Textos de Rogério Santos, com reflexões e atualidade sobre indústrias culturais (imprensa, rádio, televisão, internet, cinema, videojogos, música, livros, centros comerciais) e criativas (museus, exposições, teatro, espetáculos). Na blogosfera desde 2002.
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quinta-feira, 19 de julho de 2018
Rádio Con:Vida em Aveiro em novembro de 2018
A Universidade de Aveiro, o INET-md e a UNESPAR apresentam o evento rádio con:vida que terá lugar entre os dias 15 e 17 de novembro de 2018 na Universidade de Aveiro. Na página rádio con:vida, já se encontra informação geral sobre a exposição e a conferência internacional e a relativa a inscrições, submissões, datas, programa, locais, entre outros. Com o apoio da Fábrica Centro de Ciência Viva de Aveiro, da Fundação Calouste Gulbenkian, da Fundação para Ciência e Tecnologia, da Rede de Museus Oliveira do Bairro, da Câmara Municipal de Oliveira do Bairro e da Radiolândia, a conferência – que inclui também uma exposição – tem por objetivo colocar em diálogo os investigadores e os protagonistas envolvidos em diferentes experiências sobre rádio.
sábado, 16 de junho de 2018
António Macedo
Toma, serviço público de media!
Eu ouvi agora o elogio de António Macedo feito por David Ferreira: a perda do mais caloroso dos seus animadores. E a crítica ao serviço público de media, isto é, à rádio. Penúria, perda de ativo, negligência ou estratégia (escondida?).
Eu ouvi agora o elogio de António Macedo feito por David Ferreira: a perda do mais caloroso dos seus animadores. E a crítica ao serviço público de media, isto é, à rádio. Penúria, perda de ativo, negligência ou estratégia (escondida?).
quarta-feira, 13 de junho de 2018
As emissões de rádio em Portugal começaram no outono de 1924
A revista TSF em Portugal começou a publicar-se em 9 de novembro de 1924, dirigida por Álvaro Contreiras, então funcionário da Marconi. O seu objetivo era "publicar em Portugal uma revista da especialidade, onde informássemos os nossos compatriotas dos progressos existentes, acompanhando a sua marcha, elucidando os novos inventos que aparecem, enfim, tudo que interessa à radiotelefonia e à radiotelegrafia".
No número de 15 de fevereiro de 1925, a revista publicava, na página inicial, a fotografia do emissor 1AB (pouco depois CT1AB), de José Joaquim Dias de Sousa Melo, e, no número de 15 de março do mesmo ano, o esquema do mesmo emissor. Na primeira imagem, no topo do móvel, além da campânula (gramofone) observa-se a bobina emissora (ninho de abelha), e, abaixo, os auscultadores e o microfone. As primeiras experiências, escreveu o amador, começaram em novembro de 1924, com duas válvulas, continuando em dezembro, com cinco bobinas e três condensadores. Por esta descrição, o esquema parece-me incompleto, pois apenas se vê representada uma válvula eletrónica.
Fixo-me na data aproximada das primeiras experiências: novembro de 1924.
Na realidade, o número de 30 de novembro de 1924 noticiava um amador a fazer ensaios na onda de 450 metros, com as iniciais PS (tornada, como acima indico, em 1AB e depois CT1AB). Todas as noites, o amador chamava "Allo! Allo! Aqui, posto português PS". No número de 14 de dezembro de 1924, a revista TSF em Portugal indicava continuarem as experiências e avisava outro posto emissor de estar a criar obstáculos a esta ação, "pois não gostaria de ser perturbado se estivesse em audição". Também CTV, o posto militar de telegrafia de Monsanto, era uma ameaça à transmissão dos amadores, devido ao uso de emissor de faísca (isto é, sem frequência definida), depois substituído por equipamento com frequência determinada por oscilador.
TSF em Portugal, no número de 18 de janeiro de 1925, publicaria a fotografia de José Joaquim de Sousa Dias Melo, considerado o "primeiro amador de Lisboa que construiu um posto de transmissão".
Mas a notícia mais interessante seria publicada pela revista no número de 28 de dezembro de 1924. Além da referência a 1PAB, agora com quatro lâmpadas eletrónicas, que emitia em telegrafia e telefonia, a indicar a passagem da transmissão de morse para a da voz, através de microfone. A mesma notícia apresenta outro emissor, o que realmente me interessa aqui: 1PAA, depois modificado para CT1AA. Lê-se: "1PAA tem feito interessantíssimas experiências, tendo já por diversas vezes transmitido concertos que têm agradado imenso a todos os que têm ouvido tanto em nitidez, como em intensidade". As experiências caminhavam no sentido da regularidade, no que posso definir como emissões de rádio. Logo, a rádio em Portugal começou a sua existência no final do outono de 1924.
No número de 8 de março de 1925, a revista publicaria o programa de P1AA com a emissão do terceiro concerto-prova da Sociedade de Amadores de Rádio Portugal (a designação mais frequente de 1PAA, depois CT1AA), a começar às 21:00 na banda dos 300 metros. Os anteriores concertos transmitidos pela estação teriam ocorrido entre meados de dezembro de 1924 e fevereiro de 1925. Tal significa que, em menos de três meses, os amadores da rádio portuguesa evoluíram rapidamente. A revista TSF em Portugal teria forte influência nesse desenrolar, pelo incentivo constante. O número de 15 de março do mesmo ano inseria uma carta encomiástica "tanto na organização feita pelo sr. dr. Carlos Pimentel , como pela execução dos distintos amadores e artistas musicais, o programa marcou pela seleção dos seus números e pela perfeição da transmissão levada a efeito pelo proprietário do posto sr. Abílio dos Santos". Por seu lado, a estação P1AB emitiria um concerto a 12 de março de 1925: além de música clássica, atuaria o fadista Alfredo Marceneiro, acompanhado à guitarra por Álvaro Cunha. Um intervalo humorístico também fazia parte do programa, com Lino Sousa.
Na edição seguinte de TSF em Portugal, a 15 de março de 1925, o anúncio do quarto concerto-prova da Sociedade de Amadores Rádio Portugal, trazia uma novidade, o speaker (locutor) Herculano Levy.
A vida de Herculano Levy dava quase um filme. Nascido em São Tomé, filho ilegítimo de Salvador Levy, procurou herdar o que lhe competia da fortuna do pai, o que conseguiu após decisão do tribunal. Mas, antes, e para sobreviver, foi crítico de arte, teatro, cinema e música. Depois, passou a gerir uma distribuidora de filmes até ser convidado por Ricardo Covões para fazer a publicidade e promoção do Coliseu dos Recreios. Quando o tribunal considerou legal usar o nome e receber a parte da fortuna do pai a que tinha direito, ele retirou-se da atividade e passou a administrador de prédios que comprou. O seu conhecimento musical permitiu-lhe fazer diversas conferências sobre músicos internacionais [informação a partir do livro de Carlos Espírito Santo, Herculano Levy, Poemas, 2000].
No número de 15 de fevereiro de 1925, a revista publicava, na página inicial, a fotografia do emissor 1AB (pouco depois CT1AB), de José Joaquim Dias de Sousa Melo, e, no número de 15 de março do mesmo ano, o esquema do mesmo emissor. Na primeira imagem, no topo do móvel, além da campânula (gramofone) observa-se a bobina emissora (ninho de abelha), e, abaixo, os auscultadores e o microfone. As primeiras experiências, escreveu o amador, começaram em novembro de 1924, com duas válvulas, continuando em dezembro, com cinco bobinas e três condensadores. Por esta descrição, o esquema parece-me incompleto, pois apenas se vê representada uma válvula eletrónica.
Fixo-me na data aproximada das primeiras experiências: novembro de 1924.
Na realidade, o número de 30 de novembro de 1924 noticiava um amador a fazer ensaios na onda de 450 metros, com as iniciais PS (tornada, como acima indico, em 1AB e depois CT1AB). Todas as noites, o amador chamava "Allo! Allo! Aqui, posto português PS". No número de 14 de dezembro de 1924, a revista TSF em Portugal indicava continuarem as experiências e avisava outro posto emissor de estar a criar obstáculos a esta ação, "pois não gostaria de ser perturbado se estivesse em audição". Também CTV, o posto militar de telegrafia de Monsanto, era uma ameaça à transmissão dos amadores, devido ao uso de emissor de faísca (isto é, sem frequência definida), depois substituído por equipamento com frequência determinada por oscilador.
