domingo, 16 de junho de 2019

Bernardino Pires (14)

Para conhecer a biografia do fotógrafo Bernardino Pires (1904-1977) torna-se imprescindível acompanhar o seu lado profissional de ilustrador de cartazes, prospetos e outros meios de publicidade. Cada trabalho era executado com muito pormenor, nomeadamente o desenho de insetos, feito à lupa a partir do natural. As letras, números e "letterings" eram desenhados à mão, inventando novos estilos de acordo com a época. Os trabalhos passavam pelas casas gráficas que faziam as gravuras, para composição final elaborada segundo uma maqueta prévia. O filho Daniel Pires, quando pequeno, fazia os "recados" de levar e trazer gravuras e provas que o pai depois trabalhava (memória de Daniel Pires).
Deixo aqui três exemplos de trabalhos, um em fase de desenvolvimento e outro pronto e dedicado a uma marca. A última imagem mostra uma pequena parcela do seu portefólio profissional. Fixo-me na primeira, onde Bernardino Pires propõe os "letterings" e a imagem da larva a saltar ávida para destruir o fruto e a colheita no seu todo (figura de estilo sinédoque). O Nevisox era um novo inseticida pronto a destruir escaravelhos, bichos da fruta e traças da uva. A empresa que comercializava o produto ficava na rua do Bonjardim (Porto) e tinha caixa postal a facilitar os contactos. Leio agora a terceira imagem, onde se vê a vasta procura do seu trabalho, de hotéis a seguradoras e fábricas de lâmpadas.
[espólio pertencente a Daniel Pires]




sábado, 15 de junho de 2019

Bernardino Pires (13)



Esta é a última fotografia da obra de Bernardino Pires que comento - pelo menos no formato de acesso livre na internet. Direitos de propriedade intelectual antes da necessária publicação de livro sobre o fotógrafo impedem a sua continuidade. Agradeço aos seus herdeiros, em especial a Daniel Pires, a gentileza de acesso para ter publicado e comentado diversas imagens do artista. Do que já conheço dele, há um precioso espólio temático - festas dos santos populares, trabalho fluvial e agrícola, vida e modernidade urbana, microcosmos social do Barredo (Porto) e trabalho artesanal e comercial, numa perspetiva de estética maioritariamente neorrealista. Bernardino Pires retratou bem o Porto, cidade onde viveu e trabalhou, e participou em muitos concursos nacionais e internacionais de fotografia (Espanha e Brasil).
A imagem não é das mais significativas do seu trabalho. Mas envolve dois meios de comunicação: comboio e telefone. Recupero, de novo, James W. Carey ("Communication as Culture. Essays on Media and Society", 1989) e a sua dupla definição de comunicação: transmissão, ritual. A segunda, a mais antiga, olha a comunicação segundo a perspetiva da religião e da cultura - comunhão, comunidade, partilha. Da segunda, e à qual dedica muita atenção, ele define comunicação como envio de mensagens e transporte. Pelo menos desde o baixo Egito, escreve Carey, que mensagem e transporte constituíam a mesma coisa. O aumento de velocidade dos transportes ao longo do tempo fez com que mercadorias e documentos chegassem ao destino mais depressa. Repito: transporte e comunicação tinham uma ligação inseparável. Mesmo com o jornal, o processo era centralizado em termos da produção e era transportado e distribuído. A invenção do telégrafo acabou com a identidade da ligação transporte-comunicação. O telefone, a rádio, a televisão e a internet eliminaram de vez essa ligação.
Na fotografia, o comboio movido a uma máquina de vapor parece dirigir-se à estação de S. Bento, analisando a posição da encosta à esquerda da fotografia. Entre aquela estação e a de Campanhã há alguns túneis e duas linhas, uma delas destinada à circulação para sul do país. Ao comboio, o fotógrafo incluiu um poste telefónico; por isso, evoquei Carey. Naquele comboio, viajavam pessoas e mercadorias; no telefone, mensagens de pessoas. O comboio é um meio físico de transporte, o telefone é um meio de transmissão.
(coleção de Bernardino Pires, espólio de Daniel Pires)



quarta-feira, 12 de junho de 2019

Bernardino Pires (12)



Salina e traçado telefónico aéreo, Aveiro (fotografia de Bernardino Pires, espólio de Daniel Pires, originalmente publicado em https://www.facebook.com/groups/1628946184001729/).
A fotografia poderia ser abstrata, pois a geometria é o seu elemento principal. Mas, analisando melhor, é o trabalho humano que preside à sua organização. O sal não se edifica em modo de cone (quase regular a partir da forma de pirâmide). A sua alvura representa o lado da natureza.
Os postes telefónicos remetem para um ponto de fuga, com interseção de fios e da linha de terra. O trabalho industrial (madeira dos postes, metais dos fios, cerâmica dos isoladores) integra-se na natureza. Aliás, os isoladores parecem pássaros. Se fossem alvo-pretos lembrariam a andorinha que andou a passaretar aqui há pouco perto da janela.
O trabalho - a salina e os postes telefónicos - estão prontos. Parece que os dois elementos existem desde o começo dos tempos. A minha hipótese é que a natureza é geométrica, mesmo quando há caos. As formas matemáticas nasceram, julgo eu, da natureza. Melhor: da observação da natureza. O fotógrafo, munido da sua máquina, agarrou o pedaço da natureza e mostrou-o.
O sal é alimento, conservante (antes do frigorífico elétrico) e entra na indústria química. O poste telefónico e os seus fios transporta(m) comunicações humanas. Natureza dominada e tecnologia útil - eis o conteúdo da fotografia.
Volto à ideia de arte abstrata. A fotografia indica a realidade (social) mas também é arte. Bernardino Pires, aqui, juntou os dois elementos.
Para finalizar, socorro-me de ideias técnicas sobre a tecnologia de comunicação e de que me apropriei no sítio onde a fotografia foi originalmente colocada. Traçado dos CTT com travessas metálicas e cruzeta de travagem do mesmo material. Na empresa APT/TLP (áreas metropolitanas de Lisboa e Porto), as travessas eram de madeira e em vez da cruzeta para travar a estrutura usava-se uma escora metálica do extremo da travessa inferior para o poste a fazer um ângulo de 45º. Cada poste tinha "26" circuitos físicos, mas, nalguns traçados aéreos, um par de circuitos físicos podia ser usado para transportar circuitos conhecidos por "circuitos fantasma". Entre Azeitão e Palmela e Azeitão e Setúbal funcionaram circuitos destes. E dois circuitos fantasma podiam ainda transportar um superfantasma. Circuitos fantasma ou de altas frequências, que faziam a interligação entre centrais telefónicas. No Porto, fora da cidade, existiram desses traçados, depois substituídos por cabos de cobre.


