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quinta-feira, 17 de maio de 2018

Feira dell'Arte

Feira dell'Arte é a peça em cena no Teatro Meridional. De Mário Botequilha, com encenação e luzes de Miguel Seabra e interpretação de Emanuel Aranda e Rosinda Costa. O texto, originalmente estreado em 2001, então um espetáculo importante na vida da companhia de teatro, foi adequado à realidade social de hoje. Compõe-se de cinco personagens: Columbina e Zanni, namorados há dez anos mais ainda indecisos quanto ao casamento, criados de Pantalone, um homem que fez fortuna moedinha atrás de moedinha, ou melhor, o representante do egoísmo e do dinheiro, Isabela e Otávio, namorados, ela filha de Pantalone, e regressada de Veneza onde estudou, e ele filho do Dottore. o inimigo de Pantalone.

Pantalone é uma das principais personagens da comédia dell'arte. Como apenas são dois os intérpretes, eles desdobram-se nas personagens, mostrando, algumas vezes, o recurso a disfarces, como o emprego de máscaras por parte do ator e de efeitos (gestos, voz, movimentação) específicos de cada personagem. A esse respeito, os disfarces do ganancioso Pantalone provocam comicidade. A Columbina, outra personagem central da comédia dell'arte do século XVI, surgiu como empregada com características de rapariga atraente, inteligente e com humor, apaixonada por Arlequim. Antes de Arlequim, era Zanni o apaixonado de Columbina, a usar uma máscara preta, e a representar a figura de criado. Os enamorados (Isabela e Otávio) apresentam-se com o vestuário mais elegante, não usam máscaras e cantam ou dançam. A peça decorre numa feira, com a rulote de farturas, a barraca da louça e os restaurantes populares. Pena que esse ambiente de múltiplas experiências não acompanhe a representação.

Por ser comédia dell'arte, é um espetáculo leve mas mordaz, simples mas objetivo, que dispõe bem (juntando o estômago ao cérebro) mas indica pistas sérias. O cenário é despojado, as falas ficam no ouvido, a alegria da representação permanece após esta.


Antes do começo da peça, Miguel Seabra, um dos responsáveis do teatro, descrevia a situação do teatro e das artes performativas em Portugal. A DGArtes, depois de longa polémica na atribuição de apoios, divulgara na véspera (anteontem) os resultados finais dos concursos, no valor de 83 milhões de euros. O Teatro Meridional ia receber incentivos, mas, a caminho do meio do ano, ainda não chegara qualquer valor, com Feira dell'Arte a ser a segunda peça de 2018. No concurso, escrevem os jornais de hoje, ficaram de fora, contudo, algumas companhias de reconhecido valor, como o Teatro Experimental do Porto, a Casa Conveniente de Mónica Calle, os Primeiros Sintomas de Bruno Bravo, a Cão Solteiro de Paula e Mariana Sá Nogueira e o Festival Internacional de Marionetas do Porto. Estas companhias vão solicitar esclarecimentos e entrar numa batalha jurídica.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

A rádio em João Lourenço

Em entrevista ao "Observador", João Lourenço, responsável pelo Teatro Aberto, conta como começou a sua atividade no teatro via rádio: "Ainda me lembro como se fosse hoje de ir com os meus pais ao Teatro Nacional. E sentado na plateia sentir-me admiradíssimo, entusiasmado, com um rei que vi no palco. O rei era o Raul de Carvalho. No final o meu pai disse-me: «Eu conheço-o bem, ele costuma ir lá ao escritório, queres que vos apresente?» E apresentou-me ao Raul de Carvalho. Estávamos a conversar e ele disse ao meu pai que a Odette de Saint-Maurice, na Emissora Nacional, procurava um miúdo da minha idade, com a minha voz. O meu pai perguntou-me se queria experimentar e aceitei. Mas fui logo avisado que não poderia faltar à escola. [Risos] Lá apareci à Odette e fiz o meu primeiro folhetim na rádio. [...] fiz muitos folhetins na Emissora Nacional, no Rádio Clube Português, na Rádio Graça… E comecei a contactar, a conviver de perto com os atores todos".

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Teatro Bocage

E se Fosse… Absurdo?!, no Teatro Bocage de hoje a 24 Junho, às quintas, sextas e sábados às 21:30.

A peça é um texto inédito de Marco Mascarenhas que fala sobre o teatro e a vida dos atores, durante o processo criativo, em detrimento da subsistência como indivíduos nas atuais circunstâncias globalizadas que influenciam o modo de vida do país.