TSF em Portugal, no número de 18 de janeiro de 1925, publicaria a fotografia de José Joaquim de Sousa Dias Melo, considerado o "primeiro amador de Lisboa que construiu um posto de transmissão".
Mas a notícia mais interessante seria publicada pela revista no número de 28 de dezembro de 1924. Além da referência a 1PAB, agora com quatro lâmpadas eletrónicas, que emitia em telegrafia e telefonia, a indicar a passagem da transmissão de morse para a da voz, através de microfone. A mesma notícia apresenta outro emissor, o que realmente me interessa aqui: 1PAA, depois modificado para CT1AA. Lê-se: "1PAA tem feito interessantíssimas experiências, tendo já por diversas vezes transmitido concertos que têm agradado imenso a todos os que têm ouvido tanto em nitidez, como em intensidade". As experiências caminhavam no sentido da regularidade, no que posso definir como emissões de rádio. Logo, a rádio em Portugal começou a sua existência no final do outono de 1924.
No número de 8 de março de 1925, a revista publicaria o programa de P1AA com a emissão do terceiro concerto-prova da Sociedade de Amadores de Rádio Portugal (a designação mais frequente de 1PAA, depois CT1AA), a começar às 21:00 na banda dos 300 metros. Os anteriores concertos transmitidos pela estação teriam ocorrido entre meados de dezembro de 1924 e fevereiro de 1925. Tal significa que, em menos de três meses, os amadores da rádio portuguesa evoluíram rapidamente. A revista TSF em Portugal teria forte influência nesse desenrolar, pelo incentivo constante. O número de 15 de março do mesmo ano inseria uma carta encomiástica "tanto na organização feita pelo sr. dr. Carlos Pimentel , como pela execução dos distintos amadores e artistas musicais, o programa marcou pela seleção dos seus números e pela perfeição da transmissão levada a efeito pelo proprietário do posto sr. Abílio dos Santos". Por seu lado, a estação P1AB emitiria um concerto a 12 de março de 1925: além de música clássica, atuaria o fadista Alfredo Marceneiro, acompanhado à guitarra por Álvaro Cunha. Um intervalo humorístico também fazia parte do programa, com Lino Sousa.
Na edição seguinte de TSF em Portugal, a 15 de março de 1925, o anúncio do quarto concerto-prova da Sociedade de Amadores Rádio Portugal, trazia uma novidade, o speaker (locutor) Herculano Levy.
A vida de Herculano Levy dava quase um filme. Nascido em São Tomé, filho ilegítimo de Salvador Levy, procurou herdar o que lhe competia da fortuna do pai, o que conseguiu após decisão do tribunal. Mas, antes, e para sobreviver, foi crítico de arte, teatro, cinema e música. Depois, passou a gerir uma distribuidora de filmes até ser convidado por Ricardo Covões para fazer a publicidade e promoção do Coliseu dos Recreios. Quando o tribunal considerou legal usar o nome e receber a parte da fortuna do pai a que tinha direito, ele retirou-se da atividade e passou a administrador de prédios que comprou. O seu conhecimento musical permitiu-lhe fazer diversas conferências sobre músicos internacionais [informação a partir do livro de Carlos Espírito Santo, Herculano Levy, Poemas, 2000].
domingo, 10 de junho de 2018
Estúdios da rua Cândido dos Reis (Porto)
No Porto, a Emissora Nacional inaugurava os seus estúdios na rua Cândido dos Reis, em 1943 (Panorama, nº 17, outubro de 1943). A satisfazer um desejo antigo, o Emissor Regional do Norte passava a contar com instalações adequadas para a produção de programas. O relevo era dado ao estúdio principal e à central técnica (fotografias de Mário Novais).
Agora, os estúdios da rádio pública estão no Monte da Virgem (RTP) e a rua Cândido dos Reis alberga bares que se enchem de movimento e alegria ao final da tarde e noite.
sábado, 9 de junho de 2018
Sobre a rádio pública
Nas décadas de 1950 e 1960, aqueles que tinham uma visão geral do serviço público de media eletrónicos olhavam mais para a televisão do que para a rádio, escreveu Jack W. Mitchell, relatando a situação nos Estados Unidos. O eixo Boston-Nova Iorque, com as universidades de Harvard, Princeton e Yale, nomeadamente, não tinha uma estação de rádio como objetivo, apesar das comunidades académicas olharem o serviço de rádio da BBC (Inglaterra) como meio ideal em termos educacionais.Em Boston, continua Mitchell a escrever, a estação WGBH foi o modelo americano, instituição independente e sem o objetivo do lucro, propriedade de um conjunto de instituições educativas, cuja estrutura, governação e obtenção de fundos se assemelhava aos museus, orquestras sinfónicas e outras entidades privadas a funcionarem dentro do ideal filantrópico dos Estados Unidos [modelo que não se replica, por razões históricas e sociais, noutros países como Portugal]. Como a BBC e outras entidades que emergiram depois, a rádio WGBH representava os valores sociais e culturais da elite civil educada, emitindo muitas horas de música clássica, intercalada com teatro radiofónico e entrevistas. A qualidade inerente não buscava educar ou elevar a literacia da população, no sentido do missionário, mas tornou-se tão só um refúgio cultural.
A rádio cultural perdeu impacto ao longo da década de 1960, reporta ainda Mitchell, porque não se enquadrava no espírito da transformação da sociedade. A televisão passava a ser o alvo prioritário do dinheiro a investir na educação. Mitchell identifica, por exemplo, a Fundação Ford. A educação pelo meio televisão ajustava-se às ideias do presidente americano Johnson de criar uma sociedade com direitos iguais para as minorias, fim da pobreza e segurança para os idosos. Apesar da corrente, os novos ideais americanos conduziram a Fundação Carnegie a envolver-se num projeto que seguia a perspetiva de Reith e Hoover da rádio servir as minorias. Daí, saiu um relatório sobre o meio negligenciado que se tornou a rádio (The Hidden Medium: Educational Radio. A Status Report, 1967).
O relatório, conhecido por relatório Herman Land, nome do consultor responsável pelo documento, descrevia os ouvintes da rádio educativa como possuindo valores de educação e de rendimento acima da média e mais velhos que os ouvintes das rádios comerciais e musicais. Falava-se, nesse sentido, de rádio pública. A discussão política, no Senado por exemplo, não interessa aqui. Mas importa realçar que, da quase invisibilidade da questão, se proporcionou o nascimento da Rádio Pública Nacional (National Public Radio, NPR).
Jack W. Mitchell quando publicou Listener Supported. The Culture and History of Public Radio (2005) tinha 64 anos de idade. Ele fora o primeiro produtor do programa All Things Considered e fora, por três vezes, presidente da NPR, não sei se mandatos seguidos ou intercalados. All Things Considered foi um programa muito focado na informação e nas notícias. À data da edição do livro, Mitchell era docente na universidade de Illinois.
sábado, 26 de maio de 2018
"A Emissora Nacional e as Mudanças Políticas, 1968-1975) apresentada no Porto
Foi anteontem, ao final da tarde, que o meu livro A Emissora Nacional e as Mudanças Políticas (1968-1975) foi mostrado no Porto, com a professora Ana Isabel Reis (Universidade do Porto) a apresentar a obra (ver vídeo no final da mensagem). O encontro decorreu na sede da Associação de Trabalhadores e Reformados da PT, à rua do Almada (fotografias de António Campo Leal). O livro, com a chancela da MinervaCoimbra, anteriormente apresentado em Coimbra e Lisboa, analisa a história da Emissora Nacional (1968-1975).
Estudar o período antes e depois do golpe de Estado em 25 de abril de 1974 e da revolução que lhe sucedeu acarreta um risco de interpretação, por se estudarem dois tempos com agentes culturais e políticos antagónicos, o primeiro cheio de rotina, formalidades e defesa de um estilo, o segundo com experimentação, ruturas e conflitualidade interna, a refletir a realidade externa.
A investigação partiu da análise qualitativa do conteúdo de atas de reuniões do conselho de planeamento de programas e da direção da estação. Para o livro, segui outra documentação escrita, caso da imprensa diária e semanal (Diário Popular, Jornal de Notícias, Flama, Diário do Governo) e imprensa especializada no campo da rádio e das indústrias culturais (Rádio & Televisão, Plateia) entre 1968 e 1975. A investigação seguiu ainda a audição de programas gravados (arquivo sonoro da RTP), entrevistas a dezenas de profissionais da rádio (e indústrias criativas) e entrevistas conduzidas por Luís Garlito no programa radiofónico A Minha Amiga Rádio (Antena 1) e João Paulo Diniz no programa televisivo No Ar, História da Rádio Em Portugal.
