NUVENS SOBRE O SUN ONLINE
O diário mais vendido no Reino Unido, o Sun, vai cortar grande parte do editorial da sua publicação online. O conteúdo colocado na internet é o mesmo da edição em papel, com distribuição gratuita. Um inquérito conduzido pela direcção do jornal concluiu que cerca de 90 mil leitores diários preferem ler na internet, abandonando a compra da edição em papel. A leitura impressa terá caido 5% apenas em Agosto de 2004. Informação recolhida em The Observer, de 12 de Setembro.
Textos de Rogério Santos, com reflexões e atualidade sobre indústrias culturais (imprensa, rádio, televisão, internet, cinema, videojogos, música, livros, centros comerciais) e criativas (museus, exposições, teatro, espetáculos). Na blogosfera desde 2002.
quinta-feira, 16 de setembro de 2004
UM NOVO MÁXIMO EM VISITAS A ESTE BLOGUE
Quero saudar todos(as) que passam pelo meu blogue. Ontem, foi ultrapassada a barreira dos 300 visitantes, valor que eu nunca imaginara atingir.
O meu obrigado especial ao Brasil (com 60% de visitantes) e Moçambique (apesar de quota mais modesta, não posso deixar de dar relevo. Aos moçambicanos(as) que me visitam, não hesitem, mandem emails).
Quero saudar todos(as) que passam pelo meu blogue. Ontem, foi ultrapassada a barreira dos 300 visitantes, valor que eu nunca imaginara atingir.
O meu obrigado especial ao Brasil (com 60% de visitantes) e Moçambique (apesar de quota mais modesta, não posso deixar de dar relevo. Aos moçambicanos(as) que me visitam, não hesitem, mandem emails).
CARTAS AOS BLOGUEIROS EM CONFRATERNIZAÇÃO
No dia 18, um grupo de blogueiros vai estar em confraternização num restaurante na Parque Expo, aqui em Lisboa. Por troca de agenda, vi-me impossibilitado de estar presente (é certo que vou estar noutra confraternização pelo rio Douro acima, o que equilibra). Quero desejar a todos que o convívio decorra bem e que novas e estimulantes amizades se produzam.
O fenómeno dos blogues, por recente, merece a pena ser estudado. E era minha intenção estabelecer contactos informais, criar uma rede de novos blogues, para os poder estudar (como fiz num outro convívio em Vila Nova de Gaia, a 1 de Maio, publicando aqui os resultados de um pequeno questionário, e como escrevi no último número da revista MediaXXI, a partir de um inquérito que enviei aos meus blogues favoritos). Mais tarde ou mais cedo, dedico-me a um estudo mais sério do fenómeno (talvez no decurso do ano lectivo 2005-2006, se nada de surpreendente acontecer e a FCT apoiar financeiramente uma bolsa de pós-doutoramento).
Curiosamente, foi em 18 de Setembro de 2003 que o Jornal de Notícias (Porto) publicou, na sua primeira página, o título aqui ao lado. E, nesse mesmo dia, a RTP fazia uma ligação para Braga, onde Manuel Pinto, professor da Universidade do Minho, falou dos blogues, em directo para o Telejornal das 20:00.
É que, em 18 e 19 de Setembro, realizar-se-ia o primeiro encontro de blogues [na altura grafava-se o termo blog ou weblog], em Braga, na Universidade do Minho. Tudo por iniciativa de Manuel Pinto e de outros colegas da sua escola, e que teve a adesão de Paulo Querido e Pedro Fonseca, blogueiros e jornalistas respectivamente do Expresso e do Público, grandes animadores desse encontro e que, depois, publicariam textos significativos nos seus jornais (ver os dois recortes seguintes). Sem esquecer Jose Luis Orihuela, da Universidade de Navarra, com a sua sabedoria e entusiasmo na área do jornalismo digital. [adenda colocada às 8:30: chamo a atenção para o texto de Manuel Pinto, de hoje, no seu blogue Jornalismo e Comunicação, que remete para uma reflexão de Pacheco Pereira].
Nessa altura, eu estava a concluir um texto sobre a história da rádio (ainda não publicado) e apresentei uma comunicação em que comparava a história dos blogues com essa outra tecnologia electrónica da minha paixão. Eu considerei que os blogues, portadores de uma nova cultura, favoreciam a pedagogia. Tinha em vista o reforço do trabalho desenvolvido na sala de aula, conforme a minha própria experiência, defendendo que memória e interactividade eram dois elementos dessa nova cultura.
Além da parte de intervenções e debates, houve também um pequeno momento de convívio, um blogbeer, numa praça central de Braga, à noite. A temperatura ainda estava amena e a cavaqueira prolongou-se por mais de duas horas. A imagem aqui dá conta de um pormenor, esperando eu que os meus amigos e colegas António Granado, à esquerda, e Joaquim Fidalgo, à direita, não se importem de eu publicitar esta pose [vejo agora que a minha cerveja já tinha "voado"].
Observação: como escrevo no início do post, no fim-de-semana vou estar entre o Porto e Trás-os-Montes, a reencontrar amizades e paisagens. O blogue fica em descanso por três dias. Talvez na segunda-feira conte alguma coisa da parte final dos debates que a Abril em Maio promove nestes dias sobre a construção das notícias.
No dia 18, um grupo de blogueiros vai estar em confraternização num restaurante na Parque Expo, aqui em Lisboa. Por troca de agenda, vi-me impossibilitado de estar presente (é certo que vou estar noutra confraternização pelo rio Douro acima, o que equilibra). Quero desejar a todos que o convívio decorra bem e que novas e estimulantes amizades se produzam.
O fenómeno dos blogues, por recente, merece a pena ser estudado. E era minha intenção estabelecer contactos informais, criar uma rede de novos blogues, para os poder estudar (como fiz num outro convívio em Vila Nova de Gaia, a 1 de Maio, publicando aqui os resultados de um pequeno questionário, e como escrevi no último número da revista MediaXXI, a partir de um inquérito que enviei aos meus blogues favoritos). Mais tarde ou mais cedo, dedico-me a um estudo mais sério do fenómeno (talvez no decurso do ano lectivo 2005-2006, se nada de surpreendente acontecer e a FCT apoiar financeiramente uma bolsa de pós-doutoramento).
Curiosamente, foi em 18 de Setembro de 2003 que o Jornal de Notícias (Porto) publicou, na sua primeira página, o título aqui ao lado. E, nesse mesmo dia, a RTP fazia uma ligação para Braga, onde Manuel Pinto, professor da Universidade do Minho, falou dos blogues, em directo para o Telejornal das 20:00.
É que, em 18 e 19 de Setembro, realizar-se-ia o primeiro encontro de blogues [na altura grafava-se o termo blog ou weblog], em Braga, na Universidade do Minho. Tudo por iniciativa de Manuel Pinto e de outros colegas da sua escola, e que teve a adesão de Paulo Querido e Pedro Fonseca, blogueiros e jornalistas respectivamente do Expresso e do Público, grandes animadores desse encontro e que, depois, publicariam textos significativos nos seus jornais (ver os dois recortes seguintes). Sem esquecer Jose Luis Orihuela, da Universidade de Navarra, com a sua sabedoria e entusiasmo na área do jornalismo digital. [adenda colocada às 8:30: chamo a atenção para o texto de Manuel Pinto, de hoje, no seu blogue Jornalismo e Comunicação, que remete para uma reflexão de Pacheco Pereira].
Nessa altura, eu estava a concluir um texto sobre a história da rádio (ainda não publicado) e apresentei uma comunicação em que comparava a história dos blogues com essa outra tecnologia electrónica da minha paixão. Eu considerei que os blogues, portadores de uma nova cultura, favoreciam a pedagogia. Tinha em vista o reforço do trabalho desenvolvido na sala de aula, conforme a minha própria experiência, defendendo que memória e interactividade eram dois elementos dessa nova cultura.
Além da parte de intervenções e debates, houve também um pequeno momento de convívio, um blogbeer, numa praça central de Braga, à noite. A temperatura ainda estava amena e a cavaqueira prolongou-se por mais de duas horas. A imagem aqui dá conta de um pormenor, esperando eu que os meus amigos e colegas António Granado, à esquerda, e Joaquim Fidalgo, à direita, não se importem de eu publicitar esta pose [vejo agora que a minha cerveja já tinha "voado"].
Observação: como escrevo no início do post, no fim-de-semana vou estar entre o Porto e Trás-os-Montes, a reencontrar amizades e paisagens. O blogue fica em descanso por três dias. Talvez na segunda-feira conte alguma coisa da parte final dos debates que a Abril em Maio promove nestes dias sobre a construção das notícias.
quarta-feira, 15 de setembro de 2004
O MEU PRIMEIRO LIVRO DE 2005
Chegou-me, hoje, dia 15 de Setembro, pela Amazon do Reino Unido, o meu primeiro livro editado em 2005!
Isto é, três meses e meio antes do ano acabar, já há livros com a marca do ano seguinte. Esta operação de marketing visa prolongar a vida do livro, pois, durante quinze meses, ostenta a data de um ano. Espantoso! O mais interessante ainda é que se trata de uma segunda edição com um novo capítulo sete e uma nova secção no capítulo três.
O livro terá saído mesmo um destes dias, pois a Amazon enviou-me separadamente este livro de um conjunto de livros que eu já recebi na segunda-feira. A meu ver, trata-se de um bom exemplo para as editoras portuguesas que colocam o ano de publicação mesmo que o livro saia a 31 de Dezembro.
Ritzer reeditou este ano outro dos seus livros, The McDonaldization of society, com um subtítulo pomposamente designado por Revised new century edition. Nada, portanto, é deixado ao acaso. A editora de ambos os livros é a Pine Forge Press.
O autor tem uma visão pessimista da sociedade de consumo. Em McDonaldization of society, por exemplo, ele escreve sobre a previsibilidade da sociedade de consumo, que "realça a disciplina, a ordem, a sistematização, a formalização, a rotina, a consistência e a operação metódica" (p. 86). Referindo-se concretamente ao fast-food, ele diz que empregados e clientes se relacionam de um modo ritualizado, rotinizado e até previamente escrito (pelo menos da parte dos empregados, que têm uma lista precisa de perguntas e do que podem e não podem fazer). Há regras em termos de uniforme, tamanho de cortes de cabelo e até adereços como colares ou brincos. Ou seja, dá-se a minimização do perigo e do desagradável (p. 105).
Isto é, três meses e meio antes do ano acabar, já há livros com a marca do ano seguinte. Esta operação de marketing visa prolongar a vida do livro, pois, durante quinze meses, ostenta a data de um ano. Espantoso! O mais interessante ainda é que se trata de uma segunda edição com um novo capítulo sete e uma nova secção no capítulo três.
O livro terá saído mesmo um destes dias, pois a Amazon enviou-me separadamente este livro de um conjunto de livros que eu já recebi na segunda-feira. A meu ver, trata-se de um bom exemplo para as editoras portuguesas que colocam o ano de publicação mesmo que o livro saia a 31 de Dezembro.
Ritzer reeditou este ano outro dos seus livros, The McDonaldization of society, com um subtítulo pomposamente designado por Revised new century edition. Nada, portanto, é deixado ao acaso. A editora de ambos os livros é a Pine Forge Press.
O autor tem uma visão pessimista da sociedade de consumo. Em McDonaldization of society, por exemplo, ele escreve sobre a previsibilidade da sociedade de consumo, que "realça a disciplina, a ordem, a sistematização, a formalização, a rotina, a consistência e a operação metódica" (p. 86). Referindo-se concretamente ao fast-food, ele diz que empregados e clientes se relacionam de um modo ritualizado, rotinizado e até previamente escrito (pelo menos da parte dos empregados, que têm uma lista precisa de perguntas e do que podem e não podem fazer). Há regras em termos de uniforme, tamanho de cortes de cabelo e até adereços como colares ou brincos. Ou seja, dá-se a minimização do perigo e do desagradável (p. 105).
MEXIDAS NO TOPO DOS MEDIA DA PT
Os dois jornais de qualidade de Lisboa dão hoje destaque a alterações na orgânica dirigente da Lusomundo Media (LM), a holding de comunicação social do grupo PT. A Luís Delgado, junta-se Mário Bettencourt Resendes na administração da empresa (que também é nomeado administrador executivo da Global Notícias, que fica por baixo do chapéu de chuva da LM, e que tutela as publicações do grupo excepto a rádio TSF). Para além do que as notícias dos jornais trazem, gostaria de deixar aqui três comentários.
Um sobre a notícia do Público, assinada por Paulo Miguel Madeira, a de que Resendes é uma "personalidade politicamente mais moderada". Presumo que relativamente a Delgado. Estas coisas deviam ser mais adequadamente escritas, sem ambiguidades, e os leitores ficavam a ganhar, até porque é traçado um percurso profissional pormenorizado de Luís Delgado. A notícia do Diário de Notícias, não assinada e na última página, dá conta de quem sai (como no futebol, só se fala em reforços, mas omite-se, por vezes, que é o "looser"). Para além de Henrique Granadeiro, destacado para a fundação PT (que entra em concorrência directa, creio, com a Fundação Portuguesa das Comunicações, onde a PT é parceira), a notícia revela que sai da estrutura Zeinal Bava, gestor que tem tido uma carreira fulgurante no grupo PT (indicado pelo grupo bancário Espírito Santo). A sua saída parece ser um desaire. Ao invés, as subidas de Delgado e, em especial, Resendes são de salientar.
A mudança de nomes, com o reforço de jornalistas de elevada craveira - quer se goste ou não politicamente deles -, em detrimento de homens da área financeira, como Bava, é um indício que a PT se prepara para mudanças mais profundas na sua área dos media. Vendas? Compras? Reorientação estratégica?
Os dois jornais de qualidade de Lisboa dão hoje destaque a alterações na orgânica dirigente da Lusomundo Media (LM), a holding de comunicação social do grupo PT. A Luís Delgado, junta-se Mário Bettencourt Resendes na administração da empresa (que também é nomeado administrador executivo da Global Notícias, que fica por baixo do chapéu de chuva da LM, e que tutela as publicações do grupo excepto a rádio TSF). Para além do que as notícias dos jornais trazem, gostaria de deixar aqui três comentários.
Um sobre a notícia do Público, assinada por Paulo Miguel Madeira, a de que Resendes é uma "personalidade politicamente mais moderada". Presumo que relativamente a Delgado. Estas coisas deviam ser mais adequadamente escritas, sem ambiguidades, e os leitores ficavam a ganhar, até porque é traçado um percurso profissional pormenorizado de Luís Delgado. A notícia do Diário de Notícias, não assinada e na última página, dá conta de quem sai (como no futebol, só se fala em reforços, mas omite-se, por vezes, que é o "looser"). Para além de Henrique Granadeiro, destacado para a fundação PT (que entra em concorrência directa, creio, com a Fundação Portuguesa das Comunicações, onde a PT é parceira), a notícia revela que sai da estrutura Zeinal Bava, gestor que tem tido uma carreira fulgurante no grupo PT (indicado pelo grupo bancário Espírito Santo). A sua saída parece ser um desaire. Ao invés, as subidas de Delgado e, em especial, Resendes são de salientar.
A mudança de nomes, com o reforço de jornalistas de elevada craveira - quer se goste ou não politicamente deles -, em detrimento de homens da área financeira, como Bava, é um indício que a PT se prepara para mudanças mais profundas na sua área dos media. Vendas? Compras? Reorientação estratégica?
CENTROS COMERCIAIS: COMPRAR COM AGRADO
Esta mensagem segue um texto de Turo-Kimmo Lehtonen e Pasi Mäenpää, escrito em 1997, o qual reflecte o acto de visitar e comprar (ou não) num centro comercial. Embora o estudo dos dois autores tenha por base um centro comercial de Helsínquia, o East Centre Mall, ele pode aplicar-se aos centros comerciais de Portugal. Estou a pensar no Colombo, no Vasco da Gama e no Amoreiras (todos em Lisboa), no Fórum Almada (Almada), e no Arrábida Shopping e no Norte Shopping (Porto). Mas também em centros de uma só marca, como o IKEA. Obviamente que seria mais oportuno e enriquecedor efectuar trabalhos empíricos nestes locais, para perceber melhor a psicologia, a sociologia e a antropologia destes espaços, do que produzir uma síntese de um trabalho de finlandeses.
Nos anos 1980, o comércio de retalho começava a concentrar as suas actividades nos grandes centros comerciais [na imagem, corredor do Centro Colombo, em Lisboa]. Para além dos preços mais baixos para lojistas e clientes, havia disponibilidade de se disponibilizarem lojas de produtos e bens muito diferentes, num só sítio. O centro comercial imita um centro urbano “vivo”, mas sem o ruído do tráfego – lojas, cafés, restaurantes e espaços para descansar – e com uma temperatura sempre agradável, onde as pessoas se “sentem bem”. No caso finlandês aqui focado, o East Centre Mall, trata-se de um espaço urbano orientado para as compras, e que acabou por trazer um novo nível cultural a Helsínquia, com a sua arquitectura a imitar as ruas de lojas, passagens e mercados. Mas torna-se um sítio diferente, com a estrutura da cidade em duas direcções – os subúrbios e o centro.
Práticas e prazeres das compras modernas
Do ponto de vista funcional, um centro comercial é um passo mais desenvolvido que o conceito de comércio, que começou nos armazéns de Paris, em meados do séc. XIX. Qualquer cliente olha os objectos expostos e toca-os, sem que um empregado apareça. A interacção central já não é a discussão dos preços, mas o contacto directo com os bens presentes.
Gera-se um ambiente agradável, pois o centro é, ele próprio, um espectáculo de entretenimento. Pode falar-se da ideia de comprar com agrado. Num centro comercial, há um movimento orientado para o consumo num espaço onde cada um tem a possibilidade de fazer compras, definição que implica que o seu frequentador faça ou não compras. O que é essencial no comprar com agrado é o sonho romântico e a estetização do meio ambiente. Para além de um sítio onde se compram bens essenciais, é um lugar para ir. Deste modo, há duas importantes maneiras de compreender o conceito de centro comercial: 1) comprar é uma actividade social agradável, 2) comprar significa uma actividade rotineira de manter as necessidades humanas. Claro que estes dois tipos não se excluem.
Os prazeres da compra derivam da possibilidade de autonomia e da sociabilidade a ela ligada, interacção não pronunciada ou consciente e verbalizada. Comprar é também um ritual – no sentido da interacção, como explicou Goffman. Ir a um centro comercial significa um tempo gasto com outros(as) a partilhar gostos e um estilo. E expressa e reproduz distinções sociais de tempo e espaço, separando as esferas de “casa” e do “emprego” ou da semana de trabalho e do fim-de-semana e lazer. Há, pois, duas esferas – prática-económica e de prazer – não exclusivas mas interligadas, constituindo a totalidade da acção.
Os autores chamam sociabilidade de rua ao modo como as pessoas desconhecidas umas das outras partilham olhares mas não se dirigem pela palavra. Há sempre a possibilidade de comunicação recíproca mesmo que ocorra raramente.