 Trata-se de uma comédia que mostra a vida dos atores do ponto de vista dos espetadores que são diretamente influenciados pelo meios de comunicação inerentes aos padrões socialmente estabelecidos. Esse "reflexo" do mundo dos atores nos "não atores", coloca-os diante de conflitos que são geridos com sinceridade e alguma ingenuidade pelos atores na busca incessante de soluções, muitas vezes encontradas, de maneira surpreendente para todos. O espectáculo é concebido, à partida, dentro de uma linguagem cénica naturalista que serve de "pano de fundo" para outras linguagens simbólicas, expressionistas e absurdas. Explorando, assim, todas as vertentes interpretativas numa farsa, as incertezas humanas dentro de um sistema social e dos poderes em geral [texto da entidade organizadora].

Encenação de Marco Mascarenhas, elenco com Manuela Gomes, Onivaldo Dutra e Marco Mascarenhas, cenografia e design gráfico de Marco Mascarenhas e Carlos Alves, figurinos (criação e execução) de Paulo Miranda e maquilhagens de Manuela Gomes.

O Teatro Bocage fica na rua D. Manuel Soares Guedes, 13 A (à rua Damasceno Monteiro), em Lisboa.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Folhetim radiofónico visto por João Gaspar Simões

No Jornal de Notícias (10 de agosto de 1958), o crítico literário João Gaspar Simões escreveu o texto Na Era do Folhetim Radiofónico. Para ele, o folhetim era o mais sério rival do romance. Como não se sabe a fronteira entre um e outro, na obra de grandes romancistas há elementos folhetinescos e nos folhetinistas elementos romanescos. Balzac associou os dois, Camilo (Os Mistérios de Lisboa) mostrou o domínio do folhetim.

João Gaspar Simões conclui que, possivelmente, no romance a história serve as personagens e no folhetim as personagens servem a história. Com a rádio e a possibilidade de as personagens encarnarem em vozes próprias, o que alarga a verosimilhança, o folhetinista cerze uma manta de retalhos de episódios anódinos para encontrar no ouvinte o eco que não encontraria no leitor.

Embora o passo não seja muito bem explicado no texto jornalístico, para o crítico literário, na audição, aceitam-se mais facilmente as incongruências. Grande parte do texto está dedicado à literatura e apenas uma pequena parte do texto mergulha no folhetim radiofónico. Era o tempo do rescaldo do folhetim da coxinha do Tide na Rádio Graça e do programa de ficção científica de H. G. Welles (A Guerra dos Mundos), que José Matos Maia adaptara para a Rádio Renascença e provocou pânico e escândalo e a interrupção forçada do programa. Não esquecer ainda que, em junho de 1958, Humberto Delgado ameaçara o regime ao concorrer às eleições presidenciais. Logo depois, foi demitido do cargo de diretor-geral da Aeronáutica Civil, a que se seguiu o pedido de asilo na embaixada do Brasil e a saída forçada para o exílio naquele país (abril de 1959).


quinta-feira, 11 de maio de 2017

Quem Tem Medo de Virginia Wolf no Trindade

Quem Tem Medo de Virginia Wolf, de Edward Albee (1962), está em cena no Teatro da Trindade. Junta Diogo Infante (George, professor universitário) e Alexandra Lencastre (Martha, a sua mulher e filha do reitor da universidade) [fotografia da produção do teatro] e ainda José Pimentão (novo docente) e Lia Carvalho (a sua mulher).

O casal mais jovem é convidado por Martha. Há uma reação inicial de desconforto, em especial pelas atitudes de George. Compreende-se que este professor de História, cuja carreira está em grande decadência, e a mulher têm atitudes permanentes de briga. No meio, o pai de Martha e o filho de ambos são identificados, mas nunca aparecem fisicamente. Quando a noite avança, o álcool bebido descontrola os dois casais mas iniciam-se as confissões. Martha, a devoradora, atira-se ao jovem professor; George chama "fuinha" à jovem mulher e trata-a mal. É uma noite de jogos e brincadeiras tumultuosas a partir da discussão dos anfitriões. O filho entre George e Martha morrera quando nasceu, mas o casal falava como se ele fosse adulto, a fazer anos amanhã. Tudo se repercutiu nos convidados: ela a vomitar, ele a querer afastar-se.