(Fotografia de autor anónimo)
quinta-feira, 17 de maio de 2018
O cinema na rádio
A Rádio Condes, em 1934, emitia sábados, domingos e terças-feiras. Tinha o indicativo CT1EB e ficava na avenida da Liberdade, 12, em Lisboa. De entre outras, tinha secções dedicadas ao cinema, teatro e literatura (O Filme, 3 de junho de 1934. Semanário editado em Setúbal, com Miguel Manjuá como diretor e Jacques T. da Silva como editor).
A Rádio Restauração, em 1951, tinha um programa de atualidades cinematográficas com o patrocínio da secção de cinema da revista Flama. José Marques Vidal e Costa Pereira apresentavam, com notícias, concursos e entrevistas (Flama, 12 de outubro de 1951, diretor e editor: Mário Simas).
terça-feira, 15 de maio de 2018
A rádio em 1925 e 1926
A revista Renovação (1925-1926) publicou 24 números. Numa linguagem quase hermética, indica no número inicial que "será um clarim vibrando revolta, mas será também uma cátedra distribuindo ensinamentos". Na última página, fornece mais informação: "Revista gráfica de novos horizontes sociais. Arte, Literatura e Atualidades". O número 6 esclarece mais: "Renovação retribui as fotografias interessantes que lhe sejam enviadas pelos seus
leitores sobre acontecimentos que interessem à vida operaria tais corno manifestações populares,
greves, congressos, comícios, desastres no trabalho, festas associativas, inauguração
de escolas, sindicatos, cooperativas operárias". Números depois, surge associada à revista Batalha, jornal do movimento anarquista e da CGT.
A digitalização da publicação foi hoje tornada acessível pela Hemeroteca Municipal de Lisboa, no seu caminho louvável de facilitar a consulta a revistas há muito desaparecidas.
No número 22, de maio de 1926, surgia uma notícia sobre rádio, então ainda novidade. A rádio - ou telegrafia sem fios, como está identificada - permitia a audição em todo o mundo de concertos e novidades e era uma concorrente da imprensa e dos pianistas de fama. Durante décadas, até 1960 em Rádio Clube Português, as notícias lidas na rádio eram provenientes dos jornais. Existe até uma história deliciosa lida por um locutor da rádio, que inclui na sua leitura: "como se vê na fotografia ao lado". E em 1934 o primeiro presidente da Emissora Nacional, António Joyce, criaria orquestras a empregar quase todos os músicos profissionais do país. Mas os pianistas voltariam a ver ameaçados os seus lugares, eles que preenchiam o palco a acompanhar os filmes mudos, obsoletos com a sonorização dos mesmos.
Adenda a 16.5.2018: também o Domingo Ilustrado (14 de junho de 1925) se refere ao começo da TSF, aparelhos, neste caso, a colocar nos quartos dos hospitais, para aliviar a vida de sofrimento.
A digitalização da publicação foi hoje tornada acessível pela Hemeroteca Municipal de Lisboa, no seu caminho louvável de facilitar a consulta a revistas há muito desaparecidas.
No número 22, de maio de 1926, surgia uma notícia sobre rádio, então ainda novidade. A rádio - ou telegrafia sem fios, como está identificada - permitia a audição em todo o mundo de concertos e novidades e era uma concorrente da imprensa e dos pianistas de fama. Durante décadas, até 1960 em Rádio Clube Português, as notícias lidas na rádio eram provenientes dos jornais. Existe até uma história deliciosa lida por um locutor da rádio, que inclui na sua leitura: "como se vê na fotografia ao lado". E em 1934 o primeiro presidente da Emissora Nacional, António Joyce, criaria orquestras a empregar quase todos os músicos profissionais do país. Mas os pianistas voltariam a ver ameaçados os seus lugares, eles que preenchiam o palco a acompanhar os filmes mudos, obsoletos com a sonorização dos mesmos.
Adenda a 16.5.2018: também o Domingo Ilustrado (14 de junho de 1925) se refere ao começo da TSF, aparelhos, neste caso, a colocar nos quartos dos hospitais, para aliviar a vida de sofrimento.
sábado, 21 de abril de 2018
A rádio no livro "Café Central" de Álvaro Guerra
A primeira vez que o livro de Álvaro Guerra (Café Central) se refere à rádio é quando chega a televisão a Vila Velha. O Clube Vila-Velhense decidira adquirir um recetor e a montagem da antena exigiu uma reunião da direção para aprovar a despesa suplementar e confiar no engenheiro Silvério a sua instalação. O referido engenheiro, sócio da coletividade, era funcionário da Emissora Nacional e oferecera-se como voluntário para o desempenho da função, apoiado por dois eletricistas (p. 118). Estaríamos em 1957.
Depois, Vicente Mourão, de uma família de esquerda de Vila Velha, foi o primeiro habitante dali a saber do desaparecimento do paquete Santa Maria. Ele ficaria de orelha atenta a todos os sons mais ou menos inteligíveis das ondas curtas da velha telefonia, pois continuava fiel aos noticiários da BBC (p. 169). Por aquela estação, acompanhou o relato do debate na Câmara dos Comuns e ouviu a oposição trabalhista criticar "the dictatorship of Dr. Salazar". A BBC desmentia o Diário de Notícias. Contudo, "semanas depois, os situacionistas de Vila Velha seguiam aliviados a reportagem radiofónica da chegada do Santa Maria a Lisboa, empolgados pelo nacionalismo inflamado do versátil locutor Artur Agostinho, ao microfone da Emissora, o qual viria a ser condecorado por tanto zelo" (pp. 170-171). O ano de 1961, cheio de vicissitudes para o regime de Salazar, estava no começo.
O autor refere Barradas de Oliveira na sua tribuna "Rádio Moscovo não Fala Verdade" (p. 207), indica que não se arroga, por definição, a alterar o enredo ao folhetinista (p. 285) e chega à notícia de Salazar caído na cadeira. Ao passar pela porta da taberna do Belezas, uma das personagens ouvira, na rádio, a voz solene de Pedro Moutinho a dar a notícia (p. 299). Corria o ano de 1968.
Por último, a personagem David Castro procurava sintonizar a frequência dos Emissores Associados de Lisboa, com a pergunta: "onde é que são os «minhocas»"? (p. 422). O mesmo David, às 00:15, foi ouvir a Rádio Renascença. Reagiam a David: "Não te conhecia essa paixão radiofónica". David justificou-se: "É recente... Este programa O Limite é feito por uns rapazes amigos" (p. 425). Vivia-se a madrugada de 25 de abril de 1974.
Álvaro Guerra (1936-2002) foi jornalista, diplomata (embaixador de Portugal em Estocolmo) e escritor. Licenciado pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi fundador do jornal A Luta. Oposicionista ao Estado Novo, poderia ter subido a ministro no pós 25 de abril de 1974 mas ficou-se pela direção de informação da RTP. Na sua biografia, que consultei na wikipédia, evoca-se o ter sido um dos fundadores do Partido Socialista e gostar de touradas, em especial na sua terra, Vila Franca de Xira. Da sua bibliografia, destaque para a trilogia dos cafés: Café República, Café Central e Café 25 de Abril.
Leitura: Álvaro Guerra (1984). Café Central. Folhetim do Mundo Vivido em Vila Velha (1945-1974). Lisboa: O Jornal
Depois, Vicente Mourão, de uma família de esquerda de Vila Velha, foi o primeiro habitante dali a saber do desaparecimento do paquete Santa Maria. Ele ficaria de orelha atenta a todos os sons mais ou menos inteligíveis das ondas curtas da velha telefonia, pois continuava fiel aos noticiários da BBC (p. 169). Por aquela estação, acompanhou o relato do debate na Câmara dos Comuns e ouviu a oposição trabalhista criticar "the dictatorship of Dr. Salazar". A BBC desmentia o Diário de Notícias. Contudo, "semanas depois, os situacionistas de Vila Velha seguiam aliviados a reportagem radiofónica da chegada do Santa Maria a Lisboa, empolgados pelo nacionalismo inflamado do versátil locutor Artur Agostinho, ao microfone da Emissora, o qual viria a ser condecorado por tanto zelo" (pp. 170-171). O ano de 1961, cheio de vicissitudes para o regime de Salazar, estava no começo.
