda de garagem Desso Blues Gang (a preparar o primeiro álbum). Na mesa onde fiquei, apercebi-me da riqueza de produção em indústrias culturais (livros, CDs) e indústrias criativas (espectáculos, dança, performances, exposições) que as câmaras estão a apoiar, e que o roteiro 30 Dias espelha. Notei até uma rivalidade - que acaba por ser valiosa - entre duas câmaras vizinhas (Oeiras e Cascais) na elaboração ou aceitação e apoio de propostas culturais. Isso significa, por outro lado, a construção ou consolidação de públicos da cultura, criando espaços alternativos ao centralismo de produção e consumo culturais de Lisboa.
DOS GRANDES ARMAZÉNS AO CONSUMO DE EROTISMO

No Diário de Notícias de 8 de Julho vinha a notícia do leilão dos antigos armazéns Lanalgo, mas que ficou sem comprador. Um dos antigos símbolos do comércio da baixa pombalina lisboeta não teve nenhum licitador a dar €2,5 milhões pelo edifício de oito andares e 2200 metros quadrados, atendendo ao seu estado e à existência de inquilinos (dois). De entre os credores, contam-se 109 trabalhadores afectados pela falência da Lanalgo há cinco anos atrás(€1,75 milhões). Para breve, haverá novo leilão. Hipóteses de reconversão: um hotel, uma escola profissional, uma universidade e uma residência para estudantes [dados que extraí da peça assinada por Diana Mendes].

Mas também se falou da possibilidade de o imóvel ser adequado a um museu do Sexo ou a uma extensão do Salão Erótico, cuja recente primeira edição decorreu na FIL (2 e 3 de Julho) e foi comentada nos media. O Expresso, na edição do passado sábado, dedicou a capa do suplemento "Actual" à pornografia e oito páginas ao cinema pornográfico, obviamente um dos espaços dessa edição que decorreu na FIL (e que teve organizadores de Barcelona, segundo ouvi na rádio).

O erotismo como género em várias indústrias culturais

O post não tem pretensões de índole moral. Mas também não defende que o consumo da pornografia é um forte sinal da decadência da fruição artística do capitalismo, como Adorno escreveu (a partir da leitura de texto de João Teixeira Lopes, 2004, "Experiência estética e formação de públicos", no livro coordenado por Rui Telmo Gomes, Os públicos da cultura, p. 49).

A minha pretensão é reflectir sobre a economia dos negócios em torno dessa nebulosa que começa no erotismo e acaba na pornografia. No referido jornal Expresso, um dos articulistas fala em 20 mil filmes X por ano, em que a principal divulgação se faz através da televisão por cabo (codificados, ou meio codificados, como um canal na oferta actual da TV Cabo) e venda de cassetes vídeo, enquanto noutro artigo se refere o sucesso do género, Garganta Funda, que custou 24 mil dólares e terá rendido de 100 a 600 milhões de dólares (consoante a fonte). Um filme pornográfico português (Fim-de-semana lusitano) terá vendido 20 mil cópias no circuito vídeo. Outro texto lembra que Nagisa Oshima, conceituado cineasta japonês, filmou O império dos sentidos, contratando uma actriz de filmes pornográficos para fazer o principal papel feminino.

lemonde.jpgBasta olhar um escaparate de quiosque de jornais e revistas numa estação de caminhos de ferro ou entrar numa loja de venda e aluguer de DVD, para não referir uma sex-shop, e ver a proliferação do género no cinema e na literatura (imagens seguintes: cartaz do Salão Erótico; capa do primeiro de dois volumes da Taschen sobre revistas para homens, inglesas, francesas e outras nacionalidades, saído em 2004). Ou ler os destaques a exposições de pintura de erotismo e pornografia como fez o Le Monde de 7 de Julho na página de "Cultura".

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O texto de Sónia Morais Santos

Voltando ao começo da mensagem e ao Diário de Notícias de 8 de Julho. No caderno "DNA", numa rubrica bem intitulada - "Vê se te avias" -, Sónia Morais Santos escreve sobre o Salão Erótico (confesso, uma vez mais, que não gostava de a ouvir na Antena 1 meses atrás, de manhã cedo; as suas crónicas no "DNA" são do melhor que se pode ler).

Retiro só uma fatia da sua prosa tão cheia de graça (acompanhada por três fotografias de Nuno Fox): "O I Salão Internacional de Lisboa foi uma lufada de ar fresco (e porco, acrescentaria a dona M) num país que tem ainda muitos pruridos em relação à sexualidade. Mas, apesar da mulher rígida que ainda impera, várias senhoras arriscaram deslocar-se ao recinto e acabaram por confessar que gostaram de lá ir. Judite, de 57 anos, piscou o olho com ar maroto: «Não deixava o meu homem aqui sozinho... Elas são muito sabidas"». Tratava-se, no fundo, de conhecer o actual estado da arte, como acabou por concluir a referida visitante: "Há aqui umas coisas engraçadas. Não sei se compramos alguma coisa mas pelo menos sempre nos actualizamos. E agora vamos ali ver o espectáculo de striptease". Espectáculo, o strip-tease!

sexta-feira, 8 de julho de 2005

VIREI GRANDE NINJA

Pelo menos assim sou intitulado no blogue Meu Mundo Cor de Rosa, na coluna de (In)Utilidades de um mundo real e pouco cor-de-rosa. São dez os contribuintes do blogue. Já não são adolescentes, frequentam aulas do CENJOR entre outros sítios. O que sabem eles que eu não sei para ser assim designado?
SERÁ QUE JÁ PASSOU O TEMPO DOS GRANDES ARMAZÉNS?

A notícia retirei-a do Le Monde de ontem, edição a que aludi em post anterior. Muitos dos grandes armazéns - que surgiram em finais do século XIX como grandes superfícies no coração das cidades - estão a desaparecer. A peça, assinada por Stéphane Lauer, descreve a situação dos armazéns parisienses.