Leitura: Turo-Kimmo Lehtonen e Pasi Mäenpää (1997). “Shopping in the East Centre Mall”. In Pasi Falk e Colin Campbell (Eds.) The Shopping Experience. Londres: Sage
Esta mensagem segue um texto de Turo-Kimmo Lehtonen e Pasi Mäenpää, escrito em 1997, o qual reflecte o acto de visitar e comprar (ou não) num centro comercial. Embora o estudo dos dois autores tenha por base um centro comercial de Helsínquia, o East Centre Mall, ele pode aplicar-se aos centros comerciais de Portugal. Estou a pensar no Colombo, no Vasco da Gama e no Amoreiras (todos em Lisboa), no Fórum Almada (Almada), e no Arrábida Shopping e no Norte Shopping (Porto). Mas também em centros de uma só marca, como o IKEA. Obviamente que seria mais oportuno e enriquecedor efectuar trabalhos empíricos nestes locais, para perceber melhor a psicologia, a sociologia e a antropologia destes espaços, do que produzir uma síntese de um trabalho de finlandeses.
Práticas e prazeres das compras modernas
Do ponto de vista funcional, um centro comercial é um passo mais desenvolvido que o conceito de comércio, que começou nos armazéns de Paris, em meados do séc. XIX. Qualquer cliente olha os objectos expostos e toca-os, sem que um empregado apareça. A interacção central já não é a discussão dos preços, mas o contacto directo com os bens presentes.
Gera-se um ambiente agradável, pois o centro é, ele próprio, um espectáculo de entretenimento. Pode falar-se da ideia de comprar com agrado. Num centro comercial, há um movimento orientado para o consumo num espaço onde cada um tem a possibilidade de fazer compras, definição que implica que o seu frequentador faça ou não compras. O que é essencial no comprar com agrado é o sonho romântico e a estetização do meio ambiente. Para além de um sítio onde se compram bens essenciais, é um lugar para ir. Deste modo, há duas importantes maneiras de compreender o conceito de centro comercial: 1) comprar é uma actividade social agradável, 2) comprar significa uma actividade rotineira de manter as necessidades humanas. Claro que estes dois tipos não se excluem.
Os prazeres da compra derivam da possibilidade de autonomia e da sociabilidade a ela ligada, interacção não pronunciada ou consciente e verbalizada. Comprar é também um ritual – no sentido da interacção, como explicou Goffman. Ir a um centro comercial significa um tempo gasto com outros(as) a partilhar gostos e um estilo. E expressa e reproduz distinções sociais de tempo e espaço, separando as esferas de “casa” e do “emprego” ou da semana de trabalho e do fim-de-semana e lazer. Há, pois, duas esferas – prática-económica e de prazer – não exclusivas mas interligadas, constituindo a totalidade da acção.
Os autores chamam sociabilidade de rua ao modo como as pessoas desconhecidas umas das outras partilham olhares mas não se dirigem pela palavra. Há sempre a possibilidade de comunicação recíproca mesmo que ocorra raramente.
Leitura: Turo-Kimmo Lehtonen e Pasi Mäenpää (1997). “Shopping in the East Centre Mall”. In Pasi Falk e Colin Campbell (Eds.) The Shopping Experience. Londres: Sage
terça-feira, 14 de setembro de 2004
CARTOON DE ANTÓNIO
O cartoon de António na última edição do Expresso merece uma interpretação semiótica. Confesso que hesitei bastante em abordar o tema, dada a sua grande sensibilidade e susceptibilidade temática. O blogue tem uma linha editorial de análise das indústrias culturais em Portugal e em sentido geográfico mais amplo e não procura efeitos fáceis nos posts aqui colocados. Em pano de fundo, a recente vinda a Portugal de um barco holandês que se propunha discutir a questão do aborto e a tomada de decisão do ministro da Defesa e do Mar no sentido da proibição da sua atracagem num porto nacional, que o cartoonista António trabalha.
O que me interessa é ler o cartoon no seu todo, munido das ferramentas da semiótica. No sentido denotativo, vê-se um marinheiro (cujos traços ampliam e exageram os elementos fisionómicos do ministro) a bordo do navio, referente este que nos remete para o assunto. O barco tem um conjunto de canhoneiras, que o identifica como sendo de guerra, o ministro aparece vestido de marinheiro e, por detrás de si, está a representação dos mastros em forma de cruz de Cristo (material que aparenta ser em madeira). Estamos já no domínio do sentido conotativo. Cada um destes elementos assume-se como parcela da realidade apresentada mas aponta para um segundo sentido. A legenda faz concordância com a conotação.
Há, contudo, um outro sentido conotativo, quiçá ainda mais importante. Querelle [que facilmente podemos traduzir por querela, disputa] aponta para um obra de Jean Genet, escrita por ele em 1947, Querelle de Brest. De que trata a obra? Da história de um marinheiro amoral e assassino, Querelle, que proclamava: "A minha mulher é o mar; a minha amante é o meu capitão".
Genet (1910-1986) foi abandonado pelos pais e passou muito tempo da sua juventude numa instituição para delinquentes juvenis. No período antes da Segunda Guerra Mundial vagueou por vários países europeus como ladrão e prostituto. Em 1943, seria preso por roubo, altura em que começou a escrever. Os seus personagens mostravam o mundo que ele conhecia: homossexuais, ladrões, prostitutas e párias de toda a espécie. Depois, seria preso vários vezes até que apanhou uma pena para toda a vida em 1948. Talvez porque fosse um período pós-guerra, de apaziguamento social, talvez porque os seus textos chamassem a atenção para um bas-fond que urgia solucionar socialmente, o certo é que escritores de nomeada, como Jean-Paul Sartre, André Gide e Jean Cocteau, assinaram uma petição para a sua libertação. A autobiografia de Genet apareceria no ano seguinte, O diário do ladrão.
Em 1982, o realizador alemão Rainer Werner Fassbinder faria um filme baseado na obra de Genet, Querelle de Brest, que nem os fãs do cineasta gostaram. Fassbinder faleceria pouco depois. E o que é o filme nos mostra? Ambientes sórdidos, paisagens artificiais onde os valores e os bons costumes desapareceram. Creio que subsistia no filme tão somente a solidariedade entre párias, um código de honra entre pares.
A importância dos cartoons
Eu aprecio muito a indústria cultural dos cartoons e banda desenhada. No jornal Público, por exemplo, posso ler o jornal a correr, mas delicio-me a ler os bonecos do Luís Afonso (o ano passado laureado com um prémio do Clube de Jornalistas). Ainda hoje, o seu "Bartoon" lembra a discussão desta semana em torno do Serviço Nacional de Saúde. Conversa o homem do bar com o seu cliente (ainda com a caneca cheia): "Esta história de as taxas moderadoras serem aplicadas de acordo com o rendimento dos utentes... levanta-me uma dúvida... quando formos ao hospital... levamos o cartão de saúde ou a declaração de IRS?". Num quadro económico de escrita visual dos seus bonecos, as mensagens de Afonso têm uma sabedoria que só um alentejano pode firmar.
Quando se folheia uma história da banda desenhada, vêm sempre em primeiro lugar os cartoonistas. Em Portugal, quantas histórias aos quadradinhos (quadrinhos, no Brasil) são trabalhadas por homens geniais? Lembro-me, a correr, de Rafael Bordalo Pinheiro, Cottinelli Telmo, Adolfo Simões Muller, Stuart Carvalhais, Carlos Botelho [como gostaria de escrever sobre ele aqui no blogue, em tendo tempo], cada qual com a sua estética, cores, formatos de balões, sempre de enorme criatividade. E os fanzines, como O Mosquito ou o Mundo de Aventuras. A descoberta recente de Mattiotti e das mangas japonesas despertou em mim memórias doces da infância e da minha juventude nos primeiros teens.
O que me interessa é ler o cartoon no seu todo, munido das ferramentas da semiótica. No sentido denotativo, vê-se um marinheiro (cujos traços ampliam e exageram os elementos fisionómicos do ministro) a bordo do navio, referente este que nos remete para o assunto. O barco tem um conjunto de canhoneiras, que o identifica como sendo de guerra, o ministro aparece vestido de marinheiro e, por detrás de si, está a representação dos mastros em forma de cruz de Cristo (material que aparenta ser em madeira). Estamos já no domínio do sentido conotativo. Cada um destes elementos assume-se como parcela da realidade apresentada mas aponta para um segundo sentido. A legenda faz concordância com a conotação.
Há, contudo, um outro sentido conotativo, quiçá ainda mais importante. Querelle [que facilmente podemos traduzir por querela, disputa] aponta para um obra de Jean Genet, escrita por ele em 1947, Querelle de Brest. De que trata a obra? Da história de um marinheiro amoral e assassino, Querelle, que proclamava: "A minha mulher é o mar; a minha amante é o meu capitão".
Genet (1910-1986) foi abandonado pelos pais e passou muito tempo da sua juventude numa instituição para delinquentes juvenis. No período antes da Segunda Guerra Mundial vagueou por vários países europeus como ladrão e prostituto. Em 1943, seria preso por roubo, altura em que começou a escrever. Os seus personagens mostravam o mundo que ele conhecia: homossexuais, ladrões, prostitutas e párias de toda a espécie. Depois, seria preso vários vezes até que apanhou uma pena para toda a vida em 1948. Talvez porque fosse um período pós-guerra, de apaziguamento social, talvez porque os seus textos chamassem a atenção para um bas-fond que urgia solucionar socialmente, o certo é que escritores de nomeada, como Jean-Paul Sartre, André Gide e Jean Cocteau, assinaram uma petição para a sua libertação. A autobiografia de Genet apareceria no ano seguinte, O diário do ladrão.
Em 1982, o realizador alemão Rainer Werner Fassbinder faria um filme baseado na obra de Genet, Querelle de Brest, que nem os fãs do cineasta gostaram. Fassbinder faleceria pouco depois. E o que é o filme nos mostra? Ambientes sórdidos, paisagens artificiais onde os valores e os bons costumes desapareceram. Creio que subsistia no filme tão somente a solidariedade entre párias, um código de honra entre pares.
A importância dos cartoons
Eu aprecio muito a indústria cultural dos cartoons e banda desenhada. No jornal Público, por exemplo, posso ler o jornal a correr, mas delicio-me a ler os bonecos do Luís Afonso (o ano passado laureado com um prémio do Clube de Jornalistas). Ainda hoje, o seu "Bartoon" lembra a discussão desta semana em torno do Serviço Nacional de Saúde. Conversa o homem do bar com o seu cliente (ainda com a caneca cheia): "Esta história de as taxas moderadoras serem aplicadas de acordo com o rendimento dos utentes... levanta-me uma dúvida... quando formos ao hospital... levamos o cartão de saúde ou a declaração de IRS?". Num quadro económico de escrita visual dos seus bonecos, as mensagens de Afonso têm uma sabedoria que só um alentejano pode firmar.
Quando se folheia uma história da banda desenhada, vêm sempre em primeiro lugar os cartoonistas. Em Portugal, quantas histórias aos quadradinhos (quadrinhos, no Brasil) são trabalhadas por homens geniais? Lembro-me, a correr, de Rafael Bordalo Pinheiro, Cottinelli Telmo, Adolfo Simões Muller, Stuart Carvalhais, Carlos Botelho [como gostaria de escrever sobre ele aqui no blogue, em tendo tempo], cada qual com a sua estética, cores, formatos de balões, sempre de enorme criatividade. E os fanzines, como O Mosquito ou o Mundo de Aventuras. A descoberta recente de Mattiotti e das mangas japonesas despertou em mim memórias doces da infância e da minha juventude nos primeiros teens.
ENTREGA DE PRÉMIOS GAZETA 2003, DO CLUBE DE JORNALISTAS
Ontem, no Hotel Carlton Palace, às 20:00. O Clube de Jornalistas - Press Club, a maior associação privada de jornalistas, não sindical e não mutualista, atribui os prémios Gazeta do Jornalismo desde 1984, patrocinados pela Portugal Telecom.
As imagens têm a seguinte legenda: 1ª) Carlos Fino (Prémio Gazeta de Mérito), pelo trabalho na cobertura da guerra do Iraque. O jornalista vai abandonar a profissão para ir trabalhar como adido em Brasília; 2ª) representante do Jornal do Centro (Prémio Gazeta de Imprensa Regional); 3ª e 4ª) Liliana Garcia (Prémio Gazeta Revelação). A jornalista pertence aos quadros do Jornal do Centro, em Viseu; 5ª e 6ª) Ana Sousa Dias (Grande Prémio Gazeta), pelo trabalho na televisão Por outro lado.
Ontem, no Hotel Carlton Palace, às 20:00. O Clube de Jornalistas - Press Club, a maior associação privada de jornalistas, não sindical e não mutualista, atribui os prémios Gazeta do Jornalismo desde 1984, patrocinados pela Portugal Telecom.
As imagens têm a seguinte legenda: 1ª) Carlos Fino (Prémio Gazeta de Mérito), pelo trabalho na cobertura da guerra do Iraque. O jornalista vai abandonar a profissão para ir trabalhar como adido em Brasília; 2ª) representante do Jornal do Centro (Prémio Gazeta de Imprensa Regional); 3ª e 4ª) Liliana Garcia (Prémio Gazeta Revelação). A jornalista pertence aos quadros do Jornal do Centro, em Viseu; 5ª e 6ª) Ana Sousa Dias (Grande Prémio Gazeta), pelo trabalho na televisão Por outro lado.
segunda-feira, 13 de setembro de 2004
JORNALISMO E JORNALISTAS - JJ
Saíu o número 19 da JJ, correspondente a Julho/Setembro. O tema de capa é Ana Sousa Dias, entrevistada por Carla Martins. Ana Sousa Dias é o rosto de um dos melhores programas de televisão, Por outro lado.
Mas há mais motivos de grande interesse na leitura da revista do Clube de Jornalistas. Assim, Fernando Cascais (director do CENJOR e meu colega na Universidade Católica Portuguesa) analisa os provedores do leitor, Felisbela Lopes (Universidade do Minho) entrevista o jornalista da SIC Pedro Coelho, a propósito da tese de mestrado que este recentemente defendeu sobre televisão de proximidade - e sobre a qual eu escrevi neste blogue -, e Isabel Travancas (Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil) aborda o tema O jornalista como personagem de cinema. Este blogueiro conta também com um texto, que é a comunicação feita ao último congresso da SOPCOM, realizado na Covilhã este ano, com o título Alberto Bessa e a sua história do jornalismo.
E, claro, informação sobre os Prémios Gazeta 2003, hoje entregues pelo presidente da República, e que espero dar conta neste blogue amanhã. A grande premiada é exactamente Ana Sousa Dias. Outros prémios vão para Carlos Fino (Gazeta de Mérito), Liliana Garcia (Prémio Revelação) e Jornal do Centro (Viseu) (Prémio Gazeta Imprensa Regional).
Mas há mais motivos de grande interesse na leitura da revista do Clube de Jornalistas. Assim, Fernando Cascais (director do CENJOR e meu colega na Universidade Católica Portuguesa) analisa os provedores do leitor, Felisbela Lopes (Universidade do Minho) entrevista o jornalista da SIC Pedro Coelho, a propósito da tese de mestrado que este recentemente defendeu sobre televisão de proximidade - e sobre a qual eu escrevi neste blogue -, e Isabel Travancas (Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil) aborda o tema O jornalista como personagem de cinema. Este blogueiro conta também com um texto, que é a comunicação feita ao último congresso da SOPCOM, realizado na Covilhã este ano, com o título Alberto Bessa e a sua história do jornalismo.
E, claro, informação sobre os Prémios Gazeta 2003, hoje entregues pelo presidente da República, e que espero dar conta neste blogue amanhã. A grande premiada é exactamente Ana Sousa Dias. Outros prémios vão para Carlos Fino (Gazeta de Mérito), Liliana Garcia (Prémio Revelação) e Jornal do Centro (Viseu) (Prémio Gazeta Imprensa Regional).
NOVAS TECNOLOGIAS E CONSUMO DOMÉSTICO (III)
[continuação das mensagens de 7 e 9.9.2004]
Economia moral do lar [texto editado no capítulo que escrevi para a obra organizada por Carlos Leone, 2000, Rumo ao cibermundo?]
O lar apresenta-se como unidade social, cultural e doméstica, tomando parte activa no consumo de objectos e significados dos membros que constituem os membros da família e unidade económica complexa em si, naquilo a que Silverstone, Hirsch e Morley (1996: 43) chamaram “economia moral”. Os autores conceptualizaram um modelo para compreender a relação família/público - a que chamaram a economia moral do lar – economia de significados e atribuição de valores e economia significativa (real/psicológica) sobre objectos e tecnologias e o seu consumo (e escolhas, através de cognições, avaliações, elementos estéticos e biografia dos objectos).
Os elementos do sistema de troca são: 1) apropriação – compra, 2) objectização – recriação para exposição, 3) incorporação – novas funções, e 4) conversão – aceitação, mudança. Instituição que produz bens e serviços de valor económico tangível do mesmo modo que uma empresa, a economia moral inclui as actividades dos seus membros, no lar e no mundo do trabalho, nos momentos de lazer e nas compras feitas individualmente, seguindo um calendário próprio de consumo. Nota-se, porém, uma diferença fundamental: enquanto o produtor trabalha para a família, o consumidor produz dentro da família (Wheelock, 1996: 150).
Assim, encarado como unidade social de estrutura complexa, hoje, no lar reflectem-se as lutas e as negociações internas que envolvem pais e filhos, gerações mais velhas e mais novas e dinâmicas funcionais e estéticas de sexo masculino por oposição às do sexo feminino (Silverstone e Hirsch, 1996: 32). Face aos equipamentos tecnológicos, há uma permanente disputa e apropriação interior no lar: a decisão de aquisição e a orientação do consumo reflectem uma relação social de poder entre os vários elementos do agregado familiar. Geralmente, a escolha parte do homem, mas as indústrias tecnológicas esforçam-se por conquistar as mulheres, que detêm um forte poder psicológico de opção nas aquisições de equipamentos. Daí, os fabricantes elaborarem uma produção contínua de mensagens e discursos dirigidos ao sexo feminino.
Afigura-se-me fundamental, pois, apreciar o consumo doméstico da rádio, televisão, internet e outros equipamentos electrónicos, concluindo pelos significados negociados pelas audiências activas face aos programas produzidos e a ligação dos telespectadores e ouvintes a acontecimentos distantes (MacKay, 1997).
Leituras: 1) Hugh MacKay (1997). “Consuming communication technologies at home”. In Hugh MacKay (ed.) Consumption and everyday life. Londres, Thousand Oaks e Nova Deli: Sage
2) Jane Whellock (1996). “Ordenadores personales, género y un modelo institucional para el ámbito doméstico”. In Roger Silverstone e Erich Hirsch (eds.) Los efectos de la nueva comunicación. Barcelona: Bosch
3) Roger Silverstone e Eric Hirsch (eds.) (1996). Los effectos de la nueva comunicación. Barcelona: Bosch
4) Roger Silverstone, Eric Hirsch e David Morley (1996). “Tecnologías de la información y de la comunicación y la economía moral de la familia”. In Roger Silverstone e Eric Hirsch (eds.) Los effectos de la nueva comunicación. Barcelona: Bosch
5) Rogério Santos (2000). "Indústria cultural, tecnologias e consumos". In Carlos Leone (org.). Rumo ao cibermundo? Oeiras: Celta
[continuação das mensagens de 7 e 9.9.2004]
Economia moral do lar [texto editado no capítulo que escrevi para a obra organizada por Carlos Leone, 2000, Rumo ao cibermundo?]
