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domingo, 13 de maio de 2018

Callas

A sinopse do filme Maria by Callas, de Tom Wolf (2017), indica: "Pela primeira vez, 40 anos depois da sua morte, a mais famosa cantora de ópera conta a sua história, nas suas próprias palavras. Um filme a partir de filmagens inéditas, fotografias nunca vistas, filmes pessoais em super 8, gravações ao vivo privadas, cartas íntimas e raras imagens de arquivo a cores".

E acrescenta incluir imagens e filmagens de, entre outros, Maria Callas, Vittorio De Sica, Aristotle Onassis, Pier Paolo Pasolini, Omar Sharif, Marilyn Monroe, Alain Delon, Yves Saint-Laurent, John Fitzgerald Kennedy, Luchino Visconti, Winston Churchill, Grace Kelly e Elizabeth Taylor.

Assim, o filme retrata a fascinante figura da cantora norte-americana (de Nova Iorque), regressada à Grécia dos seus pais com treze anos (1937), e onde ingressa na carreira musical. Não é um documentário como estamos habituados a ver na televisão, em que se cruzam depoimentos de especialistas numa matéria e que esclarecem os passos da pessoa a documentar. Apenas a sua professora Elvira de Hidalgo.

Para mim, outros pontos fracos do filme são que não explica adequadamente a razão porque a família saiu dos Estados Unidos, a troca sentimental dela por Jacqueline Kennedy por Onassis e a muita insistência, certamente para usar as imagens de arquivo, em chegadas de avião, entradas em automóveis, palmas nas salas onde cantou e vestidos e chapéus que usou e cãezinhos de estimação que a acompanhavam a todo o lado.


Mas fica, e isso é bastante para quem gosta de a ouvir e recordar, a sua imagem, nas entrevistas, de mulher tímida, nascida com nome de família Kalogerópulu e alterado para Callas, bem mais fácil de pronunciar, que sofreu com uma momentânea perda de voz em Roma (1958), e perdeu a carreira devido aos homens que amou, um porque explorou a sua condição mediática (o empresário Giovanni Battista Meneghini, bem mais velho que Callas, com quem casou) e outro porque era um bom vivant e, no fundo, aventureiro (Onassis) e a procurar constituir família e ter filhos. Uma vida simples, como acentuaria em entrevistas. O filho tido da relação com Onassis morreu no dia seguinte ao nascimento. A sua voz entraria em decadência e ela refugiou-se num apartamento em Paris, onde morreu. Apesar de muito famosa, creio que nunca terá alcançado a felicidade.

Se a glória foi efémera, a memória perdura. Maria Callas (1923-1977) cantaria em especial o bel canto, como Donizetti, Bellini e Rossini. Mas igualmente o repertório de Bizet e Wagner, entre outros [créditos das imagens: Leopardo Filmes].

sábado, 29 de abril de 2017

IndieLisboa no Capitólio


O 14º IndieLisboa 2017 - Festival Internacional de Cinema Independente começa a 5 de maio no Cineteatro Capitólio/Teatro Raul Solnado, que volta a abrir as suas portas. O edifício, recuperado após o encerramento na década de 1990, recebe diariamente um filme da programação do festival. Na primeira noite: Tony Conrad: Completely in the Present, documentário que olha o legado do "padrinho" dos Velvet Underground [imagem e texto fornecidos pela organização].

domingo, 9 de abril de 2017

Paula Rego no museu e no cinema


O filme, realizado pelo filho Nick Willing, é elegante e terno, mas também revela medos, fantasmas e obsessões, descendo à intimidade da pintora Paula Rego e abrindo pistas para a compreensão da sua obra. Sim, nós precisamos de signos e de interpretação para entendermos as suas pinturas. O ideal de belo e harmonioso não faz parte da estética dela, mas o grotesco e o violento. Documentário e exposição, patentes desde esta semana no cinema Ideal (Lisboa, onde vi o filme) e na Casa das Histórias (Cascais), ajudam-se mutuamente. Na exposição, parcelas das falas de Paula Rego no filme acompanham as telas que vimos mais fugidiamente no ecrã.

As séries sobre o aborto, as mulheres-cão, o crime do padre Amaro (a partir de Eça de Queirós), as pinturas zoomórficas de coelhos, ursos e macacos e as obras no período da depressão de 2007, sempre escondidas e agora reveladas numa só sala (onze quadros), representam um percurso muito rico desde a aprendizagem artística na Slade School of Fine Arts (Londres), de 1952 a 1956, onde ela também conheceu aquele que viria a ser o seu marido Vic Willing. O filme revela melhor o seu itinerário biográfico, entre Ericeira e Estoril, de um lado, e Londres, do outro. A exposição mostra o percurso artístico marcado pela biografia: as alegrias, as tristezas, os sonhos e os pesadelos.

A par da exposição de obras e temas emblemáticos dos trabalhos da pintora, em Cascais veem-se fotografias, cartas, livros que pertenceram a Paula Rego, uma pintura da sua mãe (que aquela comenta no filme) e até a reconstituição do seu estúdio, visto no filme mas mais próximo de nós na exposição.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

O Amigo Americano

Na série de filmes de Wim Wenders em passagem pelo cinema Nimas, O Amigo Americano (1977) tornou-se imprescindível. Num dos textos dos críticos de cinema sobre esta reposição recuperada e digitalizada, li que se trata de um dos filmes em que o tempo mais marcou a obra, em termos de desgaste. Mas, ao mesmo tempo, o tempo permite ver melhor as referências culturais e cinematográficas sobre o filme, caso dos realizadores Nicholas Ray e Samuel Fuller, que entram como personagens da obra. Claro que o destaque vai para Bruno Ganz e Dennis Hopper, o amigo americano do emoldudador que sofre de leucemia e entra em dois assassínios a troco de dinheiro que ficaria para a família após a sua morte. A par disso, um pintor americano, também com uma doença mortal, cujas obras são mais creditadas financeiramente devido à próxima raridade da sua produção, com todo o negócio de transação de obras e especulação.