terça-feira, 11 de junho de 2019

Bernardino Pires (11)

Esta fotografia de Bernardino Pires (espólio de Daniel Pires) mostra uma edição complexa. Se noutras imagens, eu vi uma forte tendência neorrealista, nesta o trabalho interno de produção leva-me a outro terreno. Não posso escrever que ele seguiu o guião das propostas formalistas da fotografia, por oposição ao realismo fotográfico, e defendeu o ideal de arte fotográfica como o irrepetível, em confronto com as ideias de aura e repetitibilidade, como teorizou Walter Benjamin. Também não escrevo que o expressionismo na versão cinematográfica o entusiasmou, mas ali há traços que o justificam. E, ainda, não conheço todas as aplicações à fotografia do construtivismo russo, nomeadamente o húngaro László Moholy-Nagy, depois professor na Bauhaus, mas a geometrização da fotografia lembra-me essa escola experimental desaparecida às mãos nazis.
O trabalho na fotografia, geometrizado, seria uma tentativa de aplicação das inovações e descobertas que ele prosseguia no trabalho profissional de ilustrador e produtor de formas publicitárias estáticas. Certamente que Bernardino Pires conhecia as correntes mais modernas de arte europeia, devido à sua profissão e a contactos com outros artistas, À tertúlia fotográfica associavam-se outros interesses culturais. A experimentação, portanto.
Deixo duas ideias, a primeira das quais para realçar o lado maquínico - o comboio com máquina a vapor por cima da ponte de ferro (D. Maria Pia, Porto). Há uma grande simbiose, que nos faz esquecer que o comboio transporta pessoas e bens. Daí o lado formalista, o do relevo da forma sobre o conteúdo. Um outro elemento, menos importante, é o do poste telefónico, a realçar a segunda conceção da palavra comunicação, além do transporte, como teorizou James Carey em obra infelizmente curta.
A segunda ideia, sobre a tecnologia da fotografia, retiro-a da interpretação dada por Daniel Pires: "trata-se de um trabalho de retoque (muito) numa fotografia de alto contraste. Como se pode observar na imagem, a luz incide no lado esquerdo (o sol da manhã), a fotografia teria sido feita na margem do Porto. O trabalho de retoque ( amplicópia 30x40 ) no arco da ponte, no gradeamento, no comboio, e também no poste dos telefones ("canecas"?), procurou realçar a fotografia com o objectivo de a tornar mais legível. O efeito final é "quase" como um negativo. Naquela época eram feitas várias reproduções (por vezes sobreposições com outras fotografias) para conseguir a "edição"/composição da imagem".
Conclusão: como disse um dia Bernardino Pires, a fotografia não é a máquina mas o homem.


segunda-feira, 10 de junho de 2019

Bernardino Pires (10)

A assinatura da fotografia, no canto inferior direito, indica BPires 1966. A imagem revela três centros de atenção. Seguindo de cima para baixo e no sentido dos ponteiros do relógio, há um cartaz da SNCF (Société Nationale des Chemins de fer Français) e mostra uma jovem sentada e encostada a lugar confortável, de ar jovial e com roupa a lembrar o verão. Era uma época de grande emigração para França e Alemanha e muitos dos portugueses que queriam fixar-se naqueles países viajavam certamente com comboios ali destinados (embora com mudança em Hendaia, devido à diferença de bitola face a França).
O segundo centro de atenção é a cabina telefónica (telefone público). Cerca de 30 anos antes do início da massificação do telemóvel, o telefone público era uma forma de contacto muito usado em especial na rua ou em locais de férias e de grande movimentação de pessoas. O modelo de cabina era vetusto, de madeira e um manípulo pouco prático para abrir a porta. Dois anos depois da fotografia, a identificação da empresa mudaria - em 1968 a inglesa APT dava lugar à portuguesa TLP (Telefones de Lisboa e Porto), a primeira empresa pública do país a par dos CTT.
O último ponto de atenção - e quiçá mais importante - é o do casal de meia idade, certamente a aguardar o comboio de regresso a casa, evidenciado pelo olhar de ambos para o lado direito da fotografia. Seria final da primavera, pela análise da roupa ligeira da mulher e sapatos abertos em frente e pelo guarda-chuva do homem, a precaver um aguaceiro. Além da mala de senhora, conto quatro malas ou sacos: um saco de sementes, uma mala de viagem e uma mala mais pequena para transportes de produtos frescos - podia ir de legumes a um gato. Há ainda um saco de asas, que a mulher protege com a mão esquerda.
Reparo nos rostos do casal. Ele, de barba por fazer e chapéu na cabeça, parece confiante no futuro. Ela tem um ar pensativo, não tão confiante mas a aparentar serenidade.
Talvez a fotografia de Bernardino Pires traga um quarto centro de atenção, agora por oposição: a publicidade, com juventude, conforto e apelo à viagem, é a vida imaginada como ideal; o retrato do casal, com a sua transumância, é a vida real, bem menos glamorosa e mais dura. Ou escrito de outra maneira: a modernidade expressa no cartaz distancia-se da tradição do modo de vida do casal forasteiro.
Última especulação minha: o casal estivera no Porto a visitar familiares e amigos e regressava à terra, com provisões agrícolas. Para mim, eles viajariam para Penafiel ou Marco de Canaveses.
[fotografia de Bernardino Pires, espólio de Daniel Pires. Originalmente, publicada em https://www.facebook.com/groups/1628946184001729/]


quarta-feira, 5 de junho de 2019

Bernardino Pires (9)

Ontem, publiquei uma fotografia de Bernardino Pires, tendo como centro o vendedor de gelados (sorvetes era a designação à época). Hoje, edito uma ilustração dele sob o mesmo tema e que fazia parte de um conjunto de nove postais que editou quando proprietário da tabacaria-livraria Estrela, na rua de Santo Ildefonso (Porto), entre 1960 e 1967. A repetição temática em duas artes distintas indica uma preocupação semelhante de mostrar a realidade observada. Se a fotografia envolve um contexto de pessoas e objetos em ação e busca a profundidade além da largura e o comprimento, a ilustração é plana fixa apenas o necessário. Com cores vivas e desenho objetivo, o sorveteiro vestia farda, incluindo boné e botas. De ar otimista, o homem desloca-se rapidamente para o seu local de venda, como se vê através da deslocação das rodas. O carro está identificado com a inscrição "sorvetes" na lateral e incorpora duas pequenas bandeiras, à frente e atrás, e o desenho de um pequeno barco à vela, marcador de frescura. A assinatura era Serip, inversão do nome Pires [arquivo Daniel Pires].