O lar apresenta-se como unidade social, cultural e doméstica, tomando parte activa no consumo de objectos e significados dos membros que constituem os membros da família e unidade económica complexa em si, naquilo a que Silverstone, Hirsch e Morley (1996: 43) chamaram “economia moral”. Os autores conceptualizaram um modelo para compreender a relação família/público - a que chamaram a economia moral do lar – economia de significados e atribuição de valores e economia significativa (real/psicológica) sobre objectos e tecnologias e o seu consumo (e escolhas, através de cognições, avaliações, elementos estéticos e biografia dos objectos).
Os elementos do sistema de troca são: 1) apropriação – compra, 2) objectização – recriação para exposição, 3) incorporação – novas funções, e 4) conversão – aceitação, mudança. Instituição que produz bens e serviços de valor económico tangível do mesmo modo que uma empresa, a economia moral inclui as actividades dos seus membros, no lar e no mundo do trabalho, nos momentos de lazer e nas compras feitas individualmente, seguindo um calendário próprio de consumo. Nota-se, porém, uma diferença fundamental: enquanto o produtor trabalha para a família, o consumidor produz dentro da família (Wheelock, 1996: 150).
Assim, encarado como unidade social de estrutura complexa, hoje, no lar reflectem-se as lutas e as negociações internas que envolvem pais e filhos, gerações mais velhas e mais novas e dinâmicas funcionais e estéticas de sexo masculino por oposição às do sexo feminino (Silverstone e Hirsch, 1996: 32). Face aos equipamentos tecnológicos, há uma permanente disputa e apropriação interior no lar: a decisão de aquisição e a orientação do consumo reflectem uma relação social de poder entre os vários elementos do agregado familiar. Geralmente, a escolha parte do homem, mas as indústrias tecnológicas esforçam-se por conquistar as mulheres, que detêm um forte poder psicológico de opção nas aquisições de equipamentos. Daí, os fabricantes elaborarem uma produção contínua de mensagens e discursos dirigidos ao sexo feminino.
Afigura-se-me fundamental, pois, apreciar o consumo doméstico da rádio, televisão, internet e outros equipamentos electrónicos, concluindo pelos significados negociados pelas audiências activas face aos programas produzidos e a ligação dos telespectadores e ouvintes a acontecimentos distantes (MacKay, 1997).
Leituras: 1) Hugh MacKay (1997). “Consuming communication technologies at home”. In Hugh MacKay (ed.) Consumption and everyday life. Londres, Thousand Oaks e Nova Deli: Sage
2) Jane Whellock (1996). “Ordenadores personales, género y un modelo institucional para el ámbito doméstico”. In Roger Silverstone e Erich Hirsch (eds.) Los efectos de la nueva comunicación. Barcelona: Bosch
3) Roger Silverstone e Eric Hirsch (eds.) (1996). Los effectos de la nueva comunicación. Barcelona: Bosch
4) Roger Silverstone, Eric Hirsch e David Morley (1996). “Tecnologías de la información y de la comunicación y la economía moral de la familia”. In Roger Silverstone e Eric Hirsch (eds.) Los effectos de la nueva comunicación. Barcelona: Bosch
5) Rogério Santos (2000). "Indústria cultural, tecnologias e consumos". In Carlos Leone (org.). Rumo ao cibermundo? Oeiras: Celta
domingo, 12 de setembro de 2004
LEITURAS DE JORNAIS E REVISTAS
1) Expresso, de ontem. Luís Delgado nomeado para a presidência da Lusomundo Media, que agrupa os jornais Diário de Notícias e Jornal de Notícias e a rádio TSF, grupo que conhece bem profissionalmente. Até agora, Luís Delgado tem sido administrador delegado da agência de notícias Lusa. Anteriormente, foi director-adjunto do Diário de Notícias, fundador do primeiro e mais prestigiado jornal electrónico, o Diário Digital, e conhecido pela sua polémica coluna no Diário de Notícias, "Às direitas".
2) El Pais, de hoje. A Telefonica (equivalente espanhola da Portugal Telecom) lança uma ofensiva em banda larga em ADSL, para ganhar um mercado de quatro milhões de clientes até 2006. Em vez da tarifa plana (€39,07 mensais), lançou uma tarifa ondulada de €9,9 mensais por 11 horas de navegação, podendo ainda somar módulos de tempo (€0,024 por minuto). Além disso, a Telefonica financiará a aquisição de computadores, convertendo-se em fornecedor das tecnologias de informação para 94% de lares espanhóis ainda sem acesso à banda larga. Entretanto, a concorrência prepara-se para lançar a estrela da estação: a comunicação telefónica através da internet. E Portugal e a Portugal Telecom que boas surpresas nos preparam para este regresso de férias?
3) The Sunday Telegraph, de hoje. Richard Desmond, proprietário do jornal Daily Express e da revista OK, prepara-se para lançar uma revista de moda concorrente da Elle e da Vogue. O título da nova publicação será Be Happy, e sairá na Primavera de 2005. Desmond irá gastar entre dois e cinco milhões de libras em publicidade, incluindo a televisão. A Be Happy assemelhar-se-á à Lucky, uma revista pertencente a Condé Nast (editor da Vogue), e que combina moda e compras. Desmond acredita que a perda de influência da Elle no mercado inglês (cerca de 154 mil exemplares mensais) dá espaço à nova publicação.
4) Magazine Artes, de Setembro. Apoiada pelo IPLB, do Ministério da Cultura, e cerca de 13 anúncios em 100 páginas, a revista insere-se na área que considero de indústrias culturais. Traz entrevistas, reportagens e muita informação sobre espectáculos (filmes, teatro, bailado), livros, escritos de modo simples. Destaco a reportagem Televisões: a cultura no feminino. Escrita por Ana Leonor Martins, o texto fala-nos dos rostos femininos que apresentam programas de cultura na televisão. A pergunta de partida é: "Porque será que a maioria dos programas culturais televisivos em Portugal são apresentados por mulheres?". Este é o número 21 da publicação e custa €3,5.
1) Expresso, de ontem. Luís Delgado nomeado para a presidência da Lusomundo Media, que agrupa os jornais Diário de Notícias e Jornal de Notícias e a rádio TSF, grupo que conhece bem profissionalmente. Até agora, Luís Delgado tem sido administrador delegado da agência de notícias Lusa. Anteriormente, foi director-adjunto do Diário de Notícias, fundador do primeiro e mais prestigiado jornal electrónico, o Diário Digital, e conhecido pela sua polémica coluna no Diário de Notícias, "Às direitas".
2) El Pais, de hoje. A Telefonica (equivalente espanhola da Portugal Telecom) lança uma ofensiva em banda larga em ADSL, para ganhar um mercado de quatro milhões de clientes até 2006. Em vez da tarifa plana (€39,07 mensais), lançou uma tarifa ondulada de €9,9 mensais por 11 horas de navegação, podendo ainda somar módulos de tempo (€0,024 por minuto). Além disso, a Telefonica financiará a aquisição de computadores, convertendo-se em fornecedor das tecnologias de informação para 94% de lares espanhóis ainda sem acesso à banda larga. Entretanto, a concorrência prepara-se para lançar a estrela da estação: a comunicação telefónica através da internet. E Portugal e a Portugal Telecom que boas surpresas nos preparam para este regresso de férias?
3) The Sunday Telegraph, de hoje. Richard Desmond, proprietário do jornal Daily Express e da revista OK, prepara-se para lançar uma revista de moda concorrente da Elle e da Vogue. O título da nova publicação será Be Happy, e sairá na Primavera de 2005. Desmond irá gastar entre dois e cinco milhões de libras em publicidade, incluindo a televisão. A Be Happy assemelhar-se-á à Lucky, uma revista pertencente a Condé Nast (editor da Vogue), e que combina moda e compras. Desmond acredita que a perda de influência da Elle no mercado inglês (cerca de 154 mil exemplares mensais) dá espaço à nova publicação.
ISTO NÃO É UM CATÁLOGO
Na realidade, são apenas quatro folhas de informação (capa, informações sobre Olga Roriz e a sua companhia, um texto dela sobre a peça e a ficha artística e técnica)
Para mim, também o bailado Confidencial não é um bailado, excepto na última cenografia. O resto é um cruzamento de artes (indústrias culturais e artes artesanais - ou artes simplesmente). Com recurso a memórias do cinema de animação (o homem borracha), ao music-hall (directa ou indirectamente a Elis Regina, Marlene Dietrich, Astor Piazzolla), à música tradicional (russa), ao circo, à mímica, à performance. E ao teatro, em especial.
Já estou de acordo quando Olga Roriz escreve "não procuro nas palavras mas nas acções, na violência da música, na obsessão de um cenário repetitivo". E entusiasmei-me com a sua inventividade - das cadeiras de bar ou café, aos baldes com flores, às penas de ave (ou era uma matéria sintética?) na parte final do espectáculo e aos jogos coreográficos desenvolvidos pelos cinco bailarinos, a parte mais empolgante de todo o trabalho.
Mas continuei sem ver bailado. Apenas transgressão, como o paraíso ao negro [no título, procurei a referência de Magritte, aqui a obra de Yourcenar], com um casal fazendo amor e um homem defecando. E memórias, que a pequena Sara Cal nos lembrava, tirando continuadamente as suas fotografias Photomaton, num piscar de olhos para que não esquecessemos que estávamos a assistir a uma obra de arte. É isso, a peça de Roriz é arte pela arte, é um olhar estético cheio de volúpia. Sem o poder telúrico do seu Pedro e Inês, de Julho do ano passado, onde os elementos terra e água são fundamentais na coreografia, ela própria uma contaminação de outras artes e em que as tecnologias de informação assumem um peso imprescindível.
Na realidade, são apenas quatro folhas de informação (capa, informações sobre Olga Roriz e a sua companhia, um texto dela sobre a peça e a ficha artística e técnica)
Para mim, também o bailado Confidencial não é um bailado, excepto na última cenografia. O resto é um cruzamento de artes (indústrias culturais e artes artesanais - ou artes simplesmente). Com recurso a memórias do cinema de animação (o homem borracha), ao music-hall (directa ou indirectamente a Elis Regina, Marlene Dietrich, Astor Piazzolla), à música tradicional (russa), ao circo, à mímica, à performance. E ao teatro, em especial.
Já estou de acordo quando Olga Roriz escreve "não procuro nas palavras mas nas acções, na violência da música, na obsessão de um cenário repetitivo". E entusiasmei-me com a sua inventividade - das cadeiras de bar ou café, aos baldes com flores, às penas de ave (ou era uma matéria sintética?) na parte final do espectáculo e aos jogos coreográficos desenvolvidos pelos cinco bailarinos, a parte mais empolgante de todo o trabalho.
Mas continuei sem ver bailado. Apenas transgressão, como o paraíso ao negro [no título, procurei a referência de Magritte, aqui a obra de Yourcenar], com um casal fazendo amor e um homem defecando. E memórias, que a pequena Sara Cal nos lembrava, tirando continuadamente as suas fotografias Photomaton, num piscar de olhos para que não esquecessemos que estávamos a assistir a uma obra de arte. É isso, a peça de Roriz é arte pela arte, é um olhar estético cheio de volúpia. Sem o poder telúrico do seu Pedro e Inês, de Julho do ano passado, onde os elementos terra e água são fundamentais na coreografia, ela própria uma contaminação de outras artes e em que as tecnologias de informação assumem um peso imprescindível.
TEATRO E MÚSICA DO BRASIL EM PORTUGAL
Enquanto a praça de touros do Campo Pequeno, aqui ao pé de minha casa, não fica pronta, os taipais que cobrem a área enchem-se de informação de espectáculos de teatro e música. Curiosamente, há uma série de peças de teatro brasileiro que estão a decorrer ou se anunciam para breve.
Assim, Thiago Lacerda e Maria Fernanda Cândido actuam no polémico Evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago, no teatro S. Luiz, entre 14 de Setembro e 10 de Outubro, Cláudia Raia e Miguel Falabella em Batalha de arroz, no Tivoli, de 8 de Setembro a 2 de Outubro, e Regina Duarte em Coração de bazar, no Tivoli, de 13 a 24 de Outubro.
Actrizes e actores são bem conhecidos do público lisboeta através das telenovelas vindas do outro lado do Atlântico.
Também os músicos que tocam em Lisboa (e também no Porto) têm um longo contacto com o público português, pelo que é natural a sua presença no nosso país.
Em Lisboa, Ney Matogrosso actuará a 25 de Setembro no Coliseu e Egberto Gismonti e Olívia Byinton tocarão na Aula Magna a 28 de Setembro. Enquanto o Coliseu é uma sala grande, a Aula Magna (Reitoria da Universidade Clássica) é um espaço mais íntimo e acolhedor.
Não sei aquilatar da qualidade dos espectáculos (nem sou crítico de teatro ou música), apenas posso constatar a quantidade. Por um lado, há um fluxo interessante daquele país do Atlântico ocidental para este cantinho da Europa. Por outro lado - e isto tem a ver com a ecologia dos sinais (designação inventada agora por mim, aparentada à semiótica) -, sinto que o espaço público é bombardeado por imensa informação rapidamente perecível, como são os outodoors e os mupies. Nós não temos capacidade de absorver a oferta que nos é dada em toda essa comunicação. Em terceiro lugar, é curioso constatar que alguns dos cartazes estão colocados em espaços pagos de publicidade, como os outdoors, de que é exemplo a peça em que entram Cláudia Raia e Miguel Falabella - para além de aparecerem em jornais e revistas -, mas outros estão situados em espaços ilegais de publicidade, caso desses taipais aqui perto de minha casa.
Noutra altura, inundavam a praça informações sobre touradas, com cavaleiros, forcados e touros da ganadaria de A ou de B... O mês de Setembro era um período de fortes emoções nesse sentido.
Actrizes e actores são bem conhecidos do público lisboeta através das telenovelas vindas do outro lado do Atlântico.
Também os músicos que tocam em Lisboa (e também no Porto) têm um longo contacto com o público português, pelo que é natural a sua presença no nosso país.
Não sei aquilatar da qualidade dos espectáculos (nem sou crítico de teatro ou música), apenas posso constatar a quantidade. Por um lado, há um fluxo interessante daquele país do Atlântico ocidental para este cantinho da Europa. Por outro lado - e isto tem a ver com a ecologia dos sinais (designação inventada agora por mim, aparentada à semiótica) -, sinto que o espaço público é bombardeado por imensa informação rapidamente perecível, como são os outodoors e os mupies. Nós não temos capacidade de absorver a oferta que nos é dada em toda essa comunicação. Em terceiro lugar, é curioso constatar que alguns dos cartazes estão colocados em espaços pagos de publicidade, como os outdoors, de que é exemplo a peça em que entram Cláudia Raia e Miguel Falabella - para além de aparecerem em jornais e revistas -, mas outros estão situados em espaços ilegais de publicidade, caso desses taipais aqui perto de minha casa.
Noutra altura, inundavam a praça informações sobre touradas, com cavaleiros, forcados e touros da ganadaria de A ou de B... O mês de Setembro era um período de fortes emoções nesse sentido.
sábado, 11 de setembro de 2004
SEPTEMBER, 11, 2001
My memories of New York City, one month and two weeks after the big tragedy of September, 11 (photos of Ground Zero and around a church at the neighbour on a Saturday afternoon, and the Broadway at 1:00 AM, pictures I'd took with my old camera Pentax).
-
My aim at staying in the USA was to search information on news about HIV-AIDS at the W.E.B. Du Bois Library, the Massachusetts University library, in Amherst, MA, to prepare my PhD thesis, with a grant from Luso-Americana Foundation.I saw a lot of squirrels there.
I spent a weekend in New York for visiting the city and their museums (MOMA and Guggenheim). I travelled in the Peter Pan trucks between Amherst, MA, and NYC.
My memories of New York City, one month and two weeks after the big tragedy of September, 11 (photos of Ground Zero and around a church at the neighbour on a Saturday afternoon, and the Broadway at 1:00 AM, pictures I'd took with my old camera Pentax).
I spent a weekend in New York for visiting the city and their museums (MOMA and Guggenheim). I travelled in the Peter Pan trucks between Amherst, MA, and NYC.
sexta-feira, 10 de setembro de 2004
AS IDAS AO CINEMA EM PORTUGAL NO PRIMEIRO SEMESTRE DO ANO
Segundo a newsletter do Obercom, no primeiro semestre de 2004, registaram-se, em Portugal, 6,7 milhões de entradas em salas de cinema. As receitas brutas de bilheteira somaram 27,6 milhões de euros no mesmo período, segundo o texto de Maria João Taborda. A Paixão de Cristo e Shrek 2 encabeçam a lista dos filmes mais vistos nos primeiros seis meses do ano.
Apesar da grandeza dos números, trata-se de um decréscimo de 27,5% relativamente ao período homólogo de 2003, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), quando mais de 9,1 milhões de bilhetes foram vendidos.
Já fora do período, Julho teve os melhores resultados do ano, em termos de frequência de salas e de receitas de bilheteira, segundo dados recolhidos pelo ICAM junto dos promotores cinematográficos, salientada ainda na mesma newsletter.
Segundo a newsletter do Obercom, no primeiro semestre de 2004, registaram-se, em Portugal, 6,7 milhões de entradas em salas de cinema. As receitas brutas de bilheteira somaram 27,6 milhões de euros no mesmo período, segundo o texto de Maria João Taborda. A Paixão de Cristo e Shrek 2 encabeçam a lista dos filmes mais vistos nos primeiros seis meses do ano.
Apesar da grandeza dos números, trata-se de um decréscimo de 27,5% relativamente ao período homólogo de 2003, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), quando mais de 9,1 milhões de bilhetes foram vendidos.
Já fora do período, Julho teve os melhores resultados do ano, em termos de frequência de salas e de receitas de bilheteira, segundo dados recolhidos pelo ICAM junto dos promotores cinematográficos, salientada ainda na mesma newsletter.
OS PROGRAMAS MAIS VISTOS EM TELEVISÃO
Segundo a Marktest.com (Media Monitor), os canais generalistas passaram maioritariamente programas de ficção no primeiro semestre de 2004. Assim, os quatros canais de sinal aberto (RTP1, 2, SIC, TVI) dedicaram 22,7% da sua grelha a programas de ficção, com a duração média diária à volta das cinco horas e meia por estação.
A seguir, vem a publicidade (18,9% da emissão, numa média diária de quatro horas e meia por canal). Esta segunda posição da publicidade no conjunto das horas de emissão diz bem da sua importância e da distorção no conjunto das emissões. Mas a televisão comercial não pode viver sem a sua fonte de rendimento.