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A Samaritaine fechou portas, o Printemps será vendido (o proprietário François-Henri Pinault impacientou-se com a baixa rentabilidade), o BHV vê também o volume de negócios baixar trimestre após trimestre, as galerias Lafayette fecharam já cinco armazéns fora de Paris.

O alerta começou nos anos 1970, com o aparecimento dos hipermercados. Seguindo o princípio de "tudo sob o mesmo tecto", mas com uma vocação de preços mais baixos, a grande distribuição tornou-se o modelo comercial dominante. Lê-se na peça jornalística que os centenários Magasins du Louvre e La Belle Jardinière foram os primeiros a desaparecer. Capitais familiares, gestão prudente, investimentos limitados, colecções fora de moda, preocupação de gerir o património imobiliário em vez de desenvolver o volume de negócios e alargar actividades - eis algumas das razões para a perda de competitividade desses espaços comerciais tradicionais e instalados em edifícios de belo porte arquitectónico no centro das cidades.

Na década de 1980, surgem as grandes superfícies especializadas, como a Zara e a H&M, que revolucionam de novo o modelo de negócios. A Zara renova sete vezes por ano o seu stock de colecções, ao passo que o armazém clássico como a Lafayette apenas duas vezes (Primavera-Verão, Outono-Inverno). Uma fraca rotação leva ao vendedor a fazer grandes descontos num só período, com o cliente a deslocar-se apenas nessa altura para ver as "pechinchas", ao passo que a estratégia da Zara obriga a uma constante visita de clientes aos saldos (de colecções ainda recentes), com a vantagem suplementar de ter sempre stocks limitados de novidades. Outra vantagem das marcas como a Zara e a H&M é a cascata de distribuidores e fabricantes, o que elimina o conceito de armazém como grande espaço de colocação de materiais a vender.

A marca especializada impõe margens de lucro (a montante: fabricantes e distribuidores) e constrói uma oferta específica (a juzante: aos clientes). Os preços atraentes dos armazéns de marcas resultam do esmagamento de marges de lucro em toda a cadeia de valor; os preços não atraentes dos armazéns clássicos resultam dos custos elevados no pagamento de aluguer e manutenção dos edifícios antigos em zonas prestigiadas.

quinta-feira, 7 de julho de 2005

A INFÂMIA OUTRA VEZ

Hoje, dia da múltipla tragédia de Londres, lembro como académicos, estudantes e profissionais dos media em Espanha olharam e analisaram a dor do 11 de Março do ano passado em Madrid, no último congresso da Universidade de Navarra. Eu deixei alguns apontamentos em Novembro de 2004 (três posts), bastando clicar aqui no meu blogue (títulos dos posts: LA COMUNICACIÓN EN SITUACIONES DE CRISIS - DEL 11M AL 14M; Dia da infâmia; O CIBERJORNALISMO SEGUNDO RAMÓN SALAVERRÍA).

É o meu humilde contributo de homenagem aos que morreram ou ficaram feridos no metro ou no autocarro em Londres. Existe um pesar mundial!
O LE MONDE DE HOJE

Não se vê bem a data do jornal, mas garanto que é a de hoje, 7 de Julho. Confesso que passei por três pontos de venda e só no último, sete horas depois de passar no primeiro, é que me decidi a comprar o jornal. A notícia que Londres fora eleita, em reunião em Singapura, para receber os jogos olímpicos em 2012 era conhecida desde cerca das 13 horas de ontem. Não compreendo como o jornal parisiense ainda refere, na p. 12, que o presidente Chirac fez um discurso acentuando o carácter ético da candidatura francesa e a França está quase na meta para ganhar.

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É certo que eu vi o jornal ainda não eram 8 horas da manhã. Mas será que a data do jornal anda um dia adiantada face à realidade? A ser assim, o €1,80 que o jornal custa em Portugal é o preço pago por um embuste.
OS CHINELOS COR-DE-ROSA - AINDA O BLOGUE DO MANUEL PINTO

A análise de ontem de Manuel Pinto, do blogue Jornalismo e Comunicação, comentado no post anterior, incidiu, entre outros assuntos, no texto de Joaquim Fidalgo (Público) [não ponho link pois não sei quantos dias fica a notícia disponível gratuitamente]. Fidalgo só merece elogios ao seu trabalho, pois é um trabalho notável. Sem criticar as organizações jornalísticas, que fazem do marketing um elemento essencial na venda de exemplares, o colunista fala de faqueiros, serviços de café, facas de cortar queijo ou uma tábua para pôr o mesmo a ser cortado. A ironia vai ao ponto de comentar, "incitando" à coordenação entre revistas e jornais: "eu já tenho um faqueiro completo que fiz com um jornal, um serviço de jantar que fiz com outro (por acaso até podiam condizer melhor, mas enfim...) e um serviço de copos jeitosinho que me trouxe uma revista. Claro que agora também me apetece ter os copos desenhados por Fátima Lopes", etc., etc.

O que Manuel Pinto não nos dá é a contextualização da página. O editor que fechou a página deve ter ido para casa cheio de felicidade por ter trabalhado uma página assim (para memória futura: p. 10, secção "Espaço Público"). A coluna ao lado da de Fidalgo chama-se Nem tanto ao mar nem tanto à terra, assinada por Luís Fernandes. Este parece apostado a dizer ao colega de página [o que se segue é efabulação minha, embora fale do Algarve e da praia]: tens alguma razão, mas entre o faqueiro e as notícias das férias escaldantes do João Pinto (leia-se: jogador de futebol semanas atrás no Algarve) ou das férias igualmente escaldantes de Cristiano Ronaldo (leia-se: jogador de futebol semanas atrás no Algarve), a cultura material aumentou. Finalmente, a coluna mais à esquerda [a das citações de outros media] vem deitar água na fervura da felicidade prometida pelas revistas e jornais: começa por Sérgio Figueiredo (Jornal de Negócios) ["Ouve-se, há pelo menos meia década, dizer que o modelo económico português está esgotado"], continua por Joaquim Letria (24 Horas) ["Portugal continua a ser um belo país para construir um país. Mas não por empreiteiros destes"] e quase acaba em Jacinto Lucas Pires (A Capital) ["O problema é que um país deprimido é também um país que ousa menos, produz menos e vive pior"].

