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segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Arquivo de Loures para destruir?

Do Loures Municipal - Boletim de Deliberações e Despachos mais recente, retiro a informação de uma decisão tomada pela assembleia municipal de destruição de arquivo. Isto parece-me ao arrepio do que deve ser um município que se quer orgulhoso das suas memórias culturais e históricas. Do que leio, transcrevo aqui uma parcela:

"No Arquivo Municipal estão reunidos documentos com interesse para a história de Loures, nomeadamente de associações e famílias, tendo este arquivo documentos desde o século XVI até aos nossos dias. Recentemente, o Sr. Presidente da Câmara Municipal apresentou à Câmara Municipal várias propostas de deliberação para a destruição de documentos do Arquivo, enquadrando a proposta numa lei que apenas se aplicará a parte dos documentos que se deseja eliminar, a legislação em que se fundamenta a proposta aplica-se a documentos que estejam apenas em conservação administrativa corrente, e não a documentos já antes considerados de valor arquivístico para conservação permanente os quais, salvo melhor opinião que não encontramos, são património municipal e enquadrados no domínio publico municipal. […] Ao contrário do que foi anteriormente afirmado nesta Assembleia não se vislumbra qualquer parecer de técnico credenciado sobre a pertinência da destruição dos referidos documentos; […] O Arquivo Municipal tem cinco pisos e capacidade para cerca de 15,8 quilómetros lineares de arquivos, pelo que não existe neste momento qualquer urgência, a curto ou médio prazo, para destruir documentos sobre os quais não existe qualquer estudo que permita uma decisão séria e devidamente fundamentada sobre a destruição dos mesmos; Os documentos já com valor arquivístico para conservação permanente devem ser considerados não só bens do domínio público municipal como, dada a sua natureza, documentos bens de incalculável valor histórico, e como tal a decisão sobre a sua destruição teria obrigatoriamente que ser deliberada em Assembleia, nos termos do n.º 1 do artigo 25.º da Lei n.º 75/2013; Existem sérias dúvidas sobre a legitimidade da Câmara Municipal em decidir sobre a destruição de documentos que são de entidades externas ao município (como parece ser o caso de alguns documentos designados de Espetáculos na proposta 250 aqui em causa; […] Que a presente recomendação seja enviada para o Arquivo Nacional Torre do Tombo, Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas e Direção-Geral dos Espetáculos".

Atualização a 26 de dezembro de 2016: a questão foi levantada pela televisão local de Loures: O mistério no arquivo municipal de Loures.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Aldeias históricas

António Ferro criou um concurso da aldeia mais portuguesa de Portugal, em 1938, ganhando Monsanto. A ideia era desenvolver nos portugueses o culto pela tradição. Margarida Acciaiuoli, no seu livro sobre António Ferro. A Vertigem da Palavra (2013: 215) indica que as condições para o concurso implicavam "a conservação das suas características na habitação, no mobiliário e alfaias domésticas, no trajo, nas artes e nas indústrias populares, nas formas de comércio", na preservação da poesia, dos contos, da música, do teatro e das festas. Monsanto venceu, sem unanimidade, face a Orada, Alte e Azinhaga, no Alentejo. Continua Acciaiuoli (2013: 216): "A surpresa de alguns manifesta-se, a iniciativa é criticada, e António Ferro apressa-se então a elucidar os objetivos que tinham presidido a essa sua realização".

Ferro, o intelectual orgânico do Estado Novo, apresentaria Monsanto como "a imagem empolgante da nossa pobreza honrada e limpa" (Acciaiuoli, 2013: 217). O concurso não se repetiu e ficou na memória psicológica a ideia da aldeia mais portuguesa de Portugal aplicada aquela aldeia de Idanha-a-Nova. Hoje, ela faz parte do lote de aldeias históricas, algumas recuperadas recentemente como Castelo Novo (Fundão), parcialmente na segunda fotografia.

 

terça-feira, 10 de março de 2009

MEMÓRIAS POLÍTICAS - I

O Estado Novo (1926-1974) foi um regime fascista ou uma ditadura e regime autoritário? A historiadora Irene Pimentel, numa aula hoje na Universidade Católica, pendeu para a segunda opção. O regime de Salazar, que assume a presidência do Conselho de Ministros em 1932, é caracterizado como conservador e autoritário, é antiparlamentar mas mantém uma Assembleia Nacional, embora com um só partido.

