Mostrar mensagens com a etiqueta Jornalismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jornalismo. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 6 de julho de 2018

A imprensa católica açoriana segundo José Paulo Machado

Hoje, na Universidade Católica Portuguesa, defendeu tese de doutoramento José Paulo Machado, com o título A Imprensa Católica nos Açores: do Início do Século XX ao Concílio Plenário Português.

Da introdução, retiro uma questão que segue o título da tese: como se organizaram os media religiosos nos Açores nos três primeiros decénios do século XX, atendendo a escassos recursos financeiros e humanos? Por diversas vezes, os jornalistas desses meios apelaram à ajuda. Ou, como escreveu o aluno: "colocavam-se junto dos seus leitores de mão estendida" (p. 46). No todo, a tese procurou saber as causas que levaram a igreja a abraçar a imprensa, a imprensa nos Açores no início do século XX e as principais temáticas dos editoriais católicos açorianos.

O padre e agora doutor José Paulo Machado estudou 17 periódicos (jornais nacionalistas, boletins paroquiais, jornais associados ao Centro Católico Português, imprensa diarista de Angra do Heroísmo e revistas de foro cultural) num total de 5132 jornais, focando a sua análise empírica nos editoriais ("entrevista", aspas colocadas por mim, âmbitos religioso, político, locais-regionais e sociais-económicos, sobre o ensino, patrióticos, sobre a imprensa, âmbito literário-científico-cultural e sobre política internacional).

Como um resultado da investigação, em antecipação ao Concílio Plenário Português (1926), a reunião dos jornalistas católicos açorianos (1923) delineou, como grande linha de força, a unidade temática da imprensa católica insular. Seguindo esta orientação, com a extinção ou persistência dos periódicos estudados, seria criado o órgão oficial da Diocese, A União, em consonância com as deliberações do Concílio Plenário Português de 1926. Isto numa altura de grandes mudanças políticas (ditadura e Estado Novo) e situação económica (preço crescente do papel de jornal).

Além do trabalho escrito e apresentação oral do mesmo, a arguição tem um papel importante no valor da prova pública. Aqui, a leitura atenta e crítica de Alexandre Manuel Leite e Maria Inácia Rezola, bem como os contributos dos meus colegas da Universidade Católica, alargou muito a perspetiva do texto, num verdadeiro contributo científico. Enquanto orientador desta tese de doutoramento, senti-me gratificado pelo rigor das intervenções. E manifesto ainda a minha alegria pelo presidente do júri ser o padre José Tolentino Mendonça, vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa e muito recentemente nomeado arcebispo e com os cargos de arquivista do Arquivo Secreto do Vaticano e bibliotecário da Biblioteca Vaticana, a assumir no começo de setembro de 2018.


[da esquerda para a direita: Alexandre Manuel Leite, Universidade Autónoma de Lisboa, José Miguel Sardica, Universidade Católica Portuguesa, Nelson Ribeiro, Universidade Católica Portuguesa, José Tolentino Mendonça, Universidade Católica Portuguesa, José Paulo Machado, Rogério Santos, Universidade Católica Portuguesa, e Maria Inácia Rezola, Escola Superior de Comunicação Social]

Em último, fica aqui um apontamento em vídeo do próprio José Paulo Machado.

 

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Um jornalista em Dachau

Dele posso escrever que se trata de um romancista, ou de um contista. Talvez melhor: romancista de livro policial. Os seus textos têm narrativa, suspense, contam a história com princípio e fim, agregam personagens múltiplos, mostram alegrias e tristezas nos percursos dos biografados, juntam a densidade do que conta à leveza como escreve. Ao excelente escritor junto o ótimo jornalista. Cada novo texto dá um novo e enorme prazer na sua leitura.

Escrevo, claro, de Gonçalo Pereira Rosa. O seu mais novo texto, agora publicado na revista Jornalismo e Jornalistas, nº 66 (janeiro-março de 2018), O Prisioneiro 94250 de Dachau era um Jornalista Português, conta a história de Agostinho das Neves, anarquista, preso em quatro países e, entre outros, correspondente do Jornal de Notícias.

Veja-se o modo simultaneamente elegante e científico com que começa (e um pouco à frente continua) o seu texto: "Há duas maneiras de narrar as vicissitudes de um homem. Uma, burocrática e impessoal, acompanha o rasto documental que qualquer ser humano deixa no seu encalço desde o momento em que vem ao mundo. [...] A segunda maneira de conhecer a vida de um homem é deixá-lo falar. Livremente".