O realizador, antigo candidato à escola de cinema, onde reprovou na admissão, já tinha realizado, entre outros,  Alice in den Städten (Alice e as Cidades, 1974), antes do monumental Paris Texas (1984). Mas notam-se referências contínuas nestes filmes, como a errância individual ou familiar, os Estados Unidos anónimos mas repletos de prédios e locais modernos a par da decadência de sítios alemães como o Rhur e Hamburgo. A viagem, a memória, através de registos fotográficos das polaroides, a procura da identidade, permanecem nesses filmes. Em O Amigo Americano, Wenders persegue uma trama policial, a partir de livro de Patricia Highsmith, autora que o cineasta aprecia muito. A mafia e os assassínios de mafiosos, a relação entre as personagens interpretadas por Ganz e Hopper e Ganz e Lisa Kreuzer, de confiança à desconfiança, o olhar sempre exterior, onde falta quase a humanidade entre as personagens, muito instrumentais, são centros do filme. Valorizados pelos críticos de cinema as viagens de metro e de comboio, entre o silêncio da perseguição e a ação violenta dos assassinatos.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Tiago Baptista na direção do ANIM

Tiago Baptista, conservador e investigador da Cinemateca Portuguesa há dez anos, assume o lugar de director do Arquivo Nacional das Imagens em Movimento (ANIM). Ele ocupa, após concurso, o lugar que Rui Machado ocupava antes de passar a subdirector da Cinemateca em 2014.

Tiago Baptista é ainda professor de cinema na Universidade Católica Portuguesa, investigador associado do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa e fundador da Associação de Investigadores da Imagem em Movimento. Das suas obras publicadas, destaca-se A Invenção do Cinema Português (2008).

sábado, 25 de março de 2017

Sónia / Clara

A atriz Sónia Braga e a personagem Clara, em Aquarius, têm pontos em comum: mulheres determinadas mesmo que tudo esteja contra elas, elas viveram, amaram e sofreram muito, são já velhas (a atriz com 67 anos, a personagem com 65 anos). Mas há diferenças, apesar de eu ver complementaridades: a atriz não se casou e não tem filhos, a personagem é viúva e mãe de três filhos e avó. Clara teve um cancro em 1980, a atriz mostra o seio direito destruído pelo cancro, no que é uma das cenas mais pungentes do filme.

Aquarius conta a história da tentativa de demolição de um prédio de Recife dos anos 1940 (chamado precisamente Aquarius) para substituição por um arranha-céus, imagem moderna da baía da cidade. Naquele momento, o seu apartamento é o único habitado; a construtora já comprara o resto do edifício. O filme assenta, pois, numa contradição: a memória histórica perde-se, de um tempo em que os habitantes saíam à rua e se agradavam com a paisagem do oceano Atlântico para um tempo de prédios com vigilância e segurança com medo de assaltos. O sol que banha a praia acaba às três da tarde, por causa da sombra causada pelos prédios. Mesmo a ida a banho está proibida pois os tubarões frequentam a zona.

Clara sente-se ameaçada pela construtora que quer demolir o prédio para construir um novo. Mas ela combina a qualidade de vida - poder ir à margem marítima quando quer, caminhar ao longo da praia - e a persistência e a memória. Ali viveram os seus filhos e ela foi feliz com o marido. Antiga jornalista e crítica musical tem força para combater.

O filme é realista - no sentido em que há cenas de uma crueza grande. Por outro lado, conta-nos uma história de resistência social e política. O realizador Kleber Mendonça Filho quis filmar num dos últimos prédios existentes dessa paisagem em desaparecimento. Já tinha mesmo idealizado cenas numa das suas dependências. Apesar da luta contra o desaparecimento do prédio, ele acabou por ir abaixo antes do começo das filmagens. Restava um só - foi nele que o filme foi realizado.

Hoje, quando caminhava pelas avenidas da República e de Fontes Pereira de Melo, aqui em Lisboa, procurei recuperar um movimento idêntico de alteração urbanística verificada na louca década de 1980. Tudo o que era palacete ou prédio de três andares de uma época entre o começo do século XX e 1940 quase desapareceu. Ficaram alguns prédios com o prémio Valmor e alguns estão degradados hoje. Os passeios largos e recuperados este ano não escondem essas feridas urbanísticas, chame-se progresso ou modernização.

Voltando à atriz que desempenha o papel de uma personagem, recordo o impacto que teve o desempenho de Sónia Braga na telenovela Gabriela, a contracenar com Armando Bogus (Nacib) [na imagem abaixo: Gabriela e Nacib], Paulo Gracindo (Ramiro Bastos), José Wilker (Mundinho Falcão), Nívea Maria (Gerusa Bastos), Elizabeth Savalla (Malvina Tavares) e Fúlvio Stefanini (Tonico Bastos), entre outros. A telenovela, que passou em 1977 em Portugal, causou muito sucesso. Sónia Braga, a interpretar Gabriela, personagem de vestidos curtos e sempre descalça, trabalhadora e por quem os homens se apaixonavam, tornou-se um símbolo sexual em país saído de uma longa ditadura, marcando modas e conceitos morais distintos. Agora, vemos uma mulher amargurada e quase sempre sem sorriso, mas a lutar, quase um exemplo de vida.


sábado, 18 de março de 2017

Wim Wenders

Vistos em retrospetiva, os filme de Wim Wenders são mais do que road movies, são sobre a identidade e a sua busca. Em Paris Texas (1984), Travis Henderson (Harry Dean Stanton) vai quase inconscientemente à procura do sítio onde os pais se conheceram e o conceberam, tendo ele próprio comprado um terreno, de que possui uma vaga fotografia. Mas essa é parte da história, porque, na realidade, o que lhe vai acontecer é levar o filho Hunter (Hunter Carson), que reencontra, à mãe Jane (Nastassja Kinski). Um e outro tinham abandonado a criança ao irmão e cunhado dele, que o tinham adotado como filho. O filme mostra a procura da identidade em diversas personagens: pai, mãe e filho.

