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quarta-feira, 18 de julho de 2018

Serviço Público de Media em Portugal em tese de doutoramento

Foi hoje de manhã que Nuno Conde defendeu a sua tese de doutoramento em Ciências da Comunicação na Universidade Católica Portuguesa, sob o título Legitimidade do Serviço Público de Media e Relações de Poder: o Caso Português (2002-2014). A prova foi classificada com Excelente, 19 valores.

Do resumo da tese, retiro o seguinte: "A presente investigação incide sobre a problemática da legitimidade do serviço público de media em Portugal. A pesquisa empírica desenvolvida (análise documental e entrevistas a protagonistas dos campos político, regulatório, dos media e da sociedade civil) centra-se na RTP, ao longo de três ciclos políticos, entre 2002 e 2014. Assim, analisamos as opções políticas sobre os modelos de financiamento e governação do operador de serviço público, devidamente contextualizadas nos planos económico e regulatório. A investigação permite-nos concluir que o serviço público é perspetivado pelo poder político como um agente regulador do mercado, quer no plano económico, por via da imposição de restrições à publicidade comercial na RTP, quer na dimensão mais abstrata e subjetiva de agente indutor da qualidade na programação e de uma ética de antena no espaço comunicacional. Constatamos que a comunicação política em torno da ideia da privatização da RTP é utilizada como estratégia de afirmação política, mobilizadora de outros significados, designadamente de opções ideológicas sobre o papel do Estado na sociedade e na economia".

Aqui, manifesto a minha grande alegria e orgulho pelo trabalho apresentado e aprovado. Como orientador (e amigo) de Nuno Conde no mestrado e agora no doutoramento, reconheço a enorme valia da sua investigação. Profissional que trabalhou (ou trabalha) como consultor de entidades do Estado e gestor em várias empresas de media (e televisão), o seu conhecimento do serviço público de media é um dos mais estruturados que existem no país. Espero sinceramente que publique a sua tese, alargamento fundamental para se compreenderem os media, e a televisão em especial, no primeiro quartel deste século em Portugal.

Com a realização desta prova pública, fecho o meu ciclo de docência e orientações. Foi um período riquíssimo e agradeço à Universidade Católica todas as oportunidades que tive. Mas, acabado este ciclo, começa um novo. Um projeto financiado pela FCT, Broadcasting in the Portuguese Empire (acrónimo: BiPE), sob a liderança de Nelson Ribeiro, diretor da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica, mais três elementos, entre os quais eu me encontro, já está em curso. A vida da universidade é assim: colorida e cheia de desafios.

Abaixo a fotografia do júri com o novo doutor e um vídeo, feito após a prova, onde Nuno Conde apresenta as principais linhas do seu estudo.


Da esquerda para a direita: Manuel Pinto (Universidade do Minho), Sílvio Santos (Universidade de Coimbra), Rogério Santos, Nelson Ribeiro (Universidade Católica Portuguesa), Nuno Conde, Rita Figueiras (Universidade Católica Portuguesa) e Francisco Rui Cádima (Universidade Nova de Lisboa). Fotografia: Cristina Morgado

 

sexta-feira, 6 de julho de 2018

A imprensa católica açoriana segundo José Paulo Machado

Hoje, na Universidade Católica Portuguesa, defendeu tese de doutoramento José Paulo Machado, com o título A Imprensa Católica nos Açores: do Início do Século XX ao Concílio Plenário Português.

Da introdução, retiro uma questão que segue o título da tese: como se organizaram os media religiosos nos Açores nos três primeiros decénios do século XX, atendendo a escassos recursos financeiros e humanos? Por diversas vezes, os jornalistas desses meios apelaram à ajuda. Ou, como escreveu o aluno: "colocavam-se junto dos seus leitores de mão estendida" (p. 46). No todo, a tese procurou saber as causas que levaram a igreja a abraçar a imprensa, a imprensa nos Açores no início do século XX e as principais temáticas dos editoriais católicos açorianos.

O padre e agora doutor José Paulo Machado estudou 17 periódicos (jornais nacionalistas, boletins paroquiais, jornais associados ao Centro Católico Português, imprensa diarista de Angra do Heroísmo e revistas de foro cultural) num total de 5132 jornais, focando a sua análise empírica nos editoriais ("entrevista", aspas colocadas por mim, âmbitos religioso, político, locais-regionais e sociais-económicos, sobre o ensino, patrióticos, sobre a imprensa, âmbito literário-científico-cultural e sobre política internacional).

Como um resultado da investigação, em antecipação ao Concílio Plenário Português (1926), a reunião dos jornalistas católicos açorianos (1923) delineou, como grande linha de força, a unidade temática da imprensa católica insular. Seguindo esta orientação, com a extinção ou persistência dos periódicos estudados, seria criado o órgão oficial da Diocese, A União, em consonância com as deliberações do Concílio Plenário Português de 1926. Isto numa altura de grandes mudanças políticas (ditadura e Estado Novo) e situação económica (preço crescente do papel de jornal).