O autor refere Barradas de Oliveira na sua tribuna "Rádio Moscovo não Fala Verdade" (p. 207), indica que não se arroga, por definição, a alterar o enredo ao folhetinista (p. 285) e chega à notícia de Salazar caído na cadeira. Ao passar pela porta da taberna do Belezas, uma das personagens ouvira, na rádio, a voz solene de Pedro Moutinho a dar a notícia (p. 299). Corria o ano de 1968.
Por último, a personagem David Castro procurava sintonizar a frequência dos Emissores Associados de Lisboa, com a pergunta: "onde é que são os «minhocas»"? (p. 422). O mesmo David, às 00:15, foi ouvir a Rádio Renascença. Reagiam a David: "Não te conhecia essa paixão radiofónica". David justificou-se: "É recente... Este programa O Limite é feito por uns rapazes amigos" (p. 425). Vivia-se a madrugada de 25 de abril de 1974.
Álvaro Guerra (1936-2002) foi jornalista, diplomata (embaixador de Portugal em Estocolmo) e escritor. Licenciado pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi fundador do jornal A Luta. Oposicionista ao Estado Novo, poderia ter subido a ministro no pós 25 de abril de 1974 mas ficou-se pela direção de informação da RTP. Na sua biografia, que consultei na wikipédia, evoca-se o ter sido um dos fundadores do Partido Socialista e gostar de touradas, em especial na sua terra, Vila Franca de Xira. Da sua bibliografia, destaque para a trilogia dos cafés: Café República, Café Central e Café 25 de Abril.
Leitura: Álvaro Guerra (1984). Café Central. Folhetim do Mundo Vivido em Vila Velha (1945-1974). Lisboa: O Jornal
sexta-feira, 20 de abril de 2018
Locução e propaganda em 1940
Em 1940, o regime instalou na Emissora Nacional um serviço de propaganda das comemorações dos centenários (independência e restauração), em francês, inglês, alemão, espanhol e italiano. Na imagem, Hilde Mattauch e Hermínia Ferreira, locutoras de língua alemã e italiana (Rádio Nacional, 11 de fevereiro de 1940).
segunda-feira, 16 de abril de 2018
A guerra na rádio
Os historiadores gostam de falar da guerra do éter. No final de 1940, a Alemanha bombardeava diariamente Londres e a Grã-Bretanha bombardeava diariamente Berlim. A guerra corria favoravelmente aos alemães, que tinham invadido a Holanda, a Bélgica e, quase num ápice, a França. A Itália entrava em guerra com a Grécia e invadia o corno de África. O Canadá enviava aviões para a Grã-Bretanha e os Estados Unidos ainda estavam meio indecisos sobre o que fazer.
Se a guerra era violenta, a rádio entrou também no conflito. Creio que as estações alemãs começaram a publicitar as suas emissões em ondas curtas apenas em dois de novembro de 1940, conforme o exemplar saído no Jornal de Notícias (Porto). Apesar de já publicitar as suas emissões há mais tempo, o anúncio da BBC (A Voz de Londres) aqui inserido (3 de novembro e no mesmo jornal) tem a particularidade de englobar as emissões em português e em francês.
Se a guerra era violenta, a rádio entrou também no conflito. Creio que as estações alemãs começaram a publicitar as suas emissões em ondas curtas apenas em dois de novembro de 1940, conforme o exemplar saído no Jornal de Notícias (Porto). Apesar de já publicitar as suas emissões há mais tempo, o anúncio da BBC (A Voz de Londres) aqui inserido (3 de novembro e no mesmo jornal) tem a particularidade de englobar as emissões em português e em francês.
sábado, 14 de abril de 2018
Vedetas dos programas infantis de rádio (final da década de 1930)
Na década de 1930, a programação infantil na rádio tinha um conjunto de pequenas vedetas, reconhecidas por nomes diminutivos. O Século Ilustrado (17 de dezembro de 1938) dedicou algumas páginas a revelar ao público essas vedetas, de onde retiro as imagens. Na época, havia revistas em papel destinadas a um público juvenil e infantil e associadas a programas de rádio. Pela amostra das estações de Lisboa, parecia haver mais vedetas meninas do que rapazes.
Um grupo era constituído por Mimi, Odete Passos de Saint-Maurice (autora de programas juvenis até cerca de 1974) e Julieta Marques Cardoso, para Rádio Clube Português, então a emitir da Parede. Além da fotografia em grupo, Mimi aparece sozinha, sorridente, quase irreverente e de cabelo de franjas.
Outra pequena vedeta era a Esterinha das emissões Papagaio ( Rádio Renascença), na fotografia em cima de uma cadeira. Ester de Lemos (1929-), depois licenciada em Filologia Românica, seria assistente de programas literários da Emissora Nacional (1956-1959), deputada em 1965 e docente universitária (1957-1963 e 1971-1974), professora do ensino secundário e docente no Instituto de Novas Profissões, de onde se reformou em 1990.
Além da Esterinha, a Rádio Renascença contava com Manon, Misette e, na fotografia de grupo e atrás, da esquerda para a direita, José Fernandes (pai Paulino), Carlos Santos (coelho), Adolfo Madeira (gato), Manuel Campos (pombo), Arnaldo Silva (tenor) e José Castelo (diretor). Pela designação dos papéis, adivinha-se o teor habitual do programa, o do tempo em que os animais falavam. Além de música e diálogos, havia ainda leitura de poemas e historietas.
A antepenúltima imagem diz respeito a Rádio Hertz, uma estação que desapareceria pouco depois, a contar com algumas Marias no elenco da programação infantil. Chamo a atenção para o design do microfone. Aliás, em todas as fotografias, o microfone é um elemento central. A penúltima imagem, da Rádio Luso, fechada no final da II Guerra Mundial, por ligação a interesses alemães, mostra outras particularidades, a do acompanhamento musical - piano e acordeão. Na imagem inicial (Rádio Clube Português), também se observa a existência de um piano de cauda e de suporte de pautas musicais. As emissões eram em direto. Certamente que haveria um tempo para ensaio antes da emissão.
Deixo para o fim uma imagem do grupo inteiro a colaborar em Rádio Graça, conjunto compacto e sorridente (O Século Ilustrado, 24 de dezembro de 1938). Às crianças, em primeiro plano, sucediam-se os outros participantes. À maneira da pintura renascentista, em que o doador (o que pagava a obra) aparecia ao canto, aqui o senhor à direita seria Américo Santos, o dono da estação. Talvez ao lado esteja Lili Santos, a filha, e intérprete de folhetim como escrevo a seguir. Pelo menos, se comparar esta à fotografia incluída no livro de Matos Maia, Telefonia, há muitas parecenças.
Rádio Graça, a estação da rua da Verónica, quase em frente a uma escola secundária, ganharia muita fama quando em 1955 começou a emitir um programa para o público jovem adulto, a radionovela A Força do Destino, título muito à Verdi mas popularizado pela Coxinha do Tide. O patrocinador era o detergente Tide, que irrompera no consumo nacional um ano antes e a coxinha era a personagem principal: Margarida, doente de uma perna, seria operada pelo Dr. Humberto Figueirola. Eles apaixonaram-se, mas havia um problema: Figueirola era casado com Raquel, prima de Margarida. O argumentista resolveu o imbróglio: matou Raquel e deixou caminho livre para Humberto. Conta quem ouviu que a morte de Raquel foi dolorosa, com a agonia prolongada em sucessivos episódios. Depois da boda do casal "bom", veio um descendente. Antes do nascimento, a Rádio Graça viu-se invadida por roupa de bebé. Quem ouvia, julgava tratar-se de coisa verdadeira.
As fotografias denotam outros elementos. Um deles é o vestuário das crianças vedetas, especialmente em dois rapazinhos (calção e meias enroladas). Um segundo é o da assistência. Na fotografia de Esterinha, há um grupo de senhoras sentadas atrás, como formando a assistência ao programa (podemos comparar à assistência e palco nos atuais programas televisivos à tarde).
sexta-feira, 13 de abril de 2018
A rádio na Seara Nova
O portal Revistas de Ideias e Cultura (RIC), dirigido por Luís Andrade e desenvolvido pelo Seminário de História das Ideias (SLHI), do Centro de Humanidades da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, em parceria com a Biblioteca Nacional e a Fundação Mário Soares, tem resgatado muitas revistas em papel tornadas agora digitais, como A Sementeira (1908-1919), Germinal (1916-1917), suplemento de A Batalha (1923-1927), Renovação (1925-1926), A Águia, Seara Nova ou Atlântida.Para este texto, parti de notícia editada no jornal Público. Aí, o jornalista Luís Miguel Queirós citou o responsável pelo portal: "«Enquanto os jornais fizeram a política, as revistas criaram a cultura com que o século passado interpretou e sentiu o mundo», diz Luís Andrade, recordando que quase tudo o que Fernando Pessoa publicou em vida saiu nestas publicações periódicas, e que foi também nelas que António Sérgio começou por divulgar os seus ensaios". A pesquisa pode fazer-se a partir de critérios como índice de autores, conceitos, assuntos, obras citadas ou nomes geográficos.