Em terceiro lugar vêm os programas de informação, com 17,4% nas grelhas dos canais generalistas, com uma média diária superior às quatro horas por canal. Divertimento, Cultura Geral e Conhecimento, Juventude e Desporto foram outros tipos de programas com maior oferta na televisão. É de realçar ainda o peso do desporto (Euro 2004) no final do período agora em análise, campeonato em que Portugal foi vice-campeão.
Segundo a Marktest.com (Media Monitor), os canais generalistas passaram maioritariamente programas de ficção no primeiro semestre de 2004. Assim, os quatros canais de sinal aberto (RTP1, 2, SIC, TVI) dedicaram 22,7% da sua grelha a programas de ficção, com a duração média diária à volta das cinco horas e meia por estação.
A seguir, vem a publicidade (18,9% da emissão, numa média diária de quatro horas e meia por canal). Esta segunda posição da publicidade no conjunto das horas de emissão diz bem da sua importância e da distorção no conjunto das emissões. Mas a televisão comercial não pode viver sem a sua fonte de rendimento.
Em terceiro lugar vêm os programas de informação, com 17,4% nas grelhas dos canais generalistas, com uma média diária superior às quatro horas por canal. Divertimento, Cultura Geral e Conhecimento, Juventude e Desporto foram outros tipos de programas com maior oferta na televisão. É de realçar ainda o peso do desporto (Euro 2004) no final do período agora em análise, campeonato em que Portugal foi vice-campeão.
DNA - UM FORTE APOIO INSTITUCIONAL
Há algum tempo atrás foi o caderno "Actual" do Expresso a ter o apoio institucional do banco Millennium BCP. Agora, cabe a vez ao caderno "DNA" do Diário de Notícias receber apoio institucional do Banco Espírito Santo (BES). Diz o editorial de hoje do suplemento: "Esta edição do DNA marca um novo passo na relação saudável e feliz que pode haver entre o universo editorial e o lado comercial que suporta os produtos de Imprensa".
Quando o caderno do Expresso passou a ostentar a marca do banco houve logo críticas. Não entendo porquê. Se um banco patrocina um bom produto, e o caderno do Expresso é um belíssimo produto, porque não associar um apoio? O banco ganha uma imagem ligada à cultura e à informação; o jornal reduz custos de produção. O mesmo ocorre com o "DNA", um magnífico caderno do Diário de Notícias. Neste caso, é a fotografia a privilegiada.
Esperemos agora que haja um banco - o BPI, por exemplo - que apoie blogues. No meu, sempre poderia introduzir melhorias e colocar mais informação. Vou ponderar escrever uma carta aos bancos. Há mais algum blogue/blogueiro que quer partilhar comigo este pedido de mecenato?
DN Música
No caderno "DNA" vem também o "DN: Música", outro espaço conseguido da edição de sexta-feira. O director é Nuno Galopim, que escreve bem. Hoje, para além do editorial sobre um tema actual - os downloads musicais -, ele escreve sobre a banda Blondie, a propósito da saída de uma caixa de singles. Informação útil. Mas há expressões que fiquei sem perceber muito bem o que querem dizer, tais como "a carga cosmética do teclados", "garantiram o efeito de gatilho", "mesmo sem gemas maiores". Vale a pena usar estas formas de português?
Há algum tempo atrás foi o caderno "Actual" do Expresso a ter o apoio institucional do banco Millennium BCP. Agora, cabe a vez ao caderno "DNA" do Diário de Notícias receber apoio institucional do Banco Espírito Santo (BES). Diz o editorial de hoje do suplemento: "Esta edição do DNA marca um novo passo na relação saudável e feliz que pode haver entre o universo editorial e o lado comercial que suporta os produtos de Imprensa".
Quando o caderno do Expresso passou a ostentar a marca do banco houve logo críticas. Não entendo porquê. Se um banco patrocina um bom produto, e o caderno do Expresso é um belíssimo produto, porque não associar um apoio? O banco ganha uma imagem ligada à cultura e à informação; o jornal reduz custos de produção. O mesmo ocorre com o "DNA", um magnífico caderno do Diário de Notícias. Neste caso, é a fotografia a privilegiada.
Esperemos agora que haja um banco - o BPI, por exemplo - que apoie blogues. No meu, sempre poderia introduzir melhorias e colocar mais informação. Vou ponderar escrever uma carta aos bancos. Há mais algum blogue/blogueiro que quer partilhar comigo este pedido de mecenato?
DN Música
No caderno "DNA" vem também o "DN: Música", outro espaço conseguido da edição de sexta-feira. O director é Nuno Galopim, que escreve bem. Hoje, para além do editorial sobre um tema actual - os downloads musicais -, ele escreve sobre a banda Blondie, a propósito da saída de uma caixa de singles. Informação útil. Mas há expressões que fiquei sem perceber muito bem o que querem dizer, tais como "a carga cosmética do teclados", "garantiram o efeito de gatilho", "mesmo sem gemas maiores". Vale a pena usar estas formas de português?
BREAKFAST AT TIFFANY'S (1961)
No livro de Paco Underhill (Call of the mall), que salientei há dias, o autor faz uma análise das lojas de jóias, de que destaca as de Cartier e Tiffany. Escreve Underhill (2004: 119): "Audrey Hepburn e Tiffany tornaram-se sinónimos. Ela é, apesar de falecida, uma célebre porta-voz".
Trata-se, obviamente, de uma referência ao filme de Blake Edwards, com Audrey Hepburn (no papel de Holly Golighty) e George Pappard (representando Paul Varjak). Como que ligando duas pontas sem relação inicial nenhuma, o curioso é que vi Breakfast at Tiffany's (1961) no passado dia 6, filme integrado no ciclo Uma viagem a Nova Iorque, que decorre na Cinemateca Portuguesa [a cópia exibida era legendada em castelhano e levava o título Desayuno con diamantes. O título português é Boneca de luxo, devido a que o romance de Truman Capote, que inspirou o filme, tem esse título no nosso país].
Fixemo-nos em Audrey Hepburn (1929-1993). Em 1954, ela representaria Sabrina, ao lado de Humphrey Bogart e William Holden, num filme dirigido por Billy Wilder. Dois anos depois, desempenhava o papel de Natasha Rostov, em Guerra e paz, realizado por King Vidor e ao lado de Henry Fonda e Mel Ferrer. Já em 1964, dava-se a grande consagração no papel de Eliza Doolittle, em My Fair Lady, de George Cukor e com Rex Harrison e Stanley Holloway nos outros papéis principais. Para além de actriz, ela foi embaixadora da UNICEF. No ano a seguir à sua morte, foi criada em Nova Iorque a ONG Audrey Hepburn Children's Fund, continuando o seu trabalho em prol das crianças doentes em todo o mundo. Em 1998, o Fundo passou para Los Angeles, onde ainda se mantém [informação e imagem da actriz retiradas do sítio Audrey Hepburn].
Como interpretar um texto
Consideremos um filme como um texto (de igual modo à notícia de jornal ou ao anúncio num outdoor). O texto fílmico é composto por convenções estéticas; nós conseguimos perceber uma elipse, um raccord, a posição de campo e contracampo, como resultado de uma longa aprendizagem a ver cinema. Ora, as codificações estéticas são acompanhadas por outros tipos de codificações - como aliás explica a semiótica. As questões sociais, políticas, religiosas ou de outro tipo podem adquirir significado para além do exposto em cru. Nós lemos um texto dentro, e para além, dos seus valores e símbolos. Se as convenções de uma época (sociais, morais, estéticas) impedem a representação "real" de um problema, há sempre a possibilidade de fazer referência ao problema não de modo explícito mas jogando com palavras ou gestos, que o leitor habituado a textos consegue interpretar.
Nesse sentido, o filme Breakfast at Tiffany's é paradigmático em dois aspectos. O primeiro é que aborda uma temática até então não permitida na cinematografia americana, a da representação da prostituição (tanto feminina quanto masculina). As duas personagens centrais do filme (Holly e Paul) assumem, ainda que de forma velada - quase estética -, a considerada profissão mais antiga do mundo. Segundo, a actriz inicialmente pensada para o papel de Holly era Marilyn Monroe, actriz bem mais sensual. Sucede que, devido à instabilidade psicológica de Marilyn (suicidar-se-ia no ano seguinte) e à mudança de realizador, a Paramount escolheria Audrey Hepburn, tendo que se adaptar toda a personagem feminina ao perfil da actriz. Audrey Hepburn era uma princesa, no modo como desempenhou (ou desempenharia) os seus papéis em Sabrina, Guerra e paz e My fair lady.
Como recorda Manuel Cintra Ferreira, no texto que acompanhou a projecção de Breakfast at Tiffany's, há momentos de ritmo intenso, como sucede na festa - com personagens insólitas e cenas de uma grande inventividade. E a música, Moon River, de Henry Mancini (que lhe deu um óscar), é uma daquelas melodias que nunca esquecemos.
Relembro apenas o(s) primeiro(s) plano(s): vê-se Holly Golighty a caminhar na 5ª Avenida, em direcção à joalharia Tiffany. Enquanto come um pequeno-almoço volante, ela mira as montras e as jóias ali expostas. A câmara foca-a em plano americano e depois em plano geral, quando se afasta e deita a embalagem da bebida e o guardanapo de papel fora, numa papeleira. O grande sonho dela era comprar diamantes na loja (daí o título castelhano). Muito mais tarde, já o filme vai a meio, ela entra na Tiffany, na companhia do amigo Paul Varjak. Os dois pretendem comprar uma jóia, por apenas dez dólares. Motivo: uma relação mais íntima que parecia instalar-se entre os dois. Claro que não conseguem comprar a jóia mas tão simplesmente gravar um anel saído num pacote de bolos. E a relação entre os dois só se concretiza no fim feliz da fita.
Tudo isto se passava em Nova Iorque, assunto do ciclo da Cinemateca. Prometo voltar amanhã a Nova Iorque.
No livro de Paco Underhill (Call of the mall), que salientei há dias, o autor faz uma análise das lojas de jóias, de que destaca as de Cartier e Tiffany. Escreve Underhill (2004: 119): "Audrey Hepburn e Tiffany tornaram-se sinónimos. Ela é, apesar de falecida, uma célebre porta-voz".
Trata-se, obviamente, de uma referência ao filme de Blake Edwards, com Audrey Hepburn (no papel de Holly Golighty) e George Pappard (representando Paul Varjak). Como que ligando duas pontas sem relação inicial nenhuma, o curioso é que vi Breakfast at Tiffany's (1961) no passado dia 6, filme integrado no ciclo Uma viagem a Nova Iorque, que decorre na Cinemateca Portuguesa [a cópia exibida era legendada em castelhano e levava o título Desayuno con diamantes. O título português é Boneca de luxo, devido a que o romance de Truman Capote, que inspirou o filme, tem esse título no nosso país].
Fixemo-nos em Audrey Hepburn (1929-1993). Em 1954, ela representaria Sabrina, ao lado de Humphrey Bogart e William Holden, num filme dirigido por Billy Wilder. Dois anos depois, desempenhava o papel de Natasha Rostov, em Guerra e paz, realizado por King Vidor e ao lado de Henry Fonda e Mel Ferrer. Já em 1964, dava-se a grande consagração no papel de Eliza Doolittle, em My Fair Lady, de George Cukor e com Rex Harrison e Stanley Holloway nos outros papéis principais. Para além de actriz, ela foi embaixadora da UNICEF. No ano a seguir à sua morte, foi criada em Nova Iorque a ONG Audrey Hepburn Children's Fund, continuando o seu trabalho em prol das crianças doentes em todo o mundo. Em 1998, o Fundo passou para Los Angeles, onde ainda se mantém [informação e imagem da actriz retiradas do sítio Audrey Hepburn].
Como interpretar um texto
Consideremos um filme como um texto (de igual modo à notícia de jornal ou ao anúncio num outdoor). O texto fílmico é composto por convenções estéticas; nós conseguimos perceber uma elipse, um raccord, a posição de campo e contracampo, como resultado de uma longa aprendizagem a ver cinema. Ora, as codificações estéticas são acompanhadas por outros tipos de codificações - como aliás explica a semiótica. As questões sociais, políticas, religiosas ou de outro tipo podem adquirir significado para além do exposto em cru. Nós lemos um texto dentro, e para além, dos seus valores e símbolos. Se as convenções de uma época (sociais, morais, estéticas) impedem a representação "real" de um problema, há sempre a possibilidade de fazer referência ao problema não de modo explícito mas jogando com palavras ou gestos, que o leitor habituado a textos consegue interpretar.
Nesse sentido, o filme Breakfast at Tiffany's é paradigmático em dois aspectos. O primeiro é que aborda uma temática até então não permitida na cinematografia americana, a da representação da prostituição (tanto feminina quanto masculina). As duas personagens centrais do filme (Holly e Paul) assumem, ainda que de forma velada - quase estética -, a considerada profissão mais antiga do mundo. Segundo, a actriz inicialmente pensada para o papel de Holly era Marilyn Monroe, actriz bem mais sensual. Sucede que, devido à instabilidade psicológica de Marilyn (suicidar-se-ia no ano seguinte) e à mudança de realizador, a Paramount escolheria Audrey Hepburn, tendo que se adaptar toda a personagem feminina ao perfil da actriz. Audrey Hepburn era uma princesa, no modo como desempenhou (ou desempenharia) os seus papéis em Sabrina, Guerra e paz e My fair lady.
Como recorda Manuel Cintra Ferreira, no texto que acompanhou a projecção de Breakfast at Tiffany's, há momentos de ritmo intenso, como sucede na festa - com personagens insólitas e cenas de uma grande inventividade. E a música, Moon River, de Henry Mancini (que lhe deu um óscar), é uma daquelas melodias que nunca esquecemos.
Relembro apenas o(s) primeiro(s) plano(s): vê-se Holly Golighty a caminhar na 5ª Avenida, em direcção à joalharia Tiffany. Enquanto come um pequeno-almoço volante, ela mira as montras e as jóias ali expostas. A câmara foca-a em plano americano e depois em plano geral, quando se afasta e deita a embalagem da bebida e o guardanapo de papel fora, numa papeleira. O grande sonho dela era comprar diamantes na loja (daí o título castelhano). Muito mais tarde, já o filme vai a meio, ela entra na Tiffany, na companhia do amigo Paul Varjak. Os dois pretendem comprar uma jóia, por apenas dez dólares. Motivo: uma relação mais íntima que parecia instalar-se entre os dois. Claro que não conseguem comprar a jóia mas tão simplesmente gravar um anel saído num pacote de bolos. E a relação entre os dois só se concretiza no fim feliz da fita.
Tudo isto se passava em Nova Iorque, assunto do ciclo da Cinemateca. Prometo voltar amanhã a Nova Iorque.
quinta-feira, 9 de setembro de 2004
LE MONDE ANUNCIA CORTES EM PESSOAL
O jornal francês Le Monde eliminará 100 postos de trabalho até ao final de Outubro, anúncio feito pelos sindicatos e pelo director do jornal, Jean-Marie Colombani [retirado da newsletter do European Journalism Centre]. Os empregados que deixam o jornal incluem jornalistas e outros profissionais. A decisão do pessoal a sair será tomada na primeira quinzena do próximo mês. É que o jornal vai mudar de instalações em Dezembro e já não incluirá esse grupo a despedir. Manter o jornal em equilíbrio financeiro significa reduzir um em cada sete elementos a trabalharem actualmente naquele prestigiado meio de comunicação.
O jornal francês Le Monde eliminará 100 postos de trabalho até ao final de Outubro, anúncio feito pelos sindicatos e pelo director do jornal, Jean-Marie Colombani [retirado da newsletter do European Journalism Centre]. Os empregados que deixam o jornal incluem jornalistas e outros profissionais. A decisão do pessoal a sair será tomada na primeira quinzena do próximo mês. É que o jornal vai mudar de instalações em Dezembro e já não incluirá esse grupo a despedir. Manter o jornal em equilíbrio financeiro significa reduzir um em cada sete elementos a trabalharem actualmente naquele prestigiado meio de comunicação.
AVARIAS, SUAS REPARAÇÕES E ATITUDES EMPRESARIAIS
Ontem, o Blogger.com esteve inoperacional durante todo o dia para quem quisesse colocar posts. De manhã, eu enviara uma mensagem para o sector de Ajuda. De imediato, recebi uma mensagem (automática, presumo), dando conta da recepção do meu problema e prometendo resolvê-lo o mais rápido possível. No final do dia, por volta das 19:00, apercebendo-me que colegas blogueiros já estavam a conseguir colocar as suas mensagens, fiz o mesmo, e com êxito. Pouco minutos depois, recebia uma mensagem da Blogger.com, a dar-me conta da resolução do problema: "Tivemos uma quebra simultânea nas máquina múltiplas de edição do Blog*Spot, mas a situação está resolvida. Para prevenir este tipo de problema no futuro, desenvolvemos um sistema de auditoria que nos assegura a redundância necessária".
O serviço prestado pela Blogger é gratuito (embora, neste mundo, ninguém dê nada a ninguém; a fidelização a uma marca pode redundar em aquisição de bens ou serviços num momento posterior). Mas o que saliento aqui é a profissionalização da Blogger.com.
Mas a Netcabo, fornecedora de internet e de correio electrónico, que custa mensalmente €35, tem uma actuação inversa. Tive um problema com a caixa de correio (Outlook) a partir de domingo ao fim do dia. Dei conta da avaria por telefone (em média, espera-se atendimento ao fim de mais de 15 minutos). Em três dias, falei com cinco operadores, gastando mais de duas horas de conversa. Simpáticos, à excepção de um, só homens, deram-me versões diferentes do problema. Usei também o correio electrónico, a partir de outro fornecedor. Dois dias depois, recebi resposta. Selecciono a seguinte frase: "Agradecemos a sua preferência". Eu não tenho preferência; não há outro fornecedor por cabo, pelo que tenho de aguentar a qualidade de serviço que me prestam. Entretanto, voltei a ter problemas com a caixa de correio, pois as mensagens que envio são-me devolvidas. A Netcabo entrou em silêncio total. Estou à espera...
Assim, podemos comparar atitudes empresariais. Em que, quando se paga, se tem um atendimento grosseiro ou ignorando completamente o cliente.
Ontem, o Blogger.com esteve inoperacional durante todo o dia para quem quisesse colocar posts. De manhã, eu enviara uma mensagem para o sector de Ajuda. De imediato, recebi uma mensagem (automática, presumo), dando conta da recepção do meu problema e prometendo resolvê-lo o mais rápido possível. No final do dia, por volta das 19:00, apercebendo-me que colegas blogueiros já estavam a conseguir colocar as suas mensagens, fiz o mesmo, e com êxito. Pouco minutos depois, recebia uma mensagem da Blogger.com, a dar-me conta da resolução do problema: "Tivemos uma quebra simultânea nas máquina múltiplas de edição do Blog*Spot, mas a situação está resolvida. Para prevenir este tipo de problema no futuro, desenvolvemos um sistema de auditoria que nos assegura a redundância necessária".
O serviço prestado pela Blogger é gratuito (embora, neste mundo, ninguém dê nada a ninguém; a fidelização a uma marca pode redundar em aquisição de bens ou serviços num momento posterior). Mas o que saliento aqui é a profissionalização da Blogger.com.