Mas Alice nas Cidades (1974), realizado uma década antes de Paris Texas, revela melhor essa ideia de busca de identidade. E também apresenta a ideia de lugares sempre iguais, como autoestradas e motéis, aquilo a que Marc Augé chamaria de não lugares, pois eles são semelhantes em qualquer parte do mundo. Neste filme, a história é mais dramática, a que se associa um grande experimentalismo do realizador e dos seus colaboradores mais próximos.

Philip Winter (Rüdger Vogler), jornalista em crise de identidade, "recebe" Alice em Nova Iorque das mãos da mãe, que a abandona temporariamente para voltar ao seu homem. Winter não conhecia a mãe nem Alice (Yella Rottländer), de nove anos, e fica encarregado de a levar até Amsterdão, onde a mãe Lisa (Lisa Kreuzer, então mulher de Wenders) a procuraria no dia seguinte ou nos dias seguintes. Mas ela não aparece e o jornalista procura uma avó da menina no Rhur (geografia natal do realizador), entrega-a à polícia e nos leva para uma sociedade cultural e arquitetónica em lenta decomposição, a dar lugar a uma nova geração.

Os filmes de Wenders revelam ainda a sua paixão pela música: a jukebox onde se ouve os Canned Heat e um rapazinho a trautear a música (On the Road Again, 1970) - "Well, I'm so tired of crying / But I'm out on the road again / I'm on the road again / Well, I'm so tired of crying / But I'm out on the road again / I'm on the road again / I ain't got no woman / Just to call my special friend" - e o concerto de Chuck Berry, hoje falecido com 90 anos. Do mesmo modo que, em Asas do Desejo (1987), Nick Cave e Bad Seeds apareciam. Ainda a realçar a música de Ry Cooder em Paris Texas.

Numa crítica ao filme Alice nas Cidades, há uma outra indicação - a das fotografias polaroid como provas de contacto. No filme, diz-se que as fotografias são uma prova da existência do jornalista-fotógrafo, para justificar a passagem dele por certos sítios. E, como as fotografias com grão (Robby Müller), o filme também tem o sinal do tempo. A passagem da película para o digital, com mudança de formatos (filmado em 16 mm mas desejado por Wim Wenders em 35 mm), ilustra a qualidade (ou perda de) da imagem como víamos na televisão a preto e branco.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Os meus óscares

Os prémios da 89ª edição dos Óscares não me surpreenderam muito. Seis prémios para La La Land (realizador: Damien Chazelle; atriz: Emma Stone; direção de arte: David Wasco e Sandy Reynolds-Wasco; fotografia: Linus Sandgren; banda sonora original: Justin Hurwitz; canção: City of Stars, de Justin Hurwitz, Benj Pasek e Justin Paul), três para Moonlight (filme: Dede Gardner, Jeremy Kleiner e Adele Romanski; argumento adaptado: Barry Jenkins e Tarell Alvin McCraney; ator secundário: Mahershala Ali), dois para Manchester By The Sea (ator: Casey Affleck; argumento original: Kenneth Lonergan) e um para Vedações (atriz secundária: Viola Davis). Ainda não vi O Vendedor (filme estrangeiro: Asghar Farhadi).

Destaco MoonlightManchester By The SeaVedações, histórias de grande densidade dramática, com personagens complexas em especial nos dois últimos filmes. Um porteiro com uma história familiar trágica (incêndio da casa e morte dos filhos) e um negro, a trabalhar como lixeiro, com história antiga de cadastro criminal a tentar recompor-se mas em que o progresso social quase está vedado, são o centro das narrativas. Um procura o mar como espaço de descompressão e morre nele, o outro busca a mesma segurança no pátio da sua casa, onde decorrem as principais conversas do seu pequeno meio, e também morre nele. O primeiro no barco, o segundo com o taco de basebol.

La La Land tem as suas virtudes: musical com a história de dois jovens que querem singrar em Hollywood nas suas artes: atriz, músico de jazz. Eles, apaixonados um pelo outro, triunfam mas seguindo percursos de família diferentes. No final, ela sonha com uma vida com ele, mas já estão separados. Logo, apesar do sucesso, não há final feliz. Uma nota suplementar: o jazz. Ele, que uniu, num dado momento, o casal, é uma música de negros, embora não muito explorada como narrativa. O filme é sobre brancos, em que a música negra dá um toque de classe. Já em Moonlight e Vedações as personagens são negras, com percursos de famílias desagregadas, em que as crianças crescem em ambientes muito desfavoráveis mas conseguem sobreviver. No primeiro, a criança é adotada e segue o mesmo caminho profissional do "pai": a distribuição de droga. No segundo, o adulto quer que os filhos não imitem o seu percurso e prega sermões. Quando é pai fora do casamento, a sua moral cai por terra e é a mulher que o ampara, mas redistribui papéis no seio da família.

A representação de Viola Davis (Vedações) foi das mais distintas que tenho visto. A sua interpretação emocionou-me muito: a personagem mostra equilíbrio (físico e psicológico) quando tudo ameaça ruir à sua volta. E que corresponde, de certo modo, mas de forma ilegal, à personagem do distribuidor de droga em Moonlight. Nos filmes com personagens e atores negros, há ainda um forte orgulho racial. E também patriótico: o basebol americano - e, assim, a cultura popular do país - está presente em todo o filme Vedações.

Numa época pós-Obama e com o novo presidente racista, os prémios para estes dois filmes sobre a população negra americana devem também ser medidos pela mudança de liderança do país. Aliás, a atribulada atribuição de melhor filme - de La La Land para Moonlight - pode ser interpretada dentro do novo contexto de factos alternativos, de pós-verdade e de notícias plantadas, tudo a significar que há notícias falsas colocadas de modo cirúrgico para parecer verdade.