Perante isto, venham daí os chinelos cor-de-rosa!
LEITURA DO BLOGUE JORNALISMO E COMUNICAÇÃO

Como sabem, tenho uma preferência pelas leituras do blogue Jornalismo e Comunicação [e, de modo imodesto, acho que a equipa daquele blogue tem uma atitude recíproca para com o I. C.].

No domingo, reflecti sobre o que Manuel Pinto colocou no blogue sobre o arrastão de Carcavelos a 10 de Junho passado. Ele lera uma pequena notícia (mais comentário ou apontamento) de Adelino Gomes no Público sobre um vídeo da jornalista Diana Andringa sobre o mesmo acontecimento. Eu também lera e dera a pensar comigo - que pena não ter sabido e ter dado uma espreitadela na Videoteca de Lisboa. arrastao.JPGO vídeo teria como objectivo desmontar "a ligeireza com que os canais generalistas - e os jornais, no seu rasto - construíram um acontecimento [o "arrastão"] que esteve muito longe de assumir a dimensão que os media lhe imprimiram" [retiro do blogue, mas não sei agora a quem atribuir a citação]. Manuel Pinto, professor da Universidade do Minho deixava uma pergunta: "a existência deste trabalho de Diana Andringa já tinha sido divulgada em algum sítio"?

Dois outros blogueiros, João Paulo Meneses e Pedro Fonseca, muito atentos a estas coisas, apressaram-se a dar a indicação do sítio onde está alojado o vídeo: Era uma vez um arrastão [confesso que não consegui entrar no vídeo, mas isso relaciona-se com incompetência minha; mas pode ver-se a imagem de entrada do sítio de Andringa aqui no post].

Conclusão sumária: um blogue, instrumento fácil, económico e objectivo em termos de imediaticidade, consegue fornecer versões variadas e que se completam, a partir de uma fonte. No caso presente, a cadeia de desenvolvimento do tema envolveu dois jornalistas dos media clássicos, interagindo com outros jornalistas e analistas dos novos media (Andringa, vinda da televisão, usa já e também a internet para passagem do seu testemunho). As redes formais e hierárquicas são substituidas por redes informais, de geometria variável (número de elementos não constante) e de grande interactividade, que acrescentam informação. Eu li Adelino Gomes mas acedi ao trabalho de Diana Andringa através da mediação de blogues. Isto é, cada vez mais é fácil dar perspectivas alternativas de um acontecimento. Em tal contexto, a profissão de jornalista altera-se profundamente.

Conclusão menos sumária: o blogue não é de intervenção política (há-os bons na blogosfera) mas o blogueiro não é neutro em termos de sentimentos políticos: a ideia de Alberto João Jardim dizer que não quer chineses na Madeira - e há correlação entre o arrastão e o que disse o responsável máximo pela governação da região autónoma - poderia ler-se ao contrário (como referiram os jornais): e se os países de acolhimento de madeirenses dissessem "não queremos cá mais os madeirenses"? Não seria catastrófico, provocando arrastões mais violentos (ou mais bem encenados)?

Comentário meu colocado às 22:31: obrigado pelos comentários a este post. Foram todos igualmente apreciados por mim, apesar de distintos.

quarta-feira, 6 de julho de 2005

apce1.JPGPRÉMIO APCE

A APCE (Associação Portuguesa de Comunicação de Empresa) vai atribuir o Grande Prémio APCE 2004, realização que vem desenvolvendo há já vários anos, e a que podem concorrer publicações periódicas (boletins, jornais e revistas empresariais) e não periódicas (manuais de acolhimento, relatórios de administração, brochuras institucionais), aplicações audiovisuais (vídeos), aplicações multimedia (sítios de internet, intranet, e-zines) e comunicação estratégica (folhetos, cartazes, vídeos, boletins, brindes, questionários, análises de imprensa). As inscrições acabam no dia 31 deste mês. Contactos: APCE, Av. da Liberdade, 24, 1250-144 Lisboa, telefones 213472434, 213251512; Teresa Vivas (tvivas@epal.pt); Graça Ferreira (graca.ferreira@galpenergia.com).

apce2.jpgColaborei durante muitos anos com a APCE, nomeadamente na preparação de um encontro no Porto, em 1990, e na sua revista, chegando mesmo a representar a associação num congresso realizado na Suíça. Então, trabalhava em comunicação interna empresarial e institucional. Depois, por reorientação de actividade profissional, deixei de colaborar com a APCE, mas guardo belas memórias desse convívio.

Daí, esta chamada de atenção para o evento, embora o âmbito do blogue não seja dentro das áreas de comunicação interna e externa das empresas.
UZO - UMA NOVA EMPRESA DE CELULARES?

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À primeira vista, parece uma nova empresa de telemóveis, a fazer concorrência à TMN, Vodafone e Optimus. Tem um nome que ameaça contribuir para mais um erro de português: não sei se se vai passar a grafar uso com z para dar uzo [uzo muito, pago pouco, lê-se no slogan, e uzo descomplicado como mensagem principal], do mesmo modo que, a partir do nascimento da banda rock Xutos e Pontapés, a palavra chuto tem tido a concorrência da iniciada com x.