Mas a Netcabo, fornecedora de internet e de correio electrónico, que custa mensalmente €35, tem uma actuação inversa. Tive um problema com a caixa de correio (Outlook) a partir de domingo ao fim do dia. Dei conta da avaria por telefone (em média, espera-se atendimento ao fim de mais de 15 minutos). Em três dias, falei com cinco operadores, gastando mais de duas horas de conversa. Simpáticos, à excepção de um, só homens, deram-me versões diferentes do problema. Usei também o correio electrónico, a partir de outro fornecedor. Dois dias depois, recebi resposta. Selecciono a seguinte frase: "Agradecemos a sua preferência". Eu não tenho preferência; não há outro fornecedor por cabo, pelo que tenho de aguentar a qualidade de serviço que me prestam. Entretanto, voltei a ter problemas com a caixa de correio, pois as mensagens que envio são-me devolvidas. A Netcabo entrou em silêncio total. Estou à espera...
Assim, podemos comparar atitudes empresariais. Em que, quando se paga, se tem um atendimento grosseiro ou ignorando completamente o cliente.
NOVAS TECNOLOGIAS E CONSUMO DOMÉSTICO (II)
[continuação da mensagem de 7.9.2004]
No seu texto, Hirsch (2003) divide a longa duração de 200 anos por si estudado em cinco períodos distintos (embora sobrepostos). O primeiro período, de cerca de 1780 a 1850, é o da revolução da velocidade [o autor tem por cenário a industrialização inglesa; se formos aplicar a sua grelha a Portugal, começaríamos bem mais tarde, optimisticamente desde 1850].
Trata-se da velocidade dos bens manufacturados produzidos e transportados e da velocidade com que os consumidores destes bens os consomem e os transportam. Este primeiro período engendra uma crise de controlo que fornece os contornos do segundo período. De 1850 a 1880, formula-se uma série de estratégias sociais e técnicas para coordenar e integrar o frequente conjunto não discernível de relações geradas entre a produção, a distribuição e o consumo de bens e serviços: entre as unidades domésticas e as ligações mais profusas.
Estas estratégias sociais e técnicas seriam sistematizadas durante o terceiro período, de 1880 a 1940. Foi durante esta época que o ideal cultural, que emergiu cem anos antes, foi codificado nos espaços de habitação nos subúrbios e se tornou uma realidade para a maioria da população (no Reino Unido e nos Estados Unidos). A harmonização do “indivíduo/família” e da “sociedade” entrou na sua “idade de ouro” durante o quarto período de 1940 a 1970. Os processos de miniaturização tecnológica e a rápida expansão da electrónica de consumo aumentaram o ideal doméstico deste período. Mas as limitações dos sistemas (social e técnico), codificadas no período final do século XIX, tornaram-se explícitas. Este período começa nos anos de 1970 e vem até nós, promulgando uma combinação de “escolha” individual e “convergência” tecnológica.
[continua]
Leitura: Eric Hirsch (2003). “New technologies and domestic consumption”. In Christine Geraghty e David Lusted The television studies book. Londres: Arnold
[continuação da mensagem de 7.9.2004]
No seu texto, Hirsch (2003) divide a longa duração de 200 anos por si estudado em cinco períodos distintos (embora sobrepostos). O primeiro período, de cerca de 1780 a 1850, é o da revolução da velocidade [o autor tem por cenário a industrialização inglesa; se formos aplicar a sua grelha a Portugal, começaríamos bem mais tarde, optimisticamente desde 1850].
Trata-se da velocidade dos bens manufacturados produzidos e transportados e da velocidade com que os consumidores destes bens os consomem e os transportam. Este primeiro período engendra uma crise de controlo que fornece os contornos do segundo período. De 1850 a 1880, formula-se uma série de estratégias sociais e técnicas para coordenar e integrar o frequente conjunto não discernível de relações geradas entre a produção, a distribuição e o consumo de bens e serviços: entre as unidades domésticas e as ligações mais profusas.
Estas estratégias sociais e técnicas seriam sistematizadas durante o terceiro período, de 1880 a 1940. Foi durante esta época que o ideal cultural, que emergiu cem anos antes, foi codificado nos espaços de habitação nos subúrbios e se tornou uma realidade para a maioria da população (no Reino Unido e nos Estados Unidos). A harmonização do “indivíduo/família” e da “sociedade” entrou na sua “idade de ouro” durante o quarto período de 1940 a 1970. Os processos de miniaturização tecnológica e a rápida expansão da electrónica de consumo aumentaram o ideal doméstico deste período. Mas as limitações dos sistemas (social e técnico), codificadas no período final do século XIX, tornaram-se explícitas. Este período começa nos anos de 1970 e vem até nós, promulgando uma combinação de “escolha” individual e “convergência” tecnológica.
[continua]
Leitura: Eric Hirsch (2003). “New technologies and domestic consumption”. In Christine Geraghty e David Lusted The television studies book. Londres: Arnold
quarta-feira, 8 de setembro de 2004
CENTROS COMERCIAIS (I)
Este é um dos dois livros mais fascinantes que li (ou estou a ler) este ano, The call of the mall. How to shop, escrito por Paco Underhill [o outro livro foi São Paulo de meus amores, de Afonso Schmidt].
Já na próxima semana, os meus alunos de Públicos e Audiências conhecerão a obra. É que, logo na página 20, referindo-se à arquitectura dos centros comerciais em todo o mundo, o autor escreve sobre o Centro Comercial Vasco da Gama (Lisboa) como um dos mais notáveis, pois a sua construção se parece com um "barco gigantesco".
E, mais à frente, na página 153, Paco Underhill, para além de destacar também o Centro Comercial Colombo (Lisboa), refere o Vasco da Gama como o "resultado de uma relação cooperante e visionária entre empresário [Sonae], governo e arquitectura".
Como são feitas as compras, quais os consumos que nós fazemos, qual o tipo de arquitectura dos centros comerciais - esta obra fala-nos destas e de muitas outras e interessantes coisas que se detectam num centro comercial, num texto de uma grande facilidade de compreensão dos factos.
Extraio um diálogo entre o autor e raparigas que visitavam, num centro comercial, a loja Pacific Sun, chamada familiarmente em todos os Estados Unidos por Pac Sun (neste caso, Paco Underhill fala com uma delas, Ariel):
"Aonde vais [...]?"
"Vou ao Musicland."
"Em primeiro lugar?"
"Depende."
"Gostas mais de música ou de roupa?"
"Hum, não sei."
"Se escolhesses entre comprar jeans e CDs, o que fazias?"
"Comprava as jeans."
"Jeans."
"Jeans. Porque é sempre melhor ter mais roupa. E sempre se pode ouvir arranjar música on-line."
O autor e as raparigas entrevistadas saem do Pac Sun. Do outro lado, existe uma loja, a Old Navy.
"Vens aqui?"
"Não."
"Porquê?"
"Parece roupa para pessoas de 40 anos."
"Sim. Pessoas mais velhas."
"Como a minha mãe."
"Professores."
Mais à frente, continua o diálogo, em que intervêm as várias raparigas:
"Quantas vezes vêm aqui [ao Pac Sun]?"
"Estive aqui há dois dias."
"Quantas vezes por mês?"
"Umas quatro."
"O mesmo."
"Cinco ou seis vezes."
"Oito."
Comenta o autor: "Oito vezes. Imaginem se estas raparigas tivessem dinheiro!" Mas ele consegue saber isso mais à frente:
"Gastas cinquenta dólares por semana aqui?"
"Seguramente."
"Mas isso dá 2500 dólares por ano. É muito dinheiro."
"É."
Os diálogos aqui recortados constam das páginas 158 a 164. De entre os capítulos do livro destaco o sétimo (pp. 47-60), intitulado Nariz e dedos dos pés, que indiciam cosmética e sapatos, duas das áreas mais importantes nas compras femininas. O que um homem aprende neste capítulo sobre o comportamento das mulheres!
Observação: voltarei a esta obra e a outras sobre espaço público e centros comerciais, caso do texto de Turo-Kimmo Lehtonen e Pasi Mäenpää [(1997). “Shopping in the East Centre Mall”. In Pasi Falk e Colin Campbell (Eds.) The Shopping Experience. Londres: Sage], do qual já tenho uma mensagem preparada.
Leitura: Paco Underhill (2004). The call of the mall. How we shop. Londres: Profile Books. Custo aproximado do livro: €24,95. Underhill é antropólogo de retalho (curiosa designação) [retalho no Brasil diz-se varejo] e fundador e presidente da Envirosell, uma empresa de consultoria na área dos comportamentos do consumo. Para aceder a mais informação sobre este tema e autor, clicar em Envirosell.
Este é um dos dois livros mais fascinantes que li (ou estou a ler) este ano, The call of the mall. How to shop, escrito por Paco Underhill [o outro livro foi São Paulo de meus amores, de Afonso Schmidt].
Já na próxima semana, os meus alunos de Públicos e Audiências conhecerão a obra. É que, logo na página 20, referindo-se à arquitectura dos centros comerciais em todo o mundo, o autor escreve sobre o Centro Comercial Vasco da Gama (Lisboa) como um dos mais notáveis, pois a sua construção se parece com um "barco gigantesco".
E, mais à frente, na página 153, Paco Underhill, para além de destacar também o Centro Comercial Colombo (Lisboa), refere o Vasco da Gama como o "resultado de uma relação cooperante e visionária entre empresário [Sonae], governo e arquitectura".
Como são feitas as compras, quais os consumos que nós fazemos, qual o tipo de arquitectura dos centros comerciais - esta obra fala-nos destas e de muitas outras e interessantes coisas que se detectam num centro comercial, num texto de uma grande facilidade de compreensão dos factos.
Extraio um diálogo entre o autor e raparigas que visitavam, num centro comercial, a loja Pacific Sun, chamada familiarmente em todos os Estados Unidos por Pac Sun (neste caso, Paco Underhill fala com uma delas, Ariel):
"Vou ao Musicland."
"Em primeiro lugar?"
"Depende."
"Gostas mais de música ou de roupa?"
"Hum, não sei."
"Se escolhesses entre comprar jeans e CDs, o que fazias?"
"Comprava as jeans."
"Jeans."
"Jeans. Porque é sempre melhor ter mais roupa. E sempre se pode ouvir arranjar música on-line."
O autor e as raparigas entrevistadas saem do Pac Sun. Do outro lado, existe uma loja, a Old Navy.
"Vens aqui?"
"Não."
"Porquê?"
"Parece roupa para pessoas de 40 anos."
"Sim. Pessoas mais velhas."
"Como a minha mãe."
"Professores."
Mais à frente, continua o diálogo, em que intervêm as várias raparigas:
"Quantas vezes vêm aqui [ao Pac Sun]?"
"Estive aqui há dois dias."
"Quantas vezes por mês?"
"Umas quatro."
"O mesmo."
"Cinco ou seis vezes."
"Oito."
Comenta o autor: "Oito vezes. Imaginem se estas raparigas tivessem dinheiro!" Mas ele consegue saber isso mais à frente:
"Gastas cinquenta dólares por semana aqui?"
"Seguramente."
"Mas isso dá 2500 dólares por ano. É muito dinheiro."
"É."
Os diálogos aqui recortados constam das páginas 158 a 164. De entre os capítulos do livro destaco o sétimo (pp. 47-60), intitulado Nariz e dedos dos pés, que indiciam cosmética e sapatos, duas das áreas mais importantes nas compras femininas. O que um homem aprende neste capítulo sobre o comportamento das mulheres!
Observação: voltarei a esta obra e a outras sobre espaço público e centros comerciais, caso do texto de Turo-Kimmo Lehtonen e Pasi Mäenpää [(1997). “Shopping in the East Centre Mall”. In Pasi Falk e Colin Campbell (Eds.) The Shopping Experience. Londres: Sage], do qual já tenho uma mensagem preparada.
Leitura: Paco Underhill (2004). The call of the mall. How we shop. Londres: Profile Books. Custo aproximado do livro: €24,95. Underhill é antropólogo de retalho (curiosa designação) [retalho no Brasil diz-se varejo] e fundador e presidente da Envirosell, uma empresa de consultoria na área dos comportamentos do consumo. Para aceder a mais informação sobre este tema e autor, clicar em Envirosell.
terça-feira, 7 de setembro de 2004
NOVAS TECNOLOGIAS E CONSUMO DOMÉSTICO (I)
No discurso dominante, usa-se a expressão novas tecnologias mas sem cuidar muito bem do que se trata. Mas o que é isto?
Tem-se atribuido a designação novas tecnologias aos computadores e às redes de informação estabelecidas entre eles e entre eles e as comunidades humanas. Mas, há uma geração e meia, escreve Eric Hirsch (2003: 158), era a televisão que tinha o estatuto de “nova” tecnologia. Hirsch - que estuda a relação existente entre novas tecnologias e consumo doméstico - defende a existência de um modelo de longa duração de tensão e acomodação entre consumo doméstico e tecnologias. O autor propôs-se analisar a ligação social e histórica, clara para ele, entre os dois elementos ao longo dos últimos 200 anos.
Mas, antes de irmos lá, queria referir o desconforto de um pensador como Eric Havelock (para mim, juntamente com Harold Innis, um autor mais importante que Herbert Marshall McLuhan) perante a designação de nova tecnologia. Havelock (1996: 76) dissertava sobre o alfabeto grego que provara ser "historicamente único na sua eficiência e distribuição" dentro de todos os sistemas de comunicação usados pelo homem. O alfabeto grego é, de então para cá, a verdadeira nova tecnologia mais importante. Tudo o resto são quase variações desse tema - o alfabeto. Um computador é uma máquina, dotada de ligações (hardware). O conteúdo, a informação, a inteligência, é dada pela lógica do pensamento.
As tecnologias entre o estabelecido e o novo
É a questão do novo que ocupa Hirsch. A novidade [news-ness] coexiste em tensão com o que está já estabelecido (ou mesmo o tradicional); as tecnologias são, simultaneamente, estabelecidas e novas.
As tecnologias não estão isoladas face a esta tensão. Também as formas de consumo doméstico se relacionam de modo análogo entre o estabelecido e o novo. As pessoas evocam as formas velhas e novas de consumo no contexto doméstico. A distinção entre velho e novo torna-se visível na relação da tecnologia com o consumo doméstico enquanto parte da própria auto-conceptualização. É o caso já citado da televisão, que, quando surgiu e se massificou como objecto de uso e consumo doméstico, suplantaria as formas estabelecidas, tornadas tradicionais [Hirsch não diz, mas podemos interpretar como o novo medium tendo eliminado ou reduzido a conversa ou serão oral].
O argumento central de Hirsch é o surgimento da ênfase explícita do consumo doméstico enquanto fenómeno da classe média, como projecto da sua auto-suficiência doméstica (passagem do séc. XVIII para o séc. XIX). Segundo Hirsch (2003: 159), manifesta-se a relação constitutiva entre formas de inovações sócio-culturais (formas de domesticidade) e inovações tecnológicas (formas de tecnologias usadas ou ligadas ao contexto doméstico). Vêem-se as novas tecnologias pelos empreendedores [entrepreneurs] e outros como sendo propostas fazíveis [feasible avenues] para o desenvolvimento social.
[continua]
Imagem: retirada de um livro meu sobre história das telecomunicações [Centro de Estudos de Telecomunicações, 50 anos ao serviço da I&D, 1950-1999 (2000). Aveiro: PT Inovação. Fotografia de Mário Marnoto].
Leituras: 1) Eric A. Havelock (1996). A musa aprende a escrever. Lisboa: Gradiva, 2) Eric Hirsch (2003). “New technologies and domestic consumption”. In Christine Geraghty e David Lusted (eds.) The television studies book. Londres: Arnold
No discurso dominante, usa-se a expressão novas tecnologias mas sem cuidar muito bem do que se trata. Mas o que é isto?
Tem-se atribuido a designação novas tecnologias aos computadores e às redes de informação estabelecidas entre eles e entre eles e as comunidades humanas. Mas, há uma geração e meia, escreve Eric Hirsch (2003: 158), era a televisão que tinha o estatuto de “nova” tecnologia. Hirsch - que estuda a relação existente entre novas tecnologias e consumo doméstico - defende a existência de um modelo de longa duração de tensão e acomodação entre consumo doméstico e tecnologias. O autor propôs-se analisar a ligação social e histórica, clara para ele, entre os dois elementos ao longo dos últimos 200 anos.
Mas, antes de irmos lá, queria referir o desconforto de um pensador como Eric Havelock (para mim, juntamente com Harold Innis, um autor mais importante que Herbert Marshall McLuhan) perante a designação de nova tecnologia. Havelock (1996: 76) dissertava sobre o alfabeto grego que provara ser "historicamente único na sua eficiência e distribuição" dentro de todos os sistemas de comunicação usados pelo homem. O alfabeto grego é, de então para cá, a verdadeira nova tecnologia mais importante. Tudo o resto são quase variações desse tema - o alfabeto. Um computador é uma máquina, dotada de ligações (hardware). O conteúdo, a informação, a inteligência, é dada pela lógica do pensamento.
As tecnologias entre o estabelecido e o novo
É a questão do novo que ocupa Hirsch. A novidade [news-ness] coexiste em tensão com o que está já estabelecido (ou mesmo o tradicional); as tecnologias são, simultaneamente, estabelecidas e novas.
As tecnologias não estão isoladas face a esta tensão. Também as formas de consumo doméstico se relacionam de modo análogo entre o estabelecido e o novo. As pessoas evocam as formas velhas e novas de consumo no contexto doméstico. A distinção entre velho e novo torna-se visível na relação da tecnologia com o consumo doméstico enquanto parte da própria auto-conceptualização. É o caso já citado da televisão, que, quando surgiu e se massificou como objecto de uso e consumo doméstico, suplantaria as formas estabelecidas, tornadas tradicionais [Hirsch não diz, mas podemos interpretar como o novo medium tendo eliminado ou reduzido a conversa ou serão oral].
O argumento central de Hirsch é o surgimento da ênfase explícita do consumo doméstico enquanto fenómeno da classe média, como projecto da sua auto-suficiência doméstica (passagem do séc. XVIII para o séc. XIX). Segundo Hirsch (2003: 159), manifesta-se a relação constitutiva entre formas de inovações sócio-culturais (formas de domesticidade) e inovações tecnológicas (formas de tecnologias usadas ou ligadas ao contexto doméstico). Vêem-se as novas tecnologias pelos empreendedores [entrepreneurs] e outros como sendo propostas fazíveis [feasible avenues] para o desenvolvimento social.
[continua]
Imagem: retirada de um livro meu sobre história das telecomunicações [Centro de Estudos de Telecomunicações, 50 anos ao serviço da I&D, 1950-1999 (2000). Aveiro: PT Inovação. Fotografia de Mário Marnoto].
