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quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Elementos para a história da televisão portuguesa

Hoje, ao almoço na Associação 25 de Abril, o general João Bargão dos Santos falou da sua passagem como diretor de informação da RTP em 1974-1975, quando o general António Ramalho Eanes foi presidente da estação pública de televisão. Depois licenciado em medicina, desempenhando cargos nessa área como diretor do Hospital Militar, Bargão dos Santos falou da equipa que esteve com ele na RTP, como José Carlos Vasconcelos, Carlos Cruz e José Manuel Marques, chefe de redação antes de 25 de abril de 1974 e escolhido pelos seus colegas para continuar à frente da redação a seguir ao golpe militar (na fotografia do livro RTP 50 Anos de História, o segundo a contar da esquerda na noite de eleições para a Constituinte, abril de 1975; os outros elementos são Augusto Pinto, Carlos Cruz e Bessa Tavares). No cargo da RTP, Bargão dos Santos sucedeu a Álvaro Guerra.

domingo, 20 de novembro de 2016

Cultura do aperfeiçoamento e história das pessoas

Aparentemente, os dois livros não têm semelhanças mas decidi colocá-los a par na minha biblioteca. A sua leitura deliciou-me, abriu-me horizontes, estimulou-me a escrever e a refletir. José Andrés Gallego (1944) ensinou história contemporânea nas universidades de Oviedo, Léon, Cádiz, ao passo que Robert D. Friedel (1950) ensina história da tecnologia e invenção na universidade de Maryland, não longe de Washington. O primeiro estuda a vida, os espaços vitais, a troca e o fazer, a condição do homem, a relação social entre analfabetos, leitores e sábios, a tolerância, a condição do súbdito, a revolução (e o Antigo Regime), o pensamento e a política nas relações internacionais, a morte (epidemias) e o tempo (relógio). O segundo analisou o arado e o cavalo, a potência (energia), a luz e o tempo, a troca, os quatro elementos (terra, fogo, ar e água), os renovadores (no sentido de aperfeiçoamento) e os engenheiros, artesãos, filósofos e empresários, iluminação, mobilidade, mensagens, ensino (formação), dinâmica, escala e terra e vida.

Neste cruzar de palavras-chave, encontro a razão porque decidi juntar os dois livros, pois espero um profícuo diálogo entre os dois. Portanto, têm muitas semelhanças. Pelas matérias, pelo sentido largo da sua exposição, no primeiro dando manobra aos processos e sistemas, no sentido permitindo a entrega e o reencontro de uma tecnologia e suas aplicações sociais, passando de um grupo ou geração para outro(a), que a melhoram e conseguem fruir mais adequadamente o esforço anterior. Se o primeiro livro atende aos movimentos sociais e lutas (fratricidas, muitas), o segundo alerta para a escassa vantagem de uma tecnologia para o seu inventor, com lucros ganhos por outros (sucessores, concorrentes, empresas). Um e outro apontam para o permanente devir, para a dinâmica social, para a troca entre indivíduos, grupos, sociedades e nações - no tempo e no espaço.

O livro de Andrés Gallego é uma edição renovada de um livro marcante em Espanha e que se debruça sobre o individualismo, a vizinhança, a alimentação e a fome, o interesse e o desinteresse pela cultura e pelas artes, associando geografia, psicologia, biologia e humanidades. O livro de Friedel, finalista no prémio Henri Paolucci / Walter Bagehout de 2008, elucida o contingente do aperfeiçoamento, a sua possibilidade em diversos níveis de ação e indica que a noção de aperfeiçoamento é menos objeto de explicação histórica e mais de observação psicológica. Historia de la Gente trabalha a história da Europa e do continente americano dos séculos XVIII a XX, A Culture of Improvement inicia a sua narrativa na Alta Idade Média e acaba-a em 1974.