Afinal, trata-se de uma marca da TMN, mas sem qualquer alusão à empresa, como também fez a Optimus (Sonaecom), que lançou a Rede4. Com estas marcas, as empresas oferecem planos de tarifários mais baixos, orientados em especial para quem usa o celular apenas para falar e enviar SMS. rede4.JPGEsta estratégia de esconder a identidade pode ter duas leituras: 1) multiplicação de marcas empresariais, como a Unilever faz, por exemplo, havendo fidelização à marca e não à empresa; 2) cansaço da imagem da empresa, e perda de volume de negócios, o que leva a essa camuflagem. Qualquer das opções é igualmente aplicável (e deve ter sido equacionada, com igual rigor e risco) [imagem da rede4 colocada às 21:03]. Por seu lado, a Vodafone, que também lançou um produto semelhante, optou por manter a identidade corporativa. Como se lia no Público da passada sexta-feira, citando um responsável desta última empresa: "É uma oferta com total transparência, sem subterfúgios. Deixamos claro que são dois planos tarifários da Vodafone".

Em tempos de dificuldades financeiras, há empresas que são inovadoras. Como a do banco (Santander) que eu referi há dias. Olhando melhor para o anúncio - um negócio da China -, constatei que a distinção residia simplesmente no nome da taxa de juro. O banco chamou-o de China como poderia ter designado de outro modo. Claro que a China está na moda: primeiro, os seus produtos, mais baratos do que noutras paragens, vieram para cá e as fábricas deslocalizam-se para lá; agora, são os produtos e os usos ocidentais a chegarem ali, como se lia no Público de hoje, mostrando um senhor musculado a treinar num ginásio.

A publicidade entrecruza-se com o mosaico das notícias, venham elas na imprensa, na televisão ou na internet. A única dificuldade é a nossa capacidade de apreensão e memorização do que acontece: nas notícias como nas marcas de celulares.

terça-feira, 5 de julho de 2005

BLOGUE CINECULTURA

No acto fundador, a 24 de Abril último, um domingo, lê-se que o blogue "serve como uma forma de ordenar ideias, fazer uma recolha de textos e interpretar livros, teses, ensaios e outras leituras que me servirão de base para a realização da tese de investigação que estou a realizar na área da Comunicação e Cinema. Como o nome indica, cinecultura é a área onde gostaria de trabalhar. O corpo é a área que e fascina (na Cultura, em geral, e Antropologia); tema cada vez mais frequente no cinema, pode-se dizer que a simbiose entre o corpo humano e a máquina começa em Vertov n' O Homem e a Câmara, ao usar a máquina de filmar como prótese do seu olhar crítico perante a modernidade de um novo urbanismo, mas é no final do séc. XX, com a ascensão das novas tecnologias, que realizadores como David Lynch e Cronenberg exploram esta simbiose.Espero que todos me ajudem com sugestões, críticas e orientação objectiva e dura.Vou tentar realizar posts sugestivos e criativos".

É o blogue Cinecultura, de Isabel Martinho Reis, que descobri agora. Embora sem uma escrita diária, reflecte sobre Baudrillard, Ricoeur, McLuhan e outros, pelo que vale a pena passar por ali. Curioso: Isabel Reis tem links para um conjunto de doutorandos em comunicação; presumo que sejam seus colegas de aventura académica. Boa sorte a ela e aos seus colegas!
UM SÍTIO PARA RESTAURAR RÁDIOS ANTIGOS

António Silva não pára. Agora, abriu o sítio Rádio Restauro, onde pretende trocar informação sobre como recuperar aparelhos antigos. Lê-se: "Como grande novidade nesta área destaca-se a criação de uma esquemateca online, um espaço onde são disponibilizados esquemas de rádios antigos para download".

Reflicto apenas na palavra esquemateca, espaço para guardar e consultar esquemas de rádios. A palavra mais antiga que conheço para armazenar informação é a biblioteca. Depois vieram as videotecas, as bedetecas, as fonotecas. O homem tem uma necessidade imperial de guardar as suas memórias em termos de comunicação [a seguir: parcela de esquema de um televisor de imagem a preto e branco. A linearidade das peças dá conta do grande esforço racional e lógico na construção desses esquemas a das dimensões; o mesmo se observa, se quisermos, com os esquemas das linhas do metrô].

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RÁDIO PODCAST

Segundo o sítio Meios & Publicidade, o Cotonete, depois do serviço Podcast, lançado em Maio, está já a disponibilizar a Rádio Podcast, onde se transmitem, na íntegra, os programas e rubricas feitos por podcasters portugueses: Blitzrieg Bop, Radiologia, O Armário das Calças e Mixomatose. Ainda se lê na mesma notícia: "O podcast tem visto crescer o número de adeptos e basicamente descreve-se como uma nova forma de transmissão e consumo de conteúdos áudio que permite seleccionar os conteúdos desejados e fazer o download directamente para os computadores e daí para os leitores digitais".

segunda-feira, 4 de julho de 2005

CÓDIGO DE BOAS PRÁTICAS NA COMUNICAÇÃO COMERCIAL

Lê-se nas notícias de hoje do sítio da Meios & Publicidade que a Associação Portuguesa de Anunciantes (APAN) apresentará, em Setembro, o código de boas práticas na comunicação comercial para menores. Segundo a mesma fonte, "o documento já está finalizado e foi enviado a um grupo alargado de organizações, que se prevê sejam os seus subscritores". Além da publicidade e seus conteúdos, o código abrange outras áreas da comunicação comercial, seguindo os direitos dos consumidores destinatários desta comunicação.

Recordo que a APAN já publicitara a preparação desse código no começo do ano.
UMA MEMÓRIA DA TELEVISÃO

rtp.jpgA edição é da Verbo, do ano de 1971. Vamos falar de televisão tem dois autores, Manuel José Lopes da Silva (muito mais tarde, meu professor no mestrado da Universidade Nova) e Vasco Hogan Teves (autor de uma História da televisão em Portugal, de que saíu apenas o primeiro de dois volumes). Refira-se que, à data da publicação do texto, ambos eram funcionários da televisão pública, um na área técnica e outro na da programação.

