sexta-feira, 16 de março de 2007

FIUCOM


Realizou-se ontem um colóquio da FiuCom, na Universidade Católica Portuguesa, sob o título Que valores? A comunicação na sociedade global.

Ángel Losada (Universidade Pontifícia de Salamanca) falou sobre comunicação, participação e desenvolvimento social, destacando elementos como compromisso, organização, valores e inovação (capitais intelectual, emocional e relacional).

Em comentário a duas comunicações, incluindo a que eu fiz, Jorge Wemans (director de programas da RTP2) destacou o peso das tecnologias, altamente conformadoras e impositivas de valores. Para ele, tem-se dado pouca atenção aos valores da tecnologia, que podem possuir mais força que o director ou editor de um meio de comunicação.

José David Urchaga (Universidade Pontifícia de Salamanca) apresentou os resultados de um inquérito feito a 1173 alunos de duas universidades daquela cidade (Pontifícia e uma pública) sobre valores (família, amigos, Deus, religião), em Novembro e Dezembro de 2006. A interculturalidade cultural e a tolerância (igual a aceitação ou compreensão do Outro) foi ainda tema de Pedro Rivas e Pablo Rey. Também de comunicação intercultural falou Roberto Carneiro (Universidade Católica Portuguesa) e de um tempo em que se movimentam notícias, bens, serviços, capitais e pessoas. Roberto Carneiro defende o estabelecimento de uma agenda prioritária para a Europa: a e(i)migração. Já Chelo Sánchez (Universidade Pontifícia de Salamanca) falou das tertúlias da rádio, um tipo de programa muito popular em Espanha, ou forma audiovisual como conversa que reune opinadores profissionais.

Da mesa redonda, destaco a intervenção de José Nuno Martins (provedor do ouvinte do serviço público de rádio). Questionado sobre o seu recente relatório de actividade, onde apontava erros à Antena 3, José Nuno Martins teve oportunidade de referir a falta de espaços informativos e de divulgação de artistas e escritores portugueses, o qual faz parte do contrato estabelecido entre o Estado e o operador.



Legendas das imagens:
1) (da esquerda para a direita) - Chelo Sánchez (vice-directora da Faculdade de Comunicação da Universidade Pontifícia de Salamanca), Isabel Gil (directora da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa), Manuel Braga da Cruz (reitor da Universidade Católica Portuguesa) e Horácio Araújo (Universidade Católica Portuguesa);
3) José David Urchaga (Universidade Pontifícia de Salamanca), Pedro Rivas (Universidade Pontifícia de Salamanca), Carlos Capucho (Universidade Católica Portuguesa) e Carla Ganito (Universidade Católica Portuguesa),
4) Roberto Carneiro, Rita Figueiras e Fernando Ilharco (Universidade Católica Portuguesa).

No meu texto, intitulado Responsabilidade social, objectividade e tecnologias, iniciei-o deste modo:

  • Hoje, fala-se bastante de responsabilidade social quando se refere às empresas. Uma empresa, para além do produto ou serviço que presta à comunidade, é um espaço habitado por trabalhadores ou colaboradores que tomam parte na produção desse bem ou serviço. Para a Comissão Europeia (2001), as empresas desenvolvem estratégias de responsabilidade social como resposta às variadas pressões sociais, ambientais e económicas sobre elas. Isso implica estruturas, organização, regras, conhecimento e distribuição de conhecimento, mas também reconhecimento, criação de valores éticos e cooperação. Ao implementar a responsabilidade social, uma empresa está a investir a longo prazo, através do compromisso voluntário. A empresa responsável socialmente promove valores, aceita a interdependência face à envolvente, preconiza o princípio da precaução como regra de decisão, fomenta a prática de diálogo, consulta e transparência (Morais, 2007: 111-112). Em Albarran (2007: 29), descrevem-se deveres para com a audiência ou público, para com o empregador ou organização, para com os colegas e para com a sociedade. Mas também há necessidade de planear a integração individual. Tabernero (2007: 67) dá um exemplo simples: o salário pago a um colaborador, o qual deve ser justo e adequado às suas funções.No caso dos media, o conceito responsabilidade social já foi estudado (Mesquita, 2003; Faustino, 2007). Por um lado, e ao longo dos anos, as empresas mediáticas (e jornalísticas) envolvem-se em crescente complexidade, passando de empresas individuais ou familiares (os primeiros jornais) a grandes conglomerados (empresas de televisão e outros media, com concentração de propriedade). Por outro lado, acresce-se a esta complexidade as lógicas de grandes territórios que ultrapassam a dimensão de um país (caso da União Europeia), implicando transposição de normas e liberdade de circulação de pessoas e bens. O que conduz à criação de organismos internacionais e a uma permanente regulação (Cádima, 2007: 36-38; Mesquita, 2003) e à busca de consenso quanto a pluralismo, liberdade editorial e direitos individuais de criação e expressão. No território mais específico do jornalismo, a ética e a deontologia são elementos aferidores de responsabilidade social (Pina, 2007: 45). Sara Pina (2007: 49) defende que a teoria da responsabilidade social da imprensa procura a defesa e promoção do interesse público e o aumento do nível de credibilidade dos jornalistas. É o compromisso social do jornalista ou defesa de padrões mínimos, na perspectiva de Mário Mesquita (2003: 269), que historia a origem do compromisso no personalismo cristão. Mesquita reorienta o conceito para a luta dos jornalistas contra a tirania, a violência e o racismo, e defende uma maior latitude do termo responsabilidade, dada a associação à ideia de missão do jornalista no espaço público. É também esse o sentido da Declaração da UNESCO para os Media, no seu princípio III, em que a informação é entendida como bem social e não como mercadoria, significando que o jornalista partilha a responsabilidade da informação transmitida e actua sempre de acordo com a sua própria consciência ética (Cornu, 1994: 481-482).

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