Procurei a revista Seara Nova e os textos publicados sobre rádio. Descobri 15, quatro dos quais de A. E. da Silva Neves, de 1938. Escolhi o editado em 18 de junho de 1938 (As Intimidades da Rádio). Em época em que o mundo estava mergulhado nas atrocidades da II Guerra Mundial e Portugal tinha uma ditadura que iria durar muitas décadas, parecia que a rádio não era um objeto de inovação e da civilização, dados os problemas que se levantavam: a rádio como meio de interesses económicos ou opiniões pessoais, a rádio em perigo de se tornar monopólio e dos que sonham em obter glória através dela. A. E. da Silva Neves questionava as taxas pagas por recetor e os dirigentes das estações que não suportavam críticas à programação, mas apelava também aos críticos que condenavam levianamente a ação artística e mental das estações. O colaborador da Seara Nova apresentava-se no seu primeiro texto como alguém a contribuir para a formação da opinião pública construtiva.
quinta-feira, 12 de abril de 2018
Folhetim da rádio e a sua canção: Fernando Rocha
Eça de Deus (pseudónimo de Moisés Santos) foi folhetinista de rádio ao longo das décadas de 1950 e 1960. Eu não conheço o paradeiro dos seus textos de teatro radiofónico, pelo que apenas posso traçar dele um perfil pobre. Mas sei que um dos folhetins se chamava O Impostor, transmitido numa estação de rádio portuense. Como hoje na telenovela, houve necessidade de criar uma canção que marcasse o folhetim. Fernando Rocha, locutor e realizador de rádio não era cantor mas deu a sua voz a Sonho de Amor (pode ser ouvido em https://www.youtube.com/watch?v=_J96bvgbOgQ). Afinal, ele era o protagonista do sucesso radiofónico. Pelo que se depreende do texto da capa do disco, a radionovela já estava no ar quando foi pensada e concretizada a música.
A editora Valentim de Carvalho, através da Vadeca (Porto), convidou Fernando Rocha a gravar um single. Eça de Deus teve de "inventar" o lado B, o bolero Desilusão. O maestro Resende Dias passou as músicas para a pauta, fez os arranjos e reuniu um grupo de músicos, quase todos da Orquestra Sinfónica do Porto. Não havendo na cidade um verdadeiro estúdio, a gravação decorreu em armazém da Vadeca, na avenida Camilo. O espaço não tinha qualquer tratamento acústico ou isolamento. Iniciada a gravação, houve uma paragem, devido ao cantar de um galo. A equipa técnica e o material de gravação iriam de Lisboa. A gravação foi orientada pelo Hugo Ribeiro, competente engenheiro de som. A master foi para Londres e o disco publicou-se na marca Parlophone (dados fornecidos por Fernando Rocha, a quem agradeço).
Sobre o folhetim, embora focado no publicado na imprensa, Ernesto Rodrigues desenvolveu a sua tese de doutoramento, depois publicada (Mágico Folhetim. Literatura e Jornalismo em Portugal). Aqui, defende a existência de práticas culturais que decorrem da relação entre jornalismo e literatura, reproduzido ou noticiado em folhetins (fascículos, banda desenhada, cinema-folhetim, seriais, fotonovela, folhetim radiofónico e telenovela). O folhetim, escreve, faz um país inteiro parar todos os dias, sempre à mesma hora, para saber a continuação da história.
A produção do interesse romanesco, continua Ernesto Rodrigues, assenta no desenvolvimento da intriga, com picos de interesse e de audiência. Cada episódio joga com múltiplas peripécias, inesperadas ou comoventes, doseadas para se manter a curiosidade e a expectativa. O professor de Letras indica o procedimento narratológico do folhetim: descontinuidade acional, rutura temporal, alternância de espaços, dentro de espírito acumulatório e reiterativo, em que a intriga se complica, o texto se deslineariza, os cenários mudam e as personagens multiplicam-se, com relevo até para as secundárias. O discurso é rememorativo, anunciador, antecipador, apelativo, explicativo. Tudo justifica, seja o acaso ou a inverosimilhança. Uma última ideia que capto do livro de Ernesto Rodrigues: o folhetim criou, desde os primeiros passos (e hoje à volta das séries e telenovelas) uma autoconsciência do género, que faz a sua vitalidade e tradição.
Leitura: Ernesto Rodrigues (1998). Mágico Folhetim. Literatura e Jornalismo em Portugal. Lisboa: Editorial Notícias
A editora Valentim de Carvalho, através da Vadeca (Porto), convidou Fernando Rocha a gravar um single. Eça de Deus teve de "inventar" o lado B, o bolero Desilusão. O maestro Resende Dias passou as músicas para a pauta, fez os arranjos e reuniu um grupo de músicos, quase todos da Orquestra Sinfónica do Porto. Não havendo na cidade um verdadeiro estúdio, a gravação decorreu em armazém da Vadeca, na avenida Camilo. O espaço não tinha qualquer tratamento acústico ou isolamento. Iniciada a gravação, houve uma paragem, devido ao cantar de um galo. A equipa técnica e o material de gravação iriam de Lisboa. A gravação foi orientada pelo Hugo Ribeiro, competente engenheiro de som. A master foi para Londres e o disco publicou-se na marca Parlophone (dados fornecidos por Fernando Rocha, a quem agradeço).
Sobre o folhetim, embora focado no publicado na imprensa, Ernesto Rodrigues desenvolveu a sua tese de doutoramento, depois publicada (Mágico Folhetim. Literatura e Jornalismo em Portugal). Aqui, defende a existência de práticas culturais que decorrem da relação entre jornalismo e literatura, reproduzido ou noticiado em folhetins (fascículos, banda desenhada, cinema-folhetim, seriais, fotonovela, folhetim radiofónico e telenovela). O folhetim, escreve, faz um país inteiro parar todos os dias, sempre à mesma hora, para saber a continuação da história.
A produção do interesse romanesco, continua Ernesto Rodrigues, assenta no desenvolvimento da intriga, com picos de interesse e de audiência. Cada episódio joga com múltiplas peripécias, inesperadas ou comoventes, doseadas para se manter a curiosidade e a expectativa. O professor de Letras indica o procedimento narratológico do folhetim: descontinuidade acional, rutura temporal, alternância de espaços, dentro de espírito acumulatório e reiterativo, em que a intriga se complica, o texto se deslineariza, os cenários mudam e as personagens multiplicam-se, com relevo até para as secundárias. O discurso é rememorativo, anunciador, antecipador, apelativo, explicativo. Tudo justifica, seja o acaso ou a inverosimilhança. Uma última ideia que capto do livro de Ernesto Rodrigues: o folhetim criou, desde os primeiros passos (e hoje à volta das séries e telenovelas) uma autoconsciência do género, que faz a sua vitalidade e tradição.
Leitura: Ernesto Rodrigues (1998). Mágico Folhetim. Literatura e Jornalismo em Portugal. Lisboa: Editorial Notícias
quarta-feira, 11 de abril de 2018
António Mafra
Esta semana, veio a notícia da morte de um elemento do conjunto António Mafra.
A notícia falava de "José Mafra, de 83 anos, um dos fundadores do Conjunto António Mafra". António Mafra, compositor, letrista do conjunto e intérprete de guitarra portuguesa, morrera em 1977. O vocalista Manuel Barros morrera em julho de 2016. O grupo tinha sido reativado em 1986, com a entrada de Manuel da Campanhã, com viola braguesa e cavaquinho. Rui Guerra seria o agente do grupo.