Tratava-se de uma colecção chamado Livros RTP, numa altura em que o regime político procurava mudar por dentro, o marcelismo. A colecção, em formato de bolso, deu a conhecer alguns clássicos da literatura e também livros mais técnicos, como o caso deste. Assim, Lopes da Silva teve a seu cargo a história técnica da televisão e Vasco Hogan Teves a história da televisão em Portugal.

rtp1.jpgRetiro uma imagem (p. 41) e uma parcela de texto escrita pelo professor Lopes da Silva: "Modernamente, já todos os grandes imóveis para habitação que se vão construindo dispõem da indispensável antena colectiva, a qual, além de primeiramente ordenada à TV, pode ainda servir para as ondas médias, curtas e modulação de frequência. [...] Depois de se haver erigido a antena, torna-se necessário ligá-la ao receptor. Existem duas soluções básicas para este problema: ou utilizar linha bifilar ou recorrer ao emprego de um cabo coaxial. [...] Do ponto de vista estético, o cabo pode ajeitar-se muito melhor aos aspectos arquitectónicos do que a linha, tanto interior como exteriormente" (pp. 40-41).

Em pouco mais de 40 anos, como mudaram as exigências e as necessidades. Hoje, cada vez mais, o cabo transporta o sinal de televisão para os lares, as ondas médias e curtas quase desapareceram do nosso convívio diário. Mas voltaram as antenas (nem que sejam minúsculas) no telemóvel (e em cima de prédios ou pontos altos da cidade para contacto com os mesmos telemóveis). E o celular "ameaça" tornar-se o aparelho polarizador de entretenimento, conversa (e rádio) e visualização (internet e televisão). A estética segue a tecnologia.

domingo, 3 de julho de 2005

O ALMOÇO DE BLOGUEIROS(AS) DE 25 DE JUNHO

Com permissão de Dionísio Leitão, do blogue Catedral, insiro aqui duas das imagens por ele tiradas no recente almoço de blogueiros(as) de Vila Nova de Gaia (25 de Junho). Ainda que tratadas digitalmente para esconder a identificação de quem assistiu, consegue-se perceber que a primeira imagem reflecte a reunião de comensais e a segunda uma conversa em que eu estou presente (à esquerda) [falávamos amenamente sobre blogues e sua edição em formato de livro, caso do meu interlocutor, que lançou um há pouco tempo, num outro almoço de blogueiros, e que eu fiz referência em Maio passado].

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As imagens tem um não sei o quê de fantasmagórico, como se fossem radiografias (aqui uma tíbia, ali um perónio ou acolá um crânio) que o médico coloca numa caixa de luz para mostrar e explicar melhor a mazela que sofremos.

Mas há um outro pormenor, a do retoque. Em jornais do começo do século XX, como O Século, quando a fotografia começa a substituir o desenho, persiste a ideia do traço, que em fotografia dá no retoque, que também se encontra na pintura. Primeiro, porque as pessoas e os objectos fixados nas imagens não teriam os contornos julgados necessários para uma boa impressão. Depois, porque a imagem precisa de delimitar o espaço face ao texto e de afirmar a sua força, pelo que nada melhor do que linhas fortes, como se fossem estiletes a separar colunas de jornal. Isso - em especial quando se consulta um jornal da época - remete de novo para o fantasmagórico, como acima escrevia. Na realidade, a fotografia, por mais fiel que seja, é sempre uma representação. O seu realce equivale à emoção de quem escreve, para alcançar a compreensão e aceitação de quem lê.

Um inquérito

Durante o almoço fiz circular uma informação de que iria mandar um inquérito aos comensais para saber melhor os seus hábitos de blogar. Logo, no começo da semana, enviei o dito inquérito. Confesso que não tive o êxito que esperava, mas recebi informações interessantes de alguns mais colaborantes. Um resolveu colocar, anteontem, as respostas no seu blogue, Food-i-do [tradução literal do nome do blogue: Alimentação que eu faço!]; aconselho uma visita a este blogue do Porto.
AINDA SOBRE JORNALISMO DIGITAL E OUTRAS MATÉRIAS (II)

Em 9 de Junho último, sob a influência da importante discussão havida em Braga em torno do jornalismo digital, escrevi um post, remetendo a sua continuação para depois. Eis que o faço agora (com a promessa de continuar a escrever sobre o tema em mais oportunidades).

A internet teve influências a nível da publicidade e da informação, por exemplo. As múltiplas janelas dos noticiários de televisão constituem uma prova. A ideia de ocupação do ecrã modificou-se; mas isso já ocorrera com os touch screen - a relação de interactividade ou de múltipla escolha da informação. Há a ideia da prótese mão-teclado, olhar-ecrã, à McLuhan. A informação passou a ser muito mais rápida (em competição com a rádio), buscando a instantaneidade.

Conforme escrevi nesse outro post, detectam-se consumos culturais distintos em termos geracionais: os mais velhos e cultos lêem jornais, os mais velhos e com menores recursos educacionais vêem televisão, embora esta seja transversal do ponto de vista de recursos educacionais. Já os jovens usam internet, telemóvel, iPod e MP3 - uma cultura mais visual e táctil. Contudo, as tecnologias não valem por si sós, mas dependem dos usos sociais, geracionais e, até, estéticos, que podem ir à modulação (combinação de media digitais, como o SMS e o MSN Messenger) ou à combinação de media analógicos e digitais (caso da televisão, que tem produção digital e distribuição analógica). A tecnologia transporta em si uma rápida obsolescência e uma permanente formação de conhecimento.

Ideias em discussão

A realidade mais recente deu-nos a conhecer novo vocabulário, como canibalização (empresas e/ou produtos, significando que, dentro de um mesmo grupo empresarial ou empresa, há equipas concorrendo com os mesmos produtos e buscando as melhores soluções), deslocalização (ida de centros de produção e distribuição - e conhecimento - para outros lugares) e clusters (formação de empresas em cacho ou interdependentes na cadeia de valor).