Gostei muito do desempenho de Alexandra Lencastre. Achei o palco com adereços a mais. No dia em que assisti, um corte geral de eletricidade, quase no início da representação, permitiu um pequeno extra da peça. Versão de João Perry, a partir da tradução de Ana Luísa Guimarães e de Miguel Granja. Direção de Diogo Infante, assistência de encenação de Leonor Buescu e cenografia de Catarina Amaro.


segunda-feira, 1 de maio de 2017

FATAL


A 18ª edição do FATAL – Festival Anual de Teatro Académico de Lisboa decorre entre 25 de abril e 13 de maio, com cerca de 30 espetáculos e projetos de grupos de teatro universitário, nacionais e estrangeiros.

No dia 2, pelas 18:30, sobre Processos Criativos: Conversa sobre um D. João Português, com a presença de Dinis Gomes, Duarte Guimarães e Levi Martins, Luís Lima Barreto e Luís Miguel Cintra, na sala de conferências da Reitoria da Universidade de Lisboa. Conversa sobre a natureza de Um D. João Português, novo trabalho de Luís Miguel Cintra e de um elenco de atores ligados ao percurso da Cornucópia que será construído ao longo de 2017 em quatro cidades, com vários momentos de partilha do processo de trabalho com os espetadores locais, com entrada livre.

Destaco também o GTN – Grupo de Teatro da Nova estreia a 9 de maio a peça Morrer ou não Morrer, original do catalão Sergi Belbel e encenação de Marina Albuquerque. A estreia decorre no âmbito do FATAL – Festival Anual de Teatro Académico de Lisboa. A peça mantém-se depois em cena até 20 de maio, às 21:30 na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (avenida de Berna, 26C). Morrer ou não Morrer traz ao palco seis histórias paralelas que anunciam o destino implacável de pessoas sozinhas. A estas personagens atormentadas e desesperadas não resta senão a saída da auto-aniquilação. As cenas sucedem-se em espaços simples e despojados – andares de um prédio, rua, quarto de hospital – sendo o jogo dos actores o factor predominante. Interpretação de Alícia Raquel, André Marques, Artur Malheiro, Beatriz Rodrigues, João Roque, José Castro, Judite Jóia, Verónica Silva, Vítor Caixeiro e Wilson Ledo.

Programa em http://www.fatal.ulisboa.pt/programa.html.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Maria Manuela Couto Viana

Hoje, comecei a escrever sobre Maria Manuela Couto Viana (1919-1983), poeta, escritora e tradutora, que também trabalhou na rádio (escreveu e interpretou). Ela obteve o primeiro prémio do concurso “Procura-se um Romancista”, em 1942, organizado pelo Grémio Nacional dos Escritores e Livreiros, com o romance Raízes que não Secam. De ascendência galega, ela usou o galego no livro Frauta Lonxana (1964).

Orlando Raimundo, no seu livro de 2015, António Ferro. O Inventor do Salazarismo, conta que Salazar não pudera assistir a espetáculo em Viana do Castelo em 1938, levando António Ferro a obsequiá-lo com uma representação noturna em espaço fechado do Auto das Oferendas, de António Correia de Oliveira. A representação esteve a cargo de grupo folclórico de Santa Marta de Portuzelo (Viana do Castelo), integrado por camponesas afinal oriundas das melhores famílias da sociedade minhota (Raimundo, 2015: 238-240). Maria Manuela Couto Viana, então com 19 anos, já com pequenos papéis nos filmes do regime Revolução de Maio (1937) e Rosa do Adro (1938), interpretou o papel principal do auto. Salazar ficou encantado com a calorosa declamação, o que teria facilitado a carreira da jovem na Emissora Nacional como autora e intérprete de teatro radiofónico.

Esta história precisa de ser acautelada, pela importância da família Couto Viana: o irmão António Manuel Couto Viana (1923-2010) estreou-se como ator e figurinista em 1946 no Teatro Estúdio do Salitre, em Lisboa, por intermédio de David Mourão-Ferreira. Ele esteve sempre ligado a companhias de teatro para a infância. Muito novo, ele recebera como herança do avô o Teatro Sá de Miranda em Viana do Castelo (retirado da wikipedia).