Além do trabalho escrito e apresentação oral do mesmo, a arguição tem um papel importante no valor da prova pública. Aqui, a leitura atenta e crítica de Alexandre Manuel Leite e Maria Inácia Rezola, bem como os contributos dos meus colegas da Universidade Católica, alargou muito a perspetiva do texto, num verdadeiro contributo científico. Enquanto orientador desta tese de doutoramento, senti-me gratificado pelo rigor das intervenções. E manifesto ainda a minha alegria pelo presidente do júri ser o padre José Tolentino Mendonça, vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa e muito recentemente nomeado arcebispo e com os cargos de arquivista do Arquivo Secreto do Vaticano e bibliotecário da Biblioteca Vaticana, a assumir no começo de setembro de 2018.


[da esquerda para a direita: Alexandre Manuel Leite, Universidade Autónoma de Lisboa, José Miguel Sardica, Universidade Católica Portuguesa, Nelson Ribeiro, Universidade Católica Portuguesa, José Tolentino Mendonça, Universidade Católica Portuguesa, José Paulo Machado, Rogério Santos, Universidade Católica Portuguesa, e Maria Inácia Rezola, Escola Superior de Comunicação Social]

Em último, fica aqui um apontamento em vídeo do próprio José Paulo Machado.

 

terça-feira, 1 de maio de 2018

Campanha eleitoral de Humberto Delgado de 1958 em tese de doutoramento

Foi ontem que a jornalista da TVI Joana Reis defendeu tese de doutoramento com o título O Modelo de Comunicação Política da Campanha Eleitoral de Humberto Delgado em 1958: uma Campanha Americanizada. Local: Universidade Católica Portuguesa.

Para a agora doutora em Ciências da Comunicação, Humberto Delgado inauguraria em Portugal um novo estilo de aproximação à população, revelado pela forte adesão popular (Viseu, Porto, reunião no café Chave d'Ouro em Lisboa). Ele, que permaneceu alguns anos nos Estados Unidos em cargo diplomático-militar, seguiu de perto as campanhas de comunicação eleitorais de Eisenhower e aplicou-as quando decidiu concorrer à vagatura de presidente da República, após Francisco Craveiro Lopes.

A investigadora e jornalista utilizou documentação inédita, resultante nomeadamente de um fundo pertencente a Álvaro Monteiro, advogado e republicano que já apoiara a campanha de Norton de Matos e que foi doado à Torre do Tombo, levando a investigadora a analisar esses papéis e descobrir o funcionamento da organização da campanha.

Num primeiro momento, a pesquisa envolveu a reconstituição da campanha, após o que procedeu à identificação e análise dos elementos constituintes, para, em terceiro lugar, olhar a campanha dentro de um modelo de comunicação política (da investigadora Pippa Norris). Antes da análise da campanha eleitoral de Delgado, foi feito o levantamento de outras candidaturas de oposição: Norton de Matos (1949) e Quintão Meireles (1952). Houve ainda espaço para interpretar a razão do afastamento de Craveiro Lopes, que não concorreu a um segundo mandato, a escolha de Delgado, após consulta a outro possível candidato, a união da oposição, com desistência do candidato comunista, e a agitação criada pela campanha da oposição. Um dos capítulos da tese debruçou-se sobre a organização e atividades da campanha, a coordenação da campanha (centralizada e descentralizada, com destaque para as comissões locais de Viseu e Porto), voluntariado na campanha, custos e financiamento, material de propaganda, palavras de ordem da campanha e relação com os media. Neste último caso, Joana Reis defendeu que a campanha de Delgado foi bastante influenciada pelo modelo americano, pese embora a não existência de cobertura da televisão (ainda incipiente) e a fugaz aparição em programas radiofónicos, proibidos logo depois.

No último capítulo, a nova doutora refletiu sobre os principais elementos da campanha: o herói da guerra, as palavras de ordem, a mensagem do candidato (em especial a expressão "obviamente demito-o", referindo-se a Salazar), os materiais de campanha, a atenção a públicos específicos, a difusão da mensagem e as dificuldades com a censura, o perfil do apoiante e os elementos de profissionalização na campanha.

Joana Reis é autora de A Transição Impossível: a Rutura de Francisco Sá Carneiro com Marcelo Caetano (2010, Casa das Letras) e Melo e Castro: o Provedor que Dizia Sim à Democracia (2013, Casa das Letras).


[imagem: da esquerda para a direita: Rogério Santos, Paula Espírito Santo, Rita Figueiras, orientadora, Joana Reis, Nelson Ribeiro, presidente do júri e diretor da Faculdade de Ciências Humanas, Isabel Férin da Cunha e Estrela Serrano]

A minha intervenção seria de prolongamento de análise a partir do uso da rádio na campanha e alguma contextualização de vários agentes políticos na época. Na campanha eleitoral à presidência da República em 1958, com três candidatos (Américo Tomás, Humberto Delgado e Arlindo Vicente), Rádio Clube Português abriu espaços de propaganda política. A 15 de maio, na emissão da campanha de Delgado ouviu-se: "os sofrimentos do povo têm o direito de gritar bem alto o seu desespero, mesmo que isso incomode os tímpanos melindrosos da União Nacional ou do próprio Sr. dr. Oliveira Salazar. [...] haveremos de inculpar esses sofrimentos aqueles que deles têm a responsabilidade, enquanto a censura não calar a nossa boca - porta-voz do povo". Alguns dias depois, a direção da estação de rádio publicava um comunicado, a criticar a censura oficial por ter aprovado o texto transmitido. Acabavam aí as emissões da candidatura de Delgado (e também de Arlindo Vicente).