O jornalista aqui apresentado nasceu em 1905, foi jornalista e tipógrafo e deu também pelo nome de José Neves. Em 1945, no final da II Guerra Mundial, era entrevistado em Paris por Fernando Teixeira (Diário Popular). Este descreveu aquele com uma criança perturbada, de olhos pequenos por detrás dos óculos. José Agostinho das Neves, anarquista, fizera explodir bombas artesanais perto da sede da Confederação Geral do Trabalho (CGT), à Calçada do Combro, no final de 1921. Esta ação fê-lo perder uma vista, passando a usar um olho de vidro. Foi preso, libertado, mas voltaria a ser preso em 1928, deportado para a Guiné, de onde fugiu para o Senegal. Em 1935, já em Espanha, era preso e algemado na fronteira com a França. Aí, teria estabelecido contactos com anarquistas franceses, editou o boletim Novos Horizontes e o jornal A Liberdade. Através dele, a CGT portuguesa manteve ligações ao exterior. Já em 1940, era denunciado como oposicionista ao governo de Vichy e preso e transferido para um campo de concentração, onde fez trabalho rural e de correio. Por dominar quatro línguas, entrou para os serviços de censura do campo. No final da guerra, com os alemães a perderem posições, ele e outros prisioneiros andariam num comboio à deriva para chegar à Alemanha. Uns foram assassinados, outros atingidos pela aviação aliada. A chegada a Dachau foi marcante na sua violência. Os americanos aproximavam-se do campo de concentração e o aventureiro Neves chegava a outro momento da sua vida. Sem poder regressar a Portugal, o jornalista ficou em França e começou a trabalhar na rádio pública do país. Ele escreveu sobre temas culturais e apoiou os homens de letras portugueses em Paris. Em 1951, assinaria uma declaração de retração e de recusa de atividade política, tendo regressado a Portugal e começado a colaborar com o jornal República. Depois, voltaria a Paris, a chefiar a redação de A Voz de Portugal, embora as polícias  de segurança em Portugal e em França continuassem a acompanhar os seus passos. Em 1974, seria o primeiro a entrevistar Mário Soares em Paris, a que se seguiu Mitterrand. Ele morreria em novembro do ano da liberdade.

Gonçalo Pereira Rosa é um brilhante contador de histórias (e jornalista de mérito). Com esta e outras histórias que dele conhecemos, faltam duas coisas: a primeira, já aqui o escrevi, é uma história do Diário Popular. A segunda é que ele pode dar um muito bom argumentista: nas suas histórias, há enredos, personagens de sucesso, mesmo que presos em quatro países, pelo colorido e pelos cheiros das aventuras e dos lugares por onde andou a personagem.

A última história que o jornalista e escritor está a desenvolver na sua página do Facebook, como se fosse folhetim, é "o que se faz quando se encontra um documento que afiança que um vulto das Letras portuguesas do século XX «colaborou ativamente com esta polícia»"? Alguém alvitrou o nome presente no título de uma Fundação, mas eu aguardo a resolução do enigma.

sábado, 14 de abril de 2018

Direito à discordância


Ao ler notícias sobre o jornalismo na Hungria e o modo como o governo da Síria mata jornalistas, recupero o cartune do El Pais (12 de fevereiro de 2006). A crítica é um direito.

sábado, 3 de junho de 2017

O inspetor da PIDE que morreu duas vezes e outras histórias

O Inspector da PIDE que Morreu Duas Vezes é o novo livro de Gonçalo Pereira Rosa, em edição da Planeta. Contém episódios do jornalismo português do século XX, continuando o que publicou em 2015 com Parem as Máquinas!, apoiado em pesquisa nos acervos da censura, da polícia política e das coleções de jornais.

O autor do livro - nas livrarias já no começo da próxima semana - organiza uma sessão de autógrafos na Feira do Livro de Lisboa no domingo, dia 11, pelas 16:00 (Pavilhão Planeta, no início da terceira fila da Feira para quem está de frente para a estátua do Marquês de Pombal).

domingo, 14 de maio de 2017

Jornalismo iconográfico em livro de Jorge Pedro Sousa



Veja! Nas Origens do Jornalismo Iconográfico em Portugal: um Contributo para uma História das Revistas Portuguesas (1835-1914), livro de Jorge Pedro Sousa e editado pela Media XXI, foi ontem lançado na Universidade Fernando Pessoa (Porto) [ver abaixo depoimento do autor em vídeo].