O conjunto António Mafra despontara em 1955, como dois recortes a seguir indicam (Jornal de Notícias, 18 de fevereiro e 11 de setembro de 1955), a partir de concurso do melhor cantador das freguesias do Porto, patrocinado pelo Grupo Dramático Beneficente Mocidade d'Arrábida. Os irmãos António e José Mafra moravam nessa zona da cidade e faziam parte do grupo de músicos que acompanhava os candidatos ao prémio. O vencedor seria Manuel Barros, da freguesia de Nevogilde. Estava construído o esqueleto do conjunto Caixinha de Surpresas, a tocar ritmos sul-americanos, depois mudado para Conjunto António Mafra, após sucesso em peça encenada por António Pedro (Teatro Experimental do Porto), e com música escrita e cantada em português. O grupo era constituído por António Mafra (empregado comercial), José Mafra (empregado de modas de senhora), Alberto Pereira (mecânico especializado), Manuel Barros Ribeiro (técnico de refrigeração), Mário João Leite (técnico da Emissora Nacional), Manuel Pinto (vendedor da indústria têxtil) e Venâncio Castro (não consegui apurar a profissão).
Os sucessos em disco surgiram de imediato. O primeiro datou logo de 1958, Arrebita, Arrebita, Arrebita, a que se seguiram Centopeia, O Vinho da Clarinha, Sete e Pico, Oito e Coisa, Nove e Tal, Carrapito da Dona Aurora e Oh Zé, Olha o Balão. Os Mafras editariam mais de 30 discos, quatro deles em formato LP, e atuariam nos Estados Unidos (1963, 1964 e 1968), Inglaterra, França e Canadá. A rádio foi a grande promotora desse reconhecimento. Os elementos do conjunto nunca ambicionaram profissionalizar-se e fazer carreira musical nacional e, em especial, internacional.
Do êxito dos Mafras, não posso esquecer o contributo de três homens das indústrias culturais. O primeiro é José Fortes, reputadíssimo técnico de som, que gravou os Mafras no seu espaço de ensaio, à rua dos Clérigos, no Porto. José Fortes foi falar com Carlos Silva, produtor e locutor do programa Última Hora, de Rádio Porto, nos Emissores do Norte Reunidos, para passar música dos conjuntos que ele gravava, embora Carlos Silva já conhecesse os membros do conjunto, pois fora o locutor apresentador do concurso de 1955. Os estúdios de Rádio Porto ficavam precisamente no edifício onde os músicos ensaiavam. O terceiro nome aqui trazido é o de Arnaldo Trindade, que gravou na sua etiqueta Orfeu muitos dos sucessos de António Mafra. Aliás, os Mafras foram aos Estados Unidos através de Arnaldo Trindade, com Carlos Silva a apresentá-los nos espetáculos nos Estados Unidos e no Canadá.
A notícia falava de "José Mafra, de 83 anos, um dos fundadores do Conjunto António Mafra". António Mafra, compositor, letrista do conjunto e intérprete de guitarra portuguesa, morrera em 1977. O vocalista Manuel Barros morrera em julho de 2016. O grupo tinha sido reativado em 1986, com a entrada de Manuel da Campanhã, com viola braguesa e cavaquinho. Rui Guerra seria o agente do grupo.
O conjunto António Mafra despontara em 1955, como dois recortes a seguir indicam (Jornal de Notícias, 18 de fevereiro e 11 de setembro de 1955), a partir de concurso do melhor cantador das freguesias do Porto, patrocinado pelo Grupo Dramático Beneficente Mocidade d'Arrábida. Os irmãos António e José Mafra moravam nessa zona da cidade e faziam parte do grupo de músicos que acompanhava os candidatos ao prémio. O vencedor seria Manuel Barros, da freguesia de Nevogilde. Estava construído o esqueleto do conjunto Caixinha de Surpresas, a tocar ritmos sul-americanos, depois mudado para Conjunto António Mafra, após sucesso em peça encenada por António Pedro (Teatro Experimental do Porto), e com música escrita e cantada em português. O grupo era constituído por António Mafra (empregado comercial), José Mafra (empregado de modas de senhora), Alberto Pereira (mecânico especializado), Manuel Barros Ribeiro (técnico de refrigeração), Mário João Leite (técnico da Emissora Nacional), Manuel Pinto (vendedor da indústria têxtil) e Venâncio Castro (não consegui apurar a profissão).Os sucessos em disco surgiram de imediato. O primeiro datou logo de 1958, Arrebita, Arrebita, Arrebita, a que se seguiram Centopeia, O Vinho da Clarinha, Sete e Pico, Oito e Coisa, Nove e Tal, Carrapito da Dona Aurora e Oh Zé, Olha o Balão. Os Mafras editariam mais de 30 discos, quatro deles em formato LP, e atuariam nos Estados Unidos (1963, 1964 e 1968), Inglaterra, França e Canadá. A rádio foi a grande promotora desse reconhecimento. Os elementos do conjunto nunca ambicionaram profissionalizar-se e fazer carreira musical nacional e, em especial, internacional.
Do êxito dos Mafras, não posso esquecer o contributo de três homens das indústrias culturais. O primeiro é José Fortes, reputadíssimo técnico de som, que gravou os Mafras no seu espaço de ensaio, à rua dos Clérigos, no Porto. José Fortes foi falar com Carlos Silva, produtor e locutor do programa Última Hora, de Rádio Porto, nos Emissores do Norte Reunidos, para passar música dos conjuntos que ele gravava, embora Carlos Silva já conhecesse os membros do conjunto, pois fora o locutor apresentador do concurso de 1955. Os estúdios de Rádio Porto ficavam precisamente no edifício onde os músicos ensaiavam. O terceiro nome aqui trazido é o de Arnaldo Trindade, que gravou na sua etiqueta Orfeu muitos dos sucessos de António Mafra. Aliás, os Mafras foram aos Estados Unidos através de Arnaldo Trindade, com Carlos Silva a apresentá-los nos espetáculos nos Estados Unidos e no Canadá.
Deixo para o fim um excerto de entrevista que o radialista Carlos Silva (programa Última Hora) me concedeu, onde ele, entre outras memórias (Domingos Lança Moreira, Maria Adalgisa Costa, Maria Amélia Canossa, Olga Cardoso e Marino Marini), falou do conjunto António Mafra (minuto 5:57). Uma leitura particular da cultura da rádio e da música ligeira portuense, agora em desaparecimento e à espera do labor dos historiadores.
segunda-feira, 2 de abril de 2018
O ensino da música e a Emissora Nacional em João de Freitas Branco (1942)
O artigo de João de Freitas Branco na Arte Musical, com o título "O Problema da Música em Portugal", saiu a 25 de maio de 1942. Ele era filho do compositor Luís de Freitas Branco, também diretor da revista, e possuía o curso do Conservatório Nacional de Lisboa. Escreveu diversos livros sobre a música. Neste artigo, pouco tempo antes de assumir funções de assistente de programas musicais na Emissora Nacional (1944, estação para a qual criou ainda o programa O Gosto pela Música, em 1956), o autor discorreu sobre a música no nosso país.
Qual o diagnóstico traçado por João de Freitas Branco ao olhar uma sociedade em grave crise causada pela II Guerra Mundial? Mais do que encontrar razões de mudança, ele traçaria a situação da época e consideraria quatro elementos, o primeiro dos quais as sociedades de concertos, com sócios amadores de música, profissionais como médicos, engenheiros ou militares do quadro, que frequentavam aulas de piano para melhor compreender os concertos. As sociedades de concertos contribuíam para elevar o nível cultural das elites. O segundo elemento concernia às sociedades corais, que, com os seus dois ensaios semanais, serviam de passatempo e sabor artístico. O terceiro elemento, no domínio da formação, era o Instituto de Alta Cultura, que atribuía bolsas de estudo no estrangeiro. Um beneficiado seria José Vianna Motta.
Mas o alvo principal do artigo de João de Freitas Branco era a Emissora Nacional, então com cerca de oito anos de radiodifusão. O autor viu duas razões para destacar a importância da rádio. Por um lado, a Emissora Nacional dava "de comer à quase totalidade dos nossos melhores executantes", pelo que alertava para as condições económicas dos estudantes de música. Teriam emprego após a conclusão da sua formação musical? A outra razão era a da receção, pois a Emissora Nacional servia a instrução musical em pleno, com a boa música a chegar a todos por intermédio de um "pequeno aparelho de TSF". A rádio, no período negro da II Guerra Mundial e nas décadas seguintes, foi o ponto de arranque e de chegada da cultura popular e da alta cultura, divertindo e formando a opinião. À rádio de Estado, que teve ainda a função menos útil de ideóloga do regime político, não se pode negar a sua grande importância.