Faltou aqui I, Daniel Blake, de Ken Loach, com Dave Johns e Hayley Squires, mas o próprio realizador não iria a Hollywood receber qualquer prémio, se tivesse direito a ele. A meu ver, pela história e pela matéria, ele merecia mais reconhecimento. Uma outra profissão desconsiderada, a de tipo que resolve problemas como canalizador ou carpinteiro, doente, em busca de reforma, vê-se envolvido em processo infindável. As estratégias de sobrevivência e de solidariedade com outros marginalizados pelo poder, com uma luta quase inumana contra um sistema burocrático sem rosto, são uma marca vital do filme.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Estúdio Valentim de Carvalho


Há dias, para ilustrar o texto sobre os estúdios fonográficos, coloquei esta imagem do estúdio da Valentim de Carvalho. A existência de um enorme ecrã, ao fundo, intrigou-me. Agora, percebi. O ecrã foi instalado quando surgiu a ideia de implantar no país o sistema de dobragem de filmes. A editora fonográfica apetrechou-se para passar a fazer esse serviço no estúdio de gravação discográfica. Mas a lei não seria aprovada. O ecrã foi aproveitado para a gravação dos filmes portugueses, porque raramente havia captação de som direto. A máquina de gravar som era uma Nagra (a partir de entrevista ao técnico de som Hugo Ribeiro aqui).

Sobre a gravação de filmes, na mesma entrevista, diria Hugo Ribeiro: "estava o diretor de cinema ao pé de mim. Ele dizia «agora, sobe a música um bocadinho, agora desce ligeiramente a música, agora deixa entrar a palavra baixinho, agora sobe a palavra». Ele ia dizendo, íamos vendo e fazendo. Estávamos a ver o filme e o resultado do som no filme. Às vezes, era preciso voltar atrás porque não estava bem". Dos filmes assim gravados do ponto de vista do som, a Valentim de Carvalho editou O Cerco (1970), de António Cunha Telles, Domingo à Tarde (1966), de António de Macedo, e O Passado e o Presente (1971), de Manuel de Oliveira.


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Regulamentação do cinema português

Ontem, onze associações profissionais do cinema promoveram uma conferência de imprensa onde manifestaram a sua contestação da proposta de novo decreto-Lei de regulamentação do funcionamento do cinema português. Na sequência, e após declarações do secretário de Estado da Cultura, emitiriam um comunicado, onde identificaram a sua discórdia perante a interpretação do artigo 14º que regula o processo de nomeação de jurados e composição de júris para os concursos de apoio ao Cinema.

Ao secretário de Estado, pediram para esclarecer o conteúdo desse artigo, a partir da proposta do Instituto do Cinema e do Audiovisual, onde se descreve o processo de nomeação de jurados e júris para homologação pelo Secretaria de Estado da Cultura, com três etapas: 1) o Instituto do Cinema e do Audiovisual, após consulta à Secção Especializada do Cinema e do Audiovisual, elabora uma bolsa de um mínimo de 60 jurados, 2) o Instituto do Cinema e do Audiovisual elabora proposta de composição dos diferentes júris dos diferentes concursos, a partir dessa bolsa, 3) as propostas são submetidas à aprovação da Secção Especializada do Cinema e do Audiovisual. Pela redação do artigo, a direcção do Instituto do Cinema e do Audiovisual fica submetida à Secção Especializada do Cinema e do Audiovisual na nomeação dos júris.

Contudo, o secretário de Estado descreveria um processo de duas etapas: "No que concerne à eleição do júri para a seleção dos projetos a concurso, o Instituto do Cinema e do Audiovisual compõe uma bolsa de jurados e distribui os júris pelos vários concursos tendo por base uma lista bastante alargada proveniente da Secção Especializada do Cinema e do Audiovisual". As associações que assinaram o comunicado concluiriam existir uma omissão nos esclarecimentos do secretário de Estado ou uma alteração à versão final do decreto-lei sem conhecimento prévio.

Assinaram: APR – Associação Portuguesa de Realizadores, APCI - Associação de Produtores de Cinema Independente, APORDOC – Associação pelo Documentário, Agência da Curta-Metragem, Portugal Film, Indie Lisboa, DocLisboa – Festival Internacional de Cinema, Curtas de Vila do Conde – Festival Internacional, SINTTAV – Sindicato Nacional dos Trabalhadores das Telecomunicações e do Audiovisual, Cena – Sindicato dos Músicos, dos Profissionais do Espectáculo e do Audiovisual.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Frescos do cinema Batalha (Porto)

O pintor Júlio Pomar vai recuperar os frescos do Cinema Batalha que ele próprio pintou em 1946 e mandados tapar por ordem de Salazar, após a sua prisão por pertencer ao MUD (Movimento de Unidade Democrática).

Fechado há mais de década e meia, o cinema Batalha vai ser arrendado à câmara do Porto por 25 anos e dez mil euros mensais para instalar a Casa do Cinema. Os dois frescos de Júlio Pomar, alusivos às festas de São João, foram pintados em 1946 quando Pomar tinha 20 anos e frequentava a Escola de Belas Artes do Porto [informação e imagem retiradas de notícia do Diário de Notícias].

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Cinema Tivoli

Hoje, foi lançado na livraria Ferin (Lisboa) o livro de Duarte de Lima Mayer e João Monteiro Rodrigues Cinema Tivoli. Memórias da Avenida, apresentado por José Sarmento Matos.