terça-feira, 4 de junho de 2019

Bernardino Pires (8)

A história desta fotografia de Bernardino Pires é rapidamente apreensível, pelo que não vou escrever sobre ela. Mas interpreto alguns elementos secundários.
Mau grado o centro da imagem, a atenção das pessoas está no oposto. Logo mais dificuldades - não sabemos o ano, a rua e o que está a passar-se nas costas do homem dos gelados. Das figuras, olho para a esquerda: há duas crianças, uma com luz solar a banhar a sua cabeça e a outra de mão dada com a mãe. Logo a seguir, uma mulher madura segue de calçada com sapatos de tacão alto. Ela tem dificuldade em se movimentar - trocou a comodidade pelo lado de vaidosa que vai à festa. À direita, duas mulheres fotografadas servem para ajudar a identificar aproximadamente a época através dos penteados - meados da década de 1950.
O dia é de festa. Arrisco a que seja em junho, no tempo dos santos populares. A dimensão da rua não me permite reconhecer a localização, pelo que só posso especular. Três pistas: a rua tem um empedrado habitual na cidade, apresenta um perfil horizontal e ao fundo há outra rua que sobe, que podem eliminar algumas dúvidas de localização.
(espólio do filho Daniel Pires)


segunda-feira, 3 de junho de 2019

Bernardino Pires (7)

Gosto particularmente da composição da fotografia de Bernardino Pires, a primeira em baixo. O local é a Ribeira do Porto, próximo da ponte D. Luís, que se observa em fundo. O mercado é informal. O fotógrafo encontrou vendedeiras de legumes e de pequenos animais vivos. Seria outono ou inverno, a ver pela roupa da mulher, guarda-chuva da criança e chapéu do homem. Das imagens que eu conheço de Bernardino Pires, esta é uma construção para a máquina fotográfica, com os modelos a olharem para a câmara.
Volto à roupa: do xaile, avental e socos (socas) da mulher aos tamancos de madeira do rapaz e ao sobretudo do homem. E detenho-me no olhar: incerteza nela, desconfiança nos dois companheiros da imagem. O fotógrafo deve tê-los abordado não como cliente mas apenas para fazer o retrato, o que motivou as suas expressões. Há duas caixas de animais, a de cima, mais evidente, de aves, a de baixo talvez de coelhos. O conjunto de vendedores está no passeio junto à margem do rio. O fundo da paisagem é, para mim, majestoso: a ponte, o mosteiro (quartel) e escarpa da serra do Pilar, esta densamente povoada (fabriquetas?), e o rio sereno. O dia estaria húmido, sem sol.
A segunda imagem, tirada no mesmo local mas em dia de sol, mostra o potencial cliente, de fato, gravata e sobretudo, a inquirir preços dos galináceos. A vendedeira está de costas mas a fotografia permite-nos ver os adereços de vestuário, a incluir o lenço enrolado na cabeça e uma grossa argola no ouvido. As duas jovens, do lado direito da imagem, são parecidas no vestuário e nos gestos, possivelmente acompanhando o homem mas nada interessadas em animais vivos. As saias e casacos e o estilo de penteados do cabelo que usam indicam tratar-se de uma imagem previsivelmente do começo da década de 1950.
Por detrás das duas mulheres, a porta do prédio número 24 indicia uma adega (tasco ou tasca), a associar o trabalho e o lazer. À esquerda, por detrás da cabeça do comprador, há uma placa presa à parede, a lembrar as que indicavam os serviços dos CTT.
A última imagem, já aqui abordada e comentada, fornece-nos outro ângulo do mercado informal, com um novo potencial cliente a abordar as vendedeiras e igualmente bem vestido. Além dos comentários surgidos na inserção anterior da imagem, noto o ar sereno - como o rio da primeira imagem. Ou uma quase sabedoria da espera que as vendas se efetuem, com os vendedores sentados ou em cócoras, como a figura no extremo esquerdo.




sexta-feira, 31 de maio de 2019

Bernardino Pires (6)

No arquivo de fotografias de Bernardino Pires, que o filho Daniel Pires tem vindo a publicar no Facebook, destaco a que aqui ilustro. Título: "Peixeiras, Silhuetas". Sem data precisa, ela foi tirada durante as décadas de 1950 a 1960. [peixeira: mulher que vende peixe; no Brasil, designa faca que corta o peixe. Existe também o termo varina: vendedora ambulante de peixe]
A composição é notável. Na frente, duas mulheres com a canastra à cabeça, logo seguidas de um exército de outras peixeiras (quatro e ainda silhueta de mais duas, pelo menos). Vestem roupa escura, do lenço na cabeça ao avental, e andam descalças. Elas caminham ao lado de um braço de rio, julgo, atendendo a que se vê uma margem ao fundo da imagem. O que baralha a minha interpretação.
Se fosse mar e atendendo à sombra das peixeiras projetada no chão seria de manhã ainda cedo. O rio não está identificado mas sabe-se que os rios em Portugal atlântico correm todos de leste para oeste, a invalidar a sombra matinal vinda de leste. E, além disso, parece-me que as canastras vão vazias, a averiguar pelos panos em cima de uma delas. Por isso, não sei se saem da doca a caminho dos clientes ou se regressam.
Repito: a composição fotográfica é notável. Há linhas distintas e que dão dinâmica à imagem. À linha que demarca o horizonte (a dividir a fotografia em duas partes), e que revela equilíbrio e sossego, junta-se a diagonal do muro e do trajeto das varinas, dando movimento a estas. Elas deslocam-se apressadas. Pelo tema (transporte artesanal de peixe) e pela composição, não tenho dúvidas em classificar a fotografia dentro do padrão estético do neorrealismo.


quinta-feira, 30 de maio de 2019

Bernardino Pires (5)

Na fotografia de Bernardino Pires em cima, vê-se a rua das Flores (Porto) quase até ao final, cheia de edifícios do século XVII em diante. O edifício da esquina com a rua Mouzinho da Silveira ostenta um anúncio que percorreu décadas de exposição - talvez o mais emblemático da cidade: "Vestir Bem e Barato Só Aqui". Só o reclame merecia ser considerado património nacional. Nem vestígios de automóveis, que vieram depois, nem esplanadas com guarda-sois a publicitarem cervejas e gelados, que existem hoje. Felizmente que agora, naquela rua encantadora que já foi de ourives e de ourivesarias, abriu um museu magnífico de arte sacra.