Isso conduz-me à perspectiva anteriormente colocada sobre a "revolução" da internet. Há um sentido apologético excessivo sobre a importância da internet. Para mim, muito mais importante que a internet foi a descoberta do alfabeto na Grécia, como Eric A. Havelock tão bem descreve (A musa aprende a escrever, Gradiva, 1996). Isto é, há uma longa e interactiva penetração da oralidade na escrita gráfica, de modo a não se poder falar de revolução apenas mas de intercâmbio e de riqueza das formas de comunicação. A internet vai combinar o ecrã com a escrita - que se mantém preponderante.

Por outro lado, é visível que um grupo "dominante" procure tornar a sua ideia também dominante na sociedade em que se indere. Quem escreve sobre internet, esquece-se do surgimento e evolução dos outros media. Primeiro, a rádio e, depois, a televisão trouxeram promessas de felicidade e de harmonia, que não aconteceram. Um exemplo, a maior literacia. Podemos dizer hoje que o fosso digital - provocado por más condições económicas e políticas, entre outras - inibe parcelas grandes do planeta de aceder à comunicação electrónica interactiva, a internet. Do mesmo modo, a abundância [há uma palavra mais bonita, mas mais complexa, para a explicar: cornucópia] de informação e de máquinas de obter informação não significam mais, melhor e mais equitativamente distribuída informação e conhecimento.

Isto não nega o enorme mérito da internet no actual panorama dos media (eu sou utilizdor assíduo do meio). Mas convém reflectir na evolução e transformação que cada meio transportou para a sociedade, ou que esta fez reflectir sobre o meio. Por exemplo, o caso dos jornais impressos. No começo do século XX, ainda não havia a ideia de jornalista ou de redacção como hoje a entendemos. Há cem anos, poucos eram os profissionais dos jornais que destes viviam, pois as organizações jornalísticas ainda não tinham a componente comercial que lentamente se foi erguendo. Não havia concorrência entre títulos para uma maior venda ou obtenção de lucros, objectivos que se desenvolveram ao longo do século passado.

sábado, 2 de julho de 2005

OS GRATUITOS A SUBIR

Lê-se hoje no Expresso, apesar de não ser novidade para ninguém. Destak e Metro distribuiram os dois 187 mil exemplares. O que se reflecte nos jornais pagos: o Correio da Manhã baixou 0,1% (de 119145 exemplares diários no primeiro trimestre de 2004 para 119139 exemplares em igual período este ano), o Jornal de Notícias desceu 23% (128179 para 98269), o Público perdeu 4,2% (51266 para 49174) e o Diário de Notícias 14% (de 42904 para 36976).

Eu, que gosto sobretudo de imprensa escrita, vejo um conjunto complexo de razões que explicam a queda nas tiragens e vendas de jornais. O fenómeno dos gratuitos não explica tudo. Há que atender ao custo dos exemplares - e que se reflecte na vida financeira das organizações jornalísticas, apesar da publicidade parecer retornar e tornar menos difícil a gestão -, num momento de crescente perda de compra, ao facto da televisão constituir cada vez mais o meio por excelência do conhecimento de notícias por parte dos cidadãos e também à presença maior de uma cultura electrónica (audiovisual e multimedia) nos mais jovens, que os aparta da cultura impressa.

A punição dirige-se, em especial, para os jornais da Lusomundo, Jornal de Notícias e Diário de Notícias, este último que leio regularmente e que me parece um bom produto. Isto tem uma explicação à parte, na minha óptica: é a situação de desconforto colocada pela Autoridade da Concorrência que não toma a decisão definitiva sobre a venda do grupo a que ambos os jornais pertencem a Joaquim Oliveira. Todas as grandes decisões no grupo estão paradas; um grupo privado não pode aguentar a lentidão de uma entidade pública! E o editorial de Nicolau Santos, no caderno de "Economia" do mesmo Expresso aponta num sentido a acautelar: se a Lusomundo não for vendida a Joaquim Oliveira, por questões de concentração, resta um só comprador, o proprietário do espanhol El Pais.

Observação 1: não tenho qualquer interesse pessoal por nenhuma das opções.

Observação 2: li, no caderno de "Economia" do Expresso textos assinados por Álvaro de Mendonça. Como sou distraído, não sei se ele começou a colaborar há mais tempo com o semanário. Trata-se, de todo o modo, de um regresso. Ao Álvaro de Mendonça tenho uma dívida de gratidão: quando estava a fazer a minha tese de mestrado sobre jornalismo e fontes de informação, ele permitiu-me fazer pesquisa na revista que então dirigia, e que entretanto desapareceu, a Fortuna.
MUDANÇA NA DIRECÇÃO DOS CANAIS PÚBLICOS DA TELEVISÃO FRANCESA

Para a semana, Marc Tessier dá o lugar a Patrick de Carolis à frente da televisão pública francesa, noticia o Le Monde de hoje. O pessoal dos canais está dividido entre o que parte e o que lhe sucede. Para o director de programas da France 3, Bertrand Mosca, adepto do dirigente a sair, "o serviço público precisa de estabilidade. [...] O sucesso das cadeias privadas vem da estabilidade da sua gestão nos últimos quinze anos". Por seu lado, há produtores que apoiam a nomeação de Carolis, embora admitam ela ter vindo tarde demais. A criação e os documentários precisam de um novo desenvolvimento e uma linha editorial rigorosa e não flutuante.

O certo é que as grelhas de reentrada (Outono) estão prontas a entrar no ar e os contratos com animadores estão já assinados antes da entrada do novo director, para permitir uma passagem sem sobressaltos de maior. Mas, no fundo, detecta-se uma luta entre qualidade de serviço público e adesão à guerra das audiências.
LIVROS DE BOLSO E NOVAS TENDÊNCIAS

Vem hoje no caderno "Babelia" do El Pais, uma entrevista com Peter Mayer, já a caminho dos 70 anos, livreiro de livros de bolso. Para ele, é "necessário alimentar o catálogo de um fundo editorial com títulos chamativos e comerciais que aproximem da editora as pessoas que [habitualmente] não lêem".