Humberto Delgado fora a escolha da oposição não comunista como candidato à eleição, depois da recusa de Francisco Cunha Leal, que alegou razões de saúde. O engenheiro e militar Cunha Leal fora diretor de O Século, reitor da Universidade de Coimbra, deputado, antigo ministro das Finanças e primeiro-ministro da Primeira República e preso político diversas vezes. Apesar de não ser candidato em 1958, ele escreveu diversos textos, quase manifestos, contra o regime, provocando a polémica, com réplicas e tréplicas com os ministérios do Interior e das Finanças. Cunha Leal apoiara antes as candidaturas de Norton de Matos (1949) e de Quintão Meireles (1952). Ainda em 1968, enviaria uma mensagem de apoio ao congresso republicano em Aveiro. Faleceu em 1970, com 81 anos.

Salazar, habitualmente parco em termos de uso da comunicação social, fez três discursos pela rádio e publicados na imprensa na campanha de 1958: no começo, no final e após as eleições. Na última, contundente, disse que a oposição fizera uma campanha subversiva, pelo que as eleições presidenciais seguintes seriam disputadas com modelo distinto: colégio dentro da Assembleia Nacional. Desse discurso, ficaram frases como "eu compreendo que a censura moleste um pouco os jornais", "de todos os agrupados para o assalto [ao poder], só uns, embora pouco numerosos, têm uma doutrina, uma fé, métodos próprios de ação: são os comunistas" e "sou um homem que está sempre preparado a partir". Isso aconteceu apenas em 1968, quando de doença irreversível.

Após as eleições, Delgado foi exonerado do cargo na Aeronáutica Civil – que o próprio não acreditava acontecer – e Craveiro Lopes elevado a marechal. Jorge Botelho Moniz, o patrão de Rádio Clube Português, ficou doente entre 22 de maio e 12 de junho (problemas cardíacos), com alta após as eleições. Berta Craveiro Lopes, a mulher do presidente da República substituído, falecera depois das eleições, após um derrame cerebral, a ilustrar certamente o ambiente de consternação no lar dos Craveiro Lopes. Depois da tomada de posse de Tomás, Salazar pediu exoneração do cargo, atitude protocolar mas hipócrita, porque era ele que controlava o aparelho de Estado.

O novo presidente convidou-o a formar e renovar o ministério. Dentro de profunda remodelação, Marcelo Caetano, o ministro da Presidência, foi afastado e substituído por Pedro Teotónio Pereira. Para a pasta da Defesa, entrou Júlio Botelho Moniz, o irmão do patrão de Rádio Clube Português. Em 1961, ano horrível para Salazar, Júlio Botelho Moniz encabeçaria uma revolta perdida contra o ditador.

Já nas eleições de 1954, a oposição obtivera espaço radiofónico em Rádio Clube Português. Mas, logo após o primeiro registo, a estação proibiria novas alocuções. E Cunha Leal proferira em Rádio Clube Português uma palestra política em 1952, em apoio da candidatura de Quintão Meireles.

Em 1959, Humberto Delgado refugiou-se na embaixada do Brasil e Henrique Galvão refugiou-se na embaixada da Argentina. Galvão seria o mentor de Delgado. O resto da história é mais conhecido: o assalto ao paquete Santa Maria, chefiado por Henrique Galvão, e o assassinato de Humberto Delgado pela PIDE.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Arquivo de Memórias Orais (12 de abril de 2018)

No dia 12 de abril próximo, a partir das 10:00, na Biblioteca Nacional, Júlia Leitão de Barros, apresenta o projeto Arquivo de Memórias Orais das Profissões da Comunicação (AMOPC), de que é coordenadora. Oradores convidados: Paula Godinho e José Luís Garcia. Moderação: Francisco Sena Santos (programa da sessão abaixo). Mais informações: e-mail jbarros@escs.ipl.pt.


sexta-feira, 30 de março de 2018

Media e Portugal Contemporâneo em congresso

O Congresso Os Media no Portugal Contemporâneo: da Ditadura à Democracia, a realizar na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, a 18 e 19 de outubro de 2018, "pretende refletir sobre o papel dos meios de comunicação social – com ênfase na imprensa, na rádio e na televisão – no longo período da ditadura e nos primeiros anos da democracia portuguesa. Incluem-se neste quadro os media portugueses da metrópole e das províncias ultramarinas portuguesas. Numa perspetiva interdisciplinar, procura-se também discutir metodologias e problemáticas ligadas ao estudo do passado dos media. A par de sessões plenárias com apresentações acerca dos vários meios de comunicação social nos dois períodos, bem como de problemáticas principais e desafios que se colocam à história dos media, será reservado espaço a sessões paralelas, organizadas a partir de propostas de comunicações, que incidam sobre a ditadura até à década de 1980".