Leituras: José Andrés Gallego (2016). Historia de la Gente. Madrid, Ediciones 19, 390 páginas
Robert D. Friedel (2007). A Culture of Improvement. Cambridge, MA, e Londres: The MIT Press, 588 páginas
Imagens das capas: Lorenzo Tiepólo (cerca de 1775), Retrato de tipos populares; Stephen Adam, The Engineers, Museu Glasgow City Council

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Hands-on history: exploring new methodologies for media history research

8—10 February 2016, Geological Society, London (can also be viewed at http://tinyurl.com/HandsOn16)

Confirmed keynote speakers: * Prof. Susan J. Douglas (Professor of Communication Studies, University of Michigan) * Dr. Gerard Alberts (Associate Professor of the History of Mathematics and Computing, University of Amsterdam) “Media Scholars and Amateurs of All Countries and Disciplines, Hands-on!”


* Recent years have witnessed a growing turn to experimental historical research in the history of media technologies. In addition to archival investigation and oral history interviews, historians and enthusiasts are increasingly uncovering histories of technology through hands-on exercises in simulation and re-enactment. Equipment lovingly restored by amateurs, or preserved by national heritage collections, is being placed in the hands of the people who once operated it, provoking a new and rich flood of memories.

The turn to experimental research raises profound methodological questions. The unreliability of narrative memory is well proven, but what do we know about the limits of haptic and tactile memory? To what extent is it possible to elicit useful memories of technological arrays when parts of those arrays are missing or non-functional? How do the owners of old equipment shape the historical narratives which are stimulated by their collections?

Hands-On History is a colloquium designed to facilitate discussion of these issues between historians, users, curators and archivists (amateur and professional) who are making use of and taking part in these historical enquiries. In addition to a series of keynote presentations by leading scholars in the field, the event will also include stimulating workshops on specific focus areas. While the focus of the event will be on media technologies, broadly defined, we invite contributions from other areas of technology and from other academic disciplines. This colloquium aims to make a decisive intervention in this emerging area of academic interest. It is part of the ADAPT project, a European Research Council funded project investigating the history of television production technologies through hands-on simulations. Research conducted by ADAPT will form a key case study for the colloquium.

In order to facilitate productive discussion, numbers will be limited. It is expected that papers presented will form the basis of an edited collection focused on hands-on historical research. We invite proposals for research presentations, panel discussions, and historical equipment demonstrations. Presentations may take whatever format is most appropriate, and we welcome approaches which deviate from the traditional 20 minute lecture.

Please send a brief proposal to nick.hall@rhul.ac.uk by 28 August 2015. * Andreas Fickers and Annie van den Oever, “Experimental Media Archaeology: A Plea for New Directions” 2013


See full cal for papers: http://www.adapttvhistory.org.uk/

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Aldeias históricas

António Ferro criou um concurso da aldeia mais portuguesa de Portugal, em 1938, ganhando Monsanto. A ideia era desenvolver nos portugueses o culto pela tradição. Margarida Acciaiuoli, no seu livro sobre António Ferro. A Vertigem da Palavra (2013: 215) indica que as condições para o concurso implicavam "a conservação das suas características na habitação, no mobiliário e alfaias domésticas, no trajo, nas artes e nas indústrias populares, nas formas de comércio", na preservação da poesia, dos contos, da música, do teatro e das festas. Monsanto venceu, sem unanimidade, face a Orada, Alte e Azinhaga, no Alentejo. Continua Acciaiuoli (2013: 216): "A surpresa de alguns manifesta-se, a iniciativa é criticada, e António Ferro apressa-se então a elucidar os objetivos que tinham presidido a essa sua realização".

Ferro, o intelectual orgânico do Estado Novo, apresentaria Monsanto como "a imagem empolgante da nossa pobreza honrada e limpa" (Acciaiuoli, 2013: 217). O concurso não se repetiu e ficou na memória psicológica a ideia da aldeia mais portuguesa de Portugal aplicada aquela aldeia de Idanha-a-Nova. Hoje, ela faz parte do lote de aldeias históricas, algumas recuperadas recentemente como Castelo Novo (Fundão), parcialmente na segunda fotografia.

 

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

História da imprensa de língua portuguesa

Em inglês, o livro A History of Press in the Portuguese-Speaking Countries (2014), organizado por Jorge Pedro Sousa, Helena Lima, Antonio Hohlfelft e Marialva Barbosa, tem nove capítulos, quatro sobre a imprensa em Portugal, três sobre a imprensa no Brasil, um sobre a imprensa na Galiza e um sobre a imprensa nas antigas colónias portuguesas. Como indica o prefácio, o objectivo do livro é tornar conhecida a génese e evolução da imprensa escrita em português à comunidade internacional.