[imagens: entrevista a Maria Manuela Couto Viana (Jornal de Notícias, 18 de agosto de 1957) e fotografia de Maria Manuela Couto Viana com o traje de Meia Senhora, ao lado de Luísa Cerqueira com traje de Mordoma, na Festa do Traje (década de 1950, catálogo do Museu do Traje de Viana do Castelo)]

domingo, 9 de abril de 2017

Espólio da Cornucópia no museu do Teatro e da Dança

Ana Sousa Dias: Pouco depois de chegar ao ministério, teve um momento zen n'A Cornucópia. Há alguma coisa que o ministério ainda tenha para fazer relativamente à Cornucópia?

Luís Filipe de Castro Mendes (ministro da Cultura): Estamos a trabalhar há muito tempo com A Cornucópia. Uma vez assumida, pelo Luís Miguel Cintra, a decisão de terminar o teatro, decidimos continuar a dar-lhe um apoio significativo, para o futuro das instalações e do seu acervo. O acervo d'A Cornucópia é riquíssimo, desde os cenários da Cristina Reis aos fatos, a... enfim, toda a história d'A Cornucópia é um bem que consideramos um bem patrimonial de grande importância. Por isso, decidimos comprar esse acervo e integrá-lo no Museu do Teatro e da Dança.

Ana Sousa Dias: Isso é uma grande novidade.

Luís Filipe de Castro Mendes: A Cornucópia já sabe, naturalmente. O momento zen a que se refere foi um momento emocional. Nós todos estávamos comovidos com a hipótese de o teatro acabar, embora estivéssemos já a trabalhar com eles no sentido de criar condições para uma preservação do acervo e na questão do edifício. Como sabe, o edifício é alugado, mas estamos em conversações com os proprietários e está tudo a correr muito bem. Lamentamos imenso a situação pessoal do Luís Miguel Cintra... Mas repare, o Luís Miguel Cintra, neste momento, está a fazer teatro, está a fazer o Um D. João Português, em várias cidades. Ele nunca está parado. Mas compreendeu que não tinha condições para dar continuidade à companhia.

[Excerto de entrevista de Luís Filipe de Castro Mendes a Ana Sousa Dias (Diário de Notícias, hoje)]

sábado, 8 de abril de 2017

O senhor Valery no Teatro da Trindade

Hoje foi o primeiro ator (José Raposo) a interpretar o texto de Gonçalo M. Tavares, As Vozes do Bairro. Na forma de teatro radiofónico levado à cena, com o ator a ler e Teresa Sobral (direção artística) e Miguel Sobrado Curado (sonoplastia) a apoiarem a representação como se fosse teatro radiofónico. Estavam lá o xilofone, a gravilha para imitar os passos e a máquina de fazer vento, com objetos do Museu da Rádio (RTP). Não contei o tempo da peça mas devem ter decorrido 50 minutos com histórias do senhor Valery, homem que leva a lógica aos limites a procurar explicar o mundo através de desenhos. Um dos exemplos foi quando dividiu a sua casa em uma ala direita e uma ala esquerda e traçou uma linha. A mão esquerda pegava nos objetos que estavam à esquerda e a mão direita os do outro lado. O seu animal doméstico, que nunca ninguém viu, vivia numa caixa com dois buracos - uma para alimentação e outro para dejeção. Da sua mulher, também nunca ninguém a viu. Valery tinha um emprego em que vendia objetos num dia e comprava objetos no dia seguinte, ganhando dinheiro suficiente para viver. Ele era pequenino mas, quando dava saltos, ficava da altura dos mais altos, só que menos tempo que estes. O programa trazia um excerto do livro de Eduardo Street sobre o teatro invisível - o teatro radiofónico.

Um enorme prazer assistir e ver a interação: quando uma espectadora não percebeu uma palavra (que eu também não entendera), ela pediu para repetir e o ator repetiu. As gargalhadas de alguns dos assistentes, pois o texto de Gonçalo M. Tavares é muito divertido porque observador e minucioso nas idiossincrasias de Valery, levavam o próprio José Raposo a parar para não se deixar contagiar com a boa reação do público.