A fotografia tem outro plano, que me interessa explorar, a do muro à saída da estação ferroviária de S. Bento, um balcão para a cidade - para esta parte da cidade. Os dois homens da fotografia parecem desfrutar da paisagem exuberante, mostra da capacidade empreendedora da burguesia da cidade, que se desenvolveu com o comércio marítimo e fluvial ali mais abaixo.

Fardados (militares? taxistas?), talvez estejam apenas a observar algo que decorre mais à frente. Nós não sabemos mas imaginamos uma conversa mais acesa entre dois transeuntes. É um instantâneo que o fotógrafo não deixou perder, embora não nos tenha possibilitado conhecer a história toda.

A fotografia de Bernardino Pires em baixo também tem um pequeno muro como referência. Mas, ao contrário da anterior, em que o olhar dos homens fardados se virava para o exterior, a conversa entre namorados é para dentro. Possivelmente, estão a preparar o futuro do casal. Eles são jovens, elegantes e bem vestidos, ele com anéis nos dedos e ela com brincos (argolas), e bem penteados. Seria um passeio de domingo à tarde, com tempo para falar. Em dia quente, a conferir pela blusa e sapatos da rapariga. Um pormenor: o chão está sujo, pois um dos sapatos da jovem tem algo pegado ao tacão (papel? folha de árvore?).

O muro está colocado junto a um vale, pelo declive do fundo da imagem, se calhar um caminho onde corre o rio Douro (junto às Fontainhas). A rapariga ao lado, igualmente bem vestida, observa a paisagem, como os homens fardados da outra fotografia, a olhar para fora. A escarpa em frente não tem muitas árvores, talvez acácias e eucaliptos. O fundo da imagem tem um elemento estranho que não consegui interpretar - um drapeado. Não me parece ser um pano para toldo colocado em dia de festa. Ou, então, foi simplesmente uma falha no negativo.



quarta-feira, 29 de maio de 2019

Bernardino Pires (4)

A série de hoje de fotografias de Bernardino Pires mostra dois quadros: um fixo e outro em movimento. O fixo é o da vendedeira e do homem a dormitar. De vendedeira diz-se de quem trabalha num mercado de abastecimento de géneros alimentares (Ciberdúvidas). O quadro em movimento é o das pessoas que passam naquele espaço.

A mulher que vende já é velha, com rosto de sofrimento e olhar focado no vazio. As mãos, pousadas no regaço, parecem inchadas por doença. Veste um xaile, a indicar temperatura menos amena. Nos pés, parece que usa uns tamancos de madeira. O cesto à sua frente está vazio ou quase. Não sei se ela vendia alhos ou batatas; eu gostaria que fosse algo mais agradável como figos. O cesto atrás está mais cheio mas não adivinho o conteúdo.

Do homem, há menos detalhes, pois ele está escondido sob o casaco. Certamente a dormitar ou porque quis evitar o contacto visual com o fotógrafo. Mas, no casal, os sinais de pobreza são claros. Duas janelas em prédio ao fundo da arcada estão muito destruídas e sem vidros. Efabulo: seriam vendedores de alhos ou batatas de Gondomar? Ou da Maia?

Nas outras duas fotografias visualizam-se uma mulher de avental com um bebé ao colo e uma jovem com uma mala a lembrar uma lancheira, esta em passo mais rápido que aquela. O homem continua dobrado sobre si mesmo, a indicar estar a dormitar e não a evitar o fotógrafo. Este teria tirado as três imagens como instantes do quotidiano, quase a lembrar um filme, embora na terceira imagem ele se tenha deslocado para a sua esquerda (já sem se vislumbrar as janelas ao fundo da arcada).

O local é o de arcada da Ribeira (Porto), perto da ponte D. Luís I. Bernardino Pires fez muitas fotografias naquela área. O Barredo, o bairro por detrás da arcada, é muito antigo. Na época das imagens, as lojas em frente ao rio eram mais armazéns onde se guardavam legumes secos, como feijões, azeitonas e outros bens. Ainda havia tráfego fluvial - barcos e batelões acostavam; na outra margem do rio, a azáfama comercial envolvia barcos rabelos com vinho fino oriundo da Régua e chamado vinho do Porto. Um pouco acima do local fotografado, transitários e empresas marítimas ainda animavam muito a zona. A população local estava envolvida em pequenos ofícios, de carregador a trolha (pedreiro) e a empregado de loja de ferragens, que existiam pela rua de Mouzinho da Silveira acima. Na década de 1960, a zona da Ribeira entrou em decadência, com a mudança do peso do porto fluvial para o porto de Leixões (Matosinhos), a permitir a atracagem de navios de maior calado. Os transitários saíram todos para Matosinhos e Perafita (terminal de contentores). No final da década de 1970, houve renovação predial mas muitos dos moradores locais seriam colocados noutras zonas do Porto, alterando as características locais, hoje um grande espaço de restaurantes e alojamento local para turistas internacionais chegados em voos de baixo preço.




terça-feira, 28 de maio de 2019

Bernardino Pires (3)

Bernardino Pires fotografou a loja de fruta no rés-do-chão e o primeiro andar habitado com floreiras e um pequeno santuário, além da varanda de ferro a toda a largura do prédio. Concentrou ainda a sua atenção no rapazinho que seguia pela rua dos Caldeireiros a atravessar a travessa do Ferraz, não muito longe da então prisão ao Campo dos Mártires da Pátria (onde estivera preso Camilo Castelo Branco).

O rapazinho preenche uma parte da fotografia do lado esquerdo. Vê-se que está afoito na rua, conhece-a bem. De calções, blusa aberta e uma mão atrás das costas, olha para o lado no momento em que desce do passeio. Quantos anos teria ele? Quatro? Cinco? Vai fazer um recado? Ou vai ter com um companheiro para uma brincadeira? Na mão esquerda ele transporta um objeto mas eu não consigo perceber o que é.

Volto ao edifício e ao exterior. No primeiro andar, percebe-se que o prédio tem azulejos a revestir o seu exterior, com um desenho de figura circular, a aparentar uma boa construção. A luz solar desce forte pela rua e obscurece a parede visível da travessa do Ferraz. Pela minha leitura, passaria pouco tempo depois do meio-dia. Assim, talvez o rapazinho tivesse chegado de uma brincadeira no jardim do Campo dos Mártires da Pátria, o Jardim da Cordoaria (de João Chagas) e a preparar-se para almoçar.