A organização apela à participação no congresso, através da submissão de propostas enquadradas em temas como media e sociedade, media e poderes político e económico, práticas e rotinas de trabalho, ruturas e continuidades, discursos, censura(s), legislação e regulação, olhares estrangeiros, cinema, cartaz e mural, publicidade e relações públicas, e metodologias e fontes para a história dos media. Outros temas serão aceites, desde que se refiram ao período cronológico definido, até ao dia 31 de Maio de 2018, para o endereço: congresso.media.portugal@gmail.com.

terça-feira, 20 de março de 2018

Literacias, media e informação em Coimbra

A chamada de trabalhos para o Congresso Internacional Literacias, Media e Informação, a realizar nos dias 24 e 25 de maio de 2018, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra,  foi alargada até 31 de março. Mais informações em http://www.uc.pt/fluc/dfci/slideshow/pdfs/cfp_alargamento_prazo.


segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Ética e comunicação social

No dia 1 de março, pelas 15:30, na Universidade Católica Portuguesa, realiza-se um debate a partir da edição do livro Ética Aplicada Comunicação Social, coordenado por Maria do Céu Patrão Neves e Rui Sampaio da Silva (2017).


terça-feira, 11 de abril de 2017

Despedimentos no grupo Cofina

Retiro do Público em linha: "A Cofina avançou com o despedimento colectivo de mais de meia centena" de trabalhadores, afirmou a mesma fonte. Esta medida surge na sequência de um processo de reorganização que o grupo que detém o Correio da Manhã e o Jornal de Negócios, entre outros títulos, já tinha anunciado. [...] O lucro da Cofina caiu 14,4% em 2016, face ao ano anterior, para 4,3 milhões de euros, e as receitas operacionais recuaram 0,7% para 99,9 milhões de euros. [...] Numa informação interna, a que a Lusa teve acesso no início de Março, é referido que a quebra de receitas de publicidade continua a acentuar-se no início deste ano, pelo que a Cofina decidiu avançar para um programa de corte de 10% de custos".

terça-feira, 4 de abril de 2017

Mediatização da política em livro


Com apresentação de Mário Mesquita, foi hoje lançado o livro de Rita Figueiras, A Mediatização da Política nas Redes Sociais (Alêtheia), na livraria da Alêtheia (Rua do Século, Lisboa).

Segundo a autora, docente de comunicação na Universidade Católica, o livro ajuda a compreender os casos políticos. Para ela, a política, independentemente da mediatização, continua a existir. Há um interesse recíproco. A mediatização da política implica que, quanto maior o palco, maior o bastidor, o espaço do escondido, de opacidade, de invisibilidade e de negociação em cada caso político e que medeia o político e o meio de comunicação. Ela escolheu poucas personagens políticas, levando o leitor a reconstruir os seus políticos. Por exemplo, não escreveu sobre Trump, mas o presidente americano está presente na sua ausência. Tema já pensado há muito, foi durante a campanha presidencial que levou à eleição de Trump que Rita Figueiras pensou em escrever o livro.

Mário Mesquita, o apresentador, falou de um livro relevante para a área do jornalismo e da política. Após evidenciar a ampla revisão da literatura, ele indicou que o livro questiona o tempo da política (e dos seus espaços tradicionais como os partidos e o parlamento) e o tempo cada vez mais curto dos media. A televisão primeiro e as redes sociais depois ajudaram à atual reconfiguração da política. Além da temporalidade, o apresentador destacou outros elementos do livro: a conflitualidade, a negociação permanente, a pressão mediática para que o político responda de imediato, sem cuidar de saber se alcança uma boa solução ou não. O tempo do político é contraditório do tempo do decisor. O jornalista torna-se uma espécie de árbitro perante o governo e de outras instituições mais largas como os poderes de Bruxelas. O jornalista habilita o político a usar a argumentação (mas também a retórica e a demagogia) no debate permanente na mediatização. Tal quer dizer que o político precisa de um tempo maior do que o ciclo eleitoral para realizar as suas bandeiras eleitorais mas o tempo político é curto-circuitado pelo tempo do online. Mário Mesquita apontou um novo conceito da autora: a flutuação na força da mediatização. Um exemplo falado foi o dos primeiros-ministros italianos, a partir de Berlusconi, com registos mediáticos inferiores dos seus sucessores. Outro, estudado pela autora, o da mediatização dos presidentes da República portuguesa: Aníbal Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Em defesa da História - e da rádio

Esta semana, tenho ouvido muito falar de sessenta anos da RTP. Isto é errado, porque quer dizer apenas televisão.

Hoje, a sigla RTP - Rádio e Televisão de Portugal - representa isso mesmo, rádio e televisão públicas. A meu ver, a fusão deu-se tarde demais. No caso inglês, BBC, depois de um curtíssimo período de propriedade privada, significou o serviço público de rádio, primeiro, e televisão, depois. Isto deveu-se a processos tecnológicos, pois a oferta da televisão surgiu pouco antes da II Guerra Mundial, quando a rádio se desenvolveu logo depois do final da I Guerra Mundial.