A aula de Irene Pimentel teve a PIDE, polícia política do Estado Novo, como alvo central. Falou da Polícia de Vigilância e de Defesa do Estado (PVDE), criada em 1933, e da PIDE, que lhe sucedeu em 1945 e durou até 1969, quando mudou de designação para DGS. Apontando distinções com a Gestapo, a polícia política portuguesa dependia do ministério do Interior enquanto a polícia alemã era um estado dentro do Estado. Os presos da PIDE eram colocados em prisão preventiva três meses a que se seguia um outro de igual período. Nesse tempo, os presos eram interrogados. Métodos: não os electrochoques, mas a tortura do sono (privação do sono) e estátua (o preso não se podia mexer). Informadores, escutas telefónicas e intrusão postal eram outras armas usadas pela polícia de Estado. Em 1945, a PIDE adapta a “medida de segurança” à sua actividade: o indivíduo perigoso podia ser internado num hospital. Nesta perspectiva, os presos políticos pertenciam a associações de malfeitores. Nos períodos mais complicados, chegou a haver mais de 500 presos políticos anuais.

Irene Pimentel não analisou a acção da PIDE nas antigas colónias.

MEMÓRIAS POLÍTICAS - II

No sítio do leste de Angola onde estive entre finais de 1971 e meados de 1973, os militares conheciam os representantes da PIDE. Então, havia três tipos de grupos coloniais brancos, para além dos escassos funcionários públicos: o exército (a companhia central do batalhão, isto é, mais de cem homens), os agentes da polícia política e o comerciante. Este, oriundo da Beira Baixa, servia uns bifes muito apetitosos e possuía moeda própria, isto é, passava senhas aos seus empregados que pagavam com esses papéis os bens que compravam na loja. Além da loja e do restaurante, alugava quartos. Por estranho que pareça, houve duas famílias de militares que lá se alojaram, acompanhando as comissões de maridos ou filhos. Num dos casos, a família era composta pelo militar, mulher, filha, pai, mãe e irmão. Tinham levado de Portugal uma frota de três carros de alta cilindrada (as estradas eram boas; o fomento em Angola conseguira estradas bem melhores do que aqui). A riqueza deles deu para “passarem férias” com o militar.

Não se podia dizer que se jogava xadrez com os representantes da polícia política, mas conheciam-se os seus nomes e as pequenas moradias em que viviam, já não me lembro se com ou sem família, pelo que muitas vezes me cruzei com eles. Por vezes, os militares milicianos, jovens e atrevidos, falavam em política e discordavam da guerra colonial. Houve muitas conversas políticas durante esses longos meses (bem mais interessantes do que as que eu ouvira quando estivera no quartel em Paço d’Arcos e, à noite, alguns de nós jogavam cartas e falavam dos livros que liam, como os de José Cardoso Pires). A reacção dos membros da PIDE naquele canto perdido de Angola era pedir (quase cortezmente) para os militares se calarem. Eles sabiam o desprezo que os militares lhes dedicavam, além de se sentirem em desvantagem numérica dado o número irrisório de agentes e das suas armas (espingardas) serem bem menos poderosas do que as do exército.

Numa zona em que a UNITA era maioritária e estava quase ao serviço dos militares portugueses e em que a facção Daniel Chipenda do MPLA conseguiu um ou outro êxito (o 1º de Maio de 1972 foi devastador para a nossa companhia, com a morte de sete companheiros), que acções a PIDE levou a efeito? E que relatórios escreveu sobre cada militar?

[imagem de 1972 já aqui publicada em 16 de Dezembro de 2005]

domingo, 20 de abril de 2008

O RAPAZ DO ACORDEÃO


Vi-o tocar de um modo invulgar, experimental, arrancando sonoridades que jamais ouvira.

Estou a falar de Will Holhouser e o seu trio (composto ainda por Ron Horton, no trompete, e David Philips, no contrabaixo), acompanhado por "a very special guest" Bernardo Sassetti, com este a suscitar aplausos, gritos e assobios dos fãs mais fortes do pianista (parece-me que a fatia da audiência feminina vibrou mais, naturalmente). Pequenas peças, de improviso, de ritmos melódicos ora compreensíveis ora de grande experimentalidade, encheram o grande auditório do CCB nos Dias da Música.

A minha memória do acordeão levava-me a considerá-lo uma antiga tecnologia já completamente em desuso. Como outras tecnologias, como a que serviu de encontro de velhos colegas ontem, que recordaram uma situação profissional desaparecida mas onde persiste uma relação pessoal para além da morte da tecnologia. É a história viva, como alguém disse. A esmagadora desses indivíduos já não está profissionalmente activo. Não escrevem as suas memórias, vivem de coisas antigas, repetem os mesmos tiques ou referem a tecnologia como interessante, têm um conhecimento ténue das novas tecnologias e da gestão a elas associada. As tecnologias digitais arrumaram para o canto do museu as anteriores da geração electromecânica (como ocorrera na televisão com o sistema electrónico a eliminar a tecnologia mecânica de Baird). Posso estimar em dez anos a completa subsituição tecnológica, que aconteceu de igual modo em todo o mundo ocidental. Portugal terá sido até local de experiências de tecnologias digitais (alemã e americana), pois um pequeno mercado permite efectuar adaptações e resolver problemas que seriam mais sensíveis num país de maior dimensão.