[na foto a seguir, a imagem do local obtida através do Google Maps. As comparações entre as duas imagens deixo-as a quem ler esta mensagem]



segunda-feira, 27 de maio de 2019

Bernardino Pires (2)

Claude Monet pintou a catedral de Rouen em diversas horas do dia, de modo a obter diferentes impressões de cor. Na fotografia, Bernardino Pires usou um princípio próximo - o da usura do tempo num espaço.

Das imagens já publicadas pelo filho, Daniel Pires, há duas séries retratando mulheres: na estação ferroviária de S. Bento e nas arcadas da Ribeira do Porto. Fico-me pela primeira série. Na fotografia inicial, duas mulheres ainda jovens conversam. Muito serena, a mulher à direita parece estar a confessar um pormenor mais íntimo da sua vida - talvez a pedir um conselho à outra mulher. Elas estão sentadas junto a um pilar da entrada da estação e o fotógrafo indica-nos um pormenor, a do sítio onde elas se sentam: cestos fortes de verga onde transportam certamente produtos domésticos ou alimentares. Mas o maior enquadramento vai para a imagem de azulejos da estação. Uma análise superficial pareceria indicar que a atividade das mulheres se ligaria ao rio ou ao mar, mas a estação ferroviária não é rota para qualquer das áreas, exceto numa zona longínqua, a de Viana do Castelo. Olhando melhor a imagem de azulejos, vejo dois motivos: transporte de pessoas, com um guarda-chuva a despontar, transporte de mercadorias de praia ou de encosta com uma parelha de bois a ajudar a transferência desses bens. O vestuário das mulheres pode configurar esta minha hipótese. À falta de melhor descrição chamo-as de minhotas: o lenço, o avental, as cores percecionadas da roupa.

Não tenho ainda informação sobre o modo como Bernardino Pires fotografava: com tripé? Com que tipo de máquina? Portátil? A fotografar de modo discreto ou quase clandestino? Qual a diferença entre o que ele queria fotografar e o que aparece na imagem?

A segunda fotografia alarga o ângulo de visão. Uma das mulheres, a que parecia estar a confidenciar, está de pé, e veem-se duas outras mulheres que parecem fazer parte do mesmo grupo, dadas as semelhanças de vestuário, além de uma criança. A imagem revela-nos que estão no átrio da estação mesmo junto à porta de entrada para a gare dos comboios. Talvez a hora de partida esteja a aproximar-se e a mulher levantou-se.

Na terceira imagem, duas das mulheres e criança desaparecem de cena, a indicar movimento para o comboio ou saída para obter informações sobre horários. A fotografia revela um pormenor delicioso. A mulher a vestir roupa menos tradicional abaixa-se e pega num garrafão: vinho? azeite? O comboio deve estar pronto a partir, pois se observa movimento na entrada para a gare. Nas duas últimas fotografias, à entrada da gare, está um polícia no mesmo sítio, o que pode indicar que as fotografias teriam sido feitas quase umas atrás das outras, como se fossem instantâneos.

Por conseguinte, a decisão de fotografar é imediata, mas o fotógrafo não perde de vista os seus objetivos principais: o painel de azulejos e as mulheres em viagem. A conversa, a espera e o momento de partida estão bem patenteadas nas imagens. O comboio que não se vê poderia ser um movido por uma máquina a carvão (a vapor), como outras fotografias de Bernardino Pires mostram.

Desta análise, ficou-me uma pergunta: e os homens onde estão? Pela divisão social de tarefas existente à época, a atividade exercida pelas mulheres era doméstica - compras. Ou uma outra hipótese: visita a um familiar doente ou internado no hospital.

Mas há um tempo sereno de espera, sinal que hoje não encontraríamos: a estação de S. Bento, no Porto, como a do Rossio, em Lisboa, é (são) porta(s) de acesso a uma população flutuante e diária entre emprego na cidade e habitação nos subúrbios urbanos. O vestuário à minhota e os cestos de verga fazem parte da história de há sessenta setenta anos. A fotografia é um meio privilegiado de se estudar uma sociedade e um cultura. Bernardino Pires foi um bom observador dos costumes, combinando tempo e espaço com harmonia. Julgo, assim, muito útil contribuir para a divulgação de uma obra que não é mero trabalho de amador.




domingo, 26 de maio de 2019

Bernardino Pires (1)

[interrompo o longo silêncio e quebro por dias o fim do blogue. Uma razão: a escrita de alguns textos sobre um fotógrafo que estou a descobrir, embora já tivesse falado dele aqui: Bernardino Pires]

O que se segue é um começo de ensaio sobre Bernardino Pires (1904-1977), ilustrador e desenhador gráfico na área da publicidade, tendo trabalhado para grandes empresas como a Ciba-Geyge (atual Novartis), de produtos farmacêuticos e para agricultura [enquanto tentativa, o presente texto pode ser alterado no sentido de melhorar as interpretações que se seguem].

Apaixonado pela fotografia, participou em concursos patrocinados pela Associação Fotográfica do Porto, a título individual e integrado em grupo restrito de amigos – Tertúlia Fotográfica "4+" –, ganhando variados prémios. A época de maior atividade fotográfica foi durante as décadas de 1950 e 1960. As imagens abaixo cobrem este período, sem se poder datar com maior rigor tal produção, e refletem a realidade do Porto e seus arredores. O espólio fotográfico de Bernardino Pires inclui negativos 6x6, 35mm, filmes, diapositivos e amplicópias.

Das imagens já disponibilizadas no Facebook por Daniel Pires, a quem agradeço toda a informação prestada e permissão para escrever sobre o pai, destaco algumas. Ainda sem um grande apuro estético, eu identifico as imagens como pertencentes ao estilo neorrealista. Várias fotografias representam espaços de trabalho artesanal, como agricultura e venda de peixe e de legumes. Lazer ou compromisso social são fornecidos em outras imagens. No conjunto, há ainda imagens consideradas mais artísticas, como o nevoeiro a encobrir a ponte D. Maria Pia (Porto).

O movimento da mulher que transporta o saco à cabeça retirado da carroça junto à ria (de Aveiro, julgo) mostra-nos uma pessoa ágil e decidida, a deslocar-se rapidamente e em equilíbrio. O ligeiro desfocar da figura feminina ilustra essa velocidade. A imagem não nos revela o rosto, apesar dos óculos, mas podemos concluir que o esforço denota uma tarefa de rotina. Olho ainda os pés descalços, marcador de uma época.