Na mesa, para além do autor, de Ricardo Jorge Pinto, o editor João Paulo Faustino, João Lourival da Silva, a apresentação principal coube a Helena Lima (Universidade do Porto). Para esta investigadora, a obra agora conhecida é densa e resulta de trabalho meticuloso e sistemático, referindo que o tema - história do jornalismo - não é uma área moderna e popular. Ela destacou ainda o prazer da leitura da obra, pois constitui uma aprendizagem da história dos media e, por isso, útil para os investigadores. Ao olhar para as sucessivas imagens que acompanham o livro, torna-se possível ver a transformação do jornalismo e dos seus públicos, que evoluíram de um público de elite para uma massificação de leitores. Uma das vantagens expostas pela imprensa ilustrada é que mesmo os que não sabem ler conseguem entender o significado das imagens.


Como objetivos principais do livro, Jorge Pedro Sousa destaca: elaborar um inventário das principais revistas ilustradas portuguesas (entre 1835, ano da primeira revista, e 1914, começo da I Guerra Mundial), papel das revistas ilustradas na transformação do jornalismo em Portugal na viragem do século XIX para o seguinte, identificar e mapear o contributo de fotógrafos e outros profissionais ligados à ilustração (com um valioso apêndice com os nomes e funções), compreender que imagem as revistas ilustradas deram da sociedade do seu tempo e que valores, ver semelhanças e divergências entre o jornalismo gráfico nacional e o internacional. Trabalho ambicioso, pois, alicerçado por uma metodologia rigorosa. Ainda na introdução, o autor desenvolve o referencial teórico, apresentando muita bibliografia nova sobre o tema do jornalismo iconográfico, que interessa a quem estuda a matéria.

Os capítulos 2 a 4 detalham as três gerações de revistas ilustradas, de acordo com a datação proposta por Jorge Pedro Sousa. A primeira é constituída por revistas enciclopédicas ilustradas pós século XVIII, enquanto a segunda não abandona a característica cultural generalista mas propõe também a atualidade, como os acontecimentos, e a terceira, mais para o final do século XIX, em que há uma grande preponderância da imagem, indo da gravura à fotografia. Aqui, começa o fotojornalismo, um dos temas mais estudados pelo autor e objeto de publicação em anos anteriores.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Livro Heróis Anónimos (2)

Foi lançado ao final da tarde, na Casa da Imprensa, o livro de Wilton Fonseca e António Santos Gomes, Heróis Anónimos (2). Jornalismo de Agência. História da Lusitânia e da ANI (1944-1975).


Do livro, começo pelo fim (p. 238): "Os autores destes dois volumes dos Heróis foram trabalhadores das agências (António Santos Gomes esteve na ANI, na ANOP e na Lusa; Wilton Fonseca e Mário de Carvalho estiveram na ANOP, NP e Lusa). Testemunhas e atores na vida daquelas empresas, não pretenderam fazer uma história descomprometida ou isenta, mas nem por isso deixaram de fazer uma História, sobre a qual têm as suas posições, opiniões e indignações". Santos Gomes é filho de Barradas de Oliveira, um dos fundadores da ANI. O segundo volume tem prefácio de Pedro Feytor Pinto, último diretor dos Serviços de Informação e Turismo (SEIT), antes de abril de 1974, e que, nesse texto quatro páginas, escreve sobre os vencidos (e a necessidade de escrever História desta perspetiva sobre os anos crepusculares do Estado Novo, acrescento eu). Mas o volume II, saído em 2016 e sobre a ANOP e NP (1975-1976) - que ainda não li - traz prefácio de Jorge Lacão, com responsabilidades políticas a seguir a 1974 e com igual dimensão de texto.

Ainda na p. 238, mas em parágrafo anterior, os autores escreviam sobre as agências: "Cada uma à sua maneira, a Lusitânia e a ANI, por um lado, e a ANOP e a NP, por outro, deram a conhecer Portugal e o mundo a conhecer aos portugueses e ao mundo. Empresas muito diferentes, tiveram no entanto objetivos coincidentes, foram vítimas de problemas semelhantes e poderiam ter tido destinos mais risonhos, até mesmo do ponto de vista empresarial". Da leitura do livro, após esclarecimento da perspetiva social e ideológica dos autores, considero uma obra o mais imparcial e objetiva possível, com uma apresentação larga das questões políticas da época e seu contexto mais amplo da sociedade nacional e internacional.

A Lusitânia foi criada em 1944 e deixou de existir em 18 de novembro de 1974, tendo Luís Lupi falecido três anos depois, amargurado, revoltado e desiludido. A ANI surgiu em 1947 e desapareceu em 24 de setembro de 1977, com Dutra Faria a falecer três anos depois, Barradas de Oliveira em 1987 e Marques Gastão viveu mais algum tempo, também amargurados e desiludidos: "o sonho partilhado de criação de uma grande agência nacional havia terminado. A Lusitânia e a ANI foram criadas e dirigidas por visionários" (p. 238). Em Portugal, e ao longo da mesma época, a operar no país havia agências internacionais, a Telimprensa (distribuição de telefotos), a PPI (Publicidade, Publicações e Informação, do grupo Torralta e a distribuir apenas noticiário nacional) e a AEI (Agência Europeia de Informação, que cedia direitos de utilização de textos e imagens) (pp. 191-192).