Qual o diagnóstico traçado por João de Freitas Branco ao olhar uma sociedade em grave crise causada pela II Guerra Mundial? Mais do que encontrar razões de mudança, ele traçaria a situação da época e consideraria quatro elementos, o primeiro dos quais as sociedades de concertos, com sócios amadores de música, profissionais como médicos, engenheiros ou militares do quadro, que frequentavam aulas de piano para melhor compreender os concertos. As sociedades de concertos contribuíam para elevar o nível cultural das elites. O segundo elemento concernia às sociedades corais, que, com os seus dois ensaios semanais, serviam de passatempo e sabor artístico. O terceiro elemento, no domínio da formação, era o Instituto de Alta Cultura, que atribuía bolsas de estudo no estrangeiro. Um beneficiado seria José Vianna Motta.
Mas o alvo principal do artigo de João de Freitas Branco era a Emissora Nacional, então com cerca de oito anos de radiodifusão. O autor viu duas razões para destacar a importância da rádio. Por um lado, a Emissora Nacional dava "de comer à quase totalidade dos nossos melhores executantes", pelo que alertava para as condições económicas dos estudantes de música. Teriam emprego após a conclusão da sua formação musical? A outra razão era a da receção, pois a Emissora Nacional servia a instrução musical em pleno, com a boa música a chegar a todos por intermédio de um "pequeno aparelho de TSF". A rádio, no período negro da II Guerra Mundial e nas décadas seguintes, foi o ponto de arranque e de chegada da cultura popular e da alta cultura, divertindo e formando a opinião. À rádio de Estado, que teve ainda a função menos útil de ideóloga do regime político, não se pode negar a sua grande importância.
sexta-feira, 30 de março de 2018
Livros sobre rádios locais (2)
Emília Amaral (1923) frequentou o ensino liceal e coordenou a Cruz Vermelha Portuguesa, presumo que em Águeda, de onde é natural. Publicou diversos livros, entre os quais Águeda Deste Século (1992) e Maria, a Aguedense (2002).
Do prefácio de A Nossa Voz Através da Rádio Botaréu (2003), assinado por Fernando Cardoso, ficamos a saber que este livro está composto de textos escritos e lidos por Emília Amaral (Espaço Literário) em programas da Rádio Botaréu (Águeda): Caixa de Surpresas (1992-1994), Terra Livre e Em Direto (1994-2000). Com ela, colaboraram a jornalista e locutora Irene Costa e o capitão Mário Barbino (no primeiro dos programas). Invariavelmente, a autora começava o programa assim: "sim, Maria Irene, mas primeiro as minhas boas noites aos senhores ouvintes", a significar uma pergunta inicial da locutora e o horário do programa. O programa tinha, com frequência, convidados, o que permite pensar em tertúlias radiofónicas em torno de temas aguedenses.
Nos seus textos, a autora falaria de Águeda, localização, padroeira Santa Eulália, lendas, praia fluvial, romarias e procissões, ranchos, filarmónicas, Carnaval, Páscoa, Natal, bailes, magustos, matança do porco, jogos, canções, escolas primárias e doenças. Cada texto tem a dimensão de duas a três páginas.
O livro é uma síntese de uma realidade social e cultural, creio eu, espelho da vida de uma cidade de média dimensão, em que as pessoas se conhecem e diligenciam por ter estruturas próprias, das quais se regozijam. Numa cidade grande como Lisboa não haveria, certamente, um tipo de programa como o emitido pela estação de Águeda. A razão da minha observação é a apresentação de uma instituição local, o CEFAS (Centro de Formação e Assistência Social), obra do padre José Camões (pp. 20-21). Para o seu desenvolvimento, organizaram-se cortejos de colheitas. A música de grupos musicais serviu para atrair as pessoas, levadas para o adro da igreja, com leilão de coelhos, galinhas, pombos, milho, ovos, feijão, batatas e bolos regionais. No Carnaval, um grupo de jovens mandavam parar os automóveis perto da ponte para angariar fundos junto dos seus condutores e uma equipa de senhoras deslocou-se a empresas industriais para obter tijolos, fechaduras, parafusos e pregos.
Do livro, como se fosse um manual de antropologia urbana, destaco também as quatro páginas dedicadas ao teatro em Águeda (pp. 71-74). Emília Amaral apresenta-nos o teatro da Fábrica, onde antes estivera a fábrica da cera, cerca de 1910, onde se representaram peças de autoria do dr. Toy (António Homem de Mello), dos Vitalinos e do dr. Adolfo Portela. No Salão da Senhora Baronesa, para além dos bailes, representou-se Astrólogo Mendes (Fernão Corte Real, 1918). Outras peças: Rosas de Todo o Ano (Júlio Dantas) e A Madrugada (Fernando Caldeira). No Salão da Senhora Baronesa, efetuar-se-iam os ensaios da música de Águeda, dirigidos por Godofredo Duarte. No Aguedense Pathé Cinema, além dos filmes, havia variedades. A autora lembrava-se de O Barril à Venda Nova (Serafim Soares da Graça), Gaiato de Lisboa e Grão de Bico. O Cine-Teatro de Águeda (Orfeon), inaugurado em 1943, veria a revista Águas do Botaréu (Francisco Lima, 1946). Emília Amaral destacaria ainda a Juventude Católica Feminina, com récitas, o Salão Cultural da Escola Central de Sargentos, o CEFAS (1967) e o Cine-Teatro S. Pedro (1980).
Igualmente, houve destaque à música e músicos de Águeda: Banda Velha de Fermentelos, Conjunto Musical Swing Águeda Jazz, cinco irmãos Duarte, atuantes durante 22 anos (1943-1965) e Orquestra Típica de Águeda (1970). E a outras instituições como ARCA (Associação Recreativa e Cultural de Águeda), Aero-Clube de Águeda e Sociedade Hípica de Águeda, e personalidades da cidade: Manuel de Sousa Carneiro, Fernão Marques Gomes, João Breda, António Filomeno Carneiro, Adolfo Portela, Carlos Alberto Marnoto e António Homem de Mello.
A autora, cujo programa fez entre os seus 69 e 77 anos, mostrava uma grande juventude e abertura a questões presentes, com o pormenor que se lia também nos jornais regionais em papel. Digo isto ao ler o texto respeitante a uma convidada, Maria Antónia Morais (edição de 25 de janeiro de 2000): "Aos sete anos - na companhia dos seus pais - foi para Lisboa, começando aí a instrução primária, a qual veio terminar em Águeda sob a orientação da professora D. Laura Brinco. Paralelamente, aprendeu o catecismo e fez a sua primeira comunhão solene. E depois de completar um curso secundário, integrou-se no curso de Relações Públicas e Humanas. [...] A nossa convidada casou aos 22 anos, em Benfica, na Igreja de Nossa Senhora do Amparo. Foi seu marido um jovem formado em Gestão de Empresas e advogado dos Sindicatos. Ambos resolveram adotar um menino - o Ângelo".
O marido da convidada pertencia à extrema-esquerda e seria preso pela PIDE em 1972. Após abril de 1974, ela aderiu ao PSD. A separação deu-se 16 anos depois do casamento. Ela voltaria a casar, em 1990, com o maestro e capitão Amílcar Morais. Retiro aqui uma observação: enquanto o segundo marido era nomeado, o primeiro permanecia ligado apenas à profissão. Parecia um lapso freudiano.
Do prefácio de A Nossa Voz Através da Rádio Botaréu (2003), assinado por Fernando Cardoso, ficamos a saber que este livro está composto de textos escritos e lidos por Emília Amaral (Espaço Literário) em programas da Rádio Botaréu (Águeda): Caixa de Surpresas (1992-1994), Terra Livre e Em Direto (1994-2000). Com ela, colaboraram a jornalista e locutora Irene Costa e o capitão Mário Barbino (no primeiro dos programas). Invariavelmente, a autora começava o programa assim: "sim, Maria Irene, mas primeiro as minhas boas noites aos senhores ouvintes", a significar uma pergunta inicial da locutora e o horário do programa. O programa tinha, com frequência, convidados, o que permite pensar em tertúlias radiofónicas em torno de temas aguedenses.
Nos seus textos, a autora falaria de Águeda, localização, padroeira Santa Eulália, lendas, praia fluvial, romarias e procissões, ranchos, filarmónicas, Carnaval, Páscoa, Natal, bailes, magustos, matança do porco, jogos, canções, escolas primárias e doenças. Cada texto tem a dimensão de duas a três páginas.