Trata-se de um livro de design muito bem feito (Silvadesigners) e que partiu de um espólio fotográfico perdido numa gaveta, com personalidades não identificadas então. Conforme Duarte de Lima Mayer, neto do fundador do Tivoli, ele endereçou o convite a João Monteiro Rodrigues, arquiteto e com gosto pela música, participante no coro do Teatro S. Carlos, para a obra em conjunto, que terá demorado mais de três anos a fazer. Ao espólio fotográfico da família, o livro juntou imagens da Fundação Calouste Gulbenkian, Arquivo Municipal de Lisboa, Cinemateca Portuguesa e Teatro D. Maria II, além de outros espólios.


[na foto, da esquerda para a direita: João Monteiro Rodrigues, Duarte de Lima Mayer e José Sarmento Matos]

O livro debruça-se sobre a atividade da sala entre 1924 e 1973, arco histórico de 50 anos, onde se processaram muitas mudanças estéticas, sociais e económicas. O Tivoli dedicou-se ao cinema (mudo e sonoro), ao teatro, à música e à dança. Um agente privado (uma família), proprietário de equipamento cultural, levaria artistas para apresentação pública, um retrato de uma época que já não é a nossa, em que havia um grande leque de interesses culturais. A relação entre Frederico Lima Mayer - e, depois, o seu filho Augusto de Lima Mayer, que assumiu a gestão do Tivoli em 1944 - e outros empreendedores culturais, músicos, bailarinos e atores fazia-se com grande informalidade, ainda não havia agentes artísticos a mediar entre o equipamento cultural e o artista. Raul Lino, arquiteto do Tivoli, seria também melómano e apaixonado pela dança. A ideia era criar na cidade um espaço moderno em zona acessível mas afastado dos pólos urbanos tradicionais - Rossio e Chiado (p. 196). No cinema Tivoli, passou também a Fundação Gulbenkian, antes desta ter sede na Praça de Espanha, o que conferiu maior peso simbólico ao cinema, com programação dedicada às artes performativas.

O apresentador, José Sarmento Matos, destacou a história rica do Tivoli, uma instituição privada que ligou arte e economia, pois o empreendimento visou dar dinheiro. O Tivoli surge muito depois da abertura da avenida da Liberdade, o antigo Passeio Público (1879), alameda que o presidente da câmara Rosa Araújo quis marcar dentro da cultura regeneradora. Mas foi o cinema que deu vida à avenida. Isto porque os espaços culturais, de lazer e noturnos e a vida palpitante da cidade ficavam na estreita rua das Portas de Santo Antão, incluindo o Ateneu e a Sociedade de Geografia. A avenida era até então conhecida pelo "lá vai um", de pouco frequentada. Aliás, os distribuidores de cinema não quiseram passar as fitas de cinema no Tivoli, porque ele ficava muito longe da cidade. Depois do Tivoli, nasceriam o Éden (anos de 1930) e o S. Jorge (anos de 1950). O Tivoli apresenta um gosto ligado a salas de espetáculos que Lima Mayer vira no estrangeiro, associado à cultura alemã de Raul Lino. Após a I Guerra Mundial, a classe média elaborada, restrita, de elite, teria o Tivoli como referência nova e cosmopolita.

O livro tem textos de Duarte de Lima Mayer, José Sarmento de Matos, Flávio Tirone, Miguel Simal, João Paes, Leitão de Barros, João Bénard da Costa, Miguel Esteves Cardoso, Duarte Ivo Cruz, Jorge Silva Melo, João de Freitas Branco e Bernardino Pontes, Helena Vaz da Silva e Luís Antunes. Com 295 páginas.

No texto de João Paes sobre a música, ele fala de Pedro de Freitas Branco, da sua fama de condutor de orquestras e dos concertos de música de Ravel (como o Bolero), do seu casamento com a francesa Marie Lévêque, dos concertos sinfónicos do Tivoli (1928-1932), da temporada de 1933-34 (Mónaco e Bélgica) e do convite para dirigir a Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, efetivado em 1935 (p. 205). Nesta página, uma fotografia significativa, com Olga Cadaval, Marie Lévêque e Arthur Rubinstein.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Maria Cabral

"«Era uma mulher lindíssima e talentosíssima», disse Vasco Pulido Valente em 2007 sobre a ex-mulher", Maria (da Conceição Gomes) Cabral (Público), com quem teve uma filha. Maria Cabral morreu sábado em Paris com 75 anos. Nascida em Lisboa (1941), ela estudava filosofia e trabalhava como modelo de publicidade quando António da Cunha Telles a convidou para o elenco do filme O Cerco (1970). Do mesmo realizador, entrou em Vidas (1984) e participou em outros filmes como O Recado (1972), de José Fonseca e Costa, Um Adeus Português (1986), de João Botelho, e No Man’s Land (1985), de Alain Tanner. Foi o rosto feminino do cinema novo português.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Festival Internacional de Cinema de Foz Côa


O Festival Internacional de Cinema de Foz Côa – Cinecôa, iniciado em 2011, regressa, de 17 a 19 de novembro próximo, com filmes produzidos em Portugal, Marrocos, Espanha, Reino Unido, França, Luxemburgo, Brasil e Cuba. O destaque da edição de 2016 vai para a presença de Hugh Hudson, realizador de Momentos de Glória, filme que venceu quatro óscares da Academia Americana. Mas também vai para a distinção do realizador António-Pedro Vasconcelos (Jaime, Os Imortais, Call Girl, Os Gatos não Têm Vertigens), e que ali apresenta o seu novo filme Amor Impossível (informação da organização).

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Se as Montanhas de Afastam

O filme de Zhangke Jia (2015) mostra Tao, uma jovem dividida entre dois apaixonados por ela. Talvez ela não goste particularmente de nenhum, mas tem de decidir. E entre Zhang, que trabalha na mina de carvão, e Lianzi, proprietário de uma gasolineira, escolhe este (Tao Zhao, Yi Zhang, Jing Dong Liang). O filme percorre três períodos da história da China (1999, 2014 e 2025). Ao fim de alguns anos de casados, Tao e Liang separam-se, ele vai viver para a Austrália com o filho de ambos e ela regressa à região de origem, Fenyang, onde fica a explorar a gasolineira. Zhang abandonaria a região para trabalhar noutra zona da China, onde constitui família, mas regressa doente e pobre. O reencontro com Tao, já com ele muito doente, é mediado pela sua mulher.