O livro começa com a interrogação: a Lusitânia teria sido uma verdadeira agência de notícias? A Lusitânia nascera dentro da Sociedade de Propaganda de Portugal, que juntava esta característica às de turismo e jornalismo, além da sua indefinição em termos jurídicos, o que colocaria a ANI como primeira agência de notícias do país. Mas os autores reconhecem o estatuto pioneiro da Lusitânia (p. 14). Para a história agora publicada, os antigos jornalistas de agências procuraram toda a documentação possível. O arquivo da ANI seria destruído na quase totalidade em 1977 e a correspondência trocada com a SEIT é escassa. Os autores recolheriam o depoimento de pessoas que trabalharam nas duas agências, trabalho prolongado por muitos anos, e, por isso, muito louvável.

O livro tem 25 capítulos distribuídos por 240 páginas, editado pela Perfil Criativo, apresentando o nascimento das duas agências - a Lusitânia com uma tendência maior para dar noticiário das colónias africanas, a ANI para dar mais relevo ao noticiário internacional -, crescimento, qualidades e dificuldades, a tentativa de criar uma agência noticiosa nacional e a nem sempre compreensão do poder político, apesar de os seus dirigentes serem muito próximos do mesmo poder político e serem requisitados por jornalistas internacionais e estabelecerem protocolos com agências noticiosas internacionais.

[na imagem: recetor via rádio do serviço DPA, oferecido pela agência alemã ocidental, hoje pertença da Lusa. Estes aparelhos de rádio usavam-se para receber notícias, a par ou antes das ligações via telex, cuja informação provinha de países como a Alemanha e a Inglaterra]

[texto concluído em 19 de janeiro de 2017]




quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Amanhã, dia 5 de janeiro, lançamento do livro Heróis Anónimos (2). Jornalismo de Agência


Heróis Anónimos (2). Jornalismo de Agência. História da Lusitânia e da ANI (1944-1957), de Wilton Fonseca e António Santos Gomes. Lançamento na Casa da Imprensa às 18:00.

No ano passado, Wilton Fonseca e Mário de Carvalho tinham lançado Heróis Anónimos. Jornalismo de Agência. História da ANOP e da NP (1975-1986).

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Jornalismo radiofónico

O e-book Jornalismo radiofónico, de João Paulo Meneses, com 129 páginas, editado pelo Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (Universidade do Minho, Braga), é a reescrita de Tudo o que se Passa na TSF, publicado em 2003, com a preocupação de desenvolver uma questão muito importante para ser esquecida: a comunicação radiofónica e o jornalismo são condicionados pelas características de receção do próprio meio. Desse modo, o autor desenvolveu o capítulo sobre ruído. Outras preocupações foram evitar repetições ou eventuais incoerências.
Retiro uma parcela do texto (p. 7), espécie de introdução ao que é rádio: "A rádio é, entre os diversos meios de difusão, aquele que mais influencia a mensagem, ou seja, que mais condiciona os conteúdos. Enquanto meio (isto é, veículo de transmissão de mensagens selecionadas), a rádio possui determinadas características; a televisão, o jornal ou a internet também, claro. Mas só na rádio se verifica uma verdadeira acumulação (poder, simultaneamente, ler o jornal e ouvir rádio, cozinhar e ouvir rádio, conduzir e ouvir rádio). A rádio que hoje conhecemos é a que se reposicionou quando surgiu a televisão: deixou a sala de
estar e a noite, passando para o carro (e cada vez mais para os smartphones) e para o dia. Ou seja, este consumo secundário é fortemente influenciador da capacidade e qualidade de receção do ouvinte. Ignorar isso, por parte de quem comunica na rádio – neste caso dos jornalistas – é o primeiro e derradeiro pecado".