Leituras: 1) Eric A. Havelock (1996). A musa aprende a escrever. Lisboa: Gradiva, 2) Eric Hirsch (2003). “New technologies and domestic consumption”. In Christine Geraghty e David Lusted (eds.) The television studies book. Londres: Arnold
182 ANOS DE INDEPENDÊNCIA DO BRASIL
Parabéns pela declaração junto ao rio Ipiranga, em 7 de Setembro de 1822, que tornaria o Brasil independente de Portugal. Nascia uma nova relação, mais amigável e, sobretudo, equilibrada.
Retiro do sítio educaterra.terra.com.br um excerto que explica o contexto: "Dois episódios históricos muito próximos, o Dia do Fico e o Grito do Ipiranga, distantes apenas dez meses um do outro, ocorridos no ano de 1822, um em janeiro o outro em setembro, marcaram simbolicamente a emancipação brasileira do domínio lusitano, encerrando 322 anos de colonização portuguesa na América. A presença da família real dos Bragança no Brasil, desde 1808, e a permanência do herdeiro do trono depois da volta de dom João VI para Lisboa, em 1821, terminaram por amortecer um movimento separatista violento e desagregador como ocorreu no restante do continente. Isto permitiu que apenas com dois gritos, o do Fico, mais baixo, e o do Ipiranga, mais sonoro, o Brasil atingisse a tão desejada autonomia sem os tormentos de uma guerra de independência prolongada e sangrenta e sem ver-se dividido em dezenas de republiquetas".
Agora, de manhã cedo, enquanto escrevo esta mensagem, a Antena 2 (música clássica) passa música daquele lado do Atlântico. Por exemplo, ouço Heitor Villa-Lobos (1887-1959), num dos seus chorinhos.
Parabéns pela declaração junto ao rio Ipiranga, em 7 de Setembro de 1822, que tornaria o Brasil independente de Portugal. Nascia uma nova relação, mais amigável e, sobretudo, equilibrada.
Retiro do sítio educaterra.terra.com.br um excerto que explica o contexto: "Dois episódios históricos muito próximos, o Dia do Fico e o Grito do Ipiranga, distantes apenas dez meses um do outro, ocorridos no ano de 1822, um em janeiro o outro em setembro, marcaram simbolicamente a emancipação brasileira do domínio lusitano, encerrando 322 anos de colonização portuguesa na América. A presença da família real dos Bragança no Brasil, desde 1808, e a permanência do herdeiro do trono depois da volta de dom João VI para Lisboa, em 1821, terminaram por amortecer um movimento separatista violento e desagregador como ocorreu no restante do continente. Isto permitiu que apenas com dois gritos, o do Fico, mais baixo, e o do Ipiranga, mais sonoro, o Brasil atingisse a tão desejada autonomia sem os tormentos de uma guerra de independência prolongada e sangrenta e sem ver-se dividido em dezenas de republiquetas".
Agora, de manhã cedo, enquanto escrevo esta mensagem, a Antena 2 (música clássica) passa música daquele lado do Atlântico. Por exemplo, ouço Heitor Villa-Lobos (1887-1959), num dos seus chorinhos.
segunda-feira, 6 de setembro de 2004
LEITURAS
Conferência
De Nelson Traquina, Os desafios da transição tecnológica, proferida a 19 de Abril de 2004 na abertura dos trabalhos do 7º Fórum Nacional dos Professores de Jornalismo, em Florianópolis (SC), agora totalmente disponível no sítio do Observatório da Imprensa brasileiro.
O que disse então o professor da Universidade Nova de Lisboa (Portugal)? Para ele, "Uma prioridade colocada pela transição tecnológica é a preparação dos futuros jornalistas para utilizar as capacidades postas à sua disposição, o chamado «computer-assisted reporting»: encontrar informação backgound; obter informação geral; encontrar informação sobre pessoas; encontrar informação útil para entrevistas; reunir informação de uma variedade de fontes que incluem a Internet, CD-ROMs, banco de dados, arquivos e documentos públicos; desenvolver as capacidades de explorar a Internet e utilizar a Internet como ferramenta de reportagem; mobilizar o poder do computador para realçar o tradicional jornalismo de investigação; saber avaliar a informação na Internet".
Mensagens Instantâneas (MI)
Elas são o último grito em comunicação. Até agora, o telefone, o correio e o correio electrónico ocupavam lugares destacados. É certo que o mIRC e os chats também tinham um lugar à parte na CMC (comunicação mediada por computador), mas agora a moda é a MI. A tecnologia mais vulgarizada está no MSN, da Microsoft, mas a AOL e a Yahoo! também o disponibilizam.
Então, quais são as semelhanças, diferenças, vantagens e desvantagens da MI relativamente à concorrência? A empresa de pesquisa Forrester estima que, nos primeiros cinco anos de actividade, a MI cresce um terço mais depressa que o correio electrónico na sua infância. Pessoas com disponibilidade económica e de tempo, situadas entre os 16 e os 24 anos, utilizam três vezes mais a MI que pessoas de níveis etários mais elevados. A popularidade da MI levou a que um programa americano da MTV, na tentativa de aumentar a participação eleitoral dos jovens, tivesse desenvolvido um programa de MI onde se pudesse discutir a eleição presidencial americana que ocorrerá dentro de dois meses.
Com a MI há mudanças substanciais na forma de comunicação, escreve James Knight, no texto intitulado On message for an instant party, saído ontem na edição do Sunday Times, e que sigo nesta mensagem. Primeiro, sabe-se sempre quando os amigos entram na rede, graças aos elementos do programa de alerta, os buddies. Segundo, a ligação é gratuita, ao contrário das mensagens por telemóvel, que pesam na conta, em especial nos jovens que estudam. Terceiro, escrever e aceder a mensagens MI pode ser feito enquanto se executam outras tarefas, como ouvir música ou jogar jogos.
A Nielsen/NetRatings estima que o Messenger MSN, a aplicação MI mais popular na Europa (27 milhões, dos quais 8 são no Reino Unido), ultrapassou o serviço popular de correio electrónico da Hotmail.
As mensagens associam-se tradicionalmente com contracções e símbolos visuais. Isto pode criar um tipo de escrita indecifrável para os não iniciados, uma espécie de nova estenografia: ppl quer dizer pessoal (people), lol gargalhada, bjs beijos, rsp resposta, k7 cassete. No canal 29 (SMS TV) da televisão por cabo, as mensagens são a sua actividade; a publicidade diz: “SUB18 e chat só a 0,20 €”. As mensagens SMS devem ser dirigidas para o telefone 4990.
Além disso, há sinais (emoticons) como :), que significa uma face sorridente [aliás, o meu computador assume logo esse sinal]. Muitos sons audíveis, que os correspondentes jovens da MI nunca se cansam de enviar uns aos outros, terão, na opinião de um responsável do Yahoo!, uma conotação de flirt. Trata-se, assim, de um apelo à juventude, mas também isso tem sucesso no mundo do trabalho e constitui uma ferramenta alternativa ao mundo de emails, já objecto de muita vigilância por parte das entidades patronais.
Uma dificuldade tem sido a incompatibilidade entre as MI dos fornecedores AOL, Yahoo! e Messenger. Contudo, a Trillian fornece um programa de mensagens, descarregado livremente, que integra as três principais redes.
Cristina Ponte em entrevista ao Diário de Notícias (adenda publicada às 13:44)
Entrevistada por Leonor Figueiredo, hoje no Diário de Notícias, a propósito do seu livro Leitura das notícias, recentemente editado (a capa está aqui ao lado, na coluna da direita, um pouco acima). À pergunta da jornalista sobre a relação entre o jornalismo e a literatura, Cristina Ponte, professora da Universidade Nova de Lisboa, responde: "É fascinante estudar as notícias como forma de produção literária. Os jornalistas têm muita reserva nisso. E pensa-se que a linguagem das notícias é desprovida de figuras de estilo, seca e objectiva. Mas quando se faz a articulação do jornalismo com as correntes literárias percebemos essa influência. Eu acho que a escrita jornalística é literária".
Conferência
De Nelson Traquina, Os desafios da transição tecnológica, proferida a 19 de Abril de 2004 na abertura dos trabalhos do 7º Fórum Nacional dos Professores de Jornalismo, em Florianópolis (SC), agora totalmente disponível no sítio do Observatório da Imprensa brasileiro.
O que disse então o professor da Universidade Nova de Lisboa (Portugal)? Para ele, "Uma prioridade colocada pela transição tecnológica é a preparação dos futuros jornalistas para utilizar as capacidades postas à sua disposição, o chamado «computer-assisted reporting»: encontrar informação backgound; obter informação geral; encontrar informação sobre pessoas; encontrar informação útil para entrevistas; reunir informação de uma variedade de fontes que incluem a Internet, CD-ROMs, banco de dados, arquivos e documentos públicos; desenvolver as capacidades de explorar a Internet e utilizar a Internet como ferramenta de reportagem; mobilizar o poder do computador para realçar o tradicional jornalismo de investigação; saber avaliar a informação na Internet".
Mensagens Instantâneas (MI)
Elas são o último grito em comunicação. Até agora, o telefone, o correio e o correio electrónico ocupavam lugares destacados. É certo que o mIRC e os chats também tinham um lugar à parte na CMC (comunicação mediada por computador), mas agora a moda é a MI. A tecnologia mais vulgarizada está no MSN, da Microsoft, mas a AOL e a Yahoo! também o disponibilizam.
Então, quais são as semelhanças, diferenças, vantagens e desvantagens da MI relativamente à concorrência? A empresa de pesquisa Forrester estima que, nos primeiros cinco anos de actividade, a MI cresce um terço mais depressa que o correio electrónico na sua infância. Pessoas com disponibilidade económica e de tempo, situadas entre os 16 e os 24 anos, utilizam três vezes mais a MI que pessoas de níveis etários mais elevados. A popularidade da MI levou a que um programa americano da MTV, na tentativa de aumentar a participação eleitoral dos jovens, tivesse desenvolvido um programa de MI onde se pudesse discutir a eleição presidencial americana que ocorrerá dentro de dois meses.
Com a MI há mudanças substanciais na forma de comunicação, escreve James Knight, no texto intitulado On message for an instant party, saído ontem na edição do Sunday Times, e que sigo nesta mensagem. Primeiro, sabe-se sempre quando os amigos entram na rede, graças aos elementos do programa de alerta, os buddies. Segundo, a ligação é gratuita, ao contrário das mensagens por telemóvel, que pesam na conta, em especial nos jovens que estudam. Terceiro, escrever e aceder a mensagens MI pode ser feito enquanto se executam outras tarefas, como ouvir música ou jogar jogos.
A Nielsen/NetRatings estima que o Messenger MSN, a aplicação MI mais popular na Europa (27 milhões, dos quais 8 são no Reino Unido), ultrapassou o serviço popular de correio electrónico da Hotmail.
As mensagens associam-se tradicionalmente com contracções e símbolos visuais. Isto pode criar um tipo de escrita indecifrável para os não iniciados, uma espécie de nova estenografia: ppl quer dizer pessoal (people), lol gargalhada, bjs beijos, rsp resposta, k7 cassete. No canal 29 (SMS TV) da televisão por cabo, as mensagens são a sua actividade; a publicidade diz: “SUB18 e chat só a 0,20 €”. As mensagens SMS devem ser dirigidas para o telefone 4990.
Além disso, há sinais (emoticons) como :), que significa uma face sorridente [aliás, o meu computador assume logo esse sinal]. Muitos sons audíveis, que os correspondentes jovens da MI nunca se cansam de enviar uns aos outros, terão, na opinião de um responsável do Yahoo!, uma conotação de flirt. Trata-se, assim, de um apelo à juventude, mas também isso tem sucesso no mundo do trabalho e constitui uma ferramenta alternativa ao mundo de emails, já objecto de muita vigilância por parte das entidades patronais.
Uma dificuldade tem sido a incompatibilidade entre as MI dos fornecedores AOL, Yahoo! e Messenger. Contudo, a Trillian fornece um programa de mensagens, descarregado livremente, que integra as três principais redes.
Cristina Ponte em entrevista ao Diário de Notícias (adenda publicada às 13:44)
Entrevistada por Leonor Figueiredo, hoje no Diário de Notícias, a propósito do seu livro Leitura das notícias, recentemente editado (a capa está aqui ao lado, na coluna da direita, um pouco acima). À pergunta da jornalista sobre a relação entre o jornalismo e a literatura, Cristina Ponte, professora da Universidade Nova de Lisboa, responde: "É fascinante estudar as notícias como forma de produção literária. Os jornalistas têm muita reserva nisso. E pensa-se que a linguagem das notícias é desprovida de figuras de estilo, seca e objectiva. Mas quando se faz a articulação do jornalismo com as correntes literárias percebemos essa influência. Eu acho que a escrita jornalística é literária".
domingo, 5 de setembro de 2004
5 DE SETEMBRO DE 1949 - UM DIA DE JORNAIS
Na época, o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias tinham dez/doze páginas e custavam $80 (€0,004 na moeda actual). Em formato broadsheet, os jornais tinham amplo espaço na primeira página para colocarem artigos de opinião e notícias desenvolvidas.
Para o Jornal de Notícias de 5 de Setembro de 1949, a inauguração da Casa da Criança de D. Maria Resgate Salazar [mãe do primeiro-ministro Oliveira Salazar], "seis mortos e dezassete feridos em diversos acidentes de viação" e o incêndio que deflagrou em Chungking, onde morreram mil pessoas e cem mil ficaram sem lar, eram tema da primeira página. Já o Diário de Notícias, num alinhamento perfeito de agenda, destacava a inauguração, no Luso e pelo ministro do Interior, da Casa da Criança, a morte de quatro ocupantes de uma viatura caida na ria de Aveiro e o incêndio de Chugking.
Além disso, o mesmo Diário de Notícias dava grande destaque a duas procissões, a de Nª Sª da Penha (Penha de França, Lisboa) e a do Senhor Jesus dos Navegantes (Paço d'Arcos). E se este jornal de Lisboa dava nota do filme Uma aventura arriscada, a estrear no dia seguinte no Capitólio, enquanto se mantinha em exibição a fita Fantomas contra Fantomas, no Odeón-Palácio, o jornal do Porto noticiava a exibição do filme português Sol e touros, no Batalha, Os piratas do mar das trevas, no Carlos Alberto, o espanhol Santander em chamas, no Águia, Muralhas humanas, no Coliseu, e dois filmes no Olímpia: Alma torturada e Quero ser estrela.
Nesse dia 5 de Setembro de 1949, a Emissora Nacional tinha três períodos de emissão: das 8:30 às 10:00, das 12:00 às 14:00 e das 18:30 às 23:50. Do programa inicial, constavam as seguintes rubricas - 8:30 - Abertura da estação - Bom Dia!; 8:35 - 1º noticiário; 8:40 - O café da manhã; 8:55 - Deitar cedo e cedo erguer; 9:00 - Sinal horário - A nossa casa; 9:30 - Aprenda a conhecer-se; 9:50 - Música, apenas música; 10:00 - Interrupção da emissão. No último período de emissão, pelas 21:15, era feito um desdobramento entre o programa A e o B (este de música clássica, a Antena 2 de hoje).
É curioso verificar o peso dos editoriais e dos artigos de fundo da primeira página. No Diário de Notícias, por exemplo, um dos temas era Higiene e educação, onde se escrevia que a Câmara Municipal de Lisboa renovara as disposições respeitantes a ruídos nomeadamente os de oficinas e das buzinas de automóveis. O mesmo jornal incluía uma rubrica intitulada Dois ditadores face a face. Ou seja, para além das notícias do dia, o formato do jornal permitia a inserção de textos de opinião e comentário.
5 de Setembro de 1949, uma segunda-feira, foi chuvosa. Conforme se pode ler na edição do dia seguinte do Jornal de Notícias, A chuva foi saudada por todo o país: "Os lavradores [...] olham para o céu, a ver quando chega mais alguma - que a que veio, muito boa já, ainda não trouxe a benção completa que os campos rogam há muito...". E a edição da terça-feira dia 6 dava conta da chegada, no dia seguinte, da equipa do Futebol Clube do Porto, "campeões nortenhos", de uma digressão em África, onde tinham amealhado 12 troféus. Guarda-redes: o mítico Barrigana.
O regime estava presente nas notícias, através das suas figuras principais, directa ou indirectamente: o ministro do Interior a inaugurar um lar com o nome da mãe de Salazar e Marcelo Caetano a presidir (dia 5) a uma conferência do Instituto de Ciências Administrativas na Assembleia Nacional (hoje Assembleia da República), conforme notícia destacada na primeira página da edição do dia seguinte no Jornal de Notícias.
[por questões sentimentais, coloquei automaticamente a mensagem às 7:30 da manhã]
Na época, o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias tinham dez/doze páginas e custavam $80 (€0,004 na moeda actual). Em formato broadsheet, os jornais tinham amplo espaço na primeira página para colocarem artigos de opinião e notícias desenvolvidas.
Para o Jornal de Notícias de 5 de Setembro de 1949, a inauguração da Casa da Criança de D. Maria Resgate Salazar [mãe do primeiro-ministro Oliveira Salazar], "seis mortos e dezassete feridos em diversos acidentes de viação" e o incêndio que deflagrou em Chungking, onde morreram mil pessoas e cem mil ficaram sem lar, eram tema da primeira página. Já o Diário de Notícias, num alinhamento perfeito de agenda, destacava a inauguração, no Luso e pelo ministro do Interior, da Casa da Criança, a morte de quatro ocupantes de uma viatura caida na ria de Aveiro e o incêndio de Chugking.
Além disso, o mesmo Diário de Notícias dava grande destaque a duas procissões, a de Nª Sª da Penha (Penha de França, Lisboa) e a do Senhor Jesus dos Navegantes (Paço d'Arcos). E se este jornal de Lisboa dava nota do filme Uma aventura arriscada, a estrear no dia seguinte no Capitólio, enquanto se mantinha em exibição a fita Fantomas contra Fantomas, no Odeón-Palácio, o jornal do Porto noticiava a exibição do filme português Sol e touros, no Batalha, Os piratas do mar das trevas, no Carlos Alberto, o espanhol Santander em chamas, no Águia, Muralhas humanas, no Coliseu, e dois filmes no Olímpia: Alma torturada e Quero ser estrela.
É curioso verificar o peso dos editoriais e dos artigos de fundo da primeira página. No Diário de Notícias, por exemplo, um dos temas era Higiene e educação, onde se escrevia que a Câmara Municipal de Lisboa renovara as disposições respeitantes a ruídos nomeadamente os de oficinas e das buzinas de automóveis. O mesmo jornal incluía uma rubrica intitulada Dois ditadores face a face. Ou seja, para além das notícias do dia, o formato do jornal permitia a inserção de textos de opinião e comentário.
5 de Setembro de 1949, uma segunda-feira, foi chuvosa. Conforme se pode ler na edição do dia seguinte do Jornal de Notícias, A chuva foi saudada por todo o país: "Os lavradores [...] olham para o céu, a ver quando chega mais alguma - que a que veio, muito boa já, ainda não trouxe a benção completa que os campos rogam há muito...". E a edição da terça-feira dia 6 dava conta da chegada, no dia seguinte, da equipa do Futebol Clube do Porto, "campeões nortenhos", de uma digressão em África, onde tinham amealhado 12 troféus. Guarda-redes: o mítico Barrigana.