"Grupo de amigos" mostra um conjunto de cinco crianças em redor, que convergem a sua atenção compenetrada para o mais velho, vestido com casaco, à direita, a mostrar um objeto - que não consigo identificar. As crianças estão descalças e o local parece-me junto à Ribeira (Porto), dado existir uma outra fotografia em local parecido - venda de legumes. A análise ao vestuário das crianças daria um ensaio. A fotografia remete para a obra cinematográfica de Manoel de Oliveira, Aniki-Bóbó (1942).

Bernardino Pires parece, por vezes, um fotógrafo tímido, pois as cenas são captadas por detrás. Talvez não quisesse perturbar os acontecimentos com a sua presença mas ficar-se no lado mais antropológico, como a imagem de homens montados em bicicleta. Eles estão em pausa e a escutar algo. Não nos são dadas muitas pistas mas vislumbra-se um homem ao fundo e voltado para os ciclistas. Distribuição de tarefas de trabalho? Escuta de relato de futebol no rádio (telefonia) em dia de domingo? A reunião iniciou-se sob a sombra de árvore mas o número de homens cresceu além da proteção daquela. Diversos indivíduos usam boinas. Na bagageira de algumas máquinas há embrulhos, talvez um lanche ou encomenda a entregar. Uma nota: as bainhas estão protegidas com molas, para evitar rasgões das calças junto dos pedais. Acrescento: à esquerda está um militar, à direita uma criança.

Menos habitualmente, o fotógrafo remeteu-nos para um universo mais abstrato mas sem descuidar o labor. Um exemplo desta modalidade é "Bicicleta", composição simétrica com troncos de madeira, certamente guardados em armazém. Cada tronco é um ponto branco de diferente tamanho. A bicicleta, a pá e as roupas constituem elementos suplementares de composição. Apesar de ser uma imagem a preto e branco, há cores distintas em cada um desses objetos.




terça-feira, 24 de julho de 2018

Um blogue - de 17 de março de 2003 a 24 de julho de 2018

O projeto do blogue Indústrias Culturais começou em 17 de março de 2003, há mais de quinze anos. Agora, chegou a altura de o encerrar. O cansaço de pesquisar e de fornecer informação, quase diária ao longo de muito tempo, e a necessidade de me concentrar numa tarefa específica - a rádio, como tem transparecido nos anos mais recentes - são duas razões que justificam esta decisão.

Nunca pensei em seguir o exemplo de Aby Warburg, que dedicou a sua vida à criação de biblioteca como memória coletiva europeia assumindo a cultura da antiguidade pagã, conforme António Guerreiro, crítico de literatura, mostrou em conferência sobre Warburg, a 13 de dezembro de 2007, e cujo vídeo recupero aqui. Também nunca julguei tornar o blogue Indústrias Culturais uma espécie de wikipedia dedicada a assuntos de cultura e das indústrias relacionadas com ela, mais o jornalismo e os media. A sua linha foi-se construindo ao longo do tempo, com muita dedicação e procura.

Quero agradecer a todos os leitores que o leram e deram contributos para uma maior compreensão dos temas que fui tratando.

   

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Rádio Con:Vida em Aveiro em novembro de 2018

A Universidade de Aveiro, o INET-md e a UNESPAR apresentam o evento rádio con:vida que terá lugar entre os dias 15 e 17 de novembro de 2018 na Universidade de Aveiro. Na página rádio con:vida, já se encontra informação geral sobre a exposição e a conferência internacional e a relativa a inscrições, submissões, datas, programa, locais, entre outros. Com o apoio da Fábrica Centro de Ciência Viva de Aveiro, da Fundação Calouste Gulbenkian, da Fundação para Ciência e Tecnologia, da Rede de Museus Oliveira do Bairro, da Câmara Municipal de Oliveira do Bairro e da Radiolândia, a conferência – que inclui também uma exposição – tem por objetivo colocar em diálogo os investigadores e os protagonistas envolvidos em diferentes experiências sobre rádio.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Serviço Público de Media em Portugal em tese de doutoramento

Foi hoje de manhã que Nuno Conde defendeu a sua tese de doutoramento em Ciências da Comunicação na Universidade Católica Portuguesa, sob o título Legitimidade do Serviço Público de Media e Relações de Poder: o Caso Português (2002-2014). A prova foi classificada com Excelente, 19 valores.

Do resumo da tese, retiro o seguinte: "A presente investigação incide sobre a problemática da legitimidade do serviço público de media em Portugal. A pesquisa empírica desenvolvida (análise documental e entrevistas a protagonistas dos campos político, regulatório, dos media e da sociedade civil) centra-se na RTP, ao longo de três ciclos políticos, entre 2002 e 2014. Assim, analisamos as opções políticas sobre os modelos de financiamento e governação do operador de serviço público, devidamente contextualizadas nos planos económico e regulatório. A investigação permite-nos concluir que o serviço público é perspetivado pelo poder político como um agente regulador do mercado, quer no plano económico, por via da imposição de restrições à publicidade comercial na RTP, quer na dimensão mais abstrata e subjetiva de agente indutor da qualidade na programação e de uma ética de antena no espaço comunicacional. Constatamos que a comunicação política em torno da ideia da privatização da RTP é utilizada como estratégia de afirmação política, mobilizadora de outros significados, designadamente de opções ideológicas sobre o papel do Estado na sociedade e na economia".

Aqui, manifesto a minha grande alegria e orgulho pelo trabalho apresentado e aprovado. Como orientador (e amigo) de Nuno Conde no mestrado e agora no doutoramento, reconheço a enorme valia da sua investigação. Profissional que trabalhou (ou trabalha) como consultor de entidades do Estado e gestor em várias empresas de media (e televisão), o seu conhecimento do serviço público de media é um dos mais estruturados que existem no país. Espero sinceramente que publique a sua tese, alargamento fundamental para se compreenderem os media, e a televisão em especial, no primeiro quartel deste século em Portugal.

Com a realização desta prova pública, fecho o meu ciclo de docência e orientações. Foi um período riquíssimo e agradeço à Universidade Católica todas as oportunidades que tive. Mas, acabado este ciclo, começa um novo. Um projeto financiado pela FCT, Broadcasting in the Portuguese Empire (acrónimo: BiPE), sob a liderança de Nelson Ribeiro, diretor da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica, mais três elementos, entre os quais eu me encontro, já está em curso. A vida da universidade é assim: colorida e cheia de desafios.

Abaixo a fotografia do júri com o novo doutor e um vídeo, feito após a prova, onde Nuno Conde apresenta as principais linhas do seu estudo.