João Paulo Meneses foi profissional da TSF, tem doutoramento em comunicação e trabalha atualmente na Escola Superior de Jornalismo (Porto). O seu hóbi preferido é criar bonsais, as pequenas árvores japonesas, participando em exposições em Vila do Conde, concelho onde reside.

sábado, 1 de outubro de 2016

A despedida da diretora do jornal Público

"Lembro-me muitas vezes da frase que a Cristina Ferreira, minha colega no Público há 27 anos, diz quando tem um artigo pronto a publicar. «Foi o melhor que consegui. Tem de certeza erros… mas ainda não os encontrei». Sempre gostei desta definição de jornalismo. O que fazemos é tornado público apesar de tudo. E dentro das circunstâncias. Sempre imperfeito, partilhamos o nosso trabalho com os leitores todos os dias, a todas as horas. Hoje é o meu último dia como diretora do Público. Calcei estes sapatos transitórios durante sete anos. Secretamente, nunca quis que fossem tantos. Como nas Nações Unidas, nas empresas ou nas câmaras municipais, é fundamental renovar as chefias e encontrar, na frescura de um novo olhar, formas diferentes e melhores de fazer as coisas. Idealmente, com mandatos pré-definidos e conhecidos por todos" (Bárbara Reis, no último dia como diretora do jornal Público).

Mais à frente, Bárbara Reis escreve: "Os jornais são feitos por muitas pessoas. Aqui, somos quase 200. Já estou a ouvir a Teresa de Sousa dizer em voz alta no meio da redacção: «Lá estão vocês com a mania de que somos todos iguais»! Não somos. O nosso querido Miguel Gaspar, de quem sentimos tanta falta, era seguramente diferente. À redação, quero agradecer o esforço, o brio, a inteligência, a cultura e a imaginação. Aos diretores-adjuntos agradeço tudo isso e mais uma coisa: a resiliência".

Uma ou outra vez critiquei aqui o jornal - o jornal que leio com atenção na edição de papel (e também no jornal em linha). A despedida da diretora deixou-me a pensar. Foi um bom texto, a dar conta da efemeridade dos cargos e das posições. Alguém, há muito, me dizia que o jornal acabaria com a diretora. Afinal, ele continua e a diretora que já não é diretora irá desempenhar, com certeza, outras e boas funções - talvez mais resguardadas, sem as pressões dos diversos poderes.

No texto de despedida falta uma coisa, que eu já li num comentário no Facebook: não há uma só palavra sobre o despedimento de jornalistas fundamentais do jornal, porque os custos económicos assim o terão exigido. Ao menos, podia explicitar melhor como se pode fazer jornalismo relevante, incómodo, ético e independente após a saída desses bons profissionais. Eles compreenderiam melhor o que se verificou.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Livro de Gonçalo Pereira Rosa

Hoje, ao final da tarde, no Museu da Farmácia (Lisboa), o livro de Gonçalo Pereira Rosa A Gripe e o Naufrágio. Como as Notícias Representam os Riscos foi apresentado por António Granado (Universidade Nova de Lisboa). A base é a tese de doutoramento defendida no ISCTE em 2013, então intitulada Os novos riscos nas notícias. A construção social do naufrágio do Prestige e da pandemia de gripe A. O livro procura "avaliar processos de construção do risco nas sociedades contemporâneas. Colocados perante problemas cuja complexidade e terminologia nem sempre dominam, os agentes sociais procuram integrar os riscos emergentes no seu quotidiano" (p. 13).

A obra agora lançada está dividida em cinco capítulos (Risco nas notícias, Projeto, Naufrágio do Prestige, Pandemia de gripe A, Conclusão). Aqui, fico pela análise aos subtítulos do índice, de onde retiro ideias e conceitos como uniformidade das vozes periciais, falhas de coesão entre especialistas, aceitação de interlocutores, semântica do pânico, conhecimento acumulado sobre a cobertura de acidentes, lições de uma pandemia, faces do acontecimento, imagem como metáfora da notícia, numeralização ou rotinização do acidente, responsabilização e gestão da comunicação, difícil assimilação da correção de expectativas. Por aqui, se vê a densidade do texto.


O autor combina a boa escrita (ele é jornalista e diretor da edição portuguesa da National Geographic) com o rigor do trabalho científico, o que torna imprescindível a leitura do livro. Anteriormente, publicou A Quercus nas notícias (2006) e Parem as Máquinas! (2015).


quinta-feira, 30 de junho de 2016

Prémios Gazeta do Clube de Jornalistas

Os vencedores dos Prémios Gazeta 2015 (Clube dos Jornalistas) são Ricardo J. Rodrigues (Imprensa), Rita Colaço (Rádio), Sofia Leite (Televisão), Pepe Brix (Fotografia), Catarina Santos (Multimédia) e Sibila Lind (Revelação). O júri atribuiu o Troféu Gazeta de Mérito a Vicente Jorge Silva (primeiro diretor do Público) e distinguiu o semanário Reconquista com o Gazeta da Imprensa Regional.

sábado, 2 de abril de 2016

Abandono da informação de "última hora"?