Como o processo português de fusão da rádio e da televisão ainda é recente, surgem estas confusões. Na realidade, o que se comemora por estes dias não são sessenta anos de RTP mas sessenta anos de televisão. A rádio é mais antiga.

Sem ser desmancha-prazeres, até a data de comemoração está incorreta. Como Portugal é um país excessivamente legalista, a comemoração utiliza datas formais, de autoridades que visitam e inauguram. Como diria o linguista John L. Austin, a data de inauguração é performativa. Basta dizer para se realizar. Ora, a televisão começou a emitir antes de março de 1957. Em setembro de 1956, emitiu regularmente, com uma grelha de programas, entrando depois em silêncio para profissionalizar a sua atividade. De setembro de 1956 a março de 1957 passaram cerca de cinco meses de grande trabalho mas as fontes comemorativas parecem não querer marcar o período inicial como fazendo parte da História da empresa de televisão. Contudo, diz-se que Maria Armanda Falcão (Vera Lagoa) foi a primeira apresentadora da televisão. Isso foi no período experimental. Além disso, a televisão nasceu semi-pública (ou semi-privada, pois 2/3 do capital da estação era privado).

A rádio pública foi inaugurada em agosto de 1935 (1 de agosto para os puristas, 4 de agosto para os comemoradores da abertura oficial, quando Carmona foi inaugurar a estação), mas ela já emitia desde meados de 1934. Do mesmo modo, não se considera a estação de rádio como estando a funcionar desde 1934, porque se esperou pelo momento celebratório. Aqui, houve - na minha leitura - um elemento conspiratório. António Joyce era o presidente da rádio oficial (rádio pública) em 1934, mas foi substituído em 1935 por Henrique Galvão, então um forte discípulo de Salazar. Para evitar atribuir valor a Joyce, o regime quase fez desaparecer a sua importância. E, de então para cá, os historiadores marcam o começo da rádio de Estado no período mais recente.

Conclusão: não são sessenta anos de RTP mas, desde a fusão de rádio e televisão, a RTP tem dois momentos de aniversário, o da rádio e o da televisão. O aniversário que conta é o mais antigo - 82 anos. Um elemento suplementar: Manuel Bivar, vogal da direção da Emissora Nacional (rádio do Estado) desde o tempo de Joyce foi nomeado vogal da administração da RTP (televisão pública). E na primeira administração da televisão estava o homem-forte de Rádio Clube Português: Jorge Botelho Moniz. Os primeiros estudos da televisão em Portugal fizeram-se nos escritórios da estação de rádio pública. Compreende-se, porque a tecnologia da rádio nasceu primeiro que a televisão. Os estatutos iniciais da Emissora Nacional (1933) falam na exploração da radiodifusão e da televisão, num momento em que esta era ainda quase teoria.

Hoje, a euforia da imagem quer fazer esquecer a importância do som. A não ser que a televisão tenha morto em definitivo a rádio.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Censura em exposição

São 25 painéis sobre a censura nas artes e na cultura em Portugal no tempo do Estado Novo (O que Ficou por Dizer), patente na Sociedade Portuguesa de Autores. Cinema, literatura, teatro, rádio.

No tópico rádio, há dois textos, assinados por João David Nunes e por António Cartaxo, cada um contando duas histórias ou pontos de vista. João David Nunes reporta-se ao Rádio Clube Português e escreve sobre o programa Onda do Optimismo, à época apresentado por Jorge Alves. Ele chegava habitualmente em cima da hora do programa, sem tempo para passar no gabinete de Jaime da Silva Pinto, outra pessoa excecional e homem exemplar da rádio, cuja função aquela hora era visar previamente os textos. Ambos tinham problemas de locomoção. Jorge Alves, na sua corrida para o estúdio, acenava a Jaime da Silva Pinto, dizendo "os textos já têm visto", a que o colega respondia "falta o carimbo". Jorge Alves abria o microfone e dizia: "Bom dia, senhores ouvintes. Aqui está, como todas as manhãs, a sua Onda do Optimismo". No final do programa, ouvia-se (ou podia ouvir-se?) o som do carimbo em todas as folhas.

Rádio Clube Português tinha um representante da censura, centralizada no SNI (Secretariado Nacional de Informação), que ia à estação com regularidade. Na administração da rádio, o pelouro da fiscalização estava atribuído a um administrador e havia, nos Serviços de Produção, funcionários que analisavam e visavam com o carimbo SP5 os textos a utilizar.

Por seu lado, António Cartaxo escreve sobre a BBC e a secção portuguesa. O primeiro registo remete para dezembro de 1941. Armando Cortesão, tradutor na secção brasileira e colaborador na portuguesa, era refugiado político anti-Salazar. Este e a embaixada portuguesa tanto pressionaram indiretamente a BBC que Cortesão acabou por ser despedido (a tese de doutoramento de Nelson Ribeiro analisa em profundidade a situação).