A 13 de maio, será a vez do senhor Henri, pelo ator Filipe Duarte.


quinta-feira, 6 de abril de 2017

As Vozes do Bairro


Texto de Gonçalo M. Tavares (O Bairro), direção artística de Teresa Sobral, música e sonoplastia de Miguel Curado, com José Raposo (senhor Valery) no dia 8, Filipe Duarte (senhor Henri) no dia 13, Miguel Loureiro (senhor Brecht) no dia 10 de junho, Álvaro Correia (senhor Calvino) no dia 15 de julho, Bruno Nogueira (senhor Breton) no dia 30 de setembro e André Gago (senhor Eliot) no dia 21 de outubro.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Terça-Feira: Tudo o que é Sólido Dissolve-se no Ar

Terça-Feira: Tudo o que é Sólido Dissolve-se no Ar é uma peça de Cláudia Dias a estrear no Maria Matos Teatro Municipal (Lisboa) no dia 29 de março. A peça tem como temas subjacentes a questão das migrações dos refugiados, fronteiras e linhas divisórias na Europa contemporânea e também o ideário do cinema de animação tradicional, principalmente, aquele veiculado pelo Vasco Granja.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Dia mundial do Teatro no Montijo

O Centro de Estudos de Teatro e a Companhia Mascarenhas-Martins juntaram-se para organizar a jornada intitulada Criar e produzir: modalidade de cooperação criativa nas artes cénicas, a ter lugar no Dia Mundial do Teatro, 27 de Março, a partir das 14:30, no Cinema-Teatro Joaquim d'Almeida, Montijo.

A jornada contará com a presença de vários profissionais do espectáculo, entre os quais Anne de Amézaga (Compagnie Louis Brouillard), Carla Ruiz (TNDMII) e Luis Miguel Cintra, que farão as primeiras intervenções.

[informação da entidade organizadora]

domingo, 12 de março de 2017

Tentativas para matar o amor


Ana (Cleia Almeida) é casada com João, apenas nomeado na narrativa, mas vive uma paixão com Jaime (Tomás Alves) há dez anos. Também presente-ausente é o filho dela, JP. Ao fim desse tempo, fazem um balanço das dificuldades em viver daquele modo. Contas para pagar, uma vida dupla, salários baixos, presença permanente de uma sociedade agressiva (tróica, tickets restaurante em vez de subsídio de alimentação, poluição e qualidade de vida). Manuel (Eurico Lopes) é uma espécie de contraponto, próximo do casal mas também quase o narrador.

Talvez as gerações mais novas compreendam a relação, talvez os mais velhos encontrem a história muito frágil, no sentido que damos a uma peça de cristal. Aliás, podia concluir-se que ela não é bem uma história mas um olhar poético sobre o amor e as relações no interior de um casal moderno numa geografia lisboeta bem precisa. A personagem feminina está mais bem desenvolvida, apresenta uma perspetiva do amor mais moderna e desinibida, enquanto os homens surgem mais defensivos. Será que Ana e Jaime vão continuar? Ou será a peça uma construção feminista?

A peça é de Marta Figueiredo, engenheira civil a trabalhar na Infraestruturas de Portugal, concorrente e vencedora do Grande Prémio de Teatro Português SPAutores / Teatro Aberto 2015. Ela tem dois filhos pequenos, nasceu na Meda, estudou em Lisboa e vive no Porto. Dramaturgia e encenação de Levi Martins e Maria Mascarenhas, figurinos de Dino Alves, cenário e desenho de luz de Adelino Lourenço, música original e sonoplastia de André Reis e vídeo de Eduardo Breda.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Estupidez

A venda de um quadro roubado (e falso) e a descoberta de um segredo do universo (a equação de Lorenz) constituem o centro da peça de Rafael Spregelburd, A Estupidez, agora em final de representação no teatro dos Artistas Unidos.

A peça é de uma velocidade quase indescritível. Os cinco atores repetem-se em personagens diferentes, obrigados a mudar de roupa e de tom e gestos de modo constante, ainda por cima com uma duração de quase três horas.

O cenário é um quarto de hotel em Las Vegas. Melhor, o cenário é palco de múltiplos quartos de hotel, incluindo um par de polícias homens apaixonado, uma família de vários elementos adultos em férias, um irmão empurrando uma deficiente (Ivy) que não sabemos muito bem o que faz na história, uma jornalista que quer entrevistar o cientista para uma coluna de mexericos lida por milhões de leitores. Peça-catástrofe para um tempo de estupidez, lê-se na folha da peça, ou de um tempo de fragilidade, li noutro sítio. Em Espanha, ganhou o prémio Tirso de Molina em 2003.

Uma das personagens que mais gostei foi a de um japonês interessado em comprar o quadro de um dos pintores neomodernistas, papel desempenhado por António Simão, em especial a pronúncia e os gestos que coloca. Igualmente os papéis de Rita Cabaço, distinguida em 2016 com o Prémio da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro.