O livro é uma síntese de uma realidade social e cultural, creio eu, espelho da vida de uma cidade de média dimensão, em que as pessoas se conhecem e diligenciam por ter estruturas próprias, das quais se regozijam. Numa cidade grande como Lisboa não haveria, certamente, um tipo de programa como o emitido pela estação de Águeda. A razão da minha observação é a apresentação de uma instituição local, o CEFAS (Centro de Formação e Assistência Social), obra do padre José Camões (pp. 20-21). Para o seu desenvolvimento, organizaram-se cortejos de colheitas. A música de grupos musicais serviu para atrair as pessoas, levadas para o adro da igreja, com leilão de coelhos, galinhas, pombos, milho, ovos, feijão, batatas e bolos regionais. No Carnaval, um grupo de jovens mandavam parar os automóveis perto da ponte para angariar fundos junto dos seus condutores e uma equipa de senhoras deslocou-se a empresas industriais para obter tijolos, fechaduras, parafusos e pregos.
Do livro, como se fosse um manual de antropologia urbana, destaco também as quatro páginas dedicadas ao teatro em Águeda (pp. 71-74). Emília Amaral apresenta-nos o teatro da Fábrica, onde antes estivera a fábrica da cera, cerca de 1910, onde se representaram peças de autoria do dr. Toy (António Homem de Mello), dos Vitalinos e do dr. Adolfo Portela. No Salão da Senhora Baronesa, para além dos bailes, representou-se Astrólogo Mendes (Fernão Corte Real, 1918). Outras peças: Rosas de Todo o Ano (Júlio Dantas) e A Madrugada (Fernando Caldeira). No Salão da Senhora Baronesa, efetuar-se-iam os ensaios da música de Águeda, dirigidos por Godofredo Duarte. No Aguedense Pathé Cinema, além dos filmes, havia variedades. A autora lembrava-se de O Barril à Venda Nova (Serafim Soares da Graça), Gaiato de Lisboa e Grão de Bico. O Cine-Teatro de Águeda (Orfeon), inaugurado em 1943, veria a revista Águas do Botaréu (Francisco Lima, 1946). Emília Amaral destacaria ainda a Juventude Católica Feminina, com récitas, o Salão Cultural da Escola Central de Sargentos, o CEFAS (1967) e o Cine-Teatro S. Pedro (1980).
Igualmente, houve destaque à música e músicos de Águeda: Banda Velha de Fermentelos, Conjunto Musical Swing Águeda Jazz, cinco irmãos Duarte, atuantes durante 22 anos (1943-1965) e Orquestra Típica de Águeda (1970). E a outras instituições como ARCA (Associação Recreativa e Cultural de Águeda), Aero-Clube de Águeda e Sociedade Hípica de Águeda, e personalidades da cidade: Manuel de Sousa Carneiro, Fernão Marques Gomes, João Breda, António Filomeno Carneiro, Adolfo Portela, Carlos Alberto Marnoto e António Homem de Mello.
A autora, cujo programa fez entre os seus 69 e 77 anos, mostrava uma grande juventude e abertura a questões presentes, com o pormenor que se lia também nos jornais regionais em papel. Digo isto ao ler o texto respeitante a uma convidada, Maria Antónia Morais (edição de 25 de janeiro de 2000): "Aos sete anos - na companhia dos seus pais - foi para Lisboa, começando aí a instrução primária, a qual veio terminar em Águeda sob a orientação da professora D. Laura Brinco. Paralelamente, aprendeu o catecismo e fez a sua primeira comunhão solene. E depois de completar um curso secundário, integrou-se no curso de Relações Públicas e Humanas. [...] A nossa convidada casou aos 22 anos, em Benfica, na Igreja de Nossa Senhora do Amparo. Foi seu marido um jovem formado em Gestão de Empresas e advogado dos Sindicatos. Ambos resolveram adotar um menino - o Ângelo".
O marido da convidada pertencia à extrema-esquerda e seria preso pela PIDE em 1972. Após abril de 1974, ela aderiu ao PSD. A separação deu-se 16 anos depois do casamento. Ela voltaria a casar, em 1990, com o maestro e capitão Amílcar Morais. Retiro aqui uma observação: enquanto o segundo marido era nomeado, o primeiro permanecia ligado apenas à profissão. Parecia um lapso freudiano.
terça-feira, 27 de março de 2018
Entregue o Prémio Igrejas Caeiro (SPA) a José Manuel Nunes
Foi hoje ao final da tarde que José Manuel Nunes recebeu o prémio carreira de rádio Igrejas Caeiro (de que destaco as atividades de realizador do programa Página 1 e presidente da RDP). Nos vídeos abaixo, o elogio de João Coelho (também antigo dirigente da RDP) e José Jorge Letria (presidente da Sociedade Portuguesa de Autores), além do lembrar de memórias próprias do realizador de rádio agora premiado.
Livros sobre rádios locais (1)
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| Capa do livro: Maria Silvana Violante Machado |
A autora colaborou com um programa na Rádio Fundação (Guimarães). Não dito de modo explícito, creio que os poemas seriam apresentados nesse programa, versando conversas telefónicas, diálogos entre a poetisa no estúdio e os ouvintes, o pulsar de novos e velhos, as boas e más notícias, o folclore, o associativismo, tendo como pano de fundo a solidariedade, a amizade e o humanismo, com a música como pretexto (prefácio de Barroso da Fonte, diretor do jornal Poetas & Trovadores). O mesmo Barroso da Fonte enaltece o papel deste modo de fazer rádio local, com um papel social e cívico de muita importância no final do século XX.
O livro divide-se em três partes, separadas por imagens: poesia solta, diálogo com a rádio e o povo, desabafos da sua vida menos boa, evidenciando a crise empresarial na Coelima (março-abril de 1991), onde teria trabalhado. Aliás, outro introdutor da obra, António Feliciano, remete a autora para o Orfeão da Coelima. Dois dos poemas mais sentidos de Ana Machado dirigem-se a uma estagiária de psicologia na Coelima, Luísa, nesse momento de crise, quando as notícias davam conta do (previsível) despedimento de duas mil pessoas: "Disso vamos ter fé / Pela Coelima vamos lutar / Com a ida a Guimarães a pé / No futuro vamos apostar" e "Esta marcha foi feita / Com a Luisinha a animar / Deu-nos a coragem perfeita / Para o Vale do Ave reivindicar". O poema acaba com um beijinho de Ana Machado e de Goretti, certamente outra colaboradora da Coelima. Um dos poemas dedicado à estagiária descreve-a com olhos azuis, óculos e cabelos compridos aloirados, a arranjar logo um namorado dentro da Coelima, o qual pensaria em entrar para a universidade nesse ano.
Ana Machado (1954) exerceu funções de secretariado no domínio da psicologia e formação profissional (1970-1996) e na câmara municipal de Guimarães, na Divisão de Ação Cultural e Social (desde 1996). Ligada ao folclore e às danças de salão, era, à data da edição do livro, presidente do grupo Regional Folclórico e Agrícola de Pevidém, presidente da Associação de Folclore e Etnografia de Guimarães e membro dos corpos diretivos da Federação de Folclore Português e da Sociedade Musical de Pevidém.
Leitura: Ana Machado (2006). O Poeta, a Rádio e o Povo. Guimarães: Editora Cidade Berço
segunda-feira, 26 de março de 2018
Rádio Clube Lusitânia
A sua programação, incluída na mesma frequência que outras estações do Porto (Grémio dos Comerciantes da Rádio, com emissor a centralizar as emissões, Ideal Rádio, ORSEC, Eletromecânico, Portuense Rádio Clube e Rádio Clube Invicta), era composta por palestras (cultural, feminina), programas (ligeiro, popular, música de concerto e música gravada), teatro radiofónico e rubrica semanal O Meu Jornal. Num dos blocos desta rubrica, Júlio Nogueira defendeu a rádio como arte, criticou as rubricas de discos pedidos com dedicatórias (tipo: "posso pedir um disco? dedico o disco à minha namorada") e fez a apologia dos grupos dramáticos. Entre os colaboradores encontravam-se Armando Leça, Pedro Homem de Melo, maestro Raul Lemos e Rui Luís Gomes.
Finalizada a II Guerra Mundial, e pensando que o regime de Salazar iria acabar, Júlio Nogueira fez uma programação em defesa da democracia e da liberdade de expressão. A polícia política prendeu-o e a licença de radiodifusão foi cassada, nunca mais emitindo mesmo com outras propostas.
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