O filme, além das escolhas sentimentais, mostra as alterações culturais e tecnológicas da China. As tradições seculares perdem impacto relativamente ao gosto consumista ocidental numa altura em que autoestradas e caminhos de ferro modernos varrem o país. A região de Fenyang é testemunha dessas alterações. Mas também as alterações sociais e familiares. O filho de Tao e de Lianzi, a viver na Austrália, comunica em inglês e está a aprender chinês para comunicar com o pai e, se um dia regressar à China para ver a mãe, comunicar com ela.

O realizador Zhangke Jia tem uma atitude ambígua entre a modernidade e a manutenção da tradição. Parece não haver tempo para refletir na mudança, tão rápida ela ocorre. Se o Japão precisou de uma geração para alterar, a China não tem tempo. As montanhas da eternidade e da novidade parecem distantes: o olhar sobre o rio e as montanhas do sítio onde viviam Tao e dos dois amigos de infância, unidos e depois separados para sempre, é irremediavelmente diferente. O terreno arenoso e irregular cedeu lugar a uma estrada asfaltada. Só falta controlar o curso do rio. A sabedoria, essa, foi esmagada pelo novo conhecimento, efémero. Apenas permanece a música oportuna dos Pet Shop Boys, Go West (1993).

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Julieta

Os filmes de Pedro Almodóvar têm mulheres fortes - elas tomam decisões, sofrem, comandam o mundo, resolvem os problemas do mundo entre elas. Os homens, nos seus filmes, são instrumentais - são pais, não aparecem a tomar decisões, pouco nos é mostrado deles (fora as profissões), têm atitudes inúteis como o suicídio.

Julieta é um filme bonito, que o realizador construiu a partir de três histórias de um livro de Alice Munro (2004). Bem construído, em torno de uma espécie de intriga policial, um problema que Julieta (Emma Suárez mais velha, Adriana Ugarte mais jovem) transporta e que Lorenzo (Darío Grandinetti) não quer saber mas que o preocupa porque o problema atinge intensamente Julieta. Depois há Xoan (Daniel Grao) e a história incrível do comboio onde ela e ele se conheceram. A partir daí, casaram-se e nasceu Antía (Michelle Jenner). Talvez distraído, não vi o sentido do percurso do comboio - de Madrid para a Andaluzia ou de Madrid para as Astúrias (ou Galiza)? Xoan é pescador, Lorenzo é escritor. Aquele morreu num naufrágio do seu barco, este conheceu-a num velório de Ava (Inma Cuesta), amiga de Julieta, Xoan e Lorenzo, uma ponte, portanto, para Julieta. Ava estabelece ainda uma ligação com Antía, que enceta um abandono da mãe após a morte do pai até decidir desaparecer sem deixar rasto. O problema de Julieta é este: como saiu a filha da sua vida?

As mulheres são ainda fortes quando estão doentes: a mãe de Julieta e a primeira mulher de Xoan estão gravemente enfermas e morrem mas perseguem o filme como referências. Marian (Rossy de Palma, atriz que Almodóvar descobriu num café e que tem entrado em vários filmes dele), mulher conservadora mas discreta, depositária de uma sabedoria antiga, de olhar intenso e objetivo, trabalhadora a dias em casa de Xoan, tem opiniões que funcionam como avisos decisivos sobre a cultura urbana de Julieta. É Marian quem conta as histórias de Xoan - como a mulher estava muito doente e um homem precisa de uma mulher, esta surgiu na figura de Ava e, agora, Julieta. Prática e de senso esta observadora dos sentimentos e necessidades humanas.

As cenas finais revelam uma Antía triste porque morrera afogado o filho Xoan. A carta tem um endereço, levando Julieta na pista da filha. Não se vê o reencontro mas percebe-se: a filha perdoara à mãe alguma desatenção no dia da tempestade que vitimou o pai e pedia ajuda à mãe porque a compreendia. O desencontro remediava-se entre mulheres. Lorenzo faz, de novo, um papel instrumental ao guiar Julieta até à longínqua Suíça onde residia a filha.

Há três outros pormenores no filme: o movimento através dos transportes - autocarros, táxis, comboios, prova da crescente e moderna transumância. Por outro, a água: os afogamentos. A similitude leva à ideia de repetição, de circularidade. Mas nem sempre há repetição: Julieta condena o pai, que se aproximou de uma jovem marroquina, que lhe dará um filho, ainda com a mãe doente e presa a uma cama. Ela parece ter esquecido um movimento aparentado quando conheceu Xoan. O que traz uma terceira questão - a da moral. Será que a moral feminina é mais justa que a masculina?

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Filmes etnográficos de Margot Dias



Segundo título da nova série de edições da Cinemateca em DVD, o volume dedicado à obra filmada de Margot Dias marca a abertura de uma outra linha nesse âmbito mais geral, de há muito pensada e finalmente concretizada: a de uma coleção de imagens etnográficas lançada em colaboração com o Museu Nacional de Etnologia. A edição é lançada numa sessão especial na Cinemateca, a 17 de outubro, às 19:00, de entrada livre mediante o levantamento de ingressos na bilheteira, com a presença e intervenções de Paulo Ferreira da Costa, Joaquim Pais de Brito, Catarina Alves Costa, Paula Silva e José Manuel Costa. O lançamento desta edição DVD é uma iniciativa que se cruza com o programa que este mês assinala os 20 anos de atividade do ANIM.

Entre 1958 e 1961, a antropóloga Margot Dias (1908-2001) realizou vinte e oito filmes em Moçambique e Angola, pertencentes ao Arquivo Fílmico do Museu Nacional de Etnologia. Produzidas no contexto das Missões de Estudos das Minorias Étnicas do Ultramar Português, dirigidas por Jorge Dias, estas imagens constituem uma das primeiras utilizações do filme etnográfico no âmbito da antropologia portuguesa.