Com Andreia Bento, António Simão, David Esteves, Guilherme Gomes e Rita Cabaço e as vozes de Isabel Muñoz Cardoso, João Meireles, João Pedro Mamede, Pedro Carraca, Vânia Rodrigues, cenografia e figurinos de Rita Lopes Alves e encenação João Pedro Mamede.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Amália


De entrevista dada ao Diário de Notícias de 18 de fevereiro de 2017, Filipe La Féria diz que o musical Amália teve 3,5 milhões de espectadores em seis anos em cena. A sua atual reposição deve-se a muitos pedidos do público, por um lado, e à presença de muitos turistas na sala do Politeama, razão pela qual coloca legendas em inglês, francês e espanhol. Para a nova temporada do musical, ele escreveu textos novos para enquadrar melhor as dimensões da vida da fadista, além de um vídeo em 3D e que também é uma homenagem aos pintores do período vivido por ela, de Almada a Stuart Carvalhais, Júlio Pomar a Helena Vieira da Silva.

A cantora Alexandra encarna a personagem principal (Amália), mas a peça tem uma Amália jovem (Anabela) e criança, de modo a se perceber melhor a história da fadista. O elenco tem mais de 70 pessoas em palco e o investimento para o pôr a funcionar foi de perto de meio milhão de euros. O palco, por vezes, divide-se em dois níveis, representando épocas de proximidade ou evolução de um movimento, como a procissão, do ponto de vista visual de grande espetacularidade.

Na entrevista, La Féria falou ainda de alta cultura (elite) e de cultura popular. Sim, na realidade o público nacional assistente, mais velho do que mais novo, conhece as letras das canções de Amália e bate palmas quando se fala numa ou noutra canção. As dificuldades iniciais de vida, os sucessos internacionais, as paixões, a permanente mágoa íntima da artista e o conhecimento com Alain Oulman, responsável do disco Com Que Voz, gravado em 1969, são alguns dos temas da peça musical.

domingo, 29 de janeiro de 2017

O poder, os media e a denúncia

Um Inimigo do Povo (En folkefiende) é a peça de teatro do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen representada por Pedro Gil (dr. Stockmann), Isabel Abreu (sua mulher), Filipa Matta (a sua filha mais velha, a iniciar a carreira de professora primária), o intendente da cidade, João Pedro Vaz (Peter Stockmann, irmão do dr. Stockmann), e dois jornalistas de O Mensageiro do Povo, Tónan Quito (Hovstad) e Miguel Loureiro (Billing).

A leitura e discussão do texto começou em finais de 2014 em Montemor-o-Novo. Tónan Quito assinaria a direção artística, a par da de ator. O primeiro ensaio decorreu no Espaço Alkantara (Lisboa). A peça centra-se na estância balnear, a principal fonte de riqueza da cidade, e na descoberta da contaminação do sistema de água. O médico quer denunciar a situação mas o intendente e presidente da estância opõe-se, porque a estância ficaria paralisada e o investimento seria incomportável, além da perda de empregos provocada pela paragem.

O chefe de redação do jornal O Mensageiro do Povo e o responsável da tipografia, que representa a sociedade dos pequenos proprietários, estão a favor da revelação do mal, porque a denúncia faria vender mais jornais e porque o poder político local seria renovado. Mas uma visita apropriada do intendente faz mudar de opinião os elementos do jornal e a maioria sólida de apoio ao dr. Stockmann perde-se.

A segunda parte da representação projeta os argumentos dos irmãos. A pergunta é: quem está no poder é sempre mau e quem descobre a verdade é bom? A realidade parece ser mais complexa. A verdade proclamada pelo médico é justa mas acarreta a destruição da economia e da sociedade da cidade. Há um segundo tema na peça: a posição da mulher, subalterna no casal, mas que quer assumir uma posição de liderança quando vê o marido ser traído pelos jornal local. A filha, como já estudou e tem uma profissão, representa um passo na evolução da posição feminina.

No fundo, o texto tem uma grande atualidade, ao mostrar os jogos sociais do poder e de ocultação de factos e objetivos. Discussões familiares, corrupção, manipulação política, assembleias populares e apedrejamentos são algumas das consequências. A administração da estância despede o médico, o senhorio despeja a família da casa onde vivem. Mas o sogro, personalidade que não aparece na peça, compraria todas as ações da estância e dá-las-ia ao médico, que passa a ter toda a força na empresa da estância. O novo poder é solitário, diz o médico.