Um dia, o conhecimento daquela tecnologia vai desaparecer. Pena que não fique registada como a dos músicos do CCB e o espaço museológico é escasso e mal tratado e compreendido.

Aqui, cabe espaço a uma reflexão: os músicos, como outros artistas, empregam materiais e equipamentos insensíveis à novidade ou não das tecnologias. A criação e a inventividade são variáveis independentes dos suportes, pois estes permitem experimentalidades nunca antes tentadas, como o caso do acordeão de Holhouser.



O dia para recordar a memória da tecnologia também não estava agradável. Chovia torrencialmente. A cidade apareceu ainda mais deprimida do que está - os edifícios velhos estão abandonados, os empregos de outrora desapareceram e tornaram a área mais vazia e inóspita. Até chovia no interior do hotel, espaço que tinha um grande glamour quando eu era adolescente (falava-se em festas e de clientes importantes). Os sítios também se ressentem da decadência humana.



[imagens do Porto, baixa da cidade]

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

FERNANDA DE CASTRO VISTA PELA BISNETA


Maria Ana Ferro, do blogue segundo - Impacto, deixou um comentário na minha mensagem do blogue cópia do Indústrias (Dragão de Papel) sobre AS MENINAS DOS TELEFONES, por Fernanda de Castro.

Fernanda de Castro viveu 95 anos, morreu em 1995. Adorava falar ao telefone, com as amigas. Combinava chás em sua casa, embora não pudesse levantar-se da cama. Havia sempre bolinhos e doces e chocolates, num cofre, porque de facto tudo aquilo era um tesouro. Havia restos de tecidos velhos que pareciam ter pertencido a príncipes e princesas, havia sempre flores em vaso e havia cheiro a pó-de-arroz.
Hoje, guardo nesse cofre as cartas antigas, fiquei com um dos tecidos velhos, mais do que um tecido, um vestido do menino Jesus de um antigo presépio, fiquei com o amor às plantas e fiquei com todos os cheiros na memória.
Para além de tudo, a admiração e a saudade.
Vivi quase 10 anos naquela magia.


Maria Ana Ferro é bisneta de Fernanda de Castro e António Ferro.


sexta-feira, 9 de março de 2007

UMA MEMÓRIA DA RTP


Retiro do blogue manuelinhodaire a sua recordação da primeira RTP:

Parabéns RTP, pelos 50 anos de transmissão. Trago 2 recordações! A primeira foi algures numa aldeia do Concelho de Santarém, onde pernoitei como o meu Pai e antes do aconchego da noite, após um dia intensivo da arte de mercandar, deslocámo-nos a uma taberna com um portão enorme de madeira, e à entrada fomos obsequiados com 2 rebuçados, tendo sido cobrada a módica quantia de 1$00 por cada um, servindo de jóia para a minha 1.ª noite de televisão. Foi bonito ver aquele aparelho com imagens entre pessoas suadas pelo trabalho árduo do dia e alguns comentários, quase sempre em surdina, envergonhados, referentes às imagens do aparelho a preto e branco. A segunda recordação prende-se com as sessões de televisão ao Domingo à tarde, na Casa do Povo da minha terra. Lá para depois das 15 horas surgia no écran a série americana do "Rim-Tim-Tim" em que os desgraçados indios eram sempre derrotados, quase sempre descobertos pelo latir do enorme cão "Rim" que dava sinal de ataque às forças da ordem impecavelmente fardadas de azul e arreadas de correias brancas(imaginava eu, porque aquilo era a preto e branco, recordem-se!) Vinha a publicidade do "Cavaleiro Branco", ia ao bar apressadamente beber um pirolito para retomar depressa a cadeira para a série "Bonanza". Assim que esta série acabava rumava à casa cumprindo as ordens da minha mãe. Antes do Jantar tinha que dar uma volta pelos livros de estudo, porque no outro dia era dia de escola.


Um abraço para o meu velho amigo Figueiredo, postador nas várias horas vagas. Puxa, a gente já não se vê há muito tempo! Há dois anos? Há mais? Quando há um almoço de confraternização? Aí poderíamos falar da RTP a preto e branco e, em especial, dos nossos tempos dos "adeus até ao meu regresso" e "nesta quadra natalícia, desejo muitas propriedades" (prosperidades).