No caso da imprensa portuguesa, os períodos estudados foram a monarquia, a Primeira República, a Ditadura e o pós-1974. No caso do Brasil, os períodos estudados foram a monarquia e a república. Um terceiro capítulo é dedicado aos jornalistas.

O capítulo sobre a imprensa das antigas colónias, assinado por Antonio Hohlfelft, despertou o meu interesse, dada a falta de bibliografia sobre o tema, como o historiador reconhece (p. 599). Hohlfelft (p. 611) elenca um conjunto de características comuns aos jornais estudados, de que destaco a troca de informação entre os diferentes jornais, com citação e transcrição de artigos, circulação de temas entre os jornais formando uma espécie de opinião pública geral, um jornal proibido era substituído por um novo título com o mesmo editorial e obrigações financeiras e assinantes, por vezes os jornais das colónias opunham-se a empresas coloniais, algumas de capitais ingleses e alemães, julgadas ineficientes, períodos sequenciais de censura, formato tablóide mas permitindo outros tamanhos, exigência inicial da identificação do director e do editor. Antonio Hohlfelft analisou a imprensa colonial em depósito na Biblioteca Municipal do Porto respeitante a Goa, Angola, Cabo Verde, Moçambique, Macau, S. Tomé e Guiné-Bissau.

Leitura: Jorge Pedro Sousa, Helena Lima, Antonio Hohlfelft e Marialva Barbosa (org.) (2014). A History of Press in the Portuguese-Speaking Countries. Ramada e Porto: Media XXI, 692 páginas, 25€  

sábado, 26 de julho de 2008

MUSEUS DE BERLIM


Nos museus da ilha dos museus de Berlim, encontram-se peças de origem mesopotâmica, grega e egípcia e pintura medieval e renascentista. Fruto de coleccionismo, compra e retirada de peças do próprio local. Desde a reunificação alemã, tem havido um grande esforço na recuperação arquitectónica dos edifícios.

terça-feira, 10 de junho de 2008

LIVRO DE JOSÉ MIGUEL SARDICA


Como escrevi em 31 de Maio, Twentieth Century Portugal. A Historical Overview é, como José Miguel Sardica o enuncia, um livro síntese para uma audiência estrangeira (alunos de doutoramento americanos, em 2007) (pp. 10-11).

Igualmente indiquei tratar-se de um livro pedagógico enquanto ilustração do conhecimento sobre o século mais próximo de nós, cuja interpretação o historiador procurou ser equilibrada.


Agora, na Feira do Livro em Lisboa, obtive um curto depoimento do autor sobre a obra.


sábado, 31 de maio de 2008

A MINHA LEITURA DO LIVRO DE JOSÉ MIGUEL SARDICA (TWENTIETH CENTURY PORTUGAL. A HISTORICAL OVERVIEW)


É, como o autor o enuncia, um livro síntese para uma audiência estrangeira (alunos de doutoramento americanos, em 2007) (pp. 10-11). Logo, não há investigação nova mas uma perspectiva de abrangência como o subtítulo indica: historical overview).

Nesse sentido, é um texto muito cartesiano, arrumando a História em períodos bem definidos, com datas-chave – 1910, 1917, 1926, 1933, 1968, 1974, 1976, 1986 (p. 11; p. 100) –, ao identificar dez regimes políticos diferentes desde o absolutismo de 1820 por comparação com a situação nos Estados Unidos e no Reino Unido. Dentro dos três regimes políticos existentes no século XX, José Miguel Sardica distingue três momentos em cada um desses regimes, numa linha historicista hegeliana ou que aceita a perspectiva biológica de nascimento, crescimento/maturação e envelhecimento/morte.

Assim, a Primeira República divide-se em Velha República (1910-1917), com a figura tutelar de Afonso Costa, consulado de Sidónio (1917-1918) e Nova Velha República (1919-1926) (p. 31).