Ainda sobre João Perry

Em Pai, de Florian Zeller, Ana (Ana Guiomar) fala do pai André (João Perry) quando este era forte e tinha autoridade. Ela receava-o. Agora, ele estava velho e, acima de tudo, já não reconhecia ninguém. Aquela frase da filha bateu forte em mim, agora que revi a peça. Eu estava numa fila mais próxima do palco e mais atento às palavras e aos gestos do que da primeira vez.

De João Perry, recordo a sua muito antiga colaboração com o Teatro Aberto, como sugere o texto do semanário Ponto, de 5 de fevereiro de 1981. No recorte, há uma imagem de João Perry contracenando com Mário Viegas. O tema principal da notícia era o ator e encenador João Lourenço contra a crítica de teatro.



quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Despedida de um crítico de arte: Jorge Louraço Figueira

"Quando assumi o papel de crítico teatral, imaginei uma comunidade de debate onde o teatro era não tanto um espelho que refletia a sociedade, mas mais um martelo que forjava a realidade. Essa comunidade parece que se desvaneceu com o tempo. Termina aqui a minha ação enquanto crítico teatral do Público. Quando comecei, em 2005, escrevia uma crítica por mês, sobre espectáculos do Porto. Em Lisboa, havia mais duas pessoas a fazer crítica teatral. No Diário de Notícias e no Expresso havia textos todas as semanas. Hoje, só a Time Out Lisboa e o Jornal de Letras publicam regularmente. Na rádio e na televisão, na imprensa diária e semanal, nada", Jorge Louraço Figueira (Público, 20 de janeiro de 2017).

O crítico quase que termina assim: "A imprensa faz parte do espectáculo. Os artistas do teatro independente tiveram como sucessores os diretores de salas de espetáculos. Os jornalistas viram suceder-lhes as agências de comunicação. O formato das críticas está vazado, posto que foi ao serviço de tudo menos do teatro. A alternativa é acordar. O teatro tem como primeiro e último reduto a cena. Há festivais, teatros e artistas que trabalham contra os ventos. É preciso estar entre eles, dentro de cena, lutando com as armas da ficção e da atuação para impedir que as salas de teatro fechem".

domingo, 22 de janeiro de 2017

A Noite de Iguana

Esta é a quarta e última peça de Tennessee Williams (1911-1983) encenada nos Artistas Unidos. Depois de Jardim Zoológico de Vidro, Doce Pássaro da Juventude e Gata em Telhado de Zinco Quente, chegou a vez de A Noite da Iguana (1961). Com Nuno Lopes (Lawrence Shannon), Maria João Luís (Maxine Faulk), Isabel Muñoz Cardoso (Judith Fellowes), Joana Bárcia (Hannah Jelkes), Pedro Carraca (Hank Prosner), Tiago Matias (Jake Latta), João Meireles (Herr Fahrenkopf), Vânia Rodrigues (Frau Fahrenkopf), Pedro Gabriel Marques (Pancho), Catarina Wallenstein (Charlotte Goodall), Américo Silva (Nonno), João Delgado (Pedro), Bruno Xavier (Wolfgang) Ana Amaral (Hilda).

Lawrence Shannon, sacerdote expulso e depois guia turístico, chega a um pequeno hotel no México, fora das grandes cidades e do programa da viagem, onde reencontra Hannah Jelkes, agora viúva de Fred, com quem ele costumava conversar. As excursionistas resistem a permanecer no local, em especial Judith Fellowes. No final, o grupo da viagem triunfa e segue caminho, mas sem Shannon.

O antigo padre conhece, no pequeno hotel, Maxine Faulk, acompanhada pelo seu avó, o até aí poeta mais antigo em atividade. Os dois aproximam-se, em especial por um problema comum, a da necessidade de serem aceites pelos outros. Do mesmo modo que a iguana, que os empregados do hotel capturaram, Shannon e Faulk estão presos por cordas. O primeiro chega mesmo a ficar amarrado, depois de uma cena de grande ira, remediada à força por Hannah Jelkes, que o conhecia há muito e nutria uma paixão forte por ele.