Da esquerda para a direita: Manuel Pinto (Universidade do Minho), Sílvio Santos (Universidade de Coimbra), Rogério Santos, Nelson Ribeiro (Universidade Católica Portuguesa), Nuno Conde, Rita Figueiras (Universidade Católica Portuguesa) e Francisco Rui Cádima (Universidade Nova de Lisboa). Fotografia: Cristina Morgado

 

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Vida de telefonista

A leitura da tese de doutoramento de João Moreira dos Santos sobre relações públicas e estudo de caso da Anglo-Portuguese Telephone (APT) levou-me a procurar material que tinha recolhido sobre essa empresa e que há mais de 30 anos não via e, por isso, não trabalhei em termos de investigação histórica. Agora, por exemplo, encontrei dois documentos que me elucidaram sobre a vida da telefonista e a precariedade de trabalho no final da década de 1940. Em ambos, expurguei os nomes das intervenientes.

Um deles é de 1948. Para crescer economicamente, a APT fez contratos leoninos com os empregados. A telefonista admitida entrava na reserva eventual, fora de regalias (serviços médicos ou vencimento quando doente) e sem aviso prévio se o posto de trabalho fosse extinto. Há um parágrafo mais elucidativo do que outros: trabalho temporário e serviço em dias isolados ou em determinadas épocas, como o verão.

O outro documento traz dados ainda mais relevantes, a partir da ficha de avaliação de pessoal de uma agente da central telefónica da Afurada (Vila Nova de Gaia), com contrato estabelecido em abril de 1946. Se, pelo primeiro documento, a precariedade resulta da necessidade de preencher vagas por férias, pelo segundo documento, toma-se conhecimento de uma empregada a residir no local de trabalho, com apoio da colaboração de familiares. Pelo documento, não se sabe que exigências e regalias se colocaram à empregada, mas admito que o contrato tivesse balizas de apoio social e médico semelhantes (ou, por isso, inexistentes). A estação onde a agente ficava a trabalhar era no lugar da Alumiara, em Canidelo. Não andarei longe da localização se a colocar na rua da Bélgica, entre Afurada de Cima e Lavadores, ainda hoje uma via de acesso essencial no percurso do centro de Gaia às praias.

A unidade de secagem de bacalhau, algumas fábricas de cerâmica, lavradores mais abastados, donos da frota pesqueira (pesca artesanal), lojas (mercearias e padarias), profissões liberais (como médicos), possivelmente já alguns concessionários da praia de Lavadores e o pessoal da antena de rádio dos Emissores do Norte Reunidos seriam alguns dos clientes da central telefónica. A estação da Afurada estava caracterizada como de tráfego médio.

Nessa época, a agente já era casada. O filho nasceria ainda em 1946 e a filha em 1950. Logo no ano do contrato, o marido foi autorizado a fazer serviço e para apoio da agente entrou uma empregada (criada) ainda em 1949. O pai da agente obteria autorização para residir na casa-central telefónica por um período curto em 1950 e em definitivo em 1954. Uma prima da agente, nascida em 1938, foi igualmente autorizada a residir no mesmo lar em 1950 mas impedida de trabalhar, assunto revogado em 1951 quando a jovem atingiu 14 anos de idade. O trabalho na central telefónica era 24 horas por dia, 365 dias por ano. Daí, a pequena equipa de quatro adultos: agente, marido, pai e prima. Talvez a empregada ainda ajudasse em algum momento.

Uma visitadora avaliaria o trabalho regular da agente telefonista da estação. A visitadora seria uma encarregada, já com experiência de serviço, correspondente à vigilante, que, na central com muitas telefonistas, zelava pelo bom atendimento e resolvia situações de telefonemas mais complexas. No caso presente, a tabela de avaliação geral não foi totalmente simpática para a agente: em cinco anos observados, 18 meses com muito bom, 16 com bom, 12 com sofrível e 11 com mau e 3 muito mau ou péssimo. O serviço começou a melhorar em 1952. Uma razão plausível para a melhoria seria a entrada da jovem prima, com o alargamento da equipa.

A remuneração mensal era de 400 escudos em 1946, tendo subido a 500$00 em abril de 1953, quatro anos depois do começo do contrato. Uma gratificação ou bónus anual (espécie de subsídio de férias de valor variável e atribuível ou não) não atingia o salário mensal, a oscilar entre 250$00 e 375$00, mas chegou a mil escudos em 1955.

Como seria garantir a subsistência de um agregado de oito pessoas com 400 escudos? O aluguer mensal de 120$00 era retirado do vencimento ou funcionava como usufruto? Há uma observação, em julho de 1951, que indica ter sido retirado o subsídio para a luz por ele ser incorporado no subsídio da energia, o que significa haver outros pagamentos não identificados nesta folha de pessoal. Apesar de muito distinto, podemos comparar aquele salário com preços de roupa de uma loja de luxo, em 1950, a Casa Africana: “Se a ouvinte vai para a praia, termas ou campo, não se preocupe com as suas toilettes: a Casa Africana tem modelos de vestidos todos diferentes ao preço de 200$00 a 250$00. Vestido de lantoc a 300$00. Vestido de linho a 350$00” (Arquivo Nacional Torre do Tombo, SNI, Caixa 791).

Uma última observação: o casamento estava vedado às telefonistas das maiores centrais mas não às agentes das centrais manuais de bateria local ou bateria central, possivelmente por força do isolamento profissional.




segunda-feira, 9 de julho de 2018

João Moreira dos Santos, as relações públicas e a APT

Hoje, no ISCTE, João Moreira dos Santos defendeu tese de doutoramento em Ciências da Comunicação com o título As Primeiras Manifestações de Relações Públicas Empresariais no Portugal do Início do Século XX (1910-1948). Modelos de Comunicação no caso The Anglo-Portuguese Telephone Co. Ltd. O aluno teve como orientadora a professora Sandra Pereira e como co-orientadora a professora Maria Inácia Rezola.

Retiro do resumo da tese o seguinte: "O presente estudo tem como objeto de análise as primeiras manifestações de Relações Públicas (RP) empresariais em Portugal, muito particularmente os modelos de RP adotados (Grunig e Hunt, 1984), procurando evidenciar o papel do contexto histórico na sua prática. Cingindo-nos ao período compreendido entre 1910 e 1948, seguimos como estratégia de pesquisa a metodologia de estudo de caso. Para o efeito, elegemos a The Anglo-Portuguese Telephone Company, Ltd. (APT), também conhecida como Companhia dos Telefones, que desenvolveu atividade em Portugal entre 1887 e 1967. Cientificamente, pretendeu-se contribuir para colmatar as lacunas existentes na historiografia nacional e europeia das RP empresariais".