Depois, o Estado Novo: 1933-1945, 1945-1961 e 1961-1974 (p. 65). Aqui, percebem-se o período de Constituição de 1933 ao final da II Guerra Mundial, o período subsequente até ao annus horriblis de 1961 (assalto ao navio Santa Maria por Henrique Galvão, começo da guerra colonial em Angola, invasão e perda dos territórios de Goa, Damão e Diu na Índia, tentativa de golpe de estado pelo próprio ministro da Defesa) e a queda do regime em 1974.

Já o terceiro período é dividido por Sardica em anos da revolução (1974-1976), década da consolidação (1976-1986) e era da integração europeia (depois de 1986) (p. 85).

Livro pedagógico, trata-se, por isso, de um livro muito útil. Autor com uma cultura muito vasta e sólida da História da segunda metade do século XIX, este livro é também uma ilustração do seu conhecimento sobre o século mais próximo de nós. A leitura do século XX é necessariamente complexa, cuja interpretação o historiador procura ser equilibrada. Nomeadamente a análise que faz às críticas à Igreja Católica pelos dirigentes da Primeira República. José Miguel Sardica separa as suas fortes convicções religiosas da análise rigorosa e isenta do historiador. Ele elabora, a meu ver, a forma moderna de escrever História, livre dos preconceitos ideológicos que rodeiam os historiadores identificados com o regime do Estado Novo (a historiografia do tempo de Salazar, que exorcisou a República de 1910) e com a esquerda radical (comunistas e grupo de historiadores em redor de Fernando Rosas, que decretaram o período pós 1926 como de total escuridão e isolamento, em busca da compreensão de acontecimentos como as adesões do país a instituições internacionais como EFTA, ONU e OTAN).

Claro que vale a pena seguir a interpretação feita por Sardica quanto ao salazarismo enquanto regime autoritário mas não fascista (pp. 57-60), um dos pontos que levantará, certamente, mais polémica. Outro ponto passível de discussão é o das leituras do espírito de Abril (de 1974), em que Mário Soares é o Kerenski da revolução portuguesa e Álvaro Cunhal o Lenine português (p. 82). E a dimensão das páginas de texto - doze em 93 - dedicadas à compreensão do salazarismo, embora seja certo que Salazar foi a figura que mais tempo ocupou a governação do país no século passado (pp. 47-63).


Num texto sintético, ficam assinaladas as grandes estruturas mas escasseiam os pormenores ou as áreas que não as da pura interpretação dos factos. À história política e seus principais acontecimentos e agentes sociais faltam a história económica e cultural. E, igualmente, a história dos media, que o leitor gostaria de ver contemplada. Quem sabe se vai haver um esforço futuro nesse sentido?

O texto agora publicado pela Universidade Católica Editora é completado com acrónimos (importantes para um leitor estrangeiro compreender as siglas de partidos políticos ou instituições portuguesas), uma cronologia (curiosamente começada em 1889, com o nascimento de Salazar, futuro ditador nacional, e a morte do rei Luís I, e concluída com o tratado europeu de Lisboa, em 2007) e curtas biografias de 17 principais figuras políticas nacionais ao longo do século.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

PORTUGAL DO SÉCULO VINTE


Chegou hoje às livrarias o livro de José Miguel Sardica, Twentieth Century Portugal (a Historical Overview), uma edição da Universidade Católica Editora.

Professor de História Contemporânea, História do Jornalismo e da Opinião e História Comparativa da Europa na Universidade Católica Portuguesa, onde é actualmente Director-Adjunto da Faculdade de Ciências Humanas, o livro, originalmente a sua lição proferida na "Summer School" organizada por aquela faculdade em Julho do ano passado, tem vinte capítulos (e 148 páginas no total do texto).