O regime estava presente nas notícias, através das suas figuras principais, directa ou indirectamente: o ministro do Interior a inaugurar um lar com o nome da mãe de Salazar e Marcelo Caetano a presidir (dia 5) a uma conferência do Instituto de Ciências Administrativas na Assembleia Nacional (hoje Assembleia da República), conforme notícia destacada na primeira página da edição do dia seguinte no Jornal de Notícias.
[por questões sentimentais, coloquei automaticamente a mensagem às 7:30 da manhã]
sábado, 4 de setembro de 2004
TCHAIKOWSKY – A PATÉTICA
Pergunta-se: porque haverá mais de 50 gravações da 6ª sinfonia de Pieter Tchaikowsky? Qual o encanto da Patética?
Após escrever, no Outono de 1892, uma sinfonia em mi bemol, que não concluiria mas parcialmente adaptada ao terceiro concerto para piano, Tchaikowsky, em carta ao seu sobrinho Vladimir Davydov, falava de uma nova sinfonia em projecto, a 6ª ou, como é mais conhecida, a Patética (nome sugerido mais tarde pelo irmão), a sua obra nº 74 em Si menor. Esta peça seria concluída e apresentada ao público em 1893, dirigida pelo próprio compositor em São Petersburgo a 16 de Outubro. A estreia não foi auspiciosa. Mas, três semanas depois, a segunda apresentação, sob a condução de Napravnik, foi um delírio.
Só que, entre as duas datas, Tchaikowsky morria. Uns dizem que foi suicídio, outros que foi a febre da cólera que o vitimou. Pensa-se, porém, que tudo foi despoletado por um grande escândalo, associado à sua homossexualidade. A Patética surge como um requiem, que começa e acaba em adágio, numa elegia à beleza e à paz profunda da morte corporal. A sinfonia acaba de um modo tão sereno que nem damos pela sua conclusão.
[imagem retirada da capa do disco editado pela Deutsche Gramophon, com a Wiener Philharmoniker regida por Herbert von Karajan. O texto, que seguiu a informação contida no desdobrável do disco, foi escrito ouvindo a peça do compositor russo]
Germina Reis de Almeida (1922-1999)
A minha homenagem e saudade, no dia do quinto aniversário do seu desaparecimento. Ela não conhecia Tchaikowsky, mas ficam apresentados, neste momento, um ao outro.
Na imagem aqui ao lado, está acompanhada pelo irmão (cerca de 1930). A fotografia terá sido tirada à la minute, embora com alguma preparação (há um pano atrás dos fotografados), presumivelmente em amador na rua de Camões, no Porto, onde a família morava. Saliento o chapéu dela e o boné dele, os sapatos de solas altas e as meias aprumadas de ambos, o vestido e o casaco à altura do vestido nela e o conjunto de calção, casaco e colete nele, sem esquecer a gravata e o lenço no bolso do casaco dele e o pequeno fio, talvez de ouro, com objecto pendente sobre a roupa dela. Os olhares fixos para a câmara são vagamente tristes, denotando um amadurecimento precoce nos dois irmãos: ele com 10 anos, ela com 8 anos.
Mas a fotografia pode também ter sido feita na rua do Paraíso, rua que faz esquina com a de Camões. Conforme diz Zilda Cardoso, em livro que escreveu, na rubrica chamada serviços ambulantes privados culturais: "Os fotógrafos eram frequentadores regulares da rua do Paraíso. Conservo algumas fotografias tiradas por esses homens talentosos e de certo modo mágicos. [...] tanto quanto posso explicar o inexplicável: o mágico enfiava a cabeça num saco preto que prolongava uma caixa de madeira sobre um tripé. Sentávamo-nos numa cadeira em frente a uma certa distância, e ele mandava-nos olhar o passarinho depois de nos compor a cabeça, as mãos, o tronco. Quando estávamos na posição correcta que ele verificava através da lente da caixa negra, premia um botão na ponta de um fio grosso, um tubo, ligado à caixa de madeira e pronto, já estava: tal como nos antigos perfumadores de cristal! Então podíamo-nos levantar e observar as suas manobras".
As "manobras" eram converter o negativo em positivo, o mergulhar e secar da película, e cortar as fotografias com uma tesoura, prontas para uso. O livro de Zilda Cardoso é uma pequena pérola na evocação de costumes e gostos antigos, ela que morava na rua do Paraíso e percepcionou o mundo a partir da sua janela, porta ou passeio da rua. Do mesmo modo que me deu imenso prazer ler este Verão o livro São Paulo de meus amores, de Afonso Schmidt, no Verão de há dois anos coube a vez a este pequeno livro. Afinal, uma cidade ou uma rua são mundos tão diversificados e comoventes, embora a escalas diferentes.
Leitura: Zilda Cardoso. A rua do Paraíso. Recordações de um lugar portuense (1935-1950). Porto: Campo das Letras
Pergunta-se: porque haverá mais de 50 gravações da 6ª sinfonia de Pieter Tchaikowsky? Qual o encanto da Patética?
Após escrever, no Outono de 1892, uma sinfonia em mi bemol, que não concluiria mas parcialmente adaptada ao terceiro concerto para piano, Tchaikowsky, em carta ao seu sobrinho Vladimir Davydov, falava de uma nova sinfonia em projecto, a 6ª ou, como é mais conhecida, a Patética (nome sugerido mais tarde pelo irmão), a sua obra nº 74 em Si menor. Esta peça seria concluída e apresentada ao público em 1893, dirigida pelo próprio compositor em São Petersburgo a 16 de Outubro. A estreia não foi auspiciosa. Mas, três semanas depois, a segunda apresentação, sob a condução de Napravnik, foi um delírio.
Só que, entre as duas datas, Tchaikowsky morria. Uns dizem que foi suicídio, outros que foi a febre da cólera que o vitimou. Pensa-se, porém, que tudo foi despoletado por um grande escândalo, associado à sua homossexualidade. A Patética surge como um requiem, que começa e acaba em adágio, numa elegia à beleza e à paz profunda da morte corporal. A sinfonia acaba de um modo tão sereno que nem damos pela sua conclusão.
[imagem retirada da capa do disco editado pela Deutsche Gramophon, com a Wiener Philharmoniker regida por Herbert von Karajan. O texto, que seguiu a informação contida no desdobrável do disco, foi escrito ouvindo a peça do compositor russo]
Germina Reis de Almeida (1922-1999)
A minha homenagem e saudade, no dia do quinto aniversário do seu desaparecimento. Ela não conhecia Tchaikowsky, mas ficam apresentados, neste momento, um ao outro.
Na imagem aqui ao lado, está acompanhada pelo irmão (cerca de 1930). A fotografia terá sido tirada à la minute, embora com alguma preparação (há um pano atrás dos fotografados), presumivelmente em amador na rua de Camões, no Porto, onde a família morava. Saliento o chapéu dela e o boné dele, os sapatos de solas altas e as meias aprumadas de ambos, o vestido e o casaco à altura do vestido nela e o conjunto de calção, casaco e colete nele, sem esquecer a gravata e o lenço no bolso do casaco dele e o pequeno fio, talvez de ouro, com objecto pendente sobre a roupa dela. Os olhares fixos para a câmara são vagamente tristes, denotando um amadurecimento precoce nos dois irmãos: ele com 10 anos, ela com 8 anos.
As "manobras" eram converter o negativo em positivo, o mergulhar e secar da película, e cortar as fotografias com uma tesoura, prontas para uso. O livro de Zilda Cardoso é uma pequena pérola na evocação de costumes e gostos antigos, ela que morava na rua do Paraíso e percepcionou o mundo a partir da sua janela, porta ou passeio da rua. Do mesmo modo que me deu imenso prazer ler este Verão o livro São Paulo de meus amores, de Afonso Schmidt, no Verão de há dois anos coube a vez a este pequeno livro. Afinal, uma cidade ou uma rua são mundos tão diversificados e comoventes, embora a escalas diferentes.
Leitura: Zilda Cardoso. A rua do Paraíso. Recordações de um lugar portuense (1935-1950). Porto: Campo das Letras
sexta-feira, 3 de setembro de 2004
THE CLOCK
Anteontem vi (a) Judy Garland. Muito bonita, ela foi(-me) apresentada por João Bénard da Costa. Era o começo do ciclo Uma viagem a Nova Iorque, na Cinemateca Portuguesa.
No filme The Clock (A hora da saudade, 1945), Judy Garland (1922-1969) contracena com Robert Walker, em filme de Vincente Minnelli (1913-1986). A história é um conto de fadas: um soldado (Joe Allen), com licença de 48 horas, chega a Nova Iorque. Encontra uma rapariga, secretária num escritório (Alice Mayberry), e apaixona-se por ela, acabando por casar.
O filme recria locais paradigmáticos de Nova Iorque, em especial a velha Penn Station, que serve de pano de fundo para a paixão. Não há uma só cena natural da cidade; toda a Nova Iorque que se vê no filme foi reconstruída em estúdio. Há planos lindíssimos - com longos diálogos que servem para os dois se conhecerem melhor - no museu, no jardim zoológico, no metropolitano, no restaurante, no carro do leiteiro, num bar nocturno, em casa do leiteiro, no longo travelling do autocarro, na igreja. Destaco a conversa no museu, na base de uma estátua egipcia, em que Alice (Judy Garland) descalça os sapatos e olha longamente o recém-conhecido. Quando passa um vigilante do museu, descem educadamente da base, mas voltam ao seu local de conversa após aquele se afastar. Um objecto serve de troca e de senha nos encontros e desencontros dos dois: um isqueiro.
João Bénard da Costa chama a atenção para a “assombrosa sequência do casamento” e o desapontamento após uma longa correria. Para o director da Cinemateca, “este filme – seguramente um dos mais belos filmes de todos os tempos”, o primeiro não-musical de Minnelli, assenta no “encontro de dois actores igualmente mágicos”.
Três semanas após a estreia do filme, Judy Garland e Vincente Minnelli casavam-se, união que durou seis anos e de que nasceu uma filha, Lizza. A separação do casal marcava já a lenta decomposição moral e física de Judy Garland, a qual se desligaria da MGM em 1951. Vincente Minnelli, apontado como um modernista queer que criou homens delicados nos seus filmes, escondia a sua identidade homossexual, apesar de casado por quatro vezes. A ligação a Judy Garland valeu a esta ter sido injustamente apropriada pela iconografia homossexual, apesar de ela sempre se mostrar muito feminina [John Fiske (2003). "Understanding popular culture". In Will Brooker e Deborah Jermyn (eds.) The audience studies reader. Londres e Nova Iorque: Routledge].
O ciclo Uma viagem a Nova Iorque, na Cinemateca Portuguesa, prolongar-se-á durante o mês de Setembro, dando ênfase a musicais e à temática Nova Iorque. Das fitas que passam no edifício da rua Barata Salgueiro destaco: Breakfast at Tiffanny's (Boneca de luxo, de 1961), de Blake Edwards, com Audrey Hepburn, The docks of New York, de Josef von Sternberg (de 1928), The godfather (O padrinho, de 1972), de Francis Ford Coppola, com Marlon Brando e Al Pacino, West Side Story (Amor sem barreiras, de 1961), de Robert Wise e Jerome Robbins, com Natalie Wood [sou um fã incondicionável dela], Manhattan, de Woody Allen (de 1979), e dois filmes de Martin Scorcese (Taxi driver, de 1976), com Robert de Niro e Jodie Foster, e New York, New York, de 1977), com Robert de Niro e Lizza Minnelli. Cada sessão do ciclo custa apenas €2,5. Imperdível.
Anteontem vi (a) Judy Garland. Muito bonita, ela foi(-me) apresentada por João Bénard da Costa. Era o começo do ciclo Uma viagem a Nova Iorque, na Cinemateca Portuguesa.
No filme The Clock (A hora da saudade, 1945), Judy Garland (1922-1969) contracena com Robert Walker, em filme de Vincente Minnelli (1913-1986). A história é um conto de fadas: um soldado (Joe Allen), com licença de 48 horas, chega a Nova Iorque. Encontra uma rapariga, secretária num escritório (Alice Mayberry), e apaixona-se por ela, acabando por casar.
O filme recria locais paradigmáticos de Nova Iorque, em especial a velha Penn Station, que serve de pano de fundo para a paixão. Não há uma só cena natural da cidade; toda a Nova Iorque que se vê no filme foi reconstruída em estúdio. Há planos lindíssimos - com longos diálogos que servem para os dois se conhecerem melhor - no museu, no jardim zoológico, no metropolitano, no restaurante, no carro do leiteiro, num bar nocturno, em casa do leiteiro, no longo travelling do autocarro, na igreja. Destaco a conversa no museu, na base de uma estátua egipcia, em que Alice (Judy Garland) descalça os sapatos e olha longamente o recém-conhecido. Quando passa um vigilante do museu, descem educadamente da base, mas voltam ao seu local de conversa após aquele se afastar. Um objecto serve de troca e de senha nos encontros e desencontros dos dois: um isqueiro.
João Bénard da Costa chama a atenção para a “assombrosa sequência do casamento” e o desapontamento após uma longa correria. Para o director da Cinemateca, “este filme – seguramente um dos mais belos filmes de todos os tempos”, o primeiro não-musical de Minnelli, assenta no “encontro de dois actores igualmente mágicos”.
Três semanas após a estreia do filme, Judy Garland e Vincente Minnelli casavam-se, união que durou seis anos e de que nasceu uma filha, Lizza. A separação do casal marcava já a lenta decomposição moral e física de Judy Garland, a qual se desligaria da MGM em 1951. Vincente Minnelli, apontado como um modernista queer que criou homens delicados nos seus filmes, escondia a sua identidade homossexual, apesar de casado por quatro vezes. A ligação a Judy Garland valeu a esta ter sido injustamente apropriada pela iconografia homossexual, apesar de ela sempre se mostrar muito feminina [John Fiske (2003). "Understanding popular culture". In Will Brooker e Deborah Jermyn (eds.) The audience studies reader. Londres e Nova Iorque: Routledge].
O ciclo Uma viagem a Nova Iorque, na Cinemateca Portuguesa, prolongar-se-á durante o mês de Setembro, dando ênfase a musicais e à temática Nova Iorque. Das fitas que passam no edifício da rua Barata Salgueiro destaco: Breakfast at Tiffanny's (Boneca de luxo, de 1961), de Blake Edwards, com Audrey Hepburn, The docks of New York, de Josef von Sternberg (de 1928), The godfather (O padrinho, de 1972), de Francis Ford Coppola, com Marlon Brando e Al Pacino, West Side Story (Amor sem barreiras, de 1961), de Robert Wise e Jerome Robbins, com Natalie Wood [sou um fã incondicionável dela], Manhattan, de Woody Allen (de 1979), e dois filmes de Martin Scorcese (Taxi driver, de 1976), com Robert de Niro e Jodie Foster, e New York, New York, de 1977), com Robert de Niro e Lizza Minnelli. Cada sessão do ciclo custa apenas €2,5. Imperdível.
quinta-feira, 2 de setembro de 2004
O CORPO DECORADO
SOBRE TATUAGENS, PIERCINGS E NOVAS FORMAS DE COMUNICAR
A história ocidental da tatuagem remonta às viagens de Cook, em 1769, aos mares do sul, no navio Endeavour. Escreveria ele: “homens e mulheres [do Taiti] pintam o corpo; na sua língua, diz-se tatou”. Ora, se a tatuagem das sociedades tradicionais repete formas ancestrais gravadas numa filiação, as marcas contemporâneas têm um objectivo de individualização e de estética, escreve David Le Breton em Sinais de identidade, editado este ano em português.
Em finais dos anos de 1960, Nova Iorque fora apanhada por uma vaga de grafittis nos muros dos bairros mais pobres, nas paredes e nas carruagens do metro, com assinaturas estilizadas, nomes, algarismos e grafismos, feitos pelos taggers. Depois, da pele da cidade passar-se-ia à pele do corpo. O movimento hippie contribuiria para a renovação da tatuagem: Lyle Tuttle, de San Francisco, tatuou Janis Joplin, Peter Fonda e Joan Baez, artistas muito populares então.
No Reino Unido, nesse período, a tatuagem continuava a ser privilégio de culturas marginais como a dos roqueiros, dos teddy boys (blusões negros) e dos mods (modern people) na Reino Unido. Os mods são os fãs dos Beatles, usam cabelos compridos, vestem-se segundo a moda. Os roqueiros estão na corrente iniciada por Elvis Presley, usam blusões negros, recorrem às tatuagens, circulam em motas.
[a primeira imagem é uma fotografia de Samuel Golay, da AP, saído no Público de 30 de Agosto último. Elaine Davidson é brasileira e vive em Edimburgo. Tem mais de 1900 piercings em todo o corpo. A segunda imagem foi retirada do nono volume da manga Nana].
Cultura punk e recuperação social e estética das marcas desta cultura
No final dos anos 1960, teddy boys e mods desaparecem, uns na corrente dos hippies, outros nos skinheads, estes últimos com uma encenação própria: cabelos cortados rentes, jeans, botas Doc Martens. Neles, tatuagens e piercings são correntes. A reapropriação espectacular da tatuagem nos anos 1970 dá-se ainda na cultura punk. A dissidência destes anuncia-se em músicos, como Lou Reed e os Velvet Underground, Patti Smith, Ramones. Iggy Pop escarifica o braço com vidro partido nos seus concertos, cospe sobre o público e insulta-o. No Reino Unido, a cultura punk enquadra a cólera e as frustrações da juventude inglesa confrontada com o desemprego, as dificuldades económicas e a reestruturação social de Thatcher. O termo punk significa porco, lixo. Ao peace and love dos hippies respondem com hate and war. Os Sex Pistols dar-lhe-ão legitimidade, rejeitando qualquer tipo de autoridade. Eles são praticamente proibidos de actuar no Reino Unido, proibidos de passar na televisão e na rádio. Por seu lado, as operárias das fábricas de discos recusavam-se a prensar os seus discos e fazer as capas e as lojas evitavam distribuir a sua música. Contudo, os Sex Pistols atingem o top do hit-parade em 1977.

O movimento punk é visto como uma dissidência corporal: cabelos penteados em crista de Moicanos com arestas triangulares mantidos com sprays, lacas, e pintados em cores vivas em verde, amarelo e cor-de-laranja. A roupa é usada e a roupa interior é vestida por cima das calças ou vestidas do avesso. Casacos de cabedal cravejados e coleiras de cão ao pescoço fazem parte da indumentária. Os sapatos têm conotação militar. As raparigas apresentam-se muito maquilhadas, com saias muito curtas e meias rasgadas ou calças de plástico. O piercing é o acessório que mais perturba nesta ruptura radical, com alfinetes de bebé e cavilhas colocados nos lábios.
Elementos de decoração corporal: 1) tatuagem (sinal gravado na pele através de injecção com matéria colorida na derme) [imagem: dragão, em fã do F. C. Porto], 2) piercing (furo na pele para colocar um objecto, anel, pequena barra), 3) escarificação (cicatriz trabalhada para desenhar um sinal em profundidade ou relevo na pele), 4) implantes, 5) peeling (retirar a superfície da pele), 6) cutting (inscrição de figuras geométricas ou em relevo).