Os media digitais de qualidade estão a repensar o conceito de notícia de última hora. "Abrandar o ritmo noticioso e permitir que os leitores digiram a informação com mais tempo", segundo escreveu ontem o jornal Público.

Os exemplos são os dos jornais britânicos The Times e The Sunday Times (grupo News Corp, de Rupert Murdoch), que vão adotar o modelo editorial de "abandono da cobertura noticiosa ao minuto e pela aposta no tratamento aprofundado das histórias do dia", ainda segundo a mesma notícia. Os títulos passam, assim, a ser atualizados online em três momentos diários: 9:00, 12:00 e 17:00. A decisão parece estar em oposição à tendência das edições online dos media mundiais difundirem informação ao minuto. Um objetivo maior será o de escrever textos mais profundos e compreensivos para os leitores que se interessam por saber mais sobre o mundo e parte da ideia que um leitor não absorve completamente mais do que cinco ou seis temas por dia.

domingo, 20 de março de 2016

Livro sobre ciberjornalismo de Helder Bastos em segunda edição

Já tinha escrito aqui, a 18 de janeiro de 2011, sobre a primeira edição do livro de Helder Bastos, Origens e Evolução do Ciberjornalismo em Portugal. Agora, saiu a segunda edição, a que juntou ao título Os primeiros Vinte Anos (1995-2015) e com alargamento de textos, de 106 para 143 páginas.

Então escrevi: "Com quatro capítulos (contexto global do ciberjornalismo, antecedentes do ciberjornalismo em Portugal, periodização em três fases, e evolução do modelo de negócios), constitui um útil instrumento de trabalho para quem quer estudar e conhecer o jornalismo electrónico em Portugal". A edição saída agora (final de 2015) mantém a estrutura de quatro capítulos mas adequa o segundo, designado por contexto nacional do ciberjornalismo.

O autor destaca três etapas na evolução do jornalismo digital: implementação, expansão e depressão/estagnação. Sobre os modelos de negócios, Helder Bastos distingue o iniciado em 2001, reparte a atenção por pagamento de conteúdos, assinatura, acesso gratuito como forma de publicitação dos meios pagos (jornal), lenta inclusão de anúncios em banners, organização de conferências pagas mas publicitadas gratuitamente na internet, design e construção de sites, a que se seguem modelos sem negócio. Neste caso, inclui criação de fundações, mecenato, crowdfunding de conteúdos, sinergias dentro de um grupo de media e micro-pagamento. O autor identifica modelos emergentes, onde se desenvolvem tipos de modelos já ensaiados, como conteúdos patrocinados, conferências e conteúdos patrocinados, e venda de conteúdos para plataformas móveis, a que junta a circulação digital residual. Já em 2009, Helder Bastos realça o regresso da cobrança de conteúdos.

Detenho-me brevemente nas páginas 42-43, em que se recorda o ano de 1995, quando as redações dos jornais começaram a adotar o online, caso do Jornal de Notícias (Porto), quando dois jornalistas, um da secção de política (Helder Bastos) e outro da secção de nacional (Nuno Marques) foram destacados para trabalhar em exclusivo na edição digital do jornal. Então, havia quatro vertentes principais no trabalho dos jornalistas: interatividade com os leitores, edição de notícias, gestão de participação dos leitores em fóruns de discussão e passagem dos conteúdos do jornal em papel para o digital. Isso inibiu os jornalistas de saírem da redação, por exemplo para fazerem reportagens. Helder Bastos, deste modo um pioneiro e observador atento do fenómeno da digitalização e do online até hoje, escreveu que o ciberjornalismo inicial foi marcado pela predominância técnica e pelo esvaziamento da produção jornalística própria.

Por interesse de investigação, gosto particularmente do capítulo 2, onde o autor e docente universitário escreve sobre o contexto nacional do ciberjornalismo, com recurso a muitos números e etapas do desenvolvimento tecnológico, associando o telemóvel, a internet, a rádio e a imprensa em papel, o meio mais afetado pela economia e pela migração para o digital. Fixo as páginas 35 a 40, onde há uma análise diacrónica a partir da década de 1980, quando o país assistiu à revolução informática, responsável por alterações profundas nos mecanismos de produção gráfica e do funcionamento e competências das redações dos jornais.

Realce ainda para a útil cronologia colocada no final do livro, onde o leitor pode verificar a rápida evolução dos domínios em internet, edições eletrónicas digitais, portais, emprego e despedimentos, jornais e portais universitários, parcerias, sinergias dentro de grupos (televisão, rádio, imprensa), acesso gratuito e a pagamento, evolução de sistemas operativos e mais tópicos.