[texto da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema]

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Música no Coração

Charmian Anne Farnon, mais conhecida como Charmian Carr, a atriz que representou o papel de filha mais velha e rebelde dos von Trapp no filme Música no Coração morreu anteontem em Los Angeles aos 73 anos. Charmion Farnon sofria de uma forma rara de demência.

Adolescente na altura da exibição do filme, em 1965 ou 1966, eu pedi uma fotografia dela à produtora do filme. Então, Charmion Farnon tinha 22 anos. Lembro-me de ter visto o filme no cinema Coliseu (Porto). A ilusão da imagem cinematográfica, a alegria de uma família que contratara uma preceptora e os concertos vocais dados esmagavam qualquer compreensão sobre aqueles indivíduos estranhos que se moviam à noite em carros negros e vistosos. O nazismo ainda não era entendido pelo espectador e tudo não passaria de um pequeno jogo entre bons e maus, com aqueles a triunfarem mesmo fugindo a pé por montanhas geladas. A análise política não existia simplesmente.

Leio na wikipédia que Música no Coração, em termos comerciais, se tornou à época, o mais rentável, substituindo E Tudo o Vento Levou. Foi selecionado em 1998 pelo American Film Institute (AFI) como o 55º melhor filme norte-americano de todos os tempos e o quinto melhor filme musical da história.

domingo, 18 de setembro de 2016

Ontem, fui ao concerto dos Beatles

O filme The Beatles: Eight Days a Week - The Touring Years (2016), de Ron Howard, recolhe elementos sobre 250 concertos da banda de Liverpool entre 1963 e 1966, como músicas, entrevistas e histórias dos quatro músicos. Outro dado: de 1962 a 1966, atuaram 815 vezes em quinze países e 90 cidades.

Admirador da banda, embora com um gosto adormecido nos últimos anos, pude compreender as histórias, os sucessos e as dificuldades, o lado criativo dos músicos nascidos na primeira metade da década de 1940 em meios de classe trabalhadora inglesa, a sofrer os efeitos da II Guerra Mundial. A exaustão da vida dos músicos é a origem da canção Help - ensaios de manhã no estúdio, sessões fotográficas ao começo da tarde, concerto à tarde na televisão e atuação num clube noturno à noite ou 25 concertos em 30 dias na primeira visita aos Estados Unidos ou ainda o boicote naquele país quando Lennon declarou que os Beatles eram mais populares que Jesus Cristo. Isto provocou medo na banda e um pedido de desculpas do músico.

Num dos depoimentos, um historiador da música compara, em termos de melodias, a criatividade dos Beatles, nomeadamente a dupla Lennon/McCartney, a Schubert e a Mozart. Dos Beatles, teriam ficado mais de 400 canções. Noutro depoimento, reflete-se a viragem dos primeiros álbuns com letras viradas para "eu amo-te, tu amas-me" para líricas mais sociológicas, fruto do amadurecimento dos músicos. Mas sempre uma grande energia e uma atualização, que se pode ver nos estilos de vestuário e códigos de conduta e em alguma afirmação política, como quando decidiram tocar num estádio no sul dos Estados Unidos para negros e brancos, sem segregação, numa altura em que os negros lutavam pelos seus direitos cívicos.

No final, após a ficha técnica, em cópia restaurada, viu-se um magnífico concerto em estádio de Nova Iorque em 1965. Como a banda nunca veio a Portugal, só agora nós temos possibilidades de os ver ao vivo. No concerto, que reuniu quase 57 mil espectadores, a banda saiu de automóvel de dentro do estádio para fugir ao contacto com os fãs, que gritavam, choravam e desmaiavam. A polícia nunca vira uma multidão tão entusiasmada e descontrolada. Os músicos não conseguiam ouvir o que tocavam, dado o ruído em volta. Apenas os automatismos de muitas horas em conjunto permitiram que a banda tocasse afinada.


Nota: amanhã, 19 de setembro de 2016, na sessão das 21:30 do cinema Monumental (Lisboa), Luís Pinheiro de Almeida e Teresa Lage, autores do livro Beatles em Portugal, falarão sobre o filme.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Cartas da Guerra e as minhas memórias

Escrevi aqui, a 16 de dezembro de 2005, sobre o livro D'Este Viver Aqui Neste Papel Descriptivo de António Lobo Antunes. De entre outras linhas, escrevi que se trata de "um livro de amor que decorre com a guerra colonial como pano de fundo. Os aerogramas (ou cartas) que o alferes miliciano António Lobo Antunes mandava para a mulher Maria José Fonseca Costa Lobo Antunes são a expressão do amor à distância e relata o dia a dia da vida de um militar destacado em Angola durante a guerra, no caso dele entre 1971 e 1973. O livro lê-se como um romance pleno de acção, mesmo que muitas das cartas contenham versões minimais de outras".

Depois, destaquei os temas principais das cartas: "a saudade da mulher (e da filha que vai nascer aqui em Lisboa quando ele está lá longe, em Gago Coutinho - o nome de então de uma vila angolana perto da fronteira com a Zâmbia). Daí que as cartas comecem sempre com «minha jóia querida» e acabem com «gosto tudo de ti». Outra linha constante é a referência à sua necessidade de escrever, ele que debutava e seria bastante mais tarde reconhecido como grande escritor. Escrevia ele a 5 de Abril de 1971 (p. 117): «Tenho continuado a história, agora a caminho da página número 70, vamos a ver se consigo que fique boa». A 21 de Maio do mesmo ano (p. 171): «Entretanto lá vou empurrando a história para a frente». No dia 8 de Julho (p. 232) escrevia: «Acabada a primeira parte, eis-me a trotar na segunda»".