Porque chegado hoje aos escaparates das livrarias, ainda não tive tempo de o ler. Por isso, fica o primeiro parágrafo:


  • Providing an overview of Portugal's 20th century historical evolution and reshaping is a challenging task, not only because of the time span involved - one hundred years of the most recent, vivid and controversial history - but also because of the variety of political experiences that Portugal endured in those years, each aiming at the establishment of one given social and institutional framework. For such a long-established country - one of oldest in Europe dating back more than eight centuries - the last hundred years were among the most vertigious and important in its history. It was a time of speedy and often contradictory change that set a backward and underdeveloped nation on the road towards the present national economic development, political democracy and free society, enabling Portugal to become, despite structural weaknesses, an actively participating member of one of the most advanced regions in the world.
Dos vários capítulos do livro, retiro alguns: queda da velha monarquia, cultura republicana, questão religiosa, morte do liberalismo português e queda da Primeira República, ditadura militar e ascensão de Salazar, essência ideológica e definição histórica do salazarismo, guerra colonial e ventos de mudança dos anos 1960, Primavera de Caetano, leituras do espírito de Abril (de 1974), entrada na Europa e Portugal moderno. O livro contém ainda curtas biografias dos principais dirigentes políticos do país nesse século importante para Portugal que foi o XX. É, com certeza, uma leitura obrigatória para os próximos tempos.

sábado, 8 de março de 2008

A CHEGADA DO REI AO BRASIL


Foi há duzentos anos que a família real portuguesa desembarcou no Rio de Janeiro: 8 de Março de 1808 [antes, no dia 22 de Janeiro, chegara ao Brasil, a São Salvador da Baí­a].

Em dia internacional da Mulher e da manifestação dos professores contra a ministra da Educação (os autocarros passam na Avenida da República, em Lisboa, um enorme comboio a sair do túnel do Campo Pequeno), é útil recordar essa história de Portugal e do Brasil (agradeço a dica a Fernando Paulino, amigo de Brasília).

Parece que todos os brasileiros acham que a existência do seu país se deve a Napoleão Bonaparte. Em 1806, o imperador francês havia decretado o bloqueio continental a Inglaterra. Portugal resiste, parece que cede mas assina um acordo secreto com Londres. Napoleão lança um ultimato e invade o nosso pequeno país. O exército do general Junot, com 25000 homens, foi suficiente para o regente e futuro rei D. João VI decidir refugiar-se no Brasil. D. João chegava ao Rio de Janeiro faz hoje duzentos anos.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

MEMÓRIA EM REDE

A Associação Museu da Pessoa, com sede na Universidade do Minho, em Braga, está a organizar o Portugal Memória em Rede - II Congresso Nacional de História Oral, nos dias 25, 26 e 27 de Outubro de 2007, na Casa das Artes de Arcos de Valdevez.

O principal objectivo da iniciativa é divulgar, reflectir e agir em torno da História Oral e da Memória. O Congresso pretende, para além da apresentação de trabalhos realizados, a criação de grupos de trabalho, mediante áreas de interesse comuns.

Para saber mais, clicar em
Memória em Rede.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

O RESSENTIMENTO EM MARC FERRO


Durante a licenciatura, há muitos anos atrás, eu aprendi a saber o valor de Marc Ferro, em especial devido à revista Les Annales (Économies, Sociétés, Civilisations), de que foi co-director. Os meus professores seguiam muito a escola francesa e ensinavam Marc Ferro e Fernand Braudel, por exemplo.

Nascido em 1924, Marc Ferro interessou-se desde cedo pela História. Ensinou na École Polytechnique, foi director de estudos no IMSECO (Institut du Monde Soviétique et de l’Europe Central e Oriental) e esteve na Argélia, onde apoiou os movimentos de solidariedade para com aquele país quando ainda estava sob a colonização francesa. Eis duas áreas de grande reflexão do historiador: a revolução russa e o colonialismo. A que juntaria a paixão pelo cinema.

Além de historiador, Ferro é um grande contador de histórias. Hoje, no final de uma tarde muito quente, prendeu a audiência da Gulbenkian durante mais de uma hora, falando de improviso (consultou notas de um papel somente duas vezes, e já quase no final, para se certificar que esgotara o repertório). O tema: ressentimento na história. O qual foi exposto com muito brilhantismo e graça, despertando frequentes risos entre os ouvintes quando usava metáforas ou trocadilhos.

Para ele, há dois tipos de ressentimento: o do indivíduo e o da sociedade. Misturando-se os dois, podem surgir movimentos poderosos. O ressentimento é uma memória que atravessa gerações e não possui ideologia. Por um lado, é uma cólera, uma humilhação - a do que perde. Por outro lado, pode representar uma renovação, uma recuperação de valores - a exaltação que conduz a uma guerra. Mas também existe uma representação benigna.