A segunda história de Cartaxo envolve-o diretamente, embora ele não o explicite. O serviço português da BBC fora encerrado em 1957, mas reaberto no começo da década seguinte, após o rebentar da guerra colonial em África. Em julho de 1973, Marcelo Caetano visitou oficialmente Londres. A imprensa britânica publicou artigos sobre a política colonial portuguesa e o Times deu notícia do massacre de Wiriamu (Moçambique). De nada disto se fez referência na revista de imprensa da secção portuguesa da BBC. Depois, em 1974, a BBC abdicaria do papel independente e instauraria censura sobre o modo de relatar a evolução da política nacional. Por exemplo, não seriam lidos ou comentados os artigos publicados no Guardian. Dois jornalistas seriam demitidos. Cartaxo não descreve o processo que chegou ao tribunal e que opôs a BBC e ele e o seu colega Jorge Ribeiro.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O espólio do Diário de Notícias


Li, a partir da Lusa, que o movimento cívico Fórum Cidadania Lx foi ouvido na Assembleia da República (Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto) por causa da necessidade de preservação do edifício e do espólio do Diário de Notícias, que mudou de instalações. O movimento cívico espera a aprovação de resolução para que a Direção Geral de Património e Cultura exerça as suas competências na proteção "da fachada, dos painéis do Almada Negreiros, da caixa do elevador, da porta giratória, dos frisos". O edifício do jornal é Prémio Valmor e foi classificado como imóvel de interesse público. Mas a situação do espólio do jornal é mais complicada. O que o movimento pretende é que seja feito um inventário, uma catalogação do espólio, incluindo fotografias, documentos e desenhos. O Fórum Cidadania Lx encaminhou também as suas preocupações para o Arquivo Nacional da Torre do Tombo, a Assembleia Municipal de Lisboa, a Câmara de Lisboa, o Ministério da Cultura e para o gabinete do primeiro-ministro.

Retiro da página de Joaquim Vieira: "O espólio do DN, que investiguei anos a fio, em particular o arquivo fotográfico, onde existem milhares de chapas vidro, muitas delas ainda não devidamente estudadas, é de uma riqueza incalculável, como documento histórico sobre o século XX português. Lá descobri, por exemplo, a única fotografia conhecida do funeral de Fernando Pessoa, que nem a redação do jornal sabia que existia. Também a Amália Rodrigues aos 15 anos, na sua primeira atuação pública, integrada numa marcha popular. Preservá-lo como património público é fundamental. Quanto à sede agora evacuada, um dos vários Prémios Valmor desenhados por Pardal Monteiro, o mais importante arquiteto de Lisboa no século XX, a importância é a mesma, mas pelo menos esse edifício está classificado como de interesse público. O espólio não".

Atualização a 1 de dezembro de 2016 (a partir de notícia do próprio jornal: "Lembrando que "em circunstância alguma, em momento algum", o movimento cívico entrou em contacto com o DN para obter resposta relativamente às preocupações manifestadas, José Carlos Lourenço [administrador da Global Media] diz, em relação ao espólio do jornal: "O espólio é do Diário de Notícias, continua no Diário de Notícias. Obviamente vai ser preservado como sempre foi. E com uma evolução relativamente ao que tem sido o passado: vamos tentar que uma parte desse espólio - mais de interesse público - possa estar disponível para que as pessoas em geral possam tomar contacto com o espólio. O espólio do Diário de Notícias confunde-se com a história do país e da cidade de Lisboa, por isso faz sentido que tenha mais visibilidade do que teve nas últimas décadas, encerrado nas caves do edifício." Para tal, o grupo tem pedido aconselhamento à Torre do Tombo, fez saber o administrador. [...] O administrador do grupo a que pertence o DN lembra que "o espólio não é passivo, é um ativo" e pergunta: "Como é que alguém tem tanta preocupação com o espólio do DN e nunca perguntou ao DN o que vai fazer com o espólio?"

domingo, 27 de novembro de 2016

O silêncio e os intelectuais


Reconheço que não dei o devido valor ao livro de Tito Cardoso e Cunha, Silêncio e Comunicação. Ensaio sobre uma Retórica do Não-Dito, saído em 2006. Comecei a lê-lo e, mergulhado em aulas, leituras e obrigações burocráticas - passara a coordenador científico da área da Comunicação da Universidade Católica -, deixei-o sob outros volumes à espera de tempo. Agora, lembrei-o, ao ouvi-lo na conferência organizada por Mário Mesquita, Os Intelectuais na Democracia, com Maria Inácia Rezola, Tito Cardoso e Cunha e Luís Filipe Castro Mendes.