A peça decorre, assim, em torno de três personagens, ele e as duas mulheres. Os encontros e desencontros acabariam por Lawrence Shannon ficar a co-gerir o pequeno hotel, junto a Hannah Jelkes, enquanto Maxine Faulk se afastaria. Como nas outras peças de Tennessee Williams, após um começo ou primeiro ato de múltiplas personagens com questões distintas e que fazem uma espécie de puzzle de temas, a segunda parte da peça entra no detalhe e na intimidade. A longa noite de insónias para as personagens principais, em que a iguana é liberta por ser uma criatura de Deus, retrata a obsessão com o mal e as trevas e as tentativas de êxito ou insucesso nessa luta. A velha solteirona ensina o mau padre a reencontrar-se consigo, ficando ao lado da viúva prática. A Noite de Iguana, como o autor diria, é uma peça sobre como viver para lá do desespero.

Encenação de Jorge Silva Melo, com cenografia e figurinos de Rita Lopes Alves, em coprodução dos Artistas Unidos, São Luiz e Teatro de São João (Porto).

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O Pai

A interpretação de João Perry é soberba. Não posso dizer que é a melhor personagem por si interpretada, porque não conheço toda a sua carreira, mas esta está muito bem feita. O Pai é um homem entre 70 e 80 anos, velho e com Alzheimer. Nos diálogos com a filha (Ana Guiomar), percebem-se os momentos de perda de memória e de espaço. A encenação (João Lourenço) ajuda, apoiada na luz (Alberto Carvalho e João Lourenço); as duas criam dimensões dramáticas, de desespero, insegurança, mergulho no abismo, de alucinação e incompreensão dos outros face à realidade do sujeito. O vídeo (Luís Soares) mostra imagens de um menino e de um velho (Perry), numa espécie de retorno.

A filha quer ajudar o pai, mas o dia-a-dia torna-se difícil. O universo mental do pai afasta-se da realidade física. Ele vai esquecendo os locais, confunde relações, vê rostos diferentes. Com a enfermeira que cuida dele, estabelece uma relação de recusa, o que leva a filha a equacionar levá-lo para um lar. O motivo mais próximo é a perda do relógio, em que se acusa a enfermeira de roubo. Mas o relógio está apenas dentro do micro-ondas, local onde costuma guardar alguns dos seus bens. O pai - André - não quer sair da sua casa, quando já habita a da filha. Não se apercebeu da mudança embora percecione móveis diferentes ou ausentes.

Para ser mais realista, a encenação coloca duas atrizes no papel de filha e dois atores no papel de genro e altera a cenografia da casa onde ele está. Em jogo, um processo interno de relacionamento com os outros. A peça mostra a lenta desagregação do corpo do indivíduo. Ele fora engenheiro, agora, perante a nova enfermeira, indica ter sido artistas de variedades. E canta e seduz - mas o brilho do momento apaga-se e ele volta a confundir a realidade, como se fosse um luz a perder-se. Ao escrevê-la, Florian Zeller (1979) recorda a avó cuja demência começou quando ele tinha 15 anos. De uma peça de Ionesco tirou a ideia com que acaba a peça. O Pai, já muito enfraquecido, pede à filha que lhe cante uma cantiga de embalar.

Mesmo no final, quando já está num lar de velhos, ele pretende que a mãe o leve embora daquele sítio - a luz do palco vai-se reduzindo e o ator fica num ponto e numa centelha até desaparecer. O silêncio na sala ficou mais denso e a reação dos espectadores demorada até às palmas.

Do programa, refiro a leitura de dois textos. O primeiro, de Cícero, aponta quatro causas que indicam a infelicidade da velhice: o indivíduo aparta-se dos negócios, o corpo fica debilitado, decresce o número de prazeres a usufruir, está-se perto da morte. Como o indivíduo não é imortal, o que viveu muito tempo deve recordar o que fez honrada e corretamente. O segundo texto pertence a Atul Gawande. O avó dele, indiano, viveu até aos cem anos, admirado pelos mais novos, exercendo a sabedoria e o respeito devido aos mais velhos. Melhor, viveu integrado na família até morrer. Esta, numerosa, tinha sempre elementos que o podiam ajudar. O pai de Gawande foi viver e trabalhar para os Estados Unidos. Aqui, o velho já não vive na família, reduzida a células pequenas. O velho vai passar os últimos anos num lar e aí morrer, com algum conforto material mas sozinho. O Pai da peça de Florian Zeller já está nesta categoria.

Teatro Aberto, com João Perry, Ana Guiomar, Paulo Oom, Sara Cipriano, Patrícia André (Laura) e João Vicente (Pedro).