Textos de Rogério Santos, com reflexões e atualidade sobre indústrias culturais (imprensa, rádio, televisão, internet, cinema, videojogos, música, livros, centros comerciais) e criativas (museus, exposições, teatro, espetáculos). Na blogosfera desde 2002.
O artigo de Hadley Freeman começa na primeira página, coluna da direita, e continua na segunda página do Guardian. Um grande destaque que a jornalista dá a uma celebridade.
Mas a celebridade não é uma qualquer. É Madonna - e Freeman elenca: roupa interior em forma cónica, professores de ioga, centros de cabala, para fazer uma ronda breve na carreira proustiana da artista. Poucos previriam que o realizador inglês Guy Ritchie entrasse nessa rota: conheceram-se num jantar promovido por Sting, em 1998. Foi um casal inesperado e, por isso, excitante. Pergunta Freeman: juntar um director de culto com uma super-estrela americana, ele menos conhecido que ela e por isso promovido por ela? O casamento de ambos num castelo da Escócia, oito anos atrás, presenciado por outras super-estrelas como George Clooney, Brad Pitt e Donatella Versace, foi um conto de fadas que envolveu todos: ela, ele, e o público leitor das revistas inglesas. Mais tarde, os dois protagonizaram notícias de almoços macrobióticos, máquinas de Pilates e uma casa em Wiltshire, no valor de 9 milhões de libras.
Os ingleses perceberiam que qualquer coisa não funcionava no casal, continua Hadley Freeman, já na página2 do jornal. Não veria Madonna o estilo do homem? Ele que procurou não cometer muitos erros até fazer um filme por ele dirigido e com Madonna no principal papel feminino, numa história em que uma socialite encontra um marinheiro comunista numa praia do Mediterrâneo (Swept away, 2002).
A jornalista vai ao ponto que interessa nas últimas linhas. Ao escrever que os colunistas de celebridades já diziam ontem que o casamento de Madonna já dera o que tinha a dar. E, acutilante, conclui que a separação é uma tragédia para os filhos de ambos (um biológico, Rocco, de oito anos, e outro adoptado, David Banda, rapaz do Malawi adoptado em 2006, para além de Lourdes, a filha de Madonna e de Carlos Leon, treinador pessoal da cantora, com 12 anos) e o fim de uma era para Londres e para as máquinas de alongamento de músculos Pilates.
A enorme ironia da coluna da primeira página encontra uma perfeita oposição na página 13, em artigo escrito por Helen Pidd. O que interessa é o que se ganha com o divórcio, uma vez que a fortuna da cantora está estimada em 300 milhões de libras (à volta de 450 milhões de euros). Há quem diga que Ritchie lucre metade. Mas outros lembram o divórcio de Heather Mills e de Paul McCartney. Ela teve apenas direito a 24,3 milhões de libras de uma fortuna de 285 milhões de libras. Madonna correu a pedir o apoio da advogada de McCartney, Fiona Shackleton. É que a maior parte da fortuna de Madonna foi feita antes dela se casar com o realizador.
Madonna fez 50 anos, Ritchie tem 40. O tablóide Sun noticiara ontem que o casal apenas se comunicava por assistentes pessoais e que Madonna queria divulgar a separação após o final da tournée Sticky and Sweet. Mas, afinal, tudo se conjuga para uma separação no tribunal até ao Natal. Com Ritchie a abandonar filmagens em França e a voar para o Reino Unido a informar os seus pais da separação.
O blogueiro foi citado na edição de ontem do Jornal de Notícias, a propósito das audiências do canal de cabo RTPN. E também apareceu com um testemunho pessoal sobre o Indústrias no blogue Quarta Parede. Obrigado a Dina Margato e Susana Paiva.
O ANIM (Arquivo Nacional de Imagens em Movimento) é uma parcela importante da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema. Criado há dez anos, é ali que se conserva, preserva e restaura a colecção fílmica da Cinemateca.
Prospectar, conservar, restaurar e "facultar o acesso a filmes ou imagens em movimento em qualquer suporte e de qualquer época, formato, género, regime de produção ou proveniência" são das mais nobres funções do ANIM.
A visita incluiu uma passagem pelos cofres onde estão filmes (longas e curtas-metragens),a preservação e restauro e laboratório, além da sala de projecção. Questões como o suporte e a resistência ao tempo e a preservação da cor, as prioridades e os restauros foram ainda tema para a longa conversa entre responsáveis do ANIM e os visitantes, agora que a Cinemateca comemora cinquenta anos de actividade.
Esta é a proposta da Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema, ciclo a começar no dia 17 de Outubro de 2008, pelas 21:30.