Um dos ressentimentos históricos a que concedeu a primazia foi o do islamismo. E, se começou por recordar os atentados de Madrid em 2004, lembrou também a relação difícil entre Espanha e Marrocos, que dura há séculos, ou mais especialmente desde 1492, quando os árabes (mouros) foram expulsos de Espanha. Os islamitas radicais dizem que islamizar é modernizar. Não é o movimento da modernidade a entrar no islão, mas este a penetrar no mundo contemporâneo. Para alguns islamistas, o passado é mais presente do que o próprio presente. Daí referir o mundo esquizofrénico da cultura do islão, metido entre duas vontades: o ressentimento (contra os americanos, contra os espanhóis, por exemplo) e a sharia. Além da posição que tem a ver com o passado: não podem ser escravos daqueles que foram seus escravos (na Península Ibérica).

Outro ressentimento a que deu primazia foi o que originou a União Soviética. O irmão de Lenine fora assassinado, o que levou este a assumir uma vontade transformada em doutrina. E Marc Ferro estabeleceu longas homologias com a França da revolução de 1789 e as posições de Robespierre e Marat.

O orador falaria de duas fases de uma revolução, a primeira das quais a luta contra a humilhação, onde se despertam valores, esperança, solidariedade. É a luta dos humilhados individuais (por causa dos impostos, da terra agrícola que não se tem, das diferenças de riqueza). A que se sucede a segunda fase, quando os indivíduos concluem que a esperança depositada nos momentos iniciais não é concretizável. Nasce uma terrível cólera, com uma violência de massa. A dimensão é, por conseguinte, ampliada e os resultados aumentados, com destruição de valores e pessoas de outras classes sociais.

Frequentemente, os ressentimentos estão escondidos, larvam no interior das sociedades. Diria eu, tratam-se de demónios adormecidos, células adormecidas como se definiram os grupos de islamistas que perpetraram atentados com bombas nos anos mais recentes. Quase a concluir, Ferro enunciou outros agentes conservadores dos ressentimentos: os historiadores e a escola, que perpetuam determinados sentimentos.

segunda-feira, 19 de março de 2007

CONFERÊNCIA SOBRE JORNALISMO


No próximo dia 21, pelas 18:30, Carla Baptista (Universidade Nova de Lisboa) dará uma conferência na Hemeroteca Municipal de Lisboa, à rua de S. Pedro de Alcântara, 3, em Lisboa. Tema: "Contexto jornalístico português em 1957", aquando da visita da rainha inglesa Isabel II a Portugal.


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

ELEMENTOS PARA A HISTÓRIA DOS MEDIA EM PORTUGAL - II


[continuação do postal de 8 de Fevereiro]

Dos pontos de vista tecnológico e social, reforçam-se ideias expressas mais atrás. Dá-se uma lenta transição dos media analógicos para os digitais, seguindo duas vias, a dos migrantes para o digital (telefones celulares, jornais digitais) e a dos nado-digitais (videojogos, internet), na feliz designação de Gustavo Cardoso (2002). Daí o êxito do email, do Messenger (MSN), das redes Orkut, Multiply e hi-5 e do YouTube como elementos distintivos da geração mais jovem. Registam-se ainda outras consolidações e alterações tecnológicas, tais como a massificação de telemóveis, o uso de registos mp3 e a transmissão por streaming (Quadro), com repercussão no mercado total dos media.

Assiste-se, assim, a movimentos contraditórios. Se, por um lado, os jornais pagos baixam de circulação, crescem os jornais gratuitos, orientados para públicos urbanos e que frequentam os transportes públicos. Por outro lado, apesar de se julgar que a internet ocupa mais tempo livre dos jovens (sistemas de mensagens, pesquisa através do Google, vídeos do YouTube), a televisão alarga o seu horário nobre a novelas destinadas a um público-alvo jovem (Morangos com açúcar, Floribella e Doce fugitiva) e canais (SIC Radical).