Como arguente, interessou-me sobremaneira a análise da APT, presente nos capítulos V e VI. Daquele (A APT em Portugal e o contexto para as Relações Públicas), o agora doutor trabalhou breve historial da APT, introdução e adaptação (1882-1902), sistema de bateria central (1903-1930), sistema automático (1930-1967), contexto para as Relações Públicas, enquadramento contratual, ambiente político e regulatório, ambiente laboral, ambiente social, ambiente operacional e comercial, ambiente mediático, cultura empresarial e ambiente concorrencial. Do segundo (As Relações Públicas na APT), retiro os seguintes subcapítulos: organização, terminologia e conceptualização, dos secretários da administração à departamentalização, origem e progressão do termo, conceptualização teórica, influências estrangeiras na aquisição de competências, influência britânica, influência norte-americana, práticas e modelos de Relações Públicas, relações com o poder político e regulador, relações com os empregados, relações com a comunidade, relações com os clientes e relações com a comunicação social.

Das conclusões, o autor menciona indícios de que durante o terceiro quartel do século XIX algumas empresas e organizações enviavam aos jornais informação referente às suas iniciativas, serviços e produtos, numa atividade do tipo publicity. A nível empresarial, João Moreira dos Santos considera o pioneirismos das RP na APT, enquadradas sob esse mesmo termo – Relações com o Público – a partir dos anos 1930. Em 1948, Mello Portugal, funcionário do departamento de tipo-RP da APT, defendeu, contudo, que seria mais apropriado usar o termo Relações Públicas (Portugal, 1948), sendo essa, possivelmente, a primeira referência ao mesmo em Portugal. Nos anos 1950, o designativo Relações Públicas era já utilizado por empresas/organizações como a APT, Shell Portuguesa e CTT.

A APT (Anglo-Portuguese Telephone) era a empresa de telefones conhecida como Companhia dos Telefones, a operar nas áreas de Lisboa e Porto até 1967, quando deu origem aos TLP, fundidos com a parte de telecomunicações dos CTT em 1994, originando a Portugal Telecom.


Fonte: Ilustração, 16 de dezembro de 1933


Adaptação de anúncio da realidade inglesa à portuguesa. O júri da prova, mais o novo doutor, aparece na fotografia a seguir.


[da esquerda para a direita: Jorge Vieira, ISCTE, Nuno Estêvão Ferreira, Universidade Católica, Sandra Pereira, Escola Superior de Comunicação Social, João Moreira dos Santos, Gustavo Cardoso, ISCTE e presidente do júri, Gisela Gonçalves, Universidade da Beira Interior, e Rogério Santos, Universidade Católica]

 

domingo, 8 de julho de 2018

Pedro Morais

Vestia sempre de branco e o seu saco de pano era branco. No inverno, a sua canadiana de pipinhas era de lã muito clara.

Viamo-lo a almoçar na cafetaria aqui da rua. O nosso vizinho de mesa parecia um poeta.

Afinal, era pintor com obra sólida, conforme li no obituário há pouco no jornal. Tão elegante quanto discreto. Artista e professor. Que ignorância a minha. Quantas conversas poderia encetar com ele.  Talvez me mostrasse as obras em criação no seu ateliê, presumo, do outro lado da rua.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

A imprensa católica açoriana segundo José Paulo Machado

Hoje, na Universidade Católica Portuguesa, defendeu tese de doutoramento José Paulo Machado, com o título A Imprensa Católica nos Açores: do Início do Século XX ao Concílio Plenário Português.

Da introdução, retiro uma questão que segue o título da tese: como se organizaram os media religiosos nos Açores nos três primeiros decénios do século XX, atendendo a escassos recursos financeiros e humanos? Por diversas vezes, os jornalistas desses meios apelaram à ajuda. Ou, como escreveu o aluno: "colocavam-se junto dos seus leitores de mão estendida" (p. 46). No todo, a tese procurou saber as causas que levaram a igreja a abraçar a imprensa, a imprensa nos Açores no início do século XX e as principais temáticas dos editoriais católicos açorianos.

O padre e agora doutor José Paulo Machado estudou 17 periódicos (jornais nacionalistas, boletins paroquiais, jornais associados ao Centro Católico Português, imprensa diarista de Angra do Heroísmo e revistas de foro cultural) num total de 5132 jornais, focando a sua análise empírica nos editoriais ("entrevista", aspas colocadas por mim, âmbitos religioso, político, locais-regionais e sociais-económicos, sobre o ensino, patrióticos, sobre a imprensa, âmbito literário-científico-cultural e sobre política internacional).

Como um resultado da investigação, em antecipação ao Concílio Plenário Português (1926), a reunião dos jornalistas católicos açorianos (1923) delineou, como grande linha de força, a unidade temática da imprensa católica insular. Seguindo esta orientação, com a extinção ou persistência dos periódicos estudados, seria criado o órgão oficial da Diocese, A União, em consonância com as deliberações do Concílio Plenário Português de 1926. Isto numa altura de grandes mudanças políticas (ditadura e Estado Novo) e situação económica (preço crescente do papel de jornal).

Além do trabalho escrito e apresentação oral do mesmo, a arguição tem um papel importante no valor da prova pública. Aqui, a leitura atenta e crítica de Alexandre Manuel Leite e Maria Inácia Rezola, bem como os contributos dos meus colegas da Universidade Católica, alargou muito a perspetiva do texto, num verdadeiro contributo científico. Enquanto orientador desta tese de doutoramento, senti-me gratificado pelo rigor das intervenções. E manifesto ainda a minha alegria pelo presidente do júri ser o padre José Tolentino Mendonça, vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa e muito recentemente nomeado arcebispo e com os cargos de arquivista do Arquivo Secreto do Vaticano e bibliotecário da Biblioteca Vaticana, a assumir no começo de setembro de 2018.


[da esquerda para a direita: Alexandre Manuel Leite, Universidade Autónoma de Lisboa, José Miguel Sardica, Universidade Católica Portuguesa, Nelson Ribeiro, Universidade Católica Portuguesa, José Tolentino Mendonça, Universidade Católica Portuguesa, José Paulo Machado, Rogério Santos, Universidade Católica Portuguesa, e Maria Inácia Rezola, Escola Superior de Comunicação Social]

Em último, fica aqui um apontamento em vídeo do próprio José Paulo Machado.