Essa será a ocasião para a projecção dos filmes de Manoel de Oliveira Douro, Faina Fluvial (1931), Hulha Branca (1932; mudo), Portugal já faz Automóveis (1938; mudo) e Aniki-Bóbó, com Nascimento Fernandes, Fernanda Matos, Horácio Silva e António Santos (1942).
O 19º Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora aproxima-se, pois decorre entre 24 de Outubro e 9 de Novembro, no Fórum Luís de Camões, na Brandoa.
O tema principal deste ano é a tecnologia e a ficção científica. Haverá lugar para um tributo ao mestre José Garcês e uma homenagem a José Ruy, cuja exposição está patente até Março do próximo ano.
No sítio Jogar no Brincar, encontram-se diversas categorias de jogos: aventura, corrida, pensar, acção, desportivos, agilidade, multiplayer, meninas e crianças.
Estabeleci um link para os jogos de meninas e vesti uma delas, do modo que aqui ficou. Trata-se de um passatempo que implica combinação de modelos de roupa e cores, um exercício simples e divertido.Depois fui a um jogo de voleibol e a outro com o Tom & Jerry.
O meu interesse estava além do jogar, do lado lúdico, instalando-se na quantidade e na qualidade dos jogos, a incorporação portuguesa, a relação entre jogos gratuitos e pagos, o modo como se organizam as comunidades de jogos virtuais e o número total de jogadores e as suas idades.
Já conhecia (e apreciava) os cafés de Saragoça, Bruxelas, Bruges, Paris e Praga, para além dos nossos cafés de Lisboa e Porto. Passei agora a incluir no meu roteiro de preferências os cafés de Viena. O serviço prestado parece melhor do que o das outras cidades, com requinte, embora os modelos de interiores sejam clássicos, atrás dos de Bruges e Saragoça, cidades bem mais pequenas.
A Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos (APAD) tem, no seu renovado sítio, argumentistas.org, para além de conteúdos noticiosos e informações institucionais, a revista trimestral dedicada ao cinema e teatro.
Do primeiro número, Ser Argumentista em Portugal, organizado por Daniel Ribas, destacam-se as entrevistas a Nuno Markl, Rui Vilhena e António Ferreira, uma conversa com Pedro Marta Santos sobre Amália e A Vida Privada de Salazar, artigos de opinião de Tiago R. Santos e Jorge Vaz Nande, um perfil sobre Neil Labute e análise a filmes e séries de televisão.
Quando ouço Mahler na Antena 2, páro de fazer o que quer que seja. Ouço apenas. Estão lá a harpa e as madeiras a ressoarem as vibrações dos instrumentos de corda.
A mostra Impulso exibe a plasticidade do processo criativo na Galeria Emma Thomas, na rua Augusta, 2052, em S. Paulo, no Brasil.
Trata-se de uma colectiva de cadernos de artista organizada por Marcio Renée que traz ao de cima a intimidade da génese criativa de 24 artistas brasileiros.
Faz amanhã uma semana que Vital Moreira, na sua habitual coluna do jornal Público, escreveu sobre pluralismo dos media e concentração, naquilo que é o seu comentário à recente legislação governamental sobre o tema.
O artigo está bem organizado e argumentado. Depois de defender que a legislação se enquadra no pressuposto de obrigação constitucional, entende que a observação do impacto da concentração dos media sobre o pluralismo é uma medida de defesa da garantia do pluralismo de informação e de opinião. Uma terceira ideia apresentada no seu artigo aponta o modo tímido e moderado da nova legislação. Para o jurista, a legislação destaca a concentração na televisão e na rádio e vigia as quotas de audiência e circulação (aqui na imprensa), que não devem ultrapassar o patamar de 50%. Outra ideia desenvolvida no mesmo artigo atribui como adequado a vigilância do pluralismo mediático pela ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social), que deve "supervisionar e fazer cumprir as regras de não concentração, monitorizar o nível das audiências, apreciar as garantias de pluralismo apresentadas pelos media em posição dominante e decidir sobre os «remédios» pertinentes".
No conjunto do artigo, defende a legislação e aponta regras de defesa do pluralismo, tais como a relação entre liberdade de concentração empresarial e liberdade e pluralismo, a atribuição de licenças de rádio e de televisão de sinal aberto dependentes de condições, o sacrifício da liberdade de empresa face aos mecanismos de defesa da concorrência no mercado. O parágrafo final recolhe uma citação do Conselho da Europa, onde se lê que "o pluralismo dos media é essencial para a democracia e para a diversidade cultural".