Os temas de Tito Cardoso e Cunha, de que guardo boa memória de aulas suas no mestrado da Universidade Nova de Lisboa, pela atualidade e humor fino na análise da contemporaneidade, mantêm-se atuais face ao livro. Escrevia ele sobre a dicotomia entre o silêncio - expresso, por exemplo, na leitura reflexiva de um livro - e a sobreabundância de informação no audiovisual tornada ruído, entendido como medida da perda de sentido. De uma forma mais específica, o autor compara o recolhimento silencioso que a (suposta) observação religiosa permite com o materialismo da modernidade e da industrialização. E, um pouco mais à frente, refere Platão, no Górgias, que opunha a retórica, arte que opera pela palavra, à pintura, cuja imagem se nos mostra silenciosa. Tudo isto está, conclui, ultrapassado pelas tecnologias multimedia. E cita M. Picard (The World of Silence, 1952) sobre a rádio, "máquina que produz ruído verbal absoluto. O conteúdo já pouco importa; a produção do ruído é a principal preocupação".

Na sua comunicação, Cardoso e Cunha entende que a democracia precisa do uso da palavra e do discurso. Enfatiza: a presença do intelectual faz-se pelo uso da palavra. E suporta-se em George Steiner (The Retreat from the Word). O retraimento da intervenção pública do intelectual torna-se evidente no tempo da televisão, ritmada pelo soundbite, meio eletrónico apto para a retórica patética e para excitar as comoções. Hoje, há falta de tempo. Pierre Bordieu (Sobre a Televisão) concluía que a televisão não é favorável à expressão do pensamento. Na urgência não há tempo a perder. Ora, a democracia tem como regra a circulação livre da palavra, ao passo que a não democracia é da ordem da silêncio e da censura. Cardoso e Cunha falaria ainda da distinção entre o intelectual - cuja linguagem tem dificuldade de chegar a sua intervenção e compreensão não redutíveis à linguagem comum - e especialista - aquele que fala para pares especialistas. Ou técnico do saber prático, como diria Sartre.

sábado, 12 de novembro de 2016

Media Capital à venda de novo

De acordo com o Expresso, o grupo espanhol Prisa colocou à venda a Media Capital (televisão TVI, produtora de conteúdos Plural e Rádio Comercial), no contexto da reestruturação financeira do grupo espanhol. O semanário revela que a Altice (Portugal Telecom) está interessada. Isto lembra uma situação de há anos.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Livro de Júlio Isidro


Hoje, ao final da tarde, foi apresentado o livro de Júlio Isidro, O Programa Segue Dentro de Momentos. Autobiografia, em edição da Marcador. A apresentação esteve a cargo de Nuno Markl. O veterano autor e apresentador de programas de rádio e televisão (56 anos de carreira) também falou e contou histórias da sua vida profissional e passou um pequeno filme com imagens de alguns programas ao vivo que fez para a televisão.

Sobre a rádio, no seu livro leem-se diversas páginas, a começar na 105, em que o autor reconhece ser dos poucos que começou na televisão e se deslocou para a rádio, quando, em 1967, concorreu para apresentador de Rádio Clube Português. Prestou provas mas o diretor da estação Álvaro Jorge não gostou totalmente da sua prestação. Apenas um ano depois ficaria ligado à estação, no programa FM 67, apesar de já ser junho de 1968, programa de madrugada produzido por Carlos Martins e onde alternava com Rui Paulo da Cruz. Júlio Isidro recorda do bom acolhimento dos veteranos de então, como Jaime da Silva Pinto e José do Nascimento. Logo depois, entraria para os noticiários, a convite de Luís Filipe Costa. Este deu-lhe algumas páginas com aquilo a que o agora autor biografado chama "a arte de bem noticiar a toda a sela" (p. 107): horários, tempos de cada serviço noticioso, ordem das notícias, inclusão de gravações, meteorologia e metodologia de trabalho. Oito profissionais garantiam 24 horas de notícias.

Então, Júlio Isidro ganhava à hora (25 escudos nos noticiários), surgindo depois convites para apresentar programas. Um deles foi Ruy Castelar, então a produzir A Noite é Nossa, de madrugada, celebrizado por fazer programas em direto de boîtes como o Porão das Naus, entretanto consignado ao produtor do programa (50 escudos por programa). Passou por outros programas como Clube das Donas de Casa (em parceria com Ana Zanatti), com o cabaz de Natal, Hora Bosch, Encontro no Ar, de José do Nascimento, com discos emprestados da discoteca A Havanesa (p. 116), e até Quando o Telefone Toca, a substituir Matos Maia. Júlio Isidro, que foi uma das vozes do programa Em Órbita, onde lia pequenos textos escritos por Jorge Gil (p. 123), chegou a fazer seis horas de noticiários seguido de outro tanto tempo como locutor de programas, além de outros compromissos em vários programas (p. 127).

Mais tarde, viriam, entre outros, Grafonola Ideal (p. 189), Febre de Sábado à Noite (p. 194), na rádio, e Passeio dos Alegres (p. 216), na televisão. E muitos mais, que eu estou a descobrir à medida que leio o livro.

Leitura: Júlio Isidro (2016). O Programa Segue Dentro de Momentos. Autobiografia. Barcarena: Marcador, 384 páginas, 19,95 euros

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

História do Registo Musical



Uma exposição na Fundação Telefónica (Madrid) em dez momentos: fonoautógrafo, fonógrafo, cilindro, gramofone, microfone, magnetófono (gravador de fita magnética), walkman, disco compacto (CD) e mp3. Mas, às tecnologias, a exposição associa elementos visuais e muitos aparelhos - do registo à audição e ao cinema.