Se a tatuagem e o piercing se associaram à dissidência nos anos 70 e 80, hoje são referências essenciais da juventude contemporânea, escreve ainda David Le Breton. O movimento punk dissolvera-se na vida quotidiana e entrara no circuito do consumo, com roupas e insígnias vendidas nas grandes lojas. Surgiam estilos mais light: new wave, gótico, grunge, techno. A tatuagem saía da clandestinidade e afastava-se da má imagem.
David Le Breton construiu o seu livro com base em documentação, observação pessoal, encontros informais e entrevistas a mais de 400 pessoas tatuadas, furadas ou escarificadas, resultado de um inquérito de dois anos conduzido na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Marc Bloch de Estrasburgo.
Leitura: David Le Breton (2004). Sinais de identidade. Tatuagens, piercings e outras marcas culturais. Lisboa: Miosótis
COBAIN E REED NA ANTENA 2
Foi à hora do pequeno-almoço, antes de eu pôr no ar a mensagem de hoje. Ouvi uma música de Kurt Cobain tocada por Lou Reed, apresentado como guitarrista [Lou Reed - uma das almas da banda dos Velvet Underground, acima referidos]. Não tenho nada contra a passagem de Lou Reed na Antena 2, mas fiquei admirado. Na realidade, é salutar quebrar fronteiras de vez em quando.
SOBRE TATUAGENS, PIERCINGS E NOVAS FORMAS DE COMUNICAR
A história ocidental da tatuagem remonta às viagens de Cook, em 1769, aos mares do sul, no navio Endeavour. Escreveria ele: “homens e mulheres [do Taiti] pintam o corpo; na sua língua, diz-se tatou”. Ora, se a tatuagem das sociedades tradicionais repete formas ancestrais gravadas numa filiação, as marcas contemporâneas têm um objectivo de individualização e de estética, escreve David Le Breton em Sinais de identidade, editado este ano em português.
Em finais dos anos de 1960, Nova Iorque fora apanhada por uma vaga de grafittis nos muros dos bairros mais pobres, nas paredes e nas carruagens do metro, com assinaturas estilizadas, nomes, algarismos e grafismos, feitos pelos taggers. Depois, da pele da cidade passar-se-ia à pele do corpo. O movimento hippie contribuiria para a renovação da tatuagem: Lyle Tuttle, de San Francisco, tatuou Janis Joplin, Peter Fonda e Joan Baez, artistas muito populares então.
No Reino Unido, nesse período, a tatuagem continuava a ser privilégio de culturas marginais como a dos roqueiros, dos teddy boys (blusões negros) e dos mods (modern people) na Reino Unido. Os mods são os fãs dos Beatles, usam cabelos compridos, vestem-se segundo a moda. Os roqueiros estão na corrente iniciada por Elvis Presley, usam blusões negros, recorrem às tatuagens, circulam em motas.
Cultura punk e recuperação social e estética das marcas desta cultura
No final dos anos 1960, teddy boys e mods desaparecem, uns na corrente dos hippies, outros nos skinheads, estes últimos com uma encenação própria: cabelos cortados rentes, jeans, botas Doc Martens. Neles, tatuagens e piercings são correntes. A reapropriação espectacular da tatuagem nos anos 1970 dá-se ainda na cultura punk. A dissidência destes anuncia-se em músicos, como Lou Reed e os Velvet Underground, Patti Smith, Ramones. Iggy Pop escarifica o braço com vidro partido nos seus concertos, cospe sobre o público e insulta-o. No Reino Unido, a cultura punk enquadra a cólera e as frustrações da juventude inglesa confrontada com o desemprego, as dificuldades económicas e a reestruturação social de Thatcher. O termo punk significa porco, lixo. Ao peace and love dos hippies respondem com hate and war. Os Sex Pistols dar-lhe-ão legitimidade, rejeitando qualquer tipo de autoridade. Eles são praticamente proibidos de actuar no Reino Unido, proibidos de passar na televisão e na rádio. Por seu lado, as operárias das fábricas de discos recusavam-se a prensar os seus discos e fazer as capas e as lojas evitavam distribuir a sua música. Contudo, os Sex Pistols atingem o top do hit-parade em 1977.

O movimento punk é visto como uma dissidência corporal: cabelos penteados em crista de Moicanos com arestas triangulares mantidos com sprays, lacas, e pintados em cores vivas em verde, amarelo e cor-de-laranja. A roupa é usada e a roupa interior é vestida por cima das calças ou vestidas do avesso. Casacos de cabedal cravejados e coleiras de cão ao pescoço fazem parte da indumentária. Os sapatos têm conotação militar. As raparigas apresentam-se muito maquilhadas, com saias muito curtas e meias rasgadas ou calças de plástico. O piercing é o acessório que mais perturba nesta ruptura radical, com alfinetes de bebé e cavilhas colocados nos lábios.
Elementos de decoração corporal: 1) tatuagem (sinal gravado na pele através de injecção com matéria colorida na derme) [imagem: dragão, em fã do F. C. Porto], 2) piercing (furo na pele para colocar um objecto, anel, pequena barra), 3) escarificação (cicatriz trabalhada para desenhar um sinal em profundidade ou relevo na pele), 4) implantes, 5) peeling (retirar a superfície da pele), 6) cutting (inscrição de figuras geométricas ou em relevo).
Se a tatuagem e o piercing se associaram à dissidência nos anos 70 e 80, hoje são referências essenciais da juventude contemporânea, escreve ainda David Le Breton. O movimento punk dissolvera-se na vida quotidiana e entrara no circuito do consumo, com roupas e insígnias vendidas nas grandes lojas. Surgiam estilos mais light: new wave, gótico, grunge, techno. A tatuagem saía da clandestinidade e afastava-se da má imagem.
David Le Breton construiu o seu livro com base em documentação, observação pessoal, encontros informais e entrevistas a mais de 400 pessoas tatuadas, furadas ou escarificadas, resultado de um inquérito de dois anos conduzido na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Marc Bloch de Estrasburgo.
Leitura: David Le Breton (2004). Sinais de identidade. Tatuagens, piercings e outras marcas culturais. Lisboa: Miosótis
COBAIN E REED NA ANTENA 2
Foi à hora do pequeno-almoço, antes de eu pôr no ar a mensagem de hoje. Ouvi uma música de Kurt Cobain tocada por Lou Reed, apresentado como guitarrista [Lou Reed - uma das almas da banda dos Velvet Underground, acima referidos]. Não tenho nada contra a passagem de Lou Reed na Antena 2, mas fiquei admirado. Na realidade, é salutar quebrar fronteiras de vez em quando.
quarta-feira, 1 de setembro de 2004
HISTÓRIA DA TELEVISÃO
Saiu, em 2003 e no mercado espanhol, um texto curto sobre a história da televisão, assinado por Luis Tomás Melgar, e que merece aqui apresentação.
Dos pontos principais da obra de 142 páginas, saliento os seguintes: 1) aspectos técnicos (disco de Nipkow, tubo de raios catódicos, o peso de personalidades como John Logie Baird e Vladimir Zworykin, televisão a cores, por cabo e por satélite, gravação em fita magnética e em vídeo e vídeo digital), 2) relação da televisão com outros media (cinema, fotografia, telefone e rádio), 3) desenvolvimento da televisão em vários países (Alemanha, Reino Unido, Estados Unidos, França) e outros países (México, Argentina, Japão) [a Espanha tem um capítulo próprio. De Portugal, somente a informação que, no tempo da ditadura, como em Espanha e Grécia, o poder político não permitiu a iniciativa privada em televisão].
Melgar, dentro do espaço do seu livro, reflecte a primeira etapa da expansão da televisão no mundo, que baliza entre 1935 e 1945, com difusão na Alemanha, Reino Unido, Estados Unidos, França e Rússia. O autor debruça-se, por exemplo, sobre a experiência alemã. Já no tempo do governo de Hitler, começava num subúrbio de Berlim, a 1 de Janeiro de 1934, uma emissão com dois pequenos programas diários. Logo depois, a 22 de Março de 1935, havia uma nova emissora, a Paul Nipkow, que emitia uma hora três vezes por semana, passando a seis horas semanais algum tempo mais tarde. O sistema era financiado com um imposto de radiodifusão. A 9 de Abril de 1935, os correios alemães inauguravam em Berlim os Fernsehstuben, locais dotados de receptores de televisão e situados em postos dos correios, para que os telespectadores seguissem directamente as emissões. Quando em Agosto de 1936 se celebravam os Jogos Olímpicos de Berlim, a televisão alemã cobriu o acontecimento com 27 câmaras de captação electrónica e equipas móveis.
Para mostrar o peso das tecnologias neste meio, o autor dedica, nos cinco primeiros capítulos, com 66 páginas de texto, apenas quatro páginas a conteúdos (concursos, novelas, transmissões desportivas, teatro televisivo, sitcoms, programas musicais) e três à informação!
No capítulo sobre Espanha – para além do período experimental –, Luis Melgar destaca a escola de Barcelona (descentralização face a Madrid), o período de ouro da TVE (1962-1975), os teleclubes (inspirados na experiência alemã no tempo de Hitler, e que permitiram a lenta democratização no acesso à recepção, obviando à dificuldade de aquisição de aparelho de televisão, pois o poder de compra dos espanhóis era baixo) e referência a diversos realizadores, animadores e outros profissionais da televisão pública. A abertura política e transição democrática (1975) e o fim do monopólio (1989) ocupam também o texto.
O capítulo 7 e último é um levantamento exaustivo das séries que passaram na televisão espanhola, esmagadoramente de origem americana. Algumas delas passaram também em Portugal, e eu vi vários ou muitos dos episódios dessas séries: Bonanza (1959-1963, NBC), Doutor Kildare (1961-1964, NBC), O fugitivo (1963-1965, ABC), O Santo (1967-1969, ITC), Dallas (1978-1979, CBS), Dinastia (1981-1983, ABC), Balada de Hill Street (1981-1986, NBC). Uma outra série, que não vi (e não sei se passou em Portugal), mas que teve muito êxito em Espanha, foi Kung-Fu (1972-1973, ABC), e tinha David Carradine a fazer o papel de monge budista Kwai Chang Caine (no filme de Tarantino Kill Bill, Carradine interpreta um papel de hábil utilizador de espadas japonesas e assassino que a Noiva vingará). Melgar destaca ainda algumas séries espanholas, caso de Médico de família (1995, Telecinco).
Algumas das principais etapas no desenvolvimento da televisão
1) De 22 de Março de 1935 a 7 de Dezembro de 1941, as televisões baseadas no sistema mecânico Nipkow-Baird foram substituídas por sistemas electrónicos,
2) Normas de televisão. Nos Estados Unidos, adoptou-se o sistema de 525 linhas com 30 imagens por segundo, ao passo que no Reino Unido se adoptou o sistema de 425 e a Europa o sistema de 625 linhas (Portugal encontra-se neste grupo),
3) Em 1940, a CBS americana lança a televisão a cores. Seis anos depois, a mesma empresa moderniza o seu sistema de imagem a cores,
4) O sistema de televisão por cabo HBO (Home Box Office) opera desde 1972. Após fusões de várias empresas, a HBO fica como a mais potente das televisões por cabo,
5) Gravação por fita magnética. Em 1956, a Ampex comercializa um sistema de gravação e reprodução de vídeo. Nesse ano, a 30 de Novembro, a CBS oferece, na costa oeste, o programa Douglas Edwards and the news, gravado três horas antes em Nova Iorque.
Luis Tomás Melgar, jornalista, profissional de cinema e autor dramático, foi guionista, realizador e director da TVE durante 30 anos. Presentemente ensina história do cinema e da televisão na Universidade Antonio de Nebrija (Madrid). Num exemplo raro de humildade num investigador, o autor agradece aos seus alunos, por lhe terem dado apontamentos e trabalhos de turma, os quais serviram para consolidar o texto.
Leitura: Luis Tomás Melgar (2003). História de la televisión. Madrid: Acento
Adenda (colocada depois do meio-dia)
Recebi de Francisco Correia (do blogue Melga) uma mensagem que completa o meu post, e que agradeço imenso.
Do seu texto retiro o seguinte: "a série Kung Fu passou em Portugal pelo menos umas 3 vezes no final dos anos 80/princípio dos 90. Lembro-me de passar na RTP 1 no início da tarde e depois ser transmitido num programa da RTP 2, que era o Agora Escolha (um programa de repetições apresentado pela Vera Roquete, em que os telespectadores democraticamente podiam ligar e votar em que programa queriam ver a seguir ao Programa da Repetição base). O Kung Fu foi escrito pelo Bruce Lee, que era para ter o papel principal, mas como os estúdios de Hollywood acharam que ele era demasiado chinês, atribuiram o papel ao David Carradine. Isto foi antes do Bruce Lee ter ficado famoso pelos filmes de Kung Fu".
Saiu, em 2003 e no mercado espanhol, um texto curto sobre a história da televisão, assinado por Luis Tomás Melgar, e que merece aqui apresentação.
Dos pontos principais da obra de 142 páginas, saliento os seguintes: 1) aspectos técnicos (disco de Nipkow, tubo de raios catódicos, o peso de personalidades como John Logie Baird e Vladimir Zworykin, televisão a cores, por cabo e por satélite, gravação em fita magnética e em vídeo e vídeo digital), 2) relação da televisão com outros media (cinema, fotografia, telefone e rádio), 3) desenvolvimento da televisão em vários países (Alemanha, Reino Unido, Estados Unidos, França) e outros países (México, Argentina, Japão) [a Espanha tem um capítulo próprio. De Portugal, somente a informação que, no tempo da ditadura, como em Espanha e Grécia, o poder político não permitiu a iniciativa privada em televisão].
Melgar, dentro do espaço do seu livro, reflecte a primeira etapa da expansão da televisão no mundo, que baliza entre 1935 e 1945, com difusão na Alemanha, Reino Unido, Estados Unidos, França e Rússia. O autor debruça-se, por exemplo, sobre a experiência alemã. Já no tempo do governo de Hitler, começava num subúrbio de Berlim, a 1 de Janeiro de 1934, uma emissão com dois pequenos programas diários. Logo depois, a 22 de Março de 1935, havia uma nova emissora, a Paul Nipkow, que emitia uma hora três vezes por semana, passando a seis horas semanais algum tempo mais tarde. O sistema era financiado com um imposto de radiodifusão. A 9 de Abril de 1935, os correios alemães inauguravam em Berlim os Fernsehstuben, locais dotados de receptores de televisão e situados em postos dos correios, para que os telespectadores seguissem directamente as emissões. Quando em Agosto de 1936 se celebravam os Jogos Olímpicos de Berlim, a televisão alemã cobriu o acontecimento com 27 câmaras de captação electrónica e equipas móveis.
Para mostrar o peso das tecnologias neste meio, o autor dedica, nos cinco primeiros capítulos, com 66 páginas de texto, apenas quatro páginas a conteúdos (concursos, novelas, transmissões desportivas, teatro televisivo, sitcoms, programas musicais) e três à informação!
No capítulo sobre Espanha – para além do período experimental –, Luis Melgar destaca a escola de Barcelona (descentralização face a Madrid), o período de ouro da TVE (1962-1975), os teleclubes (inspirados na experiência alemã no tempo de Hitler, e que permitiram a lenta democratização no acesso à recepção, obviando à dificuldade de aquisição de aparelho de televisão, pois o poder de compra dos espanhóis era baixo) e referência a diversos realizadores, animadores e outros profissionais da televisão pública. A abertura política e transição democrática (1975) e o fim do monopólio (1989) ocupam também o texto.
O capítulo 7 e último é um levantamento exaustivo das séries que passaram na televisão espanhola, esmagadoramente de origem americana. Algumas delas passaram também em Portugal, e eu vi vários ou muitos dos episódios dessas séries: Bonanza (1959-1963, NBC), Doutor Kildare (1961-1964, NBC), O fugitivo (1963-1965, ABC), O Santo (1967-1969, ITC), Dallas (1978-1979, CBS), Dinastia (1981-1983, ABC), Balada de Hill Street (1981-1986, NBC). Uma outra série, que não vi (e não sei se passou em Portugal), mas que teve muito êxito em Espanha, foi Kung-Fu (1972-1973, ABC), e tinha David Carradine a fazer o papel de monge budista Kwai Chang Caine (no filme de Tarantino Kill Bill, Carradine interpreta um papel de hábil utilizador de espadas japonesas e assassino que a Noiva vingará). Melgar destaca ainda algumas séries espanholas, caso de Médico de família (1995, Telecinco).
Algumas das principais etapas no desenvolvimento da televisão
1) De 22 de Março de 1935 a 7 de Dezembro de 1941, as televisões baseadas no sistema mecânico Nipkow-Baird foram substituídas por sistemas electrónicos,
2) Normas de televisão. Nos Estados Unidos, adoptou-se o sistema de 525 linhas com 30 imagens por segundo, ao passo que no Reino Unido se adoptou o sistema de 425 e a Europa o sistema de 625 linhas (Portugal encontra-se neste grupo),
3) Em 1940, a CBS americana lança a televisão a cores. Seis anos depois, a mesma empresa moderniza o seu sistema de imagem a cores,
4) O sistema de televisão por cabo HBO (Home Box Office) opera desde 1972. Após fusões de várias empresas, a HBO fica como a mais potente das televisões por cabo,
5) Gravação por fita magnética. Em 1956, a Ampex comercializa um sistema de gravação e reprodução de vídeo. Nesse ano, a 30 de Novembro, a CBS oferece, na costa oeste, o programa Douglas Edwards and the news, gravado três horas antes em Nova Iorque.
Luis Tomás Melgar, jornalista, profissional de cinema e autor dramático, foi guionista, realizador e director da TVE durante 30 anos. Presentemente ensina história do cinema e da televisão na Universidade Antonio de Nebrija (Madrid). Num exemplo raro de humildade num investigador, o autor agradece aos seus alunos, por lhe terem dado apontamentos e trabalhos de turma, os quais serviram para consolidar o texto.
Leitura: Luis Tomás Melgar (2003). História de la televisión. Madrid: Acento
Adenda (colocada depois do meio-dia)
Recebi de Francisco Correia (do blogue Melga) uma mensagem que completa o meu post, e que agradeço imenso.
Do seu texto retiro o seguinte: "a série Kung Fu passou em Portugal pelo menos umas 3 vezes no final dos anos 80/princípio dos 90. Lembro-me de passar na RTP 1 no início da tarde e depois ser transmitido num programa da RTP 2, que era o Agora Escolha (um programa de repetições apresentado pela Vera Roquete, em que os telespectadores democraticamente podiam ligar e votar em que programa queriam ver a seguir ao Programa da Repetição base). O Kung Fu foi escrito pelo Bruce Lee, que era para ter o papel principal, mas como os estúdios de Hollywood acharam que ele era demasiado chinês, atribuiram o papel ao David Carradine. Isto foi antes do Bruce Lee ter ficado famoso pelos filmes de Kung Fu".
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