Numa outra área, a da regulação, houve preparação de alterações no começo do novo século, culminando com a criação da ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social), em Novembro de 2005. Entre outras medidas, a ERC visa assegurar o livre exercício do direito à informação, estar atenta ao equilíbrio entre concentração e pluralismo (ver Martins, 2006; Doyle, 2002), zelar pela independência das entidades de comunicação social e assegurar o funcionamento dos mercados audiovisuais.

Finalmente, o período em análise trouxe uma reflexão sobre os media, consubstanciada na criação de associações e de publicações. Quanto a associações, regista-se aqui a existência de três delas, o CIMJ (Centro de Investigação Media e Jornalismo), a SOPCOM (Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação), ambas criadas em 1997 e a que pertencem investigadores ligados às universidades, e o Obercom (Observatório da Comunicação), surgido em 2000, cujos sócios principais são empresas ligadas aos media. Em termos de publicações, oriundas de centros de investigação e de universidades onde o ensino de comunicação e jornalismo é proeminente, nasceram revistas de muita qualidade (Media & Jornalismo, do CIMJ, Comunicação e Sociedade, da Universidade do Minho, Trajectos, do ISCTE, Caleidoscópio, da Universidade Lusófona, Cultura & Comunicação, da Universidade Católica). Por seu turno, as editoras também criaram colecções de comunicação e jornalismo, casos da MinervaCoimbra, Livros Horizonte (associada ao CIMJ) e Porto Editora.

Bibliografia
Cardoso, Gustavo (2002). “Novas políticas, «novos media»? Para um serviço público de internet”. In Maria Carrilho, Gustavo Cardoso e Rita Espanha (org.) Novos media, novas políticas? Oeiras: Celta
Cardoso, Gustavo, e Sandro Mendonça (2006). Dinâmicas concorrenciais no mercado televisivo português entre 1999 e 2006. Lisboa: Obercom (
http://www.obercom.pt/content/246.np3, acedido em 1 de Outubro de 2006)
Correia, Fernando (2006). Jornalismo, grupos económicos e democracia. Lisboa: Caminho
Doyle, Gillian (2002). Media ownership. The economics and politics of convergence and concentration in the UK and European media. Londres, Thousand Oaks e Nova Deli: Sage
Faustino, Paulo (2004). A imprensa em Portugal. Transformações e tendências. Lisboa: MediaXXI
Faustino, Paulo (2006) (coord.). O alargamento da União Europeia e os media. Impactos no sector e nas identidades locais. Lisboa: MediaXXI
Fidalgo, Joaquim (2003). “De que é que se fala quando se fala em serviço público de televisão”?. In Manuel Pinto (coord.), Helena Sousa, Joaquim Fidalgo, Helena Gonçalves, Felisbela Lopes, Helena Pires e Luís António Santos (2003). Televisão e cidadania. Contributos para o debate sobre o serviço público. Braga: Instituto de Ciências Sociais
Martins, Luís Oliveira (2006). Mercados televisivos europeus. Causas e efeitos das novas formas de organização empresarial. Porto: Porto Editora
Pinto, Manuel (coord.), Helena Sousa, Joaquim Fidalgo, Helena Gonçalves, Felisbela Lopes, Helena Pires e Sandra Marinho (2000). A comunicação e os media em Portugal (1995-1999. Cronologias e leituras de tendências. Braga: Instituto de Ciências Sociais
Santos, Rogério (2002). “Dez anos de história da SIC (1992-2002). Observatório, 6: 93-105

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

ELEMENTOS PARA A HISTÓRIA DOS MEDIA EM PORTUGAL - I

Nos anos mais recentes, que podemos identificar como os últimos 15 anos, ocorreram diversas mutações nos media. Assim, as próximas linhas dão conta de alterações empresariais, sociais-profissionais, tecnológicas e político-económicas, com repercussão ainda na esfera da investigação universitária.

Na imprensa, a década de 1990 foi basilar para determinar o panorama actual deste meio de comunicação. Assim, ao lançamento do Público (1990) seguiu-se uma transformação profunda do Diário de Notícias (1992), dois jornais de qualidade que competem por públicos-alvo próximos. No campo das revistas (newsmagazines), o aparecimento da Visão (com origem no semanário Jornal), em 1993, preparou terreno para outras publicações que operam no mesmo mercado, Focus (1999) e Sábado (2003), embora sem desafiarem a liderança no mercado específico. Na área do jornalismo sensacionalista, coberta até aí pelo semanário Tal e Qual, nasceu um diário, o 24 Horas (1998).