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Quando o entrevistador Andrés Padilla lhe perguntou se livros para mulheres jovens como O diário de Bridget Jones enquanto novo filão para os livros de bolso significa que o mercado está sexualizado, Mayer respondeu moderadamente. Para ele, "Por vezes, aparecem um ou mais livros que anunciam algo que está no ar, uma tendência, uma certa disposição. Logo aparecem as cópias e produz-se uma inundação que alcança um certo nível e acaba aí". O diário de Bridget Jones surgiu porque falava directamente com muitas mulheres que vivem nas grandes cidades e se identificaram com o tema. Mas o movimento seguinte, o das cópias desse sucesso, revelaram que o mundo literário é um mundo comercial como outro qualquer, em que o livro surge como mercadoria.

Um outro tema abordado na entrevista foi o do mercado do livro áudio, fenómeno que está a ter algum sucesso nos Estados Unidos e no Reino Unido, em especial em obras de grande dimensão como a Ilíada.

Afinal, o livro de bolso é uma companhia de Verão e o dia e o fim-de-semana prometem!
NÚMERO 100 DO ROTEIRO CULTURAL 30 DIAS EM OEIRAS

Conforme escrevi no passado dia 28, o roteiro cultural da câmara de Oeiras festeja o centésimo número. Destaco as páginas do festival Sete Sóis Sete Luas, do festival internacional de danças e da festa pombalina (as duas últimas actividades no próximo fim-de-semana). Na última, há recriação de episódios do séc. XVIII e fogo de artifício.

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SOCIOLOGIA DO JORNALISMO - UM LIVRO DE MICHAEL SCHUDSON

5.jpgO livro The sociology of news, de Michael Schudson, é uma introdução ao estudo das notícias. Schudson analisa a questão dos efeitos das notícias, caso do modelo hipodérmico, de propaganda ou doutrinação, em que os media injectam ideias a um público passivo e indefeso. Neste modelo, a notícia enquadra e amplifica a posição de uma fonte, com o jornalista a ser simples mensageiro e não produtor autónomo da agenda pública (p. 28). Apesar de ultrapassada logo nos anos 40 do século passado, Schudson recupera, da teoria, o conceito de enquadramento: um jornalista faz o registo narrativo da realidade, mostra ângulos de vista, destaca e apresenta o que existe.

A notícia organiza-se como narrativa, decomposta em duas perspectivas, cultural e organizacional. Pela perspectiva cultural, a notícia centra-se na estória e destaca a relação entre facto e símbolo; pela organizacional, vê a notícia como produto manufacturado na interacção de empresas, mercado e recursos (p. 182).

Estuda-se também o fenómeno da distorção. Esta centra-se no acontecimento, na acção e na personalização, apresenta uma crescente negatividade quanto aos factos, associada ao olhar céptico e irónico do jornalista, realça as questões estratégicas e tácticas das fontes, como nas campanhas eleitorais, mostra a dependência dos jornalistas perante fontes oficiais e poderosas e revela a tendência para a glorificação do trabalho do próprio jornalista (p. 48). Mas Schudson detecta alterações neste quadro. Por exemplo, deixa de ser constante o centramento no acontecimento, pois os jornalistas escrevem mais peças analíticas sobre temáticas (pp. 219-220).

De outras transformações trata Schudson: o aumento do infotainment (mistura de informação e entretenimento) e da tabloidização (sensacionalismo e intrusão de valores de mercado sobre o profissionalismo dos jornalistas) (p. 90). A ideia de esquema de jogo, da corrida de cavalos (lutas nas campanhas políticas) e do cobrir a política como escândalo, com maior divulgação da vida privada das figuras públicas, ganha peso no jornalismo actual. Isto enquanto os jornalistas fazem face aos parajornalistas (empresas de relações públicas, responsáveis de informação pública, spin doctors, publicitários), que tentam orientar em seu proveito o desenrolar de acontecimentos (p. 2).

Porém, conclui Schudson, se cresce o cinismo dos jornalistas e a orientação para o infotainment, a informação é mais credível. Tal deve-se, segundo o sociólogo americano, à intervenção profissional dos jornalistas, ao aumento da coerência narrativa ou temática das notícias e ao consenso noticioso inter-institucional. Nota Schudson que as organizações noticiosas dão muita atenção à concorrência, vigilância que se traduz na elaboração de uma agenda nacional quase única (p. 110): os temas mais importantes têm tratamento semelhante nas cadeias de televisão e nos jornais. O livro é, assim, um registo dos media contemporâneos: história do jornalismo, estruturas e práticas profissionais, códigos e culturas, e impacto das notícias na sociedade, em especial as notícias políticas.

Michael Schudson é professor de comunicação e sociologia na universidade da Califórnia, San Diego. Escreveu nomeadamente Discovering the news (1978), Advertising, the uneasy persuasion (1984) e The power of news (1995).

Leitura: Michael Schudson (2003). The sociology of news. Nova Iorque e Londres: W. W. Norton, 261 páginas (obs.: este meu pequeno texto foi publicado na revista JJ - Jornalismo e Jornalistas)

sexta-feira, 1 de julho de 2005

BLOGUE A CIDADE SURPREENDENTE

Neste espaço, já fiz alusão ao blogue de Carlos Romão, A Cidade Surpreendente, do Porto. É um blogue em que a fotografia é a rainha (mas não é um fotoblogue, pois tem texto). Na véspera de S. João (noite de 23 de Junho), o Carlos fez belíssimas imagens da festa, de que a que vem a seguir é um dos exemplos (o autor autorizou-me a reprodução da fotografia, pelo que agradeço a gentileza).

carlosromao.jpg

Para quem não conhece o Porto, passo a explicar o que se vê. Em fundo, a ponte D. Luís, que liga Porto e Vila Nova de Gaia, agora "embrulhada" (não pelo artista Christo) para reparações e instalação do metrô (eléctrico rápido ligando Gaia e Porto). Do lado esquerdo, algum casario da Ribeira do Porto, onde se pode vislumbrar a rua pejada de foliões; do lado direito, Gaia e a igreja e mosteiro da Serra do Pilar. O fogo de artifício quase parece fazer rebentar a ponte. É um prazer visitar A Cidade Surpreendente, em especial para quem já não comemora a festa há quinze anos, como é o caso do blogueiro que aqui escreve.