Do texto da comissária da exposição, Cristina Zíñiga Ortiz retiro o seguinte: "um dia de outono de 1977, Edison quis experimentar o aparelho que estava a trabalhar nos últimos meses. Como o aparelho estava pronto, leu para o fonógrafo os versos da canção popular Mary Had a Little Lamb, acionou o reprodutor e a sua voz emanou clara e serena do pequeno chifre [forma do altifalante]. Edison e a sua equipa ficaram desconcertados não sem razão. Uma nova era sonora acabava de começar".

A exposição divide-se em três partes: origens (anos compreendidos entre 1857 e primeira décadas do século XX), revolução sonora (da década de 1930 ao final da década de 1970) e sonha em digital (de 1982 aos nossos dias). A minha simpatia vai para a parte intermédia, dada a quantidade de aparelhos e imagens icónicas do tempo. A exposição está patente até janeiro de 2017. Para breve, a organização da exposição prevê a instalação de um estúdio de gravação do começo do século XX.


quarta-feira, 26 de outubro de 2016

História da Comunicação em seminário


O Grupo de Trabalho de História da Comunicação da SOPCOM realizou ontem em Braga o seu primeiro seminário, com apoio e organização do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho. Nos oradores convidados, estiveram Antônio Hohlfeldt (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), Alberto Pena Rodríguez (Universidade de Vigo) e Manuel Pinto (Universidade do Minho).

Para Antônio Hohlfeldt, existe uma continuidade entre os velhos e os novos media, o que fascina uns pela novidade e instaura uma onda de preconceitos aos que pensam ainda nos velhos meios. Ele vê o mesmo tipo de práticas e deu um exemplo: hoje, coloca-se uma fotografia no Facebook; há um século, um leitor enviava a fotografia para o editor de um jornal publicar. Com referências a McLuhan e Lúcia Santaella, retirou desta a ideia de nenhum meio de comunicação ter desaparecido sempre que surge um novo. Lembrando uma experiência profissional em Montreal na área da rádio, trinta anos atrás, falou da adequação das ondas curtas de então à internet de hoje. O seu foco é a relação entre história e comunicação, partilhado aliás pelos outros participantes da mesa. O professor brasileiro lembrou ainda a importância da história cultural, citando um recente livro de Marialva Barbosa, e a necessidade urgente de se fazerem estudos comparados dos media, caso dos países de língua portuguesa.

Manuel Pinto fez a sua comunicação a partir da sua experiência como docente de história da comunicação e dos media, criticando a visão comum da cronologia, ou sucessão de factos, sem a contextualização e interpretação desses factos. Um segundo ponto da sua intervenção apontou para a tradição etnocêntrica da história, da perspetiva ocidental quanto se escreve sobre outras culturas e histórias. Uma outra crítica levou-o ao caráter instrumentalista da comunicação, com a apologia da tecnologia no centro da evolução ou modernidade. O professor da Universidade do Minho analisou ainda o lugar da história da comunicação nos currículos das licenciaturas do país, concluindo de 21 cursos que analisou existem 20 com unidades curriculares de História: oito chamam-se História dos Media, cinco História do Jornalismo, duas História da Comunicação e dos Media e cinco outras adotaram diferentes designação.

Alberto Pena Rodríguez apresentou quatro razões fundamentais para a existência de unidades curriculares no ensino da história da comunicação: epistemologia (a história encontra causas e consequências que conduzem aos processos que explicam onde estamos), inovação (que ajuda a compreender a tradição e a consequência de situações usando os dois termos), transversalidade (através de disciplinas, métodos, técnicas, rotinas) e significação cultural e social (o estudo do significado histórico para compreender as situações e as mudanças na sociedade). Ele teve ainda tempo para, seguindo o apelo de Antônio Hohlfeldt, apresentar um projeto em curso da história da imprensa luso-americana, onde retém, de entre outros aspetos, o olhar dos emigrantes face ao país de nascimento e as redes comerciais que eles estabelecem.

Como moderador da mesa inicial, Jorge Pedro Sousa prestou informações importantes para quem investiga a área, caso do próximo lançamento do primeiro número da revista do grupo de História da Comunicação (número zero). Salientou também o destaque a dar à página de Facebook do grupo (História da Comunicação) e recomendou o acompanhamento de congressos em 2017: Historiadores de Comunicação, a nível ibérico, no Porto, em setembro, e SOPCOM, com secção do grupo.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Os intelectuais na crise europeia


Ontem, no El Corte Inglés, decorreu a segunda conferência ciclo O Regresso dos Intelectuais em Tempo de Crise, organizada por Mário Mesquita, com o título Intelectuais na Crise Europeia, que contou com a participação de Pilar Damião de Medeiros, António Guerreiro e Sandra Monteiro. No som ao lado (clicar), ouve-se a participação de António Guerreiro.