Leitura: Helder Bastos (2015). Origens e evolução do ciberjornalismo em Portugal. Os primeiros Vinte Anos (1995-2015). Porto: Afrontamento, 143 páginas

domingo, 13 de março de 2016

News Museum, Sintra

O NewsMuseum, museu dedicado às notícias, aos media e à comunicação, situado em Sintra, tem inauguração prevista para 25 de abril de 2016. O museu ocupa as antigas instalações do Museu do Brinquedo e divide-se em temas como spin wall, géneros, contrários, propaganda, bad news, guerras e mind games. Pretende ser uma Media Age Experience, "janela aberta para o mundo dos media e da comunicação, e para o impacto destes na sociedade, recorrendo para isso a uma forte componente digital e tecnológica".

A Associação Acta Diurna, promotora do projeto e presidida por Luís Paixão Martins, vai investir cerca de 1,8 milhões de euros no museu. O projeto conta com o apoio da Câmara Municipal de Sintra, que cedeu o imóvel no centro histórico por 20 anos à associação Acta Diurna. O fundador da TSF, Emídio Rangel, foi escolhido pelos comissários do módulo "imortais" para figurar no grupo dos fundadores dos grandes meios de comunicação atuais.

O museu é interativo e tem vários jogos. Segundo a entidade promotora, "fizemos um grande esforço para que em todos os módulos as pessoas pudessem participar no museu". Por exemplo, no módulo da rádio, simulação da cabina de Rádio Clube Português na noite do 25 de Abril de 1974, com Joaquim Furtado, as pessoas podem gravar "Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas" e publicar no YouTube (informação retirada da página do museu e de uma notícia da TSF)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Jornalismo cultural em ambiente digital

Dora Santos Silva defendeu hoje a sua tese de doutoramento na Universidade Nova de Lisboa, com o título Cultural Journalism in a Digital Environment. New Models, Practices and Possibilities. Retiro o começo da sua síntese:

"Both culture coverage and digital journalism are contemporary phenomena that have undergone several transformations within a short period of time. Whenever the media enters a period of uncertainty such as the present one, there is an attempt to innovate in order to seek sustainability, skip the crisis or find a new public. This indicates that there are new trends to be understood and explored, i.e., how are media innovating in a digital environment? Not only does the professional debate about the future of journalism justify the need to explore the issue, but so do the academic approaches to cultural journalism. However, none of the studies so far have considered innovation as a motto or driver and tried to explain how the media are covering culture, achieving sustainability and engaging with the readers in a digital environment. This research examines how European media which specialize in culture or have an important cultural section are innovating in a digital environment. Specifically, we see how these innovation strategies are being taken in relation to the approach to culture and dominant cultural areas, editorial models, the use of digital tools for telling stories, overall brand positioning and extensions, engagement with the public and business models".

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Os jornalistas vão desaparecer?

Leio agora no Diário de Notícias: "O número de profissionais com carteira desceu de 6839 para 5621 entre 2007 e 2014. Portugal perdeu 1218 jornalistas em sete anos, segundo dados da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ). O número profissionais ativos desceu de 6839 para 5621, entre 2007 e 2014, o equivalente a um declínio de 17,8%. Estes resultados devem-se ao "crescimento assustador do desemprego", de acordo com Rosária Rato, vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas e representante da CCPJ". O estudo pode ser consultado, na íntegra, na página do Observatório Europeu do Jornalismo.

Que poderei dizer aos meus alunos em abril do próximo ano quando começar a lecionar Estudos de Jornalismo?

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O jornalismo segundo Eco

Umberto Eco é um bom contador de histórias. Ele tem muita experiência de escrita de narrativas, possui uma enorme cultura europeia (e norte-americana, quando escreveu sobre banda desenhada em Apocalíticos e Integrados) e é sábio pela idade. Logo, um novo livro aguça o apetite do leitor em busca de uma história palpitante.

Número Zero não foge à regra. Primeiro, tem uma dimensão própria para se ler num serão ou numa viagem de comboio, por exemplo. Depois, há uma intriga policial, aqui com um regresso a acontecimentos passados, como ele produziu no livro A Misteriosa Chama da Rainha Loana, por exemplo. Sob a forma de diário, Colonna, jornalista e escritor fantasma (ghost-writer), escreve sobre um jornal chamado Amanhã, de que apenas se editarão números zero. Além do dr. Colonna, têm importância para a história o diretor Simei, a solteira Maia Fresia e o investigador de coisas ligadas à teoria da conspiração, Romano Braggadocio. Colonna amparar-se-ia no ombro de Maia, Braggadocio vasculharia na História a morte do ditador Mussolini, o que ditaria o assassinato do jornalista, o fecho mais rápido do jornal e a fuga do diretor e de Colonna, que ia escrever um livro sobre a experiência do jornal de números zeros. Há uma personagem distante, apenas entrevista, a do comendador, o dono do jornal e com interesses económicos e financeiros em muitas áreas de negócio.