Outras perspectivas se poderiam levantar no texto, mas ele é omisso. Por exemplo, nada se escreve sobre pluralismo de informação e de opinião na internet. Sabendo que, cada vez mais, há informação não controlada na internet, qual a posição do legislador. Atribui também à ERC a supervisão? E pode haver controlo disso, uma vez que os servidores da internet estão maioritariamente fora do país? Há experiências anteriores: a rádio desde o final da Primeira Guerra Mundial até ao tempo da Guerra Fria, os canais de televisão próximos da fronteira da Alemanha ocidental no tempo do bloco soviético. Não existia controlo, e o pluralismo equivalia-se a propaganda.
Outro assunto não levantado no artigo: as notícias atribuindo um único alvo da legislação, o grupo Renascença, que no somatório das suas estações ultrapassa os 50% de audiência. Segundo as notícias, o legislador garantiu que não se tratava de obrigar o grupo Renascença a alienar estações, mas terá havido acordo em incluir as audiências de estações de rádio locais de modo a baixar as audiências das estações daquele grupo de media. A propósito, a lei da rádio já há muito que não é cumprida: por exemplo, a Media Capital possui um número de estações mais elevado do que o que a legislação indica. Já me disseram ter o dobro das estações permitidas.
Terceiro assunto, não é transparente a existência de um serviço público de Estado (rádio e televisão), pois as empresas privadas são obrigadas a serviço público no caderno de encargos que apresentam quando se candidatam às licenças de frequências. É recorrente ler-se que a televisão pública tem mais fontes de rendimentos que as estações privadas - a taxa paga no recibo da electricidade. Isto retira responsabilidade aos canais de Estado e aos canais privados, numa conversa alimentada ao longo dos anos. A propriedade das frequências hertzianas, historicamente pertencentes aos Estados, foi uma conquista cheia de violência, pois as frequências são ar; e o ar que se respira não se paga. Sem recordar o tempo da atribuição de frequências de onda curta aos amadores de há oitenta anos atrás, basta questionar o porquê da necessidade de até 2012 se fazer o switch off das frequências usadas em tecnologia analógica. Os fabricantes e os proprietários das frequências (os Estados) precisam delas para fabricar novos equipamentos e atribuir novos serviços - ganhar dinheiro. E, seguindo o raciocínio do articulista, se há um serviço público no audivisual porque não na imprensa?
Quarto assunto, e aquele que me parece mais importante: a legislação do pluralismo de informação não elimina a má qualidade do serviço prestado. Basta ver os noticiários de televisão e contar as notícias de crimes, fait-divers e violência, por oposição à informação económica ou política ou cultural, e temer pela fragilidade da legislação. Além de que não há estudos científicos sérios que comprovem que mais empresas de media trazem mais pluralismo (os estudos que conheço melhor - de Paulo Faustino e Luís Oliveira Martins - partem de um quadro político mais liberal que o de Vital Moreira). Basta as empresas mediáticas alinharem por um mesmo pensamento (o lucro acima da importância da informação aos cidadãos) para haver um desequilíbrio. Já desapareceu uma das melhores possibilidades que surgiram nas duas últimas décadas, as rádios locais. Hoje, elas estão vendidas aos grupos económicos que usam as suas frequências para retransmitir programas de emissores com sede em Lisboa. Para além do desaparecimento desse representante mediático do poder local, a relação concentração versus pluralismo nada nos diz sobre os contratos precários e a pressão económica sobre os que trabalham nos media.
Vital Moreira, no seu artigo, move-se na esfera jurídica pura, na organização da estrutura da lei, tecido fundamental para a compreensão de leigos. Mas, a mim, custa-me muito ler uma defesa tão laudativa, sem prever outras variáveis igualmente importantes ou até mais, se calhar.
A Igreja da Misericórdia em Silves foi construída no século XVI, para servir a Santa Casa da Misericórdia. Possui um pórtico manuelino e, no altar-mor, há um painel representando Nossa Senhora da Visitação e mais oito quadros.
Actualmente, a igreja funciona como espaço cultural, nomeadamente para recitais, música clássica e exposições temporárias, como é o caso da actual Olhares vizinhos/Regards voisins, com fotografias de Hassan Nadim, fotógrafo de Marrakech. Esta cidade marroquina e Silves têm um projecto em comum desde há anos. Agora, desde ontem e por uma semana, há diversas actividades que ilustram a cultura marroquina, entre as quais essa exposição.
Do catálogo, retiro o texto de João Manuel Rocha de Sousa sobre a imagem da capa do catálogo: "A porta, a flor, madeira e ornatos de ferro: há muitas em Silves, de uma velha tradição de chamamento. A pequena mão em metal, girando num gonzo, bate conforme o gesto de quem bate".