O atraso de correspondência era outra constante da vida diária do alferes médico Lobo Antunes, nascido em 1942: "Desde 4ª feira passada (hoje é 3ª) que não recebo notícias tuas e que nada sei a teu respeito" (6 de Abril de 1971, p. 118). Muitas vezes, considera que o amor entre ele e a mulher está a chegar ao fim, pois ela não lhe responde. Mas das suas cartas percebe-se que ela se queixava do mesmo. Cada aerograma demorava muitos dias, devido aos circuitos complexos de correio no interior de Angola. Hoje, tais lamentações não seriam possíveis, graças ao telemóvel e, em especial, a internet [há poucas semanas, uma reportagem de televisão mostrava os soldados destacados em missão internacional no Afeganistão com uso de internet e envio de imagens fotográficas. O tempo de demora reduziu-se a instantes]. O dia a dia sem motivos novos levava a um remoer constante das mesmas ideias. Mas o autor não assumia que nelas pensava todos os dias: «Há muito que não falo da criança [a mulher ficara grávida quando ele embarcou para Angola], mas tenho pensado muito nela» (26 de Abril de 1971, p. 140). Lobo Antunes abordara a situação no dia anterior. Depois, é o seu conselho quanto ao nome da criança a nascer; querendo uma rapariga, propõe o nome de Maria José, o que virá a acontecer".

Um tema marginal nas cartas à mulher, mas que retoma com alguma regularidade, é o da compra de bebidas brancas a preços baixos: "A propósito de oficiais, cada um tem direito por mês a 3 garrafas, duas de uísque e uma de conhaque, de marcas estupendas, a preços de cerca de 100$00. [...] Embora não goste de nada disso (e tenho pena) ficamos cheios de alcoóis para os visitantes do nosso quimbo" (carta de 29 de Março de 1971, p. 109. Quimbo em umbundo, a língua da região, significa casa). A 20 de Janeiro de 1972 (p. 338), dá conta de uma alteração: "já não vendem mais garrafas aos senhores oficiais, por aqueles preços convidativos". E, por mais de uma vez, conta que militares de visita a Portugal serão transportadores de algumas dessas garrafas.

Retenho ainda da leitura do livro o conhecimento que ele adquiriu com o capitão Ernesto Melo Antunes, comandante de uma das companhias do seu batalhão (certamente aí colocado depois de, em 1969, ter sido o único oficial das Forças Armadas portuguesas a fazer parte de uma lista de oposição ao regime, ele que seria um dos oficiais do 25 de Abril de 1974 e que assumiu uma posição de liderança, com o Documento dos Nove, uma posição moderada após a radicalização à esquerda do regime em 1975 e 1975. Melo Antunes, homem culto, emprestava livros e revistas como o Nouvel Observateur e jogou xadrez com Lobo Antunes, ensinando-lhe várias entradas, como o livro indica. Por outro lado, a tomada de consciência política (apesar de, numa primeira fase, parecer favorável à situação, vai-se distanciando da posição oficial).


Retomo este texto que resultou da minha leitura de D'Este Viver Aqui Neste Papel Descriptivo há já quase 11 anos, a propósito do filme Cartas da Guerra, do cineasta Ivo Ferreira, filme quase documentário assente nesse livro de António Lobo Antunes de aerogramas enviados à mulher. Filme a preto e branco, sempre com imagem magnífica de João Ribeiro, com leitura de cartas pelos narradores e intérpretes Miguel Nunes e Margarida Vila-Nova. O filme complementa visualmente a narrativa escrita, mostrando a paisagem da Lunda Sul, com o enorme rio Chiumbe a surgir de quando em quando (julgo ser ele, pois ouve-se o seu nome, embora associado a uma pequena vila, esta bastante a norte do local onde Lobo Antunes esteve, perto da então designada Gago Coutinho). Estão no filme a prisão em que se tornou o aquartelamento da companhia liderada por Melo Antunes, com trincheiras cavadas, por se temer o assalto dos guerrilheiros do MPLA, as emboscadas e os mortos e feridos (Lobo Antunes operou sem anestesia), a PIDE e os Flechas, a apreensão de propaganda dos guerrilheiros, então terroristas, o assassínio de terroristas apanhados, as campanhas de vacinação, as crenças e festas dos locais, a alimentação e as bebidas e até um show musical com artistas brancas em Gago Coutinho e que traçam uma história quase impossível de obter da leitura das cartas. Até formigas com asas o filme identifica, mais as chuvas violentas a que se segue sempre uma claridade deslumbrante naquelas terras. O que revela o conhecimento e a qualidade do argumento de Ivo Ferreira e Edgar Medina.

No filme, a personagem que representa Melo Antunes diz: "esta guerra não tem justificação". Ele e o alferes médico jogam mais uma partida de xadrez e Lobo Antunes está a acabar um capítulo de um livro, enquanto pensa na mulher e na filha recém-nascida. No filme, também se ouvem os sons da rádio: um discurso de Marcelo Caetano nas Conversas em Família e um relato de futebol Benfica-Ajax. E sempre a longa e inesquecível planície da Lunda Sul.

De repente, enquanto via o filme, pensei no Teixeira, um jovem afável de Guimarães, e seis outros companheiros vítimas de uma emboscada no dia 1 de maio de 1972 na estrada que ligava Moxico (então Luso) a Dala, onde a minha companhia estava [imagens em baixo]. Este ano, no almoço de antigos combatentes em Angola, alguém me disse que eu estava de serviço nesse dia. Devo ter tido uma amnesia parcial, pois não me lembro desse serviço. Recordo apenas a agonia dos jovens militares na enfermaria da companhia, por já nada haver a fazer. E da descrição emocionada do Muga, um dos condutores de uma Berliet, ele que escapara com mais outros companheiros. Creio que nunca pensei muito bem nisto em 44 anos. Talvez tenha acabado o luto hoje.