LIÇÕES DE SOCIOLOGIA DE THEODOR W. ADORNO

Foi o último curso que Theodor Adorno (1903-1969) deu (17 aulas, de 23 de Abril a 11 de Julho de 1968). O texto apenas existia em fita magnética, pois o autor não redigira as aulas mas apenas o esquema delas (daí os sinais de improvisação que se detectam na leitura das aulas, como assinala Artur Morão, que assegurou a revisão da tradução das Edições 70).

Pelo livro, nota-se ter sido um tempo difícil para Adorno. Logo na segunda aula (25 de Abril de 1968), assobios e aplausos opuseram-se ao discurso de Adorno. Na sétima aula (14 de Maio) percebe-se melhor o contexto, quando Adorno diz: "o que torna feliz um homem mais velho, como eu, no movimento estudantil é que nele não retine a suposição, como ela se faz, nas distopias de Huxley e Orwell, de que sem dificuldade se consegue a integração" (p. 86). Havia um discurso muito formal em Adorno, que abria as aulas com "minhas senhoras e meus senhores". Já na décima aula (18 de Junho), pediria desculpa pelo atraso, pois esperara o sinal da campainha que não se ouviu (p. 121), percebendo-se um funcionamento desadequado da universidade: elevadores, aquecimento e sistema sonoro das aulas.

Razão instrumental e métodos quantitativos

Na nona aula (11 de Junho) voltava às críticas às "dimensões técnico-metódicas, como as da chamada sampling, ou seja, da formação de cortes transversais representativos tão desenvolvidos que se podem considerar como relativamente concluídos e autónomos" (p. 107). Existe como que dois níveis de ataque com que Adorno olha os métodos quantitativos. De um lado, um toque irónico, quando se refere a Lasswell, "adequado ao sistema [...] dos reclames [...] que inclui o tipo de romances ilustrados ou o tipo de filmes comerciais ou o tipo da maior parte da música para divertir" (p. 129). A análise de conteúdo, útil para os meios de comunicação de massa, não se podia aplicar à produção espiritual autónoma (p. 137), defende.

Daí, ele conduzir uma crítica mais substantiva, quando destaca o fascínio da novidade dos métodos quantitativos, como os jeans ou a música beat, então elementos da moda jovem (p. 110). Exemplifica isso ao evocar o trabalho de uma colega de Berkeley, Frenkel-Brunswick. Esta aplicaria "o método de estudos clínicos sobre a personalidade autoritária, passando depois ao sistema quantitativo, [verificando-se], devido à tendência para a quantificação, a perda imediata dos elementos que se tinham obtido pela análise qualitativa. Tira-se com uma mão o que se obteve com a outra" (p. 109).

Esta crítica apoiar-se-ia, como Adorno disse na sétima aula (14 de Maio), através de uma referência a Horkheimer, no que este "designou, e criticou, como «razão instrumental» e que acaba por transformar a universidade numa escola, numa fábrica de homens que produz a sua mercadoria, força de trabalho, da forma mais racional possível e habilita os homens a vender bem a sua mercadoria, força de trabalho". E afastava-se das medidas do conselho científico da sua escola, o qual pretendia "o total nivelamento da universidade mediante a produção de executantes de trabalho útil" (p. 87).

No fundo, estava a velha querela de Adorno com Lazarsfeld, quando aquele se viu confrontado "com duas concepções incompatíveis e irreconciliáveis de sociologia: uma que constata e prepara factos sociais e os põe à disposição de quaisquer organismos administrativos, que ele designa por administrative research; e a investigação crítica das comunicações" (pp. 199-200). É que não se podiam considerar os "homens como objectos, por exemplo, da manipulação da indústria cultural, que pretende saber como há-de organizar os seus programas para que eles se vendam, o melhor possível".

A contestação a Adorno dar-se-ia nesse ano de 1968 e prolongar-se-ia no começo de 1969. Liam-se em panfletos: "Adorno como instituição está morto". Houve, na sexta-feira 31 de Janeiro de 1969, a evacuação, feita pela polícia, dos alunos que ocupavam a área do Instituto dirigido por Jürgen Habermas. Adorno, que anteriormente se opusera à intervenção policial, cumprimentaria o oficial de polícia que intimou os alunos a deixarem as áreas ocupadas, de que existem fotografias (Marc Jimenez, Para ler Adorno, 1977, p. 25). A morte do pai da Teoria Crítica e do conceito indústria cultural ocorreria em Agosto desse mesmo ano.

Leitura: Theodor Adorno (2004). Lições de sociologia. Lisboa: Edições 70, 230 páginas, €18,90
Leituras complementares: 1) a favor de Adorno e contra Lazarsfeld - Todd Gitlin (2002). "Sociologia dos meios de comunicação social. O paradigma dominante". In João Pissarra Esteves (org.) Comunicação e sociedade. Lisboa: Livros Horizonte, pp. 105-149
2) a favor de Lazarsfeld e contra Adorno - David E. Morrison (2001). "The historical development of empirical social research". In Graham Roberts e Philip M. Taylor (eds.) The historian, television and television history. Luton: University of Luton Press, pp. 9-24 [obs.: trabalhei este texto nos dias 15, 22, 24 e 29 de Novembro de 2004]