As transformações nos jornais e revistas, meio totalmente privado (após a nacionalização e desnacionalização de publicações como resultado da mudança de regime político em 1974), seriam complementadas com um novo fenómeno, o da imprensa gratuita, que conhece uma grande expansão a partir do lançamento do Metro (2005), mercado anteriormente ocupado pelo jornal Destak. Com um estilo mais leve em termos de conteúdos e distribuído junto a transportes públicos urbanos de grande densidade de ocupação, estes jornais conquistariam rapidamente uma boa quota de mercado, podendo ter sido responsável pela queda contínua de vendas dos jornais pagos.

Contudo, estima-se que os jornais gratuitos atinjam grupos populacionais não habituados a ler jornais mas a obter a informação primordial através da televisão (Faustino, 2006), num momento em que se fala em grupos e concentração dos media (Pinto, 2000; Silva, 2002; Faustino, 2004; Martins, 2006; Correia, 2006) e se anunciam iniciativas parlamentares no sentido de enquadrar essa questão. As alterações quanto a volumes de audiência/tiragem reflectem-se nos investimentos publicitários, muito concentrados na televisão, como demonstram os estudos do Obercom e da Marktest. Nos anos mais recentes, surgiram actividades ligadas a blogues e ao jornalismo-cidadão, que contestam estruturas e rotinas produtivas do jornalismo clássico.

Um marco significativo nos últimos 15 anos foi o nascimento da televisão comercial (SIC em Outubro de 1992 e TVI em Fevereiro de 1993). Em 1995, escassos três anos depois do arranque, a SIC retirava à RTP (canal público) a liderança em termos de audiência, durante o período nobre da emissão, e que se alargaria ao resto do dia nos anos seguintes (Santos, 2002). A esta posição ganhadora da SIC iria responder a TVI, o outro canal comercial, que alcançara a posição de desafiante a partir de 2000 (Cardoso e Mendonça, 2006: 7), reservando-se para a RTP o lugar de resiliente.

O alcandorar-se ao lugar de ganhador por parte dos canais comerciais assentou em quatro vectores: 1) informação (de qualidade na SIC, que foi perdendo ao longo dos anos, tablóide na TVI, com sensacionalismo e muitas notícias sobre crimes), 2) novelas (em português do Brasil na SIC, em português de Portugal na TVI), 3) programação popular (e reality-shows na TVI), 4) “parasitagem” das revistas de televisão e cor-de-rosa às personagens dos programas populares (fofocas sobre vidas sentimentais, casamentos, divórcios e nascimentos de crianças), representando uma segunda narrativa face aos programas e com repercussão positiva na popularidade destes (audiências).

Há um outro ângulo a registar. No relançamento do debate do serviço público de televisão em 2002, Joaquim Fidalgo (2003: 14-15) considera o surgimento da televisão comercial (em Portugal e na Europa) como produto directo de factores políticos, sociais e económicos, em que inclui a desregulação do sector das telecomunicações e a mudança de paradigma quanto à concepção da televisão: da esfera social e cultural para o domínio económico e político.

Ainda na televisão, nasceram novas plataformas de transmissão, da qual a mais poderosa é a televisão por cabo (com redução do impacto da televisão por satélite, além da promessa ainda não cumprida do arranque da televisão digital por via terrestre). Pertencendo ao grupo PT, a TV Cabo apareceu em 1994 e tem exercido uma posição hegemónica, a que se seguem empresas como a Bragatel, Cabovisão, Pluricanal e TVTEL, algumas em situação financeira complicada. A televisão por cabo é responsável já por cerca de 15% da audiência média em televisão. Por seu lado, a televisão por satélite serviu para o nascimento de canais internacionais pertencentes aos grupos de televisão já existentes, casos da RTP e da SIC. Os mesmos operadores generalistas entrariam também na plataforma do cabo: SIC (Notícias, Radical, Comédia) e RTP (RTPN).

[continua]