Um terceiro elemento a retirar do romance é a erudição do autor, aqui excessivamente aplicada. E, talvez, algum exagero na descrição da história de Mussolini e do presumível duplo deste, que teria morrido na praça pública, enquanto o verdadeiro ditador se refugiava na Argentina, como Braggadocio estava a investigar. Porém, por outro lado, o centrar muito da narrativa na história do fascismo italiano de um modo leve mas relevando a estupidez, a perversidade e o tenebroso do regime habilita leitores mais jovens a compreenderem o núcleo político desse regime desaparecido no final da II Guerra Mundial. Além de nos levar a pistas engenhosas de grupos extremistas como Gladio e Aginter Presse, este último com atividade verdadeira em Portugal e já romanceado por João Paulo Guerra, pelo menos.

O quarto elemento - e a razão principal que me leva a escrever sobre o romance de Eco - é o que ele conta ou analisa sobre a atividade jornalística: os temas, as relações com o mundo político, empresarial e económico, o que convém dizer ou não, as insinuações, a ausência de objetividade e, mais do que isso, de verdade em muitas notícias. Não sendo um livro de sociologia ou de história dos media, sem a organização dos textos de ciências sociais, mas um romance, onde o mais importante é o enredo, do livro retiram-se muitos conhecimentos, interessantes para quem quiser estudar o jornalismo. Reconheço que a imagem que daqui sai sobre os media está longe de ser otimista ou positiva, mas a sua leitura permite pensar (ou efabular) sobre jornais e meios de comunicação que conhecemos. A morte de caráter (indivíduos ou entidades), o tendencioso e o falso em muito do que se noticia, surgem no livro em toda a sua nudez.

Recupero Eco de um seu texto que li com muita atenção Construir o Inimigo e Outros Escritos Ocasionais: "Ter um inimigo é importante, não apenas para definir a nossa identidade, mas também para arranjarmos um obstáculo em relação ao qual seja medido o nosso sistema de valores, e para mostrar, ao afrontá-lo, o nosso valor" (p. 12). E lembro-me dos tão brilhantes quanto impenetráveis livros de semiótica do autor: a Obra Aberta continua uma das minhas grandes referências literárias de sempre. E O Nome da Rosa um romance de uma enorme imaginação e que passou para o cinema.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Livro de Vasco Ribeiro

Hoje, em Lisboa e ao final da tarde, foi lançado o livro de Vasco Ribeiro Os Bastidores do Poder. Como os Spin Doctors, Políticos e Jornalistas Moldam a Opinião Pública Portuguesa, uma edição da Almedina, com prefácio de Joaquim Martins Lampreia. Além do autor e do prefaciador, na mesa estavam o editor Pedro Bernardo e o jornalista Gonçalo Bordalo Pinheiro, que apresentou a obra, a par com Martins Lampreia.

Da página 11, retiro a seguinte ideia: "Acontece que o processo noticioso, sobretudo envolvendo matérias políticas mais delicadas, assume uma grande complexidade. O jornalista é obrigado a adotar sofisticadas estratégias para a obtenção de informação exclusiva de natureza política, as quais implicam, muitas vezes, difíceis negociações com as fontes oficiais e oficiosas, onde se incluem os spin doctors".

No vídeo, a intervenção do próprio autor (cerca de 10 minutos).



Vasco Ribeiro é doutor em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e docente na Universidade do Porto (Faculdade de Letras), onde leciona nomeadamente Assessoria Política e Comunicação Política. Na sua atividade profissional, entre outras funções, foi assessor de imprensa no Parlamento. Publicou Fontes Sofisticadas de Informação (2010) e Assessoria de Imprensa - Fundamentos Teóricos e Práticos (2015).

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Vasco Ribeiro e os spin doctors

Vasco Ribeiro vai lançar o livro Os Bastidores do Poder - Como spin doctors, políticos e jornalistas moldam a opinião pública portuguesa no próximo dia 2 de outubro, às 18:45, no Atrium Saldanha. Conta com apresentação do jornalista Gonçalo Bordalo Pinheiro e de J. Martins Lampreia. Do que eu conheço do seu trabalho, será um texto brilhante e um livro muito oportuno no atual momento eleitoral.

[o convite abaixo é para a apresentação em Vila Nova de Gaia